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O corpo como documento
e o tribunal da memória
Crítica: Quem matou meu pai
Por Ivana Moura

Édouard Louis assume o papel de si mesmo em Quem matou meu pai. Foto Silvia Machado / MITsp 2026

Quem matou meu pai, na encenação de Thomas Ostermeier com Édouard Louis em cena, se constrói a partir de um gesto aparentemente simples mas avassalador: transformar o retorno do filho à casa do pai numa investigação sobre como a violência social se inscreve nos corpos. O que está em jogo ultrapassa a reconstituição de uma história familiar. A peça expõe uma engrenagem em que classe, masculinidade, trabalho e sexualidade deixam de ser assuntos paralelos e passam a operar como forças que se reforçam mutuamente.

A montagem aposta justamente nessa concentração. Em vez de ilustrar o livro de forma expansiva, escolhe fixar a atenção sobre um corpo, uma voz, poucos objetos e algumas imagens decisivas. A economia de meios produz nitidez. Tudo parece disposto para que o público perceba que, ali, o íntimo é a forma mais concreta do político.

O primeiro aspecto decisivo é a presença do próprio Louis em cena. Sua atuação altera o pacto de recepção. Não se trata do virtuosismo de quem representa um sofrimento, mas da exposição de alguém que se apresenta como portador daquilo que narra. Ainda assim, é importante não romantizar essa presença como se ela fosse puro acesso bruto ao real. Louis também constrói sua aparição, escolhe o que mostrar, o que reter, como dosar a fala, o humor, a pausa, o close, a vulnerabilidade. A autenticidade aqui é forma trabalhada como efeito de verdade.

Essa operação é potente porque o espetáculo ganha em franqueza o que perde em variação. O ritmo por vezes monocórdio, a emissão pouco modulada, a corporalidade não virtuosa criam um regime de presença em que a fala parece menos interpretada do que assumida. Mas a peça não é ingênua nesse ponto. Ela sabe que a autenticidade também é uma performance. E talvez sua força venha justamente dessa tensão entre testemunho e construção.

O trabalho de Ostermeier organiza essa presença sem recobri-la. A cena é mínima: laptop, cadeira, sofá, roupas casuais, espaço quase nu, além de imagens projetadas que acompanham o percurso da memória. Há, sobretudo, a imagem da estrada, que funciona como eixo simbólico da encenação. A projeção contínua de uma via cortando a paisagem rural francesa estabelece o tom do retorno. Não é apenas o caminho de volta para casa; é a figura de um retorno impossível. O filho volta, mas não pode reencontrar o mesmo lugar, porque o tempo, o trabalho e a violência já deformaram tudo. O pai já não é o pai da memória. O corpo agora é outro: quebrado, encurtado, prematuramente incapacitado.

É nesse ponto que a questão de classe se impõe como fundamento da obra de Édouard Louis e, também, desta encenação. Em Quem matou meu pai, a classe não aparece como pano de fundo sociológico, mas como força estruturante da subjetividade. O pai, esse homem duro, é um corpo produzido por determinadas condições históricas de trabalho, por uma cultura operária atravessada pela precariedade, pela humilhação e pelo desgaste físico. Fábrica, desemprego, benefícios cortados, reformas do Estado, dificuldade de mobilidade social. Tudo isso constitui a situação material da família e também seu repertório emocional.

Essa é uma das grandes qualidades do texto e da montagem. Mostrar que a brutalidade é um modo de sobrevivência e, ao mesmo tempo, uma forma de reprodução da opressão. A pobreza não aparece apenas como falta de dinheiro. Ela se manifesta como escassez de tempo, de linguagem, de repertório, de margem para delicadeza, de possibilidade de imaginar outros modos de existir. Numa família pobre, esmagada pelo trabalho e por sucessivas perdas, a masculinidade endurecida não é um detalhe cultural; é uma tecnologia precária de defesa. Uma defesa destrutiva, mas ainda assim defesa.

Mas há uma questão crucial: a classe do pai é a mesma classe do filho? O filho saiu da classe operária. Ele ganhou linguagem, educação, capital cultural. Ele agora circula em festivais internacionais, publica livros, é reconhecido como intelectual. Ele não é mais da classe operária.

Então, quando Louis volta para acusar a classe que o oprimiu, ele está falando de dentro ou de fora? Há uma diferença política importante aí. A denúncia de Louis é uma denúncia de classe, ou é uma denúncia de quem saiu da classe e agora a observa de fora, com a distância e o privilégio de quem conseguiu escapar?

A peça não ignora essa questão – ela a encena. Mas talvez não a resolva completamente. Há algo de ambíguo em Louis estar em cena, falando sobre a destruição do pai, enquanto ele mesmo é o exemplo vivo de mobilidade social bem-sucedida. Essa mobilidade pode ser lida como conquista pessoal, mas também como traição de classe. 

Encenação de Thomas Ostermeier. Foto Silvia Machado / MITsp 2026

Ao mesmo tempo, a peça não cai no determinismo fácil. O pai é vítima da estrutura, mas não deixa de ser agente da violência. Essa tensão é importante. Historicizar a homofobia e a dureza masculina não significa absolvê-las. Significa compreendê-las na espessura concreta em que surgem. O espetáculo é mais forte quando mantém essa duplicidade. O pai é ferido e fere; é esmagado e reproduz esmagamento.

Daí a importância da genealogia da masculinidade que a peça desenha. Há o pai, há o pai do pai, e há Édouard. Não são apenas três indivíduos, mas três posições numa cadeia de transmissão da dureza. O avô surge como sombra de um regime masculino mais fechado, mais autoritário, mais impermeável à expressão afetiva. O pai aparece como herdeiro e vítima desse regime; ele reproduz a norma ao mesmo tempo que é destruído por ela. Sua identidade masculina depende do trabalho pesado, da autoridade doméstica, da recusa ao sensível. Mas o mesmo mundo que exige isso dele é o mundo que o quebra fisicamente. O filho, então, ocupa o lugar da falha e da crise; aquele cujo corpo, voz, gosto e desejo não se acomodam à forma dominante do masculino.

A peça é perspicaz ao mostrar que a sexualidade de Édouard, dentro dessa família careta, pobre e com pouco repertório intelectual, não surge como “diferença individual”, mas como ponto de colapso de uma ordem doméstica inteira. Se ser homem é a única forma de conservar alguma dignidade num universo de humilhação de classe, qualquer fissura nessa identidade se torna intolerável. O filho é interpretado como ameaça porque torna visível que aquele ideal de masculinidade não é natural: é uma construção frágil, violenta, sustentada à força.

É aí que entra a camada psicológica mais funda do espetáculo. O jovem que se vê julgado, vigiado, ridicularizado por sua sexualidade vive  a dor da rejeição, mas vive também a experiência devastadora de perceber que o amor familiar pode ser condicional. A homofobia doméstica produz efeitos profundos: vergonha, medo, ressentimento, desejo de fuga, necessidade desesperada de aprovação, culpa por decepcionar, raiva por precisar pedir licença para existir. Louis trabalha bem essa zona afetiva porque não purifica seus sentimentos. Ele não se apresenta como vítima angelical. O que aparece é um sujeito dilacerado por afetos contraditórios. Ele quer escapar da família, mas quer ser reconhecido por ela; quer denunciar o pai, mas também protegê-lo; sente amor, ressentimento, piedade, culpa, ternura e ódio em proporções instáveis.

Essa ambivalência é um dos maiores trunfos de Quem matou meu pai. A peça entende que o sofrimento não produz discernimento espontâneo. E talvez seja por isso que um dos momentos mais fortes seja justamente a admissão da vingança. Quando Louis relata que, depois de ter sido ferido pelo comentário da mãe – reproduzindo o juízo da vizinhança sobre haver “um viado” na família -, provoca uma briga entre o pai e o irmão, a dramaturgia abandona a zona confortável da denúncia linear e entra num terreno mais incômodo. Aqui, a obra rejeita a imagem da vítima íntegra e moralmente superior. Mostra como a humilhação pode se internalizar e retornar sob a forma de cálculo, crueldade e retaliação íntima.

Esse movimento é central porque revela que a violência social não se limita a descer de cima para baixo; ela se infiltra nos vínculos, contamina afetos, redistribui-se na escala doméstica. O sofrimento não eleva automaticamente ninguém. Às vezes, deforma. E reconhecer isso é uma das qualidades mais rigorosas de Louis. Ao mesmo tempo, a peça também não faz dessa vingança uma absolvição. Ela a expõe como gesto compreensível, mas perturbador. O filho também faz escolhas. O filho também pode ferir. Isso complexifica a narrativa sem dissolver a assimetria de poder que a originou.

Trilha sonora pop permite que Louis  imite seus ídolos. Foto Silvia Machado / MITsp 2026

A trilha sonora e a cultura pop cumprem papel decisivo nessa arquitetura afetiva. A presença de Aqua ajuda a compor uma atmosfera sarcástica e crítica disfarçada de diversão; enquanto Britney Spears e, sobretudo, Céline Dion, por meio de My Heart Will Go On, vem com o registro da memória sentimental compartilhada, do melodrama, do gosto interditado, daquilo que pode ser vivido como “coisa de viado” ou “coisa que homem não faz”. Quando Louis dubla, canta, brinca, dá close, ele está encenando um corpo dissidente, cuja performance pop tensiona a disciplina do masculino operário.

Nesse sentido, o episódio de Titanic é exemplar. Sim, há algo de clichê nele, mas é um clichê bem-construído. O menino deseja o filme; o pai decreta que aquilo não é “coisa de homem”; mais tarde, o filme aparece num combo, e a lembrança retorna como dobra afetiva inesperada. Ao som de Céline Dion, o espetáculo toca numa memória sentimental coletiva para reabrir, em escala íntima, a pergunta sobre o que a masculinidade proibiu ao pai e ao filho. O melodrama, aqui, é forma de acesso a uma verdade afetiva que o discurso político sozinho não alcançaria. O pedido de perdão e o “tudo bem” não cancelam a violência, mas suspendem por um instante a lógica do dano absoluto. Essa suspensão não reconcilia plenamente, mas humaniza.

O risco de manipulação emocional existe, claro. Mas talvez seja mais interessante reconhecer que a peça usa a emoção como instrumento de pensamento. Ela sabe que não basta enumerar reformas, cortes e nomes de ministros. É preciso fazer sentir o que essas políticas produzem no corpo, no amor, no desejo, na memória de um filho e na ruína de um pai.

Políticos franceses são apontados como responsável pela destruição do saúde do pai de Louis 

É por isso que o “J’accuse” final funciona com tanta força. Quando Louis nomeia Hollande, Valls, El Khomri, Hirsch, Sarkozy, Macron, Bertrand, Chirac – ou variações da lista conforme a circulação da montagem -, o teatro se transforma em tribunal. Cada nome rompe a abstração da política e devolve rosto e responsabilidade àquilo que tantas vezes aparece como fatalidade econômica. O corpo destruído do pai deixa de ser “caso triste” para se tornar denúncia histórica. A peça insiste: a história do sofrimento tem nomes. A história do corpo denuncia a história política.

É certo que há aí uma inflexão didática. Depois de tanta ambiguidade afetiva, de tanta complexidade psíquica e de tanta espessura moral, a enumeração direta de responsáveis pode parecer uma simplificação. Mas essa frontalidade também cumpre uma função: impedir que a plateia saia apenas comovida. O espetáculo rejeita a leitura puramente íntima. Obriga o público a conectar a lágrima ao orçamento, o afeto à lei, o adoecimento ao Estado. Em vez de diluir a política em metáfora, recoloca a política como mecanismo concreto de produção de sofrimento.

Essa opção recoloca outra tensão importante: a da gentrificação do trauma – o processo pelo qual a dor de classe é transformada em espaço de consumo cultural de elite. Quando uma obra como essa circula em festivais prestigiados, diante de plateias intelectualizadas, surge inevitavelmente a pergunta sobre o destino da dor operária quando transformada em valor cultural. Até que ponto o espetáculo denuncia uma violência real e até que ponto essa mesma violência é domesticada e assimilada pelo próprio sistema que a acolhe? A contradição existe e não deve ser apagada. Há algo de desconfortável – e talvez inevitável – em ver a dor operária ser consumida como objeto de prestígio por quem, muitas vezes, está protegido das condições materiais que ela denuncia. 

Mas talvez seja interessante não oferecer solução para essa contradição, mas em forçar a plateia a habitá-la. Édouard Louis denuncia o sistema enquanto circula por ele, levando para os salões respeitáveis da literatura e do teatro internacional corpos e histórias que normalmente são expulsos do debate público. Não há pureza nisso, mas há fricção – e essa fricção importa. Porque o espetáculo pode, sim, falar para convertidos, mas pode também deslocar o olhar de quem nunca se viu obrigado a pensar que, para a classe trabalhadora, política nunca foi abstração: sempre foi pão, coluna, remédio, exaustão, vergonha, sobrevivência.

Quem Matou Meu Pai é um espetáculo que não oferece pureza política, não oferece inocência psicológica, não oferece catarse fácil. Oferece uma pergunta insistente e incômoda: quem matou meu pai? E devolve ao espectador a resposta mais dura: às vezes não foi um indivíduo, mas um conjunto de políticas, uma classe em guerra contra outra, uma masculinidade que mutila para sobreviver, uma família que ama mal porque aprendeu a viver sob privação. Para certas vidas, política nunca foi conceito. Sempre foi corpo.

FICHA TÉCNICA
De Édouard Louis
Direção: Thomas Ostermeier
Com: Édouard Louis
Vídeo: Sébastien Dupouey, Marie Sanchez
Cenografia: Nina Wetzel
Figurino: Caroline Tavernier
Composição: Sylvain Jacques
Dramaturgismo: Florian Borchmeyer, Elisa Leroy
Produção: Anne Arnz, Elisa Leroy
Iluminação: Erich Schneider
Assistência de direção: Elisa Leroy, Amalia Starikow
Assistência de cenografia: Felix Remme
Gerente de palco: Roman Balko

Quem Matou Meu Pai é uma produção da Schaubühne Berlin e do Théâtre de la Ville Paris.
Apoiado pelo Departamento do Senado para Cultura e Europa (Berlim, Alemanha)

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