
Vika Schabbach, interpreta Olga Knipper, viúva de Tchekhov e primeira atriz do Teatro de Arte de Moscou
“Para que serve a arte quando o mundo está em chamas?” Foi com essa pergunta que @ticatezza (Marianne Consentino) abriu, em seu perfil no Instagram, um carrossel dedicado a Neva. A questão não é nova. O mote atravessa o texto escrito pelo dramaturgo chileno Guillermo Calderón em 2005 e também a crítica publicada por Ivana Moura aqui no Satisfeita, Yolanda? em 19 de outubro de 2025, sobre a montagem dirigida por Marianne Consentino, apresentada no Teatro Lyceu Neves durante o Feteag.
Para Ivana Moura (eu sou ela, mas vou me tratar na terceira pessoa, às vezes), a peça “se afirma como um espetáculo de complexa densidade, que questiona os limites e contradições entre arte e política, entre a necessidade de criar e a urgência de agir”. Em minha leitura, a montagem coloca em cena o amor pelo ofício teatral (a entrega ao palco, o desejo de interpretar) ao mesmo tempo em que expõe as acomodações que a arte costuma usar como justificativa, os desencontros entre a criação e o engajamento político e a fragilidade de uma prática efêmera que precisa reafirmar sua relevância o tempo todo.
A ação se passa num teatro de São Petersburgo, em 9 de janeiro de 1905, o Domingo Sangrento. Enquanto três atores esperam pelos colegas que nunca chegam para o ensaio de O Jardim das Cerejeiras, de Tchekhov, manifestantes que marchavam pacificamente para entregar uma petição ao czar são fuzilados pela Guarda Imperial – episódio que se tornaria o estopim da Revolução Russa de 1917. No centro da cena está Olga Knipper, viúva de Tchekhov e primeira atriz do Teatro de Arte de Moscou. Seis meses após a morte do marido, ela não consegue mais representar e repete obsessivamente a cena da agonia dele, ao lado de Masha e Aleko, presa entre o luto pessoal e a catástrofe coletiva.
É nesse embate que minha crítica enxerga uma “metáfora potente para os dilemas do artista contemporâneo diante das crises sociais e da constante necessidade de justificar a existência da arte em meio ao caos”. Enquanto a protagonista insiste em buscar o fio da sua personagem, o mundo desmorona do lado de fora do teatro. Sobre o elenco, Ivana Moura escreve: “Vika Schabbach constrói essa complexa protagonista com notável sensibilidade e leveza, expondo as nuances das contradições de uma atriz que exterioriza suas próprias inseguranças através da arte.” O texto também ressalta a cumplicidade dos intérpretes em cenas que recriam a intimidade de uma sala de ensaio, onde os limites entre pessoa e personagem se dissolvem.
Por trás da cena, uma pesquisa
A escolha de Neva por Consentino está vinculada à sua pesquisa artística de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia (UFBA), sob supervisão da professora Sonia Rangel, da qual resultou o artigo Neva no Nordeste? Cineficação e politemporalidade em cena, publicado na Revista Repertório. No texto, Consentino e Rangel descrevem o procedimento que estrutura a encenação: a cineficação da cena – a entrada de elementos do cinema no teatro, como projeções, legendas e vídeos – usada para adensar o texto de Calderón.
As imagens projetadas trabalham por contraste e ironia: a escadaria de Odessa de O Encouraçado Potemkin, de Eisenstein; filmes de propaganda da era stalinista; e vídeos contemporâneos que registram a violência e a opressão no Brasil e na América Latina, incluindo cenas de atos bolsonaristas. O percurso aproxima, num mesmo gesto, a repressão czarista de 1905, os autoritarismos do século 20 e as manifestações neofascistas do presente.
Devorar referências: a plagiocombinação
Um dos momento mais fortes da montagem é a entrada do Grupo Magiluth em cena. Um trecho de Estudo Nº 1 – Morte e Vida, espetáculo do grupo pernambucano inspirado no poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, é citado dentro de Neva – um espelho que se abre dentro do próprio espetáculo e faz a peça perguntar onde termina a criação e onde começa a citação.
A operação tem nome: plagiocombinação, conceito cunhado pelo músico Tom Zé. A definição formal vem da dissertação de Fábio Salvatti, citada por Consentino e Rangel no artigo:
“A plagiocombinação é uma estratégia de construção de um objeto estético na qual se reconfiguram fragmentos de obras preexistentes” – uma estratégia que, segundo o mesmo autor, “não pode se encerrar num conjunto de passos (numa receita) a se adotar, mas sim, assume o aspecto de um mapa caótico e indeterminado”.
Em cena, isso se materializa na figura do Astronauta. Guilherme Mergulhão veste o mesmo figurino do ator Lucas Torres em Estudo Nº 1, diz o mesmo trecho do poema, e a última estrofe é declamada em uníssono com o ator do Magiluth projetado em vídeo. A intenção, registram as pesquisadoras, foi sublinhar o princípio de diferença e repetição da história e lançar a pergunta: “até quando seremos ‘muitos Severinos’?”
O gesto tem origem documentada. Em janeiro de 2025, Consentino assistiu, em Santiago, à palestra de abertura do festival Platea 25, na qual Calderón projetou imagens do Brasil e do Chile – de Baby do Brasil cantando A menina dança a cenas do Estallido Social – e provocou: “Por que fazemos teatro?”. Para Consentino e Rangel, ainda que essa referência chegue ao público de forma indireta, ela “não deixa de ser um procedimento de plagiocombinação”. A mesma lógica antropofágica aparece na metodologia da pesquisa, quando citam Rolnik: “o cartógrafo é um verdadeiro antropófago: vive de expropriar, se apropriar, devorar e desovar, transvalorando”.
Arte em tempos de colapso
Na leitura de Ivana Moura, a montagem atualiza a urgência do texto de Calderón para o contexto latino-americano. A memória das ditaduras e o papel do teatro em reavivar essa memória traumática encontram na encenação uma pulsação cênica complexa. Para o grupo que construiu o espetáculo como pesquisa – como escreve @ticatezza no Instagram -, é especial ver o trabalho reverberar também no olhar de quem o assiste.
Neva
Direção: Marianne Consentino
Dramaturgia: Guillermo Calderón
Elenco: Vika Schabbach, Igor de Almeida, Gardênia Fontes e Guilherme Mergulhão


