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7º Chama Violeta transforma
Sertão do Pajeú em palco mágico

Entre terreiros, alpendres e sonhos coletivos, festival de artes integradas celebra resistência cultural com 15 atrações do Brasil e Argentina. Foto: Divulgação

O Sítio Minadouro fica na área rural de Ingazeira, no Sertão pernambucano do Pajeú, cerca de 420 km do Recife

Odilia Nunes, atriz, palhaça, brincante, gestora cultural e coordenadora do Chama Violeta

“Entendi que amor é escolha”, é um mote e no Sítio Minadouro, área rural de Ingazeira, no Sertão pernambucano do Pajeú (cerca de 420 quilômetros do Recife), essa opção ganha forma de palhaçaria, mamulengo, dança, poesia e outras linguagens. Entre os dias 19 e 21 de dezembro, o 7º Chama Violeta acende mais uma vez a centelha da arte, provando que cultura não aceita fronteiras geográficas nem limitações orçamentárias.

Coordenado pela incansável Odília Nunes – palhaça, brincante, gestora cultural e alma inquieta do teatro popular -, o Chama Violeta é muito mais que um festival. É um abraço coletivo, uma festa de resistência, um laboratório de afetos onde 60 artistas e técnicos de Pernambuco, Paraíba, Bahia, Rio Grande do Norte, Distrito Federal, São Paulo e Argentina se encontram para semear encantamento.

“O critério da curadoria é afetivo. Primeiro a gente escolhe o tema e a partir dele vai montando a programação. É intuitivo”, revela Odília, que há três anos mora em São Paulo como atriz da premiada Cia do Tijolo, integrando o elenco dos espetáculos Guará Vermelha (2023) e Restinga de Canudos (2025).

A revolução dos terreiros pela arte que vai à casa das pessoas

Chama Violeta promove uma experiência diferenciada de fruição artística. 

O grande diferencial do Chama Violeta está na inversão completa da lógica tradicional dos festivais. Enquanto a maioria opera na dinâmica de “venha até nós”, o Chama Violeta funciona no “vamos até vocês”. Não são as pessoas que precisam se deslocar para chegar até a arte, é a arte que chega até as pessoas, literalmente em suas casas.

Os espetáculos acontecem nos terreiros e alpendres das casas dos moradores: Terreiro de Mariquinha, Terreiro de Seu Expedito e Dona Lourdinha, Terreiro de Edileuza, Alpendre da Casa de Odília. Cada espaço é gentilmente cedido por familiares e amigos, criando uma intimidade única entre artista e público. Para muitos moradores do Minadouro, especialmente crianças e idosos, essa é a primeira oportunidade de assistir a um espetáculo teatral profissional.

Essa filosofia revolucionária leva teatro de bonecos, circo, dança contemporânea e música para pessoas que, muitas delas, nunca pisaram em um teatro convencional, revelando que não são elas que precisavam ir ao teatro, o teatro é que precisava chegar até elas.

Essa mudança de paradigma cria uma experiência única de fruição artística. Sem a barreira física e simbólica do teatro tradicional, sem ingressos, sem dress code, sem hierarquias urbanas, a arte acontece no ambiente familiar e acolhedor dos quintais sertanejos. A plateia se torna parte do espetáculo numa atmosfera de roda, de círculo de afeto onde todos estão incluídos. Crianças assistem de perto, adultos participam espontaneamente, idosos dividem memórias com os artistas após as apresentações.

O ano das famílias que fazem arte junta

Piruá e Paraqueta, com os artistas Rodrigo Bruggemann e filha Amora Maux, do Rio Grande do Norte

Este ano, sem qualquer incentivo do poder público, mais do que nunca o Festival Chama Violeta é feito com a garra e a parceria dos artistas e companhias participantes, que abriram mão do cachê para compartilhar sua arte. O tema “Entendi que amor é escolha” ganhou ainda mais significado na curadoria de grupos familiares – casais, pais e filhos que fazem arte juntos.

O festival celebra os 50 anos de casamento dos pais de Odília, que são pessoas muito atuantes na comunidade e na realização do Chama Violeta, e de outro casal, Cícero Gomes e Dona Maria, do Samba de Coco de Trupé de Arcoverde, presentes desde a primeira edição.

Entre os grupos familiares da programação estão Piruá e Paraqueta (Rodrigo Bruggemann e filha Amora Maux, do Rio Grande do Norte), o casal baiano Anelise Mayumi e Douglas Iesus com Embalanceio: dançar sonhos pequeninos, a Cia Bode com Pequi (casal Pedro Milhomens e Clá Solar com a filha Aruna) e a Cia das Marionetes, da Argentina.

Quando sonhos coletivos viram cinema

Filme Um dia Havia de Ver o Mar, de Odília Nunes

 Teatro de lambe-lambe Dona Ló com Catarina Calungueira (RN) 

Espetáculo Cícera, com Contadores de Mentira. Foto: Valeria Félix / Divuolgação

Entre as novidades da programação está o filme Um dia Havia de Ver o Mar, dirigido por Odília Nunes. A história nasceu de um pedido simples de uma criança local: “Um menino, um dia, me pediu pra levar ele na praia. Cumpri minha promessa. Mas não fomos só em dois. É que esse sonho era coletivo. O filme é o registro desse encontro”, conta a diretora.

No Minadouro, as crianças aprendem desde cedo a amar a chuva e brincar na água dos riachos, barreiros e açude, mas sonham conhecer o mar. O filme documenta essa jornada de descoberta, simbolizando o espírito do festival: transformar sonhos individuais em conquistas coletivas.

O festival abraça diversas linguagens e formatos. Há espetáculos teatrais como Vereda dos Mamulengos (Casa Moringa-DF), onde Conceição e Benedito enfrentam as cobranças do senhor João Redondo com humor e lirismo, acompanhados de trilha sonora ao vivo com cantos de trabalho e cantigas de roda da tradição oral brasileira.

O teatro de bonecos se faz presente com O Auto do Boi Aurora (Catarina Calungueira-RN), onde Catirina luta contra o autoritário capitão João Redondo para libertar o boi Aurora, e com Antologia das Marionetes (Cia das Marionetes-Argentina), um cabaré que reúne personagens criados ao longo da trajetória da marionetista Rocío Walls, cada um carregando marcas de diferentes épocas e encontros pelo mundo.

A música ganha destaque com Nordeste Futurista de Luana Flores (PB), artista que vem se destacando internacionalmente ao fundir ritmos e estética da cultura popular nordestina ao universo da música eletrônica, e com Sons de Resistência do Samba de Coco de Trupé de Arcoverde (PE), grupo que desde 2009 preserva o legado do samba de coco, honrando a herança cultural afro-indígena.

A dança contemporânea se apresenta através de Embalanceio: dançar sonhos pequeninos, onde o casal de artistas e pais Anelise Mayumi e Douglas Iesus encara a pergunta: “como adiar o fim do mundo?” com um espetáculo que usa elementos naturais do sertão baiano e a força da imaginação para semear encantamento.

O circo aparece em Piruá e Paraqueta, onde pai e filha montam seu próprio circo apresentando números de malabarismo, equilibrismo, magia e ciência, descobrindo que felicidade não tem milhões de seguidores.

Formação e Empoderamento

O festival também promove oficinas formativas. A Voz da Poesia, ministrada por Isabelly Moreira (São José do Egito-PE), faz parte do projeto nacional que empodera mulheres do campo através da literatura, exercitando leitura, escrita e declamação com foco em quadras e sextilhas, além de reflexões sobre papel da mulher na sociedade e questões ambientais.

A oficina Confecção de Calungas de Pano, com Catarina Calungueira (RN), propõe imersão criativa no teatro de bonecos tradicional do Nordeste, conectando participantes com as encantarias do teatro popular.

As rodas de conversa são marca do festival. Vô, deixa minha mãe brincar, conduzida por Gabriela Romeu (SP), jornalista e documentarista criadora do projeto Infâncias, é uma conversa intergeracional sobre memórias de infância, lembrando a infância como “relicário das singelezas do viver”.

O Chama Violeta é uma das ações do projeto No Meu Terreiro Tem Arte, criado por Odília em 2015 para promover intercâmbio cultural, residências artísticas e formação durante o ano todo no Minadouro. O reconhecimento veio com o Prêmio Pernalonga de Teatro (2019) do Governo de Pernambuco e o Prêmio Inspirar (2021) do Instituto Neoenergia, que contempla iniciativas lideradas por mulheres.

O figurino de Bandeira, a palhaça sertaneja, é feito de material reciclado

Decripolou Totepou, solo de Odília que completa 20 anos em 2025

Um dos momentos mais simbólicos é o retorno de Decripolou Totepou ao lugar onde nasceu. O solo de Odília completa 20 anos em 2025. “Este foi meu primeiro solo. Nesses vinte anos, várias crianças do Minadouro assistiram, mas a nova geração ainda não conheceu. Nada melhor do que comemorar esse aniversário onde tudo começou”.

Bandeira, a palhaça sertaneja protagonista do espetáculo, carrega em sua mala sonhos e objetos que encantam através de mamulengos, malabares, brinquedos populares e truques de ilusionismo. Seu figurino de material reciclado é roupa e cenário sonoro, lembrando que “podemos brincar com qualquer coisa, se formos capazes de enxergar a simplicidade”.

A realização conta com uma rede de colaboradores locais. Produção geral e hospedagem por Lourdinha, Expedito, Violeta, Helena, Tamires, Gilvan, Heitor, Artur, Fran e Paulinho; alimentação por Deda, Fran e Ciene; coordenação de programação por Clá Solar; coordenação de transportes por Ana Carolina Lima; coordenação técnica por Cic Morais; design por Letícia Graciano; assessoria de imprensa por Ana Nogueira; produção local por Marcia Andreia, Gisele Garcez e José Mauricio. O festival conta com apoio do SESC PE e Editora Caixote.

📅 PROGRAMAÇÃO COMPLETA – 7ª EDIÇÃO CHAMA VIOLETA

🌅 SEXTA-FEIRA (19)

8h 📍 Escola Municipal do Jorge 🎭 Vereda dos Mamulengos com Casa Moringa (DF)
Conceição e Benedito enfrentam as cobranças do senhor João Redondo com sabedoria popular, humor e trilha sonora ao vivo

📍 Escola Municipal da Caiçara
🎭 Decripolou Totepou com Odília Nunes (PE)
A palhaça Bandeira celebra 20 anos tirando mágica da mala e ensinando que simplicidade é revolução

17h 📍 Terreiro de Mariquinha 🎭 Antologia das Marionetes com Cia das Marionetes (Argentina)
Cabaré de memórias onde cada boneco conta histórias de encontros pelo mundo

19h 📍 Terreiro de Seu Expedito e Dona Lourdinha 🎭 O Auto do Boi Aurora com Catarina Calungueira (RN)
Catirina luta contra João Redondo pela liberdade do boi

🎵 Show Nordeste Futurista com Luana Flores (PB)
Eletrônica que pulsa com coração nordestino

🌞 SÁBADO (20)

8h 📍 Sede da Associação de Agricultores do Minadouro 🎓 Oficina A Voz da Poesia com Isabelly Moreira (PE)
Mulheres que versam, resistem e se empoderam através da literatura

🎭 Teatro de lambe-lambe Dona Ló com Catarina Calungueira (RN)
A alegria de quem planta, cuida e espera a chuva chegar

17h 📍 Terreiro de Edileuza 🎭 Caminhos com Cia Bode com Pequi (Pedro Milhomens e Clá Solar) (PE)
O palhaço Sequinho transforma receitas ancestrais em mágica, utensílios de cozinha em números circenses

19h 📍 Terreiro de Expedito e Lourdinha 🎪 Piruá e Paraqueta com Rodrigo Bruggemann e Amora Maux (RN)
Pai e filha descobrem que felicidade não tem milhões de seguidores

🎵 Show Sons de Resistência com Samba de Coco de Trupé de Arcoverde (PE)
Ancestralidade afro-indígena que dança e canta há gerações

🌅 DOMINGO (21)

8h Sede Associação de Agricultores do Minadouro 🎓 Oficina Calungas com Catarina Calungueira (RN)
Imersão criativa na confecção de bonecos do teatro tradicional nordestino

14h 📍 Alpendre da casa de Odília 💭 Roda de conversa Vô, deixa minha mãe brincar com Gabriela Romeu (SP)
Diálogo intergeracional sobre infâncias e memórias afetivas

17h 📍 Terreiro de seu Expedito e dona Lourdinha 💃 Embalanceio: dançar sonhos pequeninos com Anelise Mayumi e Douglas Iesus (BA)
Como adiar o fim do mundo através da dança e da imaginação

🎬 Estreia Um dia Havia de Ver o Mar-Cine Clube Minadouro
Filme de Odília Nunes sobre sonho coletivo de crianças do sertão que se tornou realidade

🎭 Cícera com Contadores de Mentira (SP)
A jornada de uma mulher nordestina afro-indígena entre saudade e esperança

📱 Mais informações: @nomeuterreirotemarteoficial

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Vital Santos e a urgência
de um teatro que grita
Por Ivana Moura

Vital Santos, dramaturgo e encenador caruaruense. Foto: Jorge Clézio / Divulgação

Leidson Ferraz, autor do livro Dramaturgia Vital: o teatro popular e musical do pernambucano Vital Santos

“O dramaturgo e diretor Vital Santos continua mandando seus sinais. De alerta, de protesto, de indignação contra as desigualdades sociais e de solidariedade com a condição humana. Sua arma compõe-se de verbo, das imagens, do canto e dança através do teatro. […] Para Vital Santos, o palco deve servir de tribuna de discussão dos problemas dos seres humanos. Foi assim com Auto das Sete Luas de Barro, A Árvore dos Mamulengos ou Concerto Para Virgulino Sem Orquestra, algumas das peças escritas e dirigidas por ele. Sua temática social alia-se à linguagem poética para atingir a sensibilidade do espectador, provocar reflexões e mudanças de atitudes…” Em dezembro de 1994, quando escrevi sobre No Fim do Beco há um Bosque para o Diario de Pernambuco, não imaginava que minhas palavras se tornariam quase proféticas.

Três décadas depois, a voz de Vital Santos (pernambucano de Caruaru, falecido em 2013, aos 68 anos) ecoa mais uma vez. Agora não mais do eterno palco efêmero, mas das páginas permanentes de uma coleção que perpetua sua dramaturgia. Sua obra que por tanto tempo se manteve na fugacidade da cena e na memória dos que a testemunharam, finalmente ganha o registro que merece. A coleção Dramaturgia Vital: o teatro popular e musical do pernambucano Vital Santos, com organização, contextualização histórica e análise das obras do jornalista, historiador e doutor em Artes Cênicas Leidson Ferraz, é um ato de justiça à memória de um criador essencial. São dezessete peças completas, reunidas em dois volumes que somam 848 páginas e quase 200 fotografias raras. O lançamento ocorre nos dias 17 e 18 de dezembro de 2025, no Recife e em Caruaru.

Leidson Ferraz, que teve a oportunidade e o privilégio de atuar sob a direção de Vital em O Príncipe dos Mares de Olinda Contra a Fúria das Águas, conhecia de perto essa urgência. Como pesquisador, ele já havia documentado a trajetória do Grupo Feira de Teatro Popular em Memórias da Cena Pernambucana. Ferraz dedicou anos ao projeto, movido pelo rigor acadêmico e uma profunda admiração. E contou que já conhecia o desejo de Vital de publicar todas as peças, embora muitas tenham se perdido ao longo do tempo.

O registro permanente desses textos que moldaram a cena nacional das décadas de 1970 a 2010 merece saudação, pois muitas peças desse autor que ganhou prêmios como o Molière, o Mambembe e o APCA estavam dispersas, inacessíveis em formato de livro e corriam o risco de se apagar.

O projeto de edição foi vencedor do primeiro lugar na categoria Preservação de Acervos e Memória do edital Funarte Retomada 2023 e representa um marco na salvaguarda do teatro brasileiro. O título Dramaturgia Vital é um achado, pois aponta para a autoria de Vital Santos e, ao mesmo tempo, para a natureza pulsante e essencial de sua obra.

Cantigas do Sol Dom Quixote de Cordel Foto: Célio Pontes / Divulgação

A capacidade de traduzir a vida de pessoas simples está na essência do teatro de Vital Santos. O fio condutor de sua dramaturgia era a uma concretude da condição do povo brasileiro, com um olhar muito atento para o Nordeste. E com uma poesia desconcertante. Suas peças são radiografias de como homens e mulheres enfrentam a fome, a seca, a exploração, a violência urbana, e como, em meio a tudo isso, insistem em amar, sonhar e resistir. São personagens que se recusam a ser invisíveis.

É importante ressaltar: Vital não se propunha a “dar voz” a essas pessoas, termo problemático e em desuso nas análises contemporâneas. Ele criava um teatro que pulsava das próprias formas de expressão populares, refletindo suas experiências e modos de ser. Sua estética era uma tapeçaria rica, tecida com fios de cordel, a alegria do mamulengo, a força do reisado, a dança do bumba-meu-boi e as melodias das cantigas de trabalho. Santos utilizava os materiais culturais de Caruaru e região para abordar questões que tocam qualquer ser humano, ou seja, a busca por dignidade, o sonho de uma vida melhor, a luta contra a opressão. O drama de um migrante nordestino em Olha Pro Céu, Meu Amor dialoga diretamente com o trabalhador explorado em qualquer parte do mundo.

A denúncia social, como observei em No Fim do Beco há um Bosque, permeia sua dramaturgia, mas nunca de forma panfletária. A crítica surge das próprias situações dramáticas. A exploração dos artistas em Auto das Sete Luas de Barro, as lutas camponesas em A Noite dos Tambores Silenciosos, a degradação urbana em No Fim do Beco há um Bosque. Vital honrava a capacidade de sobrevivência e a força criativa do povo. Seus personagens, mesmo no extremo, mantinham a dignidade, a esperança e o humor. Não era romantização, mas o reconhecimento de que, onde há opressão, há luta; onde há desespero, há invenção.

Como encenador, Vital era um maestro, um alquimista da cena. Sabia como poucos movimentar os corpos dos atores e atrizes com poesia e precisão, transformando cada espetáculo em uma experiência física e sensorial. Suas montagens eram quadros vivos, onde a música e a dança eram o próprio coração pulsante da narrativa. O palco sob Vital era um lugar de milagres: luzes que pintavam paisagens, objetos de sucata que ganhavam alma, um balé de movimentos que extraía a riqueza das danças nordestinas. 

Concerto Para Virgulino Sem Orquestra

Vital, o Mestre do Exagero Criativo

Vital Santos era, acima de tudo, humano. E como (quase) todo bom contador de histórias nordestino, ele não se furtava de apimentar a narrativa, de dar um “tom” extra aos acontecimentos ou, por vezes, de simplesmente inventar. Sabia que o teatro vive de impacto, de emoção e de uma boa história, mesmo que esta ganhasse contornos fabulosos em sua boca.

Vital gostava de “aumentar as coisas”, de “valorizar os acontecimentos” para “ficar bem na fita”. Ele atribuía a Concerto Para Virgulino Sem Orquestra, por exemplo, premiações e elogios de críticos renomados como Barbara Heliodora e Yan Michalski, mesmo que tais comprovações nunca fossem encontradas nos arquivos. A pesquisa de Leidson Ferraz confirma que “esses ‘louros e confetes’ que Vital Santos jogava para si não causavam dano maior”, mas sim reforçavam o mito do artista que ele construía com maestria. Ele era um dramaturgo que não hesitava em usar de licença poética para si mesmo, um toque de “megalomania” criativa para tornar sua figura ainda mais cativante.

Outros detalhes revelam seu temperamento único. A inclusão de uma galinha de verdade no palco em Olha Pro Céu, Meu Amor, causando frisson entre os produtores; suas mudanças repentinas em ensaios, que faziam o elenco “não gostar”, mas que eram a marca de seu perfeccionismo; e a célebre disputa com Antônio Guinho sobre a autoria de Uma Canção Para Othello, mostrando que sua paixão era tão grandiosa quanto suas criações – e, por vezes, tão tempestuosa. A arte de Vital era viva, e sua vida era, em si, um grande espetáculo.

 Experiências e Percepções Sobre Vital Santos

A complexidade da figura de Vital Santos transparece nas vozes daqueles que o acompanharam de perto, revelando um artista de gênio forte e métodos exigentes. Gilberto Brito, que estreou como ator sob a direção de Vital em 1974, embora o reconheça como um “mestre”, não poupa palavras ao descrevê-lo como um “homem de muita vaidade, ególatra e centralizador a criar histórias megalomaníacas”. Brito é contundente ao classificar uma remontagem de Rua do Lixo, 24 por Vital, nos anos 90, como “desastrosa, já sem o vigor e o impacto de suas realizações passadas”.

Sebastião Alves, o Mestre Sebá, cuja própria história de vida inspirou a peça Olha Pro Céu, Meu Amor e que até hoje mantém vivo o legado de Vital, descreve o diretor como “perfeccionista e exigente”. Embora reconheça o “cuidado que mantinha com seus espetáculos”, Sebá aponta que “muitos da equipe não gostavam” das “mudanças constantes que [ele] fazia na cena”, evidenciando que o processo criativo de Vital também gerava atritos e tensões.

Essa mesma intensidade, capaz de encantar e testar limites, foi sentida por Fátima Aguiar. Embora inicialmente “arrebatada pela profusão de criatividade cênica” de obras como O Sol Feriu a Terra e a Chaga se Alastrou, ela vivenciou o “lado difícil de convivência” e o perfeccionismo exaustivo de Vital. Fátima descreve a estreia de Auto das Sete Luas de Barro como “complicada” e a relação em Concerto Para Virgulino Sem Orquestracomo “bastante desgastada”, culminando em um “duro golpe” quando Vital levou a montagem ao Rio de Janeiro sem o elenco original. Ela lembra que O Príncipe dos Mares de Olinda“resultou num certo fracasso” de público. Apesar das dificuldades, isso não “invalida a admiração que tenho pelas suas criações”, ressalva Fátima.

Já Samuel Santos, que encontrou em Vital sua “universidade” e “teatro escola”, destaca o “perfeccionismo” e a forma como Vital “primava pela coordenação poética da cena”, dedicando-se a “lapidar, mexer, descobrir a melhor maneira de apresentá-la ao público”. Samuel enfatiza que o trabalho com Vital exigia “desapego com o tempo e estar disponível para as construções e desconstruções das cenas”, ressaltando a ausência de um método formal, mas a presença de uma “forma de construir suas peças com alto grau de interesse a cada cena”.

Consagração e Controvérsia

Auto das Sete Luas de Barro. Sebá como Vitalino

Entre as 17 obras resgatadas, duas sempre se destacaram pela intensidade de sua recepção, uma pela aclamação unânime e a outra pela polêmica gerada. Auto das Sete Luas de Barro é, sem dúvida, a obra que catapultou Vital Santos ao patamar dos grandes nomes do teatro brasileiro. Reconhecida como uma “fantasia dramática e musical”, a peça narra a vida do Mestre Vitalino, o célebre ceramista de Caruaru, e, por extensão, a luta e o sofrimento dos artistas populares do Nordeste.

Minhas lembranças dessa obra são vívidas. Ela não apenas conquistou a crítica, mas arrebatou o público por onde passou. O crítico Yan Michalski, do Jornal do Brasil, elogiou-a efusivamente, chamando-a de “um barro que vale ouro” e destacando sua “absoluta originalidade no conteúdo e na forma”. Ele ressaltou a capacidade de Vital Santos de combinar a “inspiração de velhas tradições populares do Nordeste, a preocupação com os contrastes e conflitos sociais que afligem a região hoje em dia, e uma inventiva cênica capaz de sensibilizar o público de qualquer região do país”. A forma como os atores se transformavam em bonecos de barro, imitando as cerâmicas de Vitalino, foi particularmente celebrada por sua “inusitada beleza formal”.

Outros críticos, como Clóvis Garcia (O Estado de S. Paulo), a consideraram uma obra excepcional por sua capacidade de unir uma apresentação cênica bem realizada com uma poderosa mensagem social, denunciando a exploração dos artistas populares sem cair no “lixo cenográfico”. Carmelinda Guimarães (A Tribuna) a classificou como a “grande revelação” do Projeto Mambembão, um espetáculo de “elevado nível profissional” e “grande beleza estética”.

O reconhecimento se materializou em importantes premiações, como o Troféu Mambembe (melhor diretor para Vital Santos e categoria especial para o Grupo Folguedo de Arte Popular), o Prêmio Molière (melhor diretor) e o Prêmio APCA (categoria especial) em 1980. A peça foi um divisor de águas, mostrando a força do teatro vindo do interior do país. Mesmo décadas depois, como eu destaquei no Diario de Pernambuco em 1993, a obra “ainda comove a quem o assiste” e se mantém atual, sendo uma “pequena obra-prima” que aborda a odisseia dos artesãos populares e suas dificuldades. O texto continua sendo levado à cena por grupos, incluindo a atual Companhia Feira de Teatro Popular, de Caruaru, provando a perenidade de seu impacto.

A adaptação de Vital Santos para a clássica tragédia de Shakespeare, Uma Canção Para Othello, chamou a atenção não apenas por sua audácia em transpor o drama para o cenário pernambucano, especificamente a comunidade de pescadores de Brasília Teimosa, mas também pela intensa polêmica que a cercou.

A peça, escrita em parceria com Antônio Guinho, narra a história de Othello, um líder negro do Maracatu Agulha de Prata e presidente da Associação de Moradores, que se apaixona por Desdêmona, filha de um racista Brabâncio. A inveja de Tiago, um falso amigo de Othello, tece uma trama de desconfiança e traição que culmina em tragédia. A obra mescla a cultura popular nordestina – Maracatu, palafitas, o mar revolto personificado – com referências shakespearianas, incluindo a introdução do próprio Shakespeare como um anjo no Cemitério dos Ingleses e as bruxas de Macbeth transformadas em mães de santo.

Contudo, a produção desta obra foi marcada por “inúmeros problemas” e uma “dor de cabeça” significativa para Vital Santos. A parceria entre Vital e Antônio Guinho, embora iniciada com um prêmio de Incentivo à Dramaturgia do Ministério da Cultura em 1996, deteriorou-se. A estreia original no Recife, em 1999, foi adiada, e uma segunda montagem em Caruaru, com um elenco mesclado de atores do Recife e da Companhia Feira de Teatro Popular, teve sua carreira “interrompida bruscamente por conta de ameaças de processo judicial”.

O estopim da polêmica foi a disputa sobre a autoria, com Guinho alegando ter escrito 90% do texto e sentindo-se desrespeitado pela forma como a obra era creditada. Segundo fontes, a menção de “coautoria” em Caruaru foi a gota d’água, levando Guinho a impedir uma récita no Recife por meio de um oficial de Justiça e a ameaçar Vital com um processo legal. Essa disputa resultou em um “rompimento da amizade que não se refez” e, como a filha de Vital Santos, Isabela Sobral, confirmou, gerou execuções fiscais que “deram muita dor de cabeça à família, até mesmo depois da morte dele”.

Apesar dos problemas, a obra teve um impacto notável. O próprio Leidson Ferraz  (escrevendo para a revista eletrônica @ponte) e outros críticos à época reconheceram a audácia da adaptação e a beleza do simples na encenação, com a “cara, a cor e o som do Recife”. Anos depois, em 2012, Vital Santos assinou sozinho uma versão da peça, Canção Para Othello, encenada em Santos/SP, sob a direção de Tanah Corrêa, o que sugere uma reescrita ou reivindicação total da autoria após a polêmica.

Rua do Lixo, 24, de 1976

Um dos principais objetivos da coleção é estimular novas montagens das obras de Vital Santos em todo o país. Quase todas musicais (e muitas inéditas em livro até agora), as peças poderão ser encenadas gratuitamente por grupos amadores, escolas e universidades, desde que a estreia seja comunicada à filha do artista, detentora dos direitos autorais. Então, a coleção abre novas portas para a perpetuação de um legado que, como diz Leidson, “merecia ter sua trajetória de vida artística e parte das suas inesquecíveis peças registradas em livro, como ele bem queria. Do povo para o povo”.

Embora Vital Santos já seja reconhecido nacionalmente, Ferraz acredita que o projeto amplia ainda mais a presença de seu nome no imaginário teatral brasileiro. “Há peças dele que considero verdadeiras obras-primas. Elas merecem novos olhares, novas encenações”, afirma. “Espero que os livros despertem o interesse pelas escritas e pelas montagens de Vital, que instiguem outros artistas a dialogar com essa obra. Quem sabe, assim, ele continue sendo sempre uma referência para quem pensa um teatro musical genuinamente brasileiro – algo pelo qual ele lutou a vida inteira.”

Os eventos de lançamento prometem ser uma verdadeira confraternização da turma do teatro pernambucano, com a participação de DJs, cenas de Auto das Sete Luas de Barro pela Companhia Feira de Teatro Popular, e a presença de tradutoras de Libras para inclusão da comunidade surda. Em Caruaru, a renda da venda dos livros será revertida para a manutenção do Theatro Mamusebá, capitaneado pelo Mestre Sebá, evidenciando o compromisso do projeto com a sustentabilidade da cultura local.

Esta é a oportunidade de conhecer a profundidade, o humor, a poesia e a relevância social da obra de Vital Santos, um artista que, com sua inventividade, continua a inspirar e a enriquecer o cenário cultural do Brasil.

O Universo Dramatúrgico:
As 17 Peças Publicadas

A coleção, que totaliza 848 páginas e quase 200 fotografias raras, oferece um panorama completo da produção de Vital Santos:

Auto das Sete Luas de Barro (1979): Obra-prima sobre Mestre Vitalino que catapultou Vital ao patamar nacional. Fantasia dramática e musical sobre a exploração dos artistas populares do Nordeste.

A Noite dos Tambores Silenciosos (1981): Musical nordestino sobre lutas camponesas pós-1964. Segue Cravo Branco, exilado que retorna a Olinda delirando entre lembranças da repressão.

Olha Pro Céu, Meu Amor (1983): “Ópera circense” sobre compositor de Caruaru que vai ao Rio sonhando ter músicas gravadas por Roberto Carlos. Explora desafios dos migrantes nordestinos.

Concerto Para Virgulino Sem Orquestra (1994): “Ópera cordel” que estabelece paralelos entre Jesus Cristo e Lampião, retratando volta do cangaceiro para salvar o povo nordestino.

No Fim do Beco há um Bosque (1994): Drama político em favela brasileira. Luta por espaço digno em meio à miséria urbana, buscando esperança através da organização coletiva.

Cantigas do Sol – Dom Quixote de Cordel (2009): “Cantata popular” usando Luiz Gonzaga como fio condutor para crítica da política da seca no Nordeste.

As Proezas do Rei Saul na Terra de Caruaru (2007): “Ópera baião” farsesca em reino medieval fictício, narrada por cordelista.

O Príncipe dos Mares de Olinda Contra a Fúria das Águas (1997): Única obra infantojuvenil, alegoria sobre preservação cultural criticando degradação de Olinda.

Uma Canção Para Othello (1996): Adaptação audaciosa de Shakespeare para Brasília Teimosa, transformando Othello em líder de maracatu.

Feira de Caruaru (1968): Retrato da cidade natal que causou alvoroço no município, marco na carreira de Vital.

Rua do Lixo, 24 (1969): Montagem icônica sobre condições precárias urbanas que deu origem ao Grupo Feira de Teatro Popular.

A Menor Pausa: Peça dos “áureos tempos” que consolidou Vital como dramaturgo.

A Árvore dos Mamulengos: Demonstra conexão com tradições populares nordestinas e teatro de bonecos.

O Sol Feriu a Terra e a Chaga se Alastrou: Obra de grande criatividade cênica abordando sofrimento nordestino com linguagem poética.

Solte o Boi na Rua: Texto que marcou início de Mestre Sebá no teatro.

Aparição e Vagabundo: Peça ensaiada por meses que, paradoxalmente, “sequer estreou”.

Bom Dia, Carmen Miranda!: Obra inédita incluída na coleção.

SERVIÇO
LANÇAMENTOS DOS LIVROS DRAMATURGIA VITAL

RECIFE

Data: 17 de dezembro de 2025 (quarta-feira), 19h
Local: SESC Santo Amaro (Rua Treze de Maio, 455, Santo Amaro – Recife)
Programação: DJ Vibra + cena da peça Auto das Sete Luas de Barro com a Companhia Feira de Teatro Popular
Acessibilidade: Tradutoras de Libras

CARUARU

Data: 18 de dezembro de 2025 (quinta-feira), 19h
Local: SESC Caruaru Teatro Rui Limeira Rosal (Rua Rui Limeira Rosal, s/n, Petrópolis – Caruaru)
Programação: DJ Rudá + cena da peça Auto das Sete Luas de Barro com a Companhia Feira de Teatro Popular
Acessibilidade: Tradutoras de Libras
Especial: Renda da venda dos livros será destinada à manutenção do Theatro Mamusebá
PREÇOS DOS LIVROS: R$ 30 cada volume R$ 50 os dois volumes juntos
REALIZAÇÃO: Funarte
APOIO: SESC/PE
COLABORAÇÃO: Vereadora Cida Pedrosa
PROJETO GRÁFICO: Cláudio Lira
CONTATOS:Leidson Ferraz: E-mail: leidson.ferraz@gmail.com
Instagram: @leidsonferraz
Site: www.leidsonferraz.com.br

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Recife intensifica calendário cultural
com programação internacional

Germaine Acogny encerra dois festivais simultâneos, Foto: Thomas Dorn

O último terço do ano confirma a vocação do Recife como palco de experiências cênicas diversificadas. Nos próximos dias a cidade recebe simultaneamente festivais consolidados e estreias nacionais, criando densidade artística que atravessa teatros, parques e espaços alternativos. A programação reúne desde a presença singular de Germaine Acogny, figura seminal da dança contemporânea africana, até companhias europeias que investigam novas possibilidades do circo contemporâneo.

Aos 81 anos, Germaine Acogny chega ao Teatro Santa Isabel como ponto de convergência entre o Festival Internacional de Dança do Recife e o Festival de Teatro do Agreste – Feteag. Fundadora da École des Sables no Senegal, considerada a mais importante escola de dança contemporânea da África, ela desenvolveu metodologia própria que associa técnicas tradicionais senegalesas com formação moderna adquirida em Nova York nos anos 1970.

À un endroit du début surge como síntese autobiográfica onde Acogny revisita suas origens através do prisma da tragédia grega. A montagem, criada em colaboração com o diretor franco-alemão Mikaël Serre, conecta as palavras proféticas de sua avó, a sacerdotisa Aloopho, com o sofrimento de Medeia. A dramaturgia corporal e os elementos cênicos incluem projeções que potencializam a gestualidade ancestral, criando diálogo temporal entre cosmogonia iorubá e dramaturgia clássica ocidental. Ganhadora do Leão de Ouro na Bienal de Dança de Veneza em 2021, Acogny transforma o palco em território onde sua técnica singular ganha dimensão ritualística.

Antes da chegada da mestre senegalesa, o Festival de Dança do Recife apresenta criações que exploram identidade e ancestralidade através da corporeidade. Orun Santana desenvolve em “Orunmilá” um paralelo poético entre sua identidade pessoal e a divindade iorubá da sabedoria e adivinhação. O espetáculo incorpora o jogo de búzios como elemento dramatúrgico, encarnando figuras diferentes e construindo caminhos para lidar com o tempo em seu caráter espiralar, conectando-se à pesquisa do artista sobre A ancestralidade do presente.

Na mesma linha investigativa, Marcos Teófilo questiona expectativas sociais em Para Expectativa Somente Desvios, utilizando narrativas corporais complexas que propõem caminhos alternativos através do movimento. Enquanto isso, a Batalha da Escadaria no Compaz Eduardo Campos reúne vertentes da cultura urbana metropolitana: Serafin’s Company mistura afrobeats com hip hop local, criando sonoridade que reflete a diversidade cultural da região; a Batalha de All Style reúne dançarinos de diferentes vertentes; e o Baile Charme manifesta a cultura de rua que mescla dança, música e sociabilidade urbana.

Paralelamente, o Feteag 2025 examina questões contemporâneas através de obras que interrogam estruturas sociais. Bolor, de Gabi Holanda, Guilherme Allain e Isabela Severi, emprega fungos como protagonistas metafóricos de processos de decomposição e renascimento, confrontando diretamente a mitologia freyreana do açúcar. A criação expõe a violência estrutural da plantation açucareira através de estética que valoriza redes subterrâneas de resistência, dialogando com pensadores como Malcom Ferdinand e Anna Tsing para imaginar futuros decoloniais.

Nessa perspectiva crítica, Les Sans (Os sem), do coletivo Les Récréâtrales-ELAN de Burkina Faso, adapta o pensamento de Frantz Fanon para o teatro através do reencontro de dois ex-companheiros de luta. Ali Kiswinsida Ouédraogo explora o conflito entre Franck e Tiibo, onde um mantém ideais de transformação social enquanto o outro foi cooptado pelo sistema que combatiam, interrogando as limitações da independência burkinabê e questionando se a libertação formal constitui verdadeira descolonização.

Cia Etc reflete sobre as pulsões contemporâneas com O Tempo das Lebres. Foto: Divulgação

Enquanto os festivais investem em questões identitárias e pós-coloniais, a Cia. Etc. celebra 25 anos de trajetória com uma reflexão sobre o tempo contemporâneo. O Tempo das Lebres, investigação artística iniciada em 2019 e inspirada no livro homônimo do filósofo José Antônio Feitosa Apolinário, nasce da urgência de examinar o estado contemporâneo onde pressa e produtividade atingem níveis que empurram o mundo a um estado permanente de exaustão, ansiedade e desconexão, mesmo após a crise provocada pela pandemia.

A estética techno atravessa a montagem, reforçando a pulsação frenética das cidades e das telas presentes na sociedade contemporânea. Dirigida por Marcelo Sena e Filipe Marcena, a obra questiona o culto à velocidade e pergunta sobre o que acontece com quem não acompanha o ritmo imposto. Nesse contexto, a escolha do estúdio da TV Universitária como espaço cênico permite mesclar linguagens da dança, performance, audiovisual, instalação e música, criando imersão inédita onde o audiovisual torna-se parte essencial dos processos de aceleração tecnológica.

Importante destacar que a acessibilidade integra a dramaturgia: audiodescritoras caminham junto ao público composto por pessoas cegas e com baixa visão, narrando cada cena em tempo real no pé do ouvido. Essa escolhas técnica dialoga com as apresentações que sucedem uma série de performances urbanas que serviram como laboratório criativo – Tempo Morto, Fast Foda, Escape e Memória do Mundo – intervenções que discutiram corpo, ritmo e desconforto em espaços públicos.

Experimentações Autorais no Espaço O Poste

Luanda Ruanda – histórias africanas. Foto: Tatá Costa

Fabíola Nansurê em Barro Mulher

Negaça

Em outro território de criação, o Espaço O Poste funciona como laboratório de produções autorais que desenvolvem pesquisas continuadas sobre identidade, memória e resistência. Nessa programação curada, Fabíola Nansurê, reconhecida por suas pesquisas sobre corpo e território, constrói em Barro Mulher uma dramaturgia sensorial que utiliza barro como elemento cênico central. A obra explora texturas, plasticidade e simbolismo do material para questionar padrões estéticos e sociais impostos aos corpos femininos, propondo reflexão sobre resistência, autoconhecimento e reconexão com elementos primordiais da natureza.

A encenação dialoga com tradições ceramistas nordestinas e práticas rituais ancestrais, criando pontes entre saberes populares e linguagem cênica contemporânea. Essa mesma busca por conectar tradições e contemporaneidade aparece em Luanda Ruanda: Histórias Africanas, onde Stephany Metódio, especializada em culturas africanas e afro-brasileiras, apresenta experiência que resgata narrativas africanas através de contação que conecta tradições orais do continente com experiências da diáspora no Brasil.

A artista desenvolve dramaturgia que articula contos tradicionais de diferentes regiões da África com reflexões sobre identidade, pertencimento e resistência cultural, utilizando música, dança e elementos visuais para criar atmosfera que transporta o público para universos narrativos ricos em simbolismo e ensinamentos ancestrais. A montagem possui relevância educativa e cultural, funcionando como instrumento de valorização da herança africana e combate ao racismo através da arte. Contemplado três vezes pelo Funcultura-PE, o espetáculo já percorreu mais de 15 comunidades quilombolas e foi vencedor do Prêmio Pernalonga de Teatro 2024 na categoria Teatro para Infância.

Fechando essa trilogia de investigações identitárias, Urubatan Miranda encerra a programação mensal com Negaça, solo que explora construções de masculinidade no contexto nordestino através de autobiografia cênica que articula memória pessoal com questões coletivas sobre identidade de gênero e afetividade. O trabalho questiona estereótipos sobre homens nordestinos, explorando sensibilidades, vulnerabilidades e formas de amar que escapam aos padrões heteronormativos dominantes, utilizando humor, poesia e crítica social para desconstruir imagens cristalizadas sobre masculinidade sertaneja.

Diálogo Entre Arte e Ciência

Frankinh@ em cartaz na Caixa Cultural Recife. Foto vilmar carvalho

Transitando para um território conceitual diferente, o Coletivo Gompa apresenta na CAIXA Cultural temporada dupla que coloca arte em diálogo direto com ciência, biologia, literatura e física. Frankinh@, vencedor do Prêmio SESC de Artes Cênicas e já apresentado em 18 cidades brasileiras, além de Rússia e Cuba, mescla narração, teatro, dança, artes visuais e trilha sonora original para reinventar a primeira obra de ficção científica da história.

A montagem busca despertar o imaginário infantil e sua capacidade criativa através da história de Victor Frankenstein, jovem esquisito e solitário que acaba criando alguém para lhe fazer companhia, desafiando os limites da ciência. A Criatura não sai exatamente como planejado, ensinando Victor a lidar com surpresas e transformações.

Em contrapartida, a versão adulta Frankenstein revisita o clássico de Mary Shelley com olhar contemporâneo, criando paralelos entre corpo feminino e Amazônia, explorando questões como pertencimento, violência e identidade. No palco, os bailarinos Fabiane Severo e Alexsander Vidaleti dão vida às vozes de Sandra Dani e Elcio Rossini, em encenação que combina textos, cenário, figurinos e iluminação com narrativa decolonial. A trilha sonora, assinada por Álvaro Rosa Costa, é manipulada ao vivo buscando criar “dissonância Frankenstein”, unindo samples, ruídos e improvisações.

Sonho Encantado de Cordel – O Musical é inspirado no enredo da Escola Imperatriz Leopoldinense 

No circuito dos grandes espetáculos, Sonho Encantado de Cordel – O Musical se apresenta como uma das mais ambiciosas produções teatrais da temporada. O espetáculo, inspirado no enredo Uma Delirante Confusão Fabulística de 2005, criado por Rosa Magalhães para a Imperatriz Leopoldinense em homenagem ao centenário de Hans Christian Andersen, funde elementos da cultura nordestina com o universo dos contos de fadas dinamarqueses.

A produção de Thereza Falcão conta com mais de 10 cenários e 50 figurinos criados pela carnavalesca Rosa Magalhães – obra póstuma da artista, que faleceu em julho deste ano aos 77 anos, deixando todos os desenhos prontos na noite anterior à sua partida. Mauro Leite, braço direito de Rosa, conduz a execução dos figurinos, dialogando com projeções e vídeos dirigidos por Batman Zavareze. As coreografias são assinadas por Renato Vieira, enquanto Marcelo Alonso Neves assina a direção musical.

O diferencial musical reside nas 10 composições inéditas de Paulinho Moska, Chico César e Zeca Baleiro, criando linguagem sonora que honra raízes nordestinas e universalidade fabular. A história gira em torno de Rosa Cordelista, jovem que sonha em se tornar grande cordelista e, através de sonho mágico, encontra Hans Christian Andersen em jornada repleta de personagens míticos.

Jeison Walace como Cinderela. Foto: Divulgação

Também investindo no humor como linguagem, o Teatro do Parque recebe Jeison Wallace em Cinderela em: Toda Cidade Tem, espetáculo que explora com inteligência as peculiaridades e situações do cotidiano encontradas em qualquer cidade brasileira. O comediante, consolidado como uma das principais referências da comédia nacional, constrói esquetes que abordam desde fofoca de bairro até personagens que marcam o dia a dia local, criando identificação imediata com públicos diversos através de piadas que fazem aquela mistura.

Na mesma linha de entretenimento familiar, Os 3 Super Porquinhos, também no Teatro do Parque, recebe tratamento contemporâneo de Roberto Costa, transformando o conto clássico em comédia musical que aborda preservação ambiental. A adaptação inverte arquétipos tradicionais: o Lobo torna-se personagem cômico e educativo, interagindo com crianças e se mostrando bobalhão, enquanto a caminhada final pela paz e preservação na floresta propõe conscientização sobre causas ambientais atuais.

Tom na Fazenda, sucesso de público e crítica no Brasil e exterior

Por outro lado, o Teatro Luiz Mendonça recebe produções de maior densidade dramática, como Tom na Fazenda, adaptação da peça de Michel Marc Bouchard que retorna ao Recife após turnê europeia de cinco meses, incluindo temporada de um mês em Paris com recorde de público e bilheteria, além de participação no Festival de Edimburgo. O espetáculo, visto por mais de 150.000 pessoas em mais de 450 apresentações desde 2017, explora sobrevivência emocional em ambiente rural hostil.

A trama acompanha Tom, que viaja para fazenda no interior após morte de seu companheiro para participar do funeral. Lá encontra a mãe, que desconhece a orientação sexual do filho falecido, e o irmão, camponês violento que insiste através de agressão que Tom esconda o relacionamento da mãe enlutada. Na fazenda, mentir torna-se primeira condição de sobrevivência, criando dramaturgia visceral que mistura realismo e expressionismo para abordar homofobia interiorizada e construção de masculinidades.

Festival de Circo

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Nove Tentativas de Não Sucumbir, da Cia Devir 

Espetáculo Juventud da Cie NDE funde dança e malabarismo

Completando esse panorama diversificado, o Festival de Circo do Brasil democratiza acesso ao circo contemporâneo através de programação com espetáculos espalhados por teatros, parques e espaços públicos, sendo 9 totalmente gratuitos. Abrindo essa celebração circense, a Cia Devir apresenta Nove Tentativas de Não Sucumbir, obra dirigida por Jean Michel Guy que transforma o ato de equilibrar-se no trapézio em metáfora sobre reconhecimento, resistência e reinvenção. Entre técnica, vulnerabilidade e humor, o espetáculo investiga o que mantém corpos em movimento e a força de tentar – mais uma vez – não sucumbir.

Da esfera internacional, a programação inclui Copyleft da Cie. NDE, que reúne dream team de cinco países – Juan Duarte Mateos (Uruguai), Lucas Castelo Branco (Brasil), Nahuel Desanto (Argentina), Gonzalo Fernandez Rodriguez (Espanha) e Walid El Yafi (França) – em turbilhão de malabarismo e dança com 45 minutos de duração. Criada para espaços públicos e terrenos diversos, a obra combina precisão técnica e energia coletiva sob direção de Nicanor de Elia.

Retornando à produção nacional, o Grupo Esparrama traz Esparrama Circo, homenagem à tradição popular do circo que transforma o cotidiano em espetáculo. Os palhaços convidam o público a tornar-se protagonista da cena, despertando memórias afetivas ligadas ao riso, ao jogo e à convivência coletiva. Nessa mesma linha participativa, o Coletivo Fuscirco apresenta A Risita, onde Rupi e Pitchula chegam com Fusca Azul 1974 trazendo circo completo: música, malabares, equilibrismo e humor cearense. Do carro que é transporte e lar surgem todos os elementos, transformando o picadeiro em espetáculo que garante interação e alegria do início ao fim.

Valorizando a produção local, a Mostra PE celebra talentos pernambucanos com cinco números: Aura Duo de Jéssica Moura e Fernanda Victor em lira acrobática baseada em confiança e sincronia; Malabares da Família Malanarquista celebrando malabarismo e arte de rua; Balanceiro de Paiace Brotin com habilidades bambolísticas no trânsito; Escada Sem Limites de Xixa Morales com uma das maiores escadas de equilíbrio do Brasil (4,5 metros); e Eclipse: Dança dos Astros de Jimmy Sá, onde artista e lira criam analogia ao fenômeno astronômico.

Explorando territórios experimentais, Hyperboles da Cie. SCoM busca aprofundar interseções entre skate e acrobacia, conectando essas linguagens a reflexão sobre o lugar das mulheres em práticas historicamente dominadas por homens. Reunindo artistas circenses e skatistas de diferentes culturas, o projeto propõe criação de espaço de troca onde cada corpo contribui para enriquecimento artístico mútuo.

Ainda na linha de espetáculos itinerantes, How Much We Carry? do Cirque Immersif convida à pausa e ao encontro ao redor de aparelho circense inusitado: a percha gigante em constante desequilíbrio. Com olhar sensível sobre o verbo “carry” – que significa tanto carregar quanto cuidar –, dois personagens conduzem tudo que encontraram pelo caminho, criando homenagem às caminhadas e àqueles que cruzam nossa trajetória.

Representando a pesquisa continuada brasileira, a Cia Nós No Bambu apresenta dois solos de Poema Mühlenberg que consolidam mais de quinze anos de pesquisa em arte-corpo-bambu. Sarayvara celebra 21 anos de dedicação, enquanto O Vazio É Cheio de Coisa constitui síntese de sua investigação, criando dramaturgia de imagens e significados que emergem da relação sensível entre humano e vegetal. Artista e artesã, Poema cuida de bambuzal: colhe, projeta, trata e constrói instrumentos, transpondo saberes artesanais para corpo cênico.

Nas criações internacionais mais conceituais, Fragmentos da La Víspera explora distorções e desintegrações corporais, transformando dor em linguagem cênica através de máscaras, marionetes e experimentações com luz. O espetáculo aborda fragmentação como alívio paradoxal ao sofrimento, criando thriller circense sobre processo de transformação contínua entre escolhas pessoais e atravessamentos externos.

Por outro lado, Vermelho, Branco e Preto de Cibele Mateus dá vida à figura cômica “Mateu” do Cavalo Marinho pernambucano, construindo brincadeira-manifesto que celebra alegria como tecnologia de reexistência, misturando riso, poesia e encantamento popular para questionar padrões coloniais e afirmar ancestralidade.

Em outra abordagem crítica, Le Bruit des Pierres do Collectif Maison Courbe entrelaça circo coreográfico, artes visuais e teatro físico para examinar ganância da sociedade ocidental pelo ouro. Duas mulheres personificam essa obsessão: uma cobre pedras com folhas douradas em gesto ritual repetitivo, enquanto outra as devora freneticamente até a overdose. Entre pedras e corpos surgem coreografias que exploram suspensão, desequilíbrio e queda, trazendo reflexão sobre exaustão capitalista e fragilidade ambiental.

Encerrando essa mostra circense, Juventud da Cie NDE funde dança e malabarismo, transformando fisicalidade circense em campo de experimentação e liberdade. A obra propõe manifestação em movimento constante, onde beleza não está na ordem ou perfeição, mas na complexidade do coletivo, em que indivíduo e grupo se complementam sem se anular.

Serviço 

Encerramento dos Festivais (Dança e Feteag)

À un endroit du début (Germaine Acogny)
Síntese autobiográfica entre cosmogonia iorubá e tragédia grega
Data: 26 de outubro de 2025 (Domingo) | Horário: 19h
Local: Teatro Santa Isabel (Praça da República, s/n, Santo Antônio)
Ingressos: Gratuito (retirada 1h antes, mediante doação de 1 kg de alimento não perecível)

Festival Internacional de Dança do Recife

Orunmilá (Orun Santana) | Jogo de búzios como dramaturgia espiralar sobre ancestralidade
Data: 24 de outubro de 2025 (Sexta-feira) | Horário: 14h e 19h
Local: Teatro Hermilo Borba Filho | Acessibilidade: Libras
Para Expectativa Somente Desvios (Marcos Teófilo) | Narrativas corporais complexas questionam expectativas sociais
Data: 24 de outubro de 2025 (Sexta-feira) | Horário: 20h30
Local: Teatro Apolo | Acessibilidade: Libras
Cavalo Marinho Estrela Brilhante | Manifestação popular nordestina mistura teatro, dança e improviso
Data: 26 de outubro de 2025 (Domingo) | Horário: 16h
Local: Teatro Hermilo Borba Filho
Circo Experimental Negro – O Encontro da Tempestade e a Guerra | Intersecção afrocentrada entre circo, dança e teatro
Data: 25 de outubro de 2025 (Sábado) | Horário: 17h
Local: Teatro Apolo
Lúden Cia de Dança – Ciclobrega” | Fusão inusitada entre dança contemporânea e cultura do brega
Data: 25 de outubro de 2025 (Sábado) | Horário: 18h
Local: Teatro Hermilo Borba Filho
Batalha da Escadaria” | Cultura urbana pernambucana em afrobeats, hip hop e baile charme
Data: 25 de outubro de 2025 (Sábado) | Horário: 15h às 21h
Local: Compaz Eduardo Campos

FETEAG 2025

Bolor” (Gabi Holanda, Guilherme Allain e Isabela Severi) | Fungos como metáfora da decomposição da mitologia açucareira
Data: 24 de outubro de 2025 (Sexta-feira) | Horário: 19h
Local: Teatro Rui Limeira Rosal | Ingressos: Gratuito
Les Sans (Os sem)” (Les Récréâtrales-ELAN) | Pensamento fanoniano questiona limitações da independência africana
Data: 24 de outubro de 2025 (Sexta-feira) | Horário: 21h
Local: Teatro Lycio Neves | Ingressos: Gratuito
L’Opéra du villageois” (Compagnie Zora Snake) | Performance-ritual ressuscita máscaras africanas roubadas pelos museus europeus
Data: 25 de outubro de 2025 (Sábado) | Horário: 17h
Local: Estação Ferroviária | Ingressos: Gratuito
Corpos” (Cie Mangrove) | Laboratório coreográfico entre culturas caribenhas e brasileiras
Data: 25 de outubro de 2025 (Sábado) | Horário: 19h
Local: Teatro Rui Limeira Rosal | Ingressos: Gratuito
Inquieta (Música)” (Larissa Lisboa com Gabi da Pele Preta) | Nova cena musical pernambucana negra e LGBTQIA+
Data: 25 de outubro de 2025 (Sábado) | Horário: 21h
Local: Teatro Lycio Neves | Ingressos: Gratuito

Cia. Etc. – 25 Anos

O Tempo das Lebres” | Estética techno examina aceleração contemporânea e exaustão sistêmica
Datas: 24 e 25 de outubro (Recife) | 30 e 31 de outubro (Triunfo)
Horário: 20h (Recife) | 19h (Triunfo)
Local: TV Universitária – Estúdio B (Recife) | Sociedade Triunfense de Cultura (Triunfo)
Ingressos: R30(inteira)/R 15 (meia) – Recife | Gratuito – Triunfo
Classificação: 12 anos | Mais informações: @ciaetc

Espaço O Poste – Laboratório Autoral

Barro Mulher” (Fabíola Nansurê) | Dramaturgia sensorial questiona padrões estéticos através do barro
Data: 24 de outubro de 2025 (Sexta-feira) | Horário: 19h
Local: Espaço O Poste (Rua do Riachuelo, 641, Boa Vista)
Ingressos: R30(inteira)/R 15 (meia)
Luanda Ruanda: Histórias Africanas” (Stephany Metódio) | Contação antirracista conecta tradições africanas com diáspora brasileira
Data: 25 de outubro de 2025 (Sábado) | Horário: 16h
Local: Espaço O Poste | Ingressos: Gratuito | Classificação: Livre
Negaça” (Urubatan Miranda) | Solo autobiográfico desconstrói estereótipos da masculinidade nordestina
Data: 31 de outubro de 2025 (Quinta-feira) | Horário: 19h
Local: Espaço O Poste | Ingressos: R30(inteira)/R 15 (meia)

CAIXA Cultural Recife – Coletivo Gompa

Frankinh@ – Uma história em pedacinhos” | Primeira ficção científica da história adaptada para despertar imaginário infantil
Datas: 25 e 26 de outubro e 1º de novembro | Horários: 17h (sábado) | 11h (domingo)
Local: CAIXA Cultural Recife (Av. Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife)
Ingressos: R30(inteira)/R 15 (meia) | Classificação: Livre
Acessibilidade: Sessão de 26/10 com Libras | Informações: (81) 3425-1915
Frankenstein” | Perspectiva decolonial conecta corpo feminino e Amazônia
Datas: 30 de outubro (Quinta-feira), 31 de outubro (Sexta-feira) e 1º de novembro (Sábado) | Horário: 20h
Local: CAIXA Cultural Recife | Classificação: A partir de 16 anos
Ingressos: R30(inteira)/R 15 (meia) | Acessibilidade: Sessão de 31/10 com Libras

Produções Teatrais

Sonho Encantado de Cordel – O Musical” | Fusão entre Hans Christian Andersen e cultura nordestina inspirada na Imperatriz Leopoldinense
Datas: 25 de outubro (Sábado) e 26 de outubro (Domingo) | Horários: Sábado: 17h | Domingo: 15h e 17h
Local: Teatro Luiz Mendonça (Av. Boa Viagem, s/n, Boa Viagem)
Patrocínio: Ministério da Cultura e CAIXA Vida e Previdência
Cinderela em: Toda Cidade Tem” (Jeison Wallace) | Humor inteligente sobre peculiaridades do cotidiano urbano brasileiro
Data: 25 de outubro de 2025 (Sábado) | Horário: 18h30
Local: Teatro do Parque (R. do Hospício, 81, Recife)
Ingressos: R120(inteira)/R 60 (meia) / R$ 80 (social com 1kg alimento)
Classificação: 14 anos | Informações: (81) 98463-8388
Os 3 Super Porquinhos” | Comédia musical inverte arquétipos para conscientização ambiental
Data: 26 de outubro de 2025 (Domingo) | Horário: 11h
Local: Teatro do Parque | Ingressos: R100(inteira)/R 50 (meia) / R$ 70 (social)
Acessibilidade: Libras | Informações: @robertocostaproducoes
Tom na Fazenda” | Sobrevivência emocional em ambiente rural hostil após turnê europeia
Datas: 7 de novembro (Sexta-feira), 8 de novembro (Sábado) e 9 de novembro (Domingo) | Horários: Sex/Sáb: 20h | Dom: 19h
Local: Teatro Luiz Mendonça
Chapeuzinho de Neve Adormecida” | Confusão divertida entre múltiplos contos clássicos
Data: 1º de novembro (Sábado) | Horário: 16h30 | Ingressos: R50 a R 100
Local: Teatro Luiz Mendonça
A Princesa dos Mares – O Musical” | Jornada épica oceânica com mensagem de preservação ambiental
Data: 2 de novembro (Domingo) | Horário: 16h30 | Ingressos: R50 a R 100
Local: Teatro Luiz Mendonça

Festival de Circo do Brasil – 13 Espetáculos

Nove Tentativas de Não Sucumbir” (Cia Devir) | Trapézio como metáfora sobre resistência e reinvenção humana
Datas: 31 de outubro (Quinta-feira) e 1º de novembro (Sábado) | Horário: 19h
Local: Teatro Apolo | Classificação: 14 anos
Ingressos: Gratuito (retirada via Sympla) | Acessibilidade: 1º/11 com Libras
Copyleft” (Cie. NDE) | Dream team internacional em turbilhão malabarístico de cinco países
Data: 8 de novembro (Sábado) | Horário: 15h
Local: Parque Apipucos | Classificação: Livre
Ingressos: Gratuito
Esparrama Circo” (Grupo Esparrama) | Público como protagonista em homenagem à tradição circense popular
Datas: 1º de novembro (Sábado) e 2 de novembro (Domingo)
Local: Parque Santana – Ariano Suassuna | Classificação: Livre
Ingressos: Gratuito
A Risita” (Coletivo Fuscirco) | Circo completo em Fusca Azul com humor cearense
Datas:
1º de novembro (Sábado) e 2 de novembro (Domingo) | Parque Santana – Ariano Suassuna
3 de novembro (Segunda-feira) | 15h | Compaz Ariano Suassuna
4 de novembro (Terça-feira) | 16h | Vera Cruz/Aldeia – Camaragibe
Classificação: Livre | Ingressos: Gratuito
Mostra PE” | Cinco números da produção local pernambucana
Datas: 1º de novembro (Sábado) e 2 de novembro (Domingo)
Local: Parque Santana (Casa Forte) | Classificação: Livre
Ingressos: Gratuito
Hyperboles” (Cie. SCoM) | Interseção entre skate e acrobacia questionando lugar das mulheres
Datas: 1º de novembro (Sábado) e 2 de novembro (Domingo)
Local: Parque Santana – Ariano Suassuna | Classificação: Livre
Ingressos: Gratuito
How Much We Carry?” (Cirque Immersif) | Percha gigante em desequilíbrio como convite ao encontro
Datas:
1º de novembro (Sábado) e 2 de novembro (Domingo) | Parque Santana (Casa Forte)
7 de novembro (Sexta-feira) | 16h30 | Alto da Sé (Olinda)
8 de novembro (Sábado) | 15h | Oficina Francisco Brennand (Várzea)
9 de novembro (Domingo) | 16h | Praça do Arsenal (Recife Antigo)
Classificação: Livre | Ingressos: Gratuito
Sarayvara” (Cia Nós No Bambu) | 21 anos de pesquisa arte-corpo-bambu em celebração
Data: 7 de novembro (Sexta-feira) | Horário: 19h
Local: Teatro Hermilo Borba Filho | Classificação: Livre
Ingressos: Gratuito (retirada via Sympla)
O Vazio É Cheio de Coisa” (Cia Nós no Bambu) | Síntese de 15 anos de investigação entre humano e vegetal
Data: 6 de novembro (Quinta-feira) | Horário: 20h
Local: Teatro de Santa Isabel | Classificação: 12 anos
Ingressos: Sympla
Fragmentos” (La Víspera) | Thriller circense explora fragmentação mental como sobrevivência
Datas: 6 de novembro (Quinta-feira) e 8 de novembro (Sábado) | Horário: 19h30
Local: Teatro Apolo | Classificação: 14 anos
Ingressos: Sympla
Vermelho, Branco e Preto” (Cibele Mateus) | Mateu do Cavalo Marinho como brincadeira-manifesto de reexistência
Datas: 5 de novembro (Quarta-feira) e 6 de novembro (Quinta-feira) | Horário: 19h30
Local: Teatro Apolo | Classificação: 12 anos
Ingressos: Sympla | Acessibilidade: 5/11 com Libras
Le Bruit des Pierres” (Collectif Maison Courbe) | Obsessão pelo ouro revela exaustão capitalista e fragilidade ambiental
Datas: 8 de novembro (Sábado) e 9 de novembro (Domingo) | Horários: Sáb: 20h | Dom: 18h
Local: Teatro de Santa Isabel | Classificação: Livre
Ingressos: Sympla
Juventud” (Cie NDE) | Energia coletiva através de malabarismo, movimento e experimentação
Data: 9 de novembro (Domingo) | Horário: 17h
Local: Teatro do Parque | Classificação: 10 anos
Ingressos: Sympla
Informações Gerais: A programação oferece sessões com Libras em múltiplos espetáculos e 9 espetáculos gratuitos no Festival de Circo (além de 4 com ingressos via Sympla), democratizando acesso à cultura de qualidade internacional.

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A Insurreição Que Assombra
Sessão única de Ayiti,
com Marconi Bispo

 

Marconi Bispo desvela em Pernambuco a revolução haitiana que permanece silenciada nos livros de história. Foto: Arthur Canavarro

Existe uma lacuna imensa na educação brasileira. Uma ausência que não parece casual, mas estratégica. Enquanto aprendemos sobre diversas revoluções ao longo da formação escolar, uma permanece deliberadamente esquecida: a única insurreição escrava vitoriosa da história moderna, que aconteceu no Haiti entre 1791 e 1804. É exatamente essa ferida na memória coletiva que o experiente artista pernambucano Marconi Bispo decidiu confrontar.

Aos 30 anos de carreira — trajetória que o consolida como uma das vozes mais consistentes das artes cênicas pernambucanas —, Marconi apresenta Ayiti, a montanha que assombra o mundo, trabalho que inaugura em solo pernambucano um diálogo cênico com a Revolução Haitiana. A montagem retorna ao cartaz nesta terça-feira (14), às 20h, no Teatro Hermilo Borba Filho, no Recife Antigo.

Descolonizando a Dramaturgia 

O projeto nasce de uma inquietação que indaga por que a primeira república negra da história mundial, que derrotou militarmente França, Espanha e Inglaterra, permanece ausente dos currículos escolares? Por que essa vitória extraordinária – que antecipou em décadas os ideais de igualdade racial — foi sistematicamente apagada da historiografia oficial?

Marconi Bispo, em parceria com o pesquisador Kamai Freire, constrói uma dramaturgia que vai além da reconstituição histórica. O espetáculo avança como arqueologia da resistência, escavando memórias soterradas e devolvendo dignidade a narrativas marginalizadas. A pesquisa, baseada em 13 obras sobre o tema e amadurecida durante residência artística em Portugal, revela conexões históricas surpreendentes entre Recife e Haiti.

“A ilha era chamada de Kiskeya — Mãe de Todas as Terras — pelo povo Taíno”, explica o artista. Essa recuperação da nomenclatura original exemplifica o método do espetáculo: desconstruir sistematicamente a linguagem colonial para assumir outras formas de compreender o mundo.

Além de Marconi, estão no elenco Brunna Martins, Kadydja Erlen e os músicos Beto Xambá e Thulio Xambá

A força da montagem resulta da articulação entre diferentes linguagens artísticas afro-pernambucanas. O elenco reúne Brunna Martins, Kadydja Erlen e os músicos Beto Xambá e Thulio Xambá, do respeitado Grupo Bongar. Essa formação processa a confluência de tradições culturais que dialogam diretamente com o universo revolucionário haitiano.

A percussão assume papel dramatúrgico central, ecoando os tambores que convocaram os escravizados para a insurreição. As batidas atuam como código ancestral, linguagem cifrada que atravessou o Atlântico e permanece viva nas manifestações culturais negras contemporâneas.

Mais que criação artística, Ayiti processa como dispositivo pedagógico, que assume dimensão política fundamental. Ele democratiza o acesso a conhecimentos que as instituições de ensino tradicionalmente negam às classes populares.

A produção independente e os ingressos a preços acessíveis (R$ 25 e R$ 50)) materializam essa vocação democrática. Marconi Bispo compreende que a arte deve circular entre as comunidades que mais se beneficiam dessas narrativas de empoderamento.

Espetáculo estabelece paralelos entre a luta anticolonial caribenha e as resistências negras em Pernambuco

O conceito de “contracolonização”, desenvolvido pelo filósofo Nego Bispo, permeia toda a construção dramatúrgica. O espetáculo pratica essa contracolonização ao recusar a vitimização dos povos escravizados e celebrar sua capacidade de auto-organização política e militar.

“A Revolução Haitiana não acabou”, defende Marconi Bispo. “Ela segue reverberando como o movimento mais impactante de todos os tempos.” Essa perspectiva transforma o Haiti de símbolo de miséria — como frequentemente aparece na mídia — em farol de dignidade e resistência.

A montagem conecta passado e presente. Ao estabelecer paralelos entre a luta anticolonial caribenha e as resistências negras em Pernambuco, o espetáculo fortalece genealogias de luta que nutrem as comunidades afro-brasileiras contemporâneas.

A pergunta que atravessa toda a encenação — “Qual revolução você ainda não fez?” — sintetiza esse potencial transformador. Ayiti convoca cada espectador a refletir sobre seu papel na construção de uma sociedade antirracista e verdadeiramente democrática.

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Serviço

Ayiti, a montanha que assombra o mundo

14 de outubro de 2025 (terça-feira), 20h
Teatro Hermilo Borba Filho (Cais do Apolo, 142 – Recife Antigo)
Ingressos: R$ 25 (meia) / R$ 50 (inteira)
Vendas: bit.ly/3L5xPQg

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Até sempre Vavá Schön-Paulino

Heliogábalo & Eu (1990). Foto: Deborah Valença

Um artista de muitas frentes: ator, poeta, artista plástico, performer e gestor público.

Vavá morreu tragicamente neste 11 de setembro de 2025 em um incêndio em sua residência, em Floresta (PE)

Vavá Schön-Paulino entrava em cena como quem entra em casa. Sem alarde, sem pedir licença, mas com o cuidado de quem sabe onde cada objeto repousa e que luz acende primeiro. Havia algo de menino no gesto — o riso fácil, os olhos atentos, uma curiosidade que não se gastava com o tempo. Ele  atuava como quem oferece água a quem chega cansado: com generosidade, precisão e uma confiança íntima na partilha. Essa confiança moldou sua presença de ator, de educador, de provocador de processos, de artesão de encontros. Nos trabalhos marcantes — da secura luminosa de Fim de Jogo (Beckett), em montagem dirigida por João Denys à Rasif – Mar que arrebenta, a partir de textos de Marcelino Freire, à do ritual instável de Heliogábalo & Eu (1990) à medonha constatação capitalista de A carne mais barata  — sempre se reconhecia um fio: Vavá habitava a cena, deixando que alguns sentidos aparecessem no atrito entre corpos, palavras, silêncio e tempo.

É com esse cuidado que hoje, inevitavelmente, escrevemos no passado. Vavá morreu tragicamente neste 11 de setembro de 2025 em um incêndio em sua residência, em Floresta, no Sertão de Pernambuco, um mês depois completar 65 anos. A tragédia expôs um problema antigo: a ausência de um quartel do Corpo de Bombeiros no município, o que retardou o atendimento e agravou o desfecho. Nascido em Floresta, o artista mudou-se para o Recife em 1978 e, por mais de quatro décadas, foi presença articuladora e generosa na cena cultural pernambucana; há cerca de dez anos, voltou à cidade natal, onde seguiu como gestor, formador e artista — costurando pessoas, ideias e territórios com a mesma delicadeza com que entrava no palco.

Vavá foi um artista de muitas frentes: ator, poeta, artista plástico, performer e gestor público. Na gestão cultural, assumiu papéis decisivos — coordenador do Centro Apolo-Hermilo, diretor do Teatro de Santa Isabel, diretor de Cultura em Floresta e vice-presidente do SATED-PE. No teatro, ergueu uma trajetória vasta e variada. Atuou em A carne mais barata (2005), Espetacular & Espetaculoso (2014), performance De Profundis, Cenas Abissais (1987), Cinderela, a história que sua mãe não contou (1999), Em nome do desejo (1990), O balcão (1987), O burguês fidalgo (1988), Os palhaços da Rua da Alegria (1992) e Quarteto (1988). Não é uma lista exaustiva, mas aponta a extensão do gesto: do popular ao experimental, da farsa à poesia cênica, da pedagogia à prática cotidiana de teatro.

Talvez por isso suas aulas-oficinas ressoassem como ensaios de vida: “Consumo e Práxis Criadora” era um método. Ensinar, para ele, era encostar o ouvido no chão até sentir o trepidar do que vem — e, então, convidar todo mundo a experimentar junto. Primeiro o jogo, depois a tese; primeiro o risco, depois a palavra. Quando provocava “Estarei esperando Godot?”, havia ironia e ternura na mesma medida: não a resignação de quem aguarda o que não chega, mas o impulso de montar um espaço comum onde o encontro, esse sim, aconteça. O que Vavá propunha era simples e exigente: trabalhar a partir do “nosso quintal de subjetividades”, insistindo que a tal Internet das Coisas só faz sentido quando começa no chão compartilhado da presença, do erro, do gesto que ainda não sabe o nome. Da sala de ensaio ao corredor, do pátio à rua, sua obra parecia dizer que a arte não “representa” a vida: ela a curva um pouco, o bastante para que possamos passar.

E é nesse ponto que a transitoriedade se impõe, não como lamento, mas como claridade. O teatro, por definição, passa — e é no passar que ele nos toca. Vavá parecia saber disso desde sempre: não colecionava certezas; colecionava instantes. O palco, para ele, era o lugar onde o agora se dá por inteiro. Vavá armava a cena, no processo de preparar o terreno, arejar o ar, abrir passagem para que o extraordinário do agora possa, quem sabe, acontecer. E, se o tempo é o tecido do teatro, Caetano Veloso o nomeia com alegria grave: “Compositor de destinos, tambor de todos os ritmos, tempo, tempo, tempo, tempo.” Vavá marcava esse compasso com a paciência de quem sabe que o ritmo não é a pressa; é a escuta — a cadência comum que faz de muitos um coro.

Transitoriedade é matéria. O que passa nos forma. Em Rasif – Mar que arrebenta, com ele, aprendemos que a maré não repete o desenho, mas insiste no gesto: vem, toca, recua, volta. Em Fim de Jogo, descobrimos ao seu lado que o palco é um laboratório de ruínas onde a vida insiste em brotar. Em Heliogábalo & Eu, dançamos na instabilidade. A pedagogia que deixou — feita de encontros, partilhas, cansaços honestos e um humor que desembaraça — foi um convite: experimentar o presente com inteireza. Talvez seja esse o maior legado: uma ética da presença que não perde tempo lutando contra o tempo, mas o transforma em parceria de criação.

Se perguntarem o que fica quando a luz desce, diremos talvez o exercício da atenção, que Vavá cultivou na cena e na vida; talvez a coragem de experimentar antes de entender; quem sabe o riso que desata nós; quisera a delicadeza firme de quem sabe a hora de falar e a hora de ouvir; fica, sobretudo, a certeza de que o teatro é uma arte do encontro, e que o encontro só existe porque somos, todos, passagem.

E se a notícia dura precisa caber num texto — a morte em incêndio, em casa, em Floresta; a cidade sem quartel de bombeiros; os muitos amigos e alunos desamparados — então que caiba junto o que a sustenta: a trajetória de um artista que fez do palco uma casa e da casa um lugar comum. O que fica agora é que a cena é encontro: esse foi o norte. E, enquanto o tempo compõe destinos e a cena se refaz, seguimos o conselho implícito que sua trajetória nos deixou: primeiro a partilha, depois o conceito; primeiro a vida, depois o nome. Porque a matéria passa, mas o gesto como resíduo drummondiano — esse sim — aprende a ficar. O resto a gente tenta aprender, como ele, em comum.

 

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