Arquivo mensais:maio 2011

O picadeiro da vida real

Palhaços - O reverso do espelho. Foto: Célio Pontes

Quando criança, ele queria ser artista. Fugir com o circo. No silêncio da madrugada, ia saindo de mansinho. Mas o pai e a sua vara de marmelo o impediram. Tirou essas criancices da cabeça. Cresceu. E virou vendedor de uma loja de sapatos que sonha em ser gerente.

Agora, só vai ao circo se divertir com as brincadeiras do palhaço quando está com a “cabeça cheia”. É esse o personagem do ator Sóstenes Vidal na peça Palhaços – O reverso do espelho, que estreia hoje, às 21h, em única apresentação, no Teatro Barreto Júnior. A montagem está na programação do festival Palco Giratório, promovido pelo Sesc.

Sóstenes contracena com Williams Sant`Anna, um palhaço que faz questionamentos sobre o que é ser artista e a validade das escolhas que fazemos ao longo do tempo. A direção é de Célio Pontes (essa é a sua primeira direção profissional) e o texto, inédito no Recife, foi escrito em 1974 por um dramaturgo paulista com nome que parece russo: Timochenco Wehbi.

“O texto foi uma grande resposta. Era realmente o que queríamos falar, discutir. O autor carrega nas cores, mas trata da dualidade entre o artista e a “pessoa comum”, explica Célio Pontes. Não é a primeira vez que atores e diretor trabalham juntos. Aliás, muito pelo contrário. Os três estão em cena no espetáculo Auto da Compadecida, que está em cartaz há 19 anos. Sant’Anna é Chicó; Vidal, João Grilo; e Pontes faz Severino do Aracaju.

Quando deixam o teatro, cada um deles tem um papel” na vida real: dois deles são gestores públicos e Sóstenes Vidal é corretor de seguros. “É um pouco do questionamento que fazemos sobre as nossas próprias escolhas. Uma mistura de discussão sobre sobrevivência e arte”, avalia Vidal.

“A gente tem muita afinidade no palco. E Auto da Compadecida, por mais que tenha circulado pelo país inteiro, é mais complicado para viajar, são 25 pessoas. Agora, temos uma produção mais enxuta, intimista e experimentando outro estilo, o psicodrama”, avalia Sant’Anna. Ao mesmo tempo em que discutimos nossas escolhas, estamos fazendo um teatro como antigamente, sem recursos públicos, mas com envolvimento. Uma peça que pretendemos que tenha carreira longa e não que o elenco seja dissolvido depois de algumas encenações”, diz Pontes.

A montagem faz única apresentação no Recife e depois deve ser mostrada noutros lugares do país, aproveitando que Sóstenes Vidal deve gravar nos próximos meses uma série para a HBO no Rio de Janeiro.

Serviço:

Palhaços – O reverso do espelho
Quando: hoje, às 21h
Onde: Teatro Barreto Júnior (Rua Estudante Jeremias Bastos, s/n, Pina)
Quanto: R$ 10 e R$ 5
Informações: (81) 3355-6398

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Concerto poético

Dinho Lima e Flor

“Poeta, cantô de rua,
Que na cidade nasceu,
Cante a cidade que é sua,
Que eu canto o Sertão que é meu.
Se aí você teve estudo,
Aqui, Deus me ensinou tudo,
Sem de livro precisá
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá, que eu canto cá”

A Rádio Caldeirão fez ontem, no Teatro Marco Camarotti, no bairro de Santo Amaro, uma conexão São Paulo -Recife – Assaré. E saiu levando nesse caminho a poesia, a experiência, as histórias, o lirismo que não têm região geográfica; que têm raiz, mas não amarras: tanto que podem ser transmitidos a partir do teatro. Foi isso que fez a Cia do Tijolo com o espetáculo Concerto de Ispinho e fulô, uma homenagem ao poeta cearense Patativa do Assaré. Transformou cena em poesia, dor e amor em cantoria, vivências pessoais em universais.

O objetivo aqui não era apresentar uma biografia, mas colocar o público em contato com uma obra, com o universo do Sertão, com a crítica social ferrenha feita por um homem que nunca deixou o seu lugar de origem. Para isso, elementos vão se cruzando.

Primeiro, decidiram pelo musical, o que parece inevitável quando, por exemplo, Karen Menati, uma das atrizes, começa a cantar lindamente. Depois, saíram reunindo peças como num quebra-cabeças: uma rádio que toca as músicas e celebra o poeta; um grupo de atores que saí de São Paulo em busca de um encontro com Patativa; a visão do estrangeiro na terra que não é sua; uma massacre de civis que não foi registrado nos livros de história; a celebração; a “sem-vergonhice” faceira e encantadora.

“Você teve inducação,
Aprendeu munta ciença,
Mas das coisa do Sertão
Não tem boa esperiença.
Nunca fez uma paioça,
Nunca trabaiou na roça,
Não pode conhecê bem,
Pois nesta penosa vida,
Só quem provou da comida
Sabe o gosto que ela tem”

“Eu não posso lhe invejá
Nem você invejá eu,
O que Deus lhe deu por lá,
Aqui Deus também me deu.
Pois minha boa muié,
Me estima com munta fé,
Me abraça, beja e qué bem
E ninguém pode negá
Que das coisa naturá
Tem ela o que a sua tem”.

A montagem parece que mostra a que veio realmente, capturando de vez o público, a partir da viagem que o grupo de atores faz de São Paulo até Assaré – de carro, numa divertida solução cênica. Quando chegam, o primeiro impulso é colocar aquele homem num pedestal; quando percebem – e a montagem é sincera e acerta nisso -, que é muito mais fácil dialogar quando se olha de igual para igual. O embate entre os atores Dinho Lima Flor, que faz o Patativa, e Rodrigo Mercadante, o ator que queria conhecer o poeta, é um dos momentos mais bonitos e desafiantes do espetáculo. Quando a poesia modernista de Drummond, Bilac, conversa com a poesia simples, mas profunda, com métrica e rima, do Sertão cearense.

Espetáculo foi exibido no Teatro Marco Carmarotti, no Recife

A companhia consegue também, na própria encenação, dissolver a questão sobre se seriam capazes – já que vindos de vários lugares do país – de falar de uma coisa que não viveram. Percebe-se que era uma dúvida mesmo do grupo, que foi levada e resolvida em cena, durante o processo de montagem. Não precisavam ter vivido a seca que deixa o chão esturricado; aliás, o que é seca para cada um de nós? É dessa forma que teatro, invenção, a discussão sobre o fazer teatral, e vida real são costurados. É assim que uma das atrizes conta que é de Maringá; e que todos lá vivem na “zona”, já que não existe bairro, e sim, zona; que já fazia teatro quando morava lá e que participou de uma pesquisa para perguntar qual a programação cultural preferida na cidade. A resposta foi “churrasco”! Ou Dinho Lima Flor fala de Tacaimbó, no interior de Pernambuco, da sua praça… e convida todos a cantarem: “Só deixo o meu Cariri, no último pau de arara”.

“Repare que deferença
Iziste na vida nossa:
Inquanto eu tô na sentença,
Trabaiando em minha roça,
Você lá no seu descanso,
Fuma o seu cigarro mando,
Bem perfumado e sadio;
Já eu, aqui tive a sorte
De fumá cigarro forte
Feito de paia de mio.

Você, vaidoso e facêro,
Toda vez que qué fumá,
Tira do bôrso um isquêro
Do mais bonito metá.
Eu que não posso com isso,
Puxo por meu artifiço
Arranjado por aqui,
Feito de chifre de gado,
Cheio de argodão queimado,
Boa pedra e bom fuzí”.

A celebração ganha cheiro, gosto. Que pode ser de cachaça, cajuína ou café. Mas teatro sem conflito, não é teatro! E ainda faltava resgatar o massacre do Sítio Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, que vivia como uma espécie de Canudos, tendo a frente o beato José Lourenço, e foi aniquilado no governo de Getúlio Vargas, num ataque aéreo contra civis inocentes. Essas histórias vão se amalgamando à montagem, numa parede feita de vários tijolinhos que têm na perspicácia da direção de Rogério Tarifa, no talento de elenco e músicos, o seu cimento. Conseguindo levar ao palco poesia de maneira fluida, mas profunda; fazer rir as senhoras “coqueluxe”; ou cantar junto o poema e a canção.

Cenografia, iluminação e figurino compõem esse concerto de maneira acertada, às vezes numa balburdia completa; outras na ordem focada necessária ao embate de palavras. O elenco da montagem é formado por Dinho Lima Flor, Lílian de Lima, Rodrigo Mercadante, Karen Menatti e Thaís Pimpão; já o grupo de músicos – numa trilha que tem Patativa, mas também Gonzagão, Jackson do Pandeiro e ainda composições próprias, numa seleção que privilegia sempre a poesia – é composto por Jonathan Silva, Aloísio Oliver e Maurício Damasceno.

“Aqui findo esta verdade
Toda cheia de razão:
Fique na sua cidade
Que eu fico no meu Sertão.
Já lhe mostrei um ispeio,
Já lhe dei grande conseio
Que você deve tomá.
Por favô, não mexa aqui,
Que eu também não mêxo aí,
Cante lá que eu canto cá”.

(Trechos de Cante lá, que eu canto cá, de Patativa do Assaré)

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A Mãe do canavial

A Peleja da Mãe nas Terras do Senhor do Açúcar. Em cena, a Catita, interpretada por Dielson José

O encenador Carlos Carvalho operou muitas mudanças no espetáculo A Peleja da Mãe nas Terras do Senhor do Açúcar. O resultado foi um espetáculo mais orgânico, mais conciso e mais articulado do que o que foi mostrado no último Janeiro de Grandes Espetáculos. Na encenação, a junção de brincantes com atores de formação tradicional mostrou-se mais fluida.

O espetáculo foi visto ontem, dentro do projeto Palco Giratório, do Sesc, no Teatro Marco Camarotti, em Santo Amaro. A montagem ganhou dois reforços que colaboram com a agilidade atingida na apresentação.

O primeiro é o multi-instrumentista André Freitas, que toca ao vivo, criando um ambiente sonoro para variadas ações. A ação dos atores ganha outros contornos quando Freitas alia o seu ritmo. O segundo é o coreógrafo Raimundo Branco, que fez a preparação de elenco e entrou em cena no lugar de Zé Barbosa.

O teatro político continua lá. Mas desta vez parece que o autor/ encenador observa a história com distanciamento, com os olhos de quem enxerga os acontecimento com 30 anos de distância. Isso faz diferença.

A Peleja da Mãe nas Terras do Senhor do Açúcar

A história se passa no final da década de 1960 e começo da década de 1970, época de grande repressão política no Brasil.

Das inspirações de A Mãe de Máximo Gorki e Mãe Coragem, de Bertold Brecht, essa mãe do canavial tem todos os sentimentos de uma figura que não tem muitas informações, mas sabe na prática do que são capazes os poderosos. Só que algo é despertado. E sobreviver ganha outras dignidades.

O rico universo dos folgazões é defendido por Mestre Grimário, Grimário Filho e Dielson José que se harmonizam com os outros atores da montagem, embora a organicidade desse encontro ainda possa crescer muito, principalmente no decorrer das apresentações.

A opressão e a violência é exercida pelo capataz, interpretado pelo ator Flávio Renovatto, que se desdobra também no papel de canavieiro.

Em A peleja da Mãe, depois que o pai Miguel (Mestre Grimário) morre sem atendimento médico (não tinha médico no posto e a ambulância estava quebrada, mas disseram que dava para “esperar”), o filho (Paulo Henrique, do Maracatu Piaba de Ouro) se aproxima ainda mais do movimento sindicalista. A mãe teme pelo filho, mas há o momento da virada, em que ela é obrigada a se posicionar.

Mestre Grimário e Flávio Renovatto

O texto de Carlos Carvalho traça suas intertextualidades dramatúrgicas com Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.

A atriz Auricéia Fraga faz a mãe com suas nuances de ignorância e sabedoria. E sua figura pequena cresce na cena.

A atriz Auricéia Fraga

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A peleja de Zé Celso e Ana de Hollanda

A ministra da Cultura Ana de Hollanda não tem tido sossego mesmo. Esta tarde, ela esteve na Assembléia Legislativa de São Paulo, onde encontrou deputados, artistas, produtores e Zé Celso Martinez Corrêa. Sim, o destaque é oportuno, já que foi quando esse tomou a palavra que os ânimos se acirraram definitivamente.

Vamos à explicação: depois do discurso da ministra, vieram as intervenções. Leci Brandão, por exemplo, do PCdoB, cobrou comprometimento com a cultura popular; e a presidente da Federação das Cooperativas de Música do Rio, Janine Durand, leu um manifesto endereçado à Dilma Rousseff: “Frustrando aqueles que viam no simbolismo da nomeação da primeira mulher ministra da Cultura do Brasil a confirmação de uma vitória, essa gestão rapidamente se encarregou de desconstruir não só as conquistas da gestão anterior, mas principalmente o inédito, amplo e produtivo ambiente de debate que havia se estabelecido”, dizia.

Ana de Hollanda afirmou que não comentaria a carta, já que estava endereçada à presidente. Foi quando Zé Celso disse que queria que a ministra continuasse no cargo. “Mas para você continuar não pode ignorar essa carta que acabou de ser lida. Você não pode passar a bola para a presidente Dilma”, afirmou. Antes disso, presenteou a ministra com uma caixa de DVD´s de Os sertões e bebeu o copo d´água do presidente da mesa.

Zé Celso criticou, entre outras coisas, o corte de verbas no ministério e a suposta falta de reação da ministra. E disse ainda que ela não se utilizasse de burocracias, quando Ana de Hollanda afirmou que o MinC não tinha dinheiro. A mesa repreendeu o diretor do Oficina por fazer tantas intervenções e Ana de Hollanda, por fim, pediu que ele deixasse outras pessoas participarem do debate. Também questionaram a ministra nomes como Ney Piacentini, da Cooperativa Paulista de Teatro, e o dramaturgo Roberto Carvalho.

Na hora de ir embora, Ana de Hollanda saiu da Assembléia escoltada por policiais e com a mão no rosto.

A ministra Ana de Hollanda antes da sua peleja. Ao final, ela saiu escoltada, sem sorrisos. A foto é da Assembleia Legislativa de SP

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Pré-estreia febril

As fotos são de Ivana Moura!

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