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Lady Tempestade, com Andrea Beltrão
abre Festival Recife do Teatro Nacional
celebrando vozes femininas

Andrea Beltrão em Lady Tempestade. Foto: Nana Moraes / Divulgação

Atriz interpreta a advogada pernambucana Mércia de Albuquerque. Foto: Nana Moraes / Divulgação

2 de abril de 1964. Uma cena de horror se desenrolava pelas ruas do Recife e mudaria para sempre a vida de uma jovem advogada. Gregório Bezerra, comunista histórico e líder das Ligas Camponesas, ferrenho opositor do recém-instalado regime militar, estava sendo arrastado seminu pelo asfalto, amarrado ao para-choque de um jipe. O coronel Darcy Villocq comandava aquela demonstração de brutalidade que seria transmitida pelo Repórter Esso para todo o país – o primeiro caso documentado de tortura política pós-golpe.

Entre os que testemunharam aquela barbárie estava Mércia de Albuquerque, advogada de 30 anos. Aquela imagem ficou cravada em sua retina. Ao chegar em casa, ela comunicou ao marido Octávio uma decisão que mudaria sua vida: defenderia Gregório Bezerra e qualquer pessoa que necessitasse de proteção contra as arbitrariedades do novo regime.

Mais de sessenta anos depois, essa história de coragem chega ao 24º Festival Recife do Teatro Nacional através do espetáculo Lady Tempestade, que abre a programação no dia 20 de novembro no Teatro de Santa Isabel. Andrea Beltrão protagoniza o monólogo sobre a advogada que defendeu mais de 500 presos políticos.

Com texto de Sílvia Gomez e direção de Yara de Novaes, o espetáculo parte dos diários que Mércia escreveu durante os anos mais duros da ditadura. Passado, presente e futuro se embaralham na narrativa, que utiliza uma estrutura “diário dentro do diário”.

Andrea Beltrão interpreta A., mulher que recebe misteriosamente os escritos de Mércia e gradualmente se envolve com aquelas histórias de resistência. A protagonista encara o dilema de se aprofundar ou não naquela realidade, mas acaba mergulhando nas memórias que revelam a busca por justiça e o paradeiro de desaparecidos, ecoando as súplicas de mães desesperadas.

A dramaturgia explora a ideia de que alguém do presente recebe uma convocação do passado, criando um tempo verbal instável que oscila entre passado, presente e futuro. Essa estrutura temporal reflete como o Brasil permanece reincidente no esquecimento de sua própria história. Uma frase se torna leitmotiv da montagem, repetida após trechos dramáticos do diário: “Essas coisas acontecem, aconteceram, acontecerão”. Para materializar esse conceito em cena, a direção de Yara de Novaes constrói uma jornada visual que espelha a própria transformação de Mércia.

O espetáculo inicia em um ambiente doméstico deteriorado – mobiliário gasto, cores apagadas, iluminação que sugere clausura e melancolia. Conforme a narrativa avança e o passado invade o presente, essa cenografia se reinventa: sons de violência cedem lugar a celebração, a decadência visual dá espaço à luminosidade, e o palco se torna território de resistência e esperança.

Complementando essa atmosfera de encontro entre tempos, a presença de Chico Beltrão, filho de Andrea, adiciona uma camada geracional ao espetáculo. Responsável pela trilha sonora e por momentos pontuais de diálogo, sua participação surgiu de uma proposta da diretora. Embora Andrea inicialmente tenha hesitado em envolver o filho – produtor musical, não ator – no projeto teatral, Yara identificou que essa configuração familiar ampliaria o impacto emocional da montagem. 

Lady Tempestade consolidou-se como um dos maiores sucessos teatrais contemporâneos e já circulou por várias cidades brasileiras. Desde sua estreia em 2024, a montagem realizou cerca de 150 apresentações e ultrapassou a marca dos 70 mil espectadores, registrando sessões esgotadas e repercussão positiva na imprensa.

O alcance da obra expandiu-se além dos palcos. A dramaturgia foi publicada pela Editora Cobogó em 2024, enquanto uma versão cinematográfica, dirigida por Maurício Farias, já teve suas filmagens concluídas em janeiro e fevereiro de 2025. O filme conta com direção de fotografia de Chico Rufino, direção de arte de Luciane Nicolino, desenho de som de Arthur Ferreira, participação de Chico Beltrão e produção da Taba Filmes, Boa Vida e Quintal Produções.

Festival conecta vozes femininas através dos séculos

Augusta Ferraz no ensaio Sobre os Ombros de Bárbara. Foto: Reprodução do Instagram

O tema “Vozes Femininas – Histórias que Ressoam” conecta diferentes épocas e contextos. Ao longo da programação – ainda sendo ultimada pela organização, com contratos em finalização e sem divulgação oficial da prefeitura – o público encontra desde Mércia Albuquerque, que enfrentou a ditadura no século XX (Lady Tempestade, na abertura dia 20), até Bárbara de Alencar, que desafiou o império no século XIX (apresentações agendadas para os dias 29 e 30), passando por outras montagens que abordam as lutas das mulheres contemporâneas. Essas histórias revelam como a resistência feminina se reinventa em cada período, mantendo sua força através dos tempos.

Primeira presa política brasileira e protagonista da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador de 1824, Bárbara de Alencar (1760-1832) ganha vida através da interpretação de Augusta Ferraz. Sobre os Ombros de Bárbara, com dramaturgia de Brisa Rodrigues da própria Augusta, sob direção de José Manoel Sobrinho, explora as contradições de uma mulher republicana durante a monarquia.

Nascida em Exu, Bárbara quase custou a vida da mãe no parto. Aos 22 anos, casou-se e mudou-se para o Crato, onde teve cinco filhos – dois estudaram no Seminário de Olinda, epicentro do liberalismo europeu entre as elites. Organizou células revolucionárias em sua residência, articulando movimentos que desafiaram o poder imperial.

Posteriormente presa, foi transportada a pé por 600 quilômetros até Fortaleza, permaneceu três anos em calabouços, liderou um segundo levante, perdeu dois filhos nas revoltas e morreu aos 72 anos sem testemunhar a proclamação da República. Augusta Ferraz, da série Guerreiros do Sol, dá vida a essa escravocrata em crise, apresentando um corpo violentado e uma resistência ao arbítrio.

Laboratório Franco-Brasileiro

Trabalho desenvolvido pela companhia francesa ktha em Seul. Foto: Reprodução

A companhia francesa ktha chega ao Recife para desenvolver  a peça A Gente Quer com artistas locais, dentro da programação do Ano Cultural Brasil-França 2025. O grupo não carrega espetáculos prontos; ele criou uma metodologia de criação teatral que se concretiza diferentemente em cada cidade, ocupando espaços urbanos alternativos como contêineres, carrocerias de caminhões, telhados, túneis, estacionamentos, etc.

Em agosto, na Casa do Povo, no bairro do Bom Retiro em São Paulo, durante o festival ERUV, seis artistas brasileiros participaram de residência de duas semanas para criar as versões brasileiras de A Gente Quer e Tu Es Là / Você está Aqui. As apresentações lotaram o espaço, validando a potência dessa metodologia aplicada ao contexto brasileiro.

Para Recife, após analisar mais de 100 cartas de intenção, a companhia selecionou 10 artistas locais: Lucas Vinícius, Catarina Almanova, Ludmila Lopes, Anna Batista, Ana Luiza DAccioli, Rodrigo Hermínio, Maria Pepe, Guara Rios, Bruna Luiza Barros e Caru dos Santos. Durante 10 ensaios, eles vão construir uma versão que dialogue com as particularidades pernambucanas.

Desde 2021, essa metodologia se realizou em mais de 15 cidades do mundo, gerando espetáculos únicos. A dramaturgia funciona como uma matriz: uma extensa lista de desejos e reivindicações que ganha forma específica através do trabalho com performers locais, criando rituais coletivos de partilha de anseios urbanos.

Festival Recife do Teatro Nacional 2025
📅 20 a 30 de Novembro de 2025
🎭 Abertura: 20 de novembro – Lady Tempestade
📍 Teatro de Santa Isabel e outros espaços
🎫 Programação gratuita
Homenageadas: Auricéia Fraga e Augusta Ferraz

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Companhia francesa Ktha seleciona elenco recifense

Montagem de On Veut em Séoul, na Coreia do Sul, em 2023. Foto: Reprodução

Espetáculo On Veut apresenta uma lista de desejos coletivos. Foto: Reprodução 

Uma convocatória está aberta para seleção de artistas pernambucanos para integrar o espetáculo da companhia francesa Ktha durante o 24º Festival Recife do Teatro Nacional, programado para novembro. A iniciativa faz parte da temporada Ano Cultural Brasil-França 2025, um intercâmbio cultural oficial entre os dois países que promove colaborações artísticas bilaterais ao longo do ano.

Conforme anunciado pela Secretaria de Cultura do Recife no perfil do Instagram culturadorecife : “Atenção, trabalhadores da cena e das cênicas recifenses! Trazemos duas boas novas sobre a 24ª edição do Festival Recife do Teatro Nacional. A primeira é que a programação gratuita, que será realizada em novembro, pela Prefeitura do Recife, contará com a participação da companhia francesa Ktha, que fará sua estreia na capital pernambucana, apresentando-se em espaço público, acessível a todas as plateias, com o espetáculo A Gente Quer / On Veut. A segunda é que o grupo está em busca de elenco recifense para a curta temporada de dois dias, que fará durante o festival..”

Para se candidatar, os interessados devem enviar carta de interesse, foto e mini bio (não são necessários portfólio, nem vídeos) para o e-mail projetoagentequer@gmail.com, com cópia para festivalteatronacionalrecife@gmail.com, até o próximo dia 10 de setembro. Um aviso importante da organização: é necessário que os interessados tenham disponibilidade para trabalhar com a companhia, em tempo integral, de 10 a 23 de novembro, e também que tenham boa memória, porque o texto é longo. O resultado da seleção, feita pela própria companhia, será anunciado por e-mail. Uma reunião on-line já está agendada para o dia 24/09, às 9h30, com as pessoas selecionadas.

Outra versão de On Veut / A Gente Quer. Foto: Divulgação

A companhia Ktha, fundada em 2000 e credenciada pela Prefeitura de Paris, desenvolveu ao longo de mais de duas décadas uma linguagem teatral singular que acontece em espaços urbanos não convencionais. Seus espetáculos são realizados em contêineres, caminhões de mudança, telhados, túneis subterrâneos, estacionamentos, gramados de estádios, varandas e rotatórias, sempre com atores que se dirigem diretamente ao público, estabelecendo um contato visual direto e sem mediações. A companhia explora a cidade através de projetos coletivos e laboratórios de pesquisa, adotando um olhar engajado e ativista sobre questões urbanas contemporâneas.

O espetáculo que será apresentado no Recife é A Gente Quer, versão brasileira de On Veut. Descrito como uma longa lista de desejos e reivindicações, o espetáculo trabalha com a presença e o reconhecimento mútuo entre performers e espectadores. Desde sua criação em 2021, On Veut já passou por múltiplas versões e foi apresentado em mais de 15 cidades no  mundo, sempre integrando artistas locais ao núcleo francês e absorvendo as particularidades de cada contexto.

Seria interessante ter também Tu Es Là / Você está Aqui no Marco Zero, à beira do Rio Capibaribe, no Recife

On Veut / A Gente Quer em São Paulo. Foto: Reprodução

A experiência mais recente da Ktha no Brasil aconteceu em agosto na Casa do Povo, em São Paulo, durante o festival ERUV. Durante duas semanas intensas, seis artistas brasileiros trabalharam em residência artística para criar versões paulistas de A Gente Quer / On Veut e Tu Es Là / Você está Aqui, este último um espetáculo que mistura línguas e olhares com a plateia – seria lindo se Tu Es Là pudesse ser encenada no Marco Zero, na beira do rio Capibaribe! A programação incluiu apresentações na Casa do Povo e uma turnê pelos SESCs. Segundo relatos da própria companhia, a recepção foi entusiástica, com casas lotadas e ovações de pé, demonstrando a potência do diálogo entre a dramaturgia francesa e a realidade brasileira. A experiência paulista serviu como laboratório para o que será desenvolvido no Recife, onde a companhia pretende criar uma versão específica que dialogue com as particularidades locais.

A qui tu parles ? , um outro trabalho da companhia Ktha. Foto: Divulgação 

As primeiras reações à convocatória nas redes sociais revelaram questionamentos legítimos da classe artística local. Artistas como Daniel Barros comentaram: “Interessante a proposta, mas não vi nenhuma informação no post sobre a remuneração dos selecionados. É doação ou o que se ganha é ‘experiência’. Seria bom deixar claro quando se convoca a classe trabalhadora.” Paulo Pontes também perguntou diretamente: “Qual é o cachê dos aprovados?”, enquanto Mari Onduras completou: “Faltou o cachê!” A organização respondeu que as informações sobre remuneração seriam fornecidas após a seleção, garantindo que o festival não contrata artistas sem remuneração.

Contrapondo aos questionamentos, a artista Juliana Andrade observou que nunca viu “chamada de elenco de cinema, publicidade ou espetáculo divulgando cachê”, sugerindo que a prática de não anunciar valores antecipadamente é comum no mercado audiovisual e teatral. Esta observação levanta uma discussão interessante sobre as diferenças entre os setores e as expectativas de transparência em cada um deles.

Embora a discussão sobre cachê seja fundamental para a valorização e dignificação do trabalho artístico, outras questões financeiras e conceituais merecem igual atenção. Quanto custará o projeto completo ao Festival Recife do Teatro Nacional? Quais são os valores envolvidos na vinda da companhia francesa, incluindo deslocamentos, hospedagem e produção local? Quem está financiando efetivamente este intercâmbio – recursos municipais, federais, franceses ou uma combinação de fontes? Como se mensurar o retorno deste investimento em termos de “fertilização de subjetividades” e fortalecimento da cena teatral local?

A temporada do Ano Cultural Brasil-França 2025 representa uma oportunidade de intercâmbio cultural que já vem acontecendo, com eventos programados em diversas cidades brasileiras e francesas até o final do ano. O programa oficial articula colaborações em teatro, dança, música, artes visuais e cinema, movimentando recursos significativos de ambos os governos. Algumas ações já foram realizadas em território brasileiro, consolidando esta ponte cultural bilateral.

No caso específico da vinda da Ktha ao Recife, Giovana Soar atua como ponte fundamental entre as duas realidades, trazendo sua experiência como ex-avaliadora do Festival Recife e atual produtora da companhia no Brasil. Sua participação facilita o diálogo entre as expectativas francesas e as possibilidades locais, contribuindo para que este projeto específico se adapte melhor ao contexto pernambucano.

Inserido neste contexto maior de intercâmbio, o projeto A Gente Quer/On Veut no Recife pode configurar-se como um laboratório de experimentação teatral capaz de influenciar futuras produções locais e inserir a cidade na rede mundial de territórios que receberam esta dramaturgia nômade. A proposta de apresentações gratuitas em espaços públicos democratiza o acesso e alinha-se com a vocação da Ktha para o teatro urbano, potencialmente alcançando públicos que normalmente não frequentam espaços teatrais tradicionais.

Paralelamente às potencialidades artísticas do projeto, as questões levantadas pelos artistas nas redes sociais refletem um amadurecimento da classe artística em relação aos seus direitos e condições de trabalho, mas também evidenciam a necessidade de maior transparência em projetos culturais que envolvem recursos públicos. Como garantir que intercâmbios internacionais efetivamente fortaleçam a produção local ? De que forma mensurar o impacto real de projetos desta natureza além do aspecto imediato da experiência artística? Qual o equilíbrio adequado entre investimento em eventos pontuais e políticas culturais continuadas? E que mecanismos de acompanhamento e avaliação poderiam ser implementados para garantir que experiências como esta geram desdobramentos efetivos na formação e profissionalização dos artistas locais?

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