Auricéia Fraga faz 50 anos
de teatro e ganha homenagem
de festival recifense

Auricéia Fraga narra suas próprias história no novo trabalho, Não Se Conta o Tempo da Paixão

A atriz com o diretor Rodrigo Dourado e a equipe do projeto

Nos tempos do Vivencial. Foto: Arquivo

No dia 12 de março de 2026, quando Olinda e Recife completam mais um aniversário, a atriz pernambucana Maria Auricéia Vasconcelos Fraga celebrará seus 80 anos de vida. Quase simultaneamente, ela marca meio século de uma carreira teatral que começou “por acaso” e se transformou em paixão duradoura. Hoje, ela é uma das homenageadas (a outra é Augusta Ferraz) do 24º Festival Recife do Teatro Nacional, que ocorre de 20 a 30 de novembro em diversos espaços da capital pernambucana.

A honraria chega em um momento especial. Após uma década dedicada principalmente ao audiovisual, Auricéia retorna aos palcos com Não Se Conta o Tempo da Paixão, espetáculo sob direção de Rodrigo Dourado que apresenta nesta sexta-feira sua abertura de processo. É um retorno às origens para uma artista que nunca imaginou seguir a carreira artística.

Um Começo Inesperado – Em 1972, recém-chegada do Rio de Janeiro, Auricéia soube de um curso na Escola de Belas Artes e decidiu experimentar, apenas para ocupar o tempo enquanto buscava uma colocação no mercado de trabalho. “Eu não pretendia ser atriz, nunca imaginei ser atriz, mas adorei a convivência com as pessoas da classe”, relembra. O professor Isaac Gondim Filho logo identificou seu talento, considerando-a “um sucesso do curso” já na primeira prova pública.

O teatro profissional veio em 1976, quando foi convidada para integrar A Lição, de Ionesco, dirigida por Antonio Cadengue. Era o início de uma trajetória que a levaria pelos principais palcos do Recife e por grupos fundamentais da cena teatral pernambucana.

O Vivencial e a Transgressão Necessária – Foi através de Guilherme Coelho, que assistiu a A Liçãoe a convidou para integrar o Vivencial, que Auricéia encontrou sua verdadeira escola teatral. O grupo, conhecido por sua irreverência, pautas libertárias e crítica social afiada, ofereceu exatamente o que ela precisava: “Eu vinha de uma família, de uma criação muito repressora. Eu estava com vontade de me soltar.”

No Vivencial, onde permaneceu por quatro anos e quatro espetáculos, Auricéia viveu alguns dos momentos mais marcantes de sua formação. Guilherme Coelho respeitava suas limitações – ela deixava claro que “nua não ficava” – mas a conduzia gradualmente a superar barreiras, tanto artísticas quanto pessoais. Era ali que se discutia política, questões de gênero e se experimentava com a linguagem cênica de forma inovadora.

Os anos de formação de Auricéia coincidiram com o período mais duro da ditadura militar. Em Sobrados e Mocambos, de Hermilo Borba Filho, dirigido por Guilherme Coelho, ela experimentou diretamente os efeitos do autoritarismo. Quando uma cena foi cortada pela censura, Guilherme encontrou uma solução criativa: “A gente faz de mímica.” Nos dias em que não havia censor presente, o elenco era avisado: “Não tem censura hoje não. Aí a gente solta o texto todinho.”

Essa experiência marcou profundamente a atriz, que admirava a capacidade do diretor de “driblar aquela violência” através da arte.

Desafios e Transformações – Ao longo de quase cinco décadas, Auricéia enfrentou desafios que testaram seus limites como intérprete. Em Esta Noite se Improvisa, de Pirandello, precisou provar que merecia manter o papel de protagonista quando o grupo questionou sua ausência durante os ensaios devido ao acidente do marido. Voltou “afiada” e conquistou o prêmio de melhor atriz.

Mas foi em O Mistério das Figuras de Barro, de Osman Lins, com direção na época do jovem  Rodrigo Dourado que encontrou seu maior desafio: interpretar sozinha dois homens e uma mulher. A experiência foi tão intensa que até seu cachorro estranhou quando ela experimentava a voz do personagem Claraval.

Do Palco às Telas – A partir dos anos 2000, Auricéia expandiu sua atuação para o cinema e a televisão, participando de produções como O Baile Perfumado (1996), Árido Movie (2003), Tatuagem (2013) e mais recentemente Agreste (2024) e Chabadabada (2024). Apesar do sucesso nas telas, sua paixão permanece no teatro: “Quando eu estou no cinema eu me jogo também, mas o meu chamego é o teatro mesmo.”

Não Se Conta o Tempo da Paixão nasceu durante a pandemia, quando Auricéia começou a escrever memórias de sua infância no Engenho Águas Finas. O que eram “historinhas pequenininhas” se transformou, com o incentivo de Quiercles Santana e sua companheira Bruna, em material teatral. Para se sentir mais confortável com a exposição, criou a narradora que conta a história de Maria – seu primeiro nome.

O espetáculo retrata uma época em que “o pai decidia comida, decidia moda, decidia com quem a gente se relacionava, onde estudava”, mas também celebra os sonhos e a capacidade de superação. É um retorno não apenas aos palcos, mas às suas raízes mais profundas.

Reconhecimento e Futuro – A homenagem do Festival Recife do Teatro Nacional representa o reconhecimento de uma trajetória singular. “Foi a maior surpresa que eu tive”, confessa Auricéia, que há dez anos não subia aos palcos. “Você ter o reconhecimento do seu trabalho é uma coisa muito importante, muito boa.”

Aos 79 anos, com a energia de quem ainda tem muito a oferecer, Auricéia Fraga prova que a paixão pelo teatro não envelhece. Sua carreira é um testemunho da capacidade transformadora da arte e da importância de se manter fiel aos próprios sonhos, mesmo quando eles chegam por acaso e se revelam o destino de uma vida inteira.

Entrevista: Auricéia Fraga

A alegria é cultivada em todos os momentos da vida da artista

Gostaria que você falasse sobre a homenagem do 24º Festival Recife do Teatro Nacional. O que significa para você? Como é que você recebe, em seu coração, essa celebração feita pela sua cidade?

Auricéia: Olha, foi a maior surpresa que eu tive, porque inclusive eu já estou há bastante tempo sem fazer espetáculo, fazendo cinema, filme, série, essas coisas assim. Alguma matéria publicitária, mas o palco há 10 anos que eu fiz um espetáculo. E, de repente, no ano que eu resolvi voltar a fazer, arriscar a fazer, aconteceu isso. Ser homenageada, meu Deus, é demais, porque… 50 anos, quase, né? De que eu tô atuando. E a gente não tem como não ficar feliz, surpresa. E, assim, acho que é um reconhecimento. Eu fico sem graça, até, para… Oh, Deus do céu! Parece, assim, uma coisa totalmente inesperada, mas eu fico muito feliz, muito feliz. E isso é, assim, você ter o reconhecimento do seu trabalho, é uma coisa muito importante, muito boa. Eu acho que não podia estar mais feliz.

Qual sua motivação para iniciar essa trajetória no teatro, na década de 70, e o que é que continua a alimentar essa paixão pelo teatro, pela arte da representação?

Auricéia: Começar no teatro foi uma coisa meio por acaso. Eu tinha chegado do Rio de Janeiro, aí soube que estava tendo esse curso na Escola Belas Artes, aí eu disse, por enquanto não estou trabalhando, vou experimentar. Fui e gostei, mas eu não pretendia ser atriz, nunca imaginei ser atriz, mas adorei a convivência com as pessoas da classe, adorei, começou a abrir minha cabeça só a convivência com eles, a experiência com também professores ótimos.

Aí, aconteceu que no meio do ano tinha uma prova pública e no final do ano tinha outra. No meio do ano eu fiz a prova pública e Isaac Gondim Filho, que era meu professor e uma pessoa muito reconhecida, ele considerou que eu tinha sido um sucesso no curso. Me surpreendi. Isso foi em 1972, na Escola Belas Artes. Aí eu toquei a minha vida, fui trabalhar. Fui trabalhar na Fundarpe. Sou a primeira funcionária da Fundarpe.

Em 1976, Zé Mario Austragésilo estava querendo montar A Lição de Ionesco. Ele já tinha três personagens. Aí, Rosário (Austragésilo), que tinha feito o curso comigo, me chamou. (Antonio) Cadengue dirigia. Pensei duas vezes, aceitei. E tive a sorte de pegar um assistente de direção como Beto Diniz, né? Maravilhoso. Aí eu me joguei.

Qual foi a influência do Grupo Vivencial, porque ele tinha uma linguagem diferente dos outros grupos que atuavam aqui, uma linguagem mais transgressora. Como era isso? Como era essa história do Vivencial na sua vida?

Auricéia: Quando eu frequentei o Vivencial era meu amor, era tão grande, porque eu gostava que eles reuniam o elenco, conversava sobre o texto. Sempre eu achava linda aquela coisa de transgredir, de não fazer… Eu precisava de muita transgressão, porque eu vinha de uma família, de uma criação muito repressora. Aí, quando eu cheguei do Rio para cá… Eu passei dois anos lá na casa da irmã minha, que era muito conservadora também, então eu tava com a vontade de me soltar, sabe?

Guilherme (Coelho) é uma maravilha. E ele sabia que eu tinha muita dificuldade, que era muito tímida. Quando falava que a Suzana (Costa) ficava de vedete, a outra ficava de vedete, eu ficava bem à vontade de dizer:  nua não fico. Guilherme me levava, com muito jeito, respeitando muito as minhas limitações, minhas dificuldades, mas, ao mesmo tempo, com um jeitinho, ele ia conseguindo que eu avançasse um pouco em várias questões.

Com relação à repressão, porque Sobrados e Mocambos teve também uma coisa bem repressora, né? Como era? O que você percebia desse momento histórico no Brasil, dessa repressão?

Auricéia: Eu vi aquilo tudo, mas eu ficava boba como eles lidavam, conseguiam falar as coisas deles, dizer. Ou usar daquela forma, mesmo com a repressão. Porque nós, naquela época, tinha censura que ficava com um texto e outro examinando a encenação no ensaio geral. Para cortar o texto ou propriamente a encenação.

Aí teve uma cena, que eram várias cenas de Sobrado, que eram os enrabados. A censura, quando viu, cortou. Aí a gente veio para Guilherme. “Pô, a gente vai cortar esse pedaço?!”. Guilherme disse, não, não, a gente faz de mímica.

E como era essa cena?

Auricéia: Era muito palavrão, era muito em cima da coisa do poder, sabe? Da violência do poder.

Quando a censura não tiver, solta o texto todo, dizia Guilherme. E a gente fazia isso. Ficava alguém da portaria para avisar. Ah, não tem censura hoje não, aí a gente solta o texto todinho. E eu achava aquilo uma delícia, sabe? Que ele arrumava formas de, sabe, de driblar aquela violência.

Dessa sua carreira longeva, de quase 50 anos, quais foram os principais desafios e aprendizados que você guarda?

Auricéia: Foram vários. Eu gostava dos desafios, apesar de ser muito insegura. Quando eu fiz Esta Noite se Improvisa, que eu fazia a Mommina, a protagonista, o grupo começou a cobrar, achando que eu devia não ficar nesse personagem porque eu estava muito ausente (cuidando do marido, que tinha sofrido um a acidente de carro) e o ensaio tinha que correr. Aí eu cheguei e conversei com eles e com Cadengue, só para dizer, “você pode me tirar, se eu não der conta. Eu volto daqui a tantos dias, quando voltar, se eu não tiver com as marcas, acompanhar as marcas e o texto, aí você pode dar o meu personagem”. Aí quando eu voltei, eu cheguei afiada, aí não tiveram moral para tirar a personagem. E eu também ganhei o prêmio, melhor atriz.

Mas de todos eu acho que foi O Mistério das Figuras de Barro. Minha filha, quando eu vi o texto, já, o pessoal chegava dizendo assim, olha, ninguém quer fazer essa peça, dá para Auricéia. Quando eu vi qual era o desafio… a sugestão de Osman Lins era que fosse feito por uma mulher, que fizesse os dois homens e a mulher, que arrumasse um indumentário que não identificasse bem. Aí eu, tipo, vou fazer dois homens e uma mulher. Fiz…

Me conte sobre o espetáculo Não Se Conta o Tempo da Paixão. Por que você decidiu voltar ao teatro com esse trabalho?

Auricéia: Na pandemia eu comecei a escrever, assim, vindo lembranças do Engenho, da minha vida no Engenho, me criei do Engenho até a adolescência. Engenho Águas Finas. Eu estava fazendo essas historinhas, historinhas pequenininhas, aí eu mandei para algumas pessoas, aí algumas diziam, manda editar.

Eu estava pensando em montar Senhor Diretor de Lígia Fagundes Teles. Eu estava há dez anos tentando montar a Lígia. Aí chegou aqui, veio o Quiercles Santana com a companheira dele, aí eu com esse meu jeito, falando, contando as coisas, aí ele disse “mas deve ser caro esse direito autoral dela. Aí Bruna disse, “e porque tu não faz, tu tem uma vida tão rica…” Ela achou que minha vida tinha muita coisa dessas, que dava para fazer uma peça.

Para eu não ficar muito desconfortável, vou botar o nome da narradora, a que vai contar a história de Maria. Porque, na realidade, meu nome é Maria também. Maria Auricéia. Então ela vai ser Maria. E Maria conta a história da vida dela.

Depois da abertura do processo do espetáculo Não Se Conta o Tempo da Paixão, quais são os seus planos? Tem já alguns outros projetos?

Auricéia: A gente está dando o nome como se fosse um ensaio aberto. Porque não está pronto. Não está completo. Mas ficaria muito extenso se botasse tudo agora. Muito extenso. Aí ninguém aguentava não. Monólogo extenso ninguém aguenta. Aí eu disse, não, vamos partir esse negócio.

Mas eu pretendo, se Deus quiser, tendo saúde, eu pretendo continuar. Ou com esse texto ou com outro. Quem sabe A Lição” de Lígia, que eu amo de paixão o texto. Que o Guilherme adorou e queria dirigir, mas ele foi para Brasília. 

Auricéia Fraga em Um rito de mães, rosas e sangue. Foto: Tuca Siqueira

AURICÉIA FRAGA – Principais Trabalhos
DRT/PE: 602

TEATRO – Destaques da Carreira (1976-2016)
Década de 1970 – Formação e Vivencial:

A Lição (Ionesco, 1976) – Direção: Antonio Cadengue
Sobrados e Mocambos (Hermilo Borba Filho, 1977) – Direção: Guilherme Coelho
Esta Noite se Improvisa (Pirandello, 1977) – Direção: Antonio Cadengue
Prêmio Melhor Atriz
Viúva, porém Honesta (Nelson Rodrigues, 1977) – Direção: Antonio Cadengue
Prêmio Melhor Atriz
Repúblicas Independentes, Darling (1978) – Direção: Guilherme Coelho
Notícias Tropicais (1980) – Direção: Guilherme Coelho

Trabalhos Posteriores de Destaque:

O Mistério das Figuras de Barro (Osman Lins, 2003-2004) – Direção: Rodrigo Dourado
Playdog (2009) – Direção: Rafael Barreiros, Rodrigo Cunha e Alisson Castro
Prêmio Melhor Atriz – Janeiro de Grandes Espetáculos 2010
Um Rito de Mães Rosas e Sangue (Federico Garcia Lorca, 2010) – Direção: Cláudio Lira  Circulação Nacional

CINEMA E TELEVISÃO – Principais Produções

Longas-metragens:
O Baile Perfumado (1996) – Direção: Lírio Ferreira e Paulo Caldas
Árido Movie (2003) – Direção: Lírio Ferreira
Tatuagem (2013) – Direção: Hilton Lacerda
O Rio (2025, em montagem) – Direção: Wislam Esmeraldo e Hilton Lacerda

Séries e TV:
Lama dos Dias (2018) – Direção: Hilton Lacerda
Chão de Estrelas (2021) – Direção: Hilton Lacerda
Agreste (2024) – Direção: Alice Gouveia – Canal Cine Brasil
Chabadabada (2024) – Canal Brasil

RETORNO AOS PALCOS (2025)
Não Se Conta o Tempo da Paixão – Direção: Rodrigo Dourado
Abertura de processo – 24º Festival Recife do Teatro Nacional (novembro de 2025)

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Ela enfrentou a ditadura
Lady Tempestade abre
24º Festival Recife do Teatro Nacional

Andrea Beltrão estrela monólogo sobre defensora de presos políticos em Pernambuco, abrindo festival que celebra vozes femininas nas artes cênicas.  Foto: Nana Moraes / Divulgação

Embarque na história de uma mulher que dedicou sua vida a defender aqueles que o Estado considerava inimigos. Mércia Albuquerque foi uma advogada corajosa que, durante os anos mais sombrios da ditadura militar, enfrentou tribunais, burocracias e ameaças para garantir direitos básicos a centenas de presos políticos em Pernambuco. Sua trajetória está no palco através de Lady Tempestade, com Andrea Beltrão, espetáculo que inaugura o 24º Festival Recife do Teatro Nacional, com sessões entre 20 e 22 de novembro no Teatro de Santa Isabel.

Mércia Albuquerque era uma ponte entre famílias desesperadas e um sistema jurídico militarizado. Durante os 21 anos da ditadura civil-militar (1964-1985), ela esteve na linha de frente da defesa dos direitos humanos, documentando violações, organizando defesas e mantendo viva a esperança de inúmeras famílias pernambucanas.

Com texto de Silvia Gomez e direção de Yara de Novaes, a obra baseia-se nos diários pessoais e registros profissionais deixados pela própria Mércia. Trata-se de um trabalho de arqueologia da memória que revela os bastidores da resistência jurídica durante um dos períodos mais sombrios da história brasileira.

Lady Tempestade” oferece uma aula de história viva, demonstrando como funcionava na prática a máquina repressora e, principalmente, como pessoas comuns encontraram formas de resistir dentro da própria lei. Mércia enfrentava verdadeiras tempestades burocráticas e políticas para fazer valer os direitos de seus defendidos.

Andrea Beltrão, uma trajetória de escolhas inteligentes. Foto: Gil Tuchternhagen / Divulgação

Com mais de 40 anos de carreira, Andrea Beltrão conquistou reconhecimento tanto na televisão quanto no teatro, sempre priorizando projetos de relevância artística e social. Na TV, destacou-se em produções como Armação Ilimitada, A Grande Família e Um Lugar ao Sol, enquanto no cinema brilhou em Hebe, A Estrela do Brasil.

No teatro, a atriz emocionou plateias em montagens como “A Prova” e As Centenárias“, demonstrando versatilidade para transitar entre drama e comédia com igual maestria. Essa trajetória sólida reflete uma carreira pautada pela inteligência na escolha dos trabalhos.

Em Lady Tempestade, Beltrão enfrenta um de seus papéis mais desafiadores: interpretar uma mulher real, com responsabilidades históricas e familiares que ainda guardam a memória de Mércia Albuquerque. O monólogo demanda técnica refinada e resistência emocional, já que a intérprete permanece em cena por aproximadamente 90 minutos, conduzindo uma narrativa densa sobre um período traumático da história nacional.

No cenário atual, Lady Tempestade oferece algo raro, que são fatos documentados apresentados através de uma perspectiva humana e acessível. A montagem ganha relevância especial por mostrar o papel crucial da advocacia em momentos de crise democrática. 

Para plateias mais jovens, o espetáculo atua como janela para um período histórico frequentemente reduzido a dados estatísticos nos livros didáticos. Dessa forma, através do relato pessoal de Mércia, eventos históricos ganham rostos, nomes e consequências humanas concretas.

Expectativa de alta procura

A organização do festival prevê alta demanda para as três sessões de Lady Tempestade. A produção acumula histórico de salas lotadas em temporadas anteriores, enquanto a combinação do nome de Andrea Beltrão com a relevância do tema tem atraído atenção em várias temporadas.

Há relatos de caravanas organizadas em estados vizinhos interessadas em acompanhar a abertura do festival. Tal expectativa se justifica: além da importância histórica do material, a montagem oferece a rara oportunidade de ver uma das maiores atrizes brasileiras em ação no palco, em um espaço histórico como o Teatro de Santa Isabel.

Festival celebra protagonismo feminino

Tudo que Eu Queria te Dizer, solo de Ana Beatriz Nogueira. Foto: Divulgação

O 24º Festival Recife do Teatro Nacional consolida-se como um dos principais eventos teatrais do país, apresentando 24 espetáculos em onze dias de atividades, sendo 16 deles inéditos na capital pernambucana. Com o tema “Vozes Femininas – Histórias que ressoam”, a edição deste ano celebra as criadoras e criativas do teatro brasileiro, entre dramaturgas, atrizes, diretoras e pesquisadoras.

Entre as principais atrações nacionais, além de “ady Tempestade, está Tudo que Eu Queria te Dizer, solo de Ana Beatriz Nogueira inspirado no best-seller de Martha Medeiros, onde a atriz se desdobra na pele de cinco mulheres distintas para falar sobre amor, rejeição e desejo. A apresentação acontece nos dias 22 e 23, no Teatro do Parque.

Também inédita na capital pernambucana é Mary Stuart, protagonizada por Virginia Cavendish, trazendo um olhar contemporâneo sobre as últimas 24 horas de vida da rainha escocesa, numa trama sobre conspiração e jogos de poder. A montagem paulista estreia no Recife nos dias 28 e 29, também no Teatro do Parque.

116 Gramas: Peça para Emagrecer, solo da paulista Letícia Rodrigues, explora a jornada de uma mulher em busca do emagrecimento, questionando pressões sociais sobre a imagem corporal. A protagonista tenta, a cada apresentação, perder exatamente 116 gramas, utilizando o espetáculo como uma aula de academia performativa. As sessões acontecem nos dias 22 e 23, no Teatro Apolo.

A Cia do Tijolo, companhia paulista reconhecida nacionalmente, traz duas produções inéditas na cidade: Corteja Paulo Freire, celebração poética e musical no Parque Dona Lindu, e Restinga de Canudos, que reconstrói a vida em Canudos a partir da visão feminina de duas professoras do povoado, que eram professoras em tempos de paz e enfermeiras em tempos de guerra. A montagem apresenta uma perspectiva inédita sobre a comunidade, destacando o cotidiano, as resistências e as histórias que ficaram submersas na narrativa oficial sobre o conflito. A apresentação acontece no dia 23, no Teatro Luiz Mendonça.

Homenagens

Augusta Ferraz. Foto Rogério Alves / Divulgação

Auricéia Fraga. Foto: Divulgação

A edição presta tributo a duas grandes atrizes pernambucanas: Auricéia Fraga e Augusta Ferraz, com 50 anos de trajetória cada uma, cujas vidas em cena contam a história do teatro local.

Augusta Ferraz apresenta Sobre os Ombros de Bárbara, mergulho na vida de Bárbara Alencar, heroína da Revolução Pernambucana e considerada a primeira presa política do Brasil. A montagem acontece nos dias 29 e 30, no Teatro de Santa Isabel.

Auricéia Fraga convida o público para  abertura de processo de Não se Conta o Tempo da Paixão, onde narra sua longa relação com o teatro. A abertura de processo acontece no dia 21, no Teatro Hermilo Borba Filho.

Diversidade de propostas e territórios

Das que Ousaram Desobedecer, do Ceará. Foto de Pattie Silva / Divulgação

O festival distribui sua programação estrategicamente por teatros municipais, parques e espaços públicos da cidade. Além dos tradicionais palcos do Santa Isabel, Teatro do Parque, Apolo e Hermilo Borba Filho, a programação alcança o Marco Camarotti, Luiz Mendonça, Espaço Cênicas e Casa de Alzira, chegando também aos parques da Macaxeira e da Tamarineira.

Shá da Meia Noite, com Sharlene Esse. Foto: Divulgação 

Entre as produções locais inéditas, sobressai Helô em Busca do Baobá Sagrado, espetáculo infantil que narra a história de uma menina em missão para encontrar o fruto sagrado e curar seu povo da “doença da tristeza”. As apresentações acontecem nos dias 22 e 23, no Teatro Hermilo.

Outras montagens nacionais inéditas incluem Das que Ousaram Desobedecer (CE), que relembra a luta de mulheres cearenses contra a ditadura; Zona Lésbica (RJ), que enfrenta estereótipos de gênero para reivindicar o direito ao amor; A Mulher Bala (SP), com a palhaça Funúncia tentando se tornar uma bala humana; e Ella (AM), solo de palhaçaria que aborda violência de gênero.

A Mostra OFFRec amplia o alcance do festival com produções locais e nacionais  contemporâneas, incluindo Mi Madre, solo autobiográfico de dança de Jhanaina Gomes; HBLynda em Trânsito, sobre as vivências de uma pessoa gorda, preta e não binária; e Shá da Meia Noite, celebrando os 40 anos da artista que participou do irreverente Grupo Vivencial.

O festival mantém sua vocação pedagógica através de quatro oficinas gratuitas sobre temas como teatro e sagrado feminino, dramaturgia feminista e criação de solos teatrais. As atividades acontecem entre os dias 20 e 27, em diversos equipamentos.

Toda a programação é gratuita, com distribuição de ingressos nas bilheterias dos teatros uma hora antes de cada espetáculo, mediante entrega de um quilo de alimento não perecível. Serão 37 sessões ao longo dos onze dias, convidando a cidade inteira a celebrar o teatro brasileiro.

📅 SERVIÇO 

LADY TEMPESTADE
🎭 Com: Andrea Beltrão
✍️ Texto: Silvia Gomez
🎬 Direção: Yara de Novaes
📅 Datas: 20, 21 e 22 de novembro
⏰ Horários: 20h (todas as sessões)
📍 Local: Teatro de Santa Isabel – Praça da República, Santo Antônio, Recife/PE
🪑 Capacidade: 570 lugares
🎟️ Ingressos: Gratuitos com 1kg de alimento não perecível
♿ Acessibilidade: Libras (todas as sessões) + Audiodescrição (dia 22)

24º FESTIVAL RECIFE DO TEATRO NACIONAL
🎨 Tema: “Vozes Femininas – Histórias que ressoam”
📅 Período: 20 a 30 de novembro de 2024
🎭 Programação: 24 espetáculos (16 inéditos na cidade) + 37 sessões
🎟️ Acesso: Gratuito com 1kg de alimento não perecível
🏛️ Equipamentos: 9 teatros e 2 parques da cidade
📱 Informações: @culturadorecife (Instagram) | Canais oficiais da Prefeitura do Recife

OUTROS DESTAQUES DA PROGRAMAÇÃO:

 Abertura de processo de Não se Conta o Tempo da Paixão (Auricéia Fraga) – dia 21, no Teatro Hermilo Borba Filho.
Tudo que Eu Queria te Dizer (Ana Beatriz Nogueira) – 22 e 23/11, Teatro do Parque
Mary Stuart (Virginia Cavendish e elenco) – 28 e 29/11, Teatro do Parque
116 Gramas: Peça para Emagrecer (Letícia Rodrigues) – 22 e 23/11, Teatro Apolo
Restinga de Canudos (Cia do Tijolo) – 23/11, Teatro Luiz Mendonça
Sobre os Ombros de Bárbara (Augusta Ferraz) – 29 e 30/11, Teatro de Santa Isabel

OFICINAS GRATUITAS:
Teatro, Dança e Sagrado Feminino (20-21/11)
Dramaturgia para Infâncias (21-23/11)
Criação de Solos Teatrais (24-27/11)
Dramaturgias Feministas (26/11)

⚠️ INFORMAÇÕES IMPORTANTES:

Chegada com 1h de antecedência recomendada
Programação sujeita a alterações – acompanhar canais oficiais
Espetáculos com classificação indicativa variada
Sessões com recursos de acessibilidade sinalizadas na programação

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Turnê de Sonho Elétrico,
com Jesuíta Barbosa, começa no Recife

Sonho Elétrico marca o retorno do ator pernambucano aos palcos após seis anos e explora temas como consciência, memória e futuro coletivo. Foto: Isadora Quintana / Divulgação

A companhia brasileira de teatro inicia a circulação nacional de Sonho Elétrico pelo Recife. O espetáculo será apresentado no Teatro de Santa Isabel nos dias 12, 13 e 14 de dezembro, trazendo o ator Jesuíta Barbosa de volta ao teatro após seis anos longe dos palcos. Estreada em junho no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, a produção vem com uma proposta que entrelaça arte e ciência. Marcio Abreu assina texto e direção de um trabalho inspirado no livro Sonho Manifesto, do neurocientista Sidarta Ribeiro.

A narrativa acompanha um músico fulminado por um raio que mergulha em coma profundo. Suspenso entre vida e morte, ele percorre memórias fragmentadas, sonhos e a possibilidade de um novo despertar. Essa jornada individual opera como espelho para questões contemporâneas sobre transformação social e futuro planetário.

Para o ator pernambucano Jesuíta Barbosa, o trabalho representa o reencontro com o teatro desde Lazarus, o musical de David Bowie que esteve em cartaz entre 2019 e 2020 em São Paulo. Durante esses seis anos, consolidou sua presença no audiovisual, participando mais recentemente de Homem com H e diversas séries televisivas, tornando-se um dos nomes mais reconhecidos de sua geração.

O elenco reúne Jessyca Meyreles, Idylla Silmarovi e Cleomácio Inácio.

A companhia brasileira de teatro celebra 25 anos em 2025 com Sonho Elétrico. Foto: Isadora Quintana

O projeto se desenvolveu a partir da plataforma Voo Livre, criada em 2023 pela companhia. Sidarta Ribeiro participou de três encontros fundamentais entre 2023 e 2024, em eventos realizados no Rio de Janeiro e São Paulo, incluindo uma residência artística que reuniu 30 jovens artistas.

A obra dá continuidade à investigação da companhia sobre sonho, história e memória, iniciada em AO VIVO [dentro da cabeça de alguém], de 2024.

O espetáculo nasce do trabalho colaborativo que marca a trajetória da companhia brasileira de teatro. Key Sawao traduz os estados alterados de consciência em movimentos, criando uma fisicalidade que dialoga com o território mental explorado na peça. A bailarina e artista da cena desenvolve uma linguagem corporal específica para navegar entre o coma e o despertar.

Felipe Storino constrói a paisagem sonora que sustenta essa jornada. O multi-instrumentista e compositor cria trilha original em parceria com Juliana Linhares, estabelecendo camadas musicais que acompanham as transformações do protagonista. Composições como Armadilha (Juliana Linhares e Caio Riscado), Emaranhada (Juliano Holanda) e Sonho Elétrico (Juliana Linhares e Marcio Abreu) estão na trilha. Luís Chamis executa piano ao vivo durante as apresentações.

Os figurinos de Luiz Cláudio Silva (Apartamento 03) vestem os diferentes estados de consciência dos personagens. Nadja Naira esculpe com a luz os espaços da mente, criando atmosferas que transitam entre o real e o onírico, além de coordenar tecnicamente todo o aparato cênico.

A cenografia surge do diálogo entre Marcio Abreu, José Maria e Nadja Naira, transformando o palco em território mental onde memórias e sonhos ganham forma física. Fábio Osório Monteiro, como assistente de direção, integra essa rede criativa que sustenta a complexidade conceitual do trabalho.

Duas Décadas e Meia de Teatro

Fundada em 2000 por Marcio Abreu em Curitiba, a companhia brasileira de teatro celebra 25 anos em 2025. Seu repertório inclui títulos como PRETO (2017), PROJETO bRASIL (2015) e Vida (2010), além de adaptações como POR QUE NÃO VIVEMOS? (2019), baseada em Platonov de Tchekhov.

Atualmente, o núcleo criativo é formado por Marcio Abreu, Nadja Naira, Cássia Damasceno e José Maria. O grupo mantém circulação constante pelo Brasil e Europa.

Democratização do Acesso

Todas as sessões contarão com intérprete de LIBRAS, audiodescrição e monitoria para pessoas neurodivergentes. O Teatro de Santa Isabel disponibiliza estrutura adequada para cadeirantes e pessoas obesas. Solicitações de serviços especiais podem ser feitas pelo e-mail companhiabrasileira@gmail.com.

Ficha Técnica 

Texto e Direção: Marcio Abreu
Elenco: Jesuíta Barbosa, Jessyca Meyreles, Idylla Silmarovi, Cleomácio Inácio
Direção de Movimento: Key Sawao
Música: Felipe Storino e Juliana Linhares
Figurinos: Luiz Cláudio Silva
Iluminação: Nadja Naira
Interlocução: Sidarta Ribeiro

SERVIÇO

Local: Teatro de Santa Isabel – Praça da República, s/nº
Datas: 12, 13 e 14 de dezembro
Horários: Sex e Sáb, 20h; Dom, 18h
Ingressos: R$ 25 a R$ 100 – Sympla ou bilheteria
Duração: 90 min
Classificação: 14 anos
Capacidade: 500 lugares

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Teatro em movimento
Rolês Teatrais no Recife
em meados de novembro

O Açougueiro, com Alexandre Guimarães. Foto: Elimar Caranguejo / Divulgação (FIG 24072017)

Eu, Romeu, solo de Marcos Camelo. Foto: Silvia Patricia /_Divulgação

Enquanto o Recife aguarda a 24ª edição do Festival Recife do Teatro Nacional, que acontece entre 20 e 30 de novembro abrindo com  cidade oferece uma programação teatral com montagens que transitam entre tradições afrobrasileiras, clássicos adaptados, monólogos premiados e experimentos cênicos contemporâneos.

Depois de dez anos percorrendo palcos nacionais e acumulando diversos prêmios, O Açougueiro retorna mais uma vez às terras pernambucanas. O monólogo com texto e direção de Samuel Santos e atuação de Alexandre Guimarães mergulha na história de Antônio, homem de origem humilde que conquistou o sonho de abrir o próprio açougue, e sua esposa Nicinha, ex-prostituta de um vilarejo sertanejo.

A narrativa, baseada no Teatro Físico e Antropológico, busca combater os estereótipos nordestinos para falar de amor, preconceito, intolerância e feminicídio. Guimarães se desdobra em nove personagens diferentes, entrelaçando diálogos com manifestações da cultura popular como aboios, toadas de vaqueiro e cantigas de reisados. A montagem já conquistou mais de 7 mil espectadores em 15 cidades brasileiras.

Shakespeare Encontra a Periferia – Da zona norte carioca, mais especificamente de Rocha Miranda, surge uma releitura ousada do clássico shakespeariano. Eu, Romeu traz Marcos Camelo em solo que celebra “a insistência petulante dos improváveis”, questionando sistemas que impõem limites por ascendência, cor de pele e CEP.

A Adorável Companhia constrói uma ponte entre a tragédia renascentista e a realidade suburbana contemporânea. Camelo, ator que “provavelmente não teria chance” de interpretar personagens shakespearianos em montagens tradicionais, se apropria do clássico misturando música, teatro e circo. O resultado é descrito pelo próprio intérprete como “Shakespeare do hip hop ao samba”, uma experiência de extrema intimidade com a plateia onde cada espectador pode se reconhecer no “Eu” do título.

Espetáculos Afrobrasileiros em Circulação

Eu conto, tu contas nós contamos – Ubuntu, uma linda aventura na floresta Afrobrasilândia, da São Gens

A ancestralidade ganha voz através de múltiplas linguagens teatrais na Sambada da Mestra Lusitânia, que acontece gratuitamente até 22 de novembro no Ilê Axé Oxum Ipondá, em Olinda. O Grupo São Gens apresenta uma fábula que questiona representatividade através de duas flores pretas intrigadas pela ausência de suas cores no arco-íris. Em Eu conto, tu contas nós contamos – Ubuntu, uma linda aventura na floresta Afrobrasilândia, (14/11, às 19h), as protagonistas embarcam numa jornada mágica conduzidas pela energia do Ubuntu e pela força dos Orixás, explorando identidade, diversidade e pertencimento através de músicas, danças e narrativas que celebram a cultura afrobrasileira. O espetáculo também circula gratuitamente por escolas públicas do interior pernambucano.

Paralelamente, outros trabalhos exploram memórias e identidades dentro da mesma programação do terreiro. Raquel Franco propõe o intimismo do Teatro lambe-lambe Igbá Itan (15/11, às 17h), formato onde poucos espectadores por vez vivenciam pequenas encenações em estruturas portáteis. Já Agrinez Melo tece recordações pessoais em Histórias Bordadas em Mim (15/11, às 19h), conectando experiência individual com coletividade na formação identitária.

Compondo este panorama de diversidade, HBLynda em TRANSito (16/11, às 19h) apresenta vivências interseccionais de uma pessoa gorda, preta, candomblecista e não binária, oferecendo múltiplas perspectivas sobre os trânsitos pelos diferentes espaços sociais contemporâneos.

Dança Musical e Tradições Populares

A linguagem coreográfica ganha destaque com duas propostas distintas. No Teatro do Parque, a Fênice Dance – Cia Guilherme Queirós adapta o conto clássico em A Bela e a Fera (16/11, 17h), prometendo “um show de dança, emoção e magia” que conta a história de amor através do movimento.

Já o 1º Festival de Cultura Popular do Sítio da Trindade, o universo da cultura popular brasileira se materializa em Chama de Griô (16/11, a partir das 15h). Este teatro musical gratuito conduz crianças e adultos pela aventura de um menino curioso que mergulha no mundo encantado das manifestações culturais, explorando danças, brincadeiras e ritmos tradicionais que compõem o mosaico da identidade brasileira.

Memórias, Identidades e Novas Dramaturgias

Tempo de Vagalume. Foto: Divulgação

Entre as propostas mais experimentais, destaca-se a sensibilidade de Tempo de Vagalume no Teatro Arraial Ariano Suassuna, em Garanhuns (14-15 de novembro, às 19h, com entrada gratuita), onde Joesile Cordeiro utiliza o brilho dos vagalumes como metáfora para reconectar com memórias de infância. O monólogo autobiográfico explora questões LGBTQIAP+ através de discursos dançantes onde memórias, movimentos e mutações se entrelaçam.

Samuel Santos e Grupo O Postinho que faz leitura de Maria Preta

A literatura periférica também encontra espaço cênico através de Samuel Santos, que transforma seu livro infantil em manifesto de representatividade negra com leituras dramatizadas gratuitas do Núcleo O Postinho. Maria Preta narra a fantástica jornada de uma menina de sete anos que, durante parada cardíaca, realiza o desejo de conhecer o próprio corpo por dentro. As apresentações acontecem no Quilombo do Catucá, em Camaragibe (15/11, às 18h) e na Escola Pernambucana de Circo, na Macaxeira (18/11, às 15h), ambas com interpretação em Libras.

FLIPORTO até 16 de Novembro

A 20ª Festa Literária Internacional de Pernambuco celebra duas décadas até 16 de novembro no Parque Dona Lindu, em Boa Viagem com o tema Literatura, tecnologia, sustentabilidade, interfaces e diálogos. Entre os destaques, o espetáculo Carlos Pena Filho e Miró da Muribeca cantam o Recife une poesia, música e performance sob idealização e direção de Ronaldo Correia de Brito no Teatro Luiz Mendonça.

Este trabalho homenageia dois poetas de gerações distintas que compartilham vínculos afetivos e líricos com o Recife, transformando a palavra poética em experiência cênica que celebra a cidade através de diferentes vozes e temporalidades.

VEM AÍ: Debates Urgentes e Vozes Femininas

Para Meu Amigo Branco discute o racismo estrutural.

A partir de 20 de novembro, a CAIXA Cultural Recife (Av. Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife) recebe Para Meu Amigo Branco, montagem que expõe o racismo estrutural através de situação escolar concreta. A trama acompanha pai que confronta a escola após sua filha de 8 anos sofrer injúria racial, descobrindo que a instituição prefere tratar a questão como mero bullying. A tensão dramática se intensifica quando um pai branco, inicialmente solidário, muda de postura ao descobrir que seu filho é o agressor. Reinaldo Junior e Fernão Lacerda interpretam os protagonistas sob direção de Rodrigo França.

Lady Tempestade, com Andréa Beltrão

Ana Beatriz Nogueira em Tudo que Eu Queria te Dizer

Helô em Busca do Baobá Sagrado. Foto: Dudu Silva

116 Gramas: Peça para Emagrecer questiona padrões corporais a partir da experiência de Letícia Rodrigues

Uma das homenageadas do festival do Recife, Auricéia Fraga compartilha suas memórias em Não se conta o tempo da Paixão

Corteja Paulo Freire, celebração poética e musical itinerante que homenageia o educador pernambucano

Restinga de Canudos a partir da perspectiva de duas professoras. Fotos: Alecio Cesar

O aguardado 24º Festival Recife do Teatro Nacional ocorre de 20 a 30 de novembro, com programação gratuita em diversos teatros da cidade, com o tema Vozes Femininas – Histórias que Ressoam, com realização da Prefeitura do Recife, através da Secretaria de Cultura do Recife e Fundação Cidade do Recife. A programação reúne 24 espetáculos em 37 sessões, celebrando perspectivas, criatividades e forças de grandes mulheres das artes cênicas.

Andréa Beltrão protagoniza Lady Tempestade no Teatro de Santa Isabel (20, 21 e 22/11), reconstruindo a trajetória de Mércia de Albuquerque, advogada que defendeu mais de 500 presos políticos durante a ditadura militar. Ana Beatriz Nogueira apresenta Tudo que Eu Queria te Dizer no Teatro do Parque (22/11 às 20h e 23/11 às 19h), interpretando seis mulheres através de cartas sobre amor, rejeição e desejo baseadas no livro de Martha Medeiros.

Entre as estreias locais, destaca-se Helô em Busca do Baobá Sagrado no Teatro Hermilo Borba Filho (22 e 23/11, às 16h), narrando a jornada de menina que deve encontrar o fruto sagrado para curar seu povo da “doença da tristeza”. Do lado, 116 Gramas: Peça para Emagrecer acontece no Teatro Apolo (22/11 às 18h e 23/11 às 18h), questionando padrões corporais através da experiência de Letícia Rodrigues com um corpo considerado “fora do padrão”.

Uma das homenageadas do festival, Auricéia Fraga compartilha memórias de mais de 50 anos dedicados às artes cênicas em Não se Conta o Tempo da Paixão (21/11, às 19h, Teatro Hermilo Borba Filho), uma abertura de processo dirigida por Rodrigo Dourado que cria espaço de intimidade entre a veterana atriz e o público.

Como parte do Ano cultural Brasil-França, On Veut / A Gente Quer (22 e 23/11, às 16h30, Bairro do Recife) materializa a colaboração da companhia francesa ktha com artistas locais selecionados para criar versão que dialogue com particularidades pernambucanas.

Ainda na programação do primeiro fim de semana, a Cia do Tijolo traz duas montagens que dialogam: Corteja Paulo Freire (22/11, às 16h30, Teatro Luiz Mendonça), celebração poética e musical itinerante que homenageia o educador pernambucano, e Restinga de Canudos (23/11, às 18h, Teatro Luiz Mendonça), que propõe inversão radical sobre o episódio histórico, mostrando Canudos como vitória através da perspectiva de duas professoras que educavam em tempos de paz e se tornaram enfermeiras e combatentes em tempos de guerra.

SERVIÇO

14 de novembro

O Açougueiro
Teatro Capiba, Sesc Casa Amarela | 20h | Gratuito (retirada 1h antes)

Eu, Romeu
Espaço O Poste, Boa Vista | 19h | R$ 20 (2 ingressos)

Eu conto, tu contas nós contamos – Ubuntu
Ilê Axé Oxum Ipondá, Olinda | 19h | Gratuito

14-15 de novembro

Tempo de Vagalume
Teatro Arraial Ariano Suassuna, Garanhuns | 19h | Gratuito

15 de novembro

Teatro lambe-lambe Igbá Itan
Ilê Axé Oxum Ipondá, Olinda | 17h | Gratuito

Histórias Bordadas em Mim
Ilê Axé Oxum Ipondá, Olinda | 19h | Gratuito

Maria Preta – Leitura Dramatizada
Quilombo do Catucá, Camaragibe | 18h | Gratuito

16 de novembro

A Bela e a Fera
Teatro do Parque | Ingressos: @fenicedance ou (81) 99968-0633

HBLynda em TRANSito
Ilê Axé Oxum Ipondá, Olinda | 19h | Gratuito

Chama de Griô – 1º Festival de Cultura Popular
Sítio da Trindade | 15h | Gratuito

FLIPORTOCarlos Pena Filho e Miró da Muribeca cantam o Recife
Parque Dona Lindu, Boa Viagem | sympla.com.br/evento/fliporto-festa-literaria-internacional-de-pernambuco/3196529

18 de novembro

Maria Preta – Leitura Dramatizada
Escola Pernambucana de Circo, Macaxeira | 15h | Gratuito

VEM AÍ

20-29 de novembro

Para Meu Amigo Branco 
CAIXA Cultural Recife | 20/11 às 18h; demais dias às 20h | R$ 30 e R$15 (meia)

24º Festival Recife do Teatro Nacional (20-30 de novembro)
Toda programação gratuita (1kg de alimento)

20/11 (quinta)

Lady Tempestade | Teatro de Santa Isabel | 20h | Com Libras

21/11 (sexta)

Não se Conta o Tempo da Paixão | Teatro Hermilo Borba Filho | 19h | Com Libras
Lady Tempestade | Teatro de Santa Isabel | 20h | Com Libras

22/11 (sábado)

Helô em Busca do Baobá Sagrado | Teatro Hermilo Borba Filho | 16h
On Veut / A Gente Quer | Bairro do Recife | 16h30 | Com Libras
Corteja Paulo Freire | Teatro Luiz Mendonça | 16h30
116 Gramas: Peça para Emagrecer | Teatro Apolo | 18h | Com Libras
Tudo que Eu Queria te Dizer | Teatro do Parque | 20h | Com Libras
Lady Tempestade | Teatro de Santa Isabel | 20h | Com Libras e Audiodescrição

23/11 (domingo)

Helô em Busca do Baobá Sagrado | Teatro Hermilo Borba Filho | 16h
On Veut / A Gente Quer | Bairro do Recife | 16h30 | Com Libras
Restinga de Canudos | Teatro Luiz Mendonça | 18h
116 Gramas: Peça para Emagrecer | Teatro Apolo | 18h | Com Libras e Audiodescrição
Tudo que Eu Queria te Dizer | Teatro do Parque | 19h | Com Libras e Audiodescrição

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24º Festival Recife do Teatro Nacional
celebra vozes femininas
que ecoam através da história

Alguns espetáculos da programação do festival

Entre os próximos dias 20 e 30 de novembro, o 24º Festival Recife do Teatro Nacional transforma palcos e outros espaços da capital pernambucana em território de celebração das vozes femininas que há décadas protagonizam movimentos de produção e insurreição cultural. Sob o tema Vozes Femininas – Histórias que Ressoam, o festival reverbera perspectivas, criatividades, forças e esperanças de grandes mulheres das artes cênicas pernambucanas e brasileiras, numa elaboração delicada e potente de lutas e lutos sociais.

Como já antecipamos aqui no Satisfeita Yolanda?, o festival abre com Lady Tempestade, protagonizada por Andréa Beltrão, montagem que tem causado furor por onde passa e despertou interesse impressionante do público recifense. O espetáculo tem três sessões nos dias 20, 21 e 22 de novembro, no Teatro de Santa Isabel, buscando acomodar o maior número possível de espectadores, já que toda a programação é gratuita, trocada por um quilo de alimento no dia da apresentação.  

Em onze dias de atividades oferecidas pela Prefeitura do Recife, através da Secretaria de Cultura e da Fundação de Cultura Cidade do Recife, serão apresentados 24 espetáculos – 16 deles inéditos na capital pernambucana – distribuídos em 37 sessões que convidam o Recife a aplaudir e celebrar o teatro feito no Brasil. Além das produções locais, o festival inclui debates, performances e oficinas gratuitas que fortalecem a vocação pedagógica do evento.

Entre os destaques nacionais inéditos na cidade estão Tudo que Eu Queria te Dizer com Ana Beatriz Nogueira, Mary Stuart dirigida por Nelson Baskerville, com Virginia Cavendish e Ana Cecília Costa e elenco, 116 Gramas: Peça para Emagrecer, as duas montagens da Cia do Tijolo (Restinga de Canudos e Corteja Paulo Freire), Zona Lésbica e Tem Bastante Espaço Aqui, do Rio de Janeiro, Das que Ousaram Desobedecer do Ceará, A Menina dos Olhos D’Água do Rio Grande do Sul,A Mulher Bala, de São Paulo e Ella do Amazonas. Das peças locais inéditas temos o infantil Helô em Busca do Baobá Sagrado, além dos trabalhos das homenageadas Não se Conta o Tempo da Paixão e Sobre os Ombros de Bárbara, abertura de processo de Auricéia Fraga e estreia de Augusta Ferraz, respectivamente. O único espetáculo internacional desta edição estabelece ponte franco-brasileira: On Veut / A Gente Quer apresenta roteiro francês interpretado por elenco recifense selecionado especialmente para o projeto.

Andréa Beltrão abre a programação do FRTN na quinta-feira, 20/11. Foto: Nana Moraes

Em diálogo com o tema do festival, Lady Tempestade reconstrói uma história fundamental da resistência brasileira através da trajetória de Mércia de Albuquerque, advogada que defendeu mais de 500 presos políticos durante a ditadura militar. Ao testemunhar a tortura de Gregório Bezerra nas ruas do Recife em 1964, sua vida foi transformada em missão de defesa dos direitos humanos.

Com texto de Sílvia Gomez e direção de Yara de Novaes, o monólogo parte dos diários que Mércia escreveu durante os anos mais duros da repressão. Andréa Beltrão interpreta A., mulher que recebe misteriosamente os escritos e gradualmente se envolve com aquelas histórias, numa estrutura narrativa que embaralha temporalidades através de um “diário dentro do diário”. A escolha dramatúrgica amplifica o impacto emocional ao criar camadas de identificação entre diferentes gerações de mulheres.

Homenageadas do ano

Augusta Ferraz e Auricéia Fraga as homenageadas desta edição

Auricéia Fraga e Augusta Ferraz são as homenageadas desta versão, duas artistas dedicadas conseguem atravessar décadas mantendo relevância criativa. Juntas, essas trajetórias mostram como a continuidade de uma tradição teatral se constrói através do trabalho persistente de seus intérpretes mais experientes, influenciando gerações e garantindo a renovação constante da cena local.

Augusta Ferraz é uma das figuras mais emblemáticas do teatro pernambucano, com carreira que ultrapassa cinco décadas e mais de 70 produções. Sua jornada artística, iniciada nos anos 1970, construiu-se através da versatilidade e compromisso inabalável com a arte cênica. Nos anos 1980, pela companhia Ilusionistas, encenou clássicos infantis que marcaram gerações; na década seguinte, tornou-se pioneira em espetáculos solo no estado, dirigindo e atuando em monólogos como Malassombro (2001) e Sexo, a arte de ser censurada (2014).

O reconhecimento de sua importância culminou em 2015, quando foi homenageada no 21º Janeiro de Grandes Espetáculos com a mostra Augusta Ferraz: 40 Anos de Resistência, apresentando quatro trabalhos em sequência. Atualmente, mantém engajamento ativo nas lutas pela cultura pernambucana e expandiu seu talento para a televisão, estreando na novela Guerreiros do Sol como Dona Berenice.

Nesta 24ª edição do FRTN, Augusta Ferraz defende a personagem Bárbara de Alencar (1760-1832), primeira presa política brasileira e protagonista da Revolução Pernambucana de 1817 em Sobre os Ombros de Bárbara, nos dias 29 e 30 de novembro. Com dramaturgia criada pela própria Augusta em parceria com Brisa Rodrigues e direção de José Manoel Sobrinho, o espetáculo explora a luta de uma mulher republicana durante a monarquia, apresentando um corpo violentado e uma resistência ao arbítrio que estabelece conexões diretas entre passado e presente.

Auricéia Fraga, por sua vez, representa a memória viva do teatro recifense. Ela acumula mais de cinco décadas de carreira com mais de 40 montagens teatrais. Iniciada em 1972 na Escola de Belas Artes da UFPE, conquistou prêmios de melhor atriz e colaborou com diretores de prestígio como Antônio Cadengue, Milton Bacarelli e Marco Camarotti, transitando também pelo cinema em filmes como Tatuagem e Árido Movie.

Não se Conta o Tempo da Paixão oferece à homenageada Auricéia Fraga a oportunidade de compartilhar memórias e reflexões sobre mais de 50 anos dedicadas às artes cênicas. O trabalho, dirigido por Rodrigo Dourado, funciona como abertura de processo que narra sua relação profunda com o teatro, criando espaço de intimidade entre a veterana atriz e o público.

Dupla Perspectiva de Resistência e Educação

Restinga de Canudos. Foto: Alecio Cesar

Corteja Paulo Freire, da Cia do Tijolo. Foto: Alecio Cesar

A presença da Cia do Tijolo no festival traz duas montagens complementares que dialogam com a pedagogia freireana e a memória histórica brasileira, demonstrando como uma companhia pode abordar temas correlatos através de linguagens distintas.

Restinga de Canudos propõe uma inversão de perspectiva radical sobre um dos episódios mais controversos da história nacional. Sob direção de Dinho Lima Flor, ao invés de partir do massacre documentado por Euclides da Cunha, a montagem escolhe iluminar a vida pulsante que existia antes da guerra, mostrando Canudos como vitória, não como derrota.

A dramaturgia reconstrói o cotidiano de uma comunidade que inventou formas próprias de existência no sertão baiano, revelando a complexidade social de Belo Monte muito além da figura de Antônio Conselheiro. O olhar parte de duas professoras – Odília Nunes e Karen Menatti – que em tempos de paz educavam e em tempos de guerra transformaram-se em enfermeiras e combatentes. Esta escolha narrativa reafirma, inspirada na ética freireana, o papel fundamental dos educadores na formação de consciência crítica.

Complementarmente, Corteja Paulo Freire chega como celebração poética, musical e itinerante que flexiona o conceito de cortejo no feminino. A montagem homenageia o educador pernambucano através de uma proposta que se movimenta pelos espaços, criando experiência imersiva que dialoga diretamente com a pedagogia freireana, falando sobre coletividade, respeito e caminhada como processos de construção coletiva de conhecimento.

Poder, Conspiração e Espelhos Contemporâneos

Mary Stuart, direção de Nelson Baskerville com Virginia Cavendish e Ana Cecília Costa. Foto: Priscila Prade

Transitando dos movimentos sociais para os jogos palacianos, Mary Stuart estabelece pontes temporais entre disputas do século XVI e embates políticos atuais. Nelson Baskerville transporta as tensões entre duas monarcas para uma linguagem que espelha questões contemporâneas, aproveitando o potencial da adaptação de Robert Icke que Virginia Cavendish descobriu em Londres.

Virginia Cavendish e Ana Cecília Costa interpretam as rainhas que historicamente nunca se encontraram, mas que no palco representam mulheres que pagaram caro por viver segundo suas convicções. A direção planeja recursos cenográficos que conectem passado e presente: um cronômetro permanentemente projetado marcará os últimos momentos de Mary Stuart, aprisionada há 18 anos.

A montagem dialoga com questões urgentes como o estímulo à misoginia, guerras religiosas que ressurgem periodicamente e mecanismos de enfraquecimento daqueles que não compactuam com estruturas de dominação. Esses temas ecoam tanto no impeachment de Dilma Rousseff quanto na crescente exploração da religião como ferramenta de manipulação política, demonstrando como clássicos teatrais podem iluminar conjunturas atuais.

Ana Beatriz Nogueira em Tudo que Eu Queria Te Dizer

Tudo que Eu Queria Te Dizer traz Ana Beatriz Nogueira revisitando textos baseados no livro de Martha Medeiros, sob direção de Victor Garcia Peralta. O solo apresenta cartas femininas sobre amor, rejeição, saudade, ética e desejo, com a atriz se desdobrando na pele de seis mulheres de universos distintos, todas vivendo momentos-limite de desabafo. A montagem, despojada cenograficamente, aposta inteiramente na força interpretativa.

Questionando Padrões Corporais e Sociais

116 Gramas: Peça para Emagrecer com Letícia Rodrigues

Ella, com Ana Oliveira da Cia Cacos, reflete sobre violência simbólica. Foto Heldemar Castro

Duas montagens se dedicam especificamente a questionar padrões impostos socialmente, pensando corpo e identidade através de perspectivas complementares mas distintas.

116 Gramas: Peça para Emagrecer apresenta Letícia Rodrigues em solo que mergulha na experiência de um corpo considerado “fora do padrão”. O título, que se refere ao peso específico que separava a personagem de um objetivo aparentemente simples, revela-se ponto de partida para investigação mais ampla sobre as pressões que a sociedade exerce sobre determinados corpos. A dramaturgia vai além da questão estética, problematizando os rituais obsessivos da busca por adequação social.

Ella, produção de Manaus com Ana Oliveira da Cia Cacos, utiliza a linguagem do clown para mirar a violência simbólica de gênero. A personagem, obcecada pela busca do amor romântico, combina humor e crítica, provocando questionamentos sobre autocuidado, padrões de beleza e os limites invisíveis da violência que perpassa o cotidiano feminino. A escolha pela palhaçaria como linguagem permite abordar temas delicados através do riso, criando pontes de identificação com o público.

A Menina dos Olhos D’Água (RS) mistura teatro de formas animadas com teatro documentário para crianças

Helô em Busca do Baobá Sagrado é montagem recifense que estreia no festival 

O festival apresenta para o público infantil montagens que tocam em temas complexos através de linguagem acessível, conectando, por exemplo, tradições ancestrais com questões contemporâneas.

Helô em Busca do Baobá Sagrado representa a produção local através do trabalho de Agrinez Melo, Cecília Chá, Ester Soares, Fábio Henrique e Talles Ribeiro. A montagem narra a jornada de uma menina que deve encontrar o fruto sagrado do Baobá para curar seu povo da “doença da tristeza”, conectando tradições africanas com questões sobre saúde mental coletiva e cuidado comunitário.

A Menina dos Olhos D’Água, com Liane Venturella do Rio Grande do Sul, vem com proposta que mistura teatro de formas animadas com teatro documentário para crianças. A montagem mistura temas como exílio, pertencimento, perda e superação, demonstrando como linguagens híbridas podem tornar questões complexas acessíveis às infâncias.

A Mulher Bala adiciona a perspectiva da palhaçaria feminina através do trabalho da paulista Funúncia (Priscila Senegalho e Renato Paio), que tenta se tornar uma bala humana usando canhão confeccionado por ela mesma. A proposta aposta no humor circense para questionar padrões de feminilidade, oferecendo às crianças referências de empoderamento feminino através do riso.

Fechando este núcleo, Tem Bastante Espaço Aqui chega do Rio de Janeiro com Carolina Godinho, Juliane Cruz e Monique Vaillé, propondo investigações intimistas sobre família, convivência e afeto. As histórias transitam entre humor e emoção, a partir dos jogos e dinâmicas familiares contemporâneas e suas narrativas que dialogam .

Laboratórios Internacionais e Memórias Regionais

Das que Ousaram Desobedecer, que resgata lutas de mulheres cearenses contra a ditadura militar entre 1960 e 1979. Foto: Pattie Silva

Montagem carioca Zona lésbica reivindica direitos afetivos 

A companhia francesa ktha veio ao Recife para desenvolver a peça On Veut / A Gente Quer com artistas locais, como parte da programação do Ano Cultural Brasil-França 2025. Após analisar mais de 100 cartas de intenção, a companhia selecionou artistas locais para construir versão específica que dialogue com particularidades pernambucanas. A metodologia da ktha funciona através de dramaturgia aberta – uma extensa lista de desejos e reivindicações que ganha forma específica através do trabalho com performers locais, criando rituais coletivos de partilha de anseios urbanos. Participam do trabalho Guaraci Rios, Rodrigo Herminio, Anna Batista, Maria Pepe, Ana Carolina dos Santos, Lucas Vinicius Silva de Lima.

A programação também valoriza memórias regionais através de Das que Ousaram Desobedecer, que chega do Ceará com Liliana Brizeno, Marina Brito e Marina Brizeno. A montagem resgata lutas de mulheres cearenses contra a ditadura militar entre 1960 e 1979, iluminando histórias de resistência que frequentemente permaneceram na sombra dos relatos oficiais, reconstruindo trajetórias de mulheres que enfrentaram a repressão através de diferentes formas de insurgência.

Ainda na programação principal, Zona Lésbica enfrenta estereótipos de gênero e reivindica direitos afetivos através do trabalho de Carolina Godinho, Dandara Azevedo, Dani Nega, Jessica Lamana, Monique Vaillé, Nely Coelho e Simone Beghinni. A montagem carioca propõe discussões necessárias sobre diversidade sexual e afetiva, uma afirmação direta sobre direitos fundamentais.

OFFRec: Ampliando Vozes Emergentes

Mi Madre, com Jhanaina Gomes. Foto: Morgana Narjara

Ensaio do Agora. Foto: Rogério Alves

HBLynda Morais apresenta vivências interseccionais. Foto: Rafael Quirino

Shá da Meia Noite, com Sharlene Esse, primeira dama trans do teatro pernambucano

A vocação pedagógica do festival segue sua trilha com a mostra OFFRec, que apresenta produções locais escolhidas pela curadoria para formar o panorama da cena contemporânea. Esta programação paralela funciona como vitrine para artistas emergentes e propostas experimentais que buscam visibilidade.

Mi Madre, solo autobiográfico de dança criado por Jhanaina Gomes, honra ancestralidade através do movimento corporal. HBLynda Morais apresenta vivências interseccionais de uma pessoa gorda, preta, candomblecista e não binária, oferecendo perspectivas múltiplas sobre identidade contemporânea.

Ensaio do Agora constrói narrativas sobre memória através do trabalho conjunto de Analice Croccia, Domingos Júnior e Natali Assunção, contando histórias de nove mulheres. Avós permite que Olga Ferrario celebre ancestralidade feminina através de trabalho poético sobre as mulheres que a antecederam, criando pontes geracionais através da arte.

Àwọn Irúgbin confirma protagonismos afro-indígenas através do trabalho de Cecilia Chá, Larissa Lira, Sthe Vieira e Thallis Ítalo, demonstrando como jovens artistas conseguem articular identidades étnicas com propostas cênicas contemporâneas.

As intervenções Silêncio, de Célia Regina, ocorre na Casa de Alzira na mesma ocasião que Shá da Meia Noite, de Sharlene Esse, que celebra os 40 anos do Grupo Vivencial. As ações conectam a história do teatro alternativo pernambucano com propostas atuais de experimentação cênica.

Formação

Quatro oficinas gratuitas fazem parte deste festival. Teatro, Dança e o Sagrado Feminino com Sandra Rino explora conexões entre espiritualidade e criação cênica. Corpo e Escrita de Si com Paula Lice investiga relações entre experiência corporal e criação dramatúrgica.

Da Ideia à Cena oferece com Malú Bazán território de experimentação para criação de solos teatrais, enquanto Dramaturgias Feministas permite que Luciana Lyra aprofunde discussões sobre o papel das mulheres na criação teatral contemporânea.

Paralelamente, o Ciclo de Dramaturgia Feminista inclui leituras cênicas e debates que fortalecem a vocação pedagógica do festival, criando espaços de reflexão sobre os avanços e desafios da representação feminina nas artes cênicas.

PROGRAMAÇÃO

24º FESTIVAL RECIFE DO TEATRO NACIONAL
De 20 a 30 de novembro

DIA 20 (QUINTA-FEIRA)

20h – Abertura + “Lady Tempestade”, com Andréa Beltrão (RJ)
No Teatro de Santa Isabel
Com Libras

DIA 21 (SEXTA-FEIRA)

19h – Abertura de processo “Não se Conta o Tempo da Paixão”, com Auricéia Fraga (PE)
No Teatro Hermilo Borba Filho
Com Libras

20h – “Lady Tempestade”, com Andréa Beltrão (RJ)
No Teatro de Santa Isabel
Com Libras

DIA 22 (SÁBADO)

16h – “Helô em Busca do Baobá Sagrado”, com Agrinez Melo, Cecília Chá, Ester Soares, Fábio Henrique e Talles Ribeiro (PE)
No Teatro Hermilo Borba Filho

16h30 – “On Veut / A Gente Quer”, com Guaraci Rios, Rodrigo Herminio, Anna Batista, Maria Pepe, Ana Carolina dos Santos, Lucas Vinicius Silva de Lima (FR/PE)
No Bairro do Recife
Com Libras

16h30 – “Corteja Paulo Freire”, da Cia do Tijolo (SP), com Dinho Lima Flor, Rodrigo Mercadante, Karen Menatti, Artur Mattar, Odilia Nunes, Danilo Nonato, Jaque da Silva, Vanessa Petroncari e João Bertolai
No Teatro Luiz Mendonça

18h – “116 Gramas: Peça para Emagrecer”, com Letícia Rodrigues (SP)
No Teatro Apolo
Com Libras

20h – “Tudo que Eu Queria te Dizer”, com Ana Beatriz Nogueira (RJ)
No Teatro do Parque
Com Libras

20h – “Lady Tempestade”, com Andréa Beltrão (RJ)
No Teatro de Santa Isabel
Com Libras e Audiodescrição

DIA 23 (DOMINGO)

16h – “Helô em Busca do Baobá Sagrado”, com Agrinez Melo, Cecília Chá, Ester Soares, Fábio Henrique e Talles Ribeiro (PE)
No Teatro Hermilo Borba Filho

16h30 – “On Veut / A Gente Quer”, com Guaraci Rios, Rodrigo Herminio, Anna Batista, Maria Pepe, Ana Carolina dos Santos, Lucas Vinicius Silva de Lima (FR/PE)
No Bairro do Recife
Com Libras

18h – “Restinga de Canudos”, da Cia do Tijolo (SP), com Dinho Lima Flor, Rodrigo Mercadante, Karen Menatti, Odília Nunes, Artur Mattar, Jaque da Silva, Danilo Nonato, João Bertolai, Marcos Coin, Dicinho Areias, Jonathan Silva, Juh Vieira, Vanessa Petroncari, Mayara Baptista, Roma Oliveira, Maria Alencar Rosa, Nanda Guedes e Leandro Goulart
No Teatro Luiz Mendonça

18h – “116 Gramas: Peça para Emagrecer”, com Letícia Rodrigues (SP)
No Teatro Apolo
Com Libras e Audiodescrição

19h – “Tudo que Eu Queria te Dizer”, com Ana Beatriz Nogueira (RJ)
No Teatro do Parque
Com Libras e Audiodescrição

DIA 24 (SEGUNDA-FEIRA)

OFFRec
19h – Espetáculo “Mi Madre”, com Jhanaina Gomes (PE)
No Teatro Hermilo Borba Filho

DIA 25 (TERÇA-FEIRA)

OFFRec
16h – Ciclo de Dramaturgia Feminista – Leitura cênica: “Deus da Carnificina”, com o Ato Teatro (PE)
No Espaço Cênicas

17h – Debate: “O Olhar da Mulher – Trânsito entre Teatro e Cinema”, com Andréa Veruska e o Ato Teatro (PE)
No Espaço Cênicas

19h – Espetáculo “HBLynda”, com HBLynda Morais (PE)
No Teatro Hermilo Borba Filho

DIA 26 (QUARTA-FEIRA)

OFFRec
16h – Ciclo de Dramaturgia Feminina – Leitura cênica: “A Peça do Vulcão”, com a Cênicas Cia de Repertório (PE)
No Espaço Cênicas

17h – Debate: “O Trabalho da Cênicas Cia e a Presença da Mulher”, com Sônia Carvalho e Toni Rodrigues (PE)
No Espaço Cênicas

19h – Espetáculo “Ella”, com Ana Oliveira (AM)
No Teatro Hermilo Borba Filho

DIA 27 (QUINTA-FEIRA)

OFFRec
16h – Ciclo de Dramaturgia Feminista – Leitura cênica: “Josephina”, com Arilson Lopes, Fabiana Pirro e Ana Luiza D’Accioli (PE). Participação: DJ Vibra
No Espaço Cênicas

17h – Debate: “Feminismo, Teatro e Dramaturgia”, com Luciana Lyra e grupo (PE)
No Espaço Cênicas

18h – Lançamento de livro: “Coleção Dramaturgias Feministas”/Numa Editora, com Luciana Lyra
No Espaço Cênicas

19h – Espetáculo “Avós”, com Olga Ferrario (PE)
No Teatro Hermilo Borba Filho

20h – Espetáculo “Ensaio do Agora”, com Analice Croccia, Domingos Júnior e Natali Assunção (PE)
No Teatro Apolo

DIA 28 (SEXTA-FEIRA)

20h – “Mary Stuart” com Virginia Cavendish, Ana Cecília Costa, Letícia Calvosa, Adilson Azevedo, César Mello/Anderson Müller, Eucir de Souza, Joelson Medeiros, Johnnas Oliva/Iuri Saraiva, Fernando Vitor, Alef Barros e Julia Terron (SP)
No Teatro do Parque
Com Libras

OFFRec
16h – “ÉdypusD’Yocasta”: abertura de processo – Dramaturgia em progresso”, com Cia do Ator Nu (PE)
Na Casa de Alzira

17h – Debate: “Escrituras Femininas – Entre Teatro e Literatura”, com Flávia Gomes e Cia do Ator Nu (PE)
Na Casa de Alzira

19h – Espetáculo “Àwọn Irúgbin”, com Cecilia Chá, Larissa Lira, Sthe Vieira e Thallis Ítalo (PE)
No Teatro Hermilo Borba Filho

DIA 29 (SÁBADO)

11h – “A Menina dos Olhos D’água”, com Liane Venturella (RS)
No Teatro Marco Camarotti
Com Libras

16h – “Tem Bastante Espaço Aqui”, com Carolina Godinho, Juliane Cruz e Monique Vaillé (RJ)
Teatro Apolo

16h – “A Mulher Bala”, com Priscila Senegalho e Renato Paio (SP)
No Parque da Tamarineira
Com Libras

20h – “Sobre os Ombros de Bárbara”, com Augusta Ferraz (PE)
No Teatro de Santa Isabel
Com Libras

20h – “Mary Stuart”, com Virginia Cavendish, Ana Cecília Costa, Letícia Calvosa, Adilson Azevedo, César Mello/Anderson Müller, Eucir de Souza, Joelson Medeiros, Johnnas Oliva/Iuri Saraiva, Fernando Vitor, Alef Barros e Julia Terron (SP)
No Teatro do Parque
Com Libras e Audiodescrição

OFFRec
16h – Diálogos Crítico-Pedagógicos: “OFFRec em Perspectiva – Tendências Contemporâneas”, com Fátima Pontes e Emanuela de Jesus (PE)
Na Casa de Alzira

19h – Espetáculo “Das que Ousam Desobedecer”, com Liliana Brizeno, Marina Brito e Marina Brizeno (CE)
No Teatro Hermilo Borba Filho

21h – Intervenção performática “Silêncio”, com Célia Regina (PE)
Na Casa de Alzira

22h – Espetáculo “Shá da Meia Noite”, com Sharlene Esse (PE)
Na Casa de Alzira

DIA 30 (DOMINGO)

11h – “A Menina dos Olhos D’água”, com Liane Venturella (RS)
No Teatro Marco Camarotti

16h – “A Mulher Bala”, com Priscila Senegalho e Renato Paio (SP)
No Parque da Macaxeira
Com Libras

18h – “Noite”, com Sônia Biebard, Fátima Aguiar e Karine Ordônio (PE)
No Teatro Hermilo Borba Filho

19h – “Zona Lésbica”, com Carolina Godinho, Dandara Azevedo, Dani Nega, Jessica Lamana, Monique Vaillé, Nely Coelho e Simone Beghinni (RJ)
No Teatro Apolo
Com Libras

20h – “Sobre os Ombros de Bárbara”, com Augusta Ferraz (SP)
No Teatro de Santa Isabel
Com Libras e Audiodescrição

OFICINAS

“Teatro, Dança e o Sagrado Feminino – A Dança dos Elementos” – Com Sandra Rino (PE). Dias 20 e 21, das 8h30 às 12h30, no Paço do Frevo. 20 vagas (só para mulheres)

“Corpo e Escrita de Si – Dramaturgia para e a partir das Infâncias” – Com Paula Lice (BA). Dias 21, 22 e 23, das 14h às 18h, Teatro Marco Camarotti.. 20 vagas

“Da Ideia à Cena – Território de Experimentação Cênica para Criação, Desenvolvimento e Pesquisa de Solos Teatrais” – Com Malú Bazán (SP). Dias 24, 25, 26 e 27, das 9h às 13h, no Teatro de Santa Isabel. 12 vagas

“Dramaturgias Feministas: Panorama Brasileiro, Agendas e Modos de Fazer” – Com Luciana Lyra (PE). Dia 26/11, das 14h às 18h, no Teatro de Santa Isabel. 20 vagas

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