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Como é bom este tal de ócio…

Montagem tem texto de Ariano Suassuna e direção de João das Neves

Elogio ao “ócio criador do poeta”, Farsa da boa preguiça é uma das obras-primas de Ariano Suassuna. A peça foi escrita em 1960, cinco anos após Auto da Compadecida. O texto é composto de três atos que podem ser representados de forma independente. Seguindo a tradição medieval, Suassuna termina cada ato com um exemplo, uma lição. A montagem do encenador João das Neves transforma as três pequenas histórias exemplares numa verdadeira festa nordestina. Essa versão estreou em 2009, quando o diretor completou 50 anos de carreira. De hoje a sábado, estará no Teatro de Santa Isabel.

“Há um ócio que é puro desperdício. Mas há outro tipo de ócio que é necessário para a atividade criadora”, comenta o diretor, um dos fundadores do Grupo Opinião, um marco cultural de resistência à ditadura militar dos anos 1960 e 1970. “No Brasil, até a década de 1930, quem fazia música era visto como vagabundo. O pobre coitado ficava treinando o instrumento o dia inteiro, e pensavam que ele não estava trabalhando. Por outro lado, os filhos da elite passavam horas estudando piano e isso era considerado educação”, compara João das Neves.

“Eu sou adepto do ócio criativo, acho importante esse respiro para arte”, defende o ator Guilherme Piva. “Na arte, na criação, na interpretação, é importante ter esses momentos de vazio. A força da criatividade gera muita dor, muita angústia, muito prazer, ela mexe e precisa desse descanso. A peça fala disso”, arremata Piva.

Em Farsa da boa preguiça, o poeta de cordel Joaquim Simão (Guilherme Piva) e sua religiosa mulher Nevinha (Daniela Fontan) são tentados pelo casal mais rico da cidade, Aderaldo Catacão (Jackyson Costa) e Clarabela (Bianca Byington), que tem um relacionamento aberto. Apesar dos ricos acharem os pobres inferiores, eles querem estabelecer uma relação sensual com eles. Três demônios fazem de tudo para que o pobre casal caia no pecado, enquanto dois santos tentam intervir. Entre a tentação e a salvação, diálogos ricos em humor e ação cheia de encontros e desencontros.

“Ao encenar esse texto, queremos reverenciar o mestre Ariano Suassuna e sua obra. Queremos celebrar, com carinho e alegria, aquilo que somos: artistas do povo brasileiro” atesta João das Neves. Essa celebração de som e cor é composta também pela música de Alexandre Elias (com referências nordestinas e medievais), pelo cenário de Ney Madeira, pelos figurinos coloridos de Rodrigo Cohen e pelos mamulengos do Nordeste, criados sob orientação do artista plástico Gil Conti. E além do quarteto principal, também estão no elenco os atores Leandro Castilho, Vilma Melo, Fábio Pardal e Francisco Salgado.

O processo de construção do espetáculo teve início com um mergulho na cultura nordestina. O ator Guilherme Piva conta que, entre as atividades, passaram por leitura e criação de poemas de cordel e aulas de dança e música, confecção e manipulação de bonecos. Mas, além da riqueza dos elementos nordestinos, Farsa da boa preguiça trabalha com a distinção entre pobreza, riqueza e miséria. Um rico pode ser até mais miserável que um pobre. Pois isso estaria ligado com fortunas de outros territórios, e não só material. No caso de Aderaldo, escravo de seus bens, ele se torna um ser miserável. Revela toda sua mesquinhez em falas como: “Eu não vou na casa de minha mãe para ela não visitar a minha e não desequilibrar meu orçamento”. Ele não compreende que um pobre possa ser feliz e critica Simão: “Ele se faz de feliz só para me fazer raiva!”.

Peça fica em cartaz até sábado, no Teatro de Santa Isabel

Já Simão possui uma leveza dos que sabem driblar a vida. Quando Clarabela lhe pergunta se ele é autêntico, ele responde: “Não senhora, eu sou um pouco asmático, autêntico, não”. Farsa da boa preguiça é bom divertimento com reflexão crítica.

“A história do rico que virou pobre
que ficou mais rico ainda
e foi pro inferno viver ao lado do cão!
E do pobre, do pobre que virou rico
e ficou pobre e novo!
Foi-se embora pelo Sertão!”

Serviço:

Farsa da boa preguiça
Quando: Hoje, às 20h; amanhã, às 21h e sábado, às 20h
Onde: Teatro de Santa Isabel (Centro)
Quanto: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)
Informações: 3355-3324

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Auto da Socorro

Durante uma entrevista à TV Cultura, a crítica de teatro Barbara Heliodora citou Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, como uma obra tipicamente brasileira; dizia que esse tipo de encenação é nossa especialidade e que era muito difícil encontrar uma montagem da peça que não tivesse qualidade. Em Pernambuco, pelo menos um grupo confirma a teoria da crítica. Há 19 anos ininterruptos, a Dramart produções encena Auto da Compadecida.

Para comemorar, o grupo faz mais uma apresentação neste sábado, dia do aniversário do Recife, às 19h30, no Teatro de Santa Isabel, na Praça da República. Os ingressos custam R$ 20 e R$ 10. No domingo, a montagem participa da Mostra Rui Limeira Rosal de Teatro e Dança, no Sesc Caruaru, às 20h. A peça, aliás, já circulou muito. Aqui em Pernambuco, foi vista em quase 30 cidades; e no Brasil, em muitos lugares, como Manaus, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

Socorro Rapôso interpretou a Compadecida pela primeira vez em 1957; em 1992, assumiu novamente o papel, com direção de Marco Camarotti, que faleceu em 2004. “Ainda assim, o nome dele continua na direção. É uma forma de homenageá-lo. Quem assume a assistência de direção é Williams Sant’Anna, que também está no elenco como Chicó”, explica Socorro.

Foto: Jorge Clésio

Mesmo com tantos anos em cartaz, são poucas as mudanças no elenco. O segredo? “É o respeito mútuo. Nós nos tornamos uma família grande e unida. Há divergências, mas mesmo numa casa com duas crianças, isso acontece”, complementa. A atriz principal, que em junho completa 80 anos, diz que o público é fundamental. “No palco, é uma energia única. O espetáculo funciona, porque percebemos a resposta imediata da plateia”. No elenco, são 15 pessoas e a música é ao vivo, com a participação da banda Querubins de metal.

Foto: Priscilla Buhr

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Fraca montagem de O santo e a porca

Foto: Ivana Moura

O Santo e a Porca é uma das mais deliciosas comédias brasileiras, que ataca um dos pecados capitais, a avareza. Todo mundo é um pouquinho avarento, mas Euricão – “Engole Cobra” ou Eurico Árabe, o protagonista, passou de todos os limites e suas atitudes provocam o riso da plateia. A peça escrita por Ariano Suassuna em 1957 tem todas as qualidades de uma boa comédia, com uma trama com reviravoltas, tipos engraçados e questão de fundo filosófico da rivalidade do mundo material e espiritual. E apesar da quantidade de personagens e dos seus três atos, encontramos de vez em quando uma montagem num festival pelo país afora. No Janeiro de Grandes Espetáculos o Teatro Popular de Arte – TPA, de Petrolina, apresentou sua versão no Teatro Barreto Júnior, no último sábado (22).

A comédia de Ariano Suassuna é um clássico da dramaturgia brasileira e põe em confronto elementos do sagrado e do profano. O texto é inspirado na obra do escritor latino Plauto, composta antes do nascimento de Cristo, chamada Aululária. O nosso Suassuna traz o conflito para solo nordestino, e usa referências da literatura de cordel. Na peça, o velho sovina e ranzinza guarda, mas não desfruta de sua riqueza. E todos ao seu redor têm que amargar do mau-humor, das esquisitices e da economia que Euricão faz em casa, chegando ao cúmulo de só bancar uma refeição por dia para a família e agregados. Enquanto ele reza para Santo Antônio, sem acender uma vela para não gastar um tostão, pede proteção para sua porca, onde guarda o dinheiro.

Coroba, a empregada com cara de tonta, tem certo parentesco com Chicó, o amarelinho do Auto da Compadecida. Ela também usa da esperteza para tentar resgatar o dinheiro não pago durante anos pela exploração do patrão. O avarento tem uma filha Margarida. Ela será disputada por pai e filho (sem que um saiba da intenção do outro). Benona é a irmã solteirona de Euricão, que foi noiva de Eudoro, que por sua vez quer casar com Margarida. Dodó é filho de Eudoro e o “dono” do coração de Margarida. Pinhão é noivo de Coroba e tão esperto quanto ela, mas o povo só vai saber disso no final da peça.

 A montagem de Petrolina, apesar de não atropelar o texto, carrega nas tintas. A iluminação é chapada, com predominância do amarelão no primeiro ato, o que dá um efeito muito estranho às figuras. As perucas dos atores que interpretam Euricão e Benona são simplesmente ridículas. O figurino é pobre. O cenário interage pouco com as cenas. Mas o maior problema é o elenco e inadequação de alguns atores aos personagens. Eudoro e Dodó, interpretados respectivamente por Godoberto Reis e Severo Filho não têm peso para as personagens. O menino Dodó, com a boca troncha e sua corcunda não convence nem um pouco. Já o pai desse também faz uma performance ruim. No conjunto, o elenco é fraco. A atriz que interpreta Coroba, Francine Monteiro, soube tirar proveito de seu personagem, tem vivacidade. Domingos Soares, que faz o avarento Euricão, se prende ao clichê fácil. A direção também é de Domingos Soares e infelizmente não traz algo de intepretação particular desse grande texto.

Foto: Ivana Moura

Era a primeira vez que o grupo fazia uma apresentação no Recife. E eles estavam emocionados com isso. O público aplaudiu entusiasmado, e riu durante boa parte da apresentação, (inclusive eu) com sinceridade, mas é porque o texto é muito bom. Sabemos das dificuldades de fazer teatro em qualquer lugar do mundo. No interior talvez isso seja mais complicado. Mas às vezes para crescer é preciso ter os pés no chão e ter consciência das limitações. O grupo já tem mais de 20 anos de atividade e isso merece todo o nosso respeito. Mas o teatro exige, além da paixão demonstrada pelo grupo, disciplina, estudo, condicionamento.

E, além disso, mesmo que muitos grupos que montam O Santo e a porca não percebam, esse texto tem uma sofisticação interna na construção de seus tipos, nas significâncias que não podem ser resolvidas com macaqueamento das figuras. Isso pode provocar o riso, mas diz pouco.

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