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Força e resistência
de Lady Tempestade
no palco recifense
Crítica do espetáculo por Ivana Moura

Andréa Beltão em Lady Tempestade. Foto: Marcos Pastich / PCR

Madeira do Rosarinho (Madeira que cupim não rói) traduz o ethos pernambucano: força, garra, determinação e orgulho, tudo junto e misturado. Nascida como resposta a uma injustiça – quando o bloco perdeu um concurso em 1963 para o Batutas de São José, numa decisão considerada parcial – a canção foi além do seu contexto original.

O verso “Queiram ou não queiram os juízes, o nosso bloco é de fato campeão” ecoou para além do carnaval, consolidando-se como hino de afirmação coletiva, força diante da opressão. Integrada à trilha sonora de Lady Tempestade, é executada no meio da peça e foi ouvida em silêncio reverente na estreia do 24º Festival Recife do Teatro Nacional – demonstração de respeito e comunhão com a luta retratada.

Criação Artística de Alta Voltagem – Lady Tempestade é um monólogo teatral que não reproduz biograficamente a vida de Mércia Albuquerque, mas surge como criação artística potente inspirada nos diários pessoais da advogada pernambucana. Uma ficção dramatúrgica de Sílvia Gomez que honra a memória de quem defendeu mais de 500 presos políticos durante a ditadura militar.

A dramaturgia revela maturidade impressionante – uma jovem com sabedoria cênica invejável, capaz de criar jogos teatrais, desconcertar com dribles narrativos e demonstrar a força transformadora da palavra.

Essas coisas aconteceram acontecem acontecerão, articula a protagonista, lembrando a todos nós que o jogo não está ganho. Vemos no palco uma luta angustiante de uma mulher contra uma máquina de triturar brasileiros pensantes que defendiam justiça social. Ela, que avança exausta contra os gafanhotos que estão em toda parte.

A mão de Yara de Novaes na direção permite que a história de Mércia respire e sangre no palco. Sílvia Gomez, sua sobrinha, já trabalhou com a diretora em outras montagens – existe uma intimidade artística entre elas que se traduz em colaboração criativa fluida e orgânica.

Juntas, constroem um espetáculo que preserva a dignidade da memória de Mércia através de uma abordagem que doseia densidade histórica com momentos de respiração e umas faíscas de humor. A direção de Novaes é dinâmica e envolvente: vai costurando estados mentais, subverte tempos, conecta e desconecta personagens numa dança cênica precisa. É método nos vários postos. 

A trama se inicia quando a intérprete (Andréa Beltrão) recebe de forma inesperada os manuscritos dos diários de Mércia. Esse encontro fortuito desencadeia um mergulho reflexivo entre passado e presente, estabelecendo ligações com capítulos silenciados da história brasileira.

A cenografia utiliza simbologias poéticas: uma caixa de papelão dos correios e xícaras ofertadas que apontam para madrugadas insones de Mércia. Há surpresas do “subsolo” que surpreendem ao final. 

Em cena com seu filho Chico, que faz a sonoplastia

20 de novembro de 2025, Teatro de Santa Isabel, Recife. Momento extraordinário – aquilo que só o teatro, arte da presença na presença, pode proporcionar. Andréa Beltrão no palco, Yara de Novaes (direção), Sílvia Gomez (dramaturgia), Verônica Prates e Valencia Losada (produção) nos bastidores. Casa lotada, público extasiado, choros baixinhos ecoando durante a apresentação.

A atriz, dona de técnica invejável, traz as forças da natureza para sua interpretação – raios, trovões, relâmpagos, a raiva da senhora tempestade. Trabalha voz, fisicalidade, intenções, transitando entre as personagens Mércia e A. (com suas alusões aos gafanhotos).

Uma questão sensível merece destaque: frequentemente causa incômodo quando artistas sudestinos interpretam personagens nordestinas, geralmente pela artificialidade do sotaque construído. Nesta montagem, contudo, o sotaque que Andréa Beltrão carrega em determinados momentos e ganha dimensão de propriedade e consciência. Não é imitação ou caricatura, mas apropriação respeitosa que nasce da verdade da figura retratada e da entrega integral da intérprete. A prosódia nordestina emerge organicamente, sem forçar, sem soar postiça – resultado de um trabalho de pesquisa e sensibilidade que honra tanto Mércia quanto o território que ela representa.

Durante a apresentação, um celular tocou na plateia. Beltrão segurou o tempo, atrasou propositalmente a partitura, se ajeitou, e num movimento de cabeça fez os óculos voarem até nossos pés – demonstração de presença cênica e domínio do palco. Precisa ser atriz extraordinária para dançar aquela sofrência e transformar o ridículo da situação em versos que viram protesto.

A trilha sonora, executada ao vivo por Chico Beltrão (seu filho), cria um elo poderoso com todas as mães que tentam proteger seus filhos, especialmente aquelas que os perderam para a barbárie – metáfora maternal que atravessa gerações.

Santa Isabel lotado, o público da luta e do luto. Foto: Foto: Marcos Pastich / PCR

Uma das aberturas mais impactantes da história do Festival Recife do Teatro Nacional. A prefeitura atendeu cerca de 540 pessoas – um público que misturava frequentadores habituais de teatro com jovens engajados politicamente e pessoas que nunca haviam entrado num teatro, motivadas pelo componente histórico-político.

Exemplo tocante: uma filha de preso político que descobriu a verdadeira história do pai somente este ano. Cresceu acreditando que ele era bandido, descobriu que era um resistente, e assistiu teatro pela primeira vez.

Conexões: Mércia e Soledad – A história de Mércia se entrelaça com outras trajetórias da resistência. A advogada foi responsável pelo reconhecimento dos corpos de seis integrantes da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) no IML, incluindo Soledad Barrett Viedma.

Em Soledad, espetáculo com a atriz Hilda Torres, direção de Malú Bazán, há uma cena onde a artista algema Soledad (representada por uma boneca) narrando: “A advogada Mércia Albuquerque foi ao IML e encontrou o corpo de Soledad” – momento que conecta as duas lutas, as duas memórias, as duas resistências.

Interpretação técnica e encantadora

Humanidade Sempre em Risco – Há múltiplas entradas para este espetáculo – políticas, estéticas, sociais – todas fascinantes. A peça emociona pela humanidade das personagens, uma humanidade sempre em risco, e faz imaginar a dor inexorável de quem perdeu entes queridos, de quem viu transformada em pó sua própria humanidade.

Lady Tempestade estabelece pontes entre passado autoritário e desafios democráticos contemporâneos, questionando como as violências estatais se perpetuam. “Essas coisas aconteceram acontecem acontecerão”. Nossa humanidade permanece em perigo, nossa jovem democracia sempre em risco.

Uma montagem de envergadura. Essa criação dá motivos para múltiplas análises e considerações que atravessam questões de memória, resistência, técnica teatral e urgências contemporâneas.

A recepção tem sido eloquente: indicações a prêmio demonstram o reconhecimento técnico. Mais revelador ainda é o impacto junto ao público – casas lotadas, lágrimas durante as apresentações, e o fenômeno de atrair espectadores que nunca haviam pisado em um teatro, mobilizados pela força política da narrativa.

Desde a estreia no Rio de Janeiro, em janeiro de 2024, o espetáculo tem percorrido o país gerando discussões necessárias. Lady Tempestade consegue o que poucos espetáculos alcançam – ser simultaneamente rigoroso artisticamente e acessível politicamente. A peça opera numa zona de risco controlado: evoca fantasmas, denuncia, emociona. É teatro que nos fazer pensar e sentir, simultaneamente, sobre quem fomos, quem somos e quem podemos ser. E há muito por dizer.

Ficha Técnica

Lady Tempestade com Andrea Beltrão

Direção: Yara de Novaes
Dramaturgia: Silvia Gomez
Cenografia: Dina Salem Levy
Desenho de luz: Ricardo Vívian e Sarah Salgado
Criação e operação de trilha sonora: Chico Beltrão
Desenho de som: Arthur Ferreira
Figurinos: Marie Salles
Assistente de direção: Murillo Basso
Assistente de cenografia: Alice Cruz
Operador de luz: Sarah Salgado e Luana Della Crist
Direção de Palco e Pintura de Arte: Antônio Lima
Contrarregra: Nivaldo Vieira e Márcio Rodrigues
Fotografia: Nana Moraes
Fotografia de Cena: Nana Moraes e Felipe Ovelha
Vídeos: Gil Tuchtenhagen
Projeto Gráfico: Fabio Arruda e Rodrigo Bleque | Cubículo
Assessoria de Comunicação: Vanessa Cardoso | Factoria Comunicação
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Administração do Perfil Andrea Beltrão (Instagram): Rosa Beltrão
Gestão de Performance: Lead Performance
Produção: Quintal Produções
Diretora Geral: Verônica Prates
Coordenadora de Projetos: Valencia Losada
Produtora Executiva: Camila Camuso
Realização: Sesc São Paulo

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Ela enfrentou a ditadura
Lady Tempestade abre
24º Festival Recife do Teatro Nacional

Andrea Beltrão estrela monólogo sobre defensora de presos políticos em Pernambuco, abrindo festival que celebra vozes femininas nas artes cênicas.  Foto: Nana Moraes / Divulgação

Embarque na história de uma mulher que dedicou sua vida a defender aqueles que o Estado considerava inimigos. Mércia Albuquerque foi uma advogada corajosa que, durante os anos mais sombrios da ditadura militar, enfrentou tribunais, burocracias e ameaças para garantir direitos básicos a centenas de presos políticos em Pernambuco. Sua trajetória está no palco através de Lady Tempestade, com Andrea Beltrão, espetáculo que inaugura o 24º Festival Recife do Teatro Nacional, com sessões entre 20 e 22 de novembro no Teatro de Santa Isabel.

Mércia Albuquerque era uma ponte entre famílias desesperadas e um sistema jurídico militarizado. Durante os 21 anos da ditadura civil-militar (1964-1985), ela esteve na linha de frente da defesa dos direitos humanos, documentando violações, organizando defesas e mantendo viva a esperança de inúmeras famílias pernambucanas.

Com texto de Silvia Gomez e direção de Yara de Novaes, a obra baseia-se nos diários pessoais e registros profissionais deixados pela própria Mércia. Trata-se de um trabalho de arqueologia da memória que revela os bastidores da resistência jurídica durante um dos períodos mais sombrios da história brasileira.

Lady Tempestade” oferece uma aula de história viva, demonstrando como funcionava na prática a máquina repressora e, principalmente, como pessoas comuns encontraram formas de resistir dentro da própria lei. Mércia enfrentava verdadeiras tempestades burocráticas e políticas para fazer valer os direitos de seus defendidos.

Andrea Beltrão, uma trajetória de escolhas inteligentes. Foto: Gil Tuchternhagen / Divulgação

Com mais de 40 anos de carreira, Andrea Beltrão conquistou reconhecimento tanto na televisão quanto no teatro, sempre priorizando projetos de relevância artística e social. Na TV, destacou-se em produções como Armação Ilimitada, A Grande Família e Um Lugar ao Sol, enquanto no cinema brilhou em Hebe, A Estrela do Brasil.

No teatro, a atriz emocionou plateias em montagens como “A Prova” e As Centenárias“, demonstrando versatilidade para transitar entre drama e comédia com igual maestria. Essa trajetória sólida reflete uma carreira pautada pela inteligência na escolha dos trabalhos.

Em Lady Tempestade, Beltrão enfrenta um de seus papéis mais desafiadores: interpretar uma mulher real, com responsabilidades históricas e familiares que ainda guardam a memória de Mércia Albuquerque. O monólogo demanda técnica refinada e resistência emocional, já que a intérprete permanece em cena por aproximadamente 90 minutos, conduzindo uma narrativa densa sobre um período traumático da história nacional.

No cenário atual, Lady Tempestade oferece algo raro, que são fatos documentados apresentados através de uma perspectiva humana e acessível. A montagem ganha relevância especial por mostrar o papel crucial da advocacia em momentos de crise democrática. 

Para plateias mais jovens, o espetáculo atua como janela para um período histórico frequentemente reduzido a dados estatísticos nos livros didáticos. Dessa forma, através do relato pessoal de Mércia, eventos históricos ganham rostos, nomes e consequências humanas concretas.

Expectativa de alta procura

A organização do festival prevê alta demanda para as três sessões de Lady Tempestade. A produção acumula histórico de salas lotadas em temporadas anteriores, enquanto a combinação do nome de Andrea Beltrão com a relevância do tema tem atraído atenção em várias temporadas.

Há relatos de caravanas organizadas em estados vizinhos interessadas em acompanhar a abertura do festival. Tal expectativa se justifica: além da importância histórica do material, a montagem oferece a rara oportunidade de ver uma das maiores atrizes brasileiras em ação no palco, em um espaço histórico como o Teatro de Santa Isabel.

Festival celebra protagonismo feminino

Tudo que Eu Queria te Dizer, solo de Ana Beatriz Nogueira. Foto: Divulgação

O 24º Festival Recife do Teatro Nacional consolida-se como um dos principais eventos teatrais do país, apresentando 24 espetáculos em onze dias de atividades, sendo 16 deles inéditos na capital pernambucana. Com o tema “Vozes Femininas – Histórias que ressoam”, a edição deste ano celebra as criadoras e criativas do teatro brasileiro, entre dramaturgas, atrizes, diretoras e pesquisadoras.

Entre as principais atrações nacionais, além de “ady Tempestade, está Tudo que Eu Queria te Dizer, solo de Ana Beatriz Nogueira inspirado no best-seller de Martha Medeiros, onde a atriz se desdobra na pele de cinco mulheres distintas para falar sobre amor, rejeição e desejo. A apresentação acontece nos dias 22 e 23, no Teatro do Parque.

Também inédita na capital pernambucana é Mary Stuart, protagonizada por Virginia Cavendish, trazendo um olhar contemporâneo sobre as últimas 24 horas de vida da rainha escocesa, numa trama sobre conspiração e jogos de poder. A montagem paulista estreia no Recife nos dias 28 e 29, também no Teatro do Parque.

116 Gramas: Peça para Emagrecer, solo da paulista Letícia Rodrigues, explora a jornada de uma mulher em busca do emagrecimento, questionando pressões sociais sobre a imagem corporal. A protagonista tenta, a cada apresentação, perder exatamente 116 gramas, utilizando o espetáculo como uma aula de academia performativa. As sessões acontecem nos dias 22 e 23, no Teatro Apolo.

A Cia do Tijolo, companhia paulista reconhecida nacionalmente, traz duas produções inéditas na cidade: Corteja Paulo Freire, celebração poética e musical no Parque Dona Lindu, e Restinga de Canudos, que reconstrói a vida em Canudos a partir da visão feminina de duas professoras do povoado, que eram professoras em tempos de paz e enfermeiras em tempos de guerra. A montagem apresenta uma perspectiva inédita sobre a comunidade, destacando o cotidiano, as resistências e as histórias que ficaram submersas na narrativa oficial sobre o conflito. A apresentação acontece no dia 23, no Teatro Luiz Mendonça.

Homenagens

Augusta Ferraz. Foto Rogério Alves / Divulgação

Auricéia Fraga. Foto: Divulgação

A edição presta tributo a duas grandes atrizes pernambucanas: Auricéia Fraga e Augusta Ferraz, com 50 anos de trajetória cada uma, cujas vidas em cena contam a história do teatro local.

Augusta Ferraz apresenta Sobre os Ombros de Bárbara, mergulho na vida de Bárbara Alencar, heroína da Revolução Pernambucana e considerada a primeira presa política do Brasil. A montagem acontece nos dias 29 e 30, no Teatro de Santa Isabel.

Auricéia Fraga convida o público para  abertura de processo de Não se Conta o Tempo da Paixão, onde narra sua longa relação com o teatro. A abertura de processo acontece no dia 21, no Teatro Hermilo Borba Filho.

Diversidade de propostas e territórios

Das que Ousaram Desobedecer, do Ceará. Foto de Pattie Silva / Divulgação

O festival distribui sua programação estrategicamente por teatros municipais, parques e espaços públicos da cidade. Além dos tradicionais palcos do Santa Isabel, Teatro do Parque, Apolo e Hermilo Borba Filho, a programação alcança o Marco Camarotti, Luiz Mendonça, Espaço Cênicas e Casa de Alzira, chegando também aos parques da Macaxeira e da Tamarineira.

Shá da Meia Noite, com Sharlene Esse. Foto: Divulgação 

Entre as produções locais inéditas, sobressai Helô em Busca do Baobá Sagrado, espetáculo infantil que narra a história de uma menina em missão para encontrar o fruto sagrado e curar seu povo da “doença da tristeza”. As apresentações acontecem nos dias 22 e 23, no Teatro Hermilo.

Outras montagens nacionais inéditas incluem Das que Ousaram Desobedecer (CE), que relembra a luta de mulheres cearenses contra a ditadura; Zona Lésbica (RJ), que enfrenta estereótipos de gênero para reivindicar o direito ao amor; A Mulher Bala (SP), com a palhaça Funúncia tentando se tornar uma bala humana; e Ella (AM), solo de palhaçaria que aborda violência de gênero.

A Mostra OFFRec amplia o alcance do festival com produções locais e nacionais  contemporâneas, incluindo Mi Madre, solo autobiográfico de dança de Jhanaina Gomes; HBLynda em Trânsito, sobre as vivências de uma pessoa gorda, preta e não binária; e Shá da Meia Noite, celebrando os 40 anos da artista que participou do irreverente Grupo Vivencial.

O festival mantém sua vocação pedagógica através de quatro oficinas gratuitas sobre temas como teatro e sagrado feminino, dramaturgia feminista e criação de solos teatrais. As atividades acontecem entre os dias 20 e 27, em diversos equipamentos.

Toda a programação é gratuita, com distribuição de ingressos nas bilheterias dos teatros uma hora antes de cada espetáculo, mediante entrega de um quilo de alimento não perecível. Serão 37 sessões ao longo dos onze dias, convidando a cidade inteira a celebrar o teatro brasileiro.

📅 SERVIÇO 

LADY TEMPESTADE
🎭 Com: Andrea Beltrão
✍️ Texto: Silvia Gomez
🎬 Direção: Yara de Novaes
📅 Datas: 20, 21 e 22 de novembro
⏰ Horários: 20h (todas as sessões)
📍 Local: Teatro de Santa Isabel – Praça da República, Santo Antônio, Recife/PE
🪑 Capacidade: 570 lugares
🎟️ Ingressos: Gratuitos com 1kg de alimento não perecível
♿ Acessibilidade: Libras (todas as sessões) + Audiodescrição (dia 22)

24º FESTIVAL RECIFE DO TEATRO NACIONAL
🎨 Tema: “Vozes Femininas – Histórias que ressoam”
📅 Período: 20 a 30 de novembro de 2024
🎭 Programação: 24 espetáculos (16 inéditos na cidade) + 37 sessões
🎟️ Acesso: Gratuito com 1kg de alimento não perecível
🏛️ Equipamentos: 9 teatros e 2 parques da cidade
📱 Informações: @culturadorecife (Instagram) | Canais oficiais da Prefeitura do Recife

OUTROS DESTAQUES DA PROGRAMAÇÃO:

 Abertura de processo de Não se Conta o Tempo da Paixão (Auricéia Fraga) – dia 21, no Teatro Hermilo Borba Filho.
Tudo que Eu Queria te Dizer (Ana Beatriz Nogueira) – 22 e 23/11, Teatro do Parque
Mary Stuart (Virginia Cavendish e elenco) – 28 e 29/11, Teatro do Parque
116 Gramas: Peça para Emagrecer (Letícia Rodrigues) – 22 e 23/11, Teatro Apolo
Restinga de Canudos (Cia do Tijolo) – 23/11, Teatro Luiz Mendonça
Sobre os Ombros de Bárbara (Augusta Ferraz) – 29 e 30/11, Teatro de Santa Isabel

OFICINAS GRATUITAS:
Teatro, Dança e Sagrado Feminino (20-21/11)
Dramaturgia para Infâncias (21-23/11)
Criação de Solos Teatrais (24-27/11)
Dramaturgias Feministas (26/11)

⚠️ INFORMAÇÕES IMPORTANTES:

Chegada com 1h de antecedência recomendada
Programação sujeita a alterações – acompanhar canais oficiais
Espetáculos com classificação indicativa variada
Sessões com recursos de acessibilidade sinalizadas na programação

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Agenda teatral intensa de outubro pra novembro

Esquecidos por Deus integra campanha Teatro é Ao Vivo 

Espetáculo How Much We Carry? , do Cirque Immersif, na programação do Festival de Circo 

A última semana de outubro no Recife reúne estreias, retomadas e festivais que aceleram o pulso cultural da capital. O relançamento da campanha “Teatro é ao Vivo”, a chegada do Festival de Circo do Brasil e temporadas consolidadas desenham um mapa artístico que vai de experimentações a espetáculos internacionais, passando por celebrações musicais e aventuras infantis.

Teatro é ao Vivo: Memórias, Samba e Trajetórias

O campanha Teatro é ao Vivo. Vá Ver!, da Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (APACEPE) prossegue com Esquecidos por Deus, nesta quarta-feira (29), no Teatro Marco Camarotti (Sesc santo Amaro). O ator Murilo Freire dá vida às personagens que Cícero Belmar reuniu em O Livro das Personagens Esquecidas. Sob direção e dramaturgia de José Manoel Sobrinho, o monólogo da produção do LAPA (Laboratório Pernambucano do Atuante) constrói um território poético onde memória, fé e identidade se entrelaçam através de figuras marginais que habitam o imaginário nordestino. Freire conduz uma jornada pelos esquecidos da sociedade, aqueles que Belmar recolheu das margens da história para transformá-los em literatura. O espetáculo aposta na potência narrativa do ator solo, formato que se consolidou como marca registrada do teatro pernambucano contemporâneo.

No Teatro Capiba, também nesta quarta-feira, Gracinha do Samba apresenta A Raiz do Samba com entrada gratuita, celebração que reúne banda de sete músicos: Ralph (violão, coral e voz guia), Rinaldo (cavaco), Miguel (coral, pandeiro e malacacheta), Rafael Galdino (surdo), Nyll (tantanzinho, efeitos e coral), Nego Thon (repique, conga e efeitos) e Augusto (tamborim). Com produção de Pedro Castro, o espetáculo mergulha nas tradições populares enquanto democratiza o acesso cultural.

Fechando a programação na quinta-feira (31), Geraldo Maia apresenta Minha História Sou Eu, celebrando 45 anos de carreira. Com direção musical de Renato Bandeira e acompanhamento de Gilberto Bala (percussão) e Lieve Ferreira (viola), o show traça pontes entre gerações no Teatro Capiba, oferecendo aos mais jovens a chance de conhecer referências fundamentais da música pernambucana.

CAIXA Cultural: Ciência e Criação em Duas Versões

Frankinh@ na Caixa Cultural. Foto Vilmar Carvalho

O Coletivo Gompa sustenta temporada dupla na CAIXA Cultural colocando arte em diálogo direto com ciência e literatura. Frankinh@ reinventa a primeira obra de ficção científica da história através de linguagem híbrida que mescla narração, teatro, dança, artes visuais e trilha sonora original.

A versão infantil busca despertar o imaginário criativo através da história de Victor Frankenstein, jovem esquisito e solitário que decide criar alguém para lhe fazer companhia. Quando a Criatura não sai exatamente como planejado, Victor aprende a lidar com surpresas e transformações, numa fábula sobre aceitação das diferenças e beleza do inesperado. As apresentações acontecem sábados às 17h e domingos às 11h.

A versão adulta Frankenstein revisita Mary Shelley com perspectiva contemporânea, tecendo paralelos entre corpo feminino e Amazônia para explorar pertencimento, violência e identidade. Os bailarinos Fabiane Severo e Alexsander Vidaleti  fazem as vozes de Sandra Dani e Elcio Rossini em encenação que funde narrativa decolonial com experimentação sonora. Álvaro Rosa Costa assina trilha manipulada ao vivo, criando “dissonância Frankenstein” através de samples, ruídos e improvisações. Sessões às 20h de quarta a sábado.

Espaço O Poste: Desconstruindo Masculinidades

Na sexta-feira (31), Urubatan Miranda encerra outubro no Espaço O Poste com Negaça, solo autobiográfico que desarticula estereótipos sobre masculinidade nordestina. O trabalho tece memória pessoal com questões coletivas sobre identidade de gênero e afetividade, questionando imagens cristalizadas do homem sertanejo. Através de humor, poesia e crítica social, Miranda explora sensibilidades que escapam aos padrões heteronormativos, revelando vulnerabilidades e formas de amar que desafiam o machismo estrutural.

Tom na Fazenda testa sobrevivência de homem gay em ambiente hostil

Tom na Fazenda, sucesso de público e crítica no Brasil e exterior

O Teatro Luiz Mendonça recebe nos dias 7, 8 e 9 de novembro Tom na Fazenda, adaptação de Michel Marc Bouchard, com direção Rodrigo Portella e elenco formado por Armando Babaioff, Soraya Ravenle, Gustavo Rodrigues e Camila Nhary, retorna após turnê europeia de cinco meses. Com temporada em Paris, participação no Festival de Edimburgo e mais de 150.000 espectadores em 450 apresentações desde 2017, o espetáculo explora sobrevivência emocional em ambiente rural hostil.

Tom viaja para fazenda no interior para o funeral de seu companheiro, deparando-se com a mãe que desconhece a orientação sexual do filho e o irmão violento que exige silêncio sobre o relacionamento. Na fazenda, mentir torna-se condição de sobrevivência, gerando dramaturgia visceral que funde realismo e expressionismo para abordar homofobia interiorizada e construção de masculinidades tóxicas.

Aventuras Infantis

O programa

Duas produções infantis estão na pauta do Teatro Luiz Mendonça dois musicais neste fim de semana. Chapeuzinho de Neve Adormecida no sábado (1º de novembro) às 16h30 embaralha múltiplos contos clássicos numa confusão divertida, enquanto A Princesa dos Mares – O Musical no domingo (2 de novembro) no mesmo horário navega por jornada épica oceânica com mensagem ambiental.

Festival de Circo

Rupi e Pitchula em A Risita 

O Festival de Circo do Brasil espalha espetáculos entre teatros e espaços públicos, democratizando acesso através de nove apresentações gratuitas. Nove Tentativas de Não Sucumbir (Cia Devir) inaugura na quinta-feira (31) e sábado (1º de novembro) no Teatro Apolo, transformando trapézio em metáfora sobre resistência sob direção de Jean Michel Guy.

Copyleft (Cie. NDE) no dia 8 no Parque Apipucos reúne dream team de cinco países em turbilhão malabarístico: Juan Duarte Mateos (Uruguai), Lucas Castelo Branco (Brasil), Nahuel Desanto (Argentina), Gonzalo Fernandez Rodriguez (Espanha) e Walid El Yafi (França) sob direção de Nicanor de Elia.

A Mostra PE celebra talentos locais: Aura Duo (lira acrobática), Malabares da Família Malanarquista, Balanceiro de Paiace Brotin, Escada Sem Limites de Xixa Morales (4,5 metros) e Eclipse: Dança dos Astros de Jimmy Sá, criando analogia astronômica entre artista e lira.

How Much We Carry? (Cirque Immersif) propõe encontros através de percha gigante em desequilíbrio, explorando múltiplos sentidos do verbo “carry” (carregar/cuidar) em apresentações itinerantes. A Risita (Coletivo Fuscirco) transforma Fusca Azul 1974 em circo completo com humor cearense.

Cia Nós No Bambu apresenta duas sínteses da pesquisa de Poema Mühlenberg: Sarayvara (21 anos de investigação) no dia 7 no Teatro Hermilo e O Vazio É Cheio de Coisa no dia 6 no Teatro Santa Isabel, materializando relação sensível entre humano e vegetal através de dramaturgia corporal onde artista cuida do bambuzal, colhe, trata e constrói instrumentos.

Entre as criações conceituais, Fragmentos (La Víspera) nos dias 6 e 8 no Teatro Apolo constrói thriller circense sobre fragmentação mental, enquanto Vermelho, Branco e Preto (Cibele Mateus) nos dias 5 e 6 ressignifica o Mateu do Cavalo Marinho como brincadeira-manifesto de reexistência, celebrando alegria como tecnologia de resistência.

SERVIÇO

29 DE OUTUBRO (QUARTA-FEIRA)

“Esquecidos por Deus” (Teatro É Ao Vivo)
Local: Teatro Marco Camarotti – Sesc santo Amaro
Intérprete: Murilo Freire
Direção/Dramaturgia: José Manoel Sobrinho
Baseado em: “O Livro das Personagens Esquecidas” de Cícero Belmar
Realização: LAPA

“Gracinha do Samba – A Raiz do Samba” (Teatro É Ao Vivo)
Local: Teatro Capiba
Ingressos: Gratuito
Banda: Ralph, Rinaldo, Miguel, Rafael Galdino, Nyll, Nego Thon, Augusto
Produção: Pedro Castro

“Frankenstein” (Coletivo Gompa)
Horário: 20h
Local: CAIXA Cultural Recife (Av. Alfredo Lisboa, 505)
Ingressos: R$ 30 (inteira) / R$ 15 (meia)
Bailarinos: Fabiane Severo, Alexsander Vidaleti
Classificação: 16 anos

30 DE OUTUBRO (QUINTA-FEIRA)
“Frankenstein”
Horário: 20h / CAIXA Cultural

31 DE OUTUBRO (SEXTA-FEIRA)
“Negaça” (Urubatan Miranda)
Horário: 19h
Local: Espaço O Poste (Rua do Riachuelo, 641, Boa Vista)
Ingressos: R$ 30 (inteira) / R$ 15 (meia)

“Minha História Sou Eu” (Teatro É Ao Vivo)
Intérprete: Geraldo Maia (45 anos de carreira)
Local: Teatro Capiba
Direção Musical: Renato Bandeira
Músicos: Gilberto Bala, Lieve Ferreira
Produção: Pedro Castro

“Frankenstein”
Horário: 20h / CAIXA Cultural
Acessibilidade: Libras

“Nove Tentativas de Não Sucumbir”
Cia: Devir
Direção: Jean Michel Guy
Horário: 19h
Local: Teatro Apolo
Ingressos: Gratuito (Sympla)
Classificação: 14 anos

1º DE NOVEMBRO (SÁBADO)
“Frankinh@”
Horário: 11h
Local: CAIXA Cultural
Classificação: Livre

“Frankenstein”
Horário: 20h / CAIXA Cultural

“Nove Tentativas de Não Sucumbir”
Horário: 19h
Local: Teatro Apolo
Acessibilidade: Libras

PARQUE SANTANA – PROGRAMAÇÃO GRATUITA:

“Esparrama Circo” (público protagonista)
“A Risita” (Fusca Azul + circo cearense)
“Mostra PE” (cinco números locais)
“Hyperboles” (skate + acrobacia feminina)
“How Much We Carry?” (percha gigante)
2 DE NOVEMBRO (DOMINGO)
“Chapeuzinho de Neve Adormecida”
Horário: 16h30
Local: Teatro Luiz Mendonça
Ingressos: R$ 50 a R$ 100

Repetição Parque Santana

2 DE NOVEMBRO (DOMINGO)
“A Princesa dos Mares – O Musical”
Horário: 16h30
Local: Teatro Luiz Mendonça
Ingressos: R$ 50 a R$ 100

7, 8 E 9 DE NOVEMBRO
“Tom na Fazenda”
Adaptação: Michel Marc Bouchard
Horários: Sex/Sáb: 20h | Dom: 19h
Local: Teatro Luiz Mendonça
Pós-turnê: Europa (5 meses), Paris, Edimburgo

INFORMAÇÕES GERAIS
CAIXA Cultural: (81) 3425-1915
Festival de Circo: 9 espetáculos gratuitos, 4 pagos via Sympla
Acessibilidade: Múltiplas sessões com Libras
Teatro É Ao Vivo: Retomada do projeto nacional 2004-2014

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Germaine Acogny
e a urgência da ancestralidade
Crítica: À un endroit du début

Solo autobiográfico e ficcional. Foto: Marcos Pastich/PCR

À un endroit du début. Foto: Thomas Dorn

Quando Germaine Acogny, 81 anos, pisa no palco, ativa-se uma constelação viva de saberes milenares. Seu corpo carrega décadas de criação e reinvenção africanas, capazes de resistir ao projeto colonial de apagamento, guardando gestualidades rituais, cosmogonias e técnicas de movimento que atravessam gerações. Em À un endroit du début (Em algum lugar no início), solo autobiográfico e ficcional apresentado neste domingo (26/10) no Teatro Santa Isabel, no Recife, como encerramento do Festival Internacional de Dança do Recife e do Festival de Teatro do Agreste – Feteag, essa jornada se transforma em investigação cênica que articula dança, narrativa teatral e projeções visuais. A plateia robusta, embora com espaços ainda disponíveis no histórico teatro pernambucano, acompanhou uma das vozes mais essenciais da dança contemporânea mundial em atividade.

A obra tece sobreposições temporais onde memórias pessoais, legados familiares e processos históricos se abraçam. A corporalidade que materializa códigos ancestrais encontra suas raízes numa biografia atravessada por contradições históricas. Filha de um administrador colonial francófono e neta de uma sacerdotisa iorubá, Acogny habita um território híbrido onde novas formas culturais emergem da negociação complexa entre tradição e contemporaneidade. É a partir desse espaço de confluência identitária que sua técnica busca uma articulação criativa entre danças africanas e métodos europeus.

Cada movimento que ela executa concretiza essa arquitetura temporal, materializando conhecimentos herdados através de uma corporalidade específica. Inspirada na divindade-píton do Benim, sua coluna vertebral se transforma na “cobra da vida” – eixo organizador móvel e ondulado que conecta céu e terra, desafiando paradigmas eurocêntricos de movimento. O corpo torna-se cosmos através de metáforas como o peito como “sol”, o bumbum como “lua”, os quadris como “estrelas”. Nessa geografia corporal em constante movimento, energia circula e códigos ancestrais ganham forma no gesto.

O espetáculo inicia-se com Germaine Acogny evocando os escritos inéditos de seu pai, Togoun Servais Acogny, funcionário colonial que documentou sua própria trajetória de “desconstrução” cultural. Estes manuscritos tornam-se matéria-prima para uma investigação sobre os custos subjetivos da assimilação colonial. Em seguida, ela invoca as memórias de sua avó Aloopho, sacerdotisa vodu de quem seria a reencarnação, segundo os moradores da aldeia que gritavam “Iya Tundé! Iya Tundé!” (a mãe voltou!) em seu nascimento.

O espetáculo é rico em imagens, que permitem muitas interpretações. Foto: Marcos Pastich/ PCR

.As mãos de Germaine dançam constantemente, Foto: Marcos Pastich/PCR

A narrativa desenvolve-se de forma não-linear, privilegiando associações emocionais sobre cronologias factuais. Os elementos cenográficos colaboram nessa estratégia: telas de vídeo criam múltiplas temporalidades; um livro, uma almofada e uma poltrona funcionam como âncoras materiais para diferentes momentos. E a dança está em toda parte, de gestos largos aos contidos,  das intensidades à pulsações suaves. As mãos de Germaine dançam constantemente, mesmo quando ela está sentada.

Em colaboração com o diretor Mikaël Serre, ela entrelaça sua história pessoal com elementos da tragédia grega, especialmente evocando Medeia. A princesa da Cólquida que abandona sua terra natal por amor e é posteriormente rejeitada ecoa as experiências de deslocamento e rupturas afetivas que marcam a biografia de Acogny. O espetáculo transforma a coreógrafa numa Medeia contemporânea que, em vez de destruir, reconstrói e transmite conhecimento ancestral através da dança.

A realidade feminina africana aparece como uma das dimensões mais complexas do espetáculo. Quando a bailarina e coreógrafa declara que “o poder é transmitido de mulher para mulher”, mas simultaneamente afirma que “a mulher é a espécie mais miserável do mundo”, ela articula uma contradição profunda que ecoa nas dinâmicas patriarcais globais. Seus gestos carregam corporalmente as violências entrecruzadas – colonial, racial, patriarcal – demonstrando como mulheres negras africanas constroem estratégias de resistência que criticam tanto feminismos que ignoram dimensões raciais quanto movimentos anticoloniais que silenciam pautas de gênero.

Em determinado momento do espetáculo, Acogny rasga a almofada, liberando penas que voam pelo palco. A música de Fabrice Bouillon LaForest percorre o espetáculo.

O clímax emocional acontece quando Acogny, após exprimir sua fúria de Medeia, pronuncia “Papai, eu te perdoo!”. O momento é atravessado pela complexidade das relações familiares entrelaçadas à história colonial.

Sessão encerrou dois festivais no Teatro de Santa Isabel, no Recife. Foto: Marcos Pastich / PCR

À un endroit du début dialoga com debates atuais sobre descolonização e direitos das mulheres. A obra evoca questões complexas como construir identidades que honrem legados sem se aprisionarem neles? Como as mulheres podem ser simultaneamente guardiãs e transformadoras de suas culturas?

A apresentação no Santa Isabel proporcionou um encontro raro com uma pioneira que continua expandindo fronteiras artísticas e políticas. Ao final, aplausos efusivos ecoaram pelo teatro. Germaine Acogny recebeu flores da secretária de cultura do Recife, Milou Megale, e do diretor do Feteag, Fabio Pascoal. À un endroit du début celebra Germaine Acogny como uma voz artística fundamental, materializando em movimento a cartografia afetiva de experiências continentais.

Ficha técnica

Interpretação e Dança: Germaine Acogny
Direção Cênica: Mikaël Serre
Diretor Técnico: Helmut Vogt
Música: Fabrice Bouillon “LaForest”
Operador de vídeo: Nicolás Kretz
Iluminação: Marco Wehrspann

 

Referências Bibliográficas:
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BRAUDEL, Fernand. História e Ciências Sociais: A Longa Duração. Annales. Économies, Sociétés, Civilisations, 1958.
COLONNA, Vincent. Autofiction & Autres Mythomanies Littéraires. Paris: Tristram, 2004.
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GONZALEZ, Lélia. Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, ANPOCS, 1984.
HANNA, Thomas. Somatics: Reawakening the Mind’s Control of Movement, Flexibility, and Health. New York: Perseus Books, 1988.
LEPECKI, André. Exaurir a Dança: Performance e a Política do Movimento. São Paulo: Editora Contracampo, 2006.
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SWANSON, Amy. Codifying African dance: the Germaine Acogny technique and antinomies of postcolonial cultural production. Critical African Studies, 2019.
TAYLOR, Diana. O Arquivo e o Repertório: Performance e Memória Cultural nas Américas. Tradução de Eliana Lourenço de Lima Reis. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013. (Publicação original: The Archive and o Repertoire: Performing Cultural Memory in the Americas, Duke University Press, 2003).
WYNTER, Sylvia. Unsettling the Coloniality of Being/Power/Truth/Freedom: Towards the Human, After Man, Its Overrepresentation. CR: The New Centennial Review, vol. 3, no. 3, 2003, pp. 257-337.

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Cocina Pública
uma experiência de humanidades

Teatro da mesa comum, duas noites marcantes no Assentamento Normandia, em Caruaru, durante o Feteag.  Fotos: Kari Carvalho / Divulgação

Cocina Pública, do Teatro Contêiner, do Chile. Foto: Kari Carvalho / Divulgação

A luta pela terra é também luta pelo direito de alimentar-se com dignidade. O cientista pernambucano Josué de Castro ensinou que a fome não é fenômeno natural, mas político – resultado de escolhas sociais que determinam quem produz, quem acessa e quem é excluído do banquete da humanidade. No Assentamento Normandia, território do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Caruaru, essa compreensão ganha contornos ainda mais expressivos quando arte e política se encontram em torno de uma mesa comunitária.

Foi exatamente nesse contexto que, durante o 34º Festival de Teatro do Agreste (Feteag), nos dias 18 e 19 de outubro de 2025, cerca de 100 pessoas por noite participaram de uma experiência que transformou o ato de alimentar-se em gesto artístico e cidadania plena. O espetáculo La Cocina Pública, do Teatro Contêiner de Valparaíso, Chile, combina arte performativa com intercâmbio culinário, criando uma cozinha móvel que transforma a alimentação em experiência de reconhecimento mútuo – uma afirmação de que comer é direito inalienável materializado em ação coletiva.

Dessa forma, iniciativas como essa permitem que o teatro vá além da representação para se tornar construção ativa de realidades mais justas, suspendendo temporariamente as hierarquias que determinam quem come o quê, onde e com quem.

O contêiner que carrega utopias

Artistas do teatro e do MST particparam da construção da Cocina Pública em Caruaru

Elencoo do trabalho Cocina Pública

Plaquetas de orientação

Quando chegamos ao final da tarde, a equipe ultimava os preparativos para o espetáculo. O crepúsculo pedia suas memórias enquanto um contêiner permanecia lacrado, com cadeiras dispostas pelo terreiro aguardando a apresentação. Já nesse momento, tabuletas escritas a giz anunciavam: “Vaca Atolada – Cardápio do Dia” e algo como “Cada um lava seu próprio prato” – primeiros indícios de que ali a democracia começaria por gestos simples de cooperação.

Essa proposta ganha força especial ao acontecer no Assentamento Normandia, que carrega uma história de luta e resistência iniciada em 1º de maio de 1993, quando 179 famílias ocuparam a fazenda na zona rural de Caruaru. Foram necessários quatro anos de enfrentamento – cinco ordens de despejo, plantações queimadas, barracos derrubados e até greve de fome – para que, em 1997, Normandia fosse reconhecido oficialmente como assentamento.

Hoje, além do Centro de Formação Paulo Freire, Normandia abriga cooperativa, associação, agroindústria, escola multisseriada e o grupo de mulheres boleiras – estruturas ativas que organizam os assentados e acolhem a comunidade em atividades formativas. Constitui-se, portanto, como espaço agregador onde a educação popular é princípio fundamental.

Prato passa de mão em mão

 É justamente por essa história que apresentar La Cocina Pública em Normandia cria conexões poderosas entre alimentação, luta pela terra e produção de alimentos. Em um território conquistado para que famílias pudessem plantar e colher, o projeto teatral encontra sua expressão mais completa: a mesa comunitária se torna continuidade da luta por soberania alimentar.

Assim, cada prato servido carrega camadas que ultrapassam o nutritivo. É resultado de terra disputada, conquistada, cultivada por mãos que conhecem o valor de cada grão. É materialização do sonho de que produzir alimento pode ser ato de liberdade, não apenas de sobrevivência.

Com essa atmosfera carregada de história, quando os atores surgiram no terreiro, uma transformação começou a operar no ambiente. Um performer subiu ao topo do contêiner e iniciou movimentos entre roupas coloridas espalhadas no teto da superfície metálica. Explorava, brincava com aquela massa têxtil até lançar todo o conjunto ao chão, revelando uma dança de possibilidades: retalhos multicoloridos ganharam vida própria, ondulando como mar têxtil.

O material se transformou inicialmente numa grande saia coletiva, abrigando participantes que emergiam para compartilhar narrativas pessoais. Em seguida, os mesmos tecidos costurados como uma grande tenda fazia a cobertura festiva.

Vista do contêiner

Enquanto essa transformação visual acontecia, os espectadores foram convidados a contornar o contêiner e descobrir seu interior. O que encontramos foi uma cozinha construída com materiais do próprio assentamento: ervas penduradas, pratos organizados, tábuas de cortar legumes, equipamentos improvisados com a criatividade local.

A partir dessa descoberta, o que se seguiu foi uma experiência especial em que artistas e moradores construíram juntos cada momento da apresentação. Os espectadores participaram da cena ativamente, ajudando a organizar mesas e cadeiras, forrando superfícies, distribuindo talheres. Cada movimento se tornava parte de uma coreografia espontânea da cooperação.

Nesse ritmo cerimonial, a refeição chegou em etapas: primeiro os copos e a água, acompanhados de um refresco com cachaça. Em seguida, pães preparados pela própria equipe, servidos com vinhagrete aromático de tomate, cebola e coentro finamente cortados. Entre um gole e outro, as histórias começaram a circular.

Com garfos tilintando nos copos para chamar atenção, um dos apresentadores explicou como se faz: “Piquem o coentro, sintam o aroma e talvez se lembrem da casa de suas avós. Cortem a cebola, limpem os olhos e quem sabe também o coração”.

Arary Marrocos, cofundadora do Teatro Experimental de Arte, presença alegre no Feteag

Sob o teto de tecidos coloridos que criava uma atmosfera circense, mais de cem pessoas se acomodaram para a refeição principal. Os atores narraram a receita da vaca atolada enquanto os pratos eram servidos e passados de mão em mão até as extremidades das mesas. Alguém da comunidade contou a lenda da macaxeira, entrelaçando mitologia local com sabores ancestrais.

Essa atmosfera participativa se intensificou quando o microfone circulou aberto para quem quisesse compartilhar. Canções chilenas foram tocadas e cantadas, alguns brasileiros também aceitaram o convite e tocaram alguma coisa, corpos se moveram em danças espontâneas, criando uma festa transnacional.

Era exatamente essa transversalidade que a companhia havia descoberto ao longo de suas andanças: o projeto permite que diferentes gerações e grupos sociais se encontrem de forma natural e espontânea.

Músicas chilenas e brasileiras animaram a noite

Observando essas dinâmicas, a ideia de transformação ganha dimensão quando percebemos as mudanças subjetivas que a experiência promove. Na mesa da Cozinha Pública, divergências ideológicas se dissolvem no gesto compartilhado de partir o pão, demonstrando como a arte pode criar experiências que expandem nossa capacidade de reconhecer humanidade no outro.

Talvez residam aí as possibilidades revolucionárias mais sutis e duradouras do teatro: não na conversão imediata de consciências, mas na criação de momentos onde a partilha se torna mais poderosa que as palavras, onde o reconhecimento mútuo acontece através de um gesto elementar de comer juntos.

Para compreender melhor essa metodologia, é importante conhecer suas origens. O Teatro Contêiner desenvolveu-se na paisagem de Valparaíso, cidade portuária de colinas e escaladas no litoral chileno, onde os contêineres são presenças constantes na vida cotidiana. Seus criadores perceberam que esses símbolos do comércio globalizado poderiam ser ressignificados culturalmente.

Ao longo dos primeiros dez anos de trabalho, a companhia compreendeu que as linguagens teatrais tradicionais encontravam barreiras em diferentes contextos sociais e geográficos. Essa constatação levou à necessidade de criar códigos mais universais, o que conduziu à descoberta da comida como linguagem compartilhada.

Afinal, todo mundo sabe avaliar se um prato precisa de sal, se está aguado ou se a textura agrada. Esses sabores carregam identidade coletiva, memórias familiares e conhecimentos transmitidos entre gerações.

A alegria que tomou conta do terreiro nas duas noites de Normandia carregava algo mais profundo que o prazer de uma refeição bem temperada. Era a alegria do encontro – aquela que surge quando pessoas se reconhecem mutuamente para além dos papéis sociais que habitualmente ocupam. A festa acontecia porque algo fundamental estava sendo restaurado.

Essas experiências são sementes plantadas na memória afetiva de cada participante. Quando nos despedimos da caravana chilena, ficou a comprovação de que é possível criar, mesmo temporariamente, espaços onde pessoas se reconhecem mutuamente em sua humanidade essencial. La Cocina Pública demonstra que teatro pode ajudar na construção de realidades mais generosas. 

Ficha Técnica

Direção: Nicolás Eyzaguirre
Direção Técnica: Kevin Morizur
Chef e Ator: Juan Larenas
Antropóloga e Oficina de Memória: Ana Insunza
Costureira e Figurinos: Mayra Olivares
Cenografia: Williams Luttgue
Atriz: Irina Gallardo
Ator e Músico: Alexander Castillo
Realização: Teatro Container (Valparaíso, Chile)
Local: Assentamento Normandia, Caruaru/PE
Datas: 18 e 19 de outubro de 2025
Festival: 34º Feteag – Festival de Teatro do Agreste
Classificação: Livre

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