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Teatro feito na guerrilha
23º FETED

Metamorfose. Foto: Divulgação

Tocando em frente, espetáculo de Sorocaba

Vidas: Não somos passado

A quem interessa um festival de teatro estudantil? À primeira vista, a resposta parece óbvia: aos estudantes que sobem ao palco. Mas o 23º Festival Estudantil de Teatro e Dança (FETED) sugere uma resposta mais generosa. Interessa a quem acredita que o palco também é sala de aula. Interessa à plateia que descobre, numa quarta-feira à noite, o prazer de ver um palco profissional ocupado por talentos em início de carreira. E interessa, sobretudo, a quem sabe que alguns dos grandes nomes do teatro brasileiro começaram exatamente assim: num festival de estudantes.

Desde 2003, o produtor Pedro Portugal realiza o FETED ano após ano, desafiando uma realidade que deveria envergonhar qualquer política cultural: a de não conseguir aprovação nos editais disponíveis nem contar com incentivos diretos, públicos ou privados. Pouco antes da abertura desta edição, ele confessou que inicia o festival sem um centavo de patrocínio. A única interrupção em mais de duas décadas foi em 2020, forçada pela pandemia. O resto foi teimosia, amor ao ofício e o que o próprio meio chama de guerrilha cultural. É nessa guerrilha que o festival segue vivo, contando, nesta edição, com o apoio logístico da Fundação de Cultura e da Secretaria de Cultura da Prefeitura do Recife e do Centro de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas Apolo-Hermilo – apoio que, pelo menos até a abertura do festival, não se traduz em recursos financeiros diretos.

Do palco escolar ao palco profissional

Entre 5 e 16 de agosto, sempre de quarta-feira a domingo, o Teatro Apolo recebe dez espetáculos de teatro: dois voltados para as infâncias e oito para adultos. A grade chegou a prever 11, mas uma montagem desistiu por problemas. Participam grupos de escolas públicas e particulares, coletivos independentes, ONGs e universidades, vindos do Recife, de Olinda, de Ipojuca, de Jaboatão dos Guararapes e de Sorocaba, em São Paulo. De crianças à terceira idade, o FETED é um retrato demográfico e social do fazer teatral de base.

Muitos desses estudantes já conhecem o palco – o da escola, o da sala de aula, o do pátio. O que o festival oferece é outra coisa: a chance de subir, pela primeira vez, a um palco profissional, com luz, som, cenário e uma plateia mais diversificada. É esse salto, do espaço escolar para a exibição pública num palco profissional, que transforma a experiência em algo que nenhuma aula consegue reproduzir.

Os ingressos custam R$ 25 (preço único promocional), à venda no Sympla e no próprio local – e há um detalhe que diz muito sobre a proposta: 70% do valor é revertido para cada grupo participante. Ou seja, quem compra o ingresso financia diretamente a produção de quem está estreando ao assiste a um espetáculo. Nesta edição, o festival volta em caráter competitivo, e homenageia dois nomes de longa carreira no campo cultural: a educadora, diretora e atriz Izabel Concessa e o ator, diretor, educador e produtor Antônio Rodrigues.

Comissão de premiação

Para eleger os destaques, o FETED convidou dois profissionais de longa trajetória. Ivana Moura é artista-pesquisadora, jornalista, dramaturga e crítica das artes vivas, doutora em artes cênicas pela USP. Idealizadora da plataforma Satisfeita, Yolanda?, foi editora e repórter do Diario de Pernambuco e integra a seção brasileira da IATC/AICT, a Associação Internacional de Críticos de Teatro. Rudimar Constâncio é historiador, pesquisador, professor e arte/educador, além de ator e diretor teatral. Pós-doutor em Educação pela UFPE, foi gerente de Cultura do Sesc/PE e curador nacional do Festival Palco Giratório, e publicou livros sobre circo social e teatro de cultura popular no Recife.

No dia 16, uma festa encerra a programação com a entrega dos troféus aos vencedores.

O festival que revela gigantes

Não é exagero dizer que festivais amadores e estudantis mudaram a história do teatro brasileiro. E o exemplo mais célebre vem de Pernambuco. Em 1946, Ariano Suassuna, recém-ingresso na Faculdade de Direito do Recife, reformulou, ao lado de Hermilo Borba Filho e Aluísio Magalhães, o Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP), grupo criado em 1940 por estudantes de Direito e que ganharia consistência artística sob a direção de Hermilo. Foi num concurso do próprio TEP que Ariano estreou como dramaturgo, em 1947, vencendo com Uma Mulher Vestida de Sol. Dez anos depois, a consagração nacional viria por outro caminho estudantil: o Teatro Adolescente do Recife levou O Auto da Compadecida ao I Festival de Amadores Nacionais, realizado em fevereiro de 1957, no Rio de Janeiro. A montagem pernambucana arrebatou os principais prêmios: medalhas de ouro de melhor espetáculo, melhor diretor (Clênio Wanderley) e melhor atriz (Ilva Niño). Um festival de estudantes, portanto, revelou ao Brasil um de seus maiores dramaturgos.

O FETED não promete um novo Suassuna a cada edição, mas aposta exatamente nessa possibilidade; a de revelar dramaturgos, atrizes, atores, diretores e outros futuros profissionais do teatro e é isso que o torna um espaço único de formação.

Na guerrilha, mas de pé

Que um festival desse porte sobreviva sem patrocínio e sem edital aprovado é, ao mesmo tempo, um feito e um sintoma. Feito, porque exige de Pedro Portugal e de todos os envolvidos uma energia que nenhuma planilha governamental consegue medir. Sintoma, porque revela o descaso com um dos espaços mais democráticos de formação artística do país. Enquanto isso, o FETED segue fazendo o que sabe fazer de melhor: abrir o palco, baixar o preço, dividir a renda com quem está começando e deixar a plateia sair do Teatro Apolo com a certeza de que o teatro brasileiro tem futuro; porque, Brasil adentro, festivais como este seguem de pé, muitos na mesma guerrilha, sem patrocínio, movidos apenas pela convicção de que o palco pertence também a quem está chegando.

Serviço

23º Festival Estudantil de Teatro e Dança (FETED),
de 5 a 16 de agosto,
Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife).
Ingressos: R$ 25, à venda no Sympla e no local.

Lampião e Maria Bonita no Reino Divino

Beijo da Princesa

Programação

Cazuza – Vida Breve (ETE – Prof. Alfredo Freyre – Olinda).
Texto Walmir Ribas, Direção Sergio Barbosa.
Quarta-feira, dia 05, às 19h.

Lampião e Maria Bonita no Reino Divino (Cia de Teatro Novos Talentos – Recife).
Texto: Annamaria Dias. Direção: Suzana Costa e Marcelo Maracá.
Quinta-feira, dia 06, às 19h.

Olinda Seus Cantos, Recantos e Caminhos (Colégio São Bento de Olinda – Olinda).
Texto: Criação coletiva. Direção: Sérgio Barbosa.
Sexta-feira, dia 07, às 19h.

Vivas: Não Somos Passado (Erem – José Mário Alves da Silva – Clube de Teatro Mimesis – Ipojuca).
Texto e Direção: Laryssa Carvalho.
Sábado, dia 08, às 18h

Cravo, Não Briga Com Rosa (Colmeia das Artes – Recife).
Texto e Direção: Miro Ribeiro,
Domingo, dia 09, às 16h.

Metamorfoses (Universidade Federal de Pernambuco – Recife).
Criação coletiva. Direção: Marina Lino. Direção: Marina Lino e Malu Oliveira
Domingo, dia 09, às 20h.

Tocando em Frente (Associação Cultural Fazendo Arte – Sorocaba – SP).
Texto e Direção: Junior Mosko.
Quarta-feira, dia 12, às 19h.

O Orbe (Escola Municipal de Arte João Pernambuco – Recife).
Texto: Lucas Barreto e Direção: João Pedro Pinheiro.
Quinta-feira, dia 13, às 19h.

O Beijo da Princesa (EREM – Edson Moury Fernandes – Recife).
Texto e Direção: Julio Botelho.
Sábado, dia 15, às 16h.

O Brasil Que Trabalha (Os Caras de Pau – Recife).
Texto e Direção: Benedito Serafim.
Sábado, dia 15, às 20h.

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A luz brilhante de Helena Ignez
na Ocupação Itaú Cultural

 

Aos 87 anos, Helena Ignez se torna a primeira cineasta mulher homenageada pela série Ocupação do Itaú Cultural. Foto: filme A alegria é prova dos nove / Reprodução

Helena Ignez não cabe em uma definição. Atriz, diretora, cineasta, antimusa – talvez o termo mais preciso seja força em movimento. Desde que ingressou na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia em 1956, ainda nos anos de formação que a levariam ao encontro com Glauber Rocha e o Cinema Novo, Helena construiu uma trajetória que desafia qualquer tentativa de enquadramento. A Ocupação que o Itaú Cultural inaugura neste 22 de julho, na Avenida Paulista, busca entregar a narrativa em primeira pessoa para a própria artista, deixando que sua voz, seu corpo e sua prática experimental guiem o visitante.

É a 74ª edição da série Ocupação, e a primeira a homenagear uma cineasta mulher. Mas a exposição, que fica em cartaz até 18 de outubro com entrada gratuita, faz questão de escavar um território da produção de Helena que o grande público conhece menos: o teatro. Não por acaso. Foi nos palcos que ela aprendeu a ocupar o espaço com a inteireza de quem entende o gesto como linguagem e a cena como campo de batalha política.

Helena está no elenco do espetáculo teatral Fim de partida, que circula pelo Brasil . Foto: Fernando Young 

O teatro como raiz e retorno

A mostra dedica um núcleo significativo à produção teatral de Helena, reunindo programas de espetáculos, críticas históricas – incluindo uma de Nelson Rodrigues – e documentos de processo de trabalho que revelam décadas de dedicação aos palcos. É um aspecto que a própria artista faz questão de sublinhar: o teatro sempre teve importância absoluta em sua vida, mesmo que sua imagem pública tenha sido forjada sobretudo pelas telas.

Neste momento, Helena está em plena atividade teatral. Integra o elenco de Fim de Partida, o clássico de Samuel Beckett dirigido por Rodrigo Portella, ao lado de Marco Nanini, Guilherme Weber e Ary França. A peça – que esteve em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro e faz apresentações no Recife (de 23 a 26 de julho, no Teatro Luiz Mendonça) e Porto Alegre (17 e 18 de outubro, no Teatro Simões Lopes Neto) – coloca Helena no centro de um dos textos mais contundentes do teatro moderno, marcado por humor ácido, silêncios dilacerantes e a espera por um fim que nunca chega.

Em entrevista recente ao portal bahia.ba, Helena colocou Beckett no mesmo patamar de Shakespeare. Para ela, ambos são escritores cuja inteligência se manifesta em cada camada da obra e atravessam o tempo com a mesma potência. Shakespeare segue atual porque fala das paixões humanas, dessa imprevisibilidade que nós somos. Beckett, por sua vez, fala do absurdo – da existência sem sentido, da espera que nunca se completa, de personagens presas em ciclos dos quais não conseguem escapar.

Sobre a personagem que interpreta em Fim de Partida, Nell, a atriz destaca o paradoxo que a torna tão fascinante: moradora de uma lata de lixo, é ao mesmo tempo a única mulher da peça e a única que efetivamente rompe com o outro personagem. “Ela fala o que quer, expressa sua loucura, mas é livre dentro disso”, disse Helena. “Acho uma peça maravilhosa para refletirmos. E continuará sendo atual.”

A atriz no filme A Mulher de Todos, de 1969, dirigido por Rogério Sganzerla

Antimusa: o gesto de recusar o lugar de objeto

A exposição não se furta a enfrentar a imagem que a sociedade tentou colar em Helena. Um dos eixos mais potentes da curadoria é dedicado ao conceito de antimusa – termo que a própria artista mobiliza para recusar o papel de musa inspiradora e afirmar seu lugar como sujeito criador. O visitante encontra ali um conjunto impactante de manchetes históricas, imagens e vídeos que mostram como Helena subverteu os papéis de gênero impostos às atrizes, especialmente durante os anos de chumbo da ditadura militar.

Desse núcleo, emerge com força A Mulher de Todos (1969), dirigido por Rogério Sganzerla, frame central da exposição. O filme, exibido em cópia restaurada, apresenta Ângela Carne e Osso – personagem que Helena encarnou com uma irreverência que atravessou o tempo. Ninfomaníaca que faz os homens de gato e sapato, Ângela foi uma interpretação revolucionária no cinema brasileiro justamente por recusar a passividade feminina em plena repressão.

Já o espaço dedicado à produtora Belair mergulha em 1970, ano em que Helena, ao lado de Rogério Sganzerla e Júlio Bressane, realizou seis longas-metragens em poucos meses – uma explosão criativa que a ditadura tratou de interromper. A exposição reúne frames, vídeos, materiais de bastidores e, especialmente, um documento em que Helena se posiciona contra a censura. É ali que a resistência se materializa em papel e película.

O Bandido da Luz Vermelha

Em parceria com a Cinemateca Brasileira, o projeto também realizou ações de preservação fundamentais, como a captura fotográfica digital de películas de títulos emblemáticos. Três desses filmes merecem destaque: O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Sganzerla, um clássico do cinema marginal que até hoje influencia gerações, com Helena no papel de Janete Jane; O Padre e a Moça (1966), de Joaquim Pedro de Andrade, um drama inspirado no poema homônimo de Carlos Drummond de Andrade, com Helena no papel de Mariana e O Grito da Terra (1964), de Olney São Paulo, uma raridade do período pré-Cinema Novo, drama sertanejo que ganhou uma nova cópia digital e volta a ser apresentado ao público. 

A cineasta por trás da câmera

A Ocupação evidencia ainda o trabalho de Helena como diretora. Roteiros, cadernos de processo, vídeos e bastidores de filmes como A Alegria é a Prova dos Nove (2023), Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha (2010) e o documentário Fakir (2019) estão acessíveis ao público. Como atriz, a mostra dialoga com sua produção mais recente, incluindo o longa Nosferatu (2025).

Há também um mural de fotos que é, por si só, uma aula de história cultural brasileira: as imagens registram parcerias longevas com Sganzerla, Antônio Pitanga, Paulo Villaça, Cristiano Burlan e Jean-Claude Bernardet, além de encontros com Jô Soares, Maria Gladys, Zé Celso Martinez Corrêa e Ney Matogrosso.

Programação paralela: uma temporada inteira dedicada a Helena

Fora do espaço expositivo, a programação é igualmente ambiciosa. A Itaú Cultural Play disponibiliza uma retrospectiva gratuita com 23 filmes – entre obras dirigidas e estreladas por Helena – que fica no ar durante todo o período da exposição, de 22 de julho a 18 de outubro de 2026. O acesso é gratuito pelo site itauculturalplay.com.br e pelos aplicativos para smart TVs, dispositivos móveis (Android e iOS) e Chromecast.

A plataforma também será o destino final do curta-metragem inédito Des-criação, codirigido por Helena e André Guerreiro Lopes em formato híbrido que dialoga com a videoarte e o cinema de invenção; uma imersão no universo interior da artista, suas reflexões sobre arte, tempo, vida e morte.

Haverá exibições presenciais em setembro no Cine Glauber Rocha (Salvador) e em outubro na sede do Itaú Cultural (São Paulo). E, coroando a programação teatral, o teatro do Itaú Cultural recebe em outubro a remontagem de Savannah Bay, de Marguerite Duras, com direção de André Guerreiro Lopes e Helena no elenco; revisitando o texto que ela já havia interpretado em 1999 e 2001 sob a direção de Rogério Sganzerla.

Ficha técnica

Helena Ignez – 74ª edição da série Ocupação
Concepção e realização: Itaú Cultural
Curadoria: Equipe Itaú Cultural
Consultoria de conteúdo: Djin Sganzerla
Projeto expográfico: Renata Mota
Assistência de expografia: Lanussi Pasquali, Livia Fauaze e Louise Braga
Abertura: 22 de julho de 2026, às 19h30
Visitação: De 23 de julho a 18 de outubro de 2026. Terça a sábado, 11h às 20h. Domingos e feriados, 11h às 19h
Local: Itaú Cultural – Avenida Paulista, 149, São Paulo (próximo ao metrô Brigadeiro)
Entrada: Gratuita

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7º Chama Violeta transforma
Sertão do Pajeú em palco mágico

Entre terreiros, alpendres e sonhos coletivos, festival de artes integradas celebra resistência cultural com 15 atrações do Brasil e Argentina. Foto: Divulgação

O Sítio Minadouro fica na área rural de Ingazeira, no Sertão pernambucano do Pajeú, cerca de 420 km do Recife

Odilia Nunes, atriz, palhaça, brincante, gestora cultural e coordenadora do Chama Violeta

“Entendi que amor é escolha”, é um mote e no Sítio Minadouro, área rural de Ingazeira, no Sertão pernambucano do Pajeú (cerca de 420 quilômetros do Recife), essa opção ganha forma de palhaçaria, mamulengo, dança, poesia e outras linguagens. Entre os dias 19 e 21 de dezembro, o 7º Chama Violeta acende mais uma vez a centelha da arte, provando que cultura não aceita fronteiras geográficas nem limitações orçamentárias.

Coordenado pela incansável Odília Nunes – palhaça, brincante, gestora cultural e alma inquieta do teatro popular -, o Chama Violeta é muito mais que um festival. É um abraço coletivo, uma festa de resistência, um laboratório de afetos onde 60 artistas e técnicos de Pernambuco, Paraíba, Bahia, Rio Grande do Norte, Distrito Federal, São Paulo e Argentina se encontram para semear encantamento.

“O critério da curadoria é afetivo. Primeiro a gente escolhe o tema e a partir dele vai montando a programação. É intuitivo”, revela Odília, que há três anos mora em São Paulo como atriz da premiada Cia do Tijolo, integrando o elenco dos espetáculos Guará Vermelha (2023) e Restinga de Canudos (2025).

A revolução dos terreiros pela arte que vai à casa das pessoas

Chama Violeta promove uma experiência diferenciada de fruição artística. 

O grande diferencial do Chama Violeta está na inversão completa da lógica tradicional dos festivais. Enquanto a maioria opera na dinâmica de “venha até nós”, o Chama Violeta funciona no “vamos até vocês”. Não são as pessoas que precisam se deslocar para chegar até a arte, é a arte que chega até as pessoas, literalmente em suas casas.

Os espetáculos acontecem nos terreiros e alpendres das casas dos moradores: Terreiro de Mariquinha, Terreiro de Seu Expedito e Dona Lourdinha, Terreiro de Edileuza, Alpendre da Casa de Odília. Cada espaço é gentilmente cedido por familiares e amigos, criando uma intimidade única entre artista e público. Para muitos moradores do Minadouro, especialmente crianças e idosos, essa é a primeira oportunidade de assistir a um espetáculo teatral profissional.

Essa filosofia revolucionária leva teatro de bonecos, circo, dança contemporânea e música para pessoas que, muitas delas, nunca pisaram em um teatro convencional, revelando que não são elas que precisavam ir ao teatro, o teatro é que precisava chegar até elas.

Essa mudança de paradigma cria uma experiência única de fruição artística. Sem a barreira física e simbólica do teatro tradicional, sem ingressos, sem dress code, sem hierarquias urbanas, a arte acontece no ambiente familiar e acolhedor dos quintais sertanejos. A plateia se torna parte do espetáculo numa atmosfera de roda, de círculo de afeto onde todos estão incluídos. Crianças assistem de perto, adultos participam espontaneamente, idosos dividem memórias com os artistas após as apresentações.

O ano das famílias que fazem arte junta

Piruá e Paraqueta, com os artistas Rodrigo Bruggemann e filha Amora Maux, do Rio Grande do Norte

Este ano, sem qualquer incentivo do poder público, mais do que nunca o Festival Chama Violeta é feito com a garra e a parceria dos artistas e companhias participantes, que abriram mão do cachê para compartilhar sua arte. O tema “Entendi que amor é escolha” ganhou ainda mais significado na curadoria de grupos familiares – casais, pais e filhos que fazem arte juntos.

O festival celebra os 50 anos de casamento dos pais de Odília, que são pessoas muito atuantes na comunidade e na realização do Chama Violeta, e de outro casal, Cícero Gomes e Dona Maria, do Samba de Coco de Trupé de Arcoverde, presentes desde a primeira edição.

Entre os grupos familiares da programação estão Piruá e Paraqueta (Rodrigo Bruggemann e filha Amora Maux, do Rio Grande do Norte), o casal baiano Anelise Mayumi e Douglas Iesus com Embalanceio: dançar sonhos pequeninos, a Cia Bode com Pequi (casal Pedro Milhomens e Clá Solar com a filha Aruna) e a Cia das Marionetes, da Argentina.

Quando sonhos coletivos viram cinema

Filme Um dia Havia de Ver o Mar, de Odília Nunes

 Teatro de lambe-lambe Dona Ló com Catarina Calungueira (RN) 

Espetáculo Cícera, com Contadores de Mentira. Foto: Valeria Félix / Divuolgação

Entre as novidades da programação está o filme Um dia Havia de Ver o Mar, dirigido por Odília Nunes. A história nasceu de um pedido simples de uma criança local: “Um menino, um dia, me pediu pra levar ele na praia. Cumpri minha promessa. Mas não fomos só em dois. É que esse sonho era coletivo. O filme é o registro desse encontro”, conta a diretora.

No Minadouro, as crianças aprendem desde cedo a amar a chuva e brincar na água dos riachos, barreiros e açude, mas sonham conhecer o mar. O filme documenta essa jornada de descoberta, simbolizando o espírito do festival: transformar sonhos individuais em conquistas coletivas.

O festival abraça diversas linguagens e formatos. Há espetáculos teatrais como Vereda dos Mamulengos (Casa Moringa-DF), onde Conceição e Benedito enfrentam as cobranças do senhor João Redondo com humor e lirismo, acompanhados de trilha sonora ao vivo com cantos de trabalho e cantigas de roda da tradição oral brasileira.

O teatro de bonecos se faz presente com O Auto do Boi Aurora (Catarina Calungueira-RN), onde Catirina luta contra o autoritário capitão João Redondo para libertar o boi Aurora, e com Antologia das Marionetes (Cia das Marionetes-Argentina), um cabaré que reúne personagens criados ao longo da trajetória da marionetista Rocío Walls, cada um carregando marcas de diferentes épocas e encontros pelo mundo.

A música ganha destaque com Nordeste Futurista de Luana Flores (PB), artista que vem se destacando internacionalmente ao fundir ritmos e estética da cultura popular nordestina ao universo da música eletrônica, e com Sons de Resistência do Samba de Coco de Trupé de Arcoverde (PE), grupo que desde 2009 preserva o legado do samba de coco, honrando a herança cultural afro-indígena.

A dança contemporânea se apresenta através de Embalanceio: dançar sonhos pequeninos, onde o casal de artistas e pais Anelise Mayumi e Douglas Iesus encara a pergunta: “como adiar o fim do mundo?” com um espetáculo que usa elementos naturais do sertão baiano e a força da imaginação para semear encantamento.

O circo aparece em Piruá e Paraqueta, onde pai e filha montam seu próprio circo apresentando números de malabarismo, equilibrismo, magia e ciência, descobrindo que felicidade não tem milhões de seguidores.

Formação e Empoderamento

O festival também promove oficinas formativas. A Voz da Poesia, ministrada por Isabelly Moreira (São José do Egito-PE), faz parte do projeto nacional que empodera mulheres do campo através da literatura, exercitando leitura, escrita e declamação com foco em quadras e sextilhas, além de reflexões sobre papel da mulher na sociedade e questões ambientais.

A oficina Confecção de Calungas de Pano, com Catarina Calungueira (RN), propõe imersão criativa no teatro de bonecos tradicional do Nordeste, conectando participantes com as encantarias do teatro popular.

As rodas de conversa são marca do festival. Vô, deixa minha mãe brincar, conduzida por Gabriela Romeu (SP), jornalista e documentarista criadora do projeto Infâncias, é uma conversa intergeracional sobre memórias de infância, lembrando a infância como “relicário das singelezas do viver”.

O Chama Violeta é uma das ações do projeto No Meu Terreiro Tem Arte, criado por Odília em 2015 para promover intercâmbio cultural, residências artísticas e formação durante o ano todo no Minadouro. O reconhecimento veio com o Prêmio Pernalonga de Teatro (2019) do Governo de Pernambuco e o Prêmio Inspirar (2021) do Instituto Neoenergia, que contempla iniciativas lideradas por mulheres.

O figurino de Bandeira, a palhaça sertaneja, é feito de material reciclado

Decripolou Totepou, solo de Odília que completa 20 anos em 2025

Um dos momentos mais simbólicos é o retorno de Decripolou Totepou ao lugar onde nasceu. O solo de Odília completa 20 anos em 2025. “Este foi meu primeiro solo. Nesses vinte anos, várias crianças do Minadouro assistiram, mas a nova geração ainda não conheceu. Nada melhor do que comemorar esse aniversário onde tudo começou”.

Bandeira, a palhaça sertaneja protagonista do espetáculo, carrega em sua mala sonhos e objetos que encantam através de mamulengos, malabares, brinquedos populares e truques de ilusionismo. Seu figurino de material reciclado é roupa e cenário sonoro, lembrando que “podemos brincar com qualquer coisa, se formos capazes de enxergar a simplicidade”.

A realização conta com uma rede de colaboradores locais. Produção geral e hospedagem por Lourdinha, Expedito, Violeta, Helena, Tamires, Gilvan, Heitor, Artur, Fran e Paulinho; alimentação por Deda, Fran e Ciene; coordenação de programação por Clá Solar; coordenação de transportes por Ana Carolina Lima; coordenação técnica por Cic Morais; design por Letícia Graciano; assessoria de imprensa por Ana Nogueira; produção local por Marcia Andreia, Gisele Garcez e José Mauricio. O festival conta com apoio do SESC PE e Editora Caixote.

📅 PROGRAMAÇÃO COMPLETA – 7ª EDIÇÃO CHAMA VIOLETA

🌅 SEXTA-FEIRA (19)

8h 📍 Escola Municipal do Jorge 🎭 Vereda dos Mamulengos com Casa Moringa (DF)
Conceição e Benedito enfrentam as cobranças do senhor João Redondo com sabedoria popular, humor e trilha sonora ao vivo

📍 Escola Municipal da Caiçara
🎭 Decripolou Totepou com Odília Nunes (PE)
A palhaça Bandeira celebra 20 anos tirando mágica da mala e ensinando que simplicidade é revolução

17h 📍 Terreiro de Mariquinha 🎭 Antologia das Marionetes com Cia das Marionetes (Argentina)
Cabaré de memórias onde cada boneco conta histórias de encontros pelo mundo

19h 📍 Terreiro de Seu Expedito e Dona Lourdinha 🎭 O Auto do Boi Aurora com Catarina Calungueira (RN)
Catirina luta contra João Redondo pela liberdade do boi

🎵 Show Nordeste Futurista com Luana Flores (PB)
Eletrônica que pulsa com coração nordestino

🌞 SÁBADO (20)

8h 📍 Sede da Associação de Agricultores do Minadouro 🎓 Oficina A Voz da Poesia com Isabelly Moreira (PE)
Mulheres que versam, resistem e se empoderam através da literatura

🎭 Teatro de lambe-lambe Dona Ló com Catarina Calungueira (RN)
A alegria de quem planta, cuida e espera a chuva chegar

17h 📍 Terreiro de Edileuza 🎭 Caminhos com Cia Bode com Pequi (Pedro Milhomens e Clá Solar) (PE)
O palhaço Sequinho transforma receitas ancestrais em mágica, utensílios de cozinha em números circenses

19h 📍 Terreiro de Expedito e Lourdinha 🎪 Piruá e Paraqueta com Rodrigo Bruggemann e Amora Maux (RN)
Pai e filha descobrem que felicidade não tem milhões de seguidores

🎵 Show Sons de Resistência com Samba de Coco de Trupé de Arcoverde (PE)
Ancestralidade afro-indígena que dança e canta há gerações

🌅 DOMINGO (21)

8h Sede Associação de Agricultores do Minadouro 🎓 Oficina Calungas com Catarina Calungueira (RN)
Imersão criativa na confecção de bonecos do teatro tradicional nordestino

14h 📍 Alpendre da casa de Odília 💭 Roda de conversa Vô, deixa minha mãe brincar com Gabriela Romeu (SP)
Diálogo intergeracional sobre infâncias e memórias afetivas

17h 📍 Terreiro de seu Expedito e dona Lourdinha 💃 Embalanceio: dançar sonhos pequeninos com Anelise Mayumi e Douglas Iesus (BA)
Como adiar o fim do mundo através da dança e da imaginação

🎬 Estreia Um dia Havia de Ver o Mar-Cine Clube Minadouro
Filme de Odília Nunes sobre sonho coletivo de crianças do sertão que se tornou realidade

🎭 Cícera com Contadores de Mentira (SP)
A jornada de uma mulher nordestina afro-indígena entre saudade e esperança

📱 Mais informações: @nomeuterreirotemarteoficial

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Vital Santos e a urgência
de um teatro que grita
Por Ivana Moura

Vital Santos, dramaturgo e encenador caruaruense. Foto: Jorge Clézio / Divulgação

Leidson Ferraz, autor do livro Dramaturgia Vital: o teatro popular e musical do pernambucano Vital Santos

“O dramaturgo e diretor Vital Santos continua mandando seus sinais. De alerta, de protesto, de indignação contra as desigualdades sociais e de solidariedade com a condição humana. Sua arma compõe-se de verbo, das imagens, do canto e dança através do teatro. […] Para Vital Santos, o palco deve servir de tribuna de discussão dos problemas dos seres humanos. Foi assim com Auto das Sete Luas de Barro, A Árvore dos Mamulengos ou Concerto Para Virgulino Sem Orquestra, algumas das peças escritas e dirigidas por ele. Sua temática social alia-se à linguagem poética para atingir a sensibilidade do espectador, provocar reflexões e mudanças de atitudes…” Em dezembro de 1994, quando escrevi sobre No Fim do Beco há um Bosque para o Diario de Pernambuco, não imaginava que minhas palavras se tornariam quase proféticas.

Três décadas depois, a voz de Vital Santos (pernambucano de Caruaru, falecido em 2013, aos 68 anos) ecoa mais uma vez. Agora não mais do eterno palco efêmero, mas das páginas permanentes de uma coleção que perpetua sua dramaturgia. Sua obra que por tanto tempo se manteve na fugacidade da cena e na memória dos que a testemunharam, finalmente ganha o registro que merece. A coleção Dramaturgia Vital: o teatro popular e musical do pernambucano Vital Santos, com organização, contextualização histórica e análise das obras do jornalista, historiador e doutor em Artes Cênicas Leidson Ferraz, é um ato de justiça à memória de um criador essencial. São dezessete peças completas, reunidas em dois volumes que somam 848 páginas e quase 200 fotografias raras. O lançamento ocorre nos dias 17 e 18 de dezembro de 2025, no Recife e em Caruaru.

Leidson Ferraz, que teve a oportunidade e o privilégio de atuar sob a direção de Vital em O Príncipe dos Mares de Olinda Contra a Fúria das Águas, conhecia de perto essa urgência. Como pesquisador, ele já havia documentado a trajetória do Grupo Feira de Teatro Popular em Memórias da Cena Pernambucana. Ferraz dedicou anos ao projeto, movido pelo rigor acadêmico e uma profunda admiração. E contou que já conhecia o desejo de Vital de publicar todas as peças, embora muitas tenham se perdido ao longo do tempo.

O registro permanente desses textos que moldaram a cena nacional das décadas de 1970 a 2010 merece saudação, pois muitas peças desse autor que ganhou prêmios como o Molière, o Mambembe e o APCA estavam dispersas, inacessíveis em formato de livro e corriam o risco de se apagar.

O projeto de edição foi vencedor do primeiro lugar na categoria Preservação de Acervos e Memória do edital Funarte Retomada 2023 e representa um marco na salvaguarda do teatro brasileiro. O título Dramaturgia Vital é um achado, pois aponta para a autoria de Vital Santos e, ao mesmo tempo, para a natureza pulsante e essencial de sua obra.

Cantigas do Sol Dom Quixote de Cordel Foto: Célio Pontes / Divulgação

A capacidade de traduzir a vida de pessoas simples está na essência do teatro de Vital Santos. O fio condutor de sua dramaturgia era a uma concretude da condição do povo brasileiro, com um olhar muito atento para o Nordeste. E com uma poesia desconcertante. Suas peças são radiografias de como homens e mulheres enfrentam a fome, a seca, a exploração, a violência urbana, e como, em meio a tudo isso, insistem em amar, sonhar e resistir. São personagens que se recusam a ser invisíveis.

É importante ressaltar: Vital não se propunha a “dar voz” a essas pessoas, termo problemático e em desuso nas análises contemporâneas. Ele criava um teatro que pulsava das próprias formas de expressão populares, refletindo suas experiências e modos de ser. Sua estética era uma tapeçaria rica, tecida com fios de cordel, a alegria do mamulengo, a força do reisado, a dança do bumba-meu-boi e as melodias das cantigas de trabalho. Santos utilizava os materiais culturais de Caruaru e região para abordar questões que tocam qualquer ser humano, ou seja, a busca por dignidade, o sonho de uma vida melhor, a luta contra a opressão. O drama de um migrante nordestino em Olha Pro Céu, Meu Amor dialoga diretamente com o trabalhador explorado em qualquer parte do mundo.

A denúncia social, como observei em No Fim do Beco há um Bosque, permeia sua dramaturgia, mas nunca de forma panfletária. A crítica surge das próprias situações dramáticas. A exploração dos artistas em Auto das Sete Luas de Barro, as lutas camponesas em A Noite dos Tambores Silenciosos, a degradação urbana em No Fim do Beco há um Bosque. Vital honrava a capacidade de sobrevivência e a força criativa do povo. Seus personagens, mesmo no extremo, mantinham a dignidade, a esperança e o humor. Não era romantização, mas o reconhecimento de que, onde há opressão, há luta; onde há desespero, há invenção.

Como encenador, Vital era um maestro, um alquimista da cena. Sabia como poucos movimentar os corpos dos atores e atrizes com poesia e precisão, transformando cada espetáculo em uma experiência física e sensorial. Suas montagens eram quadros vivos, onde a música e a dança eram o próprio coração pulsante da narrativa. O palco sob Vital era um lugar de milagres: luzes que pintavam paisagens, objetos de sucata que ganhavam alma, um balé de movimentos que extraía a riqueza das danças nordestinas. 

Concerto Para Virgulino Sem Orquestra

Vital, o Mestre do Exagero Criativo

Vital Santos era, acima de tudo, humano. E como (quase) todo bom contador de histórias nordestino, ele não se furtava de apimentar a narrativa, de dar um “tom” extra aos acontecimentos ou, por vezes, de simplesmente inventar. Sabia que o teatro vive de impacto, de emoção e de uma boa história, mesmo que esta ganhasse contornos fabulosos em sua boca.

Vital gostava de “aumentar as coisas”, de “valorizar os acontecimentos” para “ficar bem na fita”. Ele atribuía a Concerto Para Virgulino Sem Orquestra, por exemplo, premiações e elogios de críticos renomados como Barbara Heliodora e Yan Michalski, mesmo que tais comprovações nunca fossem encontradas nos arquivos. A pesquisa de Leidson Ferraz confirma que “esses ‘louros e confetes’ que Vital Santos jogava para si não causavam dano maior”, mas sim reforçavam o mito do artista que ele construía com maestria. Ele era um dramaturgo que não hesitava em usar de licença poética para si mesmo, um toque de “megalomania” criativa para tornar sua figura ainda mais cativante.

Outros detalhes revelam seu temperamento único. A inclusão de uma galinha de verdade no palco em Olha Pro Céu, Meu Amor, causando frisson entre os produtores; suas mudanças repentinas em ensaios, que faziam o elenco “não gostar”, mas que eram a marca de seu perfeccionismo; e a célebre disputa com Antônio Guinho sobre a autoria de Uma Canção Para Othello, mostrando que sua paixão era tão grandiosa quanto suas criações – e, por vezes, tão tempestuosa. A arte de Vital era viva, e sua vida era, em si, um grande espetáculo.

 Experiências e Percepções Sobre Vital Santos

A complexidade da figura de Vital Santos transparece nas vozes daqueles que o acompanharam de perto, revelando um artista de gênio forte e métodos exigentes. Gilberto Brito, que estreou como ator sob a direção de Vital em 1974, embora o reconheça como um “mestre”, não poupa palavras ao descrevê-lo como um “homem de muita vaidade, ególatra e centralizador a criar histórias megalomaníacas”. Brito é contundente ao classificar uma remontagem de Rua do Lixo, 24 por Vital, nos anos 90, como “desastrosa, já sem o vigor e o impacto de suas realizações passadas”.

Sebastião Alves, o Mestre Sebá, cuja própria história de vida inspirou a peça Olha Pro Céu, Meu Amor e que até hoje mantém vivo o legado de Vital, descreve o diretor como “perfeccionista e exigente”. Embora reconheça o “cuidado que mantinha com seus espetáculos”, Sebá aponta que “muitos da equipe não gostavam” das “mudanças constantes que [ele] fazia na cena”, evidenciando que o processo criativo de Vital também gerava atritos e tensões.

Essa mesma intensidade, capaz de encantar e testar limites, foi sentida por Fátima Aguiar. Embora inicialmente “arrebatada pela profusão de criatividade cênica” de obras como O Sol Feriu a Terra e a Chaga se Alastrou, ela vivenciou o “lado difícil de convivência” e o perfeccionismo exaustivo de Vital. Fátima descreve a estreia de Auto das Sete Luas de Barro como “complicada” e a relação em Concerto Para Virgulino Sem Orquestracomo “bastante desgastada”, culminando em um “duro golpe” quando Vital levou a montagem ao Rio de Janeiro sem o elenco original. Ela lembra que O Príncipe dos Mares de Olinda“resultou num certo fracasso” de público. Apesar das dificuldades, isso não “invalida a admiração que tenho pelas suas criações”, ressalva Fátima.

Já Samuel Santos, que encontrou em Vital sua “universidade” e “teatro escola”, destaca o “perfeccionismo” e a forma como Vital “primava pela coordenação poética da cena”, dedicando-se a “lapidar, mexer, descobrir a melhor maneira de apresentá-la ao público”. Samuel enfatiza que o trabalho com Vital exigia “desapego com o tempo e estar disponível para as construções e desconstruções das cenas”, ressaltando a ausência de um método formal, mas a presença de uma “forma de construir suas peças com alto grau de interesse a cada cena”.

Consagração e Controvérsia

Auto das Sete Luas de Barro. Sebá como Vitalino

Entre as 17 obras resgatadas, duas sempre se destacaram pela intensidade de sua recepção, uma pela aclamação unânime e a outra pela polêmica gerada. Auto das Sete Luas de Barro é, sem dúvida, a obra que catapultou Vital Santos ao patamar dos grandes nomes do teatro brasileiro. Reconhecida como uma “fantasia dramática e musical”, a peça narra a vida do Mestre Vitalino, o célebre ceramista de Caruaru, e, por extensão, a luta e o sofrimento dos artistas populares do Nordeste.

Minhas lembranças dessa obra são vívidas. Ela não apenas conquistou a crítica, mas arrebatou o público por onde passou. O crítico Yan Michalski, do Jornal do Brasil, elogiou-a efusivamente, chamando-a de “um barro que vale ouro” e destacando sua “absoluta originalidade no conteúdo e na forma”. Ele ressaltou a capacidade de Vital Santos de combinar a “inspiração de velhas tradições populares do Nordeste, a preocupação com os contrastes e conflitos sociais que afligem a região hoje em dia, e uma inventiva cênica capaz de sensibilizar o público de qualquer região do país”. A forma como os atores se transformavam em bonecos de barro, imitando as cerâmicas de Vitalino, foi particularmente celebrada por sua “inusitada beleza formal”.

Outros críticos, como Clóvis Garcia (O Estado de S. Paulo), a consideraram uma obra excepcional por sua capacidade de unir uma apresentação cênica bem realizada com uma poderosa mensagem social, denunciando a exploração dos artistas populares sem cair no “lixo cenográfico”. Carmelinda Guimarães (A Tribuna) a classificou como a “grande revelação” do Projeto Mambembão, um espetáculo de “elevado nível profissional” e “grande beleza estética”.

O reconhecimento se materializou em importantes premiações, como o Troféu Mambembe (melhor diretor para Vital Santos e categoria especial para o Grupo Folguedo de Arte Popular), o Prêmio Molière (melhor diretor) e o Prêmio APCA (categoria especial) em 1980. A peça foi um divisor de águas, mostrando a força do teatro vindo do interior do país. Mesmo décadas depois, como eu destaquei no Diario de Pernambuco em 1993, a obra “ainda comove a quem o assiste” e se mantém atual, sendo uma “pequena obra-prima” que aborda a odisseia dos artesãos populares e suas dificuldades. O texto continua sendo levado à cena por grupos, incluindo a atual Companhia Feira de Teatro Popular, de Caruaru, provando a perenidade de seu impacto.

A adaptação de Vital Santos para a clássica tragédia de Shakespeare, Uma Canção Para Othello, chamou a atenção não apenas por sua audácia em transpor o drama para o cenário pernambucano, especificamente a comunidade de pescadores de Brasília Teimosa, mas também pela intensa polêmica que a cercou.

A peça, escrita em parceria com Antônio Guinho, narra a história de Othello, um líder negro do Maracatu Agulha de Prata e presidente da Associação de Moradores, que se apaixona por Desdêmona, filha de um racista Brabâncio. A inveja de Tiago, um falso amigo de Othello, tece uma trama de desconfiança e traição que culmina em tragédia. A obra mescla a cultura popular nordestina – Maracatu, palafitas, o mar revolto personificado – com referências shakespearianas, incluindo a introdução do próprio Shakespeare como um anjo no Cemitério dos Ingleses e as bruxas de Macbeth transformadas em mães de santo.

Contudo, a produção desta obra foi marcada por “inúmeros problemas” e uma “dor de cabeça” significativa para Vital Santos. A parceria entre Vital e Antônio Guinho, embora iniciada com um prêmio de Incentivo à Dramaturgia do Ministério da Cultura em 1996, deteriorou-se. A estreia original no Recife, em 1999, foi adiada, e uma segunda montagem em Caruaru, com um elenco mesclado de atores do Recife e da Companhia Feira de Teatro Popular, teve sua carreira “interrompida bruscamente por conta de ameaças de processo judicial”.

O estopim da polêmica foi a disputa sobre a autoria, com Guinho alegando ter escrito 90% do texto e sentindo-se desrespeitado pela forma como a obra era creditada. Segundo fontes, a menção de “coautoria” em Caruaru foi a gota d’água, levando Guinho a impedir uma récita no Recife por meio de um oficial de Justiça e a ameaçar Vital com um processo legal. Essa disputa resultou em um “rompimento da amizade que não se refez” e, como a filha de Vital Santos, Isabela Sobral, confirmou, gerou execuções fiscais que “deram muita dor de cabeça à família, até mesmo depois da morte dele”.

Apesar dos problemas, a obra teve um impacto notável. O próprio Leidson Ferraz  (escrevendo para a revista eletrônica @ponte) e outros críticos à época reconheceram a audácia da adaptação e a beleza do simples na encenação, com a “cara, a cor e o som do Recife”. Anos depois, em 2012, Vital Santos assinou sozinho uma versão da peça, Canção Para Othello, encenada em Santos/SP, sob a direção de Tanah Corrêa, o que sugere uma reescrita ou reivindicação total da autoria após a polêmica.

Rua do Lixo, 24, de 1976

Um dos principais objetivos da coleção é estimular novas montagens das obras de Vital Santos em todo o país. Quase todas musicais (e muitas inéditas em livro até agora), as peças poderão ser encenadas gratuitamente por grupos amadores, escolas e universidades, desde que a estreia seja comunicada à filha do artista, detentora dos direitos autorais. Então, a coleção abre novas portas para a perpetuação de um legado que, como diz Leidson, “merecia ter sua trajetória de vida artística e parte das suas inesquecíveis peças registradas em livro, como ele bem queria. Do povo para o povo”.

Embora Vital Santos já seja reconhecido nacionalmente, Ferraz acredita que o projeto amplia ainda mais a presença de seu nome no imaginário teatral brasileiro. “Há peças dele que considero verdadeiras obras-primas. Elas merecem novos olhares, novas encenações”, afirma. “Espero que os livros despertem o interesse pelas escritas e pelas montagens de Vital, que instiguem outros artistas a dialogar com essa obra. Quem sabe, assim, ele continue sendo sempre uma referência para quem pensa um teatro musical genuinamente brasileiro – algo pelo qual ele lutou a vida inteira.”

Os eventos de lançamento prometem ser uma verdadeira confraternização da turma do teatro pernambucano, com a participação de DJs, cenas de Auto das Sete Luas de Barro pela Companhia Feira de Teatro Popular, e a presença de tradutoras de Libras para inclusão da comunidade surda. Em Caruaru, a renda da venda dos livros será revertida para a manutenção do Theatro Mamusebá, capitaneado pelo Mestre Sebá, evidenciando o compromisso do projeto com a sustentabilidade da cultura local.

Esta é a oportunidade de conhecer a profundidade, o humor, a poesia e a relevância social da obra de Vital Santos, um artista que, com sua inventividade, continua a inspirar e a enriquecer o cenário cultural do Brasil.

O Universo Dramatúrgico:
As 17 Peças Publicadas

A coleção, que totaliza 848 páginas e quase 200 fotografias raras, oferece um panorama completo da produção de Vital Santos:

Auto das Sete Luas de Barro (1979): Obra-prima sobre Mestre Vitalino que catapultou Vital ao patamar nacional. Fantasia dramática e musical sobre a exploração dos artistas populares do Nordeste.

A Noite dos Tambores Silenciosos (1981): Musical nordestino sobre lutas camponesas pós-1964. Segue Cravo Branco, exilado que retorna a Olinda delirando entre lembranças da repressão.

Olha Pro Céu, Meu Amor (1983): “Ópera circense” sobre compositor de Caruaru que vai ao Rio sonhando ter músicas gravadas por Roberto Carlos. Explora desafios dos migrantes nordestinos.

Concerto Para Virgulino Sem Orquestra (1994): “Ópera cordel” que estabelece paralelos entre Jesus Cristo e Lampião, retratando volta do cangaceiro para salvar o povo nordestino.

No Fim do Beco há um Bosque (1994): Drama político em favela brasileira. Luta por espaço digno em meio à miséria urbana, buscando esperança através da organização coletiva.

Cantigas do Sol – Dom Quixote de Cordel (2009): “Cantata popular” usando Luiz Gonzaga como fio condutor para crítica da política da seca no Nordeste.

As Proezas do Rei Saul na Terra de Caruaru (2007): “Ópera baião” farsesca em reino medieval fictício, narrada por cordelista.

O Príncipe dos Mares de Olinda Contra a Fúria das Águas (1997): Única obra infantojuvenil, alegoria sobre preservação cultural criticando degradação de Olinda.

Uma Canção Para Othello (1996): Adaptação audaciosa de Shakespeare para Brasília Teimosa, transformando Othello em líder de maracatu.

Feira de Caruaru (1968): Retrato da cidade natal que causou alvoroço no município, marco na carreira de Vital.

Rua do Lixo, 24 (1969): Montagem icônica sobre condições precárias urbanas que deu origem ao Grupo Feira de Teatro Popular.

A Menor Pausa: Peça dos “áureos tempos” que consolidou Vital como dramaturgo.

A Árvore dos Mamulengos: Demonstra conexão com tradições populares nordestinas e teatro de bonecos.

O Sol Feriu a Terra e a Chaga se Alastrou: Obra de grande criatividade cênica abordando sofrimento nordestino com linguagem poética.

Solte o Boi na Rua: Texto que marcou início de Mestre Sebá no teatro.

Aparição e Vagabundo: Peça ensaiada por meses que, paradoxalmente, “sequer estreou”.

Bom Dia, Carmen Miranda!: Obra inédita incluída na coleção.

SERVIÇO
LANÇAMENTOS DOS LIVROS DRAMATURGIA VITAL

RECIFE

Data: 17 de dezembro de 2025 (quarta-feira), 19h
Local: SESC Santo Amaro (Rua Treze de Maio, 455, Santo Amaro – Recife)
Programação: DJ Vibra + cena da peça Auto das Sete Luas de Barro com a Companhia Feira de Teatro Popular
Acessibilidade: Tradutoras de Libras

CARUARU

Data: 18 de dezembro de 2025 (quinta-feira), 19h
Local: SESC Caruaru Teatro Rui Limeira Rosal (Rua Rui Limeira Rosal, s/n, Petrópolis – Caruaru)
Programação: DJ Rudá + cena da peça Auto das Sete Luas de Barro com a Companhia Feira de Teatro Popular
Acessibilidade: Tradutoras de Libras
Especial: Renda da venda dos livros será destinada à manutenção do Theatro Mamusebá
PREÇOS DOS LIVROS: R$ 30 cada volume R$ 50 os dois volumes juntos
REALIZAÇÃO: Funarte
APOIO: SESC/PE
COLABORAÇÃO: Vereadora Cida Pedrosa
PROJETO GRÁFICO: Cláudio Lira
CONTATOS:Leidson Ferraz: E-mail: leidson.ferraz@gmail.com
Instagram: @leidsonferraz
Site: www.leidsonferraz.com.br

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Turnê de Sonho Elétrico,
com Jesuíta Barbosa, começa no Recife

Sonho Elétrico marca o retorno do ator pernambucano aos palcos após seis anos e explora temas como consciência, memória e futuro coletivo. Foto: Isadora Quintana / Divulgação

A companhia brasileira de teatro inicia a circulação nacional de Sonho Elétrico pelo Recife. O espetáculo será apresentado no Teatro de Santa Isabel nos dias 12, 13 e 14 de dezembro, trazendo o ator Jesuíta Barbosa de volta ao teatro após seis anos longe dos palcos. Estreada em junho no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, a produção vem com uma proposta que entrelaça arte e ciência. Marcio Abreu assina texto e direção de um trabalho inspirado no livro Sonho Manifesto, do neurocientista Sidarta Ribeiro.

A narrativa acompanha um músico fulminado por um raio que mergulha em coma profundo. Suspenso entre vida e morte, ele percorre memórias fragmentadas, sonhos e a possibilidade de um novo despertar. Essa jornada individual opera como espelho para questões contemporâneas sobre transformação social e futuro planetário.

Para o ator pernambucano Jesuíta Barbosa, o trabalho representa o reencontro com o teatro desde Lazarus, o musical de David Bowie que esteve em cartaz entre 2019 e 2020 em São Paulo. Durante esses seis anos, consolidou sua presença no audiovisual, participando mais recentemente de Homem com H e diversas séries televisivas, tornando-se um dos nomes mais reconhecidos de sua geração.

O elenco reúne Jessyca Meyreles, Idylla Silmarovi e Cleomácio Inácio.

A companhia brasileira de teatro celebra 25 anos em 2025 com Sonho Elétrico. Foto: Isadora Quintana

O projeto se desenvolveu a partir da plataforma Voo Livre, criada em 2023 pela companhia. Sidarta Ribeiro participou de três encontros fundamentais entre 2023 e 2024, em eventos realizados no Rio de Janeiro e São Paulo, incluindo uma residência artística que reuniu 30 jovens artistas.

A obra dá continuidade à investigação da companhia sobre sonho, história e memória, iniciada em AO VIVO [dentro da cabeça de alguém], de 2024.

O espetáculo nasce do trabalho colaborativo que marca a trajetória da companhia brasileira de teatro. Key Sawao traduz os estados alterados de consciência em movimentos, criando uma fisicalidade que dialoga com o território mental explorado na peça. A bailarina e artista da cena desenvolve uma linguagem corporal específica para navegar entre o coma e o despertar.

Felipe Storino constrói a paisagem sonora que sustenta essa jornada. O multi-instrumentista e compositor cria trilha original em parceria com Juliana Linhares, estabelecendo camadas musicais que acompanham as transformações do protagonista. Composições como Armadilha (Juliana Linhares e Caio Riscado), Emaranhada (Juliano Holanda) e Sonho Elétrico (Juliana Linhares e Marcio Abreu) estão na trilha. Luís Chamis executa piano ao vivo durante as apresentações.

Os figurinos de Luiz Cláudio Silva (Apartamento 03) vestem os diferentes estados de consciência dos personagens. Nadja Naira esculpe com a luz os espaços da mente, criando atmosferas que transitam entre o real e o onírico, além de coordenar tecnicamente todo o aparato cênico.

A cenografia surge do diálogo entre Marcio Abreu, José Maria e Nadja Naira, transformando o palco em território mental onde memórias e sonhos ganham forma física. Fábio Osório Monteiro, como assistente de direção, integra essa rede criativa que sustenta a complexidade conceitual do trabalho.

Duas Décadas e Meia de Teatro

Fundada em 2000 por Marcio Abreu em Curitiba, a companhia brasileira de teatro celebra 25 anos em 2025. Seu repertório inclui títulos como PRETO (2017), PROJETO bRASIL (2015) e Vida (2010), além de adaptações como POR QUE NÃO VIVEMOS? (2019), baseada em Platonov de Tchekhov.

Atualmente, o núcleo criativo é formado por Marcio Abreu, Nadja Naira, Cássia Damasceno e José Maria. O grupo mantém circulação constante pelo Brasil e Europa.

Democratização do Acesso

Todas as sessões contarão com intérprete de LIBRAS, audiodescrição e monitoria para pessoas neurodivergentes. O Teatro de Santa Isabel disponibiliza estrutura adequada para cadeirantes e pessoas obesas. Solicitações de serviços especiais podem ser feitas pelo e-mail companhiabrasileira@gmail.com.

Ficha Técnica 

Texto e Direção: Marcio Abreu
Elenco: Jesuíta Barbosa, Jessyca Meyreles, Idylla Silmarovi, Cleomácio Inácio
Direção de Movimento: Key Sawao
Música: Felipe Storino e Juliana Linhares
Figurinos: Luiz Cláudio Silva
Iluminação: Nadja Naira
Interlocução: Sidarta Ribeiro

SERVIÇO

Local: Teatro de Santa Isabel – Praça da República, s/nº
Datas: 12, 13 e 14 de dezembro
Horários: Sex e Sáb, 20h; Dom, 18h
Ingressos: R$ 25 a R$ 100 – Sympla ou bilheteria
Duração: 90 min
Classificação: 14 anos
Capacidade: 500 lugares

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