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Batendo Texto na Coxia entrega abaixo-assinado ao prefeito do Recife

Ato contra extinção do DRT de artista, foto na porta do Teatro de Santa Isabel

Ato contra extinção do DRT de artista, foto na porta do Teatro de Santa Isabel

uma das reuniões do BTC. Foto Roberto Ramos

Fazer teatro no Recife é uma luta permanente. Ora, direis, em qualquer lugar do Brasil. Pode ser. Mas no Recife tem algumas peculiaridades. Depois de duas gestões do PT (João Paulo Lima e Silva, 2001-2008) com conquistas relevantes para a área cultural, outra do PT (João da Costa, 2009-2012) bastante criticada, o PSB assumiu a prefeitura com Geraldo Júlio (2013-2020) implantando uma política cultural cada vez mais restritiva.

Começamos 2021 com mais uma administração do PSB, desta vez sob o comando do jovem João Campos, filho e herdeiro político de Eduardo Campos e que pertence ao mesmo partido do governador de Pernambuco, Paulo Câmara.

Há três anos foi criado no Recife o Movimento de Teatro Batendo Texto Na Coxia (em 6 de dezembro de 2017), que reúne atores, técnicos e produtores independentes com o intuito de fortalecer esse segmento cultural de Pernambuco. Esse grupo de atuação aberto já promoveu 30 encontros presenciais (suspensos em 2020 devido à pandemia do Coronavírus) para refletir sobre a potência artística na cidade e deliberar operações. O primeiro encontro presencial foi realizado na sede da Métron Produções por iniciativa do ator e produtor Paulo de Pontes e da atriz, diretora e produtora, Augusta Ferraz.

O trabalho do Batendo Texto na Coxia discute estratégias para ampliar o raio de atuação e ações que colaborem para melhorar a política cultural do Recife e de Pernambuco. O grupo reforçou o movimento da sociedade civil pela reabertura do Teatro do Parque, atuou contra a extinção da exigência do registro profissional dos artistas, se posicionou com uma Carta Aberta de repúdio contra a censura ao espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, de Renata Carvalho, no Festival de Inverno de Garanhuns, em julho de 2018.

Também apresentou uma carta aos candidatos ao cargo de governador de Pernambuco (2018), traçou ações de diálogo junto a Secult e Prefeitura. se insurgiu contra a censura velada, assinou juntamente com as entidades representativas uma nota de repúdio contra o cancelamento de apresentações do espetáculo Abrazo, do grupo Clowns de Shakespeare, pela Caixa Cultural Recife.

Nesta semana, o Batendo Texto na Coxia entrega ao prefeito João Campos um abaixo-assinado em que estão destacadas as principais preocupações e reivindicações do setor das artes cênicas do Recife. 

Abaixo o documento, na íntegra:

Link DIÁLOGO PELO RESGATE E INCREMENTO DO TEATRO RECIFENSE – PROPOSTAS AO PREFEITO DO RECIFE – MOVIMENTO DE TEATRO BATENDO TEXTO NA COXIA

https://peticaopublica.com.br/psign.aspx?pi=BR118006

Ofício nº 004/2020
Recife, 26 de dezembro de 2020.

Exmo. Sr.
João Henrique de Andrade Lima Campos
Prefeito da Cidade do Recife
NESTA

Excelentíssimo Senhor Prefeito,

O Movimento de Teatro Batendo Texto na Coxia é um coletivo de artistas, técnicos e produtores independentes, que vem trabalhando pelo resgate da credibilidade e incremento da cadeia produtiva do Teatro em Pernambuco. Considerado por décadas como o terceiro polo de produção teatral do Brasil, seus realizadores, testemunharam, ao longo dos anos, o setor teatral sendo desconstruído, e que se agravou durante a Pandemia da Covid 19. Agora, com a nova gestão, é inadiável a necessidade de resgatar o diálogo para garantir a intensidade e efervescência da cena recifense. Na oportunidade, registramos a urgência na construção de uma Política Cultural direcionada ao TEATRO. Propomos um protagonismo da Prefeitura da Cidade do Recife nessa ação.
A Pandemia da Covid 19, mostrou como os nossos artistas criadores vivem em situação vulnerável. É preciso mudar essa realidade! Somos muitos e não podemos deixar morrer uma arte milenar, uma das mais importantes formas de expressão que toca as pessoas, pois é ao VIVO! Temos que ter alternativas ao mundo tecnológico. O Teatro não pode ser esquecido e a sociedade precisa ter ofertas que possam estimular as pessoas a voltarem ou aprenderem a vivenciar as sensações e reflexões que a arte teatral propicia.

A partir do exposto e esperando que vossa excelência esteja comprometido com os artistas que trabalham no árido solo nordestino, apresentamos abaixo, propostas que poderão fazer um novo começo na cena da nossa Veneza Brasileira.

Propostas para a retomada do crescimento do Teatro Recifense

– Instituir por Lei Municipal, o Sistema Municipal de Cultura da Cidade do Recife, conforme determina o § 4° do Art. 216-A da Constituição Federal e assegurar o pleno funcionamento de todos os seus componentes;

– Promover uma política de fomento ao Teatro, por meio de editais específicos para o setor, e a consolidação do Sistema de Incentivo à Cultura (SIC), com a destinação de um percentual das receitas correntes do município para o Fundo de Incentivo à Cultura e o Mecenato de Incentivo à Cultura;

– Garantir um percentual das receitas correntes do município, por meio do Plano Plurianual (PPA) e da Lei Orçamentária Anual (LOA), para a pasta da cultura e suas políticas públicas, onde o fomento, formação e divulgação do Teatro estejam garantidos, onde o uso do recurso público seja acompanhado diretamente por representantes de entidades de classe e do Movimento de Teatro Batendo Texto Na Coxia;

– Desenvolver políticas de financiamento por meio da criação de edital específico para o Teatro, haja vista a grande demanda de realizadores do segmento que têm deixado de trabalhar devido à falta de incentivos e/ou patrocínio;

– Criar uma ouvidoria para acolher e encaminhar as necessidades dos fazedores de Teatro, estabelecendo uma ponte com a pasta da cultura para os devidos procedimentos cabíveis. Isto, deve-se ao fato da extinção do Departamento de Artes Cênicas na gestão do Prefeito Geraldo Júlio, impossibilitando um canal de diálogo com a categoria (artistas, produtores e técnicos);

– Garantir espaço de diálogo e escuta entre o poder público municipal e o Movimento de Teatro Batendo Texto Na Coxia, seja através do Conselho Municipal de Cultura da Cidade do Recife, que assegura na Lei Municipal número 18.659/2019 a presença de um representante de teatro eleito democraticamente, bem como asseverar diálogo e escuta em reuniões sistemáticas diretamente com o secretário da Cultura e o Prefeito;

– Promover a gestão compartilhada por meio de um modelo contemporâneo de governança dos equipamentos públicos de Teatro, com a participação da sociedade civil organizada, a exemplo do Movimento de Teatro Batendo Texto na Coxia e representantes de entidades de classe na administração, na gestão de recursos e na promoção artística;

– Fortalecer a integração do Teatro, por meio da Secretaria de Cultura, com diversas secretarias municipais como: turismo, educação, desenvolvimento econômico, tecnologia, considerando a transversalidade da Arte e da Cultura no desenvolvimento da cidade do Recife;

– Garantir a manutenção dos Teatros e espaços culturais pertencentes ao município, visando a recuperação, restauração, e revitalização dos equipamentos e seus entornos;

– Manter, valorizar e ampliar o calendário cultural da cidade, considerando o fortalecimento dos Festivais criados pelo município, bem como por produtores de Teatro da cidade, consolidando o Recife no circuito nacional e internacional da Arte Teatral;

– Promover a cultura do Teatro, assim como todas as outras linguagens das Artes Cênicas, como expressão e afirmação da identidade do cidadão recifense;

– Inserir e garantir o Teatro, assim como todas as outras linguagens das Artes Cênicas no processo econômico da cidade como fonte de geração de trabalho e distribuição de renda;

– Dar visibilidade, estimular, descentralizar e viabilizar a produção de Teatro local e sua rede criativa;

– Estimular por meio do Teatro, assim como todas as outras linguagens das Artes Cênicas, o exercício da cidadania, a autoestima, bem como a formação crítica dos cidadãos recifenses;

– Resgatar e garantir o prêmio “Auxílio Montagem” e o apoio aos grupos, companhias ou produtoras teatrais por meio de subsídio financeiro que permita a participação de espetáculos em festivais e mostras nacionais e internacionais;

– Garantir por meio de processo de convocação pública a ocupação de todos os teatros municipais, com taxas ou percentuais menores para a ocupação das produções locais, onde a participação das entidades representativas e a participação de um representante do Movimento de Teatro Batendo Texto Na coxia, estejam garantidos;

– Fortalecer e garantir recursos para o Centro de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas Apolo/Hermilo como espaço de formação e pesquisa do Teatro, através de intercâmbio e troca de experiência entre artistas; por meio do incentivo à produção local. Desse modo, o espaço poderá concretizar sua meta maior que foi definida desde sua inauguração que é torna-se um centro de referência das Artes Cênicas, regional, nacional e internacional;

– Garantir e valorizar a participação dos artistas profissionais que tenham DRT nos processos de seleções públicas e projetos direcionadas ao Teatro;

– Otimizar o funcionamento e ocupação dos Teatros municipais nos períodos e turnos que não estejam ocupados pela seleção pública para apresentação dos espetáculos, bem como das atividades inerentes aos equipamentos;

– Realizar Concurso Público para os técnicos que sejam fundamentais para o funcionamento dos teatros municipais (iluminador, sonoplasta, maquinista, camareira, bilheteiro, porteiro, indicador de plateia, entre outros) uma vez que hoje, a grande maioria são contratados por empresas terceirizadas e estão em desvio de função. Levar em consideração a necessidade dos teatros terem no mínimo duas equipes técnicas para garantir o funcionamento dos espaços nos três expedientes.

Na certeza de contarmos com vosso empenho, elevamos votos de estimas e distintas considerações.

Atenciosamente,

Movimento de Teatro Batendo Texto na Coxia
(Coletivo de artistas, técnicos e produtores independentes)

Com os apoios:

Associação de Realizadores de Teatro e Dança de Pernambuco (ARTEPE)

Associação dos Produtores de Teatro de Pernambuco (APACEPE)

Federação de Teatro de Pernambuco (FETEAPE)

Grupo de Gestores de Espaços Culturais de Pernambuco

Movimento Virada Cultural Teatro do Parque

Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão do Estado de
Pernambuco (SATED – PE)

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Não nos matem! Não nos maltratem!

Cicatriz (Toni Rodrigues - Divulgação) (17)

Peça Cicatriz apresenta histórias recheadas por traumas, opressões, abusos e discriminações contra pessoas da comunidade LGBT. Elenco é formado por Barbara Brendel, Fábio Queiroz, Flávio Moraes, Igor Cavalcanti Moura, Jandson Miranda, Milton Raulino, Nilo Pedrosa, Ricardo Andrade, Rodrigo Porto, Sophia William e Waggner Lima. Foto: Toni Rodrigues/ Divulgação

Cicatriz

Produção recifense faz duas únicas apresentações no Teatro Barreto Junior. Foto: Toni Rodrigues/ Divulgação

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Cicatriz expõe feridas da comunidade LGBT e clama por respeito. Foto: Tony Rodrigues /Divulgação

A travesti Quelly da Silva, 35 anos, foi morta e teve o coração arrancado em Jardim Marisa, na região do Campo Belo, em Campinas (SP). A transexual Myrella, 29 anos, enforcada e encontrada morta num terreno baldio no Centro de Balneário Camboriú, no Litoral Norte catarinense. A travesti ‘Fernanda da biz’, esfaqueada por 80 vezes antes de ter a cabeça esmagada, na cidade de Rio Brilhante, a 158 quilômetros de Campo Grande. O transexual Tadeu Nascimento, 24 anos, espancado, recebeu tiro fatal na cabeça no bairro de São Cristóvão, em Salvador. O cabeleireiro Plínio Henrique de Almeida Lima, 30 anos, sofreu uma facada mortal na avenida Paulista, em São Paulo. José Ribamar Alves Frazão foi morto à paulada e teve o corpo incendiado quando ainda estava vivo, na cidade de Cachoeira Grande, na região maranhense do Munim.  Esses assassinatos violentos compõe uma estatística aterrorizante para a população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Travestis) no Brasil. São algumas vítimas da homotransfobia no país.

As violências vivenciadas por personagens reais e inventados são elaboradas e expostas no espetáculo Cicatriz, produção recifense que faz sessões sábado (09/02) e domingo (10/02), no Teatro Barreto Júnior, no Recife. São histórias emblemáticas , que trazem à tona a crueldade do machismo, do patriarcado, do capitalismo, da arrogância.

De acordo com a ONG Grupo Gay da Bahia (GGB), uma pessoa LGBT foi morta a cada 20 horas no Brasil em 2018. 

Segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), entre 2013 e 2014 foram registrados pelo menos 770 casos de violência contra pessoas LGBT na América Latina, sendo que 594 pessoas foram assassinadas.

Dois exemplos representativos: em 2012, uma lésbica afrodescendente começou a chamar a atenção de um líder paramilitar na região de Antioquia (Colômbia). Ela o rejeitou e, em consequência, foi abusada sexualmente em duas ocasiões pelo líder e por um grupo de acompanhantes do mesmo, em função de sua orientação sexual. Além disso, foi perseguida e hostilizada ao tentar fazer uma denúncia formal sobre o ocorrido. Outro caso emblemático foi o assassinato de Daniel Zamudio, um jovem chileno morto em 2012 ao sair de um bar em um parque de Santiago. Quatro jovens o atacaram e o torturaram durante horas com alto grau de crueldade, em função de sua orientação sexual, deixando nele marcas de suásticas na pele, pernas quebradas e queimaduras. Zamudio faleceu depois no hospital.
VIOLÊNCIA CONTRA PESSOAS LGBT – Goethe-Institut – Brasilient

Ser LGBT é um fator de risco à própria vida numa sociedade em que grupos políticos e religiosos querem controlar socialmente como os outros exercem sua sexualidade ou constroem suas identidades. Pertencer a essa comunidade é ser potencialmente alvo de hostilizações e violência nas ruas, mutilação de membros, prática das “violações corretivas” e outras crueldades.

“Crime de ódio” ou, “crime por preconceito” em variados níveis de maltrato são praticados por bandos “fora da lei”, autoridades estatais e indivíduos ou grupos sociais que se posicionam contra a diversidade sexual e de gênero.

A população LGBT é afetada diretamente pela violência e ódio na política.

85 denúncias de assassinatos de LGBT em 2018, somente até julho, foram contabilizadas pelo governo, segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos (agora Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos). Esses números oficiais alarmantes não impediram que o governo de Jair Bolsonaro (PSL) retirasse a população LGBT das diretrizes de políticas públicas do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, como constava anteriormente. A Medida Provisória 870 foi assinada em 1º de janeiro, dia da posse presidencial, .

Para viver e sobreviver LGBTs devem lutar até mesmo contra o governo, já que Bolsonaro pai alardeou em entrevistas que é “homofóbico, com muito orgulho” e que preferiria ter um filho morto a um filho homossexual.

É assustador!!!

O espetáculo Cicatriz adota um discurso de luta cotidiana e resistência pelo direito à vida. Encenado pelo ator e diretor Antônio Rodrigues, da Cênicas Cia. De Repertório, a peça traça um painel de histórias de ofensa, traumas, opressões, abusos e discriminações contra a comunidade LGBT em diferentes épocas, contextos e esferas sociais. Cicratiz junta fatos reais, vivências pessoais do elenco de 11 atores e livre inspiração em recortes da obra do escritor e dramaturgo Caio Fernando Abreu.

“Em pleno século 21, ainda há pessoas que acham que LGBTfobia não existe, quando há gays, lésbicas e transexuais sendo agredidos física e psicologicamente apenas por serem quem são”, argumenta Antônio. Ele defende que a montagem é um grito de protesto e empoderamento, uma intervenção através da arte para sensibilizar o público e gerar reflexões sobre o lugar do LGBT na sociedade atual.

“Queremos que as pessoas se coloquem no lugar deles e se perguntem – Como eu me sentiria estando naquela pele? Eu saberia enfrentar essas dores?”, convoca o diretor para a empatia, solidariedade e reconhecimento desses corpos, que vibram de desejos e não suportam mais tanta violência .

SERVIÇO:
Espetáculo Cicatriz
Quando: sábado e domingo, 9 e 10 de fevereiro de 2019
Onde: Teatro Barreto Júnior (Rua Estudante Jeremias Bastos, S/N, Pina – Recife/PE)
Horário: sábado, às 20h; domingo, às 19h
Ingressos: R$ 40 (inteira) /R$ 20 (meia). À venda na bilheteria do teatro, 2 horas antes do espetáculo.

FICHA TÉCNICA:
Direção geral: Antônio Rodrigues
Assistência de direção: Sônia Carvalho
Direção musical:
Douglas Duan
Desenho de luz e operação:
Rogério Wanderley
Figurinos e adereços:
Álcio Lins
Texto:
criação coletiva
Elenco:
Barbara Brendel, Fábio Queiroz, Flávio Moraes, Igor Cavalcanti Moura, Jandson Miranda, Milton Raulino, Nilo Pedrosa, Ricardo Andrade, Rodrigo Porto, Sophia William e Waggner Lima.
Apoio:
Cênicas Cia. De Repertório
Realização:
Antônio Rodrigues Produções

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Janeiro de Grandes Espetáculos compactua com censura e exclui montagem com atriz trans

Apacepe alega motivos que 'extrapolam os critérios artísticos para cancelar a Peça O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu

Festival Janeiro de Grandes Espetáculos, do Recife, alega motivos que “extrapolam os critérios artísticos” para excluir a peça O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu da programação. Foto: Humberto Araújo / Divulgação

Renata Carvalho, em cena da peça que defende valores cristãos, como o amor ao próximo. Foto: Leonardo Pastor/Divulgação

A atriz Renata Carvalho, em cena da montagem que defende valores cristãos, como o amor ao próximo. Foto: Leonardo Pastor/Divulgação

“Censura novamente. Retirada da programação do maior festival de artes cênicas de Pernambuco, sob pressão da bancada evangélica. Eles não se cansam, mas a gente também não. Abençoados aqueles que te perseguem. O ódio é o único talento que têm, e não vale nada”, postou a diretora Natalia Mallo na sua conta do Facebook.

O espetáculo O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu de novo é convidado e depois desconvidado de um programa cultural em Pernambuco. Divulgada como destaque do 25º Janeiro de Grandes Espetáculos, do Recife, a peça foi excluída pelos realizadores do Festival, a Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe), sob a alegação de que é uma maneira de assegurar a própria realização do evento.

O Janeiro havia anunciado as atrações da 25ª edição na sexta-feira (21/2) com ênfase na obra O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu. Nesse domingo (23/12) retrocedeu e excluiu a peça da programação, decisão pautada por “questões que extrapolam os critérios artísticos”.

Nota na íntegra enviada à imprensa na tarde de domingo (23/12), pelo festival Janeiro de Grandes Espetáculos:

De forma a garantir a realização do 25º Janeiro de Grandes Espetáculos, a Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe) informa a retirada da peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu da programação do festival.

Por questões que extrapolam os critérios artísticos, o espetáculo, que já motivou ações judiciais e passou por outros cancelamentos, infelizmente não estará mais na grade do Janeiro 2019.

A Apacepe reitera seu compromisso com a liberdade de expressão e mantém seu propósito de abrir as portas para toda e qualquer manifestação artística.

Conservadores tentam boicotar peça. Não vêem e não querem que ninguém mais veja. Foto Leonardo Pastor Divulgação

Conservadores já boicotaram a peça em vários lugares. Não vêem e não querem que ninguém mais veja. Foto Leonardo Pastor Divulgação

Pressão Evangélica

Um dia após o anúncio da programação do JGE, o deputado estadual evangélico e eleito deputado federal em 2018, André Ferreira (PSC), usou a peça Rainha do Céu como arma de ataque ao governador Paulo Câmara e ao prefeito Geraldo Julio, ambos do PSB.

“Mais uma vez o Governo do Estado e a Prefeitura do Recife afrontam as famílias cristãs de Pernambuco, contratando, com recursos públicos, a peça teatral na qual Jesus Cristo é um travesti”, publicou o blog do Jamildo sobre a posição do político. “Devemos, claro, investir na cultura para que seja acessível a todos, desde que realizada com respeito. Mas não é o caso dessa peça teatral absolutamente fora de propósito”.

Bem, parece que a pressão fez efeito bem rapidinho.

Isso é preocupante. Por muitos motivos. Todos os sinais e ações de confisco de direitos, a ideia do presidente eleito de que a cultura deve ocupar uma lugar de figurante, o pouco alcance e relevância com que os novos ocupantes do poder enxergam os fazeres artísticos. O Brasil é um estado laico e não pode ser pautado por crenças de A ou B. A liberdade de expressão e a liberdade artística não podem ser confiscadas. Pelo menos o que se espera dos artistas, produtores e pessoas da cultura é uma atitude de combate, para defender a liberdade.

Sabemos todos que os festivais de teatro são viabilizados com editais de incentivo e verbas do governo. Mas isso não quer dizer que os diretores, gestores e curadores de festivais sejam lacaios do poderoso da hora. A ingerência politico-partidária nas linhas curatoriais dos festivais é um perigo que pode abrir brechas.

Quem é do meio artístico sabe que transformaram O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu em nitroglicerina pura neste cenário de marcha ré que se transformou o Brasil pós golpe jurídico-midiático.

Desde a sua estreia, em 2016, O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu sofre censura direta. A apresentação da peça foi cancelada em setembro de 2017 em Jundiaí (SP) e outubro em Salvador, ambas por decisão judicial, sob o argumento de que Renata Carvalho “vilipendia artigos religiosos”.

Em junho deste ano, o prefeito do Rio de Janeiro, Crivella, cancelou a mostra Mostra Corpos Visíveis, sob a desculpa de que a Arena, palco do evento está fechada devido a “um problema na licitação”. Crivella também afirmou: “Na minha administração nenhum espetáculo, nenhuma exposição vai ofender a religião das pessoas. Eu não vou permitir. Enquanto eu for prefeito nós vamos respeitar a consciência e a religião das pessoas”.

O espetáculo foi apresentado dentro da programação do Trema! Festival, em junho no Recife, sem problemas e com boa acolhida do público.

Em julho deste ano, o espetáculo foi retirado da programação oficial do Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), por proibição do prefeito da cidade do Agreste pernambucano, Izaías Regis (PTB). O imbróglio teve idas e vindas, com pedido de reinclusão da peça pelo Ministério Público de Pernambuco (MPPE), recusa de juiz, liminar de desembargador.

Um grupo de ativistas, artistas e produtores culturais, e amantes da democracia, não ficou passível diante da censura. Para resistir ao veto, foi realizada uma vaquinha virtual para exibição do espetáculo de forma independente. Mesmo com a decisão do Tribunal de Justiça de Pernambuco, a favor de pilares constitucionais (a exemplo de liberdade de expressão artística e o Estado laico), a Ordem dos Pastores Evangélicos de Garanhuns e Região prossegui com a perseguição à peça.

Condenada pelos cristãos conservadores, que pregam o amor de Cristo mas não toleram conviver com o diferente, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, fez duas apresentações em Garanhuns, sob forte tensão, com a protagonista “escondida” em Maceió antes das sessões com receio de represálias violentas.

atriz transexual Renata Carvalho enfrenta censuras e ameaças por sua atuação. Foto Luciane Pires Ferreira Divulgação

Atriz transexual Renata Carvalho enfrenta censuras e ameaças por sua atuação. Foto Luciane Pires Ferreira Divulgação

Mas de que os conservadores têm tanto medo ou odeiam numa peça que nem viram? Intolerância é uma resposta. Não a única. Existe dificuldade de quem é hostil à democracia em conviver com a diferença e sua ideia é eliminar. Eliminar corpos, ideias, posições, varrer do mapa aquilo que incomoda (LGBTQI+, negros, mulheres e pobres são os principais alvos).

E se Jesus voltasse nos dias de hoje como uma travesti? Essa é a pergunta-chave da peça. Segundo a Bíblia, que tanto citam os acusadores da peça, Jesus Cristo acolheu excluídos, pecadores, humilhados da sociedade. Quem são os marginalizados de hoje?

O episódio FIG virou caso de estudo levado à discussão Dive Queer Party no Edinburgh International Book Festival, em agosto. Algumas das mais proeminentes vozes artísticas de queer estavam lá: Travis Alabanza, Chitra Nagarajan, Jo Clifford, Susan Worsfold com participação da performer e ativista Renata Carvalho por vídeo.

A diretora e tradutora de Rainha do Céu Natalia Mallo expôs o caso da censura na noite do debate “liberdades precárias: Perspectivas queer de todo o mundo”. O tema do FIG deste ano “um viva a liberdade”, virou motivo de chacota, segundo testemunhou o diretor do Trema! festival Pedro Vilela, que esteve no evento na Escócia.

Em Edimburgo, a discussão estava pautada na reflexão de que as liberdades são precárias – elas podem ser conquistadas apenas para ser rapidamente perdidas de novo. Então o tempo é de resistência, (re) existência.

Por todas as pressões, as perseguições, difamações, fake news, que artistas sofreram nesses últimos meses que se prolongam, é muito perigoso ceder.

É bom lembrar das ideias do crítico de arte, jornalista, professor pernambucano Mário Pedrosa (1900 – 1981), para quem arte é revolução permanente da sensibilidade e da percepção. Ele defende que a questão estética é também uma questão ética e ambas se orientam por uma visão estratégica de intervenção na vida. Apostava na relação crucial entre arte e política e se posicionou criticamente com as apropriações mercadológicas da arte.

Na rede

Mesmo em clima natalino, alguns artistas se posicionaram no facebook. A atriz Renata Carvalho replicou as publicações em jornais sobre o cancelamento de sua montagem com comentários suscintos: “2019 nem começou” e “Recife mais uma vez…” Além das Hashtags #rainhajesus ; #representatividadetrans ; #censuranão .

“O fundamentalismo religioso sempre metendo o bedelho onde não deve!!
Aposto que a atriz Renata Carvalho não vai se meter nas extorsões e falcatruas que os pastores realizam dentro dos templos!!”, escreveu Lucas Correa Viegas.

O ator Elison postou: “Que vergonhoso, Janeiro de Grandes Espetáculos. Mais vergonhoso ainda é uma desculpinha como “critérios extra-artísticos”. O nome disso não é outra coisa que fazer coro à transfobia, que ceder à censura. Extremamente vergonhoso e desrespeitoso com as artistas. Apoio e aplausos incessantes a Renata Carvalho e seu trabalho primoroso!
Quem perde é o público recifense. E o próprio festival, em termos de credibilidade”.

Caia Coelho foi mais incisiva. “Que porra é essa, Paulo de Castro, Iris Macedo, Luciana Raposo? Estou com vergonha de vocês. Estou com vergonha de ter trabalhado com vocês. Vocês não passam de covardes lixos transfóbicos envergonhando quem produz arte com resistência”.

O artista Java Araújo pergunta: “Para que colocar na programação e depois tirar? Querem atrair polemica para ganhar marketing pro festival?”

A militância desse espetáculo é por espaços para todos, respeito pela diferença e representatividade trans. Na dramaturgia da britânica Jo Clifford, também artista trans, Jesus volta como travesti. Discute-se as questões de gênero numa releitura fincada nesses tempos do Brasil. A atuação flui entre a narração e comentários inspirados na Bíblia e experiências de luta da atriz traduzida em poética cênica. Carvalho defende valores puramente cristãos, mas com o direito dessa imagem divina ser representada por um corpo dissidente.

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Partida de Celibi. Primeiro impacto

Henrique Celibi na peça As Perucas de Bibi. Foto: Ivana Moura

Na peça As Perucas de Bibi, em abril, no Teatro Apolo. Foto: Ivana Moura

A última vez em que encontrei o ator, diretor e dramaturgo Henrique Celibi foi na segunda sessão da peça As Perucas de Bibi, no sábado de Aleluia. Falei com ele rapidinho depois da apresentação, pois aquela noite teria dose dupla de teatro, já que fui ver a Paixão de Cristo do Recife, com José Pimentel. Menos de um mês depois, recebo com pesar a notícia de sua morte. “Levou uma queda, pediu socorro à vizinha que, por sua vez, chamou os Bombeiros. Ele estava todo ensanguentado, com uma perfuração na veia femoral. Foi socorrido, mas sofreu duas paradas cardíacas e não resistiu”, conta a atriz Sharlene Esse, que dividia o palco com Henrique em As Perucas de Bibi. “Quem deu a notícia da morte de Celibi a Américo (Barreto) foi a tia dele, uma senhorinha velhinha”, diz Sharlene. Celibi morava sozinho no bairro do Arruda e inquieto como era já estava articulando os ensaios de uma nova peça, The Celibi Show.

Com ele era assim. Não tinha tempo ruim, nem circunstâncias ideais para fazer algo. Muitas peças surgiram dessa motivação. Cara, coragem e um talento múltiplo. A Bicha Burralheira, a estória que sua mãe não contou; Madleia + ou – doida; Cabaré Diversiones; As Perucas de Bibi.

Poderia achar que foi um acidente estúpido. Mas os acidentes caseiros são traiçoeiros. Logo Celibi, que parecia um homem-aranha a se pendurar em tudo que é lugar, com aquele seu corpinho ágil.

Henrique Celibi, um guerrilheiro dos palcos pernambucanos

Um guerrilheiro dos palcos pernambucanos, em Cabaré Diversiones. Foto: Ivana Moura

Henrique Celibi, ao centro, é autor, diretor, figurinista do espetáculo

Henrique Celibi, ao centro, em Cabaré Diversiones. Foto: Divulgação

Henrique Celibi

Medleia + ou – Doida. Foto: Ivana Moura

Henrique Celibi, Fábio Costa e Guilherme Coelho. Foto: Henrique Celibi/acervo pessoal

Henrique Celibi, Fábio Costa e Guilherme Coelho na época do Vivencial. Foto: Henrique Celibi/ acervo pessoal

Melhor Ator

Melhor Ator do Janeiro de Grandes Espetáculos. Foto: Ivana Moura 

Quando conheci Celibi, em meados da década de 1980, o artista andava às voltas com o texto Cinderela – a história que sua mãe não contou, ainda como esquete  A Bicha Burralheira que apresentou na Boate Misty. Ajudei a divulgar. Gostava daquele menino elétrico e cheio de imaginação. Depois Cinderela virou o megassucesso com a Trupe do Barulho.

Viajamos juntos para o festival de São José do Rio Preto, com uma peça que não sei se foi O Coronel de Macambira ou o Casamento de Catirina. E o que lembro dele desses tempos era uma elegância no andar, uma alegria das pequenas coisas, resistência não alardeada mas que poderia ser captada, persistência na arte e nos sonhos. Mesmo que tudo estivesse desmoronando por dentro, era preciso manter uma pose, uma esperança, alimentar a alegria.

Egresso do Grupo Vivencial, Celibi era um sobrevivente. E criaturas assim têm uma grande capacidade de adaptação aos lugares mais hostis. Com ousadia, garra e criatividade.

Henrique Celibi. Foto: Facebook

Henrique Celibi. Foto: Facebook

Batizado de Valdenou Henrique de Moura, ele entrou no Vivencial aos 14 anos e lá aprendeu a ser ator, diretor, figurinista, cenógrafo, maquiador, dramaturgo e outros sete.

Como decretou Oswald de Andrade, “A alegria é a prova dos nove”. Celibi tinha humor. Um humor que me encantava. Por ser crítico e autocrítico. E era uma voz importante de reflexão no meio da cena teatral recifense, em parte tão autoindulgente e com lentes tão generosas para o seu próprio umbigo.

Quem vai fazer a crítica de dentro das próximas montagens em homenagem ao Vivencial? Enquanto a maioria das vivecas se instalou no conforto de sua sala de jantar, Celibi prosseguia a treinar a iconoclastia que aprendeu no Vivencial.

É bem interessante seu comentário depois da estreia de Puro Lixo, montagem dirigida por Antonio Cadengue, inspirada ou em homenagem ao grupo Vivencial. Celibi ponderou em sua página do Facebook:

“Nunca fomos anjos! Muito pelo contrário, não gostávamos das auréolas. Principalmente as feitas com arminhos. Gostávamos mesmo era de sermos demoníacas: “espelho meu existe alguém pior que eu? Espelho, espelho meu, existe alguém mais terrível do que eu?”… Não. Não existiam! Éramos terríveis, as vivecas! Gostávamos mesmo era de tirar os “chatos” na London, London da virilha de Gal porque éramos nós as tropicais e fatais.

Sabíamos dos demônios que em nós habitavam e como fazer para alimentá-los ou não. E esses deixavam as migalhas das sobras em nossas convivências. Era o que fazíamos com esses demônios que não valem a pena serem alimentados e sim combatidos com gaiatices.
Dávamos muxoxos para as hipocrisias e conceitos estabelecidos. (sem o menor medo de o galo cantar e nos transformarmos em peixes soias da boca torta).

Tínhamos a consciência de que éramos nós as “Cinderelas”, lindas com o vestido de baile, mas, sem o sapatinho de cristal e sim, com os pés sujos da lama em que a sociedade insistia em afundar-se. (ainda insistem).

O espetáculo Puro Lixo é muito bem cuidado, produzido, com um elenco bem dirigido apesar de faltar frescura na “viadagem” vivenciada Por Eduardo Filho, Gil Paz, Marinho Falcao, Paulo Castelo Branco, Samuel Lira. Poderia ser mais vibrante como sugere o título. Com muitos méritos sim. Todos! Mas, o que a mim incomoda no espetáculo é o bem feito, politicamente correto do ser em estar nesse tempo presente.

(…) Nossos manifestos eram quá, quá, quá… Nossos negros eram loiros de cabelos e cabeleiras. Sabíamos de que o certo é na frente mais o que a nós importava era mostrar que o justo mesmo era atrás. Mesmo assim e assim mesmo, com todo o glamour, (que não tínhamos) fico muito gratificado em ser personagem dessa crônica teatral que é um luxo só!”

Ou quando comentou sobre o filme Tatuagem, de Hilton Lacerda. Disse que a obra tem uma atmosfera “Vivencialesca”, mas se cotejada ao grupo Vivencial, o filme é certinho demais. Celibi guardou em si essa anarquia que pautava as peças, ações e intervenções culturais da trupe olindense. “Mangávamos e debochávamos de tudo e de todos”, gostava de dizer.

Seu olhar crítico e debochado, sua língua cheia de humor e, às vezes ferina, sua criatividade transbordante a inventar arte de lixo. Seu carinho pelas pessoas de arte (do teatro, da dança, da performance, do carnaval, do cinema), seu incentivo aos que queriam mergulhar nesse mar.

Ele que vivia sem rede de segurança nos inspirava coragem.

Agora em abril ele postou no Facebook: “Às vezes sinto meu corpo pequeno demais para abrigar meu espirito… E a sensação é muito estranha… Ver que não caibo mais em mim…” Parece um recado para quem acredita em anúncios sobrenaturais.

Mas acho que ele deve estar mangando dele mesmo, desse descuido. Pode estar já se divertindo da saudade que provoca em nós.

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Peça reconstrói assassinato de João Pessoa

05022016-Antonio_David_104O dramaturgo e diretor do espetáculo De João Para João não compactua com a ideia de que a professora e poeta Anayde Beiriz tenha sido o pivô do estopim da Revolução de 1930, tese defendida por alguns historiadores. A montagem paraibana que faz única apresentação no Teatro de Santa Isabel, no próximo sábado dia 6 de maio, aponta como a mídia incendiou os ânimos já acirrados entre os adversários paraibanos. A peça é construída levando em conta o ponto de vista do assassino. A ação ocorre na tarde do dia 26 de Julho, na confeitaria Glória, no centro do Recife.

Na versão oficial mais oficial do episódio, João Pessoa, da Aliança Liberal, governante da Paraíba e candidato à vice-presidência da República na chapa de Getúlio Vargas, foi assassinado por questões políticas pelo advogado João Dantas, afilhado do principal dirigente do Partido Republicano da Paraíba, o coronel Zé Pereira. A historiografia transformou João Pessoa em herói, Dantas em vilão e Anayde foi apagada do mapa (ou demonizada) por muito tempo.

Eram muitos interesses nesse jogo de poder dos dois partidos. O grupo de João Dantas é apontado como arcaico na defesa dos  negócios tradicionais de latifundiários e comerciantes do Sertão da Paraíba e de Recife. Grupos que recebiam os benefícios da  política do café-com-leite, do governo federal. Os defensores da Aliança Liberal são tidos como os que anunciavam mudanças.

Mas os conflitos se dão no campo oligárquico, com autoritarismo de lado a lado e esferas pública e privada entrelaçadas. Entre as ações truculentas estão invasões a territórios particulares. Um ataque à fazenda da família de João Dantas, com ameaças de morte. A casa do advoga também é violada pela polícia, que confisca os diários íntimos e poesias do casal, além das fotos de nudez de Anayde  para expor publicamente na delegacia.

Por sua vez, João Dantas publicou no Jornal do Comércio, do Recife, um texto com o título Às Voltas com um Doido, com acusações ao governante João Pessoa. A carta é uma dos principais documentos de inspiração da peça de Tarcísio Pereira, que atua ao lado de Flávio Melo.

No cinema a atitude de Anayde ganhou protagonismo no filme Parayba, mulher macho (1983), da cineasta brasileira Tizuka Yamazaki, que é baseado em documentos históricos e no livro no livro Anayde Beiriz, paixão e morte na revolução de 30, de autoria de José Joffily. Anayde é apresentada como uma jovem de ideias libertárias, inconformada com os costumes da sociedade brasileira na década de 1920. Essa obra deixa a  o confronto político entre a Aliança Liberal e o Partido Republicano, como pano de fundo. Tizuka defende em sua obra que a motivação do assassinato foi essencialmente de ordem passional.

Na entrevista abaixo, Tarcísio Pereira fala sobre a pesquisa realizada para a montagem do espetáculo De João Para João, as opções dramatúrgicas para construir cenicamente esse episódio que teve o Recife como cenário, mudou a história do Brasil e desencadeou a chamada Revolução de 1930.

Entrevista: Tarcísio Pereira, dramaturgo e diretor

Tarcísio Pereira, dramaturgo e diretor

Tarcísio Pereira é autor, diretor e ator da peça De João para João. Foto: Reprodução do Facebook

De João para João. O que propõe o espetáculo?
Recontar uma história que abalou a estrutura política deste país há 87 anos, buscando lançar um novo ângulo de visão em torno de um episódio que divide opiniões até hoje. Colocamos o teatro como plataforma de reflexão em torno de fatos ocasionados pela influência da mídia. Recontamos os últimos instantes de um crime sob o ponto de vista do assassino – colocando em cena, pela primeira vez, o vilão e a vítima que entraram para a história do nosso país, num fato ocorrido na cidade do Recife. Além disso, procuramos desenvolver uma experiência cênica sob o foco de uma tragédia nacional que tem levado a diversas interpretações, utilizando o testemunho pessoal de um homem que mudou a história de um estado brasileiro e que redundou numa tomada de poder no âmbito nacional.

A partir da sua pesquisa, o que o senhor conclui sobre a participação da poeta Anayde Beiriz nesse episódio?
Anayde foi inocente em toda essa história, embora tenha se tornado uma grande mártir como consequência desse assassinato. Essa história teve muitos mártires, começando pelo próprio João Pessoa. Depois, o assassino foi também um mártir, pela forma brutal como foi assassinado na prisão, na época a Casa de Detenção no Recife, quando as forças “revolucionárias” de Getúlio (Vargas) tomaram a Presidência da República. Outro mártir, na sequência, foi João Suassuna, pai do escritor Ariano Suassuna, que era deputado federal e levou um tiro nas costas, numa rua do Rio de Janeiro. Ele tinha governado a Paraíba antes de João Pessoa, eram aliados e acabou virando adversário. Além de outras famílias e lideranças políticas na Paraíba que eram adversários de João Pessoa.
Mas voltando a Anayde, para mim foi a maior vítima – uma mulher que, ao que parece, não tinha muito envolvimento político e que pagou pelo fato de ser a namorada do assassino de João Pessoa. Ela não suportou a pressão na capital paraibana, sendo chamada de “amante” ou “putinha” de João Dantas e teve que se exilar no Recife num instituto de freiras, onde acabou tomando veneno. Hoje, Anayde é uma mulher reverenciada na Paraíba, tem até escola e conjunto residencial com o nome dela. Mas durante uns trintas anos ela foi um tanto amaldiçoada na própria terra, mesmo depois de morta. Para se ter uma ideia, nenhuma criança que nascesse do sexo feminino podia ser batizada com o nome de Anayde.

Em linhas gerais, o que foi publicado no jornal A União, sobre a correspondência íntima entre João Dantas e Anayde?
Há uma confusão sobre esse fato. Na verdade, a correspondência íntima nunca foi publicada no jornal A União. O jornal oficial apenas noticiou que foram encontradas cartas “comprometedoras” de João Dantas, quando invadiram a casa e o escritório dele. E todo esse material ficou exposto numa das dependências do jornal para quem quisesse ver. O jornal apenas divulgou que o mural estava disponível à visitação, mas não chegou a publicar as cartas propriamente.

O que o senhor diria sobre o filme Parahyba Mulher Macho.
Gosto imensamente desse filme da Tizuka Yamasaki. Muito, muito mesmo. Mas falo enquanto realização fílmica, enquanto obra da nossa cinematografia. Do ponto de vista histórico, particularmente de alguns aspectos abordados na película, eu tenho alguns questionamentos, principalmente em relação à figura de Anayde Beiriz, que o filme apresenta de uma maneira como eu não tenho encontrado em toda a pesquisa que fiz. Mas isso é um detalhe e apenas um ponto de vista meu, não falo como um defeito. Além do mais, talvez o filme não tenha tido o propósito de ser tão fiel assim à história, o que é uma opção e não um problema. Mas, no geral, é um filme bonito e emocionante, muito bem feito e que também integrou a minha fonte de pesquisa para realizar o espetáculo De João para João.

                                          “A encenação é mais simples e direta porque                                                                                    teve esse propósito de focar na palavra                                                                                            e na força da interpretação”

Quais os motivos que o senhor atribui à posição histórica de herói que ostenta a figura de João Pessoa?
O assassinato, por si só (pela formal como aconteceu), já foi algo que causou comoção e contribuiu para a construção desse mito. Mas, além disso, a forma como João Pessoa governou a Paraíba, num momento em que os coronéis davam as cartas, acabou colocando-o como aquele administrador que teve coragem de quebrar os velhos vícios da política de caudilhos. Quando João Pessoa veio do Rio para governar a Paraíba, disse que ia dar uma “vassourada”, e realmente fez. Não sei com que intenção, mas realmente foi um administrador de coragem, organizou as finanças do estado em pouco tempo, colocou a folha dos funcionários em dia (que estava com meses de atraso), e passou a cobrar imposto dos coronéis do Sertão, os quais costumavam exportar o algodão pelas fronteiras com Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte. João Pessoa criou uma guerra tributária com a presença intensa do Fisco nas fronteiras, cobrando pedágios até de carroça de burro. Com isso, ele ganhou muita popularidade. Depois, ele teve também a coragem de negar apoio ao presidente da República na campanha presidencial, a ponto de figurar como candidato a vice na chapa de Getúlio Vargas. O tal “Nego”, que ganhou tanta repercussão, também contribuiu para essa popularidade. Depois veio o seu assassinato e, no rastro de tudo isso, a figura de herói. Mas era um homem muito difícil também, de temperamento forte e intransigente.

Qual o teor da carta Às Voltas com um Doido, publicada pelo advogado João Duarte Dantas, no Jornal do Comercio, do Recife?
É uma carta muito, muito violenta. Escrita com muito ódio por quem se sentia perseguido pelo governo. João Dantas traz muitas denúncias nessa carta, questionando a fortuna de João Pessoa e acusando-o, inclusive, de ter tentado matar o pai por duas vezes. Como bem diz o título do artigo publicado (que na verdade era uma carta ao governante paraibano), ele trata João Pessoa como “Doido”. Imagino que João Pessoa deve ter sofrido horrores quando leu esse texto no jornal do Comércio. Por coincidência, dias depois veio a invasão da casa de João Dantas, num momento que este se encontrava em Olinda e se aproveitaram da ausência dele. E depois dessa invasão, veio o crime. Ou seja: uma retaliação atrás da outra, que culminou numa grande tragédia.

Afinal, o assassinato de João Pessoa foi um crime político? Por quê?
Creio que a motivação foi pessoal, por conta da invasão da casa dele. Mas tudo isso tendo a política como pano de fundo. João Pessoa estava no meio de uma guerra com o coronel Zé Pereira, do município de Princesa Isabel, e João Dantas vinha atuando em favor de Zé Pereira, de quem era aliado. Ou seja: João Dantas, pelos jornais, atacava o governo o tempo inteiro devido às medidas duras de João Pessoa, e os artigos dele sempre faz referências à “Guerra de Princesa”. Isso levou a uma situação que extrapolou a seara política e entrou no campo pessoal. Então esse crime foi político e pessoal ao mesmo tempo, uma mistura das duas coisas.

                                       “Outro mártir, na sequência, foi João Suassuna,                                                                              pai do escritor Ariano Suassuna, que era deputado                                                                        federal e levou um tiro nas costas, numa rua do Rio de Janeiro”

Como o senhor situa a encenação? Utiliza os procedimentos convencionais?
Temos uma linguagem que vai da estética convencional ao experimentalismo cênico. Utilizamos elementos que dialogam com a simbologia e aquela forma tradicional do gabinete. Aliás, diria que este último fator tem mais predominância, isso em virtude da própria narrativa e do nosso cuidado com o público alvo. O texto é como um roteiro cinematográfico, que joga com a ação presente e a fantasia numa fusão de tempos alternados. Mas a encenação é mais simples e direta porque teve esse propósito de focar na palavra e na força da interpretação, pois estamos tratando de uma história real que geralmente atrai um público curioso por aquela história e não para ver uma experiência cênica. De toda forma, é um espetáculo que tem agradado aos dois tipos de público.

Quais os principais trunfos da montagem?
Talvez eu seja suspeito para apontar dois trunfos que passam diretamente pelo meu trabalho, mas é como posso avaliar. O primeiro deles está na dramaturgia, por ser um texto de cunho histórico, detalhadamente pesquisado, como uma força dramática que se sustenta do início ao fim, segurando o fôlego dos espectadores. O outro trunfo está na interpretação, são apenas dois atores em cena que não deixam a peteca cair em nenhum momento. E não sou eu que digo, é o público e a crítica que têm nos visto. Atores e texto são os dois grandes trunfos desse espetáculo.

Que aproximações que o senhor faz entre o clima da década de 1930 e os dias atuais?
Tudo a ver. Guardadas, claro, as diferenças entre os acontecimentos, mas o código dramático é o mesmo, o que mostra que a história sempre se repete com capítulos novos. Hoje temos uma situação política instável no Brasil, de muito descrédito e em que se questiona lisuras e procedimentos administrativos. Tínhamos uma presidente que foi banida do poder e um atual administrador que é tido por muitos como golpista ou usurpador, essas coisas… A política de 1930 passava por questionamentos como esses. Houve um presidente que foi banido do poder (Washington Luís), e um que havia sido eleito e não chegou a assumir (Júlio Prestes), quando Getúlio assumiu no lugar dele, embora tenha sido o segundo colocado nas urnas… E essas mudanças aconteceram por causa da morte de João Pessoa. Como João Pessoa tinha sido o vice na chapa de Getúlio, usaram o cadáver dele para comover o Brasil e Getúlio tomou a faixa presidencial. Além disso, todo um clima de instabilidade econômica e mudanças nas leis ocorreram naquele momento. Então o sentimento coletivo é o mesmo dos dias de hoje.

Peça trata de

Qual o papel da imprensa nisso tudo?
Tudo aconteceu por causa da imprensa, é como eu interpreto. Havia uma guerra de mídias entre órgãos de comunicação que pertenciam a facções diferentes. O jornal A União, na capital paraibana, atacava a honra pessoal de João Dantas e este, para não deixar por menos, respondia num jornal pernambucano que era ligado aos Pessoa de Queiroz (por sinal primos de João Pessoa, que mesmo sendo primos eram inimigos dele). Então essa guerra extrapolava os limites da ética, o que era bem comum naquela ocasião. A peça reproduz muitos trechos das notas e artigos publicados na época, um contra o outro, o que ajuda o espectador a tirar uma conclusão sobre as razões dessa tragédia.

O que o senhor diria para atrair um possível espectador para sair de casa e ir até o Teatro de Santa Isabel no dia 6 de maio?
Antes de falar para esse espectador, eu digo o que nós, do grupo, temos conversado sobre o tipo de reação do público recifense. A gente quer ter esse termômetro aqui por uma razão simples: toda a história se passa no Recife; Recife foi o cenário da tragédia política. O núcleo central da ação está na Confeitaria Glória, local em que o crime aconteceu e que ficava na Rua Nova, centro da capital pernambucana. Eu diria isso para o espectador da cidade: nosso espetáculo traz um fato histórico do Recife e não apenas da Paraíba. Os personagens são dois paraibanos, mas o episódio foi no Recife e a cidade está devidamente retratada no espetáculo, concebido e desenvolvido com uma pesquisa rica de detalhes sobre aquele período, o que certamente vai revelar muita coisa que o pernambucano ainda não sabe, principalmente as novas gerações.

SERVIÇO

De João Para João
Quando: 06/05/17, Sábado, às 20h
Onde: Teatro de Santa Isabel
Ingressos: Inteira R$ 40,00 e meia-entrada R$ 20,00.

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