Arquivo da tag: Isabelle Huppert

A peça íntima em Milo Rau
Crítica: A Carta
Por Ivana Moura

A carta participou da programação internacional da 11ª MITsp. Foto: Guto Muniz / Divulgação

A obra Milo Rau chega aos festivais internacionais, como a MITsp, acompanhada de um vocabulário já tão bem articulado – memória, reparação, povo, manifesto, escuta, presença – que a recepção tende a repetir o que o dispositivo já declara sobre si. Não é exclusividade da peça. Muitas criações culturais que se anunciam – livros, filmes, teatro – oferecem um caminho já pavimentado, uma linguagem já disponível. O que distingue Rau é a precisão com que ele faz isso no teatro. O resultado é que frequentemente fala-se sobre o espetáculo usando exatamente as palavras que ele mesmo forneceu, como se a análise fosse uma confirmação. Com A Carta, esse mecanismo se torna mais sutil, pois a montagem se anuncia como proximidade e reaprendizado do teatro. 

A recepção, nesse contexto, é convidada a participar de uma conversa internacional em que as obras precisam chegar acompanhadas de sua própria tradução conceitual. Quando Rau fala em “escuta”, “comunidade” e “proximidade”, oferece à recepção global um conjunto de palavras que funcionam em muitos contextos, que soam bem em “qualquer” idioma, que não exigem mediação local. A recepção encontra nessas palavras uma forma de legitimidade: ao usá-las, participa de uma linhagem de pensamento sobre teatro político.

Em A Carta, essa dinâmica se intensifica porque a redução de escala parece oferecer uma abertura maior. Uma peça pequena, íntima, que convida o público a participar, que promete escuta e comunidade. Importa, então, perguntar: quando a peça fala em “escuta”, o que ela efetivamente escuta? Quando promete “comunidade”, que tipo de comunidade ela produz? Quando se oferece como “proximidade”, qual é a distância que ela mantém?

Nas peças anteriores de Rau, o atrito aparecia mais imediatamente na própria matéria cênica. Em 2019, quando foi Artista em Foco da 6ª MITsp, ele veio a São Paulo com três peças que já vinham carregadas de alta combustão formal e ética. A Repetição. História(s) do Teatro (I) girava em torno da reencenação de um assassinato homofóbico. Cinco Peças Fáceis colocava crianças a reenquadrarem, por meio de jogos teatrais, eventos de violência extrema. Compaixão. A História da Metralhadora tensionava a retórica humanitária europeia e sua relação com a violência colonial e militar. Ali, a questão se impunha de saída: eram trabalhos construídos a partir de temas-limite, com forte aparato conceitual e cenicamente voltadas à fricção entre documento, representação e violência.

Na montagem A Carta, o mecanismo é mais sinuoso. O espetáculo troca o choque frontal pela intimidade, o grande dispositivo pelo formato reduzido, a catástrofe histórica pela herança biográfica. Seu deslocamento é de escala e de função. Rau reduz os meios e tenta reinscrever o teatro no campo da proximidade, da itinerância e da comunidade, operações já familiares ao seu trabalho: a biografia como matéria de cena, a oscilação entre documento e ficção, a presença do comentário metateatral, a convocação do real como garantia de densidade, a ambição de fazer do dispositivo um argumento. O que antes aparecia em escala monumental retorna aqui comprimido, adaptado a uma nova economia de circulação. Essa redução responde a um contexto de esgotamento relativo de uma certa escala do teatro político europeu, a um programa curatorial específico (Pièce Commune / Volksstück) e à necessidade contemporânea de leveza técnica e mobilidade.

Assistimos a Familie e Grief and Beauty (leia aqui) em Paris, em fevereiro de 2023, e a Antígona na Amazônia (leia aqui) em Avignon, em julho de 2023. Visto em perspectiva, A Carta adquire outro relevo quando comparada com esses trabalhos. Em Familie, o cotidiano era levado a um ponto de saturação insuportável: uma família de atores reencenava a rotina banal que antecede um suicídio coletivo, e a força da cena vinha do atrito entre naturalismo, repetição e catástrofe. Em Grief and Beauty, com a presença de Arne de Tremerie no elenco, a morte escolhida e sua moldura hiper-realista faziam a cena oscilar entre intimidade e exposição extrema. Em Antígona na Amazônia, o embate com a luta pela terra e com a maquinaria histórica da violência brasileira recolocava a escala geopolítica no centro do trabalho. Em todos esses casos, havia uma fricção mais áspera entre forma e matéria. Em A Carta, essa fricção cede lugar a outra economia: mais móvel, mais leve, mais relacional.

Em cena Arne de Tremerie e Olga Mouak. Foto: Guto Muniz / Divulgação

O espetáculo A Carta é estruturado em torno de dois atores, Arne de Tremerie e Olga Mouak. A engenhosidade da peça está em como ela tece as duas biografias: a herança de Arne, ligada ao teatro europeu e a Tchékhov, e a herança de Olga, marcada pela colonialidade e pelo deslocamento. Mas essa inteligência não elimina uma assimetria decisiva. Arne comparece a partir de uma herança legível dentro do repertório europeu: Tchékhov, vocação artística da avó, transmissão interrompida entre gerações, entrada no teatro como continuidade e ruptura. Olga comparece a partir de outra setor: colonialidade, racialização, sofrimento psíquico, violência sobre o corpo feminino, avó camaronesa, morte pelo fogo, e a ponte com Joana d’Arc, figura já absorvida e disputada pela história francesa.

O que reflito não é se a peça “representa bem” essas histórias, mas o que ela faz ao colocá-las sob a mesma chave de leitura. Arne entra em cena como herdeiro de uma tradição reconhecível; Olga entra como portadora de uma fratura. Quando a peça as insere no mesmo regime de teatralização, a assimetria corre o risco de ser domesticada pela forma. A violência colonial tende a perder sua densidade histórica e se torna matéria de equivalência. E circula como intensidade sensível, como material que emociona de maneira que a história fica suspensa. Ao universalizar a diferença sob o signo da memória, a peça a torna circulável sem que sua origem seja realmente aprofundada.

O riso, em vez de tensionar o material, ele frequentemente o acomoda, convertendo traços de violência, desordem psíquica e exclusão histórica em elementos de uma dinâmica cênica fluente. A leveza administra a passagem entre materiais heterogêneos, tornando-os mais transmissíveis e menos perturbadores. 

Participação do público no espetáculo A carta. Foto: Guto Muniz / Divulgação

Já o caráter participativo, vejo em conexão com a promessa de teatro popular que cerca o espetáculo. Convocar espectadores a ler, anunciar e ocupar provisoriamente lugares na cena pode produzir uma redistribuição sensível do acontecimento; mas também pode funcionar como pedagogia da simpatia. 

O mecanismo é direto. Pessoas da plateia assumem papéis específicos – um médico alcoólatra, um autoproclamado intelectual, um anunciador de atos como rounds de boxe. O exercício pode parecer divertido. Mas o público é integrado sem que a hierarquia do procedimento seja realmente perturbada. A comunidade aparece, mas aparece já organizada, já traduzida, já tornada compatível com a fluidez do evento. 

A presença de A Carta na MITsp 2026 requer mais do que reconhecimento autoral. Em 2019, quando Rau foi Artista em Foco, o trabalho se ancorava em violência, reencenação e impasse ético. Seu retorno com uma peça de pequena escala, mobilidade técnica e promessa de intimidade coloca outra questão. Não basta a etiqueta de “teatro popular” nem a elegância do projeto. Num contexto como o brasileiro – marcado por disputas concretas em torno de território, memória, violência de Estado e desigualdade estrutural – a importação de uma forma europeia de escuta crítica corre o risco de funcionar menos como interlocução efetiva com as urgências do presente e mais como revisão do próprio centro, agora em escala reduzida. Quando uma peça europeia chega a São Paulo com a promessa de reencontrar a essência do teatro através da intimidade, é preciso perguntar: para quem essa intimidade é possível? Sob que proteções institucionais ela se sustenta?

FICHA TÉCNICA
Direção: Milo Rau
Texto: Milo Rau e equipe
Com: Arne de Tremerie, Olga Mouak
Vozes: Anne Alvaro, Isabelle Huppert, Jocelyne Monier, Marijke Pinoy
Dramaturgia: Giacomo Bisordi
Assistentes artísticos: Giacomo Bisordi, Edward Fortes
Cenografia, concepção sonora, concepção de luz, figurinos e adereços: Milo Rau, Giacomo Bisordi
Assistente de figurinos e adereços: Julie Louvain
Direção técnica: Laurent Berger
Responsável pelo som: Nadal Marchal
Produção: Festival d’Avignon
Coprodução: Éclat – Centre National des Arts de la Rue et de l’Espace Public (Aurillac), Théâtre de la Manufacture – Centre Dramatique National Nancy Lorraine, Théâtre Silvia Monfort (Paris), Théâtre Public de Montreuil – Centre Dramatique National, Théâtre du Champ au Roy – Scène Conventionnée d’Intérêt National Art & Création (Guingamp), Le Canal Théâtre de Redon – Agglomération Scène Conventionnée d’Intérêt National, CCAS Activités Sociales de l’Énergie, Scène 55 – Scène Conventionnée d’Intérêt National Art & Création (Mougins), Théâtre Durance – Scène Nationale (Château-Arnoux-Saint-Auban), La Soufflerie – Scène Conventionnée de Rezé
Com apoio de: Fondation d’Entreprise AG2R LA MONDIALE pour la Vitalité Artistique
Agradecimentos: Odéon Théâtre de l’Europe (Paris), Stéphane Braunschweig e o time do La Mouette, Les Plateaux Sauvages (Paris), La Commune – Centre Dramatique National d’Aubervilliers

Postado com as tags: , , , , , , , , , , , , ,