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Partilhas de afeto

Silvinha Góes em Diário corporal . Foto de Daniela Nader

Silvinha Góes em Diário corporal . Foto: Daniela Nader

Estar vivo a cada dia é um novo milagre, contata Silvinha Góes, depois de muitas andanças em que pedaços seus ficaram pelos caminhos. Mas também o reencontro com seus antepassados, com as raízes indígenas da tribo Fulni-ô , abasteceu seu coração, fortificou as pernas para outras danças.

Seu corpo-história está marcado de fluxos de vida, entre dores profundas e necessárias, e alegrias abençoadas por toda a beleza concedida pelo universo.

Nesta segunda-feira a artista expõe sua esperança no encontro verdadeiro, humano, embalado por afetos de pessoas que insistem em acreditar que não é preciso ferir o outro para ser feliz.

A mostra Diário corporal – um caminho de retorno é encarado como uma possibilidade de troca, mais do que um espetáculo. É a pulsão Vital de Silvinha Goes que acolhemos, acalentamos, num movimento mútuo de alegria e gratidão pela existência.

Neste 12 de junho, às 19h, no Coletivo Lugar Comum (Rua Capitão Lima, 210 – Santo Amaro).

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Muitas peles ligam o eu ao universo

Espetáculo Segunda pele. Foto: Renata Pires/Divulgação

Espetáculo Segunda pele. Fotos: Renata Pires/Divulgação

Vestir e desnudar faz parte de uma experiência complexa e na recriação do espetáculo Segunda Pele, mais radical. Está povoada de significados. De descascar. Dos adornos que comunicam muito além das roupas – de prisões e liberdades, épocas e memórias. Do corpo como espaço expandido. Do toque e do que isso desperta. Texturas, alucinações, voos, raízes. Com sua arte, o Coletivo Lugar Comum provoca reflexão na cena que vai da superfície ao avesso. Esse agrupamento de diferentes linguagens (dança, teatro, música, artes visuais, performance e literatura) aposta na potência de transformação, deles próprios e de quem pode ser afetado, esteticamente, politicamente, culturalmente e artisticamente.

Segunda Pele está em cartaz aos sábados, domingos e segundas, até o dia 9 de maio, sempre às 19h, na Casa do Coletivo Lugar Comum, em Santo Amaro. Com duração de 70 minutos, a peça de dança performática explora uma dramaturgia cênica não linear e apresenta cenas simultâneas nos vários espaços, na tentativa de estimular uma percepção mais sensorial.

Esta temporada recebe o incentivo do Funcultura – Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura.

Montagem é do Coletivo Lugar Comum

Montagem é do Coletivo Lugar Comum

O universo artístico do pintor, arquiteto, ativista e idealista austríaco Friedensreich Hundertwasser (1928-2000) é a inspiração para o trabalho. Ele rejeitava as linhas retas, no que isso tem de mais conservador e os autoritarismos. Sua teoria das 5 peles aponta para uma nova concepção de mundo.

A epiderme é a área que fica mais próximo do eu interior, que carrega a nudez e a infância. Hundertwasser fabricava suas próprias roupas para combater os três males da segunda pele: uniformidade, simetria e tirania da moda. A terceira pele, a casa, deveria harmonia natureza e humanos. O arquiteto defendia que “Tudo o que se estende horizontalmente debaixo do céu pertence à natureza”.

A identidade para Hundertwasser (a quarta camada) se amplia para o ambiente social, da família, amigos, passando pelo bairro até o país. A quinta pele inclui a Humanidade (e campanhas contra o racismo e a favor da paz, contra a energia nuclear, a favor da utilização dos transportes públicos e do plantio de árvores) a ecologia.  A quinta pele estica até ao infinito.

A teoria das 5 peles de Friedensreich Hundertwasser é uma das inspirações

A teoria das 5 peles de Friedensreich Hundertwasser é uma das inspirações

A concepção e criação do espetáculo é da bailarina e pesquisadora Liana Gesteira, em conjunto com as bailarinas Renata Muniz, Maria Agrelli, Maria Clara Camarotti e Silvia Goes. Na primeira versão do espetáculo, as bailarinas trabalharam mais  a vestimenta, a segunda pele. Nesta remontagem é feita uma conexão com todas as peles.

A temporada é dedicada à costureira Xuxu, que participou do grupo desde a criação do espetáculo, em 2012.  Nos dias 30 de abril e 1º de maio, as apresentações de Segunda Pele contarão com audiodescrição e intérprete de Libras, seguidas de bate-papo entre artistas e público.

Serviço
Temporada do espetáculo Segunda Pele
Quando: Sábados, domingos e segundas, às 19h até o dia 9 de maio
Onde: Casa do Coletivo Lugar Comum (Rua Capitão Lima, 210)
Quanto: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)
Mais informações: (81) 9 9229 5620

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Encontro com Hilda Hilst

Fabiana Pirro estreou primeiro monólogo. Foto: Renata Pires

Fabiana Pirro estreou primeiro monólogo. Foto: Renata Pires

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A peça teatral contraria o seu próprio título e é pouco pornofônica, lasciva, desbocada, devassa, libidinosa, indecente, despudorada, escandalosa. Outro jeito de ser Hilda Hilst. A obra da criadora paulista é rica e ampla, escapa de rótulos. Seus textos estão além, porque ela é múltipla. É certo que a fase mais popular de escritura de Hilda é de conteúdo deliberadamente erótico e pornográfico. Mas a encenação cria deslocamentos e lembra que a palavra “Obscena” também remete para aquilo que está fora da cena.

O espetáculo agrega trechos dos escritos e de entrevistas de Hilst, rasgos de memória e dos estudos da atriz Fabiana Pirro e de Luciana Lyra (atriz, diretora e dramaturga pernambucana radicada em São Paulo, que assina a dramaturgia e encenação) para criar sua poética cênica.

Os questionamentos íntimos da intérprete vão buscar ressonância na elaboração criativa da escritora, que articula um eixo propagador de invenção no teatro – e através do teatro. É assim que a relação com os homens de sua vida, principalmente o pai, passa por ajustamento ficcional e friccional da composição de personagens de teatro, que estabelecem diálogos e buscam respostas.

Na cena, as complexas relações com Deus, com o pai, com a natureza, com os animais são apresentadas em camadas. A personagem Líria, uma mulher de mais de 40 anos, investiga desejos e lacunas; revezando com a figura da própria Fabiana, que dá espaço para a voz narrativa da atriz em solilóquio ou em diálogos com interlocutores fictícios.

A representação de uma árvore assume as forças divinas e da natureza, de extrema importância para o desenvolvimento da encenação, seja como cenografia ou elemento articulador do discurso.

No espetáculo, Fabiana Pirro vive Líria

No espetáculo, Fabiana Pirro vive Líria

Obscena é o primeiro solo de Fabiana Pirro e costura sentimentos. É um espetáculo de desenho bonito no palco, palavras fortes. A montagem apresenta uma intérprete que se jogou de cabeça nesse projeto. Que faz reluzir desejos, vindos da experiência. Que cresceu como atriz. A montagem deve amadurecer. Mas já nasceu bonita.

A expressividade da atriz ainda pede uma modulação mais definida do seu repertório vocal que, em muitos momentos, está impregnada das vozes de espetáculos anteriores. Não vejo acréscimo nos breves momentos de nudez e isso me fez lembrar um show de Gal Costa dirigido por Gerald Thomas, em que a cantora aparecia de peitos à mostra.

As sutilezas também podem ser intensificadas com uma possível temporada e o azeitamento do espetáculo. A poesia inundou a equipe de criação, mas a emoção, a intensidade, o que arde de misto de loucura e invenção, amor e desejo são comportas que não foram liberadas totalmente para atingir o público nas duas sessões.

Obscena foi apresentada no Teatro Marco Camarotti, como parte da programação do Janeiro de Grandes Espetáculos.

Montagem tem direção e dramaturgia de Luciana Lyra

Montagem tem direção e dramaturgia de Luciana Lyra

Ficha técnica:

Idealização do projeto e atriz-criadora – Fabiana Pirro
Dramaturgia, encenação e direção – Luciana Lyra
Trilha sonora – Ricardo Brazileiro
Preparação corporal – Silvia Góes
Direção de arte – Nara Menezes
Design de luz – Agrinez Melo
Operação de luz – Leo Ferrario
Figurino – Virgínia Falcão
Colaboração artística – Conrado Falbo
Produção – Fabiana Pirro e Lorena Nanes
Filmografia – Ernesto Filho e Renata Pires
Design gráfico – Tito França
Fotos – Renata Pires
Realização – Duas Companhias, Unaluna e Coletivo Lugar Comum

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# Curtinhas

Aquilo que meu olhar guardou para você. Foto: Ivana Moura

# O Magiluth está terminando uma temporada curtinha de Aquilo que meu olhar guardou pra você neste fim de semana. As apresentações são hoje (9) e amanhã (10) no Teatro Arraial, às 20h. Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada). Leia aqui a última crítica que escrevemos sobre o espetáculo.

# A IV Turma de Iniciação Teatral da Cênicas Cia de Repertório apresenta o seu trabalho de conclusão neste domingo (11), às 20h, no Teatro Barreto Júnior. Eles encenam A Incrível Confeitaria do Sr Pellica, texto de Pedro Brício, com direção de Antônio Rodrigues e assistência de Sônia Carvalho. Na montagem, o proprietário de uma confeitaria do século XVIII, a família dele, os criados e amigos pensam numa maneira de salvar o negócio. É uma comédia com arquétipos da sociedade burguesa decadente e um final que promete surpreender. No elenco estão Bárbara Brendel, Cláudia Shinoby, Dani Medeiros, Diego Nascimento, Douglas Dantas Jajá Rodrigues, Jandson Miranda, Lídia Lins, Manoel Francisco, Nice Lima e Pollyanna Cabral. Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada).

A incrível confeitaria do Sr Pellica . Foto:Toni Rodrigues

# Com direção de Adriana Madasil e texto de Caio Andrade, o grupo Repertório de Teatro apresenta hoje (9) e amanhã (10), às 20h, o espetáculo Quadro em branco. Será no Teatro Capiba, no Sesc Casa Amarela. A peça retrata as lembranças de Flora, estudante de artes plásticas e filha de militar, que viveu a juventude em plena ditadura, no auge dos movimentos contracultura e da defesa da liberdade de expressão. Juntamente com mais cinco amigos, Flora revive esses momentos de sensibilidade, emoção e tragédia. Ingressos: R$ 10.

Cegonhas e rodovalhos

# Samuel Bennaton apresenta o seu primeiro projeto solo no Teatro Joaquim Cardozo, no Centro Cultural Benfica. Cegonhas e rodovalhos fala sobre um pai que se mantém vivo, personificando as intempéries da vida que acabaram por deixá-lo sozinho e isolado. A obra surgiu a partir do poema homônimo de Machado de Assis. A assistência de sireção é de Samir Benjamim, a assistência de produção de Weldjane Mary e a concepção de iluminação de Natalie Revorêdo, Luiz Gutemberg e César Jeansen. Toda sexta-feira, às 20h, até 14 de dezembro. Ingressos: R$ 7 (preço de meia-entrada para todos).

# O Coletivo Lugar Comum estreou espetáculo semana passada, na Casa Mecane (Av. Visconde de Suassuna, 338, Boa Vista). Segunda pele surgiu do estudo do figurino, que se desmembrou em muitos questionamentos sobre aquilo que usamos sobre o corpo, o que nos adorna ou o que vestimos; informações culturais, sociais, políticas, as reivindicações, prisões e liberdades, a identidade de um povo, de uma época ou de um homem, de uma criança, de uma mulher. O espetáculo é das bailarinas Liana Gesteira, Maria Agrelli e Renata Muniz. Fica em cartaz sextas, sábados e domingos de novembro, sempre às 20h. Ingressos: R$ 15 e R$ 7 (meia-entrada).

Segunda pele. Foto: Ju Brainer

# Semana passada também foi inaugurado um espaço novo – o Sobrado das Artes, na Travessa Tiradentes, no Recife Antigo. Afar, da Sete&Oito Companhia de Dança, está em cartaz lá até o dia 25, com sessões sábados, às 20h, e domingos, às 19h. O trabalho é fruto da pesquisa dos bailarinos e arte-educadores Carlla Amaral e Cleisson Barros, que viram no barro um canal ideal para expressar as dúvidas, anseios e conflitos causados pela fome de criação do homem. Ingressos: R$ 10.

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Teatro nos quatro cantos do país

Na última semana estive em Florianópolis, Santa Catarina, para o lançamento nacional do Palco Giratório. É o maior circuito de artes cênicas do país. Não duvide do adjetivo. Aqui, o ´maior` tem razão de ser. Ou você já teve notícias de algum festival que percorra todos os estados brasileiros, incluindo o Distrito Federal, passando por 114 cidades, com 728 apresentações no total? Pois é. Esse é o Palco Giratório, promovido pelo Sesc, neste ano na 14ª edição.

Em Pernambuco, as apresentações começam no mês de abril. O espetáculo catarinense do grupo Persona cia. de Teatro & Teatro em Trâmite, chamado A galinha degolada, vai circular por cinco cidades do interior: Garanhuns, Caruaru, Arcoverde, Triunfo e Petrolina. No mês seguinte, é a vez do Festival Palco Giratório tomar conta da capital pernambucana, com espetáculos que compõem a grade nacional de circulação, outros grupos convidados e ainda companhias locais. Outras quatro cidades ainda vão receber encenações do projeto ao longo do ano.

Galinha Degolada, da Persona cia. de Teatro & Teatro em Trâmite (SC)

Escolher os 16 grupos que vão se apresentar por todo o país, com 37 espetáculos, e montar a logística do circuito são os principais desafios. Cerca de 80 montagens disputaram a seleção este ano. “As coordenações regionais, que participam da escolha, têm autonomia para fazer sugestões de espetáculos, que são copiados em DVDs para todos os participantes. Quem é do estado do grupo e está fazendo a indicação tem que ter visto o espetáculo ao vivo. Depois, durante dez dias, temos um encontro para discutir quais serão os grupos”, explicou Raphael Vianna, técnico de teatro que faz parte da coordenação nacional do projeto.

Galiana Brasil, representante pernambucana no grupo de curadores, diz que existe uma verdadeira ´defesa` dos espetáculos. “O curador tem que conhecer a cena do seu estado porque a escolha é feita através de indicações. Não há, por exemplo, um edital, com requisitos a serem cumpridos”.

O fato é que a seleção possibilita um amplo panorama do que está sendo produzido em artes cênicas em todas as regiões do país. Este ano, algumas particularidades ou, quem sabe, tendências, puderam ser elencadas. “Percebemos, por exemplo, o fim da era dos monólogos e o teatro de grupo aparecendo com muita força”, explica Galiana. Além disso, cada vez mais espetáculos de dança participam da seleção (o pernambucano Leve, do coletivo Lugar Comum, foi um dos contemplados pelo projeto e há ainda espetáculos de dança do Ceará e de Manaus) e houve dificuldade para selecionar espetáculos de teatro de rua.

O mundo tá virado, do Imbuaça (SE)

Um dos escolhidos nesta área foi o grupo Imbuaça, de Sergipe, que não vai ao Recife há cerca de dez anos. “Nós devemos circular por 15 estados e fazer 70 apresentações. Que outro projeto nos permite isso? Uma programação anual de espetáculos?”, questionou Lindolfo Amaral, do Imbuaça. O grupo, aliás, esteve na 1ª edição do Palco Giratório, em 1998, com o espetáculo A barca do inferno, sob direção de João Marcelino. À época, fizeram apresentações somente em Pernambuco. Neste ano, o grupo completa 34 de carreira.

“É mais que um prêmio. É a oportunidade de ficar um ano inteiro apresentando um espetáculo, o que normalmente é muito difícil conseguir”, explicou a atriz Pagu Leal, do grupo curitibano Delírio, que no Recife deve apresentar o espetáculo Evangelho segundo São Mateus, a história de um filho e seu retorno hipotético à casa dos pais.

Evangelho segundo São Mateus, do grupo Delírio (PR)

“É um processo de troca rico para o próprio trabalho, porque você tem que repensar a obra por conta do olhar das outras pessoas, das dúvidas e questões que vão surgindo”, explicou Vinícius Arneiro, diretor do espetáculo Rebú, do grupo Teatro Independente, do Rio, que abriu a programação de itinerância em Florianópolis. Em São Miguel do Oeste, o espetáculo apresentado foi Frankenstein, da Cia. Polichinelo, de São Paulo.

Frankenstein, da Cia. Polichinelo (SP)

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