Arquivo da tag: Telma Melo

Um abolicionista em julgamento
na peça Joaquim Nabuco
Do Cativeiro à Consciência

Coletivo Grão Comum estreia no Recife um espetáculo que tira Joaquim Nabuco do pedestal e o devolve ao centro do debate sobre racismo, privilégio e memória nacional. Foto: Cristiano Freitas dos Santos / Divulgação

O Brasil fez de Joaquim Nabuco o rosto do abolicionismo e seguiu sem perguntar o que isso implicava. O Coletivo Grão Comum leva a questão ao palco nesta terça-feira (29), às 19h, quando estreia Joaquim Nabuco – Do Cativeiro à Consciência, no Teatro Hermilo Borba Filho, no Recife. Com roteiro e direção de Jr. Aguiar, a peça cruza metateatro e drama histórico para revisitar a trajetória do abolicionista pernambucano, e o faz com uma premissa que já anuncia o tamanho da aposta. Em vez de repetir o retrato edulcorado consagrado pela escola e pelo calendário oficial, o espetáculo escolhe tensionar as contradições de um homem que lutou contra a escravidão e, ao mesmo tempo, encarnou os limites de uma elite que extinguiu o cativeiro sem extinguir a ordem que o sustentava.

Poucas figuras da história brasileira carregam contradições tão expostas quanto Joaquim Nabuco. Nascido no Recife em 1849 e morto em Washington em 1910, ele foi o autor de O Abolicionismo (1883), texto fundador da campanha pela extinção imediata da escravidão, e o principal nome político da causa nos últimos anos do Império. O mesmo homem, porém, era um monarquista convicto e um reformista que, como a maioria dos abolicionistas da elite, apostava na negociação entre as classes dirigentes e que temia o levante dos escravizados (que ele registrou no próprio O Abolicionismo); e um defensor de uma transição conduzida de cima para baixo. Depois de 1888, aceitou a República com ressentimento, trocou a política interna pela diplomacia e terminou a vida em Washington, como primeiro diretor da União Pan-Americana, a primeira organização diplomática permanente das Américas, embrião da atual OEA.

Essa trajetória rendeu a Nabuco um assento garantido no panteão nacional. Avenidas, escolas e institutos levam seu nome, e a narrativa dominante o transforma no rosto generoso da abolição. A historiografia das últimas décadas desmontou boa parte dessa tranquilidade. Angela Alonso, em Joaquim Nabuco, os salões e as ruas (2007), reconstrói os dilemas de um reformista que oscilou entre a devoção à sociedade aristocrática e o empenho em reformar o Império e acompanha o autor de Minha Formação (1900) até suas tensões com a República. A mesma autora, em Flores, votos e balas (2015), reconstitui o abolicionismo como o primeiro movimento social nacional do país, uma rede ampla de ativistas e associações que teve entre seus protagonistas Luís Gama e José do Patrocínio, e questionando o consenso que a memória oficial sugere.

Eduardo Silva, em As camélias do Leblon e a abolição da escravatura (2003), recupera a atuação dos próprios negros livres e libertos na campanha abolicionista, atores que a narrativa consagrada apagou. Para o autor, o abolicionismo de Nabuco foi um abolicionismo de elite, conduzido sem os escravizados e quase sem os libertos, desconfiado da agitação social e comprometido com a preservação da ordem. A Lei Áurea, assinada em maio de 1888 sem qualquer política de reparação, integração ou acesso à terra, libertou corpos e abandonou vidas. A queima de documentos da escravidão ordenada por Rui Barbosa em 1890, logo no início da República, selou o apagamento da memória que o país ainda tenta reconstruir.

Jr. Aguiar e Paulo César Freire interpretam Joaquim Nabuco. Foto: Cristiano Freitas dos Santos / Divulgação

O espetáculo do Grão Comum chega em um momento em que essa discussão está acesa no debate público. A ideia de uma abolição inacabada, consolidada por historiadoras e historiadores como Hebe Mattos, Lilia Schwarcz, Flávio Gomes e Sidney Chalhoub, hoje estrutura a leitura do racismo brasileiro. Florestan Fernandes já apontava, nos anos 1960, em A integração do negro na sociedade de classes (1965), que o mito da democracia racial funcionava como cortina para a exclusão real da população negra. Gilberto Freyre havia oferecido, em Casa-Grande & Senzala (1933), a versão harmoniosa dessa história, aquela que transformou a escravidão em convivência cordial entre senhores e escravizados.

As questões que a montagem promete levantar dialogam diretamente com as frentes em disputa no presente. O racismo estrutural, conceito que atravessa o pensamento social brasileiro de Florestan Fernandes e Octavio Ianni a Clóvis Moura, Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, e que ganhou formulação contemporânea em O racismo estrutural (2018), de Silvio Almeida, é anunciado pela produção como cativeiro que nenhuma lei abole, expressão do próprio diretor. O debate sobre reparação, as políticas de cotas que completaram uma década em 2022 e seguem em avaliação, a obrigatoriedade do ensino de história afro-brasileira estabelecida pela Lei 10.639 de 2003 e a pressão por reexame de estátuas e nomes de ruas, intensificada após o assassinato de George Floyd em 2020, compõem o pano de fundo contra o qual a peça ganha potência. Questionar Nabuco, nesse contexto, equivale a questionar a própria forma como o país escolheu contar sua libertação.

A escolha do metateatro dá forma a esse questionamento. A linhagem do teatro documental é longa. Erwin Piscator levou arquivos, filmes e depoimentos ao palco na Alemanha dos anos 1920. Peter Weiss, nas Notas sobre o teatro documentário (1968), definiu o gênero como aquele que usa o material verificável para revelar as causas por trás dos fatos, e não os fatos em si. Nos Estados Unidos, a tradição do teatro verbatim, de Anna Deavere Smith a The Laramie Project (2000), de Moisés Kaufman, transformou depoimentos reais em dramaturgia. O dossiê Teatros do Real, publicado pela revista Sala Preta da USP em 2013, consolidou no Brasil o debate sobre uma cena contemporânea que usa o real para interrogar quem teve o direito de contar a história. A montagem do Grão Comum se insere nesse território com uma diferença decisiva. Em vez de citar documentos, ela encena a própria disputa pela memória, e devolve ao espectador a responsabilidade sobre o que vê.

O segundo ato transforma o palco em tribunal, e o faz com um caso real e vastamente documentado. Tomás, escravizado que morava em Olinda, foi preso e torturado durante dias pelo subdelegado da cidade, como exemplo para os demais negros escravizados. Nos autos da época, Tomás matou o subdelegado, foi preso no Recife e, ao tentar fugir, matou quem tentou impedir a fuga. O jovem advogado Joaquim Nabuco, recém-formado e vindo da elite, assumiu a defesa. O julgamento colocou a escravidão no banco dos réus, porque um homem humilhado, torturado e retirado de todos os princípios foi considerado inocente do crime que cometeu. A peça recupera o episódio na cena da defesa, e o escravizado Tomás é vivido por Jefferson Embuá, que no primeiro ato interpreta o policial contemporâneo.

O julgamento ganha um segundo movimento, e este vem da lei do presente. O Senhor Azevedo, deputado conservador e filho de engenhos, personagem ficcional vivido por Ricardo Andrade, confronta os dois Nabucos e é detido por injúria racial, crime que a legislação brasileira só definiu em 1989, com a Lei Caó. De onde ele fala, e o que a plateia descobre nesse momento, faz parte das surpresas do espetáculo. O suficiente é dizer que a peça recusa a todos a posição de observador inocente.

Eron Vilar interpreta Machado de Assis. Foto: Cristiano Freitas dos Santos / Divulgação

Em cena, Nabuco divide o palco com Machado de Assis e com Eufrásia Teixeira Leite, herdeira de uma família de barões do café de Vassouras que hospedou e educou o jovem Nabuco entre 1863 e 1865, e que a peça apresenta como o grande amor da vida dele. O roteiro dá a Eufrásia monólogo próprio, e o romance real entre os dois, documentado em cartas, vira matéria dramática na cena intitulada A Carta Que Não Foi Enviada. 

A presença de Machado de Assis na cena merece atenção. Neto de mulheres libertas e homem negro que conquistou as letras, o escritor construiu a carreira dentro da elite branca do Império e criticou a escravidão de forma oblíqua, nas entrelinhas de uma obra que a crítica demorou décadas a ler nesse registro, como demonstra Sidney Chalhoub em Machado de Assis historiador (2003). Na cena Sonhos de Imortalidade, Nabuco e Machado sonham juntos em criar a Academia Brasileira de Letras. Colocá-los lado a lado produz uma fricção. O país celebra os dois como ícones nacionais e, no mesmo movimento, apaga a condição racial e de classe que moldou suas trajetórias e seus limites. É esse choque que a montagem promete pôr em cena.

A Consciência Negra tem corpo próprio no palco. Felipe Baobá, ator e músico, interpreta a personagem que responde à tese de uma época, a de que os negros não tinham alma. “Somos seres humanos, temos espírito, temos direitos, cidadania, fazemos parte da história”, resume o diretor. É a voz que Eduardo Silva recuperou em As camélias do Leblon, a dos próprios negros na campanha abolicionista.

Joaquim Nabuco – Do Cativeiro à Consciência  tem idealização, o roteiro e a direção de Jr. Aguiar. Na Trilogia Vermelha, composta por h(EU)stória – o tempo em transe (2014), sobre Glauber Rocha, pa(Ideia) – Pedagogia da Libertação (2016), sobre Paulo Freire, e pro(FÉ)ta – O Bispo do Povo (2018), sobre Dom Helder Camara, Aguiar dividiu a assinatura com Márcio Fecher e Daniel Barros. A série, premiada no Janeiro de Grandes Espetáculos, é dedicada a revisitar a memória do país sob a ditadura.

A tradição de dividir o protagonista entre mais de um ator vem dessa série, e se repete aqui. Jr. Aguiar e Paulo César Freire interpretam Joaquim Nabuco ao mesmo tempo, porque a diretora da ficção não decide em qual dos dois focar, e porque Nabuco carrega ambivalências demais para caber em um só corpo. O diretor resume a pergunta que orienta esse percurso ao indagar qual país a nossa memória construiu e quem ficou de fora dele. Segundo ele, chegar a Nabuco depois de Glauber, Freire e Helder representa um caminho natural, porque o abolicionista obriga o público a encarar as contradições do próprio pensamento progressista brasileiro. A proposta, adverte, não consiste em julgar um homem do século XIX, e sim em provocar a plateia a decidir o que fazer com essa herança.

A escrita do roteiro marcou uma estreia técnica na carreira do diretor Júnior Aguiar. Pela primeira vez, ele usou inteligência artificial como assistente de dramaturgia. Escreveu a cena, levou o material para a sala de ensaio, voltou, aperfeiçoou, e o texto se desenhou nesse degradê de camadas sobrepostas entre a máquina e o ensaio.

“Ao longo da minha pesquisa, aprendi que existem cativeiros que nenhuma lei abole, como o racismo, o privilégio herdado e o silêncio diante da violência. Por isso, o espetáculo não termina quando a luz se apaga. Queremos que a plateia saia do teatro incomodada, mas também mais atenta, com a responsabilidade de se perguntar o que ainda a mantém presa e o que pode fazer para se libertar”, afirma o diretor, que acumula mais de duas décadas de carreira.

Jefferson Embuá faz o escravizado Tomás. Foto: Cristiano Freitas dos Santos / Divulgação

O elenco reúne Jr. Aguiar, Paulo César Freire, Ricardo Andrade, Jefferson Embuá, Eron Villar, Felipe Baobá e Telma Melo, e quase todos interpretam dois personagens, os atores do tempo contemporâneo e os personagens do espetáculo histórico. Eron Villar faz apenas Machado de Assis, e Felipe Baobá apenas a Consciência Negra. O figurino e a caracterização são de Telma Melo e Ely Araújo, o desenho de luz é assinado por Eron Villar e Jr. Aguiar, com operação de Mah Carvalho, e a operação de áudio fica a cargo de Moacir Lago, o Moa. A fotografia é de Cristiano Freitas dos Santos e a filmagem, de Giandson.

A realização é do Coletivo Grão Comum, com colaboração de Ricardo Nunes, Daniel Mendes, Roger Bravo, Arthur Canavarro, Márcio Fecher e Sebastião Simão Filho, além do Centro Apolo Hermilo e do Teatro Barreto Jr. A montagem não tem patrocínio nem financiamento público ou privado, e os dois teatros alugados foram custeados com recursos próprios do grupo.

A Consciência Negra encerra o espetáculo com uma proposta dirigida à memória nacional. A pergunta que ela entrega ecoa há mais de um século pelo Cais do Recife, região que viu desembarcar escravizados e viu festejar a abolição. O que significa celebrar libertadores quando a liberdade prometida nunca chegou inteira para a maioria dos libertados?

SERVIÇO

Estreia do espetáculo Joaquim Nabuco – Do Cativeiro à Consciência
Quando: Terça-feira (29), às 19h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho (Av. Cais do Apolo, 142, Bairro do Recife, Recife, PE)
Quanto: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada), à venda na Sympla,
Classificação indicativa: 16 anos
Mais informações: Instagram @joaquim.nabuco.espetaculo

FICHA TÉCNICA

Elenco
Jr. Aguiar, Paulo César Freire, Ricardo Andrade, Jefferson Embuá, Eron Villar, Felipe Baobá e Telma Melo
Idealização, roteiro e direção: Jr. Aguiar
Figurino e caracterização: Telma Melo e Ely Araújo
Desenho de luz: Eron Villar e Jr. Aguiar
Operação de luz: Mah Carvalho
Operação de áudio: Moacir Lago (Moa)
Fotografia: Cristiano Freitas dos Santos (@cristiano.authorial)
Filmagem: Giandson (@frowfilmes)
Parceiros e colaboradores: Ricardo Nunes, Daniel Mendes, Roger Bravo, Arthur Canavarro, Márcio Fecher, Sebastião Simão Filho, Centro Apolo Hermilo e Teatro Barreto Jr.
Realização: Coletivo Grão Comum

REFERÊNCIAS

Angela Alonso, Joaquim Nabuco, os salões e as ruas, coleção Perfis Brasileiros, Companhia das Letras, 2007
Angela Alonso, Flores, votos e balas, o movimento abolicionista brasileiro (1868-88), Companhia das Letras, 2015
Eduardo Silva, As camélias do Leblon e a abolição da escravatura, Companhia das Letras, 2003
Sidney Chalhoub, Machado de Assis historiador, Companhia das Letras, 2003
Sidney Chalhoub, Visões da liberdade, uma história das últimas décadas da escravidão na Corte, Companhia das Letras, 1990
Ana Lugão Rios e Hebe Mattos, Memórias do cativeiro, identidade e cidadania na pós-abolição, Civilização Brasileira, 2005
Lilia Moritz Schwarcz, O espetáculo das raças, Companhia das Letras, 1993
Florestan Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes, Dominus Editora e Edusp, 1965
Silvio Almeida, O que é racismo estrutural?, Editora Jandaíra, 2018, reeditado como O racismo estrutural pela Pólen em 2019
Sueli Carneiro, Escritos de uma vida, Editora Jandaíra, 2020
Dossiê Teatros do Real, memórias, autobiografias e documentos em cena, revista Sala Preta, volume 13, número 2, ECA-USP, 2013
Peter Weiss, Notas sobre o teatro documentário, ensaio publicado originalmente na revista alemã Theater heute, 1968 (tradução inglesa de Heinz Bernard, “The Material and the Models”, Theatre Quarterly, volume 1, número 1, 1971)
Augusto Boal, Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas, Civilização Brasileira, 1974
Joaquim Nabuco, O Abolicionismo, Londres, 1883 (edição Câmara dos Deputados e Academia Brasileira de Letras, 2019)
Joaquim Nabuco, Minha Formação, H. Garnier, Rio de Janeiro, 1900 (edição Senado Federal, 1998)

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , , ,