Entre o humor e a melancolia:
vozes femininas no limite
Crítica: Tudo que eu queria te dizer
por Ivana Moura

Ana Beatriz Nogueira fez duas apresentações no 24º Festival Recife do Teatro Nacional. Foto: Marcos Pastich / PCR

“Sorte sua não ter envelhecido, é a única vantagem de a morte ter lhe buscado aos 58. Você não precisou passar pelo constrangimento nessa terra de apressados”. A octogenária Clô, escrevendo ao marido morto há duas décadas, também confessa: “Não é de propósito que eu ando devagar, que eu esqueço minhas falas”. Ambas as frases expõem com ironia melancólica uma realidade brasileira urgente: o etarismo – discriminação de idade que se intensifica em uma nação em rápido envelhecimento populacional.

Estas e outras passagens provocam risos na plateia, cumprindo exatamente a função social que Henri Bergson identificou: o humor como mecanismo coletivo de reflexão sobre nossas próprias intolerâncias. Particularmente relevante para mulheres, que enfrentam dupla discriminação – etária e de gênero.

Tudo que eu queria te dizer expõe realidades ficcionalizadas de forma deliberadamente breve e pouco esmiuçada, seguindo a proposta do projeto. Uma comédia construída a partir de relatos rápidos. Durante o 24º Festival Recife do Teatro Nacional, Ana Beatriz Nogueira deu vida a seis personagens criadas por Martha Medeiros: Renata abandona o casamento para reencontrar um beijo apaixonado da adolescência; Andressa confronta a esposa de seu ex-amante após dois anos de relacionamento extraconjugal; Clô compartilha com o marido falecido as limitações impostas pela velhice; Vanda busca orientação esotérica após revelações de uma cartomante; Dirce expõe ao analista preconceitos ocultos e inconfessáveis que muita gente mantém em segredo, mas ela escreve sem filtros, arrancando gargalhadas da plateia; Clarissa enfrenta dilema ético ao se apaixonar pela cliente.

No palco do Teatro do Parque, Ana Beatriz estabelece cumplicidade instantânea com o público. Trajando calça e camisa pretas, ela conta que a pessoa que tossia nos bastidores era ela, pois está com virose contraída no Rio de Janeiro, solicitando compreensão para eventuais episódios de tosse – e sugerindo, divertidamente, que a plateia aproveitasse para tossir em coro. Tal estratégia transforma potencial desconforto em pacto cênico.

Posteriormente, ela apresenta prólogo explicando a gênese do projeto de adaptar as cartas fictícias de Martha Medeiros. Inclusive lê correspondência enviada pela escritora, traçando ponte entre realidade e ficção. Quando as luzes se apagam, inicia-se a metamorfose interpretativa.

Virtuosismo Interpretativo de Ana Beatriz Nogueira. Foto de Marcos Pastich/PCR.

Martha Medeiros é mestra em criar material que ressoa imediatamente com o público de classe média urbana. Especialista em transformar crises existenciais cotidianas em entretenimento reflexivo, a escritora gaúcha domina a arte de temperar separações, traições e questionamentos identitários com inteligência humorística.

Ana Beatriz montou esta adaptação teatral em parceria com Victor Garcia Peralta em 2010. A experiência de 15 anos com o material reforça uma encenação que privilegia a palavra desde sua origem. Comunicação direta constitui a estratégia cênica fundamental.

Com trajetória que inclui desde o Urso de Prata berlinense (1987) pelo filme Vera até muitos sucessos televisivos, Ana Beatriz exibe domínio técnico excepcional. Seu registro vocal distintivo – que seleciona palavras específicas e constrói frases com precisão matemática – converte ritmo em instrumento cômico de alta eficácia.

Transformações sutis de postura e entonação criam personalidades distintas. Renata manifesta determinação ao comunicar sua fuga amorosa. Andressa Sá envia uma carta para Ester, fazendo da humilhação um poder destrutivo, usando a verdade como lâmina para retalhar tanto o microhomem que a rejeitou quanto a esposa; uma espécie de vingança para tentar reconquistar algum senso de dignidade perdida. Vanda explora gestualidade cômica, que passa por religiões e credos. O momento interpretativo mais impactante surge com a octogenária Clô: curvatura corporal, voz frágil e movimentos delicadamente trêmulos que fundem melancolia e ironia ao refletir sobre envelhecimento, em construção cênica evidenciando o brilho interpretativo de Ana Beatriz.

Cenário despojado e figurino neutro delegam à imaginação do público a tarefa de vestir as personagens, gerando cumplicidade colaborativa entre palco e plateia.

Atriz levou ao palco “loucuras domesticadas que ocasionalmente se rebelam”. Foto de Marcos Pastich/PCR.

A inteligência cômica de Medeiros explora variados contextos sem condescendência. Risos emergem da identificação imediata – espectadores reconhecem situações familiares, convertendo constrangimentos pessoais em alívio coletivo. Embora breves e sem densidade psicológica, as histórias expõem questões através de sagacidade que promove alívio emocional.

Mantendo tom consistentemente “alto astral”, a peça dialoga com classe média que se reconhece nestas “loucuras domesticadas que ocasionalmente se rebelam”. Cada protagonista gera empatia espontânea, diverte e relativiza problemas mediante riso compartilhado.

Victor Garcia Peralta assina direção que reconhece parâmetros e potencialidades do material. Nessa perspectiva, o despojamento cênico surge como opção estética consciente, concentrando toda energia dramática na atuação da artista. Complementarmente, o ritmo calibrado à estrutura epistolar permite que cada carta se desenvolva em sua particularidade, respeitando o tempo interno de cada missiva.

A trilha sonora destaca a parceria Juliano Holanda e Zélia Duncan em Vou Gritar Seu Nome e conecta narrativas. A iluminação assinala transições entre personagens sutilmente. O conjunto de recursos serve integralmente à simplicidade almejada.

Tudo que eu queria te dizer opera dentro de seus propósitos. Um teatro que honra seus compromissos com o entretenimento, que sinaliza questões sem ambição sociológica profunda. Ana Beatriz constrói performance de alta qualidade, oferecendo o prazer de assistir a uma intérprete em pleno domínio de seu ofício. Ao tocar em temas pertinentes como etarismo, relações contemporâneas e dilemas de classe média, a montagem prioriza superfície bem-humorada sobre densidade dramática, com força que reside na comunicação precisa com público que procura entretenimento inteligente. Suas qualidades se destacam: performance virtuosística, texto espirituoso, direção eficiente e diálogo certeiro com audiência-alvo. Um teatro que cumpre integralmente o prometido: diversão que faz pensar.

FICHA TÉCNICA

Texto original: Martha Medeiros
Direção: Victor Garcia Peralta
Elenco: Ana Beatriz Nogueira
Luz: Paulo César Medeiros
Figurino e cenário: Victor Garcia Peralta e Ana Beatriz Nogueira
Produção: Trocadilhos 1000 Prod Art Ltda
Realização: Ana Beatriz Nogueira
Assessoria de Imprensa: Dobbs Scarpa

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Eu quero é botar meu bloco na rua
Crítica do espetáculo
On veut/a gente quer
Por Annelise Schwarcz

On Veut / A Gente Quer, com Cia Ktha e elenco pernambucano: Guara Rios, Rodrigo Hermínio, Anna Batista, Maria Pepe, Caru dos Santos e Lucas Vinícius (FR/PE). Foto de Marcos Pastich/PCR.

A gente quer ser feliz, a gente quer amor, a gente quer históricas de amor, a gente quer passear de bicicleta, a gente quer sorrir, a gente quer ver cores sobre o mar, a gente quer ver pássaros voando, a gente quer se sentir bonito, a gente quer rir, a gente quer conhecer a Lua, a gente quer poder se maquiar sem pressa, a gente quer nossos amigos com a gente, a gente quer ser amada/o, a gente quer coisas contraditórias, mas as queremos mesmo assim, a gente quer riquezas distribuídas, a gente quer usar a raiva, a gente quer mudar o mundo, a gente quer ser justa/o, corajosa/o, reta/o, a gente quer ser sem medo, a gente quer crescer, a gente quer ter escolha, a gente quer justiça, a gente quer florestas de pé, a gente…

Com texto de Nicolas Vercken, On veut/ a gente quer é um manifesto por um mundo mais justo, igualitário, menos preocupado com o acúmulo de riquezas e mais preocupado com a qualidade de vida humana e não humana na Terra. O que nós queremos? Onde deixamos esse querer? Quem convidamos para querer com a gente? E o que acontece quando queremos juntas/os? Como quem aposta que querer é um verbo que se conjuga no coletivo, a companhia francesa Ktha tem reunido, nos últimos anos, artistas ao redor do mundo para interpretar o texto de On veut nas ruas de cidades como, por exemplo, Aurillac, Séoul e Recife.

O dispositivo performativo de On veut, devido à sua relativa simplicidade, é capaz de ser encenado e reinventado com diferentes grupos em diferentes línguas. O projeto começou na França em 2021, ainda durante a pandemia de COVID-19, e tem como objetivo reunir um coletivo temporário de performers – que podem variar entre 1 a 100 artistas – para interpretar a lista de quereres idealizados por Vercken para um público na rua. Sem personagens ou atribuições específicas de texto a determinada/o performer, a montagem consiste no uso de bancos ou cadeiras onde as/os artistas vão se alternar na interpretação da lista. A condução do espetáculo depende do entrosamento do grupo no revezamento ou sobreposição das falas, que ocorre de forma espontânea e, portanto, pode variar de uma apresentação a outra mesmo quando realizada pelo mesmo elenco.

No site da Ktha, é possível conferir um portfólio com os últimos projetos da companhia francesa, dentre eles: Tu es là [você está aqui] (2023), Demain arrive (je suis une autre toi) [amanhã virá (eu sou outro você)] (2020), Il n’y a plus (de ville) [não há mais (cidade)] (2016) e Juste avant que tu ouvres les yeux [assim que você abrir os olhos] (2015). Cada um desses projetos possui um dispositivo performativo distinto que opera como um manual de instruções – ou um jogo – para a montagem de um espetáculo independente de uma cidade ou elenco específico. Por exemplo, em Juste avant que tu ouvres les yeux [assim que você abrir os olhos], o manual tem a seguinte instrução: “uma performance a 3,5 km/h dentro de um caminhão rodando pela cidade com 3 performers”.

Para o 24º Festival Recife do Teatro Nacional, a companhia Ktha – representada por Nicolas Vercken e Laetitia Lafforgue – convocou seis artistas locais (Guara Rios, Rodrigo Herminio, Anna Batista, Maria Pepe, Ana Carolina dos Santos e Lucas Vinicius Silva de Lima) e se reuniu com elas/es primeiramente de forma remota e, a 10 dias do festival, se reuniram presencialmente para preparar o elenco. O resultado do processo foi apresentado entre o Paço da Alfândega e a Igreja Madre de Deus nos dias 22 e 23 de novembro. A montagem, com duração média de 50 minutos, flerta com um tom monótono ao longo da sequência de “a gente quer”, por vezes dispersando a atenção, que é recuperada a cada mudança de performer e/ou de dicção (aumentando o volume da voz, ou mantendo o volume padrão) e/ou mudando de plano (por vezes, as/os artistas estão sentadas/os, por vezes estão em pé sobre as cadeiras).

Os quereres assumiam diferentes afetos: transitando entre feições serenas e sorrisos a gritos de indignação e expurgos de raiva, as demandas de Nicolas Vercken, traduzidas para o português, foram endereçada através das/os intérpretes diretamente ao público como quem nos convida a querer junto, como quem aposta que suas demandas irão encontrar as nossas. Será que essas demandas são universalizáveis a ponto de rodarem o mundo e reverberarem em diferentes plateias da Coreia do Sul ao nordeste brasileiro? Eu, por minha vez, estava ansiosa pelo momento em que a plateia poderia adicionar alguns “a gente quer…” à lista. Não como quem quer consertar ou fazer recortes na lista original, mas como quem se afetou e quer colocar algumas demandas em praça pública também. Mais do que buscar uma identificação com todo e qualquer querer ali colocado, a montagem nos convida a tirar nosso desejo do âmbito privado e colocá-lo na rua; nos impele a tecer uma rede de desejos coletivamente, a falá-los em voz alta, a ouvir os quereres que nos circulam e a – por fim – conspirar juntas/os um outro mundo: o primeiro passo é querer. Você quer?

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Força e resistência
de Lady Tempestade
no palco recifense
Crítica do espetáculo por Ivana Moura

Andréa Beltão em Lady Tempestade. Foto: Marcos Pastich / PCR

Madeira do Rosarinho (Madeira que cupim não rói) traduz o ethos pernambucano: força, garra, determinação e orgulho, tudo junto e misturado. Nascida como resposta a uma injustiça – quando o bloco perdeu um concurso em 1963 para o Batutas de São José, numa decisão considerada parcial – a canção foi além do seu contexto original.

O verso “Queiram ou não queiram os juízes, o nosso bloco é de fato campeão” ecoou para além do carnaval, consolidando-se como hino de afirmação coletiva, força diante da opressão. Integrada à trilha sonora de Lady Tempestade, é executada no meio da peça e foi ouvida em silêncio reverente na estreia do 24º Festival Recife do Teatro Nacional – demonstração de respeito e comunhão com a luta retratada.

Criação Artística de Alta Voltagem – Lady Tempestade é um monólogo teatral que não reproduz biograficamente a vida de Mércia Albuquerque, mas surge como criação artística potente inspirada nos diários pessoais da advogada pernambucana. Uma ficção dramatúrgica de Sílvia Gomez que honra a memória de quem defendeu mais de 500 presos políticos durante a ditadura militar.

A dramaturgia revela maturidade impressionante – uma jovem com sabedoria cênica invejável, capaz de criar jogos teatrais, desconcertar com dribles narrativos e demonstrar a força transformadora da palavra.

Essas coisas aconteceram acontecem acontecerão, articula a protagonista, lembrando a todos nós que o jogo não está ganho. Vemos no palco uma luta angustiante de uma mulher contra uma máquina de triturar brasileiros pensantes que defendiam justiça social. Ela, que avança exausta contra os gafanhotos que estão em toda parte.

A mão de Yara de Novaes na direção permite que a história de Mércia respire e sangre no palco. Sílvia Gomez, sua sobrinha, já trabalhou com a diretora em outras montagens – existe uma intimidade artística entre elas que se traduz em colaboração criativa fluida e orgânica.

Juntas, constroem um espetáculo que preserva a dignidade da memória de Mércia através de uma abordagem que doseia densidade histórica com momentos de respiração e umas faíscas de humor. A direção de Novaes é dinâmica e envolvente: vai costurando estados mentais, subverte tempos, conecta e desconecta personagens numa dança cênica precisa. É método nos vários postos. 

A trama se inicia quando a intérprete (Andréa Beltrão) recebe de forma inesperada os manuscritos dos diários de Mércia. Esse encontro fortuito desencadeia um mergulho reflexivo entre passado e presente, estabelecendo ligações com capítulos silenciados da história brasileira.

A cenografia utiliza simbologias poéticas: uma caixa de papelão dos correios e xícaras ofertadas que apontam para madrugadas insones de Mércia. Há surpresas do “subsolo” que surpreendem ao final. 

Em cena com seu filho Chico, que faz a sonoplastia

20 de novembro de 2025, Teatro de Santa Isabel, Recife. Momento extraordinário – aquilo que só o teatro, arte da presença na presença, pode proporcionar. Andréa Beltrão no palco, Yara de Novaes (direção), Sílvia Gomez (dramaturgia), Verônica Prates e Valencia Losada (produção) nos bastidores. Casa lotada, público extasiado, choros baixinhos ecoando durante a apresentação.

A atriz, dona de técnica invejável, traz as forças da natureza para sua interpretação – raios, trovões, relâmpagos, a raiva da senhora tempestade. Trabalha voz, fisicalidade, intenções, transitando entre as personagens Mércia e A. (com suas alusões aos gafanhotos).

Uma questão sensível merece destaque: frequentemente causa incômodo quando artistas sudestinos interpretam personagens nordestinas, geralmente pela artificialidade do sotaque construído. Nesta montagem, contudo, o sotaque que Andréa Beltrão carrega em determinados momentos e ganha dimensão de propriedade e consciência. Não é imitação ou caricatura, mas apropriação respeitosa que nasce da verdade da figura retratada e da entrega integral da intérprete. A prosódia nordestina emerge organicamente, sem forçar, sem soar postiça – resultado de um trabalho de pesquisa e sensibilidade que honra tanto Mércia quanto o território que ela representa.

Durante a apresentação, um celular tocou na plateia. Beltrão segurou o tempo, atrasou propositalmente a partitura, se ajeitou, e num movimento de cabeça fez os óculos voarem até nossos pés – demonstração de presença cênica e domínio do palco. Precisa ser atriz extraordinária para dançar aquela sofrência e transformar o ridículo da situação em versos que viram protesto.

A trilha sonora, executada ao vivo por Chico Beltrão (seu filho), cria um elo poderoso com todas as mães que tentam proteger seus filhos, especialmente aquelas que os perderam para a barbárie – metáfora maternal que atravessa gerações.

Santa Isabel lotado, o público da luta e do luto. Foto: Foto: Marcos Pastich / PCR

Uma das aberturas mais impactantes da história do Festival Recife do Teatro Nacional. A prefeitura atendeu cerca de 540 pessoas – um público que misturava frequentadores habituais de teatro com jovens engajados politicamente e pessoas que nunca haviam entrado num teatro, motivadas pelo componente histórico-político.

Exemplo tocante: uma filha de preso político que descobriu a verdadeira história do pai somente este ano. Cresceu acreditando que ele era bandido, descobriu que era um resistente, e assistiu teatro pela primeira vez.

Conexões: Mércia e Soledad – A história de Mércia se entrelaça com outras trajetórias da resistência. A advogada foi responsável pelo reconhecimento dos corpos de seis integrantes da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) no IML, incluindo Soledad Barrett Viedma.

Em Soledad, espetáculo com a atriz Hilda Torres, direção de Malú Bazán, há uma cena onde a artista algema Soledad (representada por uma boneca) narrando: “A advogada Mércia Albuquerque foi ao IML e encontrou o corpo de Soledad” – momento que conecta as duas lutas, as duas memórias, as duas resistências.

Interpretação técnica e encantadora

Humanidade Sempre em Risco – Há múltiplas entradas para este espetáculo – políticas, estéticas, sociais – todas fascinantes. A peça emociona pela humanidade das personagens, uma humanidade sempre em risco, e faz imaginar a dor inexorável de quem perdeu entes queridos, de quem viu transformada em pó sua própria humanidade.

Lady Tempestade estabelece pontes entre passado autoritário e desafios democráticos contemporâneos, questionando como as violências estatais se perpetuam. “Essas coisas aconteceram acontecem acontecerão”. Nossa humanidade permanece em perigo, nossa jovem democracia sempre em risco.

Uma montagem de envergadura. Essa criação dá motivos para múltiplas análises e considerações que atravessam questões de memória, resistência, técnica teatral e urgências contemporâneas.

A recepção tem sido eloquente: indicações a prêmio demonstram o reconhecimento técnico. Mais revelador ainda é o impacto junto ao público – casas lotadas, lágrimas durante as apresentações, e o fenômeno de atrair espectadores que nunca haviam pisado em um teatro, mobilizados pela força política da narrativa.

Desde a estreia no Rio de Janeiro, em janeiro de 2024, o espetáculo tem percorrido o país gerando discussões necessárias. Lady Tempestade consegue o que poucos espetáculos alcançam – ser simultaneamente rigoroso artisticamente e acessível politicamente. A peça opera numa zona de risco controlado: evoca fantasmas, denuncia, emociona. É teatro que nos fazer pensar e sentir, simultaneamente, sobre quem fomos, quem somos e quem podemos ser. E há muito por dizer.

Ficha Técnica

Lady Tempestade com Andrea Beltrão

Direção: Yara de Novaes
Dramaturgia: Silvia Gomez
Cenografia: Dina Salem Levy
Desenho de luz: Ricardo Vívian e Sarah Salgado
Criação e operação de trilha sonora: Chico Beltrão
Desenho de som: Arthur Ferreira
Figurinos: Marie Salles
Assistente de direção: Murillo Basso
Assistente de cenografia: Alice Cruz
Operador de luz: Sarah Salgado e Luana Della Crist
Direção de Palco e Pintura de Arte: Antônio Lima
Contrarregra: Nivaldo Vieira e Márcio Rodrigues
Fotografia: Nana Moraes
Fotografia de Cena: Nana Moraes e Felipe Ovelha
Vídeos: Gil Tuchtenhagen
Projeto Gráfico: Fabio Arruda e Rodrigo Bleque | Cubículo
Assessoria de Comunicação: Vanessa Cardoso | Factoria Comunicação
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Administração do Perfil Andrea Beltrão (Instagram): Rosa Beltrão
Gestão de Performance: Lead Performance
Produção: Quintal Produções
Diretora Geral: Verônica Prates
Coordenadora de Projetos: Valencia Losada
Produtora Executiva: Camila Camuso
Realização: Sesc São Paulo

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Auricéia Fraga faz 50 anos
de teatro e ganha homenagem
de festival recifense

Auricéia Fraga narra suas próprias história no novo trabalho, Não Se Conta o Tempo da Paixão

A atriz com o diretor Rodrigo Dourado e a equipe do projeto

Nos tempos do Vivencial. Foto: Arquivo

No dia 12 de março de 2026, quando Olinda e Recife completam mais um aniversário, a atriz pernambucana Maria Auricéia Vasconcelos Fraga celebrará seus 80 anos de vida. Quase simultaneamente, ela marca meio século de uma carreira teatral que começou “por acaso” e se transformou em paixão duradoura. Hoje, ela é uma das homenageadas (a outra é Augusta Ferraz) do 24º Festival Recife do Teatro Nacional, que ocorre de 20 a 30 de novembro em diversos espaços da capital pernambucana.

A honraria chega em um momento especial. Após uma década dedicada principalmente ao audiovisual, Auricéia retorna aos palcos com Não Se Conta o Tempo da Paixão, espetáculo sob direção de Rodrigo Dourado que apresenta nesta sexta-feira sua abertura de processo. É um retorno às origens para uma artista que nunca imaginou seguir a carreira artística.

Um Começo Inesperado – Em 1972, recém-chegada do Rio de Janeiro, Auricéia soube de um curso na Escola de Belas Artes e decidiu experimentar, apenas para ocupar o tempo enquanto buscava uma colocação no mercado de trabalho. “Eu não pretendia ser atriz, nunca imaginei ser atriz, mas adorei a convivência com as pessoas da classe”, relembra. O professor Isaac Gondim Filho logo identificou seu talento, considerando-a “um sucesso do curso” já na primeira prova pública.

O teatro profissional veio em 1976, quando foi convidada para integrar A Lição, de Ionesco, dirigida por Antonio Cadengue. Era o início de uma trajetória que a levaria pelos principais palcos do Recife e por grupos fundamentais da cena teatral pernambucana.

O Vivencial e a Transgressão Necessária – Foi através de Guilherme Coelho, que assistiu a A Liçãoe a convidou para integrar o Vivencial, que Auricéia encontrou sua verdadeira escola teatral. O grupo, conhecido por sua irreverência, pautas libertárias e crítica social afiada, ofereceu exatamente o que ela precisava: “Eu vinha de uma família, de uma criação muito repressora. Eu estava com vontade de me soltar.”

No Vivencial, onde permaneceu por quatro anos e quatro espetáculos, Auricéia viveu alguns dos momentos mais marcantes de sua formação. Guilherme Coelho respeitava suas limitações – ela deixava claro que “nua não ficava” – mas a conduzia gradualmente a superar barreiras, tanto artísticas quanto pessoais. Era ali que se discutia política, questões de gênero e se experimentava com a linguagem cênica de forma inovadora.

Os anos de formação de Auricéia coincidiram com o período mais duro da ditadura militar. Em Sobrados e Mocambos, de Hermilo Borba Filho, dirigido por Guilherme Coelho, ela experimentou diretamente os efeitos do autoritarismo. Quando uma cena foi cortada pela censura, Guilherme encontrou uma solução criativa: “A gente faz de mímica.” Nos dias em que não havia censor presente, o elenco era avisado: “Não tem censura hoje não. Aí a gente solta o texto todinho.”

Essa experiência marcou profundamente a atriz, que admirava a capacidade do diretor de “driblar aquela violência” através da arte.

Desafios e Transformações – Ao longo de quase cinco décadas, Auricéia enfrentou desafios que testaram seus limites como intérprete. Em Esta Noite se Improvisa, de Pirandello, precisou provar que merecia manter o papel de protagonista quando o grupo questionou sua ausência durante os ensaios devido ao acidente do marido. Voltou “afiada” e conquistou o prêmio de melhor atriz.

Mas foi em O Mistério das Figuras de Barro, de Osman Lins, com direção na época do jovem  Rodrigo Dourado que encontrou seu maior desafio: interpretar sozinha dois homens e uma mulher. A experiência foi tão intensa que até seu cachorro estranhou quando ela experimentava a voz do personagem Claraval.

Do Palco às Telas – A partir dos anos 2000, Auricéia expandiu sua atuação para o cinema e a televisão, participando de produções como O Baile Perfumado (1996), Árido Movie (2003), Tatuagem (2013) e mais recentemente Agreste (2024) e Chabadabada (2024). Apesar do sucesso nas telas, sua paixão permanece no teatro: “Quando eu estou no cinema eu me jogo também, mas o meu chamego é o teatro mesmo.”

Não Se Conta o Tempo da Paixão nasceu durante a pandemia, quando Auricéia começou a escrever memórias de sua infância no Engenho Águas Finas. O que eram “historinhas pequenininhas” se transformou, com o incentivo de Quiercles Santana e sua companheira Bruna, em material teatral. Para se sentir mais confortável com a exposição, criou a narradora que conta a história de Maria – seu primeiro nome.

O espetáculo retrata uma época em que “o pai decidia comida, decidia moda, decidia com quem a gente se relacionava, onde estudava”, mas também celebra os sonhos e a capacidade de superação. É um retorno não apenas aos palcos, mas às suas raízes mais profundas.

Reconhecimento e Futuro – A homenagem do Festival Recife do Teatro Nacional representa o reconhecimento de uma trajetória singular. “Foi a maior surpresa que eu tive”, confessa Auricéia, que há dez anos não subia aos palcos. “Você ter o reconhecimento do seu trabalho é uma coisa muito importante, muito boa.”

Aos 79 anos, com a energia de quem ainda tem muito a oferecer, Auricéia Fraga prova que a paixão pelo teatro não envelhece. Sua carreira é um testemunho da capacidade transformadora da arte e da importância de se manter fiel aos próprios sonhos, mesmo quando eles chegam por acaso e se revelam o destino de uma vida inteira.

Entrevista: Auricéia Fraga

A alegria é cultivada em todos os momentos da vida da artista

Gostaria que você falasse sobre a homenagem do 24º Festival Recife do Teatro Nacional. O que significa para você? Como é que você recebe, em seu coração, essa celebração feita pela sua cidade?

Auricéia: Olha, foi a maior surpresa que eu tive, porque inclusive eu já estou há bastante tempo sem fazer espetáculo, fazendo cinema, filme, série, essas coisas assim. Alguma matéria publicitária, mas o palco há 10 anos que eu fiz um espetáculo. E, de repente, no ano que eu resolvi voltar a fazer, arriscar a fazer, aconteceu isso. Ser homenageada, meu Deus, é demais, porque… 50 anos, quase, né? De que eu tô atuando. E a gente não tem como não ficar feliz, surpresa. E, assim, acho que é um reconhecimento. Eu fico sem graça, até, para… Oh, Deus do céu! Parece, assim, uma coisa totalmente inesperada, mas eu fico muito feliz, muito feliz. E isso é, assim, você ter o reconhecimento do seu trabalho, é uma coisa muito importante, muito boa. Eu acho que não podia estar mais feliz.

Qual sua motivação para iniciar essa trajetória no teatro, na década de 70, e o que é que continua a alimentar essa paixão pelo teatro, pela arte da representação?

Auricéia: Começar no teatro foi uma coisa meio por acaso. Eu tinha chegado do Rio de Janeiro, aí soube que estava tendo esse curso na Escola Belas Artes, aí eu disse, por enquanto não estou trabalhando, vou experimentar. Fui e gostei, mas eu não pretendia ser atriz, nunca imaginei ser atriz, mas adorei a convivência com as pessoas da classe, adorei, começou a abrir minha cabeça só a convivência com eles, a experiência com também professores ótimos.

Aí, aconteceu que no meio do ano tinha uma prova pública e no final do ano tinha outra. No meio do ano eu fiz a prova pública e Isaac Gondim Filho, que era meu professor e uma pessoa muito reconhecida, ele considerou que eu tinha sido um sucesso no curso. Me surpreendi. Isso foi em 1972, na Escola Belas Artes. Aí eu toquei a minha vida, fui trabalhar. Fui trabalhar na Fundarpe. Sou a primeira funcionária da Fundarpe.

Em 1976, Zé Mario Austragésilo estava querendo montar A Lição de Ionesco. Ele já tinha três personagens. Aí, Rosário (Austragésilo), que tinha feito o curso comigo, me chamou. (Antonio) Cadengue dirigia. Pensei duas vezes, aceitei. E tive a sorte de pegar um assistente de direção como Beto Diniz, né? Maravilhoso. Aí eu me joguei.

Qual foi a influência do Grupo Vivencial, porque ele tinha uma linguagem diferente dos outros grupos que atuavam aqui, uma linguagem mais transgressora. Como era isso? Como era essa história do Vivencial na sua vida?

Auricéia: Quando eu frequentei o Vivencial era meu amor, era tão grande, porque eu gostava que eles reuniam o elenco, conversava sobre o texto. Sempre eu achava linda aquela coisa de transgredir, de não fazer… Eu precisava de muita transgressão, porque eu vinha de uma família, de uma criação muito repressora. Aí, quando eu cheguei do Rio para cá… Eu passei dois anos lá na casa da irmã minha, que era muito conservadora também, então eu tava com a vontade de me soltar, sabe?

Guilherme (Coelho) é uma maravilha. E ele sabia que eu tinha muita dificuldade, que era muito tímida. Quando falava que a Suzana (Costa) ficava de vedete, a outra ficava de vedete, eu ficava bem à vontade de dizer:  nua não fico. Guilherme me levava, com muito jeito, respeitando muito as minhas limitações, minhas dificuldades, mas, ao mesmo tempo, com um jeitinho, ele ia conseguindo que eu avançasse um pouco em várias questões.

Com relação à repressão, porque Sobrados e Mocambos teve também uma coisa bem repressora, né? Como era? O que você percebia desse momento histórico no Brasil, dessa repressão?

Auricéia: Eu vi aquilo tudo, mas eu ficava boba como eles lidavam, conseguiam falar as coisas deles, dizer. Ou usar daquela forma, mesmo com a repressão. Porque nós, naquela época, tinha censura que ficava com um texto e outro examinando a encenação no ensaio geral. Para cortar o texto ou propriamente a encenação.

Aí teve uma cena, que eram várias cenas de Sobrado, que eram os enrabados. A censura, quando viu, cortou. Aí a gente veio para Guilherme. “Pô, a gente vai cortar esse pedaço?!”. Guilherme disse, não, não, a gente faz de mímica.

E como era essa cena?

Auricéia: Era muito palavrão, era muito em cima da coisa do poder, sabe? Da violência do poder.

Quando a censura não tiver, solta o texto todo, dizia Guilherme. E a gente fazia isso. Ficava alguém da portaria para avisar. Ah, não tem censura hoje não, aí a gente solta o texto todinho. E eu achava aquilo uma delícia, sabe? Que ele arrumava formas de, sabe, de driblar aquela violência.

Dessa sua carreira longeva, de quase 50 anos, quais foram os principais desafios e aprendizados que você guarda?

Auricéia: Foram vários. Eu gostava dos desafios, apesar de ser muito insegura. Quando eu fiz Esta Noite se Improvisa, que eu fazia a Mommina, a protagonista, o grupo começou a cobrar, achando que eu devia não ficar nesse personagem porque eu estava muito ausente (cuidando do marido, que tinha sofrido um a acidente de carro) e o ensaio tinha que correr. Aí eu cheguei e conversei com eles e com Cadengue, só para dizer, “você pode me tirar, se eu não der conta. Eu volto daqui a tantos dias, quando voltar, se eu não tiver com as marcas, acompanhar as marcas e o texto, aí você pode dar o meu personagem”. Aí quando eu voltei, eu cheguei afiada, aí não tiveram moral para tirar a personagem. E eu também ganhei o prêmio, melhor atriz.

Mas de todos eu acho que foi O Mistério das Figuras de Barro. Minha filha, quando eu vi o texto, já, o pessoal chegava dizendo assim, olha, ninguém quer fazer essa peça, dá para Auricéia. Quando eu vi qual era o desafio… a sugestão de Osman Lins era que fosse feito por uma mulher, que fizesse os dois homens e a mulher, que arrumasse um indumentário que não identificasse bem. Aí eu, tipo, vou fazer dois homens e uma mulher. Fiz…

Me conte sobre o espetáculo Não Se Conta o Tempo da Paixão. Por que você decidiu voltar ao teatro com esse trabalho?

Auricéia: Na pandemia eu comecei a escrever, assim, vindo lembranças do Engenho, da minha vida no Engenho, me criei do Engenho até a adolescência. Engenho Águas Finas. Eu estava fazendo essas historinhas, historinhas pequenininhas, aí eu mandei para algumas pessoas, aí algumas diziam, manda editar.

Eu estava pensando em montar Senhor Diretor de Lígia Fagundes Teles. Eu estava há dez anos tentando montar a Lígia. Aí chegou aqui, veio o Quiercles Santana com a companheira dele, aí eu com esse meu jeito, falando, contando as coisas, aí ele disse “mas deve ser caro esse direito autoral dela. Aí Bruna disse, “e porque tu não faz, tu tem uma vida tão rica…” Ela achou que minha vida tinha muita coisa dessas, que dava para fazer uma peça.

Para eu não ficar muito desconfortável, vou botar o nome da narradora, a que vai contar a história de Maria. Porque, na realidade, meu nome é Maria também. Maria Auricéia. Então ela vai ser Maria. E Maria conta a história da vida dela.

Depois da abertura do processo do espetáculo Não Se Conta o Tempo da Paixão, quais são os seus planos? Tem já alguns outros projetos?

Auricéia: A gente está dando o nome como se fosse um ensaio aberto. Porque não está pronto. Não está completo. Mas ficaria muito extenso se botasse tudo agora. Muito extenso. Aí ninguém aguentava não. Monólogo extenso ninguém aguenta. Aí eu disse, não, vamos partir esse negócio.

Mas eu pretendo, se Deus quiser, tendo saúde, eu pretendo continuar. Ou com esse texto ou com outro. Quem sabe A Lição” de Lígia, que eu amo de paixão o texto. Que o Guilherme adorou e queria dirigir, mas ele foi para Brasília. 

Auricéia Fraga em Um rito de mães, rosas e sangue. Foto: Tuca Siqueira

AURICÉIA FRAGA – Principais Trabalhos
DRT/PE: 602

TEATRO – Destaques da Carreira (1976-2016)
Década de 1970 – Formação e Vivencial:

A Lição (Ionesco, 1976) – Direção: Antonio Cadengue
Sobrados e Mocambos (Hermilo Borba Filho, 1977) – Direção: Guilherme Coelho
Esta Noite se Improvisa (Pirandello, 1977) – Direção: Antonio Cadengue
Prêmio Melhor Atriz
Viúva, porém Honesta (Nelson Rodrigues, 1977) – Direção: Antonio Cadengue
Prêmio Melhor Atriz
Repúblicas Independentes, Darling (1978) – Direção: Guilherme Coelho
Notícias Tropicais (1980) – Direção: Guilherme Coelho

Trabalhos Posteriores de Destaque:

O Mistério das Figuras de Barro (Osman Lins, 2003-2004) – Direção: Rodrigo Dourado
Playdog (2009) – Direção: Rafael Barreiros, Rodrigo Cunha e Alisson Castro
Prêmio Melhor Atriz – Janeiro de Grandes Espetáculos 2010
Um Rito de Mães Rosas e Sangue (Federico Garcia Lorca, 2010) – Direção: Cláudio Lira  Circulação Nacional

CINEMA E TELEVISÃO – Principais Produções

Longas-metragens:
O Baile Perfumado (1996) – Direção: Lírio Ferreira e Paulo Caldas
Árido Movie (2003) – Direção: Lírio Ferreira
Tatuagem (2013) – Direção: Hilton Lacerda
O Rio (2025, em montagem) – Direção: Wislam Esmeraldo e Hilton Lacerda

Séries e TV:
Lama dos Dias (2018) – Direção: Hilton Lacerda
Chão de Estrelas (2021) – Direção: Hilton Lacerda
Agreste (2024) – Direção: Alice Gouveia – Canal Cine Brasil
Chabadabada (2024) – Canal Brasil

RETORNO AOS PALCOS (2025)
Não Se Conta o Tempo da Paixão – Direção: Rodrigo Dourado
Abertura de processo – 24º Festival Recife do Teatro Nacional (novembro de 2025)

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Ela enfrentou a ditadura
Lady Tempestade abre
24º Festival Recife do Teatro Nacional

Andrea Beltrão estrela monólogo sobre defensora de presos políticos em Pernambuco, abrindo festival que celebra vozes femininas nas artes cênicas.  Foto: Nana Moraes / Divulgação

Embarque na história de uma mulher que dedicou sua vida a defender aqueles que o Estado considerava inimigos. Mércia Albuquerque foi uma advogada corajosa que, durante os anos mais sombrios da ditadura militar, enfrentou tribunais, burocracias e ameaças para garantir direitos básicos a centenas de presos políticos em Pernambuco. Sua trajetória está no palco através de Lady Tempestade, com Andrea Beltrão, espetáculo que inaugura o 24º Festival Recife do Teatro Nacional, com sessões entre 20 e 22 de novembro no Teatro de Santa Isabel.

Mércia Albuquerque era uma ponte entre famílias desesperadas e um sistema jurídico militarizado. Durante os 21 anos da ditadura civil-militar (1964-1985), ela esteve na linha de frente da defesa dos direitos humanos, documentando violações, organizando defesas e mantendo viva a esperança de inúmeras famílias pernambucanas.

Com texto de Silvia Gomez e direção de Yara de Novaes, a obra baseia-se nos diários pessoais e registros profissionais deixados pela própria Mércia. Trata-se de um trabalho de arqueologia da memória que revela os bastidores da resistência jurídica durante um dos períodos mais sombrios da história brasileira.

Lady Tempestade” oferece uma aula de história viva, demonstrando como funcionava na prática a máquina repressora e, principalmente, como pessoas comuns encontraram formas de resistir dentro da própria lei. Mércia enfrentava verdadeiras tempestades burocráticas e políticas para fazer valer os direitos de seus defendidos.

Andrea Beltrão, uma trajetória de escolhas inteligentes. Foto: Gil Tuchternhagen / Divulgação

Com mais de 40 anos de carreira, Andrea Beltrão conquistou reconhecimento tanto na televisão quanto no teatro, sempre priorizando projetos de relevância artística e social. Na TV, destacou-se em produções como Armação Ilimitada, A Grande Família e Um Lugar ao Sol, enquanto no cinema brilhou em Hebe, A Estrela do Brasil.

No teatro, a atriz emocionou plateias em montagens como “A Prova” e As Centenárias“, demonstrando versatilidade para transitar entre drama e comédia com igual maestria. Essa trajetória sólida reflete uma carreira pautada pela inteligência na escolha dos trabalhos.

Em Lady Tempestade, Beltrão enfrenta um de seus papéis mais desafiadores: interpretar uma mulher real, com responsabilidades históricas e familiares que ainda guardam a memória de Mércia Albuquerque. O monólogo demanda técnica refinada e resistência emocional, já que a intérprete permanece em cena por aproximadamente 90 minutos, conduzindo uma narrativa densa sobre um período traumático da história nacional.

No cenário atual, Lady Tempestade oferece algo raro, que são fatos documentados apresentados através de uma perspectiva humana e acessível. A montagem ganha relevância especial por mostrar o papel crucial da advocacia em momentos de crise democrática. 

Para plateias mais jovens, o espetáculo atua como janela para um período histórico frequentemente reduzido a dados estatísticos nos livros didáticos. Dessa forma, através do relato pessoal de Mércia, eventos históricos ganham rostos, nomes e consequências humanas concretas.

Expectativa de alta procura

A organização do festival prevê alta demanda para as três sessões de Lady Tempestade. A produção acumula histórico de salas lotadas em temporadas anteriores, enquanto a combinação do nome de Andrea Beltrão com a relevância do tema tem atraído atenção em várias temporadas.

Há relatos de caravanas organizadas em estados vizinhos interessadas em acompanhar a abertura do festival. Tal expectativa se justifica: além da importância histórica do material, a montagem oferece a rara oportunidade de ver uma das maiores atrizes brasileiras em ação no palco, em um espaço histórico como o Teatro de Santa Isabel.

Festival celebra protagonismo feminino

Tudo que Eu Queria te Dizer, solo de Ana Beatriz Nogueira. Foto: Divulgação

O 24º Festival Recife do Teatro Nacional consolida-se como um dos principais eventos teatrais do país, apresentando 24 espetáculos em onze dias de atividades, sendo 16 deles inéditos na capital pernambucana. Com o tema “Vozes Femininas – Histórias que ressoam”, a edição deste ano celebra as criadoras e criativas do teatro brasileiro, entre dramaturgas, atrizes, diretoras e pesquisadoras.

Entre as principais atrações nacionais, além de “ady Tempestade, está Tudo que Eu Queria te Dizer, solo de Ana Beatriz Nogueira inspirado no best-seller de Martha Medeiros, onde a atriz se desdobra na pele de cinco mulheres distintas para falar sobre amor, rejeição e desejo. A apresentação acontece nos dias 22 e 23, no Teatro do Parque.

Também inédita na capital pernambucana é Mary Stuart, protagonizada por Virginia Cavendish, trazendo um olhar contemporâneo sobre as últimas 24 horas de vida da rainha escocesa, numa trama sobre conspiração e jogos de poder. A montagem paulista estreia no Recife nos dias 28 e 29, também no Teatro do Parque.

116 Gramas: Peça para Emagrecer, solo da paulista Letícia Rodrigues, explora a jornada de uma mulher em busca do emagrecimento, questionando pressões sociais sobre a imagem corporal. A protagonista tenta, a cada apresentação, perder exatamente 116 gramas, utilizando o espetáculo como uma aula de academia performativa. As sessões acontecem nos dias 22 e 23, no Teatro Apolo.

A Cia do Tijolo, companhia paulista reconhecida nacionalmente, traz duas produções inéditas na cidade: Corteja Paulo Freire, celebração poética e musical no Parque Dona Lindu, e Restinga de Canudos, que reconstrói a vida em Canudos a partir da visão feminina de duas professoras do povoado, que eram professoras em tempos de paz e enfermeiras em tempos de guerra. A montagem apresenta uma perspectiva inédita sobre a comunidade, destacando o cotidiano, as resistências e as histórias que ficaram submersas na narrativa oficial sobre o conflito. A apresentação acontece no dia 23, no Teatro Luiz Mendonça.

Homenagens

Augusta Ferraz. Foto Rogério Alves / Divulgação

Auricéia Fraga. Foto: Divulgação

A edição presta tributo a duas grandes atrizes pernambucanas: Auricéia Fraga e Augusta Ferraz, com 50 anos de trajetória cada uma, cujas vidas em cena contam a história do teatro local.

Augusta Ferraz apresenta Sobre os Ombros de Bárbara, mergulho na vida de Bárbara Alencar, heroína da Revolução Pernambucana e considerada a primeira presa política do Brasil. A montagem acontece nos dias 29 e 30, no Teatro de Santa Isabel.

Auricéia Fraga convida o público para  abertura de processo de Não se Conta o Tempo da Paixão, onde narra sua longa relação com o teatro. A abertura de processo acontece no dia 21, no Teatro Hermilo Borba Filho.

Diversidade de propostas e territórios

Das que Ousaram Desobedecer, do Ceará. Foto de Pattie Silva / Divulgação

O festival distribui sua programação estrategicamente por teatros municipais, parques e espaços públicos da cidade. Além dos tradicionais palcos do Santa Isabel, Teatro do Parque, Apolo e Hermilo Borba Filho, a programação alcança o Marco Camarotti, Luiz Mendonça, Espaço Cênicas e Casa de Alzira, chegando também aos parques da Macaxeira e da Tamarineira.

Shá da Meia Noite, com Sharlene Esse. Foto: Divulgação 

Entre as produções locais inéditas, sobressai Helô em Busca do Baobá Sagrado, espetáculo infantil que narra a história de uma menina em missão para encontrar o fruto sagrado e curar seu povo da “doença da tristeza”. As apresentações acontecem nos dias 22 e 23, no Teatro Hermilo.

Outras montagens nacionais inéditas incluem Das que Ousaram Desobedecer (CE), que relembra a luta de mulheres cearenses contra a ditadura; Zona Lésbica (RJ), que enfrenta estereótipos de gênero para reivindicar o direito ao amor; A Mulher Bala (SP), com a palhaça Funúncia tentando se tornar uma bala humana; e Ella (AM), solo de palhaçaria que aborda violência de gênero.

A Mostra OFFRec amplia o alcance do festival com produções locais e nacionais  contemporâneas, incluindo Mi Madre, solo autobiográfico de dança de Jhanaina Gomes; HBLynda em Trânsito, sobre as vivências de uma pessoa gorda, preta e não binária; e Shá da Meia Noite, celebrando os 40 anos da artista que participou do irreverente Grupo Vivencial.

O festival mantém sua vocação pedagógica através de quatro oficinas gratuitas sobre temas como teatro e sagrado feminino, dramaturgia feminista e criação de solos teatrais. As atividades acontecem entre os dias 20 e 27, em diversos equipamentos.

Toda a programação é gratuita, com distribuição de ingressos nas bilheterias dos teatros uma hora antes de cada espetáculo, mediante entrega de um quilo de alimento não perecível. Serão 37 sessões ao longo dos onze dias, convidando a cidade inteira a celebrar o teatro brasileiro.

📅 SERVIÇO 

LADY TEMPESTADE
🎭 Com: Andrea Beltrão
✍️ Texto: Silvia Gomez
🎬 Direção: Yara de Novaes
📅 Datas: 20, 21 e 22 de novembro
⏰ Horários: 20h (todas as sessões)
📍 Local: Teatro de Santa Isabel – Praça da República, Santo Antônio, Recife/PE
🪑 Capacidade: 570 lugares
🎟️ Ingressos: Gratuitos com 1kg de alimento não perecível
♿ Acessibilidade: Libras (todas as sessões) + Audiodescrição (dia 22)

24º FESTIVAL RECIFE DO TEATRO NACIONAL
🎨 Tema: “Vozes Femininas – Histórias que ressoam”
📅 Período: 20 a 30 de novembro de 2024
🎭 Programação: 24 espetáculos (16 inéditos na cidade) + 37 sessões
🎟️ Acesso: Gratuito com 1kg de alimento não perecível
🏛️ Equipamentos: 9 teatros e 2 parques da cidade
📱 Informações: @culturadorecife (Instagram) | Canais oficiais da Prefeitura do Recife

OUTROS DESTAQUES DA PROGRAMAÇÃO:

 Abertura de processo de Não se Conta o Tempo da Paixão (Auricéia Fraga) – dia 21, no Teatro Hermilo Borba Filho.
Tudo que Eu Queria te Dizer (Ana Beatriz Nogueira) – 22 e 23/11, Teatro do Parque
Mary Stuart (Virginia Cavendish e elenco) – 28 e 29/11, Teatro do Parque
116 Gramas: Peça para Emagrecer (Letícia Rodrigues) – 22 e 23/11, Teatro Apolo
Restinga de Canudos (Cia do Tijolo) – 23/11, Teatro Luiz Mendonça
Sobre os Ombros de Bárbara (Augusta Ferraz) – 29 e 30/11, Teatro de Santa Isabel

OFICINAS GRATUITAS:
Teatro, Dança e Sagrado Feminino (20-21/11)
Dramaturgia para Infâncias (21-23/11)
Criação de Solos Teatrais (24-27/11)
Dramaturgias Feministas (26/11)

⚠️ INFORMAÇÕES IMPORTANTES:

Chegada com 1h de antecedência recomendada
Programação sujeita a alterações – acompanhar canais oficiais
Espetáculos com classificação indicativa variada
Sessões com recursos de acessibilidade sinalizadas na programação

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