Território da palavra
Crítica: O Céu da Língua

Gregório Duvivier em O Céu da Língua. Foto: Adriano Escanhuela / Divulgação

“A verdade é que a poesia é inútil. Nunca estive num avião em que alguém se levantou e disse: tem algum poeta nesse voo? Meu marido! Ele está sentindo alguma coisa que ele não sabe o nome. Ele enxergou o abismo da existência e precisa de alguma metáfora. Uma assonância, uma aliteração, qualquer coisa.”

A provocação de Gregório Duvivier em O Céu da Língua, logo após citar trecho de Os Lusíadas (Canto Primeiro) de Luís Vaz de Camões — “As armas e os barões assinalados / Que da ocidental praia Lusitana, / Por mares nunca de antes navegados / Passaram ainda além da Taprobana” — funciona como ironia refinada que questiona frontalmente a lógica utilitarista do mundo contemporâneo. Ao declarar inútil aquilo que a montagem inteira se dedica a exaltar, Duvivier estabelece posicionamento contra o senso comum que relega a poesia à marginalidade diante das necessidades práticas. Esta estratégia retórica prepara o terreno para a descoberta central do espetáculo: mostrar como a poesia habita secretamente cada palavra nossa, transformando o cotidiano em território poético inexplorado. É precisamente nessa capacidade de transformar o familiar em descoberta que reside o brilho deste monólogo de noventa minutos.

Já próximo ao final da peça, Duvivier confessa “Decassílabos. Esse é o real motivo de eu fazer essa peça. Tenho obsessão por eles…”, expondo a arquitetura do projeto: uma homenagem à métrica que atravessa séculos, conectando Camões aos grandes letristas populares, a tradição clássica à música popular brasileira. Quando demonstra como Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa, gravada primeiramente por Silvio Caldas e que se tornou grande sucesso, esconde decassílabos perfeitos em sua melodia, ou quando descortina a sofisticação métrica na canção Língua de Caetano Veloso, Duvivier constrói ponte poética que une tradição literária e cultura popular, passado e presente. Assim, esta obsessão pelos decassílabos atua como fio condutor invisível que costura toda a apresentação.

Estreado em Lisboa no contexto das comemorações dos 500 anos de Camões, O Céu da Língua fez temporadas de sucesso em São Paulo e outras cidades e foi visto por mais de 80 mil espectadores em sua circulação nacional. A calorosa recepção no Recife, com três sessões esgotadas, motivou o próprio Duvivier a anunciar novas apresentações na capital pernambucana ainda em 2025.

Público se reconhece nas convicções do artista. Foto: Adriano Escanhuela / Divulgação

Público e Recepção: O Filtro da Audiência

A audiência de O Céu da Língua constitui segmento majoritariamente urbano, escolarizado, de classe média, culturalmente interessada, que acompanha e admira o trabalho de Duvivier. Esta plateia conhece seu percurso no YouTube, suas participações televisivas no Porta dos Fundos e Greg News, sua presença combativa nas redes sociais, sua literatura e seu posicionamento político inequívoco.

São espectadores que se identificam com suas ideias progressistas, sua oposição consistente ao projeto bolsonarista e sua defesa de valores democráticos e inclusivos. A recepção entusiástica deriva, além da qualidade da obra, da capacidade de validar e expandir referências culturais já presentes neste público que se reconhece no artista e em suas convicções.

Por outro lado, aqueles que rejeitam Duvivier pelas mesmas razões políticas que o tornam admirado por seus seguidores simplesmente não frequentam o tipo de teatro que ele faz. Esta segmentação da audiência cria um fenômeno interessante: embora O Céu da Língua não se configure como peça explicitamente política, existe uma dimensão política substancial na própria composição de sua plateia e na valorização democrática da linguagem que propõe.

Duvivier transita entre reflexões linguísticas, declamações poéticas e observações humorísticas Foto: Adriano Escanhuela / Divulgação

Gregório Duvivier constrói uma interpretação de ator tecnicamente maduro, capaz de sustentar interesse por hora e meia apoiado fundamentalmente na palavra. Sua movimentação pelo palco demonstra consciência espacial aguçada: aproxima-se da plateia para criar intimidade, recua para observações panorâmicas, utiliza pausas como pontuação dramática. O timing cômico prospera especialmente quando emerge das próprias contradições e absurdos inerentes aos fenômenos linguísticos.

Apesar da excelência geral do desempenho, alguns aspectos técnicos pontuais merecem atenção. Em determinados momentos, a dicção de Duvivier apresenta desafios que podem comprometer a compreensão parcial do texto. A velocidade acelerada em certas passagens, combinada com uma articulação ocasionalmente menos precisa, resulta na perda de vocábulos ou trechos. Isso é particularmente relevante em uma encenação que se baseia na palavra e em suas nuances semânticas e sonoras. Ajustes pontuais no ritmo da fala e maior atenção à clareza articulatória poderiam aprimorar a recepção da montagem, garantindo que a riqueza do texto seja plenamente acessível.

A arquitetura de O Céu da Língua revela uma articulação meticulosamente planejada onde os temas se entrelaçam de maneira fluida e coerente. Duvivier demonstra maestria ao transitar entre reflexões linguísticas, declamações líricas e observações humorísticas. O roteiro, integralmente publicado no livro-libreto-programa-zine, incorpora conceitos complexos de linguística, semântica, métrica e fonética de forma subliminar, convocando teóricos sem citá-los explicitamente, evitando que o conteúdo se torne árido ou excessivamente acadêmico.

Esta abordagem textual permite que o trabalho mantenha seu caráter despretensioso sem abdicar da profundidade intelectual. As transições entre os diferentes blocos temáticos são costuradas através de associações livres, jogos verbais e conexões inesperadas que mostram a inteligência do texto e a habilidade do intérprete. O mérito consiste em manter atenção em monólogo de noventa minutos sem narrativa convencional, personagens ou conflitos tradicionais.

A dramaturgia incorpora conceitos de linguística, semântica, métrica e fonética. Foto: Adriano Escanhuela

O humor chega em camadas. Nos momentos mais felizes, a comicidade emerge dos próprios absurdos da língua portuguesa, como termos que provocam desconforto inexplicável: “afta”, “íngua” e “seborreia”.

Sob a direção de Luciana Paes, a montagem adota uma estética conscientemente minimalista que intensifica o foco na performance de Duvivier. O palco é mantido despojado, sem cenários elaborados ou elementos que possam competir com a centralidade da palavra e do intérprete.

As projeções visuais, criadas por Theodora Duvivier, formam imagens que dialogam poeticamente com as expressões ditas. A iluminação de Ana Luzia de Simoni emprega contrastes cromáticos e variações de intensidade que estabelecem ambientes distintos conforme o tom das diferentes passagens.

A dimensão musical da peça, com o contrabaixista Pedro Aune, amplifica o clima criado pelo texto. Canções como Chão de Estrelas e Livros são integradas com precisão, destacando a presença da poesia na cultura popular brasileira.

Theodora Duvivier trabalha as imagens no retroprojetor. Foto: Adriano Escanhuela / Divulgação 

Pedro Aune ao contrabaixo desenvolve a trilha sonora. Foto: Adriano Escanhuela / Divulgação

O figurino de Elisa Faulhaber e Brunella Provvidente materializa visualmente a proposta conceitual através da combinação entre jaqueta de inspiração esportiva contemporânea com zíper e gola de rufos elisabetana. Esta justaposição temporal comunica eficazmente a ideia central: como a língua portuguesa conecta diferentes épocas históricas. Durante a apresentação, Duvivier explica a origem da gola através de anedota cômica sobre a Rainha Elisabeth e sua suposta sarna, demonstrando como elementos aparentemente arbitrários da moda carregam histórias fascinantes.

Duvivier conduz o público por questionamentos sobre como os vocábulos moldam nossa percepção da realidade. O ator cria momentos teatrais prazerosos que exibem riquezas linguísticas cotidianamente ignoradas, construindo comunidade cultural através da celebração da palavra compartilhada. 

Partindo da ironia de declarar inútil algo que estrutura nosso pensamento e comunicação, O Céu da Língua constitui uma experiência de redescoberta coletiva onde saímos do teatro carregando renovado apreço pela riqueza poética que habita nossa própria fala cotidiana. Neste sentido, Duvivier reverencia a língua portuguesa, oferecendo uma reflexão sobre nossa relação com as palavras, domínio onde a poesia se mantém viva e acessível para quem se dispõe a escutar com atenção renovada.

 

Ficha Técnica

Interpretação e Texto: Gregório Duvivier
Direção e Dramaturgia: Luciana Paes
Assistência de Direção e Projeções: Theodora Duvivier
Direção Musical e Execução da Trilha: Pedro Aune
Cenografia: Dina Salem Levy
Assistente de Cenografia: Alice Cruz
Figurino: Elisa Faulhaber e Brunella Provvidente
Iluminação: Ana Luzia de Simoni
Diretor Técnico: Lelê Siqueira
Diretor de Palco: Feee Albuquerque
Visagismo: Vanessa Andrea
Fotos de Divulgação: Demian Jacob
Fotos de Cena: Joana Calejo Pires e Raquel Pellicano
Design Gráfico Publicação: Estúdio M-CAU – Maria Cau Levy e Ana David
Identidade Visual Divulgação: Laercio Lopo
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio
Marketing Digital: Renato Passos
Redes Sociais: Lucas Lentini e Theodora Duvivier
Administração: Fernando Padilha e Lucas Lentini
Produção Executiva: Lucas Lentini
Direção de Produção: Clarissa Rockenbach e Fernando Padilha
Produção: Pad Rok

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Quando a imagem pensa
antes da palavra
Crítica: Enquanto você voava,
eu criava raízes

André Curti e Artur Luanda Ribeiro em momento de suspensão aérea, explorando a tensão entre peso e leveza que caracteriza o espetáculo. Foto: Nana Moraes / Divulgação

A criação da Cia. Dos à Deux, Enquanto você voava, eu criava raízes (com direção e performance de André Curti e Artur Luanda Ribeiro), desloca a centralidade narrativa para um campo de experiência tátil-visual-sonora. A obra fabrica estados de mundo em vez de contar histórias, materializando no palco o que Jacques Rancière denomina “redistribuição do sensível” — isto é, uma reconfiguração das formas de percepção que determina o que pode ser visto, ouvido e pensado, alterando as fronteiras entre arte e vida, entre o estético e o político. Essa redistribuição reprograma o olhar do espectador através de uma estética que privilegia o corpo como lugar primordial de conhecimento, onde a experiência sensorial antecede e constrói o pensamento. 

Nos primeiros minutos, imagens com lastro concreto — o jarrão, a superfície, o contorno humano — oferecem âncoras de reconhecimento que logo se desfazem em metamorfoses contínuas. A operação revela maestria técnica no sentido mais elevado do termo. Aqui, a precisão artística funciona como método de investigação sensível: o domínio técnico libera possibilidades perceptivas que convocam a plateia a pensar com os sentidos e suportar a deriva sem a muleta do enredo. Essa precisão constitui artesania refinada a serviço de uma poética do impossível — condição necessária para que o espectador aceite a lógica onírica da cena e se permita habitar um regime de percepção ampliado.

Nos primeiros minutos, imagens com lastro concreto — o jarrão, a superfície, o contorno humano — oferecem âncoras de reconhecimento que logo se desfazem em metamorfoses contínuas. A operação é, sim, virtuosismo plástico no sentido mais elevado do termo. Aqui, o virtuosismo funciona como método de investigação sensível: a maestria técnica libera possibilidades perceptivas que convocam a plateia a pensar com os sentidos e suportar a deriva sem a muleta do enredo. Virtuosismo, neste contexto é precisão artesanal a serviço de uma poética do impossível — condição necessária para que o espectador aceite a lógica onírica da cena e se permita habitar um regime de percepção ampliado.

Enquanto você voava, eu criava raízes, da Cia. Dos à Deux. Foto: Virginia Benevenuto

A construção cênica revela precisão milimétrica : transições limpas, modulações de peso calculadas, uso da inércia como material composicional. Essa precisão garante a possibilidade do risco. Curti e Ribeiro, suspensos em esferas metálicas ou desafiando a gravidade em coreografias aéreas, sustentam uma dialética entre controle e vertigem — ética do ofício que torna verossímil o impossível: levitar sem fugir do chão, criar raízes no ar.

O risco físico constitui condição de verdade do gesto. Essa precisão técnica delicada sustenta a liberdade poética. Tudo parece inevitável porque tudo é rigorosamente construído.

A criação visual (Miguel Vassy e Laura Fragoso) atua como partitura invisível que atravessa corpos e espaço. As projeções ora encarnam, ora evaporam, deixando vestígios que funcionam como pistas de leitura. Esse regime de vestígio impede o esgotamento do sentido, evitando que significados explícitos saturem a experiência perceptiva. Cada figura nasce para desaparecer, gerando intervalos produtivos em que o espectador completa lacunas e participa ativamente da construção de sentido.

A luz recorta, erode, expande; a sombra escreve. A alternância entre recorte preciso e penumbra respirada cria uma topologia móvel que desloca continuamente os polos figura/fundo. O palco deixa de constituir plano para tornar-se organismo vivo.

A música original de Federico Puppi opera como força de modulação temporal, expandindo e contraindo a duração cênica. A trilha sonora estabelece contraponto com as imagens, criando fricções produtivas entre som e gesto. Essa estratégia compositiva evita a redundância audiovisual, gerando o que se pode denominar “terceiro corpo” — a dimensão sonora da cena que impede o deslizamento para a beleza contemplativa e mantém a experiência em estado de tensão criativa.

Momento de fusão entre corpo e projeção visual, evidenciando a integração entre elementos performativos e tecnológicos da obra. Foto: Virginia Benevenuto

Os performers exploram diferentes níveis espaciais, criando diálogo vertical entre enraizamento e elevação. Foto: Virginia Benevenuto

Proponho ler a obra como cartografia do abismo doméstico. “Doméstico” não pela trivialidade, mas porque imagens que sugerem materiais de casa (jarros, superfícies, contornos familiares) convertem-se em portais para o indizível. A cena captura o momento anterior ao símbolo e o posterior ao reconhecimento, mapeando como o íntimo se abre para o informe sem perder delicadeza.

Em vez de representar deslocamentos (migração, exílio, pertencimento), a obra desenha condições de deslocabilidade. Não encena “quem parte” ou “quem fica”; fabrica gravidades que ora prendem, ora rarefazem. Vínculo vira força, memória vira massa, desejo vira vetor.

 Essa poética contesta a rigidez dicotômica contemporânea ao questionar as polaridades que moldam nossa compreensão — liberdade/prisão, medo/coragem, paralisia/movimento —, revelando-as como manifestações de uma mesma essência dinâmica. A fusão entre voo e queda livre, numa ação única, contraria uma época obsessivamente apegada a polarizações. Essa dissolução das dicotomias emerge como reencantamento necessário.

Os corpos que se lançam no abismo não flutuam ou caem; flutuam enquanto caem. Não existem fronteiras, história linear ou palavras — e precisamente nessa ausência a obra floresce, permitindo projeções individuais em um universo de símbolos compartilhados.

Simultaneidade entre movimento ascendente e enraizamento. Foto: Virginia Benevenuto

A obra trabalha operações composicionais fundamentais que constituem as articulações de uma mesma arquitetura dramatúrgica. A elasticidade temporal manifesta-se na alternância calculada entre suspensão e precipitação, criando um pulso que organiza a expectativa sem depender de intriga narrativa — o tempo cênico respira, retém e libera, ancorando a dramaturgia no próprio ritmo da atenção. Simultaneamente, um contraponto tônico governa a relação entre os corpos: quando um performer enraíza, concentrando peso e densidade, o outro se lança ao voo, rarefazendo-se em direção ao alto, estabelecendo uma distribuição dinâmica de forças que transcende a ilustração literal de opostos. Finalmente, o silêncio opera como campo ressonante, como substância densa que amplifica microvariações gestuais, convertendo o mínimo em acontecimento e permitindo que cada modulação corporal se torne evento dramatúrgico significativo.

A peça politiza a percepção, não o discurso, isto é através da reorganização das formas de perceber, não através de conteúdos políticos explícitos. Convoca o reconhecimento, no próprio corpo, da gramática do deslocamento sem enunciar temas de migração ou exílio. Propõe vínculos móveis — raízes provisórias capazes de sustentar encontros no ar. Constitui uma política do sensível que reeduca a atenção: enraizar não significa imobilizar; voar não significa evadir. 

Exploração das possibilidades expressivas do objeto cênico em diálogo com as projeções. Foto: Virginia Benevenuto

Momento de integração entre elementos técnicos e performativos. Foto: Virginia Benevenuto

Tensões Produtivas e Limites Perceptivos 

A economia de elementos verbais e a densidade imagética da obra, especialmente em seu início, exigem do espectador um regime de atenção sensorial, que nem todos os públicos abraçam imediatamente, habituados à centralidade narrativa do teatro textual. Essa fricção inicial, contudo, integra o dispositivo. A obra demanda tempo para reprogramar o olhar e alinhar corpo e atenção à sua lógica sensorial.

A linguagem cênica da obra  — que integra escolhas estéticas e composicionais visuais, sonoras e corporais, conforme detalhamento disponível no programa da montagem — caracteriza-se por uma coesão visual que instala uma superfície de aparente fluidez e precisão harmoniosa. Para que essa harmonia não diluísse o mergulho temático proposto, focado na exploração dos “abismos internos”, dos “medos, angústias e feridas profundas” e da “união do humano com o primitivo”, o trabalho aciona intencionalmente rupturas e dissonâncias. Essas se manifestam em pausas densas, ruídos inesperados e sombras móveis que, ao quebrar a aparente homogeneidade, reintroduzem um contato mais direto entre a construção estética e o mergulho temático da obra.

Essa dinâmica, ao convidar o espectador a uma atenção mais refinada às nuances e dissonâncias, amplia o campo de leitura. Constitui uma estratégia que instiga a perceber além do imediatamente dado, a apreender as minúcias e as pequenas perturbações que permeiam a experiência cênica, expandindo as camadas de sentido para territórios não-verbais de significação. 

Enquanto você voava, eu criava raízes expande um laboratório de percepção em que imagens pensam e afetos curvam o tempo. Com precisão técnica delicada e imaginação formal ousada, a Cia. Dos à Deux institui uma “coreografia da gravidade afetiva” que dissolve dicotomias existenciais em favor de uma cartografia do abismo, estabelecendo voo e raiz como tecnologias poéticas de redistribuição do sensível que desafiam os modos convencionais de habitar o mundo.

SERVIÇO

Enquanto você voava, eu criava raízes
12 a 13 de Setembro – Sexta e Sábado às 20h
De 16 a 20 de Setembro – de terça a sábado, às 20h

CAIXA Culturral Recife – Av. Alfredo Lisboa, 505, Recife
Ingressos: R$ 30 e R$ 15,

 

 

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Até sempre Vavá Schön-Paulino

Heliogábalo & Eu (1990). Foto: Deborah Valença

Um artista de muitas frentes: ator, poeta, artista plástico, performer e gestor público.

Vavá morreu tragicamente neste 11 de setembro de 2025 em um incêndio em sua residência, em Floresta (PE)

Vavá Schön-Paulino entrava em cena como quem entra em casa. Sem alarde, sem pedir licença, mas com o cuidado de quem sabe onde cada objeto repousa e que luz acende primeiro. Havia algo de menino no gesto — o riso fácil, os olhos atentos, uma curiosidade que não se gastava com o tempo. Ele  atuava como quem oferece água a quem chega cansado: com generosidade, precisão e uma confiança íntima na partilha. Essa confiança moldou sua presença de ator, de educador, de provocador de processos, de artesão de encontros. Nos trabalhos marcantes — da secura luminosa de Fim de Jogo (Beckett), em montagem dirigida por João Denys à Rasif – Mar que arrebenta, a partir de textos de Marcelino Freire, à do ritual instável de Heliogábalo & Eu (1990) à medonha constatação capitalista de A carne mais barata  — sempre se reconhecia um fio: Vavá habitava a cena, deixando que alguns sentidos aparecessem no atrito entre corpos, palavras, silêncio e tempo.

É com esse cuidado que hoje, inevitavelmente, escrevemos no passado. Vavá morreu tragicamente neste 11 de setembro de 2025 em um incêndio em sua residência, em Floresta, no Sertão de Pernambuco, um mês depois completar 65 anos. A tragédia expôs um problema antigo: a ausência de um quartel do Corpo de Bombeiros no município, o que retardou o atendimento e agravou o desfecho. Nascido em Floresta, o artista mudou-se para o Recife em 1978 e, por mais de quatro décadas, foi presença articuladora e generosa na cena cultural pernambucana; há cerca de dez anos, voltou à cidade natal, onde seguiu como gestor, formador e artista — costurando pessoas, ideias e territórios com a mesma delicadeza com que entrava no palco.

Vavá foi um artista de muitas frentes: ator, poeta, artista plástico, performer e gestor público. Na gestão cultural, assumiu papéis decisivos — coordenador do Centro Apolo-Hermilo, diretor do Teatro de Santa Isabel, diretor de Cultura em Floresta e vice-presidente do SATED-PE. No teatro, ergueu uma trajetória vasta e variada. Atuou em A carne mais barata (2005), Espetacular & Espetaculoso (2014), performance De Profundis, Cenas Abissais (1987), Cinderela, a história que sua mãe não contou (1999), Em nome do desejo (1990), O balcão (1987), O burguês fidalgo (1988), Os palhaços da Rua da Alegria (1992) e Quarteto (1988). Não é uma lista exaustiva, mas aponta a extensão do gesto: do popular ao experimental, da farsa à poesia cênica, da pedagogia à prática cotidiana de teatro.

Talvez por isso suas aulas-oficinas ressoassem como ensaios de vida: “Consumo e Práxis Criadora” era um método. Ensinar, para ele, era encostar o ouvido no chão até sentir o trepidar do que vem — e, então, convidar todo mundo a experimentar junto. Primeiro o jogo, depois a tese; primeiro o risco, depois a palavra. Quando provocava “Estarei esperando Godot?”, havia ironia e ternura na mesma medida: não a resignação de quem aguarda o que não chega, mas o impulso de montar um espaço comum onde o encontro, esse sim, aconteça. O que Vavá propunha era simples e exigente: trabalhar a partir do “nosso quintal de subjetividades”, insistindo que a tal Internet das Coisas só faz sentido quando começa no chão compartilhado da presença, do erro, do gesto que ainda não sabe o nome. Da sala de ensaio ao corredor, do pátio à rua, sua obra parecia dizer que a arte não “representa” a vida: ela a curva um pouco, o bastante para que possamos passar.

E é nesse ponto que a transitoriedade se impõe, não como lamento, mas como claridade. O teatro, por definição, passa — e é no passar que ele nos toca. Vavá parecia saber disso desde sempre: não colecionava certezas; colecionava instantes. O palco, para ele, era o lugar onde o agora se dá por inteiro. Vavá armava a cena, no processo de preparar o terreno, arejar o ar, abrir passagem para que o extraordinário do agora possa, quem sabe, acontecer. E, se o tempo é o tecido do teatro, Caetano Veloso o nomeia com alegria grave: “Compositor de destinos, tambor de todos os ritmos, tempo, tempo, tempo, tempo.” Vavá marcava esse compasso com a paciência de quem sabe que o ritmo não é a pressa; é a escuta — a cadência comum que faz de muitos um coro.

Transitoriedade é matéria. O que passa nos forma. Em Rasif – Mar que arrebenta, com ele, aprendemos que a maré não repete o desenho, mas insiste no gesto: vem, toca, recua, volta. Em Fim de Jogo, descobrimos ao seu lado que o palco é um laboratório de ruínas onde a vida insiste em brotar. Em Heliogábalo & Eu, dançamos na instabilidade. A pedagogia que deixou — feita de encontros, partilhas, cansaços honestos e um humor que desembaraça — foi um convite: experimentar o presente com inteireza. Talvez seja esse o maior legado: uma ética da presença que não perde tempo lutando contra o tempo, mas o transforma em parceria de criação.

Se perguntarem o que fica quando a luz desce, diremos talvez o exercício da atenção, que Vavá cultivou na cena e na vida; talvez a coragem de experimentar antes de entender; quem sabe o riso que desata nós; quisera a delicadeza firme de quem sabe a hora de falar e a hora de ouvir; fica, sobretudo, a certeza de que o teatro é uma arte do encontro, e que o encontro só existe porque somos, todos, passagem.

E se a notícia dura precisa caber num texto — a morte em incêndio, em casa, em Floresta; a cidade sem quartel de bombeiros; os muitos amigos e alunos desamparados — então que caiba junto o que a sustenta: a trajetória de um artista que fez do palco uma casa e da casa um lugar comum. O que fica agora é que a cena é encontro: esse foi o norte. E, enquanto o tempo compõe destinos e a cena se refaz, seguimos o conselho implícito que sua trajetória nos deixou: primeiro a partilha, depois o conceito; primeiro a vida, depois o nome. Porque a matéria passa, mas o gesto como resíduo drummondiano — esse sim — aprende a ficar. O resto a gente tenta aprender, como ele, em comum.

 

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Convocatória MITbr: últimos dias
de inscrições na Plataforma Brasil 2026

Grupo Cena 11, de Florianópolis (SC)  na MITbr 2024 com Eu não sou só eu em mim. Foto: Silvia Machado

A contagem regressiva começou. Entram na reta final as inscrições para a MITbr – Plataforma Brasil 2026, vitrine estratégica da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp) dedicada a dar projeção internacional às artes cênicas brasileiras. O prazo se encerra em 15 de setembro no mitsp.org, e a convocatória — gratuita — é um convite a artistas, coletivos e companhias do país que queiram dialogar com curadores e programadores do circuito global.

Esta chamada é uma oportunidade de circulação, articulação e troca. Ao reunir espetáculos e proposições que refletem a diversidade estética e territorial do Brasil, a MITbr funciona como pontilhão entre a criação brasileira e os palcos do mundo.

Em 2025, a MITbr registrou 454 inscrições, um termômetro da vitalidade do setor e do interesse crescente pela plataforma. Para 2026, a expectativa é de ampliação desse alcance.

O que é a MITbr e por que ela importa 

  • É a plataforma da MITsp dedicada a apresentar um recorte curatorial da produção contemporânea brasileira (teatro, dança, performance) para programadores nacionais e internacionais.
  • O objetivo é acelerar convites, turnês, coproduções e residências, fortalecendo a internacionalização de artistas, companhias e coletivos do Brasil.
  • A curadoria é independente, e a seleção privilegia diversidade de estéticas, territórios e vozes, com atenção a grupos historicamente sub-representados.
  • Aumento da presença de artistas brasileiros em festivais e temporadas no exterior.
  • Fortalecimento de parcerias e coproduções, com impacto na sustentabilidade dos projetos.
  • Curadoria atenta a diversidade de linguagens (teatro, dança, performance e hibridismos), trazendo obras que tensionam formas e discursos.
  • Ampliação do olhar para além dos grandes centros, com maior atenção a territorialidades múltiplas.

Desafios em pauta

  • Logística e financiamento: a viabilização de turnês e deslocamentos segue como grande gargalo, especialmente para projetos de regiões distantes dos principais eixos de transporte.
  • Representatividade e acesso: refletir a pluralidade brasileira na programação exige políticas ativas e contínuas, considerando recortes étnico-raciais, de gênero, de deficiência e de território.
  • Diferenças de escala: obras intimistas e de pequeno porte competem, no radar internacional, com produções de maior orçamento — um equilíbrio que demanda mediação curatorial e negociação com a rede de programadores.
  • Sustentabilidade: pensar circulação de modo mais responsável (carbono, materiais, logística) tornou-se pauta transversal.
  • Apesar dos obstáculos, a MITbr vem acumulando resultados concretos: maior visibilidade no exterior, redes de colaboração mais densas e um diálogo curatorial que se atualiza a cada edição.

O que os curadores costumam observar

  • Intelecção artística: uma obra com proposição estética nítida e coerência entre linguagem, tema e dispositivo cênico.
  • Potencial de circulação: condições técnicas claras, adaptabilidade a diferentes espaços, e documentação audiovisual que reflita a experiência de público.
  • Singularidade e contexto: projetos que tragam vozes, territorialidades e imaginários pouco vistos no circuito internacional chamam atenção — especialmente quando articulam rigor formal e potência política                                                                                                                                   

Serviço — MITbr 2026

MITbr – Plataforma Brasil 2026 (chamada pública)
Inscrições: Até 15 de setembro de 2025
Divulgação dos selecionados: até 1º de dezembro de 2025
Apresentações: de 5 a 15 de março de 2026, em São Paulo
Taxa: inscrições gratuitas
Onde: site oficial da MITsp — mitsp.org

 

A MITsp em Avignon 2025:
Projeção Cultural Brasileira e Seus Desdobramentos

História do Olho, de Janaina Leite (São Paulo/SP). Foto: Reproduão do Instagram

A participação da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp) no Festival Off Avignon, realizada entre 5 e 13 de julho de 2025, constituiu um esforço notável na estratégia de projeção cultural brasileira no cenário internacional. Organizada no âmbito da Temporada Brasil França 2025 e respaldada por financiamento do Ministério da Cultura e patrocínio da Petrobras, a iniciativa buscou estabelecer um intercâmbio substancial, apresentando um recorte da produção nacional a um público e a programadores globais.

A delegação brasileira em Avignon foi composta por um programa com quatro espetáculos de teatro e dança, três filmes e três conferências. No palco francês, obras como História do Olho, de Janaina Leite (São Paulo/SP), foram apresentadas, explorando a fronteira entre o ficcional e o documental. AZIRA’I – Um Musical de Memórias, da atriz indígena Zahy Tentehar, trouxe à cena narrativas que ressoaram pela sua pertinência e pela performance de sua criadora. Fábio Osório Monteiro, com Bola de Fogo, propôs uma interação que mesclava o preparo de um quitute tradicional com discussões sobre identidades, enquanto Eles Fazem Dança Contemporânea, de Leandro Souza, abordou questões sobre a presença negra na arte contemporânea ocidental. Foram exibidos os filmes O Diabo na Rua no Meio do Redemunho, de Bia Lessa; A Queda do Céu, de Éryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha; e As Cadeiras, de Luís Fernando Libonati. A programação foi enriquecida por conferências com intelectuais como Geni Núñez, Rosane Borges e Vladimir Safatle, que ofereceram análises sobre o Brasil contemporâneo sob perspectivas indígenas, raciais, de gênero e políticas.

Passados dois meses do evento, a recepção da presença brasileira em Avignon registrou resultados observáveis. A crítica especializada francesa dedicou cobertura às obras brasileiras, com comentários que abordaram a diversidade de temas, a inventividade das linguagens e a performance dos artistas. Sessões nas salas de La Manufacture registraram presença de público compatível com as expectativas, especialmente para os espetáculos que já possuíam um histórico de apresentações em festivais no Brasil. A imprensa francesa, incluindo publicações como Le Monde e Libération, veiculou comentários sobre a abordagem curatorial da MITsp, que procurou apresentar aspectos variados da cultura brasileira.

No que tange aos programadores e profissionais do setor, a exposição das obras brasileiras foi um objetivo cumprido. Relatos da própria MITsp e informações veiculadas indicam que discussões foram iniciadas com diversos programadores de festivais e espaços culturais de distintos países para possíveis futuras apresentações e parcerias. Guilherme Marques, diretor geral de produção da MITsp, indicou que o nível de engajamento alcançado foi significativo. As conferências e sessões de filmes também registraram participação considerável, o que agregou um componente de debate e reflexão à apresentação artística.

Em relação ao investimento e à percepção pública, a participação da MITsp em Avignon foi sustentada por financiamento público e privado. A repercussão da imprensa brasileira, tanto no período pré-evento quanto no pós-evento, focou predominantemente nos anúncios e na apresentação da iniciativa, com alguns veículos indicando desdobramentos positivos em termos de interesse e visibilidade para os espetáculos. 

A narrativa observada na cobertura midiática sugere que o aporte financeiro é contextualizado pela projeção da cultura brasileira e pela busca de novas avenidas de intercâmbio, cujos resultados tangíveis, como convites concretos para novas apresentações, ainda se encontram em fase de maturação e negociação. Tal perspectiva alinha-se à compreensão de que ações de projeção internacional, especialmente no campo cultural, demandam tempo para que seus impactos e retornos se manifestem plenamente.

 

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Flup Pernambuco:
Marco histórico na democratização
dos saberes periféricos

Algumas presenças da Flup.PE: Jessé Souza, Jaqueline Fraga (curadora), Luciany Aparecida, Carla Akotirene, Tarciana Portella (coordenação), Mãe Beth de Oxum , Robeyoncé Lima, Marilene Felinto, Julio Ludemir (criador da Flup-RJ),Vitor da Trindade, Cannibal e Itamar Vieira Jr.

A chegada da Festa Literária das Periferias (Flup) ao território pernambucano representa um movimento que reconhece as periferias como espaços de produção intelectual e resistência cultural sistematicamente invisibilizados pelos circuitos dominantes da literatura brasileira.

A partir de hoje, 10 de setembro, o Compaz Governador Eduardo Campos, no Alto de Santa Terezinha, se transforma em epicentro de debates que ultrapassam as fronteiras convencionais entre conhecimento acadêmico e saberes populares. 

Criada em 2012 no Rio de Janeiro por Julio Ludemir e Écio Salles (in memoriam), a Flup desembarca pela primeira vez em Pernambuco após 14 anos de consolidação na capital fluminense. A chegada ao estado acontece a partir da articulação de Tarciana Portella, coordenadora da Flup Pernambuco e cofundadora do Instituto Delta Zero, que conhecia Julio Ludemir desde a adolescência. Após acompanhar o trabalho do jornalista e escritor ao longo dos anos, Tarciana participou da festa no Rio em 2023, no Morro da Providência, e percebeu que essa experiência precisava chegar a Pernambuco, terra de tradição literária e cultural efervescente.

O evento, que reúne autores, intelectuais, artistas, lideranças religiosas e pensadores do Brasil para debater ideias que emergem das periferias, conta com extensa programação gratuita que traz nomes como Itamar Vieira Jr., Jessé Souza, Vitor da Trindade, Robeyoncé Lima, Marilene Felinto, Luciany Aparecida, Carla Akotirene, Cannibal, Odailta Alves, Bell Puã, Isaar, Mãe Beth de Oxum, Ellen Oléria, Lucas dos Prazeres, e muito mais 

A partir deste terça-feira, 10 de setembro, o Compaz Governador Eduardo Campos, no Alto de Santa Terezinha, se transforma em epicentro de debates que ultrapassam as fronteiras convencionais entre conhecimento acadêmico e saberes populares. A escolha deste equipamento público, reconhecido pela UNESCO por suas práticas de cidadania e cultura de paz, materializa o compromisso da Flup com a ocupação democrática dos espaços culturais.

A homenagem ao poeta e ativista Francisco Solano Trindade (1908-1974) estabelece um fio condutor que conecta diferentes momentos da luta antirracista brasileira. Nascido no Recife e declarado Patrono da Luta Antirracista de Pernambuco em 2020, Trindade antecipou debates contemporâneos sobre representatividade e acesso cultural e formulou um projeto que via na arte popular um instrumento de transformação social.

A presença de Liberto Solano Trindade, filho do poeta, junto com sua companheira Nilu Strang, na programação da Flup constitui uma ponte entre gerações. O casal participa de atividades que dialogam com ancestralidade e memória, incluindo a ação pedagógica Nós que somos Solano Trindade, que começou no dia 8 e vai até 12 de setembro. A proposta expande a memória da família, incluindo também Margarida Trindade, esposa e parceira artística de Solano, cuja história será resgatada em cordel.

Um Elenco de Vozes Transformadoras

Sob a curadoria da escritora e jornalista Jaqueline Fraga, autora do livro Negra Sou: a ascensão da mulher negra no mercado de trabalho (finalista do Prêmio Jabuti 2020), a programação reúne nomes fundamentais do pensamento brasileiro contemporâneo. O sociólogo Jessé Souza, autor de A Elite do Atraso e O Pobre de Direita, divide espaços com a pesquisadora Carla Akotirene, referência nos estudos sobre interseccionalidade e feminismo negro.

O escritor baiano Itamar Vieira Jr., vencedor dos prêmios Jabuti e Oceanos com Torto Arado, participa ao lado de Vitor da Trindade, filho de Solano, numa mesa que questiona A quem a arte incomoda? E a quem deve servir?. A cantora e compositora Ellen Oléria, vencedora do The Voice Brasil, encerra a programação junto com o poeta pernambucano Lucas dos Prazeres, explorando as fronteiras entre música e poesia.

A escritora e jornalista Bianca Santana, autora de Quando me descobri negra, participa dos debates sobre juventude negra. A física e escritora Sônia Guimarães, primeira mulher negra doutora em Física no Brasil, divide a mesa Pioneiras, sim! Sozinhas, não! com a advogada travesti Robeyoncé Lima, pioneira na advocação trans em Pernambuco.

Das lideranças religiosas, participam Pai Ivo de Xambá, Mãe Beth de Oxum e Pai Lívio, que abordarão A força e a resistência do sagrado em Pernambuco.

Esmeralda Ribeiro, uma das fundadoras dos Cadernos Negros, Inaldete Pinheiro, autora de Pixaim em versos soltos, Odailta Alves, com As bonecas de Nyashia, Marilene Felinto, escritora, jornalista e crítica literária, Lorena Ribeiro, escritora e ativista feminista, e Luciany Aparecida, autora de Mata Doce, finalista do Prêmio Jabuti 2024, trazem suas perspectivas autorais para os debates.

Nas artes visuais e performance, participam Jeff Alan, artista visual, e Andala Quituche, fundadora do Museu das Tradições do Cavalo-Marinho. O universo musical traz o cantor e compositor recifense Cannibal e a artista Isaar França, que compõem um mosaico sonoro diversificado ao lado de Ellen Oléria e Lucas dos Prazeres.

Compaz Alto Santa Terezinha. Foto: Andrea Rego Barros/ Divulgação

Desafios Estruturais e Estratégias de Superação

A implementação da Flup em Pernambuco enfrenta desafios estruturais que espelham as desigualdades do campo cultural brasileiro. O financiamento foi viabilizado através de emendas parlamentares do deputado Renildo Calheiros e do senador Humberto Costa, via Ministério da Cultura, além do patrocínio do Banco do Nordeste e apoio da Prefeitura do Recife.

A coordenação de Tarciana Portella, através do Instituto Delta Zero, demonstra como a economia criativa pode funcionar como vetor de desenvolvimento territorial. “A Flup é processo, plataforma de pensamento, conexões e incubação de talentos antes invisibilizados”, define ela, que quando conheceu a festa no Rio de Janeiro em 2023 percebeu que essa experiência precisava chegar a Pernambuco.

O modelo curatorial adotado pela Flup Pernambuco reflete avanços significativos na reconfiguração dos circuitos literários nacionais. A festa chega ao Nordeste após 14 anos de consolidação no Rio de Janeiro, onde se tornou Patrimônio Cultural Imaterial do Estado em 2023 e acumulou prêmios como o Jabuti (2020) e o Excellence Awards (London Book Fair, 2016).

A escolha do Alto de Santa Terezinha como sede do evento é logística, mas também estratégica. No Recife, os morros — chamados de Altos — ocupam 68% do território urbano, mas quem circula por eles são, em grande parte, seus próprios moradores. Ao ocupar este território periférico com programação cultural de alto nível, a Flup contesta geografias simbólicas que concentram a produção intelectual em áreas centrais das metrópoles.

Esta territorialização da cultura possibilita o que caracteriza uma democratização real dos espaços de legitimação intelectual. A programação temática abrange desde discussões sobre juventude negra até debates sobre feminismos e religiosidades afro-brasileiras, evidenciando uma sofisticação conceitual que supera a dicotomia entre cultura popular e erudita.

Homenagem ao poeta e ativista Francisco Solano Trindade (1908-1974)

Programação Completa – Flup Pernambuco 2025

10 de setembro (Quarta-feira)

– 15h – Roda de Diálogo: Nós que somos Solano Trindade
Participantes: Liberto Solano Trindade e Nilu Strang

17hSarau Versos e Raízes
Participantes: Odailta Alves, Mariana Brito, Regilane Franca, Maria Carolina, Débora Santos, Miriam Gomes
Apresentação musical: Ana Benedita Costa

18h30 – Cerimônia de Abertura

– 19h – Mesa: Sabemos a direção? Como resgatar a juventude negra
Participantes: Bianca Santana, Jessé Souza
Mediação: Jéssica Santos

– 20h30 – Lançamentos
Livros de Jessé Souza, Bianca Santana e Jéssica Santos

11 de setembro (Quinta-feira)

– 15h – Lançamentos de autores independentes
Caio do Cordel (Super Negro), Cibele Laurentino (Nobelina), Ana Daviana (Essa mundana gente)

– 17h – Lançamentos
Inaldete Pinheiro (Pixaim em versos soltos), Odailta Alves (As bonecas de Nyashia), Iaranda Barbosa (Ponto de Luz)

– 18h30 – Mesa 1: Ancestralidade em vida: construindo e abrindo caminhos
Participantes: Esmeralda Ribeiro, Inaldete Pinheiro
Mediação: Odailta Alves

– 20h – Mesa 2: Conhecimento é alimento cultural
Participantes: Carla Akotirene, Cannibal
Mediação: Iaranda Barbosa

12 de setembro (Sexta-feira)

– 15h – Lançamentos de autores independentes
Samuel Santos (Maria Preta), Luciene Nascimento (Tudo nela é de se amar), Marcondes FH (Rosa Menininho)

– 17h – Mesa 1: A força e a resistência do sagrado em Pernambuco
Participantes: Pai Ivo, Mãe Beth de Oxum
Mediação: Pai Lívio

– 18h30 – Mesa 2: A arte como vetor, movimento e inspiração
Participantes: Salgado Maranhão, Isaar
Mediação: Luciana Queiroz

20h – Mesa 3: A quem a arte incomoda? E a quem deve servir?
Participantes: Itamar Vieira Jr., Vitor da Trindade
Mediação: Lenne Ferreira

– 21h30 – Lançamentos
Livros de Itamar Vieira Jr. e Vitor da Trindade

13 de setembro (Sábado)

– 14h – Lançamentos de autores independentes
Eron Villar (O Carnaval de Capiba), Vera Lúcia e Wedna Galindo (Espanador não limpa poeira), Fátima Soares (Ossos)

– 15h – Mesa 1: Sonhos vivos: o poder da cultura na construção social
Participantes: Jeff Alan, Andala Quituche
Mediação: Thayane Fernandes

– 16h30 – Mesa 2: O futuro é agora e feminino. E a literatura também
Participantes: Marilene Felinto, Lorena Ribeiro
Mediação: Bell Puã

– 18h – Lançamentos
Livros de Thayane Fernandes, Lorena Ribeiro, Marilene Felinto

– 18h30 – Mesa 3: Pioneiras, sim! Sozinhas, não!
Participantes: Sônia Guimarães, Robeyoncé Lima
Mediação: Renata Araújo

– 20h30 – Espetáculo: Se eu fosse Malcolm
Artistas: Eron Villar e DJ Vibrasil
Peça inspirada no legado de Malcolm X, entre música identitária e teatro épico-narrativo

14 de setembro (Domingo)

– 14h – Lançamentos de autores independentes
João Gomes (Revezamento Secreto), Célia Martins (Ara-Y), Maria Cristina Tavares (As aventuras de Bayo em Terras Africanas), Robson Teles (Ave, Guriatã)

– 15h – Mesa 1: Acessos e permanências: nosso lugar é todo lugar
Participantes: Luciany Aparecida, Amanda Lyra
Mediação: Érico Andrade

– 16h30 – Lançamentos
Livros de Érico Andrade e Luciany Aparecida

– 17h – Mesa 2: Entre sons e sensações: palavra é música e música é poesia
Participantes: Ellen Oléria, Lucas dos Prazeres
Mediação: Marta Souza

– 19h – Encerramento
Apresentação artística de Lucas dos Prazeres com participação de Ellen Oléria

Serviço

📍 Compaz Governador Eduardo Campos – Alto de Santa Terezinha, Recife/PE
📅 10 a 14 de setembro de 2025
⏰ Diariamente das 14h às 21h30
Entrada: Gratuita
♿ Acessibilidade: Interpretação em Libras em todas as atividades
🍽️ Serviços: Feira de livros e espaço gastronômico permanentes
📱 Informações:
Instagram: @flup.pe2025
Site: www.vempraflup.com.br
🤝 Realização: Instituto Delta Zero e Ministério da Cultura
💼 Parcerias: Flup (RJ), Suave, Associação Na Nave, Sintepe, Araçá Produções Culturais
💰 Patrocínio: Banco do Nordeste (BNB)
🏛️ Apoio: Prefeitura do Recife, coletivos Redes do Beberibe, Minas Comunicação e Cultura, Negras Linhas, Negra Sou, Cooperativa Ecovida Palha de Arroz

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