Arquivo mensais:abril 2011

DNA circense

Espetáculo está em cartaz no teatro Ópera de Arame

DNA somos todos muito iguais é o espetáculo da mostra principal do Festival de Curitiba com o maior número de apresentações. Elas começaram no dia 31 e vão até 10 de abril, último dia da programação do festival. No lindo Teatro Ópera de Arame, as menções à empresa patrocinadora da empreitada vão desde a entrada até uma projeção numa pedreira que tem uma queda d´água que dá ainda mais charme ao local.

Precisava mesmo de investimento. Só a equipe do espetáculo tem 35 pessoas, sendo que 18 estão no palco. E o grupo ainda usa projeções, equipamentos para acrobacias e elementos cenográficos. É uma mistura de circo, dança, teatro. Da brincadeira do palhaço à exaustão dos artistas fazendo milhões de piruetas. O espetáculo é fruto de uma parceria entre as companhias Parlapatões e Pia Fraus.

O próprio nome do espetáculo já conta a sua história. Mostrar que somos mesmo muito iguais; que viemos de uma mesma raiz; que homens e animais têm semelhanças e devem se respeitar; que as diferenças físicas são nada diante de um mesmo DNA; e que a ciência está avançando. Tinham números, por exemplos, com cadeiras de rodas ou muletas; ou contorcionistas exibindo suas capacidades em filamentos de cromossomos gigantes.

Espetáculo é fruto de parceria entre a Pia Fraus e Parlapatões

Um espetáculo que traz belas imagens, embora alguns elementos soem desnecessários. Como um homem vestido de (ao que me parece) enfermeira, que, do nada, começa a sambar. Outra questão é como esses diversos quadros se sucedem, como num circo. Mas não necessariamente o público consegue fazer todas as ligações. Entender porque aqueles signos estão ali naquele momento. Quem é aquele outro personagem? Na plateia, a maioria era de adultos, mas as crianças também se divertiram muito.

Acrobacias e contorcionismos

Da terrinha – O pernambucano Ronaldo Aguiar, 34 anos, se dedica ao teatro há 13 anos e, há 10, mais especificamente à linguagem circense. É um ator, bailarino, artista de circo completo. Fez sua formação em dança na companhia Studio de Danças e no Grupo Experimental; começou no circo na Escola Pernambucana de Circo (fez, por exemplo, o espetáculo O vendedor de caranguejo); e, para aprimorar o teatro, integrava o elenco dos Doutores da Alegria no Recife (a última peça com o grupo foi Poemas esparadrápicos).

O palhaço Inadequado

Há três anos, ele deixou a capital pernambucana. Passou pelos Estados Unidos e pelo Rio de Janeiro, até se fixar em São Paulo. “Fiz um teste para o Circo Roda, que mistura todas as linguagens com as quais trabalho. Só não sabia que meu primeiro papel na companhia seria tão legal”, contou Aguiar depois do espetáculo DNA somos todos muitos iguais.

O personagem à que se referia o pernambucano é o palhaço Inadequado, que “costura” todo o enredo de DNA…. “A tentativa dele é buscar uma forma de ajudar uma “anja” a voltar a voar”, explica. O fato é que ele interage com a platéia, brinca, arranca risadas e ainda dança.

Ronaldo Aguiar brilha no Festival de Curitiba

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Segunda parte da trilogia Som & Fúria

Foto: Ivana Moura

Trilhas Sonoras de Amor Perdidas, de Felipe Hirsch, é a segunda parte da trilogia Som & Fúria, iniciada com A Vida é Cheia de Som e Fúria, em 2000.

A vida é cheia de som e fúria foi apresentada no Fringe, a mostra paralela do festival de Curitiba daquele ano. Faz 11 anos. O espetáculo lotou todos os dias e virou um dos grandes fenômenos recentes do teatro brasileiro. A grande jogada de A vida é cheia… foi justamente atrair ao teatro gente que nem pensava em passar pela porta. Lembro que, na temporada no Recife, muitas daquelas pessoas que diziam “Vá ao teatro, mas não me chame”, estavam lá batalhando um ingresso. Eram os fãs dos setlist que ficou muito na moda por um tempo e nunca saiu de cena por completo.

A vida é cheia de som e fúria é inspirada no livro Alta Fidelidade, do escritor britânico Nick Hornby e conta a história de um dono de uma loja de discos viciado em listas. Sua relação íntima e individual com a música projetava uma avalanche de emoções juvenis nesse público sedento por uma energia de show de rock na sala de teatro. Deu certo.

A carreira de Hirsch, do ator Guilherme Weber e da Sutil Cia. foram alavancadas.

Em Trilhas Sonoras de Amor Perdidas Guilherme Weber interpreta o jornalista e radialista que coleciona mixtapes e suas histórias de amor. E, para isso, utiliza algumas referências recentes da vida cultural de Curitiba, como a lendária rádio curitibana Estação Primeira. A atriz Natália Lage faz Soninho e a peça também conta com as participações de Maureen Miranda e Luiza Mariani.

O diretor Felipe Hirsch afirmou que a peça não é uma sequência de A vida é cheia… Ele garantiu, em entrevista ao jornal Gazeta do Povo, que Trilhas Sonoras de Amor Perdidas não é um Som e Fúria 2:

“Isso não existe e eu deixei claro desde o começo. Em nenhum momento a história continua, não é o mesmo personagem, mas é um espetáculo sobre música… e relações amorosas. Tem uma questão central que, ao mesmo tempo, é bem abrangente; são as mixtapes (fitas caseiras com várias músicas de artistas diferentes). Material meu coletado por dez anos que me interessou desde sempre. Li um texto muito bonito sobre isso do Thurston Moore [guitarrista da banda Sonic Youth] e, a partir desse livro, dos relatos que ele coleciona lá, eu comecei a coletar esse tipo de material. Milhares de fitas minhas e de amigos… com suas histórias. A peça é uma mixtape. Uma grande colagem, e como esse processo é feito manualmente, foi uma adaptação dramatúrgica bem difícil.”

Trilhas Sonoras de Amor Perdidas abre com a música Rag and Bone, de The White Stripes. Apenas o palco iluminado e quatro minutos da música, em que Meg e Jack encontram um lugar que é feito uma mansão de sucata. E para cada objeto eles ficam imaginando um destino. Essa música foi gravada no álbum Icky Thump, de 2007.

O roteiro utiliza as passagens musicais para contar essa história de protagonista com Soninho, entre os anos 1980 e 1990 quando ela morre abruptamente de embolia pulmonar, jovem, muito jovem, aos 23 anos de idade.

Soninho deixa protagonista viúvo

Há excesso de trechos de músicas. É uma longa viagem pela geração das mixtapes. O narrador protagonista empreende um mergulho nostálgico de luto e reparação quando começa a abrir aquelas caixas para contar do amor e da convivência com Soninho, que durou de 1989 a 1994, quando ela morreu.

A memória musical do protagonista, e de Felipe Hirsch, está repleta da sonoridade de Velvet Underground, Lou Reed, Husker Du, Cure, The Smiths, Lloyd Cole, Sonic Youth, T-Rex, Gladys Knight , Jesus & Mary Chain, , The Replacements, Pretenders. E referências literárias do poeta, romancista e cantor Leonard Cohen e literárias como J.D. Salinger e Arthur Rimbaud.

A peça que se passa em Curitiba e São Paulo, depois que o protagonista fica viúvo e chega à conclusão que tem que seguir em frente, com outras músicas, mesmo que sua alma vibre na memória das músicas do passado. O texto é cheio de frases de efeitos e umas ideias bem humoradas, beirando o surto de ideias juvenis, como a que afirma que o Desintegration, do The Cure, foi determinante para a queda do Muro de Berlim, por exemplo.

Rodrigo, minha ideia era responder seu comentário. Terminei escrevendo outro post.

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Vida loka

Fotos: Ivana Moura

A minha mãe teria saído na metade do espetáculo. Provavelmente, me faria milhões de questionamentos sobre como eu posso gostar de uma coisa dessas! Que isso não é espetáculo! Que não entendeu nada! Não posso criticar a minha mãe…já coloquei a “tadinha” em algumas roubadas por conta do experimentalismo… do grupo jovem, que está se esforçando e tentando fazer algo inovador. E lá vai ela me acompanhar…

Bom, à primeira vista, o espetáculo Namorados da Catedral Bêbada, em cartaz no Teatro HSBC, aqui em Curitiba, dentro da mostra intitulada Conexão Roosevelt, é assim. Não tem pé nem cabeça.

Bárbara Bêbada vive numa casa-adega; é apaixonada por D. Diogo, que satisfaz seus desejos sexuais com a vedete Sandra-Spotlight e também com um garoto de ar inocente, que engravida e é enjaulado. Bárbara, que não é besta, cobra ingresso para quem quiser ver a atração: dois mil dólares ou quarenta reais. Tem também um garoto-segurança metido a fortinho que ela tirou da Febem e abrigou, e protege a casa do Porcão, que já transou com Bêbada e aproveitou para assaltá-la. Ah..e o Gato-Bruxo..que faz uma porção mágica para matar a vedete Sandra, de meia-arrastão e pernas sempre abertas, a pedido de Bárbara, morta de ciúmes de D. Diogo. Ui… muita coisa, né?

Bárbara Bêbada e Dom Diogo

Mas não é completamente assim… cheio de referências, histórias truncadas e imagens que se sobrepõem a cada minuto o mundo em que vivemos? Eu mesma era só angústia sempre que entrava numa biblioteca e percebia que nunca conseguiria dar conta. Ou quando quero ver todos os filmes em cartaz. Ou os programas da televisão que os meus amigos comentam no jornal no outro dia. É nesta sociedade que a peça está inserida. Bárbara tinha que beber mesmo.

Afora a violência que salta aos olhos em cada cena do espetáculo. Essa também está impregnada no nosso cotidiano. Hoje mesmo, depois de assistirmos bravamente (ou não!) a três horas do espetáculo Trilhas sonoras de amor perdidas, fomos jantar. Fizemos metade do caminho de volta caminhando..mas depois ficamos com medo. Quem seriam aqueles garotos mais ali à frente? Não conhecíamos “as bocadas” da cidade…bom, se fosse no Recife, contamos com ar de brincadeira, não teríamos nos atrevido nem a andar um quarteirão às 2h30 da manhã.

Enfim..Namorados da Catedral Bêbada é sobre tudo isso. Sobre os Serginhos dos BBB´s, as putas dos shows de calouros, o garanhão gostoso que pega todas. Ah..a peça é do Núcleo de Atores Francisco Carlos, que assina a dramaturgia e direção. No elenco, André Engracia, Majeca Angelucci, Ondina Clais, Eros Valério, Kiko Pissolato, José Trassi e Bernardo Machado. Hoje, domingo, tem mais uma sessão, às 21h.

Muito inocente

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A vida segue, com ou sem música pop

Guilherme Weber e Natália Lage estão no elenco

A vida sempre continua. Mesmo depois de chorarmos os nossos mortos, de passarmos dias e meses curando o luto, ou remoendo os tempos vividos de comunhão. É o que martela no final de três horas de duração a peça Trilhas sonoras de amor perdidas. Dirigida pelo Felipe Hirsch e com Guilherme Weber e Natália Lage no elenco, a montagem teve pré-estreia nacional ontem, no Teatro Bom Jesus, dentro da programação do Festival de Teatro de Curitiba. Como entrega o título, o espetáculo é uma junção de músicas e relacionamentos amorosos. São quase 90 canções, que repassam boa parte da história da música pop.

O protagonista exibe uma cultura pop invejável, no seu passeio nostálgico em busca de um acerto de contas com o passado. E com a memória dessa mulher que amou, que conheceu ouvindo Velvet Undergroud e com quem compartilhou a paixão por várias bandas.

Guilherme Weber é um apaixonado por música pop

O release diz que Trilhas sonoras de amor perdidas é uma criação da Sutil Companhia sobre as histórias de Thurston Moore, Kim Gordon, Lee Ranaldo, Steve Shelley, Dean Wareham, Dan Graham, John Zorn, Jim O’Rourke, Elizabeth Peyton, Arthur Jones, Jason Bitner, Rob Sheffield, Raymond Pettitbon, Greil Marcus, David Shields, Lou Reed, Giles Smith, amigos próximos e outros diversos relatos. Enfim, alguém apaixonado por música pop. E haja paixão.

Natália Lage é Soninho

É a história do encontro entre dois jovens que se apaixonam. O diálogo deles é feito de música, suas conversas são sobre música e para cada momento tinha uma trilha sonora especial. Gravaram muitas fitas cassetes (os mais jovens não vão saber o que é isso) como necessidade de criar seu próprio repertório. Depois de cinco anos de casados, ela morre. Ele fica. E já com todos os avanços da tecnologia, os playlists, ele vai rememorando o tempo dividido com sua amada e desentocando as músicas que marcaram a trajetória juntos.

Como qualquer casal, eles brigam por bobagens. Ele exalta as qualidades da moça e seu amor por ela – que beira o brega, com música pop ou não.

Um apelo extra para o público da capital paranaense é que o herói dessa história revela locais especiais para eles, tendo com referência a Curitiba de um passado não tão remoto.
O Teatro Bom Jesus estava superlotado no início do espetáculo. Algumas pessoas foram embora no intervalo. Não se identificaram com a proposta ou acharam o espetáculo muito longo. Muitas pessoas se emocionaram de verdade. A peça foi ovacionada no final.

A direção é de Felipe Hirsch

A mim, a peça não tocou. Apesar de ser uma história triste e de eu sempre ficar tocada com as histórias tristes. Há uns diálogos inteligentes, cheios de humor, engraçados, alguns pedantes com tantas citações, mas podemos também interpretar e até agradecer como uma aula de pop. O cenário conduz o espectador para aquele ar melancólico do protagonista. A iluminação contribui com esfumaçados dos ambientes de rock ou para a tristeza da recordação.

Ah..o texto é de Ivana Moura!

Fotos: Ivana Moura

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Palavras delicadas

Meiga, sensível, emotiva e única em cada sessão. Sonhos para vestir, espetáculo escrito e interpretado pela atriz Sara Antunes, com direção de Vera Holtz, ancora-se nas palavras, no jogo da memória e na relação com a plateia da vez para costurar com suavidade o espetáculo que está em cartaz ainda hoje, no Teatro Paiol, dentro do Festival de Curitiba. O belo e envolvente cenário-instalação é assinado pela artista plástica Analu Prestes e a música de Daniel Valentini é tocada ao vivo.

A obra do mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, principalmente o livro O Nome do Pai foi inspiração das artistas. No monólogo em clima de conto de fadas, uma personagem feminina percorre os labirintos da memória e da linguagem enquanto o sono não vem. Mas Sonhos para vestir depende muito do diálogo ao vivo com o público. A personagem de Sara faz perguntas à plateia e, a partir das respostas, ela improvisa e cria novos caminhos.

No dia em que fui assistir Sonhos para vestir a atriz me pediu um verbo. Eu disse amar. E assim ela fez com outras pessoas, solicitando palavras e criando frases e situações. Ao curador do festival de Curitiba, Celso Curi, pediu um lugar especial. Ele falou Praga. As pessoas falaram o que fariam em Praga cada um dizendo uma palavra demandada. Da atriz e produtora Paula de Renor ela pegou o anel para falar do pai, da mãe, da infância e das fantasias dos tecidos suaves.

E entre tecidos fluidos, sua figura etérea passeou pelo palco e expos seu universo imaginário. E esse universo lúdico prossegue quando ela se lembra dos conselhos do pai. Quando chora e contagia a plateia com sua emoção. O público sai da peça com os olhos mareados. Sonhos para vestir é uma pequena joia de delicadeza.

Fotos: Ivana Moura

Sonhos Para Vestir, espetáculo apresentado no Teatro Paiol, em Curitiba

Em cena a atriz Sara Antunes

Direção de Vera Holtz

Montagem delicada

Ambiente de sonho

Atriz traça jogo de palavras com o espectador

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