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Como é que se escreve “família”?
Crítica: Tem bastante espaço aqui
Por Annelise Schwarcz*

“Por que você é flamengo e meu pai botafogo? O que significa impávido colosso? Por que os ossos doem enquanto a gente dorme? Por que os dentes caem? Por onde os filhos saem? Por que os dedos murcham quando estou no banho? Por que as ruas enchem quando está chovendo? Quanto é mil trilhões vezes infinito? Quem é Jesus Cristo? Onde estão meus primos?”
Oito anos – Adriana Calcanhotto

Juliane Cruz interpreta Joana, uma criança em busca de sua origem. Foto: Monica Ramalho

Oito anos, como sugere a música escrita por Paula Toller e interpretada por Adriana Calcanhotto, é conhecida como a fase dos “porquês”. Com sensibilidade o suficiente é possível fazer filosofia, música, um filme ou uma peça de teatro com os espantos com o mundo que essa fase traz. É o caso, por exemplo, da peça Tem bastante espaço aqui.

Baseada no curta O Fundo dos Nossos Corações (2021), escrito e dirigido por Letícia Leão, a dramaturgia de Tem bastante espaço aqui – também assinada por Letícia Leão –, conta a história de Joana (Juliane Cruz), uma menina de sete para oito anos que vive com suas duas mães, Beatriz e Isabel (Carolina Godinho e Monique Vaillé, respectivamente), em Lumiar – uma cidade em meio à Mata Atlântica fluminense. Durante uma aula online sobre a reprodução dos ovíparos, um colega da turma de Joana faz uma pergunta sobre a reprodução dos humanos: “de onde vêm as crianças? Será que vêm da cegonha? Vêm em ovos?” A curiosidade se espalha para o restante da turma até que Nanda, amiga de Joana, parece ter a resposta e relembra quando sua mãe estava grávida de seu irmão. Agora, Joana precisava saber qual das suas duas mães a gestou. Ou será que era possível que ela tenha vindo de duas barrigas? 

O enredo se desdobra a partir das dúvidas de Joana e do acolhimento que suas mães oferecem ao encaminhar suas questões. A peça se relaciona, ao mesmo tempo, com o público infantil e adulto, lançando mão de dispositivos que prendem a atenção das/os pequenas/os por meio de uma linguagem acessível e interativa, além de abordar com coragem e honestidade temas como famílias LGBT+ e criação de filhas/os pela via da adoção. Assistimos ao dia a dia dessa família se desenrolar, com Isabel e Beatriz cuidando da alimentação e da higiene da filha, respeitando os momentos em que Joana prefere ficar sozinha, lembrando o horário da aula e de ir para a cama, sempre amorosas e brincalhonas  – momentos que dialogam diretamente com as crianças na plateia, vendo suas atividades diárias sendo ali encenadas e reforçadas. 

Juliane Cruz, Carolina Godinho e Monique Vaillé em apresentação única no 24º Festival Recife do Teatro Nacional com a peça Tem bastante espaço aqui. Foto: Marcos Pastich/PCR

Ao adentrar o teatro Apolo, durante o 24º Festival Recife do Teatro Nacional, já encontramos as três atrizes no palco repetindo uma cena de pique pega até que todas as pessoas da plateia tenham encontrado seus lugares. Atrás das atrizes, é possível ver cinco painéis brancos onde serão projetadas as aulas online e algumas imagens da natureza ao redor da casa de Lumiar, por exemplo, todas transmitidas como se estivessem sendo gravadas ao vivo. Embora a peça seja repleta de estímulos – interações com o público e as já mencionadas projeções –, eles não nos sobrecarregam com informações e nem resultam em um acúmulo irrefletido de acontecimentos: cada detalhe contribui para uma transição de cena, para a construção de vínculo com a plateia ou acrescenta uma camada de sentido ao espetáculo. 

Além de Joana e suas mães, a peça conta com ainda mais três personagens: o vento, o sol e o rio. Carolina Godinho e Monique Vaillé se transformam em elementos da natureza através dos criativos figurinos de Carla Ferraz e, em cenas que parecem saídas de um sonho – dada a beleza dos elementos cenográficos –, falam sobre a pluralidade das famílias, com breves mas importantes conselhos sobre como controlar a ansiedade e mensagem de conscientização sobre os efeitos do aquecimento global pinceladas entre os diálogos.

Na busca por sua origem, Joana descobre que o encontro com suas mães foi decidido após uma conversa sobre haver tanto espaço na casa e tanto amor entre elas, que poderia caber mais alguém ali. Tem bastante espaço aqui é daquelas peças de sair de coração quentinho e se perceber emocionada ao lembrar desse amor que transborda – tanto na cena entre as personagens, quanto entre as pessoas na plateia. Pais, mães, crianças, pessoas sozinhas ou casais: todos sorrindo com os olhinhos brilhando. Inclusive eu. 

* A cobertura crítica da programação do 24º Festival Recife do Teatro Nacional é apoiada pela Prefeitura do Recife.

Ficha técnica:
Idealização e dramaturgia: Letícia Leão
Direção artística/encenação: Juliana França e Letícia Leão
Elenco: Carolina Godinho, Juliane Cruz e Monique Vaillé
Direção de movimento: Camila Rocha
Direção musical: Dani Nega
Direção de imagem: Clara Acioli
Cenografia: Alice Cruz
Assistente de cenógrafa: Lara Aline
Operação de luz: Tayná Maciel
Operação de som e vídeo: Igor Borges
Figurino: Carla Ferraz
Visagismo e maquiagem: Diego Nardes
Assistente de visagismo: Lucas Tetteo e Nata Di Paula
Direção de produção: Monique Vaillé
Produção executiva: Nely Coelho
Assistente de produção: Thiago Miyamoto
Produção da logística do projeto: Fabíola Godoi
Produção de acessibilidade: Gaby Krüger
Administração financeira: Delas Cultural
Prestação de contas: Marejar Produções e Delas Cultural
Assessoria de imprensa: Monica Ramalho e Mario Camelo
Programação visual: Fernanda Varella e Pablo Meijueiro
Mídias sociais: Sofia Paiva
Imagens de videochamada retiradas do filme O Fundo dos Nossos Corações

Peça aborda com coragem e honestidade temas como famílias LGBT+ e criação de filhas/os pela via da adoção. Foto: Monica Ramalho

 

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Ferida escravocrata sangra no Brasil
Crítica de “Depois do Silêncio” (“Après le silence”),
de Christiane Jatahy

Espetáculo Depois do silêncio está em cartaz até 16 de dezembro no Centquatre Paris. 

 Atriz e performer indígena Lian Gaia, bisneta de João Pedro Teixeira, o líder da primeira Liga Camponesa da Paraíba. Foto Christiane Jatahy/ Divulgação 

Elenco do espetáculo, três atrizes e um ator músico. Foto: Divulgação

A escravidão no Brasil não acabou! Há muitas formas de dizer isso. De expor os resíduos disfarçados da escravatura. Ou “desenhar” o que já está escancarado do racismo estrutural, mas muitos insistem em não ver, teimam em negar. A diretora e cineasta brasileira Christiane Jatahy inspira-se num romance contemporâneo, junta trechos do documentário Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, práticas religiosas do Jarê, quatro artistas no palco, um filme autoral e numa linguagem só dela aponta as facas. Afiadas, como àquela que jogou fora a língua de Belonísia, uma das irmãs do romance Torto Arado, do geógrafo Itamar Vieira Junior, uma das referências da peça-filme Depois do silêncio (Après le Silence), em cartaz até 16 de dezembro no Centquatre Paris, associado ao Odéon para essa temporada.

Foram muitos cortes e são muitas feridas abertas, que nem sabemos até que ponto é possível negociar. O que é certo é que Depois do Silêncio vem com a urgência da fala. Os subalternizados querem falar sim.

Diante de qualquer impedimento vale o chute na porta. Pelo espaço para as vozes silenciadas há séculos. Belonísia, Bibiana, Santa Rita Pescadeira, Gal Pereira, Juliana França, Lian Gaia, Elisabete Teixeira, Salustiana, Donana, Maria Cabocla, misturadas entre personagens e gente, atravessadas umas pelas outras. E mais Aduni Guedes, Zeca Chapéu, Severo, João Pedro Teixeira e moradoras/es das comunidades de Remanso e Iúna na Chapada Diamantina, na Bahia, no Nordeste do Brasil, narradas em várias pessoas, descendentes de escravizados. 

Essas memórias emudecidas partem da fictícia região da Fazenda Água Negra para se expandir por muitos lugares do Brasil, que reivindicam o protagonismo de trajetórias, desejos e do próprio corpo. Que repudiam qualquer condição infame análoga à escravidão.

Jatahy expõe as contradições. Vastos territórios, grandes latifúndios indefensáveis enquanto tanta gente não tem onde morar ou trabalhar e consequentemente comer e viver. Sim é sobre terras. Sobre trabalho e dignidade. E o espetáculo aguça para a perversão que mora ali, como está no livro, das casas de barro que se desmancham com as chuvas, pois as de alvenaria estão proibidas pelos “patrões”. É para combater a opressão de trabalhar em troca de comida, um alimento cuja melhor parte vai para os donos das terras; quem labuta fica com as sobras.  

Para Christiane Jatahy o teatro é sempre político. Então essas coisas estão entrelaçadas na sua cena: a reivindicação camponesa dos sem-terra contra a ganância dos grandes proprietários e da ação de governos como o de Bolsonaro, que ainda não sabemos o tamanho do estrago causado aos territórios amazônicos com o desmatamento, nem a gravidade do impacto climático dessa necrogeopolítica. Tá tudo interligado, com prejuízos incalculáveis…

O Brasil pulsa dilacerado na cena da diretora brasileira; imenso e dilacerado, na luta do seu povo pela terra, pela liberdade de existir, por sua identidade. A criadora se situa no combate contra a violência colonial não resolvida.

Teatro e cinema dialogam na cena de Jatahy. Foto: Nurith Wagner / Divulgação

A encenação Depois do Silêncio é a terceira parte da Trilogia dos Horrores, que Jatahy iniciou em 2018, ano em que na política brasileira tudo começou a ficar pior. Uma forma artística de se posicionar, de alertar para as implicações na vida comum. Para investigar os mecanismos do fascismo, a artista ergueu Entre Cão e Lobo (Entre chien et loup, montado no Festival de Avignon em 2021 e inspirado no filme Dogville) e La Chute du Ciel, (Before the Sky Falls), criado na Schauspielehaus de Zurique em outubro de 2021), que conecta Macbeth de Shakespeare com A Queda do Céu de Davi Kopenawa e Bruce Albert para analisar a violência da masculinidade tóxica – do poder político do patriarcado, passando pela agressão contra o feminino e o ataque à natureza.

Para montar Depois do Silêncio a encenadora voltou ao Brasil para ensaiar no Rio de Janeiro e filmar na Chapada Diamantina, na mesma comunidade pesquisada por Itamar Vieira Junior para o livro Torto Arado. Essas gravações de conteúdo doc-ficional se cruzam com fragmentos de Cabra Marcado para Morrer, de Coutinho, que analisa as circunstâncias do assassinato do líder camponês João Pedro Teixeira, em 1962. O golpe militar que desencadeou na ditadura confiscou o filme e perseguiu os artistas. Eduardo Coutinho só concluiu as filmagens em 1984.

Todas essas informações estão na cena. Ou projetadas, ou narradas ou encenadas. Na combinação entre vocabulários teatrais e cinematográficos, a fricção avança em linhas tortuosas entre ficção e realidade, em jogos corporais, discursos, diálogos, provocações, numa partilha não-linear entre passado e presente.

A narrativa é complexa e rica e borra as histórias reais, os conteúdos documentais com o relato das próprias atrizes e do ator/músico para ampliar o escopo do particular para o coletivo.
Com uma escrita dramatúrgica/cênica singular plasmada entre o cinema e o teatro, com seus atores transitando entre os dois universos, a encenadora investe em casos específicos do Brasil para questionar as reverberações da situação do planeta – da terra e do clima – em outros lugares do mundo, porque parece que existe pontos comuns e comunicação entre os oprimidos de todos os lugares do globo.

Juliana França trabalha vários registros na sua atuação. Foto Nurith Wagner Strauss  Divulgação

No início do espetáculo, a atriz Juliana França dá boa noite em português, repete e aponta para a legenda em francês. Fala que estamos muito aliviadas com o resultado das eleições presidenciais no Brasil – que deu vitória a Luiz Inácio Lula da Silva contra Jair Bolsonaro. Aliás a ascensão dessa figura de extrema direita destampou no país um fascismo latente – que não por coincidência eclodiu em várias partes do mundo.

É desconcertante quando Juliana fala das terras do Brasil (com imagens exuberantes no telão). Só o tamanho da Chapada Diamantina é maior que a Bélgica. E quando esmiúça para a plateia que o governo francês manteve um departamento nessa área do Nordeste para enviar as preciosidades brasileiras para a França.

 Juliana França e Lian Gaia num dos momentos da palestra. Foto: Divulgação

Acompanhadas pelo percussionista Aduni Guedes (um pernambucano que Berlim adotou), dividem o palco Juliana França, Lian Gaia (atriz e performer indígena, bisneta de João Pedro Teixeira, o líder da primeira Liga Camponesa da Paraíba) e Gal Pereira. As três atrizes brasileiras se instalam atrás de mesas como palestrantes, em momentos distintos; enquanto um imenso telão que ocupa toda a largura do palco projeta as imagens.

As artistas mudam de registro, falam como se fossem improviso e nos convencem disso, passam para as falas ensaiadas e essas nuances estão intimamente ligadas ao som tocado ao vivo e aos filmes em que elas praticamente entram quase como passe de mágica. As vozes levantam o tom para defender seus direitos, pleitear pela dignidade humana. O grupo mostra revolta ao tratar de injustiça, abuso de poder, falta de oportunidades, perseguições, assassinatos, opressão.

E dentro da opressão são reveladas opressões noutros cruzos, alimentadas pelo patriarcado e masculinidade tóxica. As mulheres sofrem mais violências inclusive dentro da própria comunidade.

Atriz Gal Pereira. Foto: Christophe Raynaud De Lage  / Divulgação

Das festas religiosas e das danças sagradas, o jarê é convocado em alguns momentos. Mas a cena mais surpreendente é quando a atriz Gal Pereira, selecionada pela diretora durante um laboratório na comunidade quilombola do Remanso, assume o transe, ao toque do couro.

Essa breve e impactante cena carrega muitas camadas, desde a sabedoria popular que foi marginalizada ao ethos da oralidade. O Jarê é, segundo uma reportagem da revista Carta Capital, o “candomblé de caboclos” típico da Chapada Diamantina. Ele faz uma síntese particular do espiritismo kardecista, das influências africanas e indígenas, dos índios Cariris e Maracás em suas performances xamânicas.

Maestrina, Jatahy acelera e desacelera ritmos, acentua melodia, o tom dos corpos numa execução afiada, ousada e politicamente posicionada. Trabalha a porosidade da confluência das linguagens cênica e cinematográfica em seus dispositivos. Sabe a hora do ataque e da defesa, de fazer o corte e amplificar as vozes.

Depois do silêncio é preciso falar. Muito. Do que ficou engasgado por séculos. Testemunhar, denunciar e esperançar vibrando na utopia do futuro.

A criadora habilmente dá drible estonteante mais uma vez no desfecho tão aberto a interpretações. É quando ecoa, de alguma forma, a frase final do romance que diz “Sobre a terra há de viver sempre o mais forte”. Para refletir… E, por final, mas não menos importante, é uma alegria assistir a mais um trabalho dessa artista, de visão e sensibilidade tão potentes a projetar no mundo suas inquietações e contrapor qualquer possibilidade de narrativa única. 

Depois do silêncio (Après le silence)
em português, com legendas em francês
Duração 1h50
Até 16 de dezembro, de terça a domingo
no Centquatre Paris 104.fr
Quarta-feira, 14 de dezembro, após o espetáculo Encontro com a equipe artística
duração: 45 min

Direção artística e texto: Christiane Jatahy
Baseado no livro: Torto arado de Itamar Vieira Júnior
Com Gal Pereira, Juliana França, Lian Gaia, Aduni Guedes
Filmagem com moradores das comunidades de Remanso e Iúna (Chapada Diamantina/Bahia/Brasil)
Set e light design: Thomas Walgrave
Música: Vitor Araujo, Aduni Guedes
Fotografia e câmera: Pedro Faerstein
Sonorização e mixagem: Pedro Vituri
Montagem (filme): Mari Becker, Paulo Camacho
Som (filme): João Zula
Figurinos: Preta Marques
Sistema de vídeo: Julio Parente
Preparação corporal: Dani Lima
Colaboração texto: Gal Pereira, Juliana França, Lian Gaia, Tatiana Salem Levy
Interlocução: Ana Maria Gonçalves
Tradução: Igor Metzeltin (Alemão, Inglês)
Assistência de direção: Caju Bezerra
Assistência de câmera: Suelen Menezes
Operação de som: Diogo Magalhães
Operação de luz: Leandro Barreto
Operação de vídeo: Alan de Souza
Direção de produção: Claudia Marques
Assistência de produção: Divino Garcia
Coordenação de produção e tour management: Henrique Mariano
Administração: Claudia Petagna
Referências e imagens: Cabra marcado para morrer de Eduardo Coutinho, produção Mapa Filmes

Produção: Cia Vertice – Axis productions
Coprodução: Schauspielhaus Zürich, Le CENTQUATRE-Paris, Odéon-Théâtre de l’Europe –
Paris, Wiener Festwochen, Piccolo Teatro di Milano – Teatro d’Europa, Arts Emerson – Boston, RiksteaternSweden, Théâtre Dijon-Bourgogne CDN, Théâtre National Wallonie-Bruxelles, Théâtre Populaire Romand – Centre neuchâtelois de arts vivants La Chaux-de-fonds, DeSingel – Antwerp, Künstlerhaus Mousonturm – Frankfurt a.M., Temporada Alta Festival de tardor de Catalunya and Centro Dramatico National – Madrid.
Christiane Jatahy é artista associada ao CENTQUATRE-PARIS, à l’Odéon-Théâtre de l’Europe, Schauspielhaus Zürich, Arts Emerson Boston and Piccolo Teatro di Milano – Teatro d’Europa.

 

Este texto integra o projeto arquipélago de fomento à crítica, com apoio da Corpo Rastreado.

Iniciativa de crítica teatral.

 

 

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