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Críticas: Bem vindo a casa

Espetáculo de grupo uruguaio é dividido em dois episódios. Foto: Lígia Jardim

Espetáculo de grupo uruguaio é dividido em dois episódios. Foto: Lígia Jardim

O convívio teatral em frente, verso e de permeio
Por Valmir Santos – Teatrojornal

A criação da companhia uruguaia Pequeño Teatro de Morondanga resplandece o todo em cada uma de suas partes. Somos convidados a acionar o espírito lúdico e cotejar os mínimos detalhes com a disponibilidade de um ourives. Há um engenhoso paroxismo de unidade nos sujeitos, cenas, objetos e espaços descentrados de Bem-vindo a casa (2012), composição de dois espetáculos umbilicais que pedem para ser vistos em sequência, episódios um e dois, por plateias e em horários distintos, ainda que plantados no mesmo lugar. Unidade porque impressiona como tudo funciona, até os tempos mortos pulsam na gangorra entre o que é e o que assim nos parece ser.

Estamos diante de uma experiência que elabora o convívio público-artista em seu sentido estrito, reflexão cara à arte contemporânea atenta às vicissitudes do viver junto. O princípio da coabitação vaza para as ruas, a comunidade. Palco abolido, a proximidade no espaço multiuso implica plateia aninhada com os atuadores no mesmo cômodo. Parede-meia, janela, persiana e portas induzem sonoridades e frestas do que poderia ocorrer simultaneamente do outro lado. Dentro e fora em contato: um achado de geografia cênica paulatinamente afetiva ao longo das duas sessões.

A dramaturgia coletiva e a direção de Roberto Suárez são lapidares na apropriação cinematográfica que as movem e no modo como não abrem mão da materialidade teatral, do inefável que está por trás dessa linguagem deliciosamente promíscua em sua sofisticação artesanal.

A inutileza que graça no nome do grupo – “morondanga” é uma expressão depreciativa em castelhano – condiz com a plataforma do precário da qual o projeto extrai beleza. É a vitória do remendo, da sujeira, do tosco e do avesso como solução formal bem sustentada. Transgressões sutis para dar luz ao efeito que não tem nada de especial e, uma vez exposto, torna-se singular e ancestral sem o menor conflito. O roteiro saúda o teatro dentro do teatro que Pirandello legou no início do século passado e a atmosfera de Lynch no filme O Homem Elefante (1980), baseado na história real de um cidadão britânico vítima de doença congênita. Dispensa-se, para tanto, projeções. O audiovisual está a serviço da palavra e das espacialidades físicas, sonoras, além da luz.

Deformações corporais e morais atravessam a dramaturgia do texto e da cena com lampejos do “esperpento” na literatura do espanhol Ramón del Valle-Inclán (1866-1936), distorcendo da realidade os atalhos para o grotesco e o absurdo. Esmiuçar o díptico à guisa de sinopse empobreceria a jornada do espectador. O mistério é uma estratégia decisiva nos espetáculos complementares. O subtexto é mais importante do que a nesga de fábula.

O brasileiro decerto encontra um pouco de dificuldade em compreender o rasqueado de uma fala ou outra, porque a língua, espanhola ou alhures, também é macerada conforme o sofrimento e a alegria impressos. Há um travo nostálgico na celebração de uma despedida assimilada como eterno retorno: quem sabe o coração do teatro resida aí. Montar, desmontar. Fazer, desfazer, ensaiar. Fazer e desfazer melhor ainda.

A narrativa golpeia por meio de paisagens da alma, do ambiente e da memória. Apoia-se no estranhamento permanente e no carisma inconcessível transfigurado na presença de cada ator: uma sobrancelha erguida fisga com a mesma intensidade de uma canção a capela. Esses criadores emanam convicção apesar do aparente desalinho. A técnica desaparece. Sobressai uma poética vesga: o campo de recepção infiltrado pelo que é enigma, suspense, interdito, sub-reptício. Não fossem esses bravos atores, a epifania de Suárez jamais se cumpriria.

Segundo episódio dá uma guinada na montagem

Segundo episódio dá uma guinada na montagem

A realidade como fracasso possível
Por Ruy Filho – Antro Positivo

O teatro é um acontecimento presencial, disso sabemos. E o que é presenciado não é de fato a verdade de uma realidade, visto ser a construção de uma ação para oferecer ao outro uma experiência e/ou narrativa. Apenas uma ficção. Então, a realidade ali compreendida é, antes, uma convenção de sua exibição, um processo estético de apresentação de uma possibilidade escolhida para um determinado objetivo. Há, ainda, o teatro que se apoia no argumento de ser a representação de outra narrativa. O tal metateatro.
Aparentemente, é o que se poderia acreditar ser esse espetáculo. Contudo, Bem-vindo a casa, de Roberto Suárez, não pode ser compreendido nem como teatro nem metateatro. Apresentado em duas partes, subverte o sentido vetorial comum da realidade que se constrói ao espectador, ampliando o procedimento teatral ao ponto de tornar a ambiência ficcional a realidade em si. O que se encontra, portanto, não é apenas a teatralização de uma segunda narrativa, mas o fracasso do teatro compor a manifestação plena do real.

Também sabemos que o teatro se realiza sobretudo na presença humana, ainda que possamos discutir outras tantas qualidades de presença à cena. Mas, mesmo o signo que lhe serve de estímulo se coloca em reconhecimento na sua relação com o homem. Portanto, é nele, pelo espelhamento, maior ou menor identificação, que sua presença se consolida. Ocorre, no espetáculo, o mesmo procedimento em relação a presença. A perspectiva do fracasso se acumula ao desenvolvimento dos personagens, suas incapacidades, faltas e derrotas.

São criaturas que passam a ter desconfigurados os elementos mais ordinários de seus reconhecimentos. Corpos caricaturados pela escolha em potencializar mínimos aspectos, desejos igualmente vitimizados na limitação literal de suas vontades, consequências mínimas tornadas argumentos para derrotas plenas. Da mesma maneira que a cena revela o fracasso do real, os atores confirmam o sentimento também em relação ao humano.

Desta maneira, responder ao teatro de Suárez é buscar argumentos que possam dar conta de reencontrar um e outro, ou a complementariedade de ambos, já que muito da realidade constrói nosso entendimento de humanidade, e muito de nossa humanidade estabelece os preceitos de construção do real.

Compreender o fracasso em relação ao humano implica em determinar como ambos se relacionam. Afinal, é essencialmente o fracasso uma condição humana ou o fracasso é uma resposta que poderia ter sido evitada? Como expõe o espetáculo, ambas as questões são consequentes à impossibilidade da superarmos a realidade como sendo um estado de ficção. Não há como mudar o destino trágico ao homem, visto não ser sua a ação de construção da realidade, assim como não há como ser outro ao homem que não apenas humano. Mesmo no hibridismo simbólico e real oferecido ao personagem deformado, chamado por Homem Elefante, em uma clara alusão à distância fisiológica do reconhecido por padrão à aparência humana, a presença de sua singularidade se assume pela escolha em compreendê-lo por sua ficcionalização.

O teatro, então, já incapaz de traduzir a dimensão humana em sua realidade. Faz-se, no contemporâneo, a narrativa de estratégia de um real possível, e não mais sua exibição como uma segunda camada. Assim como ao espectador é revelada sua função e limite ficcional como existência em sua própria realidade.

Bem-vindo a casa convida a todos a visitarem uma família. E não só. O teatro desse existir familiar. E mais. Ao próprio teatro como possibilidade familiar. Mais ainda… Convida a cada um à descoberta incômoda e fundamental de que talvez estejamos todos em pleno delírio, enquanto dormimos com a cabeça respirando o gás que foge do forno, e a realidade se esvai feito o oxigênio que lentamente acaba. O teatro de Roberto Suárez serve como a chama do fósforo que explode e nos obriga, enfim, a acordar. Portanto, prenda sua respiração e prepare-se.

Elenco fez últimas apresentações do espetáculo, que deve sair de repertório

Elenco fez últimas apresentações do espetáculo, que deve sair de repertório

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Críticas: De repente fica tudo preto de gente

De repente fica tudo preto de gente tem performers de vários lugares do mundo. Foto: Lígia Jardim

De repente fica tudo preto de gente tem performers de vários lugares do mundo. Foto: Lígia Jardim

O espectador em deslocamento
Por Soraya Belusi – Horizonte da Cena

“Forma um bolo lá na frente”, instrui o homem na fila de entrada do teatro, como quem antecipa o que virá adiante. Em vez das cadeiras corretamente alinhadas, da comodidade do lugar marcado, da segurança presente na distância que separa palco e plateia, um platô que pode ser ocupado da maneira que o espectador preferir, deslocando-o de sua usual posição de passividade. Em De repente tudo fica preto de gente, não são apenas os corpos dos performers que se colocam em movimento. Mais que andar pelo espaço, o público é provocado a mover-se de seu estado habitual, a colocar sua própria fisicalidade em jogo e a expor-se também ao olhar do outro.

A criação de Marcelo Evelin e sua companhia Demolition Inc. não nos faz mais indagar, como sintoma das poéticas híbridas que se afirmam na contemporaneidade, se o que está diante dos nossos olhos é dança ou não. Esta pergunta parece não responder outra que se impõe de maneira ainda mais potente na fruição do espetáculo, ao voltar o questionamento não somente ao artista acerca dos procedimentos escolhidos por ele, mas, principalmente, a nós mesmos, espectadores, de como nos relacionamos com o que nos é apresentado.

O efeito que a proximidade entre performers e espectadores assume sobre o ato teatral-performativo, já ressaltado em teorias e práticas cênicas ao longo da história recente, parece ser também uma das forças de ação que constituem a explosão de percepções e possibilidades que De repente tudo fica preto de gente nos suscita. Em suas ondas de movimento – da aglutinação à degeneração, da integração à individuação, da estagnação ao deslocamento -, as massas corpóreas dos performers mobilizam também estados distintos no público, do desejo à repulsa, da entrega à negação, da aproximação ao afastamento.

Trabalho suscita diferentes reações no público

Trabalho suscita diferentes reações no público

Não se trata mais apenas de colocar em crise a cognição do espectador ou de provocar sua transição pelo espaço, mas também de fazer-lhe assumir uma postura diante dos corpos com os quais compartilha a experiência. A ocupação compartilhada entre criadores e espectadores no platô coloca em confronto, como num ringue, as tradicionais convenções de quem age e de quem é apenas o alvo da recepção. Está posta ao público a possibilidade de, assim como a massa que pode se tornar imprevisível, romper o círculo da convenção artística e social que o estabelece apenas como observador da ação do outro, permite que este desestabilize as fronteiras estabelecidas da espera e possa avançar rumo à ação, normalmente delegada somente aos artistas. O lugar institucionalizado do espectador é colocado em xeque.

De repente tudo fica preto de gente demanda do público estabelecer também um comportamento físico, tornando-se, assim como os performers, uma força propulsora das dinâmicas que se estabelecem no espaço e no tempo do acontecimento performático, permitir-se ou não o contato, entregar-se ou não ao contágio, realizar ou não o toque, deixar-se, ou não, perceber a si mesmo e ao mundo através da pele e dos rastros que nela ficam.

O diretor Marcelo Evelin é do Piauí, mas mora vive na Europa

O diretor Marcelo Evelin é do Piauí, mas mora vive na Europa

O campo ampliado das artes cênicas
Por Daniele Avila Small – Questão de Crítica

A presença da obra de Marcelo Evelin, De repente fica tudo preto de gente, na programação da MITsp, que é uma mostra de teatro, é uma questão interessante para se pensar. Os campos do teatro e da dança nem sempre têm a oportunidade de convívio que aqui se desenha. Diante do compromisso de escrever sobre um espetáculo de dança – e especialmente tratando-se de uma obra com o nível de complexidade da que está em questão – me vejo diante de um problema para a crítica: o paradigma das categorias como campos separados de experiência e saber. O fato de a minha formação ser em teoria do teatro, sem estudos específicos na área de dança, é algo que à primeira vista me constrange o pensamento. Mas, afinal, o que é dança? E o que é teatro?

A ampliação dos campos nas artes – uma ideia que pode ser vislumbrada com a leitura de A escultura no campo ampliado, de Rosalind Krauss – é uma questão para a crítica de teatro. O teatro contemporâneo e a dança contemporânea não se definem hoje por aquilo que os definia algumas (muitas?) décadas atrás, como por exemplo, no caso da dança, a coreografia, no caso do teatro, o drama; embora o discurso comum não tenha assimilado de fato essa virada de liberdade criativa. Ainda vemos críticos escrevendo que algo “não é teatro” com uma convicção constrangedora. Não é a coreografia que define a dança, nem o drama que define o teatro – e as noções mesmas de coreografia e de drama podem ser bem mais amplas do que costumamos pensar. Não é o caso de tirar de cena a coreografia, nem de superar o drama.

Em uma reflexão apressada (uma contradição em termos) me parece que a fundamentação conceitual do espetáculo De repente fica tudo preto de gente em um princípio da física, ou seja, a presença forte de uma ideia orientadora que não está restrita à categoria dança, é algo que amplia o campo, que liberta a criação da repetição de um mero exercício do fazer, de uma variação sobre procedimentos dados. É nesse sentido que me parece que o espetáculo em questão é para qualquer um, porque ele não demanda nenhum conhecimento prévio do espectador, ele simplesmente se dá à experiência. Penso que o contemporâneo não está em um conjunto de premissas estéticas e reflexões endógenas, mas na natureza da relação com o espectador.

Com isso em mente, levanto o olhar para o contexto da MITsp para pensar o lugar deste trabalho no contato com outros assistidos até agora – até porque a ideia de contato e a subsequente contaminação entre corpos é algo que o espetáculo de Marcelo Evelin nos faz viver. O espectador é fisgado para dentro das obras em três instâncias diversas em Sobre o conceito de rosto no filho de Deus, Bem-vindo a casa e De repente fica tudo preto de gente. No primeiro, a relação é subjetiva, impalpável e demanda uma disponibilidade de espírito do espectador. No segundo, o público é convidado a fazer parte da situação ficcional que se estabelece. No terceiro, o espectador, sua materialidade corpórea, é parte indispensável da visualidade e do movimento da cena, tornando-se parte da experiência do grupo de espectadores presentes. Fica tudo preto de gente mesmo.

Mas o preto das imagens criadas por Marcelo Evelin não é opaco. É um preto translúcido que convida o olhar para a beleza do escuro. Na prática da crítica, esse é o grande desafio: mais que discorrer sobre o que já se sabe, trabalhar a musculatura do olhar para enfrentar a escuridão. E o pensamento, como os olhos no escuro, precisa de tempo para começar a discernir as imagens nas sombras.

Um trecho de De repente fica tudo preto de gente em Teresina:

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Do Janeiro para São José do Rio Preto

Paula de Renor (dir), ao lado de Paulo de Castro e Carla Valença

Paula de Renor (dir), ao lado de Paulo de Castro e Carla Valença

No início do ano, saiu a notícia de que o Sesc paulista não iria mais apoiar o Festival de São José do Rio Preto e que a mostra ainda não tinha quitado débitos com companhias que participaram da edição anterior do festival. No meio desse clima de incertezas e crise, a atriz e produtora Paula de Renor, uma das responsáveis pelo Janeiro de Grandes Espetáculos, foi convidada para ser uma das curadoras do festival. Assumiu a tarefa ao lado de Cesar Augusto (do Tempo Festival/RJ), Antonio do Valle (São Paulo) e Manoel Neves (São José do Rio Preto).

“Trabalhamos a partir dos conceitos de ampliação e aproximação. Queríamos abrir horizontes, avançar geograficamente”, afirmou. “O festival não perde nenhuma das suas características. Há uma diversidade grande na programação, desde os espetáculos mais experimentais, de novos dramaturgos, mas também grupos mais antigos”, complementou Paula.

De Pernambuco, apenas um espetáculo está na programação: De Íris ao arco-íris, infantil com direção de Jorge de Paula que trata de morte e renovação através do teatro de animação e de bonecos. Ao todo, a edição 2014 do FIT, que será realizada entre 21 e 30 de agosto, terá 46 espetáculos, envolvendo 45 companhias de teatro, de nove estados diferentes e nove países. O festival é realizado pela Prefeitura de São José do Rio Preto e, este ano, todos os ingressos serão gratuitos.

De Íris ao arco-íris é única pernambucana na programação. Foto: Angélica Gouveia

De Íris ao arco-íris é única pernambucana na programação. Foto: Angélica Gouveia

Confira a programação:

Espetáculos nacionais – Teatro Adulto
As Estrelas cadentes do meu Céu são feitas de Bombas do Inimigo – Cia. Provisório Definitivo – São Paulo
Adágio – Artesanal Cia de Teatro – Rio de Janeiro
As Três Irmãs – Traço Cia de Teatro – Florianópolis (SC)
Uma História Oficial – Cortejo Cia de Teatro – Três Rios (RJ)
Calango deu! Os causos da Dona Zaninha – Cia. Caititu – Rio de Janeiro
Sinfonia Sonho – Teatro Inominável – Rio de Janeiro
Cucaracha – Cia. Teatro Independente – Rio de Janeiro
Sobre Anjos & Grilos – O Universo de Mario Quintana – Companhia de Solos & Bem Acompanhados – Porto Alegre (RS)
Elefante – Probastica Cia de Teatro – Rio de Janeiro
Essa Criança (Espetáculo Convidado) – Cia Brasileira de Teatro – Curitiba (PR)

Esta criança, da Cia Brasileira de Teatro, vai participar do FIT. Foto: Sandra Delgado

Esta criança, da Cia Brasileira de Teatro, vai participar do FIT. Foto: Sandra Delgado

Espetáculos nacionais – Teatro para Infância e Juventude
O Sapato que Sabia Andar – Mariza Basso Formas Animadas – Bauru (SP)
Meu Pai é um Homem Pássaro – Cia. Simples – São Paulo
Cocô de Passarinho – Cia. Noz de Teatro, Dança e Animação – São Paulo
Cabeça de Vento – Pandorga Cia. de Teatro – Rio de Janeiro
De Íris ao arco-íris – Produtores Independentes – Recife (PE)

Espetáculos de rua
Na boca do Lixo – Cia. Talagadá – Teatro de Formas animadas – Itapira (SP)
Do Fundo do Mar – Cia. Fios de Sombra – Campinas (SP)
Águas de L´Avar – Teatro de la Plaza e Teatro por um Triz – São Paulo
Sandwalk with me – Improvável Produções – Rio de Janeiro
Dentro é lugar longe – Trupe Sinhá Zózima – Santo André (SP)

Espetáculos temáticos: Diversidade
Vampiras Lésbicas de Sodoma – Treco Produções Cinematográficas Ltda – Rio de Janeiro
Joelma – Território Sirius Teatro – Salvador (BA)
BR-TRANS – Coletivo Artístico as Travestidas – Fortaleza (CE)

São José do Rio Preto
Pazsado – Uma Fotografia – Jeff Telles
Veludinho – Cia. Livre de Teatro
Plástico Bolha – Cia. dos Pés
Cana.ã – Núcleo Arcênico de Criações
Condenada – G.A.L.
Por quê? – Cia. Cênica
O Tartufo – Cia. da Boca
Oroboro – Grupo Mon’onírico
Os Meninos e as Pedras – Cia. Girasonhos
Auto da Anunciação – Cia. Cênica
Pequeno Animal Selvagem – Os Cogitadores

Internacionais
Ventimilla Leghe – Teatro Potlach – Itália
Saxophonssimo – Misfits – França
Smashed – Gandini Jugling – Inglaterra
La Chica de la Agencia de Viajes nos dijo que había piscina en el apartamento – El Conde de Torrefiel – Espanha
Bestiario – La Llave Maestra – Chile/Espanha
Sueños de Gigante – La Gran Marcha de los Muñecones – Peru
Fuera – Maria Peligro – Argentina/Bélgica
La idea fija – Pablo Rotemberg – Argentina
Historia de Amor – Teatro Cinema – Chile
El Rumor del Incendio – Lagartijas Tiradas Al Sol – México

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Críticas: Sobre o conceito de rosto no filho de Deus

Espetáculo de Romeo Castellucci abriu a MITsp. Foto: Lígia Jardim

Espetáculo de Romeo Castellucci abriu a MITsp. Foto: Lígia Jardim

Cada espetáculo da MITsp será criticado por pelo menos dois dos veículos que integram o Coletivo de Críticos (Teatrojornal (SP), Horizonte da cena (MG), Questão de crítica (RJ), Antro Positivo (SP) e Satisfeita, Yolanda?). Os textos serão encartados na programação distribuída nos teatros e também publicados no Facebook, para que todo mundo possa comentar e repercutir as ideias traçadas sobre os espetáculos.

Para começar, as críticas de Daniele Avila Small, da Questão de crítica, e de Valmir Santos, do Teatrojornal, para Sobre o conceito de rosto no filho de Deus:

Sobre a abertura do olhar nas imagens de arte
Por Daniele Avila Small – Questão de Crítica

O espetáculo que abriu a programação da MIT, Sobre o conceito de rosto no filho de Deus, de Romeo Castellucci, oferece uma ampla gama de chaves de leitura. Elaborar um texto crítico propositivo sobre esta obra – em poucas horas e em um espaço reduzido – demanda uma escolha radical. Diante da complexa trama de possibilidades que se abre diante do espectador, a proposta deste breve exercício de reflexão é puxar um único fio e apontar um caminho possível de reflexão sobre a peça, sem a intenção de esgotá-lo. Trato feito, puxamos o fio: pensar a presença do rosto de Cristo no fundo do palco como a construção de uma imagem dialética e como o espetáculo opera, com isso, uma proposição ética que nos fisga para dentro da obra. Por imagem dialética, entendo o conceito elaborado por Georges Didi-Huberman a partir de Walter Benjamim em livros como O que vemos, o que nos olha e Ouvrir Vénus. O que nos convida a trazer à tona um conceito para esta tentativa de diálogo com a obra é o próprio título, uma proposição teórica estranhamente elaborada. Pelo título, a peça nos diz que o que está em jogo não é uma trama nem um tema, mas um conceito. Assim, nos propomos a jogar com cartas do mesmo baralho.

Em poucas palavras, podemos dizer que uma imagem pode ser pensada como dialética quando há nela algo que se dá a ver diante de nós ao mesmo tempo que nos escapa, um movi-mento incessante de ausência e presença que abre a imagem e faz com que ela se desdobre em constelações de imagens. O efeito da imagem dialética é a sensação de que ela nos olha – uma ideia presente em diversas declarações de Castellucci. Uma imagem dialética é uma imagem aurática, sendo o conceito de aura um aspecto importante da reflexão sobre as artes desde o texto de Benjamim A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. O rosto de Cristo, como pintado por Antonello Della Messina, projetado e ampliado no fundo do palco, articulado em simultaneidade com a cena do filho que limpa diligentemente as fezes do pai que sofre de incontinência, me parece ser uma materialização precisa da imagem dialética. Afinal, a imagem de Cristo é pura aura: é sempre presença e ausência ao mesmo tempo, um homem que também é deus, um corpo ressuscitado, um corpo que se faz hóstia, um corpo-conceito.

A sua representação visual é, para os cristãos de fé, como o próprio Cristo – daí a rejeição visceral que a peça provoca nos mais fervorosos. O que o espetáculo opera com a representação desse rosto é algo que dispara o vislumbre da aura: o “fato” de que aquela imagem nos olha, a eficácia do seu olhar. O imenso rosto de Cristo no fundo da cena nos oferece uma representação literal desse efeito estético. Se somos céticos na lida com a arte, vemos apenas a projeção de uma pintura como artefato de cenografia, e assim nós apenas olhamos. Mas, se nosso olhar está aberto para as imagens de arte na sua intensa complexidade, vemos a imagem do filho de deus – e essa imagem nos olha.

A presença do olhar do Cristo é a presença assombrada de um juízo constante. O que eu tenho a dizer sobre o conceito de rosto no filho de deus é que ele nos olha. Ao dar a ver a aura na imagem desse rosto, Castellucci alimenta a força para questioná-lo e, com um golpe, infiltra a negação no cerne da afirmação do seu poder sobre nós. O “não” que aparece, como um fantasma, na frase “o senhor (não) é o meu pastor” surge como contraponto desconcertante àqueles piedosos olhos de Cristo, com uma força plástica singular, e nos olha como se nos perguntasse, expondo uma ferida histórica, de que maneira aquela frase faz sentido para nós.

No Brasil, a montagem só tinha sido vista em Porto Alegre

No Brasil, a montagem só tinha sido vista em Porto Alegre

A fisionomia do olhar
Por Valmir Santos – Teatrojornal

A face onisciente de Cristo no pé-direito do palco, do queixo aos fios de cabelo, justapõe as escalas do sagrado, do humano e do espaço cênico em Sobre o conceito de rosto no filho de Deus. A imagem de forte carga simbólica e de construção histórica evidente redundaria o título da obra não fosse ela mesma convertida em dispositivo seminal da companhia Socìetas Raffaello Sanzio. Seu diretor, Romeo Castellucci, enquadra apenas a cabeça em vez do gesto e parte do torso da pintura do renascentista Antonello da Messina que o inspira. O enigma dessa fisionomia estabelece um campo autônomo ao observador que para ela desviará em muitas passagens do espetáculo em busca de significações ou ressignificações talvez menos exasperantes do que aquela que enreda pai e filho. Em vão.

No plano realista, eles acabaram de acordar. O velho interpretado por Gianni Piazzi senta para assistir à televisão enquanto o filho, por Sergio Scarlatella, já com o figurino do executivo prestes a sair para o trabalho, lhe prepara o café da manhã. Esse fragmento de cotidiano sai dos eixos com a prostração do pai, sem controle sobre as necessidades fisiológicas, e a consequente impotência do filho diante do estado primitivo do ser e da iminência da finitude. Alegoria dos embates divino e humano.

Ao retratar a compaixão em circunstâncias limítrofes (a limpeza das fezes e a colocação da fralda geriátrica ocorrem na cadência factual), Castellucci cuida em contrapor a presunção teatral. Ela está dada desde os primeiros longos minutos em que rastreamos a casa de móveis assépticos, de sofá, mesa, cadeiras, carpete e tudo mais tomado pelo branco, exceto o aparelho de TV de costas para o público e uma planta num vaso. Eis o set. Corpo arqueado, andar titubeante, o pai surge carregado por dois contrarregras vestidos de preto, feito manipuladores de bonecos. A partitura do filho que congela o gesto da mão estendida nas costas do pai na hora de limpá-lo ou um galão com o composto que sugere os excrementos em cena são indícios do artifício da arte ao vivo a sustentar o fio das presenças e dos mal-estares.

No segundo movimento do espetáculo a relação pai e filho, até então permeada pela parábola do sagrado, converte-se em instalação. A casa é desmontada aos olhos do espectador, menos a cama em que o pai está sentado, abatido, cabisbaixo, com o rosto entre as mãos. A narrativa ganha o contorno moral, ou seja, pertence ao domínio do espírito do homem. Crianças atiram objetos contra o Cristo de traços humanizados lá na Renascença (Kurt Cobain seria um bom modelo para encarná-lo), justamente quando a arte ganha perspectiva, dá margem para interpretações. A ação das criaturas imberbes despejando objetos de suas mochilas e atirando-os na direção da criatura icônica pode ser lida como um levante, à maneira de Jó, ou como uma figura de retórica contra as gradações do fundamentalismo na ordem global. É o futuro confrontando o passado arcaico aqui e agora.

A iconoclastia irrompe de vez no movimento final da apresentação, quando a imagem se faz verbo. Entre as razões de conduzir ou se deixar conduzido paira “o ser ou não ser” shakespeariano, reafirmando que a teatralidade é o que suporta essa aventura do olhar que desde a cultura grega atinava com o pensar e hoje padece do excesso de imagens a ver. Ver é passagem. O olhar adere e transforma. É sensorial.
Assim como os demais espetáculos que trouxe ao Brasil, a longeva Socìetas Raffaello Sanzio segue impactando nas composições plásticas e sonoras dos sentidos vitais.

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Publicamos uma crítica do espetáculo na época em que ele foi apresentado no Porto Alegre em Cena. Quem colaborou para o Yolanda foi Nayara Brito, jornalista e mestranda do PPGAC/UFRGS.

Um trecho de Sobre o conceito de rosto no filho de Deus:

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Teatro em transe – Começa a MITsp

Sobre o conceito de rosto no filho de Deus abriu MITsp. Foto: Lígia Jardim

Sobre o conceito de rosto no filho de Deus abriu MITsp. Foto: Lígia Jardim

Marta Suplicy, ministra da Cultura, Guido Mantega, ministro da Fazenda, Danilo Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo, Juca Ferreira, secretário municipal de Cultura de São Paulo e alguns outros políticos e gestores de instituições culturais. Neste último sábado (8), todos estavam presentes na plateia do auditório do Ibirapuera para a cerimônia de abertura da MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, que vai até o dia 17. Os nomes dão uma ideia da importância cultural e do prestígio político que o festival alcançou ao propor uma programação interessante e consistente, pautada no teatro contemporâneo. O espetáculo dessa primeira noite da MITsp foi Sobre o conceito de rosto no filho de Deus, do italiano Romeo Castellucci. E, como registro, vale dizer que, apesar dos discursos, nem todos os políticos ficaram para ver a peça – Marta saiu do palco e já se dirigiu a uma saída lateral.

Mas, voltando à MIT, desde os festivais comandados por Ruth Escobar, realizados até a década de 1990, São Paulo carecia de uma mostra internacional. O diretor Antonio Araújo, do Teatro da Vertigem, e Guilherme Marques, do CIT-Ecum, foram os responsáveis por idealizar e colocar em prática um festival aliando espetáculos contemporâneos de várias partes do mundo, que seguem o caminho da radicalidade e da pesquisa, e ainda ações de pensamento crítico e discussão, reunindo especialistas de diversas áreas e não só do teatro. É, sem medo de precipitações ou presunções, o evento mais importante do ano nas artes cênicas.

O Satisfeita, Yolanda? está participando do festival através das ações do Coletivo de críticos, que reúne jornalistas e pesquisadores de vários veículos que tem a internet como suporte de distribuição de pensamento: Teatrojornal (SP), Horizonte da cena (MG), Questão de crítica (RJ) e Antro Positivo (SP). As nossas críticas vão circular encartadas na publicação da MIT distribuída nos teatros e serão postadas tanto nos nossos blogs quanto no do festival. E ainda vamos fazer um exercício de metacrítica: os textos serão postados no Facebook e discutidos não só por todos os outros críticos (que não necessariamente escreveram sobre os espetáculos) quanto pelo público. A partir daí, um novo texto será confeccionado, incorporando e problematizando as considerações vindas através do face.

A matéria abaixo foi escrita originalmente para a edição de março da revista Continente. Fala um pouquinho sobre o conceito da MIT e sobre a programação. Só para dar o gostinho e vocês continuarem acessando o blog durante todo o festival!

Teatro contemporâneo do mundo inteiro
Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, idealizada por Antonio Araujo e Guilherme Marques, leva 11 espetáculos para a capital paulista, além de atividades de reflexão e crítica

Por Pollyanna Diniz

Gólgota Picnic. Foto: Davi Ruano

Gólgota Picnic. Foto: Davi Ruano

Os trabalhos do Teatro da Vertigem são fundamentais na historiografia do teatro brasileiro contemporâneo. Desde 1992, quando estreou Paraíso perdido, as montagens dirigidas por Antonio Araujo investigam procedimentos teatrais e se debruçam sobre problemas e temáticas bastante coerentes com o cotidiano de uma metrópole e do homem circunscrito nesse espaço. Já Guilherme Marques, produtor, gestor cultural e ator, é o idealizador e diretor geral do Centro Internacional de Teatro Ecum (CIT-Ecum), um dos espaços mais profícuos na cena paulistana atualmente. Inaugurado em 2013, o local abriga espetáculos e projetos que relacionam arte e pedagogia.

Pois bem: há alguns anos, Antonio Araújo e Guilherme Marques discutem o fato de São Paulo não possuir um festival de teatro internacional. Mesmo sendo destino de muitas produções estrangeiras, inclusive por conta do apoio e do trabalho de instituições como o Sesc, a cidade não contava com uma mostra específica. “As pessoas sempre me dão alguns motivos para isso. Dizem que São Paulo é uma cidade desagregadora, grande, de deslocamento difícil. Não discordo desses argumentos, mas, para mim, não há justificativa”, avalia Antonio Araújo. “Nós tínhamos até os anos de 1990 os festivais promovidos por Ruth Escobar e depois ninguém assumiu essa função”, comenta Guilherme Marques. Ruth Escobar, atriz e produtora cultural, realizou o 1º Festival Internacional de Teatro em 1974, quando vieram ao Brasil trabalhos de nomes como Jerzy Grotowski (1933-1999), dramaturgo, diretor e teórico polonês; e Bob Wilson, diretor americano. O último foi em 1999, dedicado à cultura cigana.

Nesse cenário de lacunas, Araújo e Marques idealizaram a MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, marcada para acontecer entre 8 e 16 de março. Deve ser o evento de artes cênicas mais importante do ano no país, ao menos no que diz respeito ao teatro contemporâneo – mesmo que programações de relevância como a do festival Porto Alegre Em Cena ainda não tenham sido divulgadas. A MITsp vai levar a São Paulo onze espetáculos, todos inéditos por lá. Apenas quatro deles – Sobre o conceito da face no filho de Deus, De repente fica tudo preto de gente, Eu não sou bonita e Gólgota Picnic – já foram vistos noutros locais do Brasil. Nenhum deles esteve em Pernambuco.

A mostra não está vinculada a nenhum tema específico. “Não queria esse formato porque muitas vezes o tema acaba virando uma camisa de forças”, explica Araújo. Ao invés disso, eram a cena e o teatro contemporâneo que interessavam. “Preferi pensar uma curadoria em rede, procurando criar diálogos entre os diferentes trabalhos. São questões e eixos que aparecem em algumas montagens. É uma curadoria polifônica”, avalia.
Os espetáculos Sobre o conceito da face no filho de Deus e Gólgota Picnic, por exemplo, discutem questões ligadas a fé, mas de forma bastante distintas. O primeiro, da companhia italiana Societas Raffaello Sanzio, carro-chefe da programação do festival de Porto Alegre no ano passado, traz para o palco uma reprodução da face de Cristo, obra renascentista criada pelo pintor italiano Antonello da Messina (1430-1479). Numa das cenas, crianças arremessam granadas de alumínio contra a imagem. Mas, segundo Paula de Renor, atriz e produtora do Janeiro de Grandes Espetáculos, é a figura de um pai que sofre de incontinência fecal que realmente causa o maior desconforto na plateia.

“É um espetáculo muito forte, que trata da chamada ‘culpa cristã’. Com toda paciência do mundo, o filho limpa o pai, veste, arruma. Minutos depois, o pai está todo sujo novamente. O cheiro insuportável toma conta da plateia. O pai sofre por fazer o filho passar por aquilo e o filho sofre pelo pai, mas também por se sentir culpado de não agüentar aquela situação. Quantos de nós não passamos por isso?”, comenta a produtora, que viu o espetáculo concebido e dirigido por Romeo Castellucci durante o Festival Internacional de Buenos Aires.

Sobre o conceito de rosto no filho de Deus. Foto: Lígia Jardim

Sobre o conceito de rosto no filho de Deus. Foto: Lígia Jardim

Gólgota Picnic é uma montagem dirigida por Rodrigo Garcia, argentino que vive na Espanha desde 1986, e tem um trabalho bastante vinculado às artes visuais e à música. No caso de Gólgota, o cenário é composto por cerca de 25 mil pães de hambúrguer. O local de suplício de Cristo se transforma em espaço para piquenique e o elemento sagrado da ceia cristã, que simboliza o corpo de Cristo, está no palco, mas ali fazendo referência a ideias de consumo e mercantilização. A sinopse da peça também adianta que a ação inclui a “crucificação” de uma atriz. Tanto Sobre o conceito quanto Gólgota foram alvo de polêmicas e insatisfações na Europa, especificamente na França. O site da BBC noticiou que protestos contra Gólgota estavam sendo planejados na cidade de Toulouse por fundamentalistas cristãos.

Outros dois espetáculos entre os quais podem ser traçados paralelos são Ubu e a Comissão da verdade, da Handspring Puppet Company, da África do Sul, e Escola, do dramaturgo e diretor chileno Guillermo Calderón, reconhecido como um dos nomes mais expressivos do teatro latino-americano. Ubu é uma releitura do texto de 1888 de Alfred Jarry, colocado em diálogo com o trabalho da Comissão de Verdade e Reconciliação da África do Sul. Escola traz ao palco um grupo de militares de esquerda que recebe treinamento para resistir e derrubar Pinochet e a ditadura militar no Chile. “Tanto no apartheid quanto na ditadura militar estamos falando de perdas de direitos civis. De morte, de violência, de falta de liberdade. E claro que essas montagens também nos fazem lembrar da ditadura militar no Brasil, que está completando 50 anos agora em 2014”, avalia Antonio Araújo.

Ubu e a Comissão da verdade. Foto: Frederico Pedrotti

Ubu e a Comissão da verdade. Foto: Frederico Pedrotti

Reflexão

Se um das críticas aos festivais espalhados pelo país é que eles não fomentam a reflexão de maneira mais efetiva, mas apenas a circulação de espetáculos, a MITsp tem como um dos seus pilares justamente o pensamento e os diálogos construídos a partir do fazer teatral. Fernando Mencarelli, diretor e professor da Universidade Federal de Minas Gerais, e Silvia Fernandes, dramaturgista, professora do Departamento de Artes Cênicas da USP e uma das principais estudiosas do teatro contemporâneo no país, realizaram a curadoria de uma série de atividades intituladas “Olhares críticos”.

Logo depois das sessões, por exemplo, pensadores e artistas, grande parte não ligados diretamente às artes cênicas, terão o desafio de criticar os espetáculos. O escritor e religioso Frei Betto vai tratar de Escola; já Vladimir Safatle, filósofo, professor e colunista trará suas impressões sobre Ubu e a Comissão da Verdade; a psicoterapeuta, professora e crítica Suely Rolnik comentará Eu não sou bonita, solo de Angelica Liddel; e assim por diante.

Também fazem parte dessa série de ações textos escritos por um coletivo de críticos formado por profissionais de sites, blogs e revistas, que viram na internet a possibilidade da manutenção do espaço de reflexão sobre o teatro. Além de terem suas resenhas numa publicação idealizada pelo evento, os críticos participam de uma ação que envolve o Facebook na tentativa de levar para a escritura a polifonia de sentidos que podem ser derivados de um espetáculo. “Talvez o grande mérito do MIT não seja a circulação de espetáculos, mas o espaço de discussão, reflexão, pensamento. Tenho a impressão de que o pensamento crítico sobre teatro aqui em São Paulo perdeu espaço na mídia formal, mas está nas revistas de pós-graduação. Só que de outra forma, para um público muito especializado. Como ter ações que aproximem essa crítica do público? Queremos discutir questões como essa”, propõe Araújo.

O movimento performático das massas

O único representante do Brasil na programação é o espetáculo De repente fica tudo preto de gente. E, na realidade, trata-se de um trabalho que apresenta muitas intersecções com artistas estrangeiros. A concepção e a direção são de Marcelo Evelin, coreógrafo, pesquisador e intérprete do Piauí que mora há 28 anos na Europa. Se não bastasse, a montagem reúne performers do Japão, da Holanda e do Brasil. “Fui encontrando essas pessoas por conta de viagens, das aulas que ministro. Alguns dos artistas nunca tinha se visto. Então havia uma estranheza, além da questão da língua”, explica Marcelo Evelin, que estava em Amsterdã quando conversou com a Continente. Durante o processo, os artistas se falavam basicamente em inglês – e contaram muito com a ajuda do Google Translater. A linguagem falada, no entanto, não era primordial. Bem mais importante se mostrava o aspecto sensorial, a prática dos corpos.

De repente fica tudo preto de gente, que já foi visto no Brasil em Teresina, no Rio de Janeiro e em Santos, e também passou pelo Japão, Inglaterra, Holanda e Bélgica, foi idealizado depois que Marcelo Evelin entrou em contato com Massa e poder, livro de Elias Canetti publicado em 1960. “Estive em Tóquio e fiquei impressionado com aquela massa gigante, aquele número de pessoas atravessando as vias sem ao menos se tocar”, relembra. A partir daí, Evelin decidiu questionar em cena o que pode acontecer quando as massas se juntam e, além disso, as razões e consequências do medo que temos do outro.

A ação cênica se desenvolve dentro de um ringue, mas sem a necessidade da palavra. Os performers estão cobertos por uma mistura de óleo de cozinha e carvão. Os espectadores têm a liberdade de interagir ou não com os artistas; e a movimentação das pessoas determina em muito a iluminação do espetáculo, criando penumbras ou abrindo feixes de luz no espaço. “A reação no Japão, por exemplo, me surpreendeu. As pessoas entraram na performance, se abraçaram, se beijaram na boca. Aqui no Brasil, especificamente em Santos, a reação foi muito retraída. É difícil julgar esse comportamento da plateia e nem é nossa intenção. O público tem total liberdade para só assistir. Mas é uma experiência sensorial”, explica Evelin. O coreógrafo já está mergulhado no próximo trabalho, que discutirá questões como massa e singularidades, o desaparecimento dos corpos e das identidades. A nova performance contará com 50 pessoas, sendo 30 europeus e 20 brasileiros.

Confira a programação completa da MITsp.

Programação da MITsp

Programação da MITsp

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