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Cocina Pública
uma experiência de humanidades

Teatro da mesa comum, duas noites marcantes no Assentamento Normandia, em Caruaru, durante o Feteag.  Fotos: Kari Carvalho / Divulgação

Cocina Pública, do Teatro Contêiner, do Chile. Foto: Kari Carvalho / Divulgação

A luta pela terra é também luta pelo direito de alimentar-se com dignidade. O cientista pernambucano Josué de Castro ensinou que a fome não é fenômeno natural, mas político – resultado de escolhas sociais que determinam quem produz, quem acessa e quem é excluído do banquete da humanidade. No Assentamento Normandia, território do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Caruaru, essa compreensão ganha contornos ainda mais expressivos quando arte e política se encontram em torno de uma mesa comunitária.

Foi exatamente nesse contexto que, durante o 34º Festival de Teatro do Agreste (Feteag), nos dias 18 e 19 de outubro de 2025, cerca de 100 pessoas por noite participaram de uma experiência que transformou o ato de alimentar-se em gesto artístico e cidadania plena. O espetáculo La Cocina Pública, do Teatro Contêiner de Valparaíso, Chile, combina arte performativa com intercâmbio culinário, criando uma cozinha móvel que transforma a alimentação em experiência de reconhecimento mútuo – uma afirmação de que comer é direito inalienável materializado em ação coletiva.

Dessa forma, iniciativas como essa permitem que o teatro vá além da representação para se tornar construção ativa de realidades mais justas, suspendendo temporariamente as hierarquias que determinam quem come o quê, onde e com quem.

O contêiner que carrega utopias

Artistas do teatro e do MST particparam da construção da Cocina Pública em Caruaru

Elencoo do trabalho Cocina Pública

Plaquetas de orientação

Quando chegamos ao final da tarde, a equipe ultimava os preparativos para o espetáculo. O crepúsculo pedia suas memórias enquanto um contêiner permanecia lacrado, com cadeiras dispostas pelo terreiro aguardando a apresentação. Já nesse momento, tabuletas escritas a giz anunciavam: “Vaca Atolada – Cardápio do Dia” e algo como “Cada um lava seu próprio prato” – primeiros indícios de que ali a democracia começaria por gestos simples de cooperação.

Essa proposta ganha força especial ao acontecer no Assentamento Normandia, que carrega uma história de luta e resistência iniciada em 1º de maio de 1993, quando 179 famílias ocuparam a fazenda na zona rural de Caruaru. Foram necessários quatro anos de enfrentamento – cinco ordens de despejo, plantações queimadas, barracos derrubados e até greve de fome – para que, em 1997, Normandia fosse reconhecido oficialmente como assentamento.

Hoje, além do Centro de Formação Paulo Freire, Normandia abriga cooperativa, associação, agroindústria, escola multisseriada e o grupo de mulheres boleiras – estruturas ativas que organizam os assentados e acolhem a comunidade em atividades formativas. Constitui-se, portanto, como espaço agregador onde a educação popular é princípio fundamental.

Prato passa de mão em mão

 É justamente por essa história que apresentar La Cocina Pública em Normandia cria conexões poderosas entre alimentação, luta pela terra e produção de alimentos. Em um território conquistado para que famílias pudessem plantar e colher, o projeto teatral encontra sua expressão mais completa: a mesa comunitária se torna continuidade da luta por soberania alimentar.

Assim, cada prato servido carrega camadas que ultrapassam o nutritivo. É resultado de terra disputada, conquistada, cultivada por mãos que conhecem o valor de cada grão. É materialização do sonho de que produzir alimento pode ser ato de liberdade, não apenas de sobrevivência.

Com essa atmosfera carregada de história, quando os atores surgiram no terreiro, uma transformação começou a operar no ambiente. Um performer subiu ao topo do contêiner e iniciou movimentos entre roupas coloridas espalhadas no teto da superfície metálica. Explorava, brincava com aquela massa têxtil até lançar todo o conjunto ao chão, revelando uma dança de possibilidades: retalhos multicoloridos ganharam vida própria, ondulando como mar têxtil.

O material se transformou inicialmente numa grande saia coletiva, abrigando participantes que emergiam para compartilhar narrativas pessoais. Em seguida, os mesmos tecidos costurados como uma grande tenda fazia a cobertura festiva.

Vista do contêiner

Enquanto essa transformação visual acontecia, os espectadores foram convidados a contornar o contêiner e descobrir seu interior. O que encontramos foi uma cozinha construída com materiais do próprio assentamento: ervas penduradas, pratos organizados, tábuas de cortar legumes, equipamentos improvisados com a criatividade local.

A partir dessa descoberta, o que se seguiu foi uma experiência especial em que artistas e moradores construíram juntos cada momento da apresentação. Os espectadores participaram da cena ativamente, ajudando a organizar mesas e cadeiras, forrando superfícies, distribuindo talheres. Cada movimento se tornava parte de uma coreografia espontânea da cooperação.

Nesse ritmo cerimonial, a refeição chegou em etapas: primeiro os copos e a água, acompanhados de um refresco com cachaça. Em seguida, pães preparados pela própria equipe, servidos com vinhagrete aromático de tomate, cebola e coentro finamente cortados. Entre um gole e outro, as histórias começaram a circular.

Com garfos tilintando nos copos para chamar atenção, um dos apresentadores explicou como se faz: “Piquem o coentro, sintam o aroma e talvez se lembrem da casa de suas avós. Cortem a cebola, limpem os olhos e quem sabe também o coração”.

Arary Marrocos, cofundadora do Teatro Experimental de Arte, presença alegre no Feteag

Sob o teto de tecidos coloridos que criava uma atmosfera circense, mais de cem pessoas se acomodaram para a refeição principal. Os atores narraram a receita da vaca atolada enquanto os pratos eram servidos e passados de mão em mão até as extremidades das mesas. Alguém da comunidade contou a lenda da macaxeira, entrelaçando mitologia local com sabores ancestrais.

Essa atmosfera participativa se intensificou quando o microfone circulou aberto para quem quisesse compartilhar. Canções chilenas foram tocadas e cantadas, alguns brasileiros também aceitaram o convite e tocaram alguma coisa, corpos se moveram em danças espontâneas, criando uma festa transnacional.

Era exatamente essa transversalidade que a companhia havia descoberto ao longo de suas andanças: o projeto permite que diferentes gerações e grupos sociais se encontrem de forma natural e espontânea.

Músicas chilenas e brasileiras animaram a noite

Observando essas dinâmicas, a ideia de transformação ganha dimensão quando percebemos as mudanças subjetivas que a experiência promove. Na mesa da Cozinha Pública, divergências ideológicas se dissolvem no gesto compartilhado de partir o pão, demonstrando como a arte pode criar experiências que expandem nossa capacidade de reconhecer humanidade no outro.

Talvez residam aí as possibilidades revolucionárias mais sutis e duradouras do teatro: não na conversão imediata de consciências, mas na criação de momentos onde a partilha se torna mais poderosa que as palavras, onde o reconhecimento mútuo acontece através de um gesto elementar de comer juntos.

Para compreender melhor essa metodologia, é importante conhecer suas origens. O Teatro Contêiner desenvolveu-se na paisagem de Valparaíso, cidade portuária de colinas e escaladas no litoral chileno, onde os contêineres são presenças constantes na vida cotidiana. Seus criadores perceberam que esses símbolos do comércio globalizado poderiam ser ressignificados culturalmente.

Ao longo dos primeiros dez anos de trabalho, a companhia compreendeu que as linguagens teatrais tradicionais encontravam barreiras em diferentes contextos sociais e geográficos. Essa constatação levou à necessidade de criar códigos mais universais, o que conduziu à descoberta da comida como linguagem compartilhada.

Afinal, todo mundo sabe avaliar se um prato precisa de sal, se está aguado ou se a textura agrada. Esses sabores carregam identidade coletiva, memórias familiares e conhecimentos transmitidos entre gerações.

A alegria que tomou conta do terreiro nas duas noites de Normandia carregava algo mais profundo que o prazer de uma refeição bem temperada. Era a alegria do encontro – aquela que surge quando pessoas se reconhecem mutuamente para além dos papéis sociais que habitualmente ocupam. A festa acontecia porque algo fundamental estava sendo restaurado.

Essas experiências são sementes plantadas na memória afetiva de cada participante. Quando nos despedimos da caravana chilena, ficou a comprovação de que é possível criar, mesmo temporariamente, espaços onde pessoas se reconhecem mutuamente em sua humanidade essencial. La Cocina Pública demonstra que teatro pode ajudar na construção de realidades mais generosas. 

Ficha Técnica

Direção: Nicolás Eyzaguirre
Direção Técnica: Kevin Morizur
Chef e Ator: Juan Larenas
Antropóloga e Oficina de Memória: Ana Insunza
Costureira e Figurinos: Mayra Olivares
Cenografia: Williams Luttgue
Atriz: Irina Gallardo
Ator e Músico: Alexander Castillo
Realização: Teatro Container (Valparaíso, Chile)
Local: Assentamento Normandia, Caruaru/PE
Datas: 18 e 19 de outubro de 2025
Festival: 34º Feteag – Festival de Teatro do Agreste
Classificação: Livre

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Feteag confirma Caruaru como
epicentro de descentralização cultural
Peças dos primeiros dias

Entrado do Teatro Lycio Neves no dia da apresentação do Magiluth. Foto: Jorge Farias

Plateia do Teatro Lycio Neves no dia da apresentação de Neva. Foto: Jorge Farias

Fabio Pascoal, diretor e curador do Feteag. Foto: Jorge Farias / Divulgação

A 34ª edição do Festival de Teatro do Agreste (Feteag) acontece sob a égide de uma provocação contemporânea urgente: como manter a humanidade em um mundo hiperconectado? A resposta do Teatro Experimental de Arte (TEA), idealizador e realizador do festival, parece estar na própria escolha curatorial desta edição – uma seleção que equilibra conexão global com intimidade humana, velocidade tecnológica com desaceleração contemplativa.

Em um momento histórico em que a digitalização ameaça fragmentar experiências coletivas, o Feteag 2025 se posiciona como um laboratório de resistência. As escolhas artísticas desta edição arquitetam encontros. Encontros entre públicos diversos, entre linguagens teatrais distintas, entre o cosmopolita e o regional – mas, sobretudo, encontros genuinamente humanos. A participação de La cocina Pública, do grupo chileno Teatro Container no  Assentamento Normandia é inspiração para muitos debates políticos e estéticos.

A curadoria demonstra maturidade ao compreender que estar “conectado com o mundo” não significa necessariamente aderir aos seus ritmos sufocantes. Pelo contrário: a programação funciona como um convite à desaceleração reflexiva, criando espaços onde a experiência teatral pode operar como antídoto ao frenesi urbano contemporâneo.

A aposta em reforçar o território de Caruaru mostra-se cada vez mais acertada. A cidade, que já não corresponde às memórias mais remotas de uma urbe menor, se posiciona como metrópole cultural em potencial. O crescimento urbano veio acompanhado de uma ampla oferta de serviços, mas é no setor cultural que reside ainda o maior espaço para desenvolvimento – lacuna que o Feteag vem preenchendo sistematicamente há mais de três décadas.

O que se observa nesta edição é uma inversão de fluxos culturais tradicionalmente centrípetos. Ao invés de drenar talentos e públicos para os grandes centros, o festival transforma Caruaru em um ímã cultural, atraindo artistas, críticos, curadores e espectadores de diversas regiões. Essa descentralização é geográfica e simbólica, questionando hierarquias culturais estabelecidas.

Talvez o fenômeno mais fascinante desta edição seja o engajamento de uma legião de jovens com o teatro. Estudantes que se transformam em multiplicadores culturais, divulgando, debatendo, vibrando com as propostas artísticas. Esse movimento de apropriação juvenil do festival sugere que estamos diante de uma mudança geracional no consumo e na produção cultural da região.

À mon seul désir (Ao meu único desejo), de Gaëlle Bourges (França)

À mon seul désir, na abertura do Feteag no Recife. Foto: Walton Ribeiro / Divulgação

A abertura do Feteag no Recife (9 e 10 de outubro) com a obra À mon seul désir, de Gaëlle Bourges, sublinha a ousadia curatorial do festival. Espetáculo faz uma desconstrução crítica e performática de um dos ícones da arte medieval, a série de tapeçarias A Dama e o Unicórnio. Bourges utiliza a obra original, rica em simbolismo alegórico sobre os cinco sentidos e o “único desejo”, como ponto de partida para um exame perspicaz da representação feminina na arte ocidental e das construções sociais em torno da feminilidade, pureza e desejo.

As tapeçarias originais, datadas do século XV, apresentam uma figura feminina idealizada, cercada por animais fantásticos e elementos florais, frequentemente interpretada como um emblema de virtude e castidade. Bourges, no entanto, subverte essa leitura ao despir as intérpretes, expondo a vulnerabilidade e a força do corpo feminino em sua forma mais crua. A encenação, com quatro artistas nuas, explora a dualidade entre a figura idealizada da Dama e os simbolismos contidos no bestiário da tapeçaria, como o leão e o unicórnio. Ao vestir as intérpretes com máscaras de animais como o coelho — tradicionalmente associado à fertilidade e, por vezes, à luxúria — e questionar a virgindade da Dama através da exposição do corpo feminino em diferentes perspectivas e movimentos, Bourges provoca e convida o público a repensar os códigos morais e estéticos que moldam nossa percepção da história da arte e da identidade feminina.

A transição de um movimento gracioso e quase pictórico para uma sarabanda frenética de Coelhos pode ser interpretada como uma libertação catártica dessas convenções, um rompimento com a passividade e a idealização atribuídas historicamente à mulher na arte. É um ato de reencarnação dos símbolos, onde o corpo presente e vivo das bailarinas se torna o veículo para uma nova narrativa. A bagagem da diretora, com seu interesse no corpo feminino como ferramentas de análise e expressão sobre autonomia, permeia toda a construção cênica, promovendo a ressignificação da imagem da mulher e a crítica ao olhar patriarcal na história da arte. À mon seul désir é, portanto, uma abertura que celebra a artea, mesmo tempo que a questiona, a transforma e a recontextualiza, proposta alinhada com a escolha curatorial deste ano do Feteag de ampliar diálogos e estéticas desafiadoras.

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Dancemos… que o mundo se acaba! (Bailemos… que se acaba el mundo!), de BiNeural-MonoKultur (Argentina)

Florencia Baigorrí e Maximiliano Carrasco Garrido, comandam as coreografias. Foto: Kari Carvalho / Divulgação

A performance Dancemos… que o mundo se acaba! (Bailemos… que se acaba el mundo!), do coletivo argentino BiNeural-MonoKultur, apresentada em Caruaru, é um exemplo notável de teatro imersivo e participativo que dialoga diretamente com o contexto social contemporâneo. A escolha de um espaço não-convencional como a Estação Ferroviária de Caruaru adiciona camadas de significado. Uma estação, por sua natureza, é um local de trânsito, de chegadas e partidas, de encontros e despedidas, e evoca a ideia de uma jornada coletiva e individual, ressoando com a temática da peça. A proposta de uma experiência coletiva mediada por fones de ouvido ressalta o desejo de romper com as barreiras tradicionais entre palco e plateia, convidando o público a ser co-criador da obra.

A peça é particularmente ressonante por ter sido concebida durante a pandemia de COVID-19, estabelecendo um paralelo provocador com a Epidemia da Dança de Estrasburgo de 1518. Essa conexão histórica explora a dança como uma resposta primal e, por vezes, incontrolável, a momentos de crise, ansiedade coletiva e incerteza existencial. A “Epidemia da Dança” foi um fenômeno em massa, onde centenas de pessoas dançaram incontrolavelmente por dias, muitas vezes até a exaustão ou morte. A ideia de dançar “como se o mundo estivesse acabando” chega como um ato de resistência, libertação e celebração da vida em meio à incerteza, seja ela o contágio dançante de 1518, a pandemia recente, ou as crises climáticas e sociais atuais.

A companhia, conhecida por envolver o público de forma ativa, transforma cada espectador em um cocriador da experiência. Os fones de ouvido criam “bolhas” individuais de percepção sonora – cada participante ouve instruções, músicas e narrativas que guiam seus movimentos e emoções. Paradoxalmente, essa individualização auditiva fomenta uma unidade coletiva, pois todos estão sincronizados por uma mesma “voz” invisível, mas livres para interpretar e expressar-se corporalmente. A coreografia e as instruções compartilhadas forjam uma unidade coletiva, permitindo que cada participante explore sua própria relação com o movimento, a música e o corpo em um espaço compartilhado. Dancemos… é um convite à catarse, à reconexão com o prazer físico e social da dança, e à redescoberta da capacidade do corpo de se expressar e de se libertar, um poderoso antídoto em tempos de isolamento e angústia.

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Magiluth honra local da construção de Édipo REC, em Caruaru

Giordano Castro e Gabriela Cicarello, com Édipo e Jocasta, na sessão do Feteag. Foto: Jorge Farias

Édipo REC é uma releitura vibrante e provocadora da tragédia clássica, concebida pelo Grupo Magiluth como um “jogo” cênico. A peça transforma o mito de Édipo em uma experiência imersiva que dissolve a fronteira entre palco e plateia. Utilizando uma linguagem que mistura teatro, festa e cinema, a montagem transforma Tebas em um Recife contemporâneo e fantasmagórico. Com um DJ no comando da trilha sonora pop e um Corifeu que filma a ação em tempo real, o espetáculo questiona a relevância da tragédia hoje e usa a tecnologia para refletir sobre a era da superexposição e das narrativas digitais.

Em sua apresentação em Caruaru, durante o Feteag 2025, a peça envolveu o público desde antes do início, com os atores interagindo e distribuindo cervejas do lado de fora do Teatro Lycio Neves. A primeira hora se desenrolou como uma festa efervescente, com os espectadores em pé, dançando ao som de ritmos pop. A reação da plateia foi selvagem e contagiante, com uma entrega total à atmosfera de festa. No entanto, essa mesma audiência mostrou-se surpreendentemente tímida quando provocada a um “beijaço” geral, revelando as complexidades e limites da participação mesmo em um ambiente de intensa interação.

O elenco demonstrou um entrosamento comparável a uma orquestra sinfônica, onde cada músico domina seu instrumento em perfeita harmonia com o conjunto. Roberto Brandão assumiu Tirésias com um cinismo elegante e debochado, enquanto Gabriela Cicarello entregou uma Jocasta altiva, permeada por uma melancolia profunda que transbordava em cada gesto. Um momento inesperado e marcante da sessão foi a ação de um espectador anônimo que lançou lixo orgânico no palco no final do primeiro ato. O cheiro pútrido de laranjas estragadas invadiu o teatro, atacando violentamente o olfato da plateia e materializando sensorialmente a “praga” de Tebas. Embora não fizesse parte do roteiro, o gesto adicionou uma camada visceral de caos e decadência que prenunciava tragicamente o segundo ato.

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A potência da indignação articulada em Fábulas de Nossas Fúrias

Coletivo Atores à Deriva (RN) transforma raiva em arte política. Foto: Jorge Farias

Fábulas de Nossas Fúrias, do Coletivo Atores à Deriva, do Rio GRande do Norte, foi apresentado no Feteag como um trabalho teatral que reverbera intensamente, soltando a voz de um acúmulo de silêncios e indignações historicamente reprimidas. Alex Cordeiro assina a direção e constrói a dramaturgia em parceria com Giordano Castro, criando um tecido dramatúrgico que se apropria dos conceitos de “fábula” e “fúria” como estruturas para uma análise das contradições humanas e sociais. A criação do espetáculo contou com a colaboração de Alex Cordeiro, Álvaro Dantas, Mattheus Corpo, Doc Câmara e Thuyza Fagundes, configurando um processo criativo coletivo que se reflete na multiplicidade de vozes e perspectivas presentes em cena.

A peça estabelece uma confrontação direta com a “Justa Raiva” teorizada por Paulo Freire, conceito que reconhece a indignação como um direito legítimo dos oprimidos e como força motriz para a transformação social. Essa perspectiva freireana entende a raiva como uma resposta consciente e necessária às injustiças, diferenciando-a da revolta cega ou do ódio destrutivo, posicionando-a como uma energia pedagógica e libertadora.

Os 17 anos de pesquisa do Atores à Deriva encontram neste espetáculo um tema que ressoa profundamente com as vivências e inquietações dos integrantes do grupo. O trabalho se constrói como um grito articulado, utilizando a fábula como estratagema narrativo para expor opressões contemporâneas de forma alegórica, mas impactante. 

O trabalho corporal desenvolvido pelo elenco (Álvaro Dantas, Doc Câmara, Mattheus Corpo e Alex Cordeiro), sob a direção de movimento e preparação corporal de Dudu Galvão, constitui um dos pilares fundamentais do espetáculo. O corpo em cena assume o território de expressão da fúria e da vulnerabilidade. Através de uma “animalização da existência”, os atores exploram fisicamente os impulsos e essas urgências. Movimentos que variam entre a contorção, a explosão e o recolhimento, respirações que ecoam a angústia, e olhares que carregam histórias de opressão, comunicam dimensões que a palavra sozinha não consegue abarcar. Na gestualidade que transita entre referências animais e a fragilidade humana, a peça encontra um de seus momentos mais potentes, estabelecendo uma comunicação direta e emotiva com a plateia.

Estruturada em fábulas contemporâneas protagonizadas por um macaco, uma baleia e um veado, a dramaturgia, aposta na capacidade de encarar frontalmente as violências do racismo, da misoginia e da homofobia. Cada fábula, embora autônoma, tece uma crítica direta a sistemas de poder e preconceito. A escolha de valorizar o termo “veado”, historicamente usado de forma pejorativa, para afirmar subjetividades gay e seus modos de amar, afirma-se como um ato de subversão linguística e política que espelha a proposta central da peça. Nesse contexto, ações cotidianas como “beijar na rua” adquirem caráter de “fúria” afirmativa, desafiando a heteronormatividade compulsória e as tentativas de invisibilidade. A dramaturgia inverte a lógica conservadora que hierarquiza identidades para celebrar resistências e modos diversos de existir.

A dramaturgia também evidencia a importância das redes de apoio e afetos na construção de subjetividades LGBTQIA+, demonstrando como a solidariedade coletiva se torna estratégia de sobrevivência e resistência em contextos hostis.

Grupo reflete sobre a masculinidade hegemônica. Foto: Jorge Farias

É fundamental ressaltar a relevância política de um grupo formado majoritariamente por homens que encara frontalmente as fragilidades e contradições da masculinidade hegemônica. O espetáculo desnaturaliza padrões machistas ao expor como as pressões de gênero afetam  os corpos masculinos, criando espaço para discussões sobre orientações sexuais e identidades de gênero que desafiam a rigidez dos papéis sociais impostos. Para um coletivo de homens, assumir publicamente as vulnerabilidades da masculinidade e os atravessamentos das questões de gênero constitui um ato de coragem artística e política que amplia os territórios possíveis para a expressão das diversidades.

No entanto, as próprias fissuras dramatúrgicas do espetáculo funcionam como dobras de articulação que revelam camadas complexas da experiência teatral. As transições entre as fábulas não operam por continuidade linear, mas por contaminação emocional e temática – um procedimento que exige do espectador uma disponibilidade para ir além de seus limites nessa construção receptora. Essas lacunas intencionais entre os núcleos narrativos constituem espaços de respiração onde o público processa as camadas de violência e resistência apresentadas. As aparentes descontinuidades se atuam, na verdade, como estratégias dramatúrgicas que permitem que cada fábula ressoe de forma independente antes de se articular com as demais.

Para alguns espectadores, essas dobras podem gerar momentos de desconexão; para outros, constituem territórios férteis onde as indignações pessoais encontram eco nas fúrias cênicas. A dramaturgia assume, assim, o risco de uma incompletude proposital, convidando cada plateia a preencher os intervalos com suas próprias experiências de opressão e resistência.

Beijo inspirado no espetáculo do Grupo Magiluth. Foto: Jorge Farias

Enquanto construção cênica, a dramaturgia e encenação explicitam suas influências e referências, como no beijo francamente inspirado na peça Dinamarca, do Magiluth, estabelecendo um diálogo intertextual que enriquece as camadas interpretativas do trabalho. Essas citações funcionam como reconhecimentos de uma genealogia teatral comprometida com a discussão de sexualidades e identidades dissidentes.

Apesar das questões estruturais apontadas, Fábulas de Nossas Fúrias confirma-se como um espetáculo relevante que articula um trabalho corporal consistente com uma dramaturgia provocativa. Sua capacidade de convocar o público a refletir sobre suas próprias indignações e os lugares de onde elas emergem faz da peça uma experiência marcante. O trabalho  impulsiona discussões sobre direitos de existência e expressão, consolidando o teatro como espaço fundamental para a articulação de afetos transformadores e para a celebração da resistência.

Neva, montagem de Marianne Consentino

Peça pensa a arte em tempos de colapso. Foto Jorge Farias

Neva, na montagem dirigida por Marianne Consentino apresentada no Teatro Lycio Neves durante o Feteag, afirma-se como um espetáculo de complexa densidade, que questiona os limites e contradições entre arte e política, entre a necessidade de criar e a urgência de agir. A peça, escrita pelo dramaturgo chileno Guillermo Calderón em 2005, explora paixões e desencantos que permeiam o universo teatral: a paixão pelo palco, pela arte de interpretar, pelo ofício de representar, mas também interroga as inércias que se justificam em nome da arte, os descompassos entre criação artística e compromisso político, e as dificuldades inerentes a uma arte efêmera que luta constantemente por sua própria sustentabilidade e relevância social.

No centro desta tensão encontra-se uma protagonista que insiste em encontrar o fio condutor de sua personagem enquanto o mundo literalmente desmorona do lado de fora do teatro, metáfora potente para os dilemas do artista contemporâneo diante das crises sociais e da constante necessidade de justificar a existência da arte em meio ao caos.

A escolha de Marianne Consentino por esta dramaturgia, integrada à sua pesquisa de pós-doutorado desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia, sob supervisão da professora Dra. Sonia Rangel, transforma a montagem em um laboratório de investigação sobre as relações entre teatro e memória, entre criação artística e contexto histórico. A diretora constrói um espetáculo que dialoga tanto com as urgências do texto original quanto com as ressonâncias que a obra adquire no contexto brasileiro contemporâneo, especialmente em um momento de polarização política e questionamentos sobre o papel da arte em tempos de crise democrática e de constantes ataques às políticas culturais.

O elenco formado por Vika Schabbach, Igor de Almeida, Gardênia Fontes e Guilherme Mergulhão constrói a atmosfera claustrofóbica de três atores refugiados em um teatro de São Petersburgo no fatídico Domingo Sangrento de 9 de janeiro de 1905. Neste dia histórico, manifestantes que marchavam pacificamente para entregar uma petição ao Czar, reivindicando melhores condições de trabalho, foram brutalmente fuzilados pela Guarda Imperial, evento que se tornaria o estopim da Revolução Russa de 1917.

A protagonista Olga Knipper, viúva de Anton Tchekhov e primeira atriz do Teatro de Arte de Moscou, surge como uma figura emblemática desta tensão entre luto pessoal e catástrofe coletiva. Incapaz de representar após a morte do marido por tuberculose seis meses antes, ela insiste em encenar repetidamente a morte de Tchekhov com seus colegas Masha e Aleko, numa compulsão que revela tanto a necessidade de elaborar o luto quanto a incapacidade de se conectar com a tragédia histórica que se desenrola nas ruas.

Vika Schabbach constrói essa complexa protagonista com notável sensibilidade e leveza, expondo as nuances das contradições de uma atriz que exterioriza suas próprias inseguranças através da arte. Suas interações com Igor de Almeida e Gardênia Fontes criam momentos de extrema cumplicidade, recriando a intimidade peculiar de uma sala de ensaio onde os limites entre pessoa e personagem se dissolvem, tornando visíveis os segredos íntimos do ofício teatral.

Um tecido visual com referências clássicas e registros da realidade atual. Foto: Jorge Farias

O material imagético construído por Consentino constitui um dos aspectos mais ricos e provocativos da montagem. A diretora elabora um tecido visual que trabalha deliberadamente com ironias e contrastes entre o que é dito no texto e as imagens projetadas, criando camadas interpretativas que expandem temporalmente a reflexão proposta por Calderón. As referências visuais transitam das clássicas sequências do Encouraçado Potemkin de Eisenstein, com sua famosa escadaria e a violência revolucionária, passando por filmes de propaganda stalinista, até alcançar vídeos contemporâneos que documentam opressões no Brasil e em toda a Nossa América Latina no século XXI. Esta montagem imagética inclui ainda registros dos movimentos patrióticos bolsonaristas, com suas ações frequentemente risíveis e grotescas, estabelecendo uma ponte provocativa entre a repressão czarista de 1905, os autoritarismos do século XX e as manifestações neofascistas atuais.

Particularmente instigante é a incorporação da dramaturgia incidental Estudo Nº 1 Morte e Vida do Grupo Magiluth, que funciona na linha do “plágio e combinação”, seguindo a estética antropofágica de Tom Zé. Esta inserção metateatral, onde uma cena do espetáculo do Magiluth surge dentro do próprio Neva, cria um efeito de mise en abyme que questiona as fronteiras entre criação e citação, entre originalidade e apropriação. Esta estratégia reforça o questionamento central da peça sobre a relevância e a serventia do teatro, ecoando a pergunta que atravessa toda a obra: para que serve a arte quando o mundo está em chamas?

A montagem de Consentino consegue, assim, atualizar a urgência do texto de Calderón para o contexto latinoamericano destes tempos. A questão sobre a importância da memória das ditaduras para a América Latina e o papel do teatro contemporâneo no avivamento desta memória traumática encontra na encenação uma pulsação cênica complexa.

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Édipo REC mais que vibrante
na sua incubadora em Caruaru
Crítica

Giordano Castro e Gabriela Cicarello, com Édipo e Jocasta. Foto: Jorge Farias

Erivaldo Oliveira como Coro no prólogo fora do teatro. Foto: Jorge Farias / Divulgação

Édipo REC, do Grupo Magiluth, do Recife, é um acontecimento cênico vibrante e desafiador. Gestada no Teatro Lycio Neves, em Caruaru, local que acolheu seu retorno no Festival de Teatro do AgresteFeteag 2025, a peça se apropria de uma narrativa trágica para questionar a sua perene relevância e a capacidade do teatro de provocar, desestabilizar e dialogar com as sensibilidades contemporâneas. A concepção do Magiluth, ligada ao conceito de “jogo” (escolha que valoriza a experimentação, a interação e a imprevisibilidade, convidando o espectador à coautoria da experiência), transforma o palco em um espaço de vivência contínua. Aqui, a plateia é ativamente convidada a participar de uma peça que desestrutura a cronologia linear e as expectativas tradicionais de fruição teatral.

O espetáculo começa antes mesmo da abertura formal dentro do teatro, com os atores circulando entre os espectadores no exterior do teatro, inaugurando um clima de cumplicidade e imersão imediata. Essa introdução festiva, pontuada pela distribuição de cervejas e a presença de personagens já em cena – como Kréonte, Tirésias, o Mensageiro e Corifeu que, munido de uma câmera, filma incessantemente – cria uma ponte fluida entre o cotidiano do espectador e o ritual cênico. O palco se transmuta em uma balada efervescente, com DJ Édipo (interpretado por Giordano Castro) mixando ritmos que vão de Rihanna e Pabllo Vittar a MC Poze do Rodo. Essa trilha sonora pop serve como uma lente para a atemporalidade dos dilemas humanos, justapondo o hedonismo contemporâneo à iminência da tragédia.

Nesse cenário de frenesi, o Coro, interpretado por Erivaldo Oliveira em um figurino provocativo e andrógino de Chris Garrido, assume o papel de anfitrião-provocador e de voz da consciência coletiva. Ele anuncia a festa, mas também alerta para a “vida decepcionante” que se esconde sob o verniz da celebração, encarnando a dualidade entre o júbilo e a premonição.
A plateia, especialmente na sessão em Caruaru, foi rapidamente arrastada para essa atmosfera de confluência entre o hedonismo e a premonição. A primeira hora do espetáculo, vivenciada em pé, em meio a uma balada caótica, permitiu experimentar o teatro como acontecimento, como uma troca mútua e palpável entre quem o faz e quem o assiste. A entrega do público de Caruaru, que se mostrou “animal” e “contagiante”, diz muito da estratégia do Magiluth em estabelecer uma conexão, utilizando a proximidade física e a quebra de protocolos para intensificar a experiência e desmantelar a barreira convencional entre palco e plateia.

Em um dos momentos de maior engajamento, o Coro estimula a “não-monogamia” e um “beijaço” geral. No entanto, apesar da efervescência desde o início da peça para a dança, a resposta do público ao estímulo do “beijaço” foi notavelmente discreta, até mesmo acanhada. 

Roberto Brandão, como Tirésias. Foto: Jorge Farias

Lucas Torres como Mensageiro. Foto Jorge Farias

Gabriela Cicarello como Jocasta

A atuação do elenco – dirigido com criatividade e irreverência por Luiz Fernando Marques, Lubi – assemelha-se a uma partida de basquete em que os jogadores, além de entrosados e estrategicamente alinhados através de um rigoroso trabalho de conjunto, têm espaço para o brilho individual, e todos contribuem para a “cesta” – um jogo perfeito de entrega e colaboração na sessão em Caruaru. Roberto Brandão, assumindo o papel de Tirésias, o cego vidente, com um cinismo elegante e um deboche quase felino, cumpre com dignidade a tarefa de suceder o impacto de Pedro Wagner, injetando uma nova camada de complexidade e impertinência ao profeta.

Enquanto isso, Gabriela Cicarello, substituindo Nash Laila como Jocasta, entrega uma figura altiva e permeada por lutos não verbalizados, transmitindo através de sua postura e olhar uma profundidade melancólica à sua personagem, capaz de transitar entre diferentes estados emocionais e funções narrativas, do desdém à desesperança.

A trilha sonora, festiva e dramática, serve como um motor potente da dramaturgia, carregada de ironia e pensamento. O karaokê de Toda forma de amor, de Lulu Santos, é uma instigação que ressoa com as tensões da peça, indagando sobre os limites e as complexidades do amor, que abarca inclusive os proibidos e os incestuosos, reverberando os dilemas intemporais da tragédia.

As referências a outras obras, como Beijo no Asfalto de Nelson Rodrigues, enriquecem o intertexto, conectando a tragédia grega a outras explorações da paixão, do destino e do julgamento social na dramaturgia brasileira, especialmente no contexto urbano e suas hipocrisias.

Linguagem audiovisual utilizada na reconstrução da tragédia Foto: Jorge Farias / Divulgação

A linguagem audiovisual é um pilar fundamental na construção de Édipo REC. O espetáculo se inspira fortemente no cinema, transformando Tebas em um Recife fantasmagórico e presentificado, onde o Corifeu, munido de uma câmera em tempo real, atua como um olho onipresente e, por vezes, intrusivo. Ele registra e transmite imagens para telões estrategicamente posicionados, como também media a realidade, manipulando a percepção do público e posicionando-o como voyeur e cúmplice.

Essa escolha tecnológica espelha a superprodução de imagens da era das redes sociais, a vigilância constante e a construção de narrativas digitais, onde a verdade é frequentemente moldada pela perspectiva da câmera e pela curadoria do conteúdo. A integração da tecnologia confere uma camada metalinguística à narrativa, explorando a relação intrínseca entre o real e o encenado, entre o que é filmado e o que é vivido.

O grupo Magiluth buscou referências no cinema experimental e underground, explorando como diferentes estéticas cinematográficas poderiam dialogar com a tragédia clássica e contemporânea. Desde o seminal Édipo Rex (1967) de Pier Paolo Pasolini, que explora a tragédia grega com uma estética brutalista, arcaica e quase documental, utilizando não-atores e locações desérticas para enfatizar os instintos primais e a inevitabilidade do destino de forma crua, Édipo REC absorve essa crueza na performance e na representação de um Recife desolado, onde a miséria e a beleza se entrelaçam sem filtros. O vanguardista Funeral das Rosas (1969) de Toshio Matsumoto, um mergulho no universo contracultural das drag queens de Tóquio, com sua subversão de gênero, fluidez da identidade e fragmentação narrativa, influenciou a estética não-linear e a desconstrução de papéis em Édipo REC, onde a identidade de Édipo é constantemente questionada e reconfigurada pela lente da câmera e pela interação com o Corifeu.

Outros filmes como Hiroshima, meu amor (1959) de Alain Resnais, com sua estrutura não linear e a forma como aborda a memória e o trauma, influenciaram a maneira como Édipo REC lida com o tempo e a persistência do passado no presente, utilizando montagens rápidas e justaposição de imagens para evocar a fragmentação da memória e o peso do trauma coletivo. Cinema Paradiso (1990) de Giuseppe Tornatore, que celebra o poder do cinema e da nostalgia, contribuiu para a reflexão sobre a capacidade das imagens de construir e preservar memórias, e como elas moldam nossa compreensão da realidade e do afeto; em Édipo REC, as imagens capturadas e projetadas tornam-se o registro “oficial” da tragédia, o que será lembrado e transmitido. E Cabaret” (1972) de Bob Fosse, que retrata a decadência social e política da Alemanha pré-Nazista através do microcosmo de um clube noturno, influenciou a estética de performance e a crítica social, mostrando como o entretenimento pode mascarar ou, inversamente, expor as tragédias iminentes, utilizando a teatralidade da encenação e a interação com a plateia para desnudar as tensões sociais latentes na Tebas-Recife.

Transformação do amor de Édipo e Jocasta no segundo ato, do Velório. Foto: Jorge Farias

A transição entre os atos é impactante, como quebra narrativa e também como dispositivo que força o público a uma reorientação. Os espectadores são solicitados a se retirar do espaço cênico por alguns minutos, um ato que simula uma interrupção técnica, como se a cena anterior precisasse ser ‘refilmada’ ou o set ‘reajustado’. Esta pausa deliberada para a interrupção da festividade e da ilusão, um reset forçado prepara o terreno para a iminente catástrofe que assola Tebas-Recife ou Caruaru-Tebas.

Se o primeiro ato foi a “festa” de uma grande celebração, onde Édipo ainda se agarrava à esperança de fugir de seu destino através do hedonismo e da negação, o segundo ato é o “velório”, o “enterro” simbólico da ilusão e da inocência. Os espectadores são arrastados para o olho do furacão da tragédia, acompanhando o protagonista em um mergulho implacável nas consequências devastadoras de suas ações e do destino.

A dramaturgia de Giordano Castro, com sua crueza, escancara as feridas da humanidade e as verdades dolorosas detectadas por Sófocles, revelando as consequências inevitáveis do destino e do conhecimento proibido. O amor, antes celebrado e idealizado, assume-se como “horror” para a família de Édipo

Adicionalmente, um evento que marcou o final do primeiro ato – uma “performance” inesperada onde alguém lançou lixo orgânico, com laranjas estragadas, no palco, exalando um cheiro forte e desagradável – adicionou uma camada de caos e crueldade à cena. Ficamos na dúvida sobre a espontaneidade do ato, parecendo até uma cena combinada. Mas não foi. De todo modo, esse gesto metateatral além de mimetizar a desordem e a decadência na cena, materializou a “praga” que assola Tebas, atacando os sentidos do público. A experiência olfativa e visual do lixo orgânico serviu como um presságio sensorial da putrefação moral e social que se revela no segundo ato.

Bruno Parmera. Foto: Jorge Farias

Mário Sérgio e Giordano Castro. Foto: Jorge Farias e Giordano Castro, Kreonte e Édipo. Foto: Jorge Farias

No segundo ato denso, os personagens travam embates de acusação e defesa em um clima crescente do estado de desespero. No desenvolvimento do retorno da memória de Édipo, ganha destaque a projeção de uma gravação em que o protagonista, pilotando uma motocicleta, encontra e mata Laio.

A integração das tecnologias audiovisuais é central para a narrativa e a estética. A presença constante do Corifeu vertido em operador de câmera em cena, que registra e interfere ativamente nos acontecimentos, reflete a ubiquidade da mídia em nossa sociedade e questiona a natureza da verdade e da representação, transformando o público em voyeurs cúmplices da tragédia. A atmosfera torna-se inescapável, remetendo à reflexão de Sófocles sobre a verdadeira medida da vida e da felicidade de uma pessoa, que só pode ser avaliada quando chega ao seu desfecho.

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Desconstrução das imagens de controle
na performance de Gaëlle Bourges
Crítica: À mon seul désir

A mon seul désir, de Gaëlle Bourges (França). Foto: Danielle Voirin / Divulgação

Na história da arte ocidental, cada representação visual carrega consigo valores políticos que se consolidam através da difusão e da consagração cultural. Quando a coreógrafa francesa Gaëlle Bourges reativa performaticamente a tapeçaria medieval A Dama e o Unicórnio (c. 1490) em seu espetáculo À mon seul désir, ela interroga esse repertório visual que continua moldando nossa compreensão do feminino.

Exploradora da história da arte, Bourges se mostra uma cartógrafa crítica que mapeia a sedimentação histórica das representações de gênero, criando diálogos tensionados entre o da obra original na contemporaneidade.

A tapeçaria A Dama e o Unicórnio, obra-prima do final do século XV conservada no Museu de Cluny no Quartier Latin, em Paris, constitui o objeto arqueológico privilegiado desta desconstrução crítica. O título do espetáculo – À mon seul désir – provém diretamente da inscrição presente no enigmático sexto painel desta tapeçaria, cujos cinco primeiros alegorizam sucessivamente as relações da dama com os cinco sentidos tradicionais, culminando no mistério desse sexto sentido indeterminado.

O espetáculo inicia com uma composição visual precisa. Quatro performers nuas – Gaëlle Bourges, Agnès Butet, Marianne Chargois e Alice Roland – executam movimentações de lentidão ritualística diante de uma extensa cortina de veludo vermelho que se estende de um lado ao outro do palco (no caso da apresentação na programação do Feteag, no Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu, no Recife, nos dias 9 e 10 de outubro), criando uma passarela para a evolução das intérpretes.

As quatro artistas, cuja coreografia foi desenvolvida colaborativamente por Carla Bottiglieri, Gaëlle Bourges, Agnès Butet e Alice Roland, executam movimentações minuciosas: abaixam-se graciosamente, estendem os braços em gestos calculados, cravam delicadamente flores coloridas no tecido vermelho, criando desenhos efêmeros que se desfazem e se refazem ao longo da apresentação.

Durante essas sequências iniciais, escutamos um longo comentário em português que descreve e analisa a tapeçaria original. A narrativa em português foi desenvolvida por Nathalia Kloos, com tradução do texto realizada por Lia Imanishi e Nathalia Kloos. O texto combina informações históricas com interpretações críticas contemporâneas, conectando a história da arte com teorias atuais sobre performance e representação. Acompanhamos o áudio enquanto observamos o movimento das intérpretes, criando nossa própria relação entre o que ouvimos e o que vemos.

Bourges, Butet, Chargois e Roland utilizam máscaras que representam os animais presentes na tapeçaria – leão, raposa, macaco, unicórnio e coelho. Quando assumem essas identidades animais, as intérpretes demonstram uma precisão técnica impressionante, adotando posturas e movimentos do animal. A trilha sonora, criada por Stéphane Monteiro a.k.a XtroniK e Erwan Keravec, com direção de som e direção técnica geral de Stéphane Monteiro, acompanha essas transformações corporais. O design de luz, concebido por Abigail Fowler e Ludovic Rivière, com técnica de luz de Maureen Sizun Vom Dorp, cria atmosferas que realçam cada metamorfose animal.

Intérpretes utilizam máscaras de animais. Foto: Walton Ribeiro / Divulgação

Mobilizo o conceito “imagens de controle” desenvolvido por Patricia Hill Collins para encarar a complexidade política da operação que Bourges realiza. Essa escolha alinha-se com a dimensão crítica feminista que a própria diretora já havia sinalizado em suas declarações sobre a obra.

Esse conceito permitiu mostrar persistências estruturais significativas. As dicotomias medievais (virgem/prostituta, pura/impura, espiritual/carnal) funcionam como antecedentes históricos das binaridades hierárquicas contemporâneas. Essas representações estereotipadas funcionam como tecnologias de dominação. Na obra de Bourges, essas dinâmicas ganham materialidade através da tensão entre o unicórnio (pureza/virgindade) e os coelhos (sexualidade /transgressão).

Dessa forma, Bourges torna visível esse mecanismo quando suas performers alternam entre sacralidade contemplativa (flores, gestos lentos, postura pictórica) e transformação animal súbita através das máscaras. Cada mudança demonstra como as imagens de controle operam por oposição binária: a mulher só pode ser santa em contraste com a pecadora, pura em oposição à lasciva.

Diretora Bourges no ensaio com o coro

Quando o unicórnio rasga definitivamente o pano vermelho, toda a arquitetura cênica se transforma. O palco se expande revelando sua amplitude total, e com ela emerge um contraste brutal: a criatura da pureza “entoa” The End dos The Doors enquanto uma multiplicidade de corpos despidos – cada um carregando suas particularidades físicas e etárias – irrompe em saltos frenéticos usando máscaras de coelho. A rigorosa contenção gestual desmorona sob o peso de uma festividade alucinante. Surgem em ondas sucessivas estes “coelhinhos lascivos”, proliferando-se numa dança obsessiva. Luzes estroboscópicas fragmentam a visão e uma trilha sonora frenética mescla gregoriano, rock pesado e batidas eletrônicas – criando um espetáculo de beleza perturbadora.

Esta avalanche de figuras mascaradas constitui uma revolta estética contra os mecanismos de domesticação visual previamente estabelecidos. Através da imagem ancestral do coelho – animal cujo simbolismo oscila entre fecundidade desenfreada e luxúria incontida – a obra constrói uma contraofensiva ao domínio corporal. Onde antes reinava a disciplina gestual, instala-se agora um transe coletivo que celebra o excesso como forma de resistência poética.

Celebração Coletiva do Desejo

No final do espetáculo, trinta e duas pessoas selecionadas no Recife e Caruaru formam uma farândola (dança em roda ou grupo festivo e barulhento) de coelhos — uma dança coletiva inspirada na tapeçaria original, com cerca de 15 minutos de duração. Entre os participantes do elenco local estão Alberto Barbosa de Albuquerque, Alefe Robson Maurício da Silva, Amanda de Paula Pegado, Anderson Luis de Lima Fonseca, Brenda Alves Ribeiro, Carlos Daniel Silva Ferreira, Carolayne Tayane de Lima, Evellyn Eduarda Gonçalves Silva, Everson Reynods Melo Lima, Gabriel da Silva Machado, Jares dos Santos Silva, Jéssica Cavalcanti da Silva Calado, João Pedro de Melo Silva, Kauan Vitor Nascimento de Carvalho, Lara Ribeiro Mano de Lima, Larissa dos Anjos Leão, Lucas Carvalho Cordeiro, Lucas Ferreira da Silva, Lucas Vinícius Silva de Lima, Luiz Diego Garcia Ubirajara, Maria Augusta Teles Menelau, Maria Fernanda Nascimento dos Santos, Mayra Clara Vitorino, Mikaely Patricio de Farias Carvalho, Mikelayne P. De Farias Carvalho, Nayanne Alana Nanes de Albuquerque, Rebeca Bezerra Coelho, Rychard Klysman de Arruda Cintra, Thajjana Ellen Lourenço da Silva, Tiago Francisco da Silva, Wagner Wellington da Silva Vasconcelos e Nilo Pedrosa. Essas pessoas entram em cena usando somente uma máscara de animal.

Ao convocar essa diversidade corporal para a dança que encerra o espetáculo, Bourges opera uma subversão definitiva das representações medievais: onde a tapeçaria original celebrava um ideal corporal feminino específico e controlado, a performance contemporânea afirma a multiplicidade e a transgressão como formas de resistência às imagens de controle que ainda moldam nossa compreensão do feminino. O “seul désir” da dama medieval se transforma, assim, numa celebração coletiva do desejo como força de libertação.

FICHA ARTÍSTICA

À mon seul désir
Espetáculo baseado na série de seis tapeçarias A Dama e o Unicórnio
Concepção e narrativa: Gaëlle Bourges
Coreografia: Carla Bottiglieri, Gaëlle Bourges, Agnès Butet e Alice Roland
Com: Gaëlle Bourges, Agnès Butet, Marianne Chargois e Alice Roland
Coordenação de produção (Brasil): Júlia Gomes
Administração geral: Marie Collombelle
Apresentação em Pernambuco / Brasil
Local: Teatro Luiz Mendonça, Parque Dona Lindu, Recife
Datas: 9 e 10 de outubro
Programação: Feteag
Elenco Local (Bestiário Final)
Alberto Barbosa de Albuquerque • Alefe Robson Maurício da Silva • Amanda de Paula Pegado • Anderson Luis de Lima Fonseca • Brenda Alves Ribeiro • Carlos Daniel Silva Ferreira • Carolayne Tayane de Lima • Evellyn Eduarda Gonçalves Silva • Everson Reynods Melo Lima • Gabriel da Silva Machado • Jares dos Santos Silva • Jéssica Cavalcanti da Silva Calado • João Pedro de Melo Silva • Kauan Vitor Nascimento de Carvalho • Lara Ribeiro Mano de Lima • Larissa dos Anjos Leão • Lucas Carvalho Cordeiro • Lucas Ferreira da Silva • Lucas Vinícius Silva de Lima • Luiz Diego Garcia Ubirajara • Maria Augusta Teles Menelau • Maria Fernanda Nascimento dos Santos • Mayra Clara Vitorino • Mikaely Patricio de Farias Carvalho • Mikelayne P. De Farias Carvalho • Nayanne Alana Nanes de Albuquerque • Rebeca Bezerra Coelho • Rychard Klysman de Arruda Cintra • Thajjana Ellen Lourenço da Silva • Tiago Francisco da Silva • Wagner Wellington da Silva Vasconcelos • Dionísio • Nilo Pedrosa

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O contágio de ¡Bailemos… que se acaba el mundo!
na abertura do Feteag em Caruaru

Dancemos… Que o mundo se acaba  em Caruaru. Foto: Kari Carvalho

Muitos ritmos e interação entre os participantes . Foto: Kari Carvalho

Florencia Baigorrí e Maximiliano Carrasco Garrido, comandam as coreografias. Foto: Kari Carvalho / Divulgação

No cenário carregado de memórias da Estação Ferroviária de Caruaru, bandeirinhas coloridas e luzes desenham um convite fugaz, mas irresistível. Ali, a companhia argentina BiNeural-MonoKultur apresentou ¡Bailemos… que se acaba el mundo! (Dancemos… Que o mundo se acaba), uma experiência performática interativa que exige presença e movimento. Quarta-feira, 15 de outubro de 2025. Começando a programação do Festival de Teatro do Agreste (Feteag) em Caruaru – após uma abertura no Recife com o espetáculo francês À Mon Seul Désir – a peça impulsiona o público a uma jornada de dança, reflexão e descoberta. Utilizando um audiotour imersivo, o espetáculo confere ao público a condição de protagonista na construção da coreografia coletiva. Cada comando e cada batida sonora são convites diretos para que o participante siga, interprete e manifeste a obra com seu próprio corpo, como parte pulsante do bailado.

A mecânica dessa experiência singular se revela através dos fones de ouvido: cada espectador ativo mergulha em uma bolha sonora composta por músicas, narrações e instruções. Contudo, essa bolha individual se expande e integra-se a uma dimensão grupal a partir dos comandos que chegam pelos fones, ligando os corpos em movimentos que traçam uma corrente coletiva e compartilhada.

Para orientar essa dança coletiva, em cena, como âncoras visuais e facilitadores da coreografia, estão Florencia Baigorrí e Maximiliano Carrasco Garrido, posicionados em um tablado. Eles comandam as danças, fazendo gestos e movimentos que são seguidos pelos espectadores atuantes, que respondem aos estímulos do ambiente e às interações do grupo. Assim, os participantes são levados a diferentes ritmos e estados, enquanto o mundo exterior observa, curioso, a movimentação intensa que se desenrola como um balé urbano inesperado, uma intervenção artística que ressignifica o uso e a percepção do espaço.

Dancemos... Que o mundo se acaba Foto: Kari Carvalho

Plateia empolgada Foto: Kari Carvalho

A obra investe nessa experiência que dialoga com fenômenos históricos e sociais. O espetáculo ganha ressonância ao se inspirar nas coreomanias, surtos de dança incontrolável que assolaram comunidades na Europa medieval e renascentista, muitas vezes tomados como surtos psicogênicos – fenômenos de histeria em massa ou reações psicológicas coletivas que afetam o comportamento físico em um grupo de pessoas – ou até mesmo reações a toxinas como o ergot, um fungo que cresce em cereais como o centeio e pode causar uma condição conhecida como ergotismo, com sintomas que incluem alucinações, convulsões e espasmos musculares.

O caso mais célebre é a intrigante Epidemia de Baile de Estrasburgo de 1518, quando Madame Troffea começou a dançar incessantemente nas ruas e, em poucas semanas, centenas de pessoas se juntaram a ela, movendo-se ininterruptamente por dias e noites, até a exaustão, com relatos de mortes por ataque cardíaco, derrame ou exaustão física.

A BiNeural-MonoKultur habilmente relaciona esse evento histórico com a pulsante necessidade de encontro, expressão física e catarse no mundo contemporâneo. Gestado durante o período da pandemia de COVID-19, o espetáculo reflete a privação do contato físico, a sensação de isolamento e a urgência de conexão humana que marcaram aquele período. O espetáculo   evoca a memória de um passado distante, recontextualizando e subvertendo a ideia de um “contágio” perigoso e incontrolável em um “contágio” de gozo, de movimento consciente e de libertação. 

Diálogos Filosóficos

¡Bailemos… que se acaba el mundo! convida a subverter as convenções sociais da dança e a refletir sobre o corpo que também é mente, bem longe de dicotomias reducionistas. A dramaturgia entrelaça questões filosóficas ao desenho coreográfico, evocando a ideia cartesiana do corpo como máquina que converte energia em movimento, a analogia entre coração e relógio como mola propulsora deste corpo-máquina. E solta a inquietação: quando a corda do relógio acabar, quando a corda acabar para nós? Essas indagações sobre nossa possível condição de autômatos, sobre a plausível mecanicidade de nossa existência, atravessam a experiência performática, instaurando outras camadas para interpretações.

Essa perspectiva se aprofunda com referências, sem citar nomes, às investigações de Michel Foucault sobre como os corpos são disciplinados desde muito cedo através de instituições e práticas sociais, como uma forma de poder que molda os corpos para torná-los dóceis e úteis. A dramaturgia ainda instiga com perguntas sobre o que somos: androides, ciborgues ou simplesmente humanos, buscando a autenticidade do movimento em um mundo cada vez mais mediado pela tecnologia.

Durante a apresentação, outras ações aconteciam simultaneamente na Estação Ferroviária: um grupo de jovens ensaiava seus passos com uma caixa de som em volume considerável, curiosos transitavam, e o burburinho natural do espaço público pulsava. 

Uma “danceteria” na rua para a para atuação de 45 pessoas do público. Foto: Kari Carvalho

Tempo e Profundidade na Experiência: Uma Reflexão Crítica

Os participantes chegam à “boate” da BiNeural-MonoKultur já com uma abertura para a entrega e uma disponibilidade para se jogar na dança. Em Caruaru, havia um grupo diversificado, mas predominantemente jovem, desimpedido, engajado e festivo. Essa motivação preliminar é crucial para a performance, pois o êxito da experiência depende diretamente dessa entrega. O experimento, com uma duração aproximada uma hora e a rápida sucessão de provocações e transições entre estados corporais, levanta uma instigante questão crítica: embora a intenção do grupo de investigar a resposta a comandos e a disponibilidade dos participantes seja plenamente contemplada, seria o tempo suficiente para uma imersão verdadeiramente profunda nas muitas indagações e provações que o trabalho propõe?

Por outro, é possível que essa combinação – a duração concisa, a total disponibilidade e baixa resistência dos participantes, e as transições rápidas entre estados corporais – seja exatamente o que o grupo busca investigar norteados pelo espírito deste tempo. ¡Bailemos… que se acaba el mundo!, nesse sentido, funcionaria como um laboratório social que, por meio de dança, música, palavras, história, reflexões e direcionamentos diretos, testa o “efeito de manada” e a capacidade humana de responder a impulsos e comandos em um curto espaço de tempo, explorando a psicologia das massas e a conformidade social. Assim, a “fantasia da dança” mira apontar como a coletividade reage e se transforma sob estímulos específicos e controlados, explorando a força do impulso e da resposta imediata, e a maleabilidade da identidade individual dentro de um coletivo guiado, questionando os limites da autonomia e da influência externa.

A BiNeural-MonoKultur, fundada em 2004 por Christina Ruf (Alemanha) e Ariel Dávila (Argentina), se dedica à pesquisa em formatos que transformam o ato cênico em travessia imersiva. Seja em espaços teatrais convencionais ou ambientes site-specific, a interatividade é a espinha dorsal de seu trabalho, direcionando um público que se torna cocriador da narrativa.

Ficha artística

Conceito, dramaturgia, direção, edição e produção geral: Christina Ruf + Ariel Dávila (BiNeuralMonoKultur)
Tradução para o português: Iara Roccha
Coreografias: Florencia Baigorri + Adrián Andrada
Em cena no Brasil: Florencia Baigorrí + Maximiliano Carrasco Garrido
Vozes em português: Ana Luiza Leão + Thomas Huszer
Design sonoro: Guillermo Ceballos
Design e realização de palco, equipamentos e iluminação: Agustina Marquez
Design gráfico: Natalia Rojo

 

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