Programação teatral no Recife
em intenso movimento
neste fim de setembro

Focus Cia de Dança celebra marco histórico de 25 anos . De Bach a Nirvana. Foto: Dan Coelho / Divulgação

Carlota. Foto: Cristina Granato

Trupe. Foto: Babi-Furtado

A cena teatral no Recife se mexe em diversidade artística que contempla dança contemporânea, humor, experimentação, teatro infantil e produções nacionais. A programação demonstra vitalidade cultural que posiciona Recife como importante centro de produção e circulação das artes cênicas no país.

Celebrando marco histórico de 25 anos de trajetória artística, a Focus Cia de Dança traz ao Recife uma programação especial dentro do Cena Cumplicidades. A companhia carioca, que possui reconhecimento internacional tendo se apresentado em mais de 100 cidades brasileiras e países como Colômbia, México, Canadá, Estados Unidos, França, Alemanha e Itália, oferece três espetáculos gratuitos que demonstram a maturidade de um dos grupos mais respeitados da dança contemporânea brasileira.

Com 26 obras e 16 espetáculos em repertório, a Focus, sob direção de Alex Neoral, consolidou linguagem coreográfica única que combina técnica refinada com experimentação estética.

Trupe evoca tradição dos artistas mambembes através de cortejo coreográfico onde dez bailarinos fazem um cortejo para transformar espaço urbano em palco. De Bach a Nirvana realiza encontro improvável entre épocas musicais distintas, conectando música barroca de Johann Sebastian Bach (1685-1750) com rock visceral do Nirvana de Kurt Cobain (1967-1994) através de coreografia. Carlota – Focus Dança Piazzolla, criação de 2023, homenageia Carlota Portella (1940-2024) utilizando 11 tangos de Astor Piazzolla para reconfigurar matrizes tradicionais do ritmo argentino, explorando melancolia, abandono e paixão através de linguagem corporal que celebra o corpo como obra de arte suprema.

Anjo Negro combina dança contemporânea, artes circenses, balé clássico e teatro físico

Ave, Guriatã! encerra o festival

O Festival Estudantil de Teatro e Dança de PernambucoFETED representa importante plataforma de formação artística que revela novos talentos enquanto aborda temas urgentes da sociedade brasileira. De 24 a 28 de setembro no Teatro Apolo, sete espetáculos resultam de processos formativos que incluem trabalhos de conclusão de cursos e criações coletivas, evidenciando o caráter pedagógico fundamental do festival.

O Sequestro da Leitura funciona como julgamento cênico onde a “Escola” é acusada de sequestrar a Leitura, questionando métodos educacionais tradicionais. Anjo Negro combina dança contemporânea, artes circenses, balé clássico e teatro físico através de dez cenas intensas com liras e tecidos acrobáticos para explorar trajetória de mulher negra em busca de identidade. Canto de Negro celebra ancestralidade afro-brasileira percorrendo trajetória “dos porões dos navios aos terreiros, quilombos e ruas”, criando diálogo temporal que ressalta resistência cultural.

Para o público infantil, As Crônicas dos Gatos Sem Lar apresenta Sophia, gatinha com autismo que ensina sobre amizade, empatia e respeito às diferenças, funcionando como ponte educativa. Escolinha de Bruxas, resultado do Curso de Iniciação Despertar Teatral da Cênicas Cia de Repertório, adapta Maria Clara Machado para abordar bullying e empatia através da história de Ângela, jovem bruxa bondosa. “Ave Guriatã“, emerge do Curso de Interpretação para Teatro do Sesc sob direção de José Manoel Sobrinho e Samuel Bennaton, baseando-se em Guriatã, um Cordel para Menino de Marcus Accioly para celebrar cultura brasileira através de narrativa poética sobre menino em busca de identidade.

Sala de Jantar. Foto Mônica Maria

A experimentação teatral encontra uma expressão delicada e envolvente em Sala de Jantar, criação onde Ruy Aguiar realiza alquimia cênica transformando o ordinário em extraordinário. Neste universo, pratos, talheres, toalhas e guardanapos abandonam sua condição de utensílios para se transformar em personagens dotados de desejos, ansiedades e sonhos próprios. O elenco formado por Edivane Bactista, Adilson Di Carvalho, Fabiana Coelho, Ryan Rodrigues e o próprio Ruy Aguiar desenvolve técnica de manipulação que exige simultaneamente precisão e sensibilidade artística aguçada, conferindo alma e personalidade a cada objeto durante preparativos para jantar elegante orquestrado por figura enigmática do lacaio misterioso.

A dramaturgia desenvolve narrativa onde os objetos aguardam ansiosamente a chegada dos convidados, transformando arrumação doméstica em jornada emocional. Lailson Cavalcante desenvolve pesquisa musical que dialoga harmoniosamente com cada metamorfose cênica, criando paisagem sonora que amplifica a magia inerente aos momentos de transformação, enquanto Saulo Uchoa assina desenho de luz buscando dramaticidade essencial aos instantes em que objetos inanimados ganham vida pulsante.

Esta experiência de 45 minutos com classificação a partir de 8 anos acontece no Espaço Cultural Métron Produções (Rua Tabira, 109, Boa Vista) para 30 espectadores por sessão, criando intimidade que potencializa o impacto emocional. Estreada em 2017, a montagem integra o repertório da Métron Produções e foi contemplada pela Lei Paulo Gustavo através do Edital Multilinguagens Recife Criativo. Todas as apresentações contam com interpretação em Libras, garantindo acesso democrático a esta experiência que encontra magia nos elementos mais familiares do cotidiano.

Nega do Babado e Violetas da Aurora. Foto: Renato Filho

A Casa de Alzira sedia Palhacinhas do Brega – Vibrando no Babado, proposta artística inédita que une palhaçaria contemporânea e tradição musical pernambucana. Este evento conecta o coletivo Violetas da Aurora – consolidado através de oito anos de atividades e produções emblemáticas como Violetas da Aurora – o Encontro (2018), Mesa de GlosaR (2019) e Violetas no Parque (2021) – com Nega do Babado (Adriana Araújo da Silva), ícone do brega recifense com mais de duas décadas de trajetória que inclui sucessos populares como Milkshake e consolidação como uma das vozes mais potentes do cenário musical pernambucano.

O Violetas da Aurora, protagonizado por Ana Nogueira (Dona Pequena), Fabiana Pirro (Uruba), Mayra Waquim (Maroca) e Silvia Góes (Sema Roza Madalena), desenvolve ao longo de quase uma década linguagem cênica que articula palhaçaria, crítica social e celebração de encontros com artistas de diferentes linguagens. Colaborações anteriores com poetas como Graça Nascimento e Anaíra Mahin demonstram compromisso do coletivo em criar pontes entre expressões artísticas diversas, fortalecendo redes colaborativas que enriquecem cenário cultural pernambucano através de protagonismo feminino em campos tradicionalmente dominados por vozes masculinas.

Nega do Babado representa transformação paradigmática no universo do brega, gênero que nas últimas décadas assistiu ao surgimento de figuras femininas que redefinem códigos estéticos e narrativos. Reconhecendo conexões naturais entre sua performance musical e elementos da palhaçaria, declara: “No meu Brega, a palhaçaria está sempre presente. Eu tenho essa felicidade de ser palhaça também”. Esta declaração revela consciência artística sobre hibridismos que caracterizam sua estética, onde irreverência, humor e autenticidade popular se fundem criando linguagem única que dialoga naturalmente com propostas do Violetas da Aurora.

DJ Vibra (Virgínia Brasil) atua como ponte criativa fundamental entre universos aparentemente distintos, assumindo simultaneamente funções de diretora artística e produtora musical. Reconhecida nacionalmente por trilhas sonoras que transitam entre eletrônico, popular e afro-diaspórico, coidealizou o selo Discopreta, consolidando-se como voz criativa fundamental da cena independente brasileira. Atualmente conduzindo processo de expansão artística da Nega do Babado rumo à construção de carreira latina, Vibra preserva simultaneamente a força popular que caracteriza a artista, criando equilíbrio entre inovação estética e autenticidade regional.

A narrativa cômica satiriza oportunismo no meio artístico através de personagens que, cansadas de financiar turnês através de vaquinhas, enxergam no sucesso do brega recifense oportunidade de ascensão rápida. Convidando Nega do Babado para colaboração, descobrem que conquistar espaço na cena musical exige muito mais que simples boa vontade, revelando camadas de reflexão sobre legitimidade artística, reconhecimento profissional e complexidades envolvidas na construção de carreiras sólidas no cenário cultural brasileiro.

Inaugurando a noitada, Flávia Gomes apresenta Sarau Eroticuzinho, explorando territórios da poesia erótica que dialogam tematicamente com ousadia proposta pelo encontro principal. Completando a experiência musical, D Mingus participa como convidado especial, ampliando diversidade sonora da celebração através de performance que conecta diferentes vertentes musicais presentes na cena recifense contemporânea.

A Casa de Alzira, localizada no terceiro andar do Museu de Artes Afro-Brasil Rolando Toro (MUAFRO), ocupa Sala Inaldete Pinheiro, espaço com capacidade para 70 pessoas equipado com recursos técnicos completos, camarim, cantina e lojinha colaborativa. O espaço funciona como laboratório cultural que incentiva experimentação e encontros transformadores entre linguagens artísticas diversas.

Tradição Cultural e Identidade Pernambucana

Canto e Encanto Pernambuco: Folia e Foliões, Carnaval de Alegria representa trabalho do Núcleo Musical Irmã Scheilla, vinculado à Fraternidade Peixotinho, organização que desenvolve atividades de ensino musical utilizando a música como ferramenta de educação e preservação cultural. O espetáculo combina batuques, orquestras, sopros e cordas com encenações teatrais em apresentação que celebra diversidade cultural pernambucana focando em ritmos e tradições carnavalescas. A entrada gratuita para crianças até 10 anos facilita acesso familiar, consolidando função social e educativa da proposta.

Teatro de Rua e Urgência Climática

Grupo Bote de Teatro faz apresentações na Praça do Sebo

Recife, cidade historicamente construída sobre ilhas e aterros, enfrenta destino inexorável ligado às águas que a constituem e ameaçam. Esta geografia insular torna ainda mais urgente a reflexão sobre crise climática numa metrópole que, segundo relatório da ONU, figura como 16ª cidade mais vulnerável do mundo ao aumento do nível do mar. Diante desta realidade alarmante, o Bote de Teatro compreende que abordar tema tão crucial exige proximidade radical com a população: “sendo uma cidade considerada uma ilha, para falar de um tema como a crise climática, não haveria outra forma a não ser ir para a rua, ir para perto das pessoas e ocupar um espaço urbano”.

Ilha:Dois materializa esta urgência transformando a Praça do Sebo em laboratório de teatro de rua, dirigido por Rafael Bacelar com dramaturgia de David Maurity, ambos integrantes da Toda Deseo, companhia mineira de teatro que desde 2013 pesquisa temas LGBTQIAPN+. Esta parceria entre Toda Deseo – com sua experiência consolidada em teatro político e narrativas de resistência – e o Bote de Teatro, do Recife, busca sensibilizar sobre a urgência climática numa perspectiva que conecta lutas identitárias com sobrevivência coletiva.

O espetáculo atua como “confrontação à cidade”, buscando “dizer à população que é preciso se ocupar em pensar sobre a crise climática”. Esta urgência se justifica pelos estudos científicos que apontam Recife como uma das primeiras metrópoles brasileiras a “desaparecer do mundo por conta do nível do mar”. A montagem utiliza estes dados científicos alarmantes para construir narrativa que conecta política, poesia e sobrevivência urbana através de Cardo Ferraz, Daniel Barros, Inês Maia e Pedro Toscano, quatro pessoas reunidas em torno de mesa de bar discutindo tempo de cidade ameaçada.

As conversas, atravessadas por copos de cerveja e cigarros, incorporam memórias locais como a enchente histórica de 1975 e os alagamentos anuais que marcam cotidiano recifense, criando ponte temporal entre experiência vivida e projeções científicas. A dramaturgia entrelaça nostalgia (consciência de que o passado se perdeu), esperança (ousadia de inventar futuros) e presente que se impõe com suas urgências climáticas e sociais.

A equipe técnica revela colaboração multidisciplinar: Aura do Nascimento (direção de arte), Vibra (sonoplastia), Joice Paixão (consultoria ambiental e política), Priscila Siqueira (coordenação de acessibilidade), com participação especial de Nega do Babado e tradução em Libras. Esta configuração demonstra compromisso com acessibilidade integral e conhecimento especializado sobre questões ambientais.

A integração com ambiente natural da praça, onde bares funcionam durante as apresentações, busca dissolver fronteiras entre ficção teatral e realidade urbana. Espectadores são convidados a chegar cedo para garantir mesa, fazendo da experiência teatral parte orgânica do cotidiano do espaço.

Murilo Freire em Esquecidos por Deus. Foto Divulgação

Esquecidos por Deus marca 40 anos de carreira teatral de Murilo Freire, que iniciou aos 7 anos tornando-se profissional aos 8. Com especialização em Arts du Spectacle na Universidade de Paris-8 durante cinco anos de residência na França, atualmente atua como Professor de Teatro no SESC, Supervisor de Cultura e Psicoterapeuta Holístico Integrativo. O monólogo baseia-se em “O Livro das Personagens Esquecidas” de Cícero Belmar, membro da Academia Pernambucana de Letras, abordando memória, identidade, patrimônio, tradição, apagamentos e cancelamentos. A interpretação utiliza “Arquetipia Humanimal”, pesquisa prática de 20 anos que combina pré-expressividade (Barba) e trabalho sobre ações físicas (Stanislavski/Grotowski). A técnica parte da observação de animais domesticados que mimetizam comportamentos humanos, criando hipótese de que humanos podem reproduzir hábitos de outras espécies animais através de reprodução da corporeidade animal (respiração, impulsos físicos, ritmos) até alterar a corporeidade humana, criando arquétipos claramente identificáveis. Com encenação, dramaturgia e iluminação de José Manoel Sobrinho, direção musical de Fellipe Barnabé e figurinos de Ivone Nunes, representa formato intimista que preza proximidade com plateia.

Formação Continuada e Protagonismo Negro

Cecilia Chá, Larissa Lira, Sthe Vieira e Thallis Ítalo compõem elenco

O Espaço O Poste apresenta resultado concreto de política de formação artística continuada através de Àwọn Irúgbin (Sementes em iorubá), resultado de dois anos de Residência O Postinho. Seis jovens pretos das periferias participaram de processo formativo gratuito que inclui interpretação teatral, voz e preparação corporal, danças afrodiaspóricas, história do teatro negro, dramaturgia a partir de escrevivências, elaboração de projetos culturais, economia criativa e letramento étnico-racial. A equipe pedagógica conta com Naná Sodré (preparação corpo ancestral), Agrinez Melo (preparação poética matricial), Darana Nagô (danças afrodiaspóricas), Jeff Vitorino e Matheus Amador (história do teatro negro-africano). Cecilia Chá, Larissa Lira, Sthe Vieira e Thallis Ítalo compõem elenco que também assina dramaturgia e produção, demonstrando formação completa em criação teatral. A montagem aborda identidade racial, transformação social e visibilidade da mulher negra, incluindo cenas sobre Bailes Charme, com operação de som e luz ao vivo realizada pelo próprio elenco. O projeto integra Ocupação Espaço O Poste, fomentado pelo Programa FUNARTE de Apoio a Ações Continuadas 2023.

Teatro Infantil e Educação Ambiental

Floresta dos Mistérios utiliza 20 bonecos de diferentes tamanhos criados por Márcio de Pontes. Foto: Silvia Machado

A CAIXA Cultural Recife recebe criação de Márcio Araújo, um dos criadores do programa Cocoricó que marcou gerações na TV Cultura. Floresta dos Mistérios utiliza 20 bonecos de diferentes tamanhos criados por Márcio de Pontes para contar história sobre três crianças – Bel, Rafa e Duda que descobrem planos do prefeito Lúcio Fernando para desmatar área florestal e construir maior fábrica de celulares do mundo na cidade de Micrópolis. Com ajuda de seres encantados do folclore brasileiro como Saci Pererê, Iara e Boitatá, lutam para salvar a Floresta dos Mistérios. As canções originais, compostas por Tato Fischer e Márcio Araújo, são interpretadas ao vivo pelos manipuladores-cantores Clayton Bonardi, Daniela Schitini, Débora Vivan, Joaz Campos, Marcio Araújo, Matilde Menezes e Thalita Passos, com arranjos e direção musical de Gabriel Moreira. Todas as sessões são bilíngues e acessíveis, com tradução em LIBRAS e audiodescrição integradas à dramaturgia, representando abordagem inclusiva que faz parte da concepção artística. Paralelamente, acontece Workshop de Gestão e Produção Cultural Criativa ministrado pela produtora Bia Ribeiro, destinado a artistas, produtores e profissionais culturais maiores de 18 anos.

 

Teatro de urgência: espetáculo sobre violência infantil 

Ator potiguar José Neto Barbosa protagoniza peça com tema sensível

Uma obra que dialoga com uma das realidades mais dolorosas da sociedade contemporânea, Um Depoimento Real faz duas apresentações no Recife nos dias 28 e 30 de setembro, tendo como assunto o abuso infantil através da perspectiva de uma criança.

O ator potiguar José Neto Barbosa é dirigido pela argentina Monina Bonelli, do Teatro Bombón de Buenos Aires, na adaptação do texto Los Titanes, criado pela dramaturga Paola Traczuk.

A diretora define o trabalho como o resultado de um abraço artístico, político e afetivo entre artistas latino-americanos, que se propõem a abordar um tema sobre o qual a sociedade prefere não falar. Segundo ela, trata-se de um assunto doloroso que as pessoas gostariam que estivesse distante de suas realidades, mas que está presente no Brasil, na Argentina e no mundo inteiro, sem distinção de classe, gênero, raça ou povo, exigindo que seja discutido através da arte e outras linguagens.

O espetáculo apresenta a narrativa de uma criança que conta sua experiência. A montagem denuncia a negligência, expõe os silenciamentos e reforça a fundamental importância das redes de proteção na vida das crianças.

José Neto Barbosa, conhecido pelo premiado espetáculo A Mulher Monstro, que se tornou destaque no teatro pernambucano, protagoniza esta urgente discussão social. A classificação indicativa é de 14 anos, considerando a delicadeza do tema abordado.

Todas as sessões contarão com interpretação em Libras. Cada apresentação será seguida de um debate mediado por uma psicóloga especializada.

O acesso ao espetáculo é gratuito, mas requer a doação de 1kg de alimento não perecível, que será destinado a instituições de acolhimento de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Os ingressos estão disponíveis na plataforma Sympla.

Fundada em Natal e com atuação também em Recife, a S.E.M. Cia. de Teatro completa 13 anos de atividades voltadas para a arte militante e formação cultural. Sob a direção artística de José Neto Barbosa, a companhia já alcançou mais de 70 mil pessoas em 15 estados brasileiros. Entre suas produções de destaque estão os espetáculos Borderline, Quando a Vela Apaga, Acordo de Paz e o premiado monólogo A Mulher Monstro.

Apoio institucional
O projeto conta com o apoio da Fundação de Cultura Cidade do Recife, Secretaria de Cultura e Prefeitura do Recife, através da Lei Paulo Gustavo, uma iniciativa do Ministério da Cultura e Governo Federal para fomento das artes cênicas no país.

Universidade Federal: Meio Século de Formação

A 15ª Semana de Cênicas celebra 50 anos do curso de Licenciatura em Teatro da UFPE, meio século de formação de profissionais que atuam como professores, diretores, atores e pesquisadores em todo o Estado. O evento funciona como espaço de resistência cultural reunindo estudantes, professores, artistas e comunidade para discutir desafios e perspectivas do teatro pernambucano. A temática “Raízes Pernambucanas” conecta tradições ancestrais com práticas teatrais contemporâneas, evidenciando continuidade e transformação da arte cênica local através de seis apresentações que transitam entre experimento autobiográfico, teatro histórico, experiência imersiva, dramaturgia indígena, performance feminina e narrativa de resistência.

Humor e Musical para a família

O Teatro Barreto Júnior acolhe propostas distintas. A Fantástica Fábrica de Chocolates reúne elenco misto de amadores e profissionais incluindo crianças e adultos em três atos inspirados nos três filmes do Willy Wonka, seguidos de agradecimentos, sorteio de rifa e sessão de fotos com elenco. Plantão dos Técnicos marca encontro inédito entre Camila Cardoso (técnica de enfermagem) e Gabriel Castanheira (Tequim de Enfermagem), influenciadores com mais de 1 milhão de seguidores que transformam experiências do cotidiano médico em narrativas cômicas, rapidamente esgotando ingressos. A Vida é uma Choice apresenta Scarlat Caluête, reconhecida por timing cômico impecável e sarcasmo inteligente, transformando palco em talk show ao vivo através de stand-up interativo onde cada piada convida à gargalhada e público protagoniza momentos únicos.

O vendedor de sonhos

O Vendedor de Sonhos no Teatro RioMar representa primeira obra de Augusto Cury – psiquiatra mais lido no mundo atualmente – a receber adaptação teatral. O livro, traduzido para mais de 60 idiomas e também transformado em filme, foi adaptado pelo próprio autor com direção de Luciano Cardoso (33 anos de experiência). A montagem, vista por mais de 300 mil pessoas em mais de 400 apresentações, aborda saúde mental e prevenção ao suicídio – tema crescente na sociedade atual – através da proximidade entre atores e plateia que potencializa impacto positivo da obra. A narrativa conecta Júlio César (Mateus Carrieri), que tenta suicídio, com Mestre (Milton Levy), mendigo que lhe vende vírgula para continuar escrevendo sua história, junto a Bartolomeu (Adriano Merlini) na missão de vender sonhos e despertar sociedade doente.

VEM AÍ

Sagração. Foto: Flavio Colker

Sagração é uma releitura ousada de A Sagração da Primavera de Stravinsky, obra que em 1913 causou um dos maiores escândalos da história cultural em Paris. Deborah Colker, Prêmio Laurence Olivier (2001), Prix Benois de la Danse de Moscou (2018) e primeira mulher a criar espetáculo para o Cirque du Soleil (Ovo, 2009), além de dirigir movimento da cerimônia de abertura das Olimpíadas Rio 2016 transmitida para mais de 2 bilhões de pessoas, transforma sacrifício eslavo em cosmogonia indígena brasileira. A inspiração veio de viagem ao Xingu e encontro com cineasta indígena Takumã Kuikuro. 170 bambus de quatro metros (criações de Gringo Cardia) operam como elementos coreográficos ativos desafiando 15 bailarinos. A direção musical de Alexandre Elias propõe arqueologia sonora mantendo estrutura rítmica stravinskyana enquanto sobrepõe sons indígenas, maracá, caxixi e “paus de chuva” tocados pelos bailarinos, criando composição onde boi bumbá, coco, afoxé e samba dialogam com orquestra sinfônica.

Jeison Walace como Cinderela. Foto: Divulgação

Cinderela em: Toda Cidade Tem celebra fenômeno cultural de mais de três décadas. Jeison Wallace se confunde com criação que o tornou famoso: Cinderela não era princesa, mas menina sonhadora de um dos morros do Recife – mal educada, desaforada e engraçada – criada em 1991 na peça Cinderela, a História que sua mãe não contou. Popular em todas as classes sociais e habituado a lotar plateias, o comediante construiu mais de 30 anos de carreira transitando entre rádio, teatro, cinema, TV e sitcom. O espetáculo utiliza esquetes hilárias e interação intensa para abordar peculiaridades do cotidiano encontradas em qualquer cidade brasileira, desde fofocas de bairro até personagens marcantes do dia a dia, mesclando tradicional e contemporâneo através da irreverência que consolidou a personagem como ícone da comédia nacional.

PROGRAMAÇÃO 

SERVIÇOS
FOCUS CIA DE DANÇA – 25 ANOS
Trupe 📅 24/09, 19h – Centro de Artes UFPE | 28/09, 11h30 – Parque da Jaqueira
🎫 Gratuito | ⏱️ 35min | 👨‍👩‍👧‍👦 Livre

De Bach a Nirvana 📅 26/09, 20h – Teatro Luiz Mendonça
🎫 Gratuito – teatroluizmendonca.byinti.com | ⏱️ 90min | 👨‍👩‍👧‍👦 Livre

Carlota – Focus Dança Piazzolla 📅 27/09, 20h – Teatro Luiz Mendonça
🎫 Gratuito – teatroluizmendonca.byinti.com | ⏱️ 75min | 👨‍👩‍👧‍👦 12 anos

FETED 2025
📍 Teatro Apolo – Rua do Apolo, 121
🎫 R22,50(R 20 + R2,50taxa)∣💳4xR 6,12

24/09 (19h) – O Sequestro da Leitura
25/09 (19h) – Anjo Negro
26/09 (19h) – Canto de Negro
27/09 (16h) – As Crônicas dos Gatos Sem Lar
27/09 (19h) – Auto da Barca do Inferno
28/09 (16h) – Escolinha de Bruxas
28/09 (19h) – Ave, Guriatã!

Sala de Jantar 📅 25, 26, 27/09 – 18h e 20h
📍 Espaço Cultural Métron Produções – Rua Tabira, 109, Boa Vista
🎫 Gratuito –
www.metronproducoes.com.br
| 👥 30 pessoas | ⏱️ 45min | 👨‍👩‍👧‍👦 8 anos
♿ Libras em todas as sessões

Palhacinhas do Brega 📅 27/09, 20h – Casa de Alzira – MUAFRO
🎫 1º lote R30∣2ºloteR 50 | 👨‍👩‍👧‍👦 16 anos | 👥 70 pessoas

Canto e Encanto Pernambuco 📅 28/09, 16h – Teatro do Parque
🎫 R$ 30 (gratuito até 10 anos) | ⏱️ 60min | 👨‍👩‍👧‍👦 Livre

Ilha:Dois 📅 27, 28/09, 19h – Praça do Sebo, Boa Vista
🎫 Gratuito | ♿ Libras | 👨‍👩‍👧‍👦 Livre

Esquecidos por Deus 📅 27, 28/09, 19h30 – SESC Goiana
🎫 Gratuito | ⏱️ 60min

Àwọn Irúgbin – o Poste 📅 27/09, 19h – Espaço O Poste
🎫 Inteira R30∣MeiaR 15 | 💳 3x R$ 6,25

Floresta dos Mistérios 📅 26/09 a 05/10 – CAIXA Cultural
🕒 Sextas 19h | Sáb/Dom 11h
🎫 Inteira R20∣MeiaR 10
♿ LIBRAS e audiodescrição em todas as sessões

SEMANA DE CÊNICAS UFPE – 50 ANOS
📅 23 a 26/09 – Centro de Artes UFPE
🎫 Gratuito – Todas as apresentações

TEATRO BARRETO JÚNIOR
A Fantástica Fábrica de Chocolates” 📅 27/09, 17h45 | 🎫 Inteira R55∣MeiaR 27,50 | 👨‍👩‍👧‍👦 Livre

Plantão dos Técnicos” 📅 28/09, 20h | 🎫 ESGOTADO

A Vida é uma Choice” 📅 01/10, 19h | 🎫 Duplo R27,50∣IndividualR 22,50 | 💳 6x

Um Depoimento Real, com José Neto Barbosa
📅 28/09 (domingo): 18h – Espaço Cênicas, Bairro do Recife
30/09 (terça-feira): 14h e 16h – COMPAZ Dom Helder Camara, Ilha Joana Bezerra
🎟️ Ingressos: Gratuitos no Sympla (doação de 1kg de alimento não perecível) 🔞 Classificação: 14 anos 🧏🏽‍♂️ Acessibilidade: Interpretação em Libras em todas as sessões

VEM AÍ – OUTUBRO

Sagração” – Cia. Deborah Colker 📅 07/10, 20h30 – Teatro Guararapes, Olinda
🎫 R25aR 200 | ⏱️ 70min | 👨‍👩‍👧‍👦 10 anos
⚠️ Contém luzes estroboscópicas

“Cinderela em: Toda Cidade Tem” 📅 04/10, 18h – Teatro do Parque
🎫 Inteira R120∣MeiaR 60 | Social R$ 80 | 💳 12x
⏱️ 70min | 👨‍👩‍👧‍👦 14 anos

📱 Informações gerais: Consultar sites e redes sociais dos teatros
💳 Vendas: Sympla, bilheterias locais e sites específicos

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Rita Lee e a arte de fazer gente feliz
Crítica: Uma autobiografia musical

Mel Lisboa conduz biografia musical que celebra a vida da roqueira brasileira. Foto: João Caldas

Ao lado de Bruno Fraga, no papel de Roberto de Carvalho. Foto: João Caldas

Quadro com elenco e banda. Foto: João

Devo confessar: Rita Lee, com suas músicas, suas ideias, suas posturas, embalou os meus mais preciosos sonhos. Como tantas brasileiras, cresci ouvindo aquela voz que misturava pop, rock, nonsense e crítica social numa mesma canção, que enfrentou a polícia, a Igreja e a caretice.  A vida de Rita Lee é extraordinária por todos os papéis que assumiu, por toda luta que encarou, pela coragem e beleza que concentrou na música, no rock nacional, pela linda e comovente história de amor com Roberto de Carvalho. 

É justamente essa grandeza biográfica que Rita Lee – Uma Autobiografia Musical consegue capturar nos palcos. Como já cantava Belchior: “qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa” – e a montagem compreende essa dimensão.

Após um ano bem-sucedido em cartaz em São Paulo, o espetáculo já circula há meses por diferentes praças do país, comprovando que certas biografias possuem potência dramatúrgica capaz de mobilizar públicos diversos. É importante que as novas gerações conheçam uma artista que rompeu tantas barreiras, e a montagem é certeira em trazer esses quadros selecionados de sua trajetória. No Recife foram seis sessões esgotadas neste fim de semana.

A montagem adota estratégias cênicas para dar conta de tamanha riqueza biográfica. Um procedimento emblemático da encenação acontece quando Mel Lisboa, diante da plateia, encaixa a peruca característica de uma das fases de Rita Lee. Esse gesto, repetido algumas vezes, é poderoso para ressaltar o teatro, estabelecendo um pacto honesto de teatralidade que demarca os territórios da representação.

Mas depois, Mel Lisboa, por uma atuação “quase espiritual”, encarna Rita Lee de forma tão convincente que parece estarmos vendo em cena a própria artista que desafiou o patriarcado, a moral e os bons costumes. A atriz alcança comunhão artística onde técnica depurada e sensibilidade geram presença cênica que emociona e convence.

Essa transformação interpretativa encontra seu veículo mais poderoso na construção musical do espetáculo. A música conduz o espectador por uma narrativa de múltiplos amores: por Roberto, pela música, pelo rock, pelo Brasil, pela democracia, pelas mulheres, pelos animais. O enfrentamento ao machismo está organicamente costurado em toda a dramaturgia.

Para dar conta dessa amplitude temática e emocional, é natural que a equipe faça escolhas dramatúrgicas específicas. Sob a encenação de Débora Dubois e Márcio Macena, com dramaturgia baseada no livro autobiográfico e direção musical de Marco França e Marcio Guimarães, Rita Lee surge firme nos seus princípios, rebelde sempre, de uma combatividade furiosa, mas também ternamente humana.

Essas escolhas se refletem na construção interpretativa do elenco, que opera em diferentes registros conforme a função narrativa de cada personagem. Bruno Fraga, como Roberto de Carvalho, trabalha no mesmo registro de Mel Lisboa, construindo a parceria musical e amorosa que sustenta o eixo emocional do espetáculo. A química entre os intérpretes traduz a cumplicidade que marcou a relação do casal na vida real.

Rita com Hebe Camargo. Foto João Caldas

Paralelamente, os demais atores operam no registro da estilização consciente. Fabiano Augusto surpreende ao criar Ney Matogrosso através de síntese gestual que captura a essência andrógina. Débora Reis como Hebe Camargo privilegia traços emblemáticos da apresentadora, enquanto Flávia Strongolli oferece Elis Regina condensada em momentos vocais característicos.

Ainda na galeria de ícones, Yael Pecarovich constroi Gal Costa luminosa, Gustavo Rezende agarra Raul Seixas através de economia gestual eficiente, Antonio Vanfill altern entre Arnaldo Baptista e Charles Lee (o pai de Rita), Roquildes Junior interpreta Gilberto Gil com sotaque baiano acentuado, e Carol Portes personifica a Censora Solange como símbolo do autoritarismo enfrentado.

Esta diferenciação de registros revela-se estratégia dramatúrgica consciente e eficaz. Enquanto Mel Lisboa e Bruno Fraga mergulham na cumplicidade dos personagens centrais, os demais trabalham no terreno da síntese teatral – procedimento que destila personalidades complexas em signos cênicos reconhecíveis.

Antonio Vanfil (Arnaldo Baptista), e Gustavo Rezê (Sérgio Dias) ladeiam Mel Liboa na formação de Os Mutantes no musical. Foto: João Caldas / Divulgação

As cenas com Arnaldo Baptista exemplificam esta estratégia: o encontro, o programa de Ronnie Von, o batismo dos Mutantes, o casamento e a separação são apresentados como quadros sintéticos, rasos e paródicos, que privilegiam o movimento narrativo. Esta teatralização mantém o ritmo dinâmico e o foco na protagonista, ainda que não se aprofunde em camadas históricas mais complexas.

Essa abordagem se estende à estrutura geral da montagem. A encenação é panorâmica e aborda os conflitos de forma mais leve, escolha que permite abraçar a amplitude da trajetória de Rita Lee sem se mergulhar em questões específicas. O resultado é que encontramos a Rita Lee que nos fez apaixonar – a artista completa, múltipla, que soube ser roqueira rebelde, compositora de baladas, ativista e mulher apaixonada, num tom frequentemente divertido e acessível.

Ainda assim, as questões políticas têm seu espaço. A artista presa durante a ditadura, censurada pela Igreja e desrespeitada como mulher emerge como figura cuja relevância permanece contemporânea, especialmente para as gerações que descobrem sua força através desta montagem.

A eficácia dessas escolhas se comprova pela recepção sustentada que a montagem encontra pelo país. O sucesso consolidado confirma que Rita Lee permanece figura capaz de mobilizar afetos décadas após sua consagração. A biografia cênica consegue ativar memórias coletivas e pessoais simultaneamente, criando comunidade temporária onde experiências individuais encontram eco histórico.

Um elemento crucial para o sucesso da montagem é a banda ao vivo que acompanha toda a apresentação. Os músicos executam o repertório de Rita Lee com precisão técnica e conseguem recriar a energia característica de seus diferentes períodos artísticos – desde a experimentação psicodélica dos Mutantes até o rock pop de seus sucessos solo.

Rita Lee – Uma Autobiografia Musical confirma-se como uma das biografias musicais mais importantes do teatro brasileiro contemporâneo. Mel Lisboa, apoiada por direção precisa e elenco afinado, consegue honrar tanto a memória da artista quanto as possibilidades expressivas do gênero musical teatral. Rita Lee, que sempre “fez um monte de gente feliz”, continua fazendo isso – agora através da mediação teatral que esta equipe criativa conseguiu construir.

FICHA TÉCNICA

ELENCO
Mel Lisboa (Rita Lee)
Bruno Fraga (Roberto de Carvalho)
Fabiano Augusto (Ney Matogrosso)
Carol Portes (Censora Solange)
Débora Reis (Hebe Camargo)
Flávia Strongolli (Elis Regina)
Yael Pecarovich (Gal Costa)
Antonio Vanfill (Arnaldo Baptista e Charles Jones)
Gustavo Rezende (Raul Seixas)
Roquildes Junior (Gilberto Gil)
Lui Vizotto (Swing)
Priscila Esteves (Swing)
EQUIPE CRIATIVA
Roteiro e Pesquisa: Guilherme Samora
Texto: Márcio Macena
Direção Geral: Débora Dubois e Márcio Macena
Direção Musical: Marco França e Marcio Guimarães
Coreografia: Tainara Cerqueira
Assistente de Coreografia: Priscila Borges
Figurino: Carol Lobato e Giu Foti
Iluminação: Wagner Pinto

 

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Sagração da Primavera brasileira:
Deborah Colker leva revolução
coreográfica ao Norte-Nordeste

Cia. de dança mais premiada do país percorre seis capitais com releitura indígena da obra-prima de Stravinsky. Foto: Flavio Colker / Divulgação

Sagração transforma a revolução musical de Stravinsky em ritual indígena contemporâneo. Foto: Flavio Colker

Em 1913, Paris testemunhou um dos maiores escândalos da história cultural: a estreia de A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky. Vaias, gritos e até brigas físicas tomaram o Théâtre des Champs-Élysées enquanto a música revolucionária e a coreografia “primitiva” de Vaslav Nijinsky chocavam a burguesia parisiense. Mais de um século depois, essa mesma obra que inaugurou a modernidade musical é recriada no Brasil pelas mãos de Deborah Colker, uma das coreógrafas brasileiras que melhor articula as questões do seu tempo através da experimentação estética, que transformou o sacrifício eslavo de Stravinsky em cosmogonia indígena brasileira.

Sagração – como batizou sua releitura, libertando-se do peso titular do original – percorre agora seis capitais do Norte-Nordeste em turnê histórica, trazendo ao público brasileiro o aprimoramento de três décadas de pesquisa coreográfica que consolidou Colker como criadora de um imaginário visual único na dança contemporânea brasileira.

A Alquimista dos Corpos em Movimento

Deborah Colker iniciou-se na dança contemporânea nos anos 1980 e construiu uma trajetória admirável

Cão sem plumas, inspirada na obra de João Cabral de Melo Neto. Foto: Cafi / Divulgação

Durante 30 anos (completados em 2024), a Companhia de Dança Deborah Colker construiu uma linguagem coreográfica inconfundível, sendo hoje reconhecida como uma das mais premiadas e prestigiadas do Brasil e do mundo. Com quatorze espetáculos em seu repertório, a trajetória da companhia é marcada por reconhecimentos internacionais de peso: o Prix Benois de la Danse de Moscou em 2018 — o mais importante prêmio da categoria —, o célebre Laurence Olivier em 2001, e marcos como ter sido a primeira mulher a criar e dirigir um espetáculo para o Cirque du Soleil (Ovo, 2009) e a direção de movimento da cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016, transmitida para mais de 2 bilhões de pessoas.

Corpos que desafiam a gravidade, cenários que se transformam em organismos vivos, narrativas que entrelaçam erudito e popular sem hierarquias. Desde Vulcão (1994), seu espetáculo inaugural que já pesquisava impurezas e mixagens em quatro universos distintos — do corpo científico e mecânico às festas solares onde tudo se mistura —, passando por Velox (1995), que colocou bailarinos escalando paredes verticais em velocidade alucinante, Cão sem Plumas (2017), onde a poesia cabralina ganhou forma através de lama e mangue real no palco, até Sagração (2024), Colker estabeleceu um território artístico onde o extraordinário físico encontra significado poético. Ao longo desta jornada, a companhia realizou mais de 2.000 apresentações em cerca de 75 cidades e 32 países, atingindo um público superior a 3,5 milhões de pessoas.

O diferencial de Deborah Colker reside em sua capacidade de detectar potências criativas, uma habilidade forjada por uma trajetória singular. Sua formação eclética — entre a disciplina individual do piano e a dinâmica coletiva do voleibol — antecipou o que se tornaria sua marca: transitar entre universos aparentemente opostos com naturalidade absoluta. Após iniciar-se na dança contemporânea no grupo Coringa, nos anos 1980, desenvolveu no teatro uma função tão específica que exigiu a criação de um novo termo: diretora de movimento.

Dessa expertise teatral, expandiu-se para territórios inesperados — da televisão infantil às comissões de frente do carnaval carioca, da ópera internacional ao circo canadense — sempre demonstrando uma intuição rara para descobrir o potencial expressivo único de cada intérprete. Ela concebe universos onde bailarinos se tornam bactérias, plantas, elementos da natureza ou figuras míticas. 

Seu método é antropofágico no melhor sentido oswaldiano: devora referências eruditas – Stravinsky, João Cabral de Melo Neto, literatura bíblica – e as regurgita em linguagem brasileira pulsante. Em Rota (1997), rodas gigantes se tornaram metáforas de destino; em Cruel (2008), a paixão foi traduzida em geometrias corporais inusitadas; em Cura (2021), nascido da angústia pessoal com a doença genética de seu neto, ela investigou ciência, fé e os limites humanos através de dramaturgia do rabino Nilton Bonder e trilha de Carlinhos Brown.

Do Escândalo Parisiense ao Ritual Xinguano

Sagração transforma a revolução musical de Stravinsky em ritual indígena contemporâneo. Foto: Flavio Colker

A obra original de Stravinsky representou uma ruptura radical com as convenções musicais de sua época, introduzindo ritmos irregulares, dissonâncias harmônicas e politonalidades que soavam revolucionárias aos ouvidos acostumados à harmonia tradicional. Quando Nijinsky coreografou movimentos angulares e “bárbaros” para acompanhar a partitura, completou-se uma revolução estética que ainda hoje impressiona pela ousadia.

Colker compreendeu que recriar A Sagração da Primavera em 2024 exigia mais que reverência: demandava nova transgressão. Sua inspiração veio de uma viagem ao Xingu, no encontro com as aldeias indígenas Kalapalo e Kuikuro onde conheceu o cineasta indígena Takumã Kuikuro. A história que ele contou – como o povo do chão recebeu o fogo do Urubu-Rei – tornou-se uma das cosmogonias centrais do espetáculo.

Em parceria com o rabino e escritor Nilton Bonder, Colker construiu uma dramaturgia que tece mitologia indígena, Gênesis bíblico e teoria evolucionista. Essa perspectiva configura uma jornada cênica que parte da figura ancestral da “avó do mundo” – entidade criadora presente em várias cosmogonias indígenas brasileiras – e percorre bactérias, herbívoros, Eva negra, Abraão navegador, até alcançar uma reflexão sobre a relação contemporânea entre humanidade e natureza.

170 Bambus e Uma Revolução Sonora

A direção de arte do espetáculo é de Gringo Cardia. Foto: Flavio Colker / Divulgação

Cenograficamente, Sagração materializa-se através de 170 bambus de quatro metros de altura, criações de Gringo Cardia que operam como elementos coreográficos ativos. Esses bambus se transformam em florestas, altares, embarcações e lanças, criando uma geometria móvel que desafia constantemente os 15 bailarinos em cena.

A direção musical de Alexandre Elias propõe uma arqueologia sonora, que mantém a estrutura rítmica stravinskyana enquanto sobrepõe sons indígenas, instrumentos como maracá e caxixi, além de “paus de chuva” tocados pelos próprios bailarinos. Essa sobreposição configura uma composição híbrida onde boi bumbá, coco, afoxé e samba dialogam com a orquestra sinfônica de Stravinsky.

Claudia Kopke desenvolveu figurinos em tons terrosos – marrom, ocre, cinza – que prometem fluidez total dos movimentos enquanto evocam elementos naturais. Beto Bruel assina um desenho de luz que se propõe alternar intensidades dramáticas, realçando ora a brutalidade, ora a beleza poética das sequências coreográficas.

SERVIÇO

Sagração – Companhia de Dança Deborah Colker
Turnê Norte-Nordeste – Seis Capitais
Ingressos: R$ 25 a R$ 200
Classificação: 10 anos
Duração: 70 minutos (sem intervalo)

🎭 Maceió (AL) – 03 e 04/OUT
Teatro Gustavo Leite – Centro de Convenções
@centrodeconvencoesmaceio

🎭 Recife (PE) – 07/OUT, 20h30
Teatro Guararapes – Centro de Convenções, Olinda @teatroguararapes @teatroguararapesrecife_

🎭 João Pessoa (PB) – 11/OUT
Teatro Paulo Pontes @funescgovpb

🎭 Natal (RN) – 14 e 15/OUT
Teatro Alberto Maranhão @teatroalbertomaranhao.oficial

🎭 Fortaleza (CE) – 18 e 19/OUT
Cine Teatro São Luiz @cineteatrosaoluiz @secultceara @institutodragaodomar

🎭 Belém (PA) – 24 a 26/OUT
Theatro da Paz @teatrodapazoficial

🎭 São Luís (MA) – 29 a 31/OUT
Teatro Arthur Azevedo @teatroarthurazevedooficial

Descontos:
Petrobras: 50% para funcionários (até 2 ingressos por crachá)
Instituto Cultural Vale: 50% para funcionários (até 2 ingressos por crachá)

Atenção: O espetáculo contém luzes intensas e efeitos que podem afetar pessoas com epilepsia ou fotossensíveis.

FICHA TÉCNICA

Criação, Direção e Dramaturgia: Deborah Colker
Direção Executiva: João Elias
Direção Musical: Alexandre Elias
Direção de Arte: Gringo Cardia
Dramaturgia: Nilton Bonder
Figurinos: Claudia Kopke
Desenho de Luz: Beto Bruel
Fotografia: Flávio Colker

Realização: Ministério da Cultura, Petrobras e Instituto Cultural Vale
Lei Federal de Incentivo à Cultura

 

 

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Recife mantém respiração teatral
com programação atraente

 

Neste final de semana, a cidade oferece o cardápio cultural possível: do monólogo clássico ao musical biográfico, como Rita Lee – Uma Autobiografia Musical com Mel Lisboa, passando por experimentos cênicos e espetáculos para a família toda. Foto: Divulgação

Sharlene Esse no elenco de O Shá da Meia Noite. Foto: Ivana Moura

os Irmãos Gandaia apresentam Balaio na programação do Festival Cachoeira das Artes

Recife oferece por esses dias aquela programação cultural que conhecemos bem: nem revolucionária, nem inovadora, mas consistente. São atrações de teatro, música e dança que cumprem o papel de manter a cidade respirando culturalmente, oferecendo desde o solo autobiográfico até o musical infantil que agrada os pais.

A agenda não promete mudanças de paradigma, radicalidade ou experiências transformadoras, mas entrega o que se espera: espetáculos bem feitos, alguns nomes conhecidos retornando a papéis consagrados, festivais que misturam tradição e contemporaneidade, e uma dose necessária de entretenimento cultural que garante os teatros funcionando e o público frequentando.

Neste fim de semana, quem procura opções culturais na capital pernambucana encontra desde Mel Lisboa revisitando Rita Lee até experimentos de teatro físico, passando por peças gratuitas e produções que custam o preço de um jantar. É a cultura como ela é no Recife-Pernambuco: nem sempre excepcional, mas presente e acessível, que pode trazer conforto ou gerar discussão.

Mel Lisboa retorna ao papel que a consagrou. E exibe no Teatro Luiz Mendonça seis sessões de Rita Lee – Uma Autobiografia Musical (18 a 21/09). Desta vez baseada na autobiografia da cantora (bestseller com 200 mil exemplares), sob direção de Márcio Macena e Débora Dubois, a montagem transforma confissão editorial em partitura cênica, explorando “honestidade escancarada” como material dramatúrgico. A produção revisita a trajetória da artista desde a infância até seus últimos dias, com orquestra ao vivo e elenco que inclui Bruno Fraga como Roberto de Carvalho. O espetáculo ocupa o teatro quinta e sexta às 20h, sábado às 16h e 20h, domingo às 15h e 18h.

Se Rita Lee explora a autobiografia através da palavra e da música, outro trabalho investiga memórias e corporeidades de forma completamente diversa. Representando 25 anos de pesquisa franco-brasileira, Enquanto você voava, eu criava raízes (Cia. Dos à Deux) consolida a linguagem de André Curti e Artur Luanda Ribeiro, que prescinde da palavra para investigar corporalidades em trânsito. Premiado por APTR e Shell, o trabalho é bonito, com pesquisa consistente e entrega física surpreendente, que reserva momentos inesperados ao público. O espetáculo dialoga com tradições europeias sem perder especificidade brasileira, seguindo a linha de investigação que caracteriza o grupo. É um dos pontos altos da agenda cultural. A intimidade do teatro pequeno potencializa a recepção.

Enquanto você voava, eu criava raízes, espetáculo de excelente qualidade técnica e pesquisa de linguagem

Também navegando entre memória e identidade, mas com outra abordagem performática, Sharlene Esse, primeira dama trans do Teatro Pernambucano e referência LGBTQIA+ consolidada há quatro décadas na cena local, retorna aos palcos em O Shá da Meia Noite, comédia que problematiza disputas por estrelato. Com 40 anos de carreira, Sharlene continua sendo presença fundamental no teatro pernambucano, em trama de intrigas artísticas entre cantora veterana e coristas invejosos.

Ainda na trilha dos solos autobiográficos, a artista Hhblynda ocupa o Espaço O Poste (Rua do Riachuelo, 641, Boa Vista) nesta sexta-feira, 19/09, às 19h, com HBLYNDA EM TRANSito, criação que mescla performance, dança, música e teatro. O espetáculo compartilha suas vivências atravessando infância, descobertas da sexualidade e o florescer da identidade não binária. Ingressos: R$ 15 (meia) e R$ 30 (inteira).

Da performance autobiográfica para a dança como linguagem ancestral, Babi Johari e Caio Pinheiro apresentam gratuitamente no Teatro Arraial o espetáculo Híbridos – Enlaces, que explora ancestralidade das conexões através de dança fusionada de base oriental árabe, buscando liberdade nos movimento.

Contrastando com abordagens mais intimistas, a tecnologia se faz presente com The Jury Experience, adaptação brasileira de formato internacional dirigida por Talita Lima, que o Teatro RioMar apresenta no sábado (20), às 20h30. O espetáculo transforma espectadores em jurados de caso criminal fictício, utilizando códigos QR e interatividade digital para questionar limites entre ficção e realidade. A dramaturgia participativa de 75 minutos coloca decisões éticas nas mãos do público, buscando criar uma experiência imersiva onde cada sessão pode ter desfecho diferente dependendo das escolhas da plateia. Ingressos a partir de R$ 60.

Murilo Freire em Esquecidos por Deus

Voltando ao formato mais tradicional do teatro, Murilo Freire traz ao SESC Goiana nos dias 19, 20, 26 e 27/09, às 19h30, o drama Esquecidos por Deus, com entrada gratuita. O monólogo, baseado na obra O Livro das Personagens Esquecidas de Cícero Belmar, apresenta o ator interpretando diferentes personagens em uma encenação que preza pela proximidade com a plateia. O ator interpreta um bandido que se crê Deus. Lembranças saudosas de uma infância. Da irmã, do pai, da mãe… Um capanga grotesco arranca risos. Um casal é feito refém.

Enquanto o teatro explora as múltiplas facetas da linguagem cênica, a dança encontra seu espaço coletivo no Shopping Patteo Olinda, que recebe nos dias 20 e 27 de setembro, a partir das 16h, o 3º Festival de Dança e Cultura, também gratuito, reunindo mais de 30 grupos e escolas de dança com apresentações que vão do balé ao jazz.

A programação de festivais ganha continuidade com o Teatro Hermilo Borba Filho, que inaugura o Festival Cachoeira das Artes na sexta (19) com O Menestrel recita ‘O Guardador de Rebanhos’, às 19h30. O espetáculo, com direção de Márcio Fecher e música ao vivo do grupo Los Negrones, recria a atmosfera lírica do heterônimo Alberto Caeiro, de Fernando Pessoa.

A música encontra protagonismo em duas noites do 18º Festival Internacional Cena CumpliCidades no Teatro do Parque. Na sexta (19), às 20h, a trombonista Neris Rodrigues apresenta Músicas do Mundo, seu primeiro projeto autoral com orquestra, explorando sonoridades que transitam entre jazz, música brasileira e world music. No sábado (20), também às 20h, a Banda Chanfrê – formação franco-brasileira que reúne músicos franceses e pernambucanos – apresenta fusão entre música francófona, jazz e ritmos do Recife, criando pontes sonoras entre duas culturas. Ingressos: R$ 20 (meia para todos).

Paulo Cesar Freire no papel de Francisco, um instrumento de paz, com texto e direção de Roberto Costa. Foto: Renan Andrade

Das fusões musicais contemporâneas para a tradição religiosa musicada, Francisco, um instrumento de paz sobe ao palco do Teatro Guararapes no dia 19/09, às 20h, com texto e direção de Roberto Costa. O musical promete uma experiência de fé e arte para todos os públicos, religiosos ou não. A história de Francisco de Assis é apresentada desde sua infância, passando pelos conflitos familiares, sua ida à guerra, a prisão e a conversão nas ruínas de São Damião. A peça narra sua poderosa transformação, que o levou a viver o evangelho na prática e a criar a ordem dos frades menores, sempre pautado pela caridade e pelo amor ao próximo. Para dar vida ao santo, o ator Paulo Cesar Freire foi convidado, e a produção conta com um grande elenco de músicos, atores e cantores. A trilha sonora será executada ao vivo, sob a direção musical da maestrina Hadassa Rossiter, do Conservatório de Música de Pernambuco. Valores: de R$ 50 a R$ 150.

A programação contempla ainda o público infantil, com o domingo (21) oferecendo três opções especiais. O Mundo Mágico de Peter Pan no Teatro Barreto Júnior (16h) traz o musical inspirado na obra de J.M. Barrie, acompanhando os irmãos Wendy, João e Miguel em sua jornada à Terra do Nunca, onde enfrentam o Capitão Gancho. Ingressos: R$ 50 (meia) e R$ 100 (inteira). Já no teatro Hermilo, a palhaça Gardênia, vivida por Luíza Fontes, embarca em uma aventura que promete ser divertida e emocionante em A Boba, uma jornada  (16h), enquanto os Irmãos Gandaia apresentam Balaio (17h30), espetáculo que celebra a cultura pernambucana com circo, dança e música.

Ainda na programação adulta do sábado, o clássico naturalista Raimundo (20h, Teatro Barreto Júnior), inspirado em O mulato de Aluísio Azevedo, ganha adaptação de Taveira Junior e direção de Filipe Enndrio. A trama acompanha Raimundo, um jovem culto que retorna da Europa e se depara com os preconceitos, segredos e hipocrisias de uma sociedade marcada pelo racismo e pelas convenções sociais do século XIX. O espetáculo marca a conclusão da Turma de Iniciação Teatral para Adultos do Espaço de Artes Teatralizar.

🎭 SERVIÇO 

QUINTA-FEIRA (18/09)

Rita Lee – Autobiografia Musical – 20h – Teatro Luiz Mendonça
Balaio de Memórias (FETED) – 19h – Teatro Apolo – R$ 20
O Shá da Meia Noite – com Sharlene Esse – 19h30 – Teatro Santa CRuz – Gratuito
Enquanto você voava, eu criava raízes – Cia. Dos à Deux – 20h – Teatro da Caixa, 15/30

SEXTA-FEIRA (19/09)

Enquanto você voava, eu criava raízes – Cia. Dos à Deux – 20h – Teatro da Caixa, 15/30
HBLYNDA EM TRANSito – 19h – Espaço O Poste – R$ 15/30
O Shá da Meia Noite – com Sharlene Esse – 19h30 – Teatro Santa CRuz – Gratuito
Esquecidos por Deus – 19h30 – SESC Goiana – GRATUITO
O Menestrel recita O Guardador de Rebanhos – 19h30 – Teatro Hermilo – R$ 15/30
Francisco, um instrumento de paz – 20h – Teatro Guararapes – R$ 50 a 150 Sessão Única
Músicas do Mundo – 20h – Teatro do Parque – R$ 20
Rita Lee – Autobiografia Musical – 20h – Teatro Luiz Mendonça
O Sistema Morreu (FETED) – 19h – Teatro Apolo – R$ 20
Híbridos – Enlaces – 19H – Teatro Arraial – GRATUITO

SÁBADO (20/09)

Enquanto você voava, eu criava raízes – Cia. Dos à Deux – 20h – Teatro da Caixa, 15/30
Esquecidos por Deus – 19h30 – SESC Goiana – GRATUITO
CALIUGA + Leitura Por Elise – 17h e 19h30 – Teatro Hermilo – R$ 15/30
Banda Chanfrê – 20h – Teatro do Parque – R$ 20
Raimundo – 20h – Teatro Barreto Júnior
Rita Lee – Autobiografia Musical – 16h e 20h – Teatro Luiz Mendonça
The Jury Experience – 20h30 – Teatro RioMar – A partir de R$ 60
3º Festival de Dança – 16h – Shopping Patteo Olinda – GRATUITO
Sonho de uma Noite de Verão (FETED) – 16h – Teatro Apolo – R$ 20
Sonetos para um quase amor (FETED) – 19h – Teatro Apolo – R$ 20
Híbridos – Enlaces – 19H – Teatro Arraial – GRATUITO

DOMINGO (21/09)
O Mundo Mágico de Peter Pan – 16h – Teatro Barreto Júnior – R$ 50/100
A Boba, uma jornada – 16h – Teatro Hermilo – R$ 15/30
Balaio (Irmãos Gandaia) – 17h30 – Teatro Hermilo – R$ 15/30
Rita Lee – Autobiografia Musical – 15h e 18h – Teatro Luiz Mendonça
Três Histórias (FETED) – 16h – Teatro Apolo – R$ 20
De Noite, Sombras e Ausências (FETED) – 19h – Teatro Apolo – R$ 20

INFORMAÇÕES GERAIS
FETED continua até 28/09 no Teatro Apolo
Festival Cachoeira das Artes: @cachoeiradasartes
Cena CumpliCidades: cenacumplicidades.com | @ccumplicidades
A programação cultural conta com apoio do Funcultura, Fundarpe, FUNARTE e diversos parceiros culturais da cidade.

 

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Festival Estudantil chega aos 22 anos
revelando talentos contra as adversidades

Auto da Barca do Inferno

Ave Guriatã encerra o festival

Recife é uma metrópole que se orgulha de sua efervescência cultural. Exporta talentos, sedia grandes festivais, movimenta a economia criativa e forma plateias. E, ainda assim, um festival que cumpre um papel público evidente — dar palco e horizonte a quem está começando — segue batendo na mesma porta: sem edital específico, sem previsibilidade orçamentária, sem a segurança mínima para planejar com dignidade. De novo, a corda estica do lado de quem faz: corre atrás de patrocínios pontuais, favores, cessões emergenciais de espaço e trabalho voluntário. É nesse cenário contraditório que o 22º Festival Estudantil de Teatro e Dança de Pernambuco (FETED) retorna ao Teatro Apolo, de 17 a 28 de setembro, carregando nas costas a responsabilidade que poderia (ou deveria?!) ser compartilhada com o poder público.

Dirigido por Pedro Portugal, o Feted completa 22 anos como uma ponte fundamental entre a formação artística e a profissionalização. O festival reúne grupos de escolas, projetos sociais, ONGs, coletivos independentes e universidades, oferecendo a estudantes e artistas iniciantes a oportunidade de apresentar seus trabalhos em um palco profissional, com toda a estrutura técnica, iluminação adequada e, principalmente, diante de um público real.

O Feted pode ser encarado como um verdadeiro rito de passagem, tirando obras dos limites das salas de aula e laboratórios de criação para colocá-las sob os holofotes de uma tradicional casa de espetáculos como o Teatro Apolo. Como destaca Pedro Portugal: “99% dos meninos e meninas que participam do Festival Estudantil nunca entraram num teatro”. Cada espetáculo apresentado representa meses de trabalho, descobertas, superação de limitações técnicas e, sobretudo, o amadurecimento artístico de jovens que podem estar definindo seus caminhos profissionais naqueles minutos de palco. E o que começou como um primeiro contato com os palcos profissionais já se transformou em trajetórias consolidadas: nomes como Eduardo Machado, hoje professor e diretor reconhecido, Rubens Santos e Alexandre Guimarães, que transitam entre teatro, cinema e televisão, e o músico Martins, todos passaram por esse mesmo ritual de iniciação no Teatro Apolo antes de construir carreiras sólidas no cenário artístico nacional.

 

Jovem Guarda. Foto: Divulgação

 

Sonho de uma noite de Verão. Foto: Divulgação

Público participa do júri em O sequestro da leitura

A programação 2025 reflete a pluralidade da cena estudantil pernambucana. Abre no dia 17 com Jovem Guarda, uma viagem nostálgica pelos movimentos musicais que marcaram gerações, e segue alternando entre clássicos adaptados e criações autorais contemporâneas. Sonho de uma Noite de Verão traz Shakespeare para o dia 20, enquanto Auto da Barca do Inferno (27/09) apresenta Gil Vicente com linguagem nordestina. A dança contemporânea marca presença com Anjo Negro (25/09), que mescla artes circenses em dez cenas sobre a trajetória de uma mulher negra em busca de identidade.

Questões sociais urgentes marcam algumas montagens. Canto de Negro (26/09) celebra ancestralidade e resistência afro-brasileira através de música, dança e teatro, enquanto As Crônicas dos Gatos Sem Lar (27/09) trabalha diversidade e inclusão ao apresentar Sophia, uma gatinha com autismo que ensina amizade e empatia. O Sequestro da Leitura (24/09) propõe um julgamento cênico onde a própria plateia participa como júri, questionando o papel da escola na formação de leitores. A programação ainda contempla Três Histórias (21/09), que ressignifica clássicos infantis em chave contemporânea, abordando desde a pandemia até questões de superficialidade nas relações.

O festival encerra sua programação com Ave Guritã, da Turma Citilante, espetáculo inspirado na obra Um Cordel para Menino, do poeta Marcus Accioly, e escrito pelo dramaturgo Robson Teles. A montagem, dirigida por José Manoel Sobrinho e Samuel Bennaton, é resultado do trabalho de criação com alunos do Curso de Interpretação para Teatro (CIT) do Sesc Santo Amaro — um curso profissionalizante de dois anos que há décadas forma novos talentos para o mercado cultural pernambucano. A peça destaca a amizade e a força da memória, a conexão entre as pessoas e sua terra.

Pedro Portugal admite, com franqueza, que não faz ideia de como consegue manter o festival funcionando apenas com recursos da bilheteria. Nos últimos 10 anos, os fomentos a eventos continuados não contemplaram o festival estudantil — uma iniciativa de apelo específico e talvez sem o glamour das peças comerciais com atores famosos. Mas eles são ainda uma semente de futuro, e este e outros festivais desta natureza precisam ser encarados como investimento cultural-afetivo A política cultural precisa garantir meios para que quem está começando não desista no primeiro blackout. O Festival estudantil não é “evento de ocasião”. A cidade fica devendo quando um festival como o Feted precisa, outra vez, “fazer na tora”.

O 22º Festival Estudantil de Teatro e Dança de Pernambuco acontece de 17 a 28 de setembro de 2025, no Teatro Apolo, Recife. Ingressos: R$ 20,00 (+ R$ 2,50 de taxa) disponíveis na Sympla.

Programação por dia (todas as sessões no Teatro Apolo)

17/09/2025 (quarta), 18h
Jovem Guarda
Sinopse: Uma viagem pelos movimentos musicais, ídolos, programas de auditório, amores e costumes que marcaram duas décadas da cultura brasileira. Trazer a Jovem Guarda aos palcos é celebrar a memória de pais, tios, avós e de uma geração inteira.

18/09/2025 (quinta), 19h
Balaio de Memórias
Sinopse: Linguagens variadas para entrelaçar histórias do grupo Balaio Teatral e de seus ancestrais, do humor físico à densidade dramática.

19/09/2025 (sexta), 19h
• O Sistema Morreu
Sinopse: Num departamento burocrático operado por cinco funcionárias — as “Mortes” — soa a trombeta do Apocalipse. É hora de fechar os registros. A internet cai. O sistema morre. Sinais de sabotagem.

20/09/2025 (sábado), 16h
• Sonho de uma Noite de Verão
Sinopse: Adaptação de Shakespeare. Hérmia ama Lisandro, mas Egeu quer o casamento com Demétrio. Na floresta mágica, Oberon e Titânia brigam e Puck multiplica equívocos.

21/09/2025 (domingo), 16h
• Três Histórias
Sinopse: Três clássicos infantis em leituras contemporâneas:
Os Porquinhos na Pandemia: do confronto com o lobo à decisão de ajudar o doente.
A Cigarra e as Formigas: equilíbrio entre diversão e responsabilidade.
Dona Baratinha: a busca por um amor que vá além do superficial.

21/09/2025 (domingo), 19h
De Noite, Sombras e Ausências
Sinopse: Drama psicológico e espiritual sobre duas irmãs unidas por laços invisíveis de dor e amor. Memórias fragmentadas, silêncios e presenças que moldam a família. Com Sophia Dantas e Gabriela Alencar; direção de Thamiris Mendes; texto de Cesar Leão.

24/09/2025 (quarta), 19h
• O Sequestro da Leitura
Sinopse: Em julgamento cênico, a “Escola” é acusada de sequestrar a Leitura. Um júri formado pela plateia decide após ouvir Escola, Leitura, População, GRE, Promotor e Defesa.

25/09/2025 (quinta), 19h
• Anjo Negro
Sinopse: Dança contemporânea e artes circenses em dez cenas sobre a trajetória de uma mulher negra em busca de identidade e transcendência. Aborda racismo, exclusão, amor, perda e redenção.

26/09/2025 (sexta), 19h
• Canto de Negro
Sinopse: Música, dança e teatro celebram ancestralidade e resistência afro-brasileira — dos porões dos navios aos terreiros, quilombos e ruas.

27/09/2025 (sábado), 16h
• As Crônicas dos Gatos Sem Lar
Sinopse: Espetáculo infantil sobre diversidade e inclusão. Sophia, uma gatinha com autismo, ensina amizade, empatia e respeito às diferenças.

27/09/2025 (sábado), 19h
• Auto da Barca do Inferno
Sinopse: Adaptação do clássico de Gil Vicente. Sátira do juízo final num porto com duas barcas — anjos e demônios conduzem as almas ao destino — com linguagem inspirada no Nordeste.

28/09/2025 (domingo), 16h
• Escolinha de Bruxas
Sinopse: Livre adaptação de Maria Clara Machado; direção de Antônio Rodrigues e assistência de Sonia Carvalho; conclusão do curso de iniciação Despertar Teatral da Cênicas Cia de Repertório.
Elenco: André Arruda, Macena FYR, Caio Bento, Jesuane Franzon, Larissa Ferreira, Lisandra Batista, Rayo Vasconcelos, Rebeca Becs.
Temas: bullying, aceitação e poder transformador da empatia.

28/09/2025 (domingo), 19h
• AveGuriatã

 

Serviço 
22º Festival Estudantil de Teatro e Dança de Pernambuco (Feted)
Quando: 17 a 28 de setembro de 2025
Onde: Teatro Apolo — Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife, Recife-PE
Ingressos: preço único de R$ 20,00 (+ R$ 2,50 de taxa) pela Sympla
Direção: Pedro Portugal

 

ENTREVISTA: PEDRO PORTUGAL

 

Pedro Portugal, diretor do Festival EStudantil de Teatro e Dança de Pernambuco. Foto: self

“Continuo fazendo o Festival Estudantil porque sou teimoso”

Manuel Francisco Pedro Rodrigues é um homem emotivo. Estava às lágrimas quando soube que a abertura do festival estava com ingressos lotados, e destacou o esforço dos alunos artistas para garantir casa cheia. Conhecido artisticamente como Pedro Portugal, este português dos Açores que chegou ao Recife para estudar teatro na UFPE (1986) se tornou uma das figuras mais resilientes da cena cultural pernambucana. Desde 1979 atua como ator e produtor, mas é à frente do Festival Estudantil de Teatro e Dança – Feted que encontrou sua maior missão: há mais de duas décadas fomenta o estímulo às artes nas escolas e revela novos talentos no estado. Aos 68 anos, não esconde a indignação com a situação enfrentada pelo festival em contraste com sua função social: “Quando encontro as pessoas nas ruas, elas dizem: ‘Seu festival é o mais importante de Pernambuco'”. Ele entende que uma iniciativa com tamanha relevância social já deveria ter reconhecimento e apoio permanente. Com a franqueza que lhe é característica, às vezes com um jeito rude de português, ele admite que não faz ideia como leva adiante o Feted apenas com recursos da bilheteria. Sobre a importância cultural e social da sua iniciativa, é categórico: “99% dos meninos e meninas que participam do Festival Estudantil nunca entraram num teatro”. Quando questionado sobre por que insiste em manter o festival funcionando contra todas as adversidades, responde sem hesitar: “Continuo fazendo, vou dizer por quê: porque sou teimoso. Se a gente não fizer um ano, não faz mais”. Pedro não poupa críticas ao sistema: “Poder público gosta de arte de massa, que lota, artistas nacionais. Quando é de estudante, teatro local, o poder público mais que fecha os olhos”. Aos 22 anos de existência, o Feted tem orgulho de ter revelado talentos como o professor e diretor Eduardo Machado, os atores de teatro, cinema e televisão Rubens Santos e Alexandre Guimarães, e o músico Martins, abrindo portas para jovens que jamais imaginariam pisar num palco profissional e transformando sonhos em carreiras artísticas.

Martins, Rubens Santos, Alexandre Guimarães e Eduardo Machado, talentos que passaram pelo Feted. Foto: Reprodução

Cléa Borges (in memoria) e Cida Pedrosa: homenageadas do festival. Foto: Reprodução

Quem são os homenageados desta edição do Festival Estudantil de Teatro e Dança de Pernabuco – Feted e por quê?

Cida Pedrosa é uma mulher que está batalhando muito pela cultura na Câmara Municipal do Recife. Mesmo a Câmara não tendo dinheiro para a cultura — não tem orçamento para a cultura, que realmente a cultura é complicada, a gente sabe — ela está fazendo muita coisa pela cultura, o que ela pode. E além disso, nós precisamos de representantes da cultura na Câmara, principalmente na Câmara do Recife, na Assembleia Legislativa, na Câmara Federal, no Senado. A gente precisa de pessoas ligadas à cultura. Cida Pedrosa é uma mulher de cultura; além de lutar, ela também é uma artista, uma poeta, uma poeta premiada. E a gente precisa homenagear enquanto as pessoas estão entre nós.

Cléa Borges foi uma incentivadora da cultura pernambucana, com uma trajetória ligada ao teatro. Ela criou a Casa dos Artistas, que promoveu dois festivais de teatro no Recife, no Teatro Derby, da Polícia Militar — anexo do Quartel do Derby, espaço que abrigou a cena teatral até o final dos anos 1980. Por que lá no Teatro Derby? Porque o Teatro Valdemar de Oliveira pegou fogo — incêndio ocorreu em 1982. E com 15 dias se reabriu o Teatro Derby, no quartel. Era um teatro muito simpático, muito interessante, e ficou muitos anos servindo como teatro para as nossas produções locais. Além disso, ela foi uma incentivadora de três grandes espetáculos ao ar livre: dois no Recife e um em Guararapes. Foram os espetáculos Frei Caneca — que para mim deveria ter todo ano, fantástico, muito bonito, eu vi algumas vezes —, Auto de Natal e a Batalha de Guararapes. Então ela foi a incentivadora. Além disso, ela foi muito atuante no âmbito das artes cênicas. Ela foi uma mulher muito ligada ao teatro pernambucano. Esta é a razão da homenagem a Cléa Borges, que foi uma mulher que poucos se lembram. E a gente tem que resgatar as pessoas que fizeram alguma coisa pela arte, entendeu?

Nota: Cléa Borges foi primeira-dama do Recife no final da década de 1970 e início dos anos 1980, e posteriormente primeira-dama de Pernambuco na década de 1980, durante as gestões de Gustavo Krause. Mãe da vice-governadora Priscila Krause, ela morreu aos 72 anos no Recife, no dia 26 de fevereiro de 2021, em decorrência da COVID-19.

Em mais de 20 anos de Feted, qual a sua leitura do percurso do festival?

Olha, o festival foi criado para revelar, para descobrir novos talentos da cena pernambucana. E isso nós conseguimos. Têm 90% dos artistas locais, 90% dos artistas atuais — atores, artistas, técnicos — que passaram pelo festival. Para você ter uma ideia, Eduardo Machado, que hoje é doutor, você deve conhecer, está dando aula na Bahia. Foi o primeiro negro professor de escola técnica no Mato Grosso. Foi o primeiro professor negro. E esse rapaz, nós temos um orgulho enorme, porque ele passou pelo festival. E eu não tenho nenhuma dúvida de dizer a você: se não fosse o Festival do Estudante, ele não seria artista.

Por quê, Pedro?

Vou dizer a você por quê. Porque ele era um rapaz pobre, humilde, morava em Igarassu, um lugar muito distante do Recife. E ele começou a ver teatro através do festival. Claro, o talento dele. Sem talento, meu filho, ninguém vai a canto nenhum, não. Aí, o talento dele, o trabalho dele, porque ele era um rapaz que ia todo dia assistir aos espetáculos. Ele vinha de Igarassu, assistia ao festival todos os dias. Então, só esse rapaz já vale a pena. Para você ter uma ideia, o primeiro espetáculo do Magiluth, que ainda era da Universidade, foi no Festival Estudantil.

E outros artistas: o ator Rubens Santos, ele trabalhou em quase todos os filmes grandes e nacionais — O Agente Secreto, A Melhor Mãe do Mundo, Partiu América, Bacurau, A Presepada, Aquarius. Encontrei com ele num filme… Ele me abraçou, me beijou, me apresentou a um diretor, que é de São Paulo, Rio, não sei de onde é, e disse: “Olha, se não fosse esse rapaz, eu não estaria aqui fazendo cinema, não seria ator”. Eu falei: “Rapaz, é a minha doideira fazer um festival”. Expliquei o festival para o cara. Aí o cara olhou para mim e disse: “Olha, foi por um doido como você que ousei ser cineasta”. Então, essas coisas marcam a vida da gente, entendeu? Outro dia fui ver um espetáculo, O Açougueiro, e Alexandre Guimarães, que ganhou vários prêmios com a peça, me abraçou e disse: “Pedro, você não sabe, mas eu comecei no festival estudantil”. Eu disse: “Que coisa boa”. E é um espetáculo que está correndo o Brasil inteiro. Ganhou vários prêmios, ganhou o Prêmio Cenym. Eu não lembro muito os nomes, porque a cabeça está… 68 anos, o HD já está um pouco estragado. Mas tem muitos artistas que passaram, que hoje são artistas importantes na cena brasileira, que passaram pelo Feted. Quem também subiu ao palco pela primeira vez foi Martins, o cantor. Num espetáculo de teatro, ele era músico. Uns, tenho certeza absoluta, se não fosse o Feted não seriam artistas. Isso eu tenho certeza.

Como você resumiria em números o impacto do festival?

Quanto ao público, o nosso público sempre foi muito bom. Muito bom. Nós tivemos sempre casas razoáveis, boas. A gente teve um espetáculo que foi da escola Santa Emília, de Olinda, que a gente teve que chamar a polícia, porque não tinha mais lugar no teatro. A gente teve que chamar a polícia, porque eles queriam quebrar o teatro para entrar, entendeu? Agora, o público atualmente está reduzindo. Agora, reduzindo não é fracasso, não. Nunca tivemos um espetáculo com menos de 70 pessoas. O menor que tem é 70 pessoas.

E nós já trabalhamos também com várias cidades. Já teve um ano que teve 12 cidades. E uma das cidades mais pobres do Brasil, não lembro o nome agora, participou com uma superprodução. Esse rapaz veio por dois anos, até tinha um elenco muito legal, mas que era de muito longe. Ele agora enveredou, como muitos artistas, para as quadrilhas. Agora ele é quadrilheiro. Não quer saber mais de teatro, não. Está nas quadrilhas agora. Muitas pessoas também viraram para as quadrilhas, né? Viraram quadrilheiros. Acho que dá mais visibilidade, não sei. Então, esses são os nossos números.

O Feted foi criado também, além dos novos talentos, para a gente levar gente que nunca foi ao teatro. A maioria das pessoas que vão ao teatro ver o Festival Estudantil são familiares que nunca pisaram no teatro, não sabem nem o que é o teatro. Pelo contrário, falam mal do teatro, não sabem, né? “Teatro, quero esse negócio. Não, que negócio de teatro? Quer nada. Teatro não presta, não”. Aí, as pessoas quando vão ver, ficam felizes. Muita gente sai chorando. “Eita, meu filho está ali, minha sobrinha, meu namorado”. Enfim, que eles vão prestigiar. Então, também, o festival foi para isso. E realmente, isso eu tenho certeza que a gente conseguiu. E os atores… É muita gente, muita gente. Porque são 22 anos, né? Imagina, 22 anos, geralmente são 14 espetáculos. Em 10 dias, nós fizemos 14 espetáculos. Então vê quantas pessoas passaram pelo festival.

O que mudou no ecossistema cultural que afetou o festival?

A gente já deve ter trabalhado com mais de 25 cidades. Já teve anos que vinha até de Petrolina. Este ano, nós temos Recife, Vitória, Olinda, Ipojuca e Goiânia. Então, só este ano temos cinco cidades no festival. E outra coisa, como nós não temos dinheiro, esse pessoal vem por conta própria. O que é que eles ganham? Cada ingresso que eles vendem, eles ganham R$ 12. O ingresso é R$ 20. R$ 12 é deles e R$ 8 é do festival para fazer toda a produção.

E você, se for algum dia, vai ver. Nós temos camisas. Tudo que você imaginar, o festival tem. “Pedro, como é que você faz isso?” Não sei não, parece que o meu dinheiro rende. Tem pessoas que têm milhões e não fazem o que a gente consegue fazer com tão pouco dinheiro, entendeu?

Porque faz uns sete ou oito anos que a gente não tem patrocínio bom nenhum. De vez em quando temos umas migalhas — cinco mil, dez mil. Este ano mesmo não temos nada. Até agora, nenhum real. Outra coisa: estou homenageando as pessoas, mas eu não pedi dinheiro a ninguém. Eu estou homenageando uma vereadora. Eu não pedi um centavo à vereadora. Zé Manoel sabe, pode perguntar a ele. Eu estou homenageando a mãe da vice-governadora, Priscila, e não pedi um real.

Agora, eu vou ter que dizer a ela, este ano, eu vou dizer: “Olhe, Priscila, está vendo o festival este ano, a gente faz sem dinheiro”. Ela ficou de ir na abertura; se ela for, vou dizer a ela, porque tenho também um certo contato com ela.

Mas eu acho que tem certos festivais, como o Festival Estudantil, o Janeiro de Grandes , o FETEAG, o Reside, que já deviam ter um certo dinheiro, entendeu? Porque o Festival Estudantil concorre com vários festivais. E para a gente é muito difícil ganhar. A gente perde sempre, porque só se classifica um festival, entendeu, naquela categoria. A gente já botou no valor de 40 mil, de 30 mil, de qualquer valor, a gente perde. Aí tem as cotas que são do interior, pessoas negras, que, presta atenção, eu sou a favor disso tudo. Agora eu também sou a favor do festival que tem mais de 20 anos ter pelo menos uma laminha. “Olha, você não ganhou, mas toma aqui X para você fazer”. Entendeu?

Outra coisa: o festival deixou de ser competitivo. Por que deixou de ser competitivo? As pessoas querem a competição. Se o festival fosse competitivo, ia ser briga das inscrições. Porque todo mundo diz: “Não, eu não quero, eu não quero prêmio, eu não quero prêmio”. Mentira. Mentira. Todos querem prêmios. E eles reivindicam: “Pedro, por que você não faz o festival competitivo, ia ser melhor, não sei o quê…”. Eu digo: “Minha gente, para ser competitivo, eu tenho que ter pelo menos 15 mil reais para fazer o festival competitivo”. Competitivo, 15 mil, o quê? Tem que ter jurado, tem que ter troféu, tem que ter o encerramento, entendeu? Então, isso é dinheiro. Isso é dinheiro. Então a gente começou a cair nesse ponto de não fazer competitivo por falta de grana mesmo, não foi outra coisa, não.

Como você descreveria o “DNA” do Feted hoje? É o mesmo de quando começou?

O festival agora é diferente. No começo, a gente fazia dois espetáculos por dia. O tempo era uma semana só, e a gente fazia dois por dia, de terça a domingo, dois espetáculos. Porque eu sempre dizia: “Olha, o festival é de escola, não precisa de muita coisa. A gente quer mostrar o talento de vocês, mas não precisa de uma luz muito aprumada. Isso é um festival estudantil, isso não é um festival profissional”. Aí, hoje em dia, ao contrário… o Teatro Apolo, como os outros teatros, não é o Apolo só… todos os anos, os técnicos trabalhavam em dois turnos, de manhã e de tarde. Então, nós não pagávamos os técnicos. Ontem, recebi uma ligação dizendo: “Olha, Pedro, agora os técnicos só trabalham um turno, de duas às dez”. E os espetáculos estão vindo com muito cenário, muita luz, estão vindo praticamente profissionais. Aí já teve problemas: “Mas Pedro, a gente tem luz para montar”, não sei o que é isso. Minha gente, esse é um festival estudantil. Tem gente que traz carreta. Carreta com cenário, com coisas grandes. Olha, tem espetáculo que diz assim: “Minha gente, como é que esses caras fazem um festival de estudantes?” Entendeu? Então o DNA mudou radicalmente. Antigamente os espetáculos eram mais simples e tinham grandes talentos. A gente via o ator. Hoje em dia também tem ator, mas ele está trazendo cenário, querendo luz sofisticada. Era muito mais simples. Então, cada vez está se profissionalizando mais os espetáculos de estudantes. Até os estudantes querem mais coisas. Antigamente, Teatro Apolo, vixe Maria, não tinha luz nenhuma. E se fazia dois espetáculos por dia. Hoje em dia tem uma luz bem melhor e para fazer um está difícil. Entendeu? Então, o DNA realmente melhorou a qualidade do cenário e da luz. Os espetáculos, não. Pelo contrário. No começo, os espetáculos, pelo menos os espetáculos que Igarassu trazia, eram espetáculos que não faziam feio em ficar em temporada. E é todos os anos assim. O ano passado, eu vou ser bem sincero, só um espetáculo que foi muito fraco. Com o diretor, eu não vou dizer o nome, porque é antiético. O diretor, que é meu amigo, quis fazer uma coisa muito intelectual, sem os meninos saber o que estavam dizendo. Aí eu peguei ele e disse a ele: “Não faça mais espetáculo desse tipo, não, velho, porque os meninos estão lendo o texto, estão dando o texto, sem entender o que está dizendo, então fica uma coisa falsa. Eu mesmo não entendi muito o teu texto, não”. E eram realmente meninos, de escola estadual. Então dizer o texto sem saber o que é, não adianta, não.

Qual a situação do FETED.PE com editais públicos?

O problema dos editais é que é muito concorrido. Muito concorrido. Eu não vou botar a culpa no Funcultura, nas pessoas que estão julgando, não. Eu perco, eu perco é o seguinte: perder, perder. E eu sempre dou parabéns a quem ganhou. Porque, na minha opinião, é o seguinte: todo cara que faz um projeto acha que o projeto dele é o melhor projeto do mundo. Então, o cara que ganhou, ele pensa igual a mim, que o projeto dele é ótimo. Entendeu? E outra coisa: o dinheiro é muito pequeno para arcar com uma cena pernambucana toda. É muito pouco. Pernambuco é um estado enorme para pouco dinheiro. A prefeitura também. É pouco dinheiro para a cultura, para a quantidade de artista que tem. Entendeu? E nós temos essa dificuldade. Então, é o que eu disse. Eu vou dizer de novo: eu acho que devia ter uma reserva, não sei no Funcultura, onde fosse, uma reserva, X para os projetos que não foram aprovados, que têm mais de 10 anos. O nosso já tem 22, entendeu? Esses projetos que já é calendário, já tem mais de 10 anos sem parar, como o nosso festival, nunca parou, nem na pandemia.

Na pandemia nós fizemos online, mas nós não paramos nem um ano. Todos os anos nós fizemos. O ano da pandemia, fizemos online. O resto todo presencial. Com dinheiro, sem dinheiro, nós fizemos. Então, a questão é essa: é muito difícil você passar nos editais, porque a concorrência é muito grande. “Ah, Pedro, mas você está fazendo bem feito?” Estou. Quem faz o meu projeto é uma pessoa que vive de projetos culturais. Entendeu? E ele já disse: “Pedro, eu acho que já vou desistir”, pois esse ano ele não colocou no Funcultura, acho que ele já disse, tem um trabalho para não ganhar, é danado, mas ele já me disse: “Pedro, é difícil a gente ganhar, porque a concorrência é muito grande e tem as cotas, né?”. Mais uma vez, eu não sou contra as cotas, mas deveria ter uma laminhinha para esses festivais, principalmente os festivais que não passaram, que já têm mais de 10 anos.

Por que o festival não tem dinheiro suficiente, mesmo com mais de 20 anos de existência?

Financeiramente eu falei: o dinheiro é muito curto para muito artista, muita produção no estado de Pernambuco. O dinheiro é muito pequeno para todo mundo. E no caso dos festivais só passa um festival — estou falando do Funcultura — um festival em cada categoria, então é muito difícil.

Outra coisa: quando têm pessoas na gestão que nos recebem fica mais fácil. Eu sempre digo o seguinte: nunca tem dinheiro para os mesmos e sempre tem dinheiro para os mesmos. Têm pessoas que chegam lá e recebem o dinheiro e acabou-se e têm pessoas como eu… Nesse ano nós fomos atrás de umas coisas e não conseguimos. Então você está indo atrás, está? A gente tem há uns quatro anos que a gente faz o Cena Expandida. Paulinha (Paula de Renor) está no Rio Grande do Sul, mas eu e Arnaldo (Siqueira) fomos atrás de patrocínio para a Cena Expandida e até agora não conseguimos. A história que eles dizem é a seguinte: “Olha, o Ministério Público não pode dar dinheiro agora que já tem os editais, então vocês têm que entrar nos editais”. Olha aí, um impasse danado… Quando eles querem ajudar — feito há três anos eles ajudaram — a Fundação de Cultura, e espero que ajude este ano, que a gente está esperando a resposta que não chegou, que era o seguinte: contrata os espetáculos, eles não dão dinheiro. Mas para o festival estudantil não funciona, porque os espetáculos são amadores. E eu faço questão de dizer nas inscrições: o festival é amador, é de estudante que não ganha dinheiro, mas paga para estudar no festival. Mas daqui a pouco eles querem também cachê para se apresentar nas escolas.

Por que ainda é tão difícil captar recursos para o Feted?

Sobre ir atrás de dinheiro: eu já tento fazer parceria faz uns cinco ou seis anos. Eu quero muito, mas parceria precisa de alguém que saiba captar, que saiba fazer um projeto bom. Entendeu? Para fazer o festival, eu faço. Este ano, inclusive, apareceu um grupo que quer conversar comigo depois do festival. Agora, é preciso ser bem claro: a gente precisa de gente para ir atrás de dinheiro.

Quando o festival teve dinheiro — no último ano em que ganhamos no Funcultura, que eu nem sei mais quando foi, faz mais de dez anos — a gente fez tanta coisa. Você não faz ideia. Eu acho que foi a edição mais importante que a gente fez. A gente organizou uma gincana. Levamos atores e diretores para o Teatro Luiz Mendonça (no Parque Dona Lindu), que hoje está privatizado — mas isso é outra história. Passamos uma manhã inteira lá, cinco ou seis horas, mostrando como funciona o teatro: direção, texto, direitos autorais, a engrenagem toda. Foi leve e muito formativo.

Nesse mesmo ano, chamamos dois diretores — Quiercles Santana e Eron Villar (eu posso até errar nomes, mas eu sempre trabalho com os melhores da cidade) — para irem às escolas ver os ensaios e dar dicas para os meninos. Eles iam pelo menos duas vezes a cada escola: no começo do processo e quando estava perto do espetáculo ir para o festival. Foi um ganho enorme para o festival. Mas, sem dinheiro, a gente não consegue fazer isso; não dá para contratar diretores. Então foi uma conquista que o festival teve e perdeu por falta de patrocínio.

E não é que eu não vá atrás. Eu vou. Para você ter ideia, o Janeiro de Grandes Espetáculos, que é um dos grandes festivais nacionais, não conseguiu captar na Lei Rouanet — nem com Paula de Renor e Carla Valença. Passava na Rouanet, mas não captava. Não sei como é que está agora. O FETEAG mesmo, que eu respeito demais — Fábio Pascoal vive nos festivais do mundo inteiro — também não consegue esse dinheiro todo, não. O festival dele é grande, traz coisas grandes, mas o dinheiro que ele tem também é curto para o que faz. Então não é só o FETED que não tem dinheiro, não.

E o Fábio é um cara que sabe fazer projeto, sabe orçamento, sabe tudo, viaja muito. Não é um Pedro de Portugal, entendeu? Ele é muito mais antenado do que eu.

Você pode dar um exemplo concreto de tentativa de parceria que não deu certo?

Eu conheci um rapaz muito inteligente, para mim fazia um texto ótimo. Acho que seria um grande parceiro para mim. A gente botou no Funcultura no primeiro ano e não passou. Aí ele disse que não podia trabalhar sem ganhar para fazer o projeto. Tem que ter dinheiro e não tem dinheiro para pagar, entendeu? Eu acho que seria um grande parceiro para fazer o festival.

Mas aí, depois de uns dias, ele fez uma coisa que eu não gostei. Eu sou uma pessoa muito fiel aos meus amigos, muito grato, graças a Deus. As pessoas… a pessoa faz por mim, eu sou grato o resto da vida, eu sou muito grato. Então ele fez uma coisa que eu não gostei. Foi: ele foi lá para casa, a gente trabalhou dois dias fazendo projeto e depois foi para casa para colocar no Funcultura. Eu não vou dizer qual foi o projeto. Mas ele parou o projeto do festival para trabalhar no outro projeto. Perdeu o prazo de enviar o projeto do Feted.

Aí liguei para ele, dei um baile do caralho, disse que ele foi antiético. Eu acho um rapaz muito inteligente, seria um grande parceiro, mas ele fez essa merda comigo. E o projeto que ele fez, que era um espetáculo de teatro, o produtor não colocou também, perdeu o prazo. Então ele ficou sem botar os dois projetos.

Eu sou fiel aos meus amigos, todos, mesmo fazendo algumas safadezinhas eu sou fiel, entendeu? Até um certo ponto, entendeu? Mas isso, infelizmente… não sei se é bom, se é ruim, mas é assim.

Vocês já tentaram captação em empresas privadas?

A gente nunca foi para as empresas privadas. A gente trabalha mais com os incentivos, porque é aquela história: empresa privada tem que ter um padrinho, e isso nós não temos. Não posso dizer que alguém disse não, porque não fui atrás. Eu sou aquela pessoa que gosta de dizer a verdade.

Como funcionam os critérios de avaliação nos editais que o Feted disputa?

Como eu falei para você, o problema não é pontuação. Olha, nós temos as pontuações legais, as contrapartidas não são boas. Às vezes tem uma ou outra. Uma vez botei um projeto que deram uma nota tão baixa que eu fiquei… No ano que eu também não passei, então botei uma ficha técnica top, uma equipe boa, e a nota… Vamos botar a nota 10. Não quero que eles me vejam como uma pessoa com uma coisa dessa, entendeu? Então é como eu digo a você: o problema da Lei Rouanet é captar. Você não consegue captar. A municipal, eu não posso participar porque sou funcionário. A estadual, que tem o Funcultura, já falei para você aquela história: o dinheiro é curto e não dá para todos.

Como foi a experiência do Feted com a Lei Aldir Blanc?

O nosso Aldir Blanc só foi contemplado na pandemia, o resto não fomos contemplados. É o que digo: é muito festival e muita cota. E eu sou… até que eles querem dar cota a quem tem mais dificuldade. E o Festival Estudantil não tem dificuldade? As cotas têm que ser dadas, acho importante as cotas, mas a gente fica amarrado nas cotas. Acho que deveria ter uma parte com cota e outra parte sem cota.

Qual foi o orçamento das últimas edições e qual seria o ideal para o Feted?

Eu vou dizer dos últimos cinco anos: praticamente só com o dinheiro da bilheteria. “Pedro, como é que você consegue fazer?” Eu não sei. Eu não faço ideia. E você, se for lá um dia ver o festival, vai ver tudo: camisa e camisa. É legal ver isso, que é camisa de algodão, não é aquela camisa de plástico. Camisa arrumadinha, tudo com os oito reais que sobra para nós. Entendeu? Então os últimos cinco anos, praticamente só com a bilheteria. Minha filha, como é que você faz? Não sei.

Teve um ano que fui ser jurado em Sorocaba. O cara estava doido para ver o festival, mas eu não tenho dinheiro para trazer o cara. Junior Mosco, ele tem um festival em Sorocaba de estudante também, era feito pelo Sesi. Quando eu fui, foi pelo Sesi. Quando ele viu nosso material — cartaz, programas — ele ficou de boca aberta. Ele perguntou com quanto eu fazia o festival. Aí fui dar um depoimento. O máximo do SIC Municipal é 50 mil. O Funcultura é 100 mil, o máximo. Não, nesse tempo não tinha Funcultura. O SIC Municipal, o máximo é 50 mil, mas a gente ainda tem que captar, encontrar empresa. Nessa época era assim. Aí me chamaram de mentiroso. Eu disse que tem ano que a gente faz com 10 mil e eles me chamaram de mentiroso. Eu levei material, programas que a gente fazia, etc. E ele me chamou de mentiroso e disse: “Aqui com 100 mil a gente não faz nada”.

O que a organização do Feted já tentou? Onde acertou e onde errou?

Claro que nós temos sempre os nossos erros e a gente tenta acertar. Eu vou falar mais do que eu acerto. O nosso festival realmente é um festival democrático, e tenho o maior prazer de dizer isso do nosso festival, porque pode ter festival democrático igual a gente, mas maior que o nosso, não. A gente sempre tenta mudar quando os grupos pedem. A gente só não pode mudar porque a maioria quer que seja competitivo. Infelizmente a gente não pode mudar, pois não tem dinheiro. Senão a gente já tinha feito competitivo há muitos anos. A gente deixou de fazer competitivo porque não ganhou nas leis de incentivo.

Para você ter uma ideia, eu só ganhei três vezes o Funcultura. E o SIC Municipal eu não posso entrar porque sou funcionário. Antigamente podia. Eu acho um absurdo isso, pelo seguinte: eu sou funcionário, mas não sou eu que vou julgar. Mas tudo bem. É a lei, a gente tem que respeitar. Eu sempre respeito as leis.

Por que continua fazendo o festival nessas condições?

Continuo fazendo, vou dizer por quê: porque sou teimoso. Se você fizer as contas do festival, não paga. Tem prejuízo? Não, até agora não. Mas a gente faz pouca coisa. Para fazer um festival grande, a gente teria que ter 100 mil para fazer o que a gente quer. E 50 mil para fazer meio bom. A gente tem só a bilheteria.

Porque continuo fazendo: porque hoje em dia não faço mais teatro, não quero fazer mais produção de peças, então a minha cachaça é o festival estudantil. Você sabe que um festival desse a gente passa pelo menos seis meses trabalhando. O cachê para mim deveria ser uns 30 mil reais e eu sobra mil reais, no máximo dois mil reais. E tenho impressão que esse ano vai ter prejuízo. Esse é o motivo de continuar fazendo.

Você disse que estava muito cansado de realizar o festival nessas condições. 

Eu gostaria de fazer mais três anos para fazer 25 anos e acabar. Como falei, tem um pessoal que quer falar comigo sobre o festival para a gente debater. Se for legal, vamos fazer juntos, entendeu? Mas eu, Pedro Portugal, eu gostaria de fazer mais três anos para fazer 25 anos. Como dona Cléa Borges falou com Enéas Alvarez — crítico de teatro e diretor do saudoso Festival de Teatro de Bolso — para fazer 15 anos e não acabar com 12. Eu quero ver se chega a 25. Não sei se eu vou ter força, porque estou muito cansado.

E agora os participantes estão mais exigentes. Acho legal. Eles querem melhor estrutura, melhor luz, e sem dinheiro fica difícil. E até para dar uma ajuda de custo. Sim, a gente também dava. Quando passava no Funcultura, a gente dava ajuda de custo para o transporte para o grupo do interior. Não sei quanto era, porque faz mais de 10 anos que a gente não passa no Funcultura.

Também a gente é de um tempo que a gente ia para os festivais e dormia nas escolas, no colchonete. Era uma farra danada. Eu me lembro disso. José Manoel participou muito. Eu participei de muitos festivais desses. Hoje em dia não, tem que ter hotel, então fica uma coisa inviável. Já pensou trazer 30 meninos para o festival para colocar no hotel? Vê só essa conta, esse valor, entendeu? Então até essas coisas, as coisas ficam melhorando, claro, mas o conforto… Eu sou a favor. Mas no nosso tempo a gente ia do jeito que dava: daqui para o Rio Grande do Sul, daqui para São Paulo. Quantas vezes José Manoel, com a Três Produções, foi para São Paulo e soube o resultado no ônibus. Hoje não acontece mais isso, não.

Por que o Feted cobra ingresso se isso pode prejudicar a aprovação em editais?

É o que digo: se a gente não fizer um ano, não faz mais. Se for esperar para fazer quando tiver dinheiro, é melhor acabar de uma vez. Esse negócio de “mínimas condições”, não. Ou faz ou não faz.

Eu me lembro de uma coisa muito interessante nos primeiros anos do festival, até o quarto ou quinto. Nossa amiga presidente do SATED — Ivonete Melo — me disse: “Pedro, sabe por que seu festival não passa no Funcultura? Porque você cobra ingresso”. Nessa época eu cobrava um real. E eu disse para ela: “Se a gente não cobrar, o festival não faz mais. Porque se for esperar o dinheiro dos editais, a gente não vai fazer, entendeu?”. E eu perguntei a ela: “E você, como presidente do SATED, acha que com esse valor dá para fazer o festival?”

Os grupos estão reclamando do Funcultura porque diz que não pode cobrar ingresso. Faz cinco apresentações e acabou. Você ganha 80 mil — acho que o máximo é 80 mil para montar. Então monta e acabou. O ingresso é para tentar continuar.

Eu sempre digo que o ator é o mais sacrificado. O diretor tem o cachê dele. O cenógrafo tem o cachê dele, o iluminador, já está tudo na lei. Mas o ator é sacrificado: ele passa não sei quanto tempo ensaiando de noite, o Recife do jeito que está violento, pegar um ônibus para ir para casa.

Agora, os espetáculos que vêm de fora, com as leis de incentivo, cobram 150 contos no Teatro do Parque. Não tem espetáculo no Teatro do Parque, com lei ou sem, que cobre menos de 100 reais o ingresso. O mínimo 120. Agora quando é a lei daqui, que é de 80 mil por produção, 80 mil dá para fazer o quê? Aí eles querem que não cobre ingresso.

Quais são as vitórias recentes que você celebra?

As vitórias recentes é passar nas ruas, ser reconhecido pelas pessoas: “Porra, bicho, eu faço teatro por sua causa”, ser abraçado pelas pessoas, ser respeitado como produtor cultural. Isso são as vitórias do dia a dia. Os artistas abraçando, pessoas do passado ou que participaram um ano atrás. As pessoas te acarinhar. Fica guardado no coração.

O que mudou no comportamento e engajamento dos participantes do festival ao longo dos anos?

Infelizmente não é só o festival, não. É tudo. Antigamente a gente saía do teatro, dos espetáculos, ia para um barzinho tomar uma cerveja. Às vezes o que ganhava no teatro deixava no bar da frente. Mas a gente ia ser feliz, ter prazer. Hoje em dia as pessoas estão muito individualistas. Acaba o espetáculo — não é só o Festival Estudantil, é geral — o povo vai direto para casa. Praticamente não se conhece. Antigamente a gente era amigos.

E o Festival Estudantil não fica atrás. A gente todo ano tenta fazer uma reunião de avaliação, vai dois, três grupos. A gente teve este ano 30 inscrições para 14 vagas. Eu sempre digo: o Festival Estudantil não é meu, de Pedro Portugal, mas é de quem faz os espetáculos, porque se não tiver inscrições não tem festival. Então eu disse este ano que o festival depende das inscrições. Este ano não tem a mostra coreográfica porque não teve inscrição.

Como você avalia a mudança do público de teatro em Pernambuco ao longo dos anos?

Esse negócio de as pessoas acharem que tem muito festival… Mas hoje o teatro é diferente de épocas passadas. Antigamente passava três meses numa temporada. Quando digo antigamente é 20 anos atrás, que já faz uma data. O Teatro do Parque passou 10 anos fechado e cinco para reformar, então praticamente 15 anos fechado.

Você tinha o Teatro do Parque, Apolo e Barreto Júnior de quarta a domingo, ou de quinta a domingo. Quinta e sexta fazia um espetáculo. Sábado, três espetáculos: um de 16h, um de 18h30 e um de 21h. Até que 21h não pode fazer mais, por causa da violência. O Teatro do Parque fazer de seis horas, aquele teatro está horrível de assalto. E no domingo a gente tinha 10h da manhã, 4 horas da tarde, seis e meia e 9 horas. Tinha períodos que tinha 4 espetáculos no dia. Hoje os teatros só fazem um espetáculo por dia. Isso aí você já vê que a produção não tem condições de arcar com os teatros. Os teatros são os mesmos três e diminuíram: de quatro espetáculos passou para um.

E outra coisa: eu não sei até quando, acho que a continuidade de três meses com um espetáculo não sustenta mais, não. As pessoas estão muito rápidas. TikTok. E só vão ao teatro quando é um global. A última pesquisa que foi feita de quem assistia teatro, quem ganhava eram os bancários. Hoje em dia, praticamente não existe mais bancário, e o bancário é que ia ao teatro. E hoje em dia as pessoas só vão para espetáculos de fora. Os mesmos é que vão aos espetáculos locais. A gente tem, infelizmente, pouca gente que vai ao teatro.

Eu soube que vai entrar de novo a campanha “Teatro ao Vivo, Vá Ver”, uma campanha forte. Vamos ver se isso melhora. Mas tem que ter campanha forte para ver se tem uma estratégia boa. Às vezes eu digo 70 pessoas na plateia do Festival Estudantil e aí os funcionários do teatro dizem: “Pedro, aqui é 20, 30 pessoas”. É verdade, é mentira? Não sei. É o que dizem: as plateias estão vazias.

Como você vê a relação entre festivais e a sustentabilidade dos espetáculos hoje?

E os espetáculos estão sendo feitos para ir pros festivais. Hoje em dia, para fazer um espetáculo, não tem condições de bancar do seu bolso, porque fazer quatro, cinco apresentações, como vai tirar despesa? Não consegue, com esse valor. Então os festivais se prestam para isso, os profissionais. O meu não está fora desse roteiro aí. Estou falando do Janeiro.

A minha opinião é: ter teatro nas cidades do interior fazia quinze dias, duas semanas, e o estado todo se tivesse teatro e se as pessoas fossem ver. Com incentivo. Vamos botar um profissional aí para dez cidades, faz um fim de semana em cada cidade. Aí sim, eu estou a favor. Aí fazia pelo menos 30 apresentações. Se tivesse teatros para a produção circular. A ideia é essa: espetáculos circularem.

Por que o poder público não investe adequadamente no teatro local e estudantil?

Poder público gosta de arte de massa, que lota, artistas nacionais. Quando é de estudante, teatro local, o poder público mais que fecha os olhos. Não é só municipal, não. É municipal, estadual e federal: eles querem patrocinar grandes eventos. Esses eventos que dão visibilidade. Eles querem ver grandes eventos. Simples assim.

Quem são os reais prejudicados pela falta de apoio aos festivais estudantis?

Quem ganha e quem perde é o público, que deixa de ver coisas interessantes — não estou falando somente sobre o Festival Estudantil, mas no geral. Quem perde com a falta de cultura é o público, e quem perde com a falta do Festival Estudantil são as escolas, que deixam de conhecer um teatro profissional como o Teatro Apolo.

99% dos meninos e meninas que participam do Festival Estudantil nunca entraram num teatro. Não é para fazer teatro, não é para assistir. Muitas nunca entraram num teatro, num espaço cultural como um teatro. Mas o poder público não tem interesse. Se acabar o festival é menos um que vai deixar de encher o saco. Então para o poder público, cada festival a menos, cada espetáculo a menos, cada palhaço a menos, cada artista a menos é menos um para encher o saco dele para pedir dinheiro. Essa é minha opinião, não sei se estou errado.

Então quem perde são as crianças que deixam de ir ao teatro, os pais que deixam de ver os filhos em cena num teatro profissional. O público em geral. Geralmente quem participa — nem todos viram atores — mas todos ficam cientes do que é um teatro, conhecem o teatro. Os meninos que fazem esporte, cultura, deixam de fazer coisa errada.

Se a cultura valoriza o festival nos discursos, por que isso não se traduz em apoio concreto?

Quando encontro as pessoas nas ruas, elas dizem: “Seu festival é o mais importante de Pernambuco, novos talentos da cena pernambucana”. Mas adianta ser o mais importante e não ter dinheiro? É o mais importante da boca para fora. E vou dizer uma coisa a você: se acabar o Festival Estudantil, como já acabaram outros, as pessoas não vão sentir falta. Você sabe que a Mostra Brasileira de Dança acabou? E ninguém sentiu falta, ninguém fala. Quantos festivais acabaram? Então se o nosso terminar… as pessoas não sentem falta, não. Isso é muito triste.

Qual seria seu “ponto de ruptura”?

A ruptura será bem próxima. Vou fazer mais três anos, gostaria. Mas sem dinheiro, do jeito que está, não sei se consigo fazer mais três anos, porque os grupos estão mais exigentes — com razão — eles querem coisas melhores e nós não temos condições financeiras, pois não temos patrocínio e não temos condições de dar o que eles merecem. Isso está me deixando nervoso.

E eu estou fazendo tudo. Tem uma menina que está me ajudando nas redes sociais que é de graça, mas eu não gosto de coisa de graça. A gente dá uma ajuda para o Uber e para o lanche, mas é muito chato todo ano ficar pedindo: “Faça uma arte para mim”. O Zé Manoel faz a apresentação de Cida Pedrosa e Cléa Borges, mas faz de graça; Albemar Araújo faz mestre de cerimônia de graça… Isso para mim é muito desgastante. Estou ficando com vergonha na cara de chamar as pessoas sem pagar.

Qual é a visão do festival para os próximos três anos?

Para os próximos três anos, o que a gente precisa é de dinheiro, senão vai ficar essa situação. Ainda fazemos debates após o festival, rápido. A gente tem um debate. Eu gostaria de dar curso como a gente fazia, de levar os diretores para as escolas, como a gente fazia. Fica muito difícil fazer essas coisas que a gente gosta de fazer sem dinheiro.

O que você espera da conversa com o grupo interessado em parceria?

O que eu queria mesmo era que esse pessoal que vai conversar comigo após o festival, se for uma pessoa que eu sinta segurança, a gente fazer uma parceria. Agora tem que ser uma pessoa que saiba fazer projeto bem feito para tentar ganhar alguns editais, ficar ligado em alguns editais, que eu sou desligado dessas coisas, e ir para frente. Só não dá para ficar mais um ano sem dinheiro, para dividir o que não tem.

Quais seriam os compromissos do Feted se conseguisse patrocínio adequado?

Se o festival tiver patrocínio, se tiver dinheiro, o nosso compromisso é, primeiro, voltar a ser competitivo, que é uma reivindicação de 99% dos grupos. Aí a gente tem que fazer se tiver dinheiro. É isso que tem que fazer com eles. Por que a gente não faz competitivo? Que não tem dinheiro. Porque eles pedem, como eu disse, o festival é democrático. Se o pessoal quer, infelizmente eu não sou muito a favor. Eu sou mais de mostra. Mas é um pedido deles, mas eles gostam. Então a gente tem que fazer isso.

Segunda coisa: voltar a gincana, como a gincana. Passar uma manhã, uma manhã grande. Manhã de umas quatro ou cinco horas no teatro, conhecendo o teatro, tudo, entendeu? Com uma aula de teatro. Pode ser agora? A gente sempre bota pessoas que trabalham mais com a turma nessa parte — um ator para fazer essa visita, para que conheça a técnica — mas coisa alegre, leve, não seja aquela coisa pesadão: “Isso aqui é isso, aqui não”. Então coisa leve.

Voltar a fazer isso: voltar os diretores às escolas, nas escolas. Mostrar: “Olha, a gente vem aqui duas vezes. No começo do ensaio, consegue ensaiar. Olha, o texto é assim, assim, assim. Tem que ter cuidado com direitos autorais, porque dá cadeia se a Polícia Federal… Então vocês têm que perguntar primeiro: ‘Pode montar esse espetáculo?’ Você tem que entrar em contato com o SBAT, entendeu?”. E depois, no fim: “Olha, o caminho é esse, foi legal o espetáculo, entendeu?”. Então a gente gostaria de voltar — os diretores voltarem às escolas que estão participando. Isso é outro compromisso nosso.

E outro compromisso também. Eu gosto de fazer umas fotos, e as fotos que mandam para mim são fotos muito ruins. Digo: “Minha gente, até de celular hoje tira fotos legais para redes sociais”. Mas as fotos que mandam são fotos escuras, horrorosas. Por isso, nosso compromisso seria fazer uma oficina de fotografia, inclusive ensinando a usar o celular para tirar fotos melhores para a divulgação dos espetáculos. Porque hoje em dia todo mundo tem celular e dá para fazer material de qualidade, mas precisa ensinar a técnica básica. Isso melhoraria muito o material que os grupos enviam para a gente divulgar o festival.

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