Arquivo mensais:janeiro 2011

Montagem arrojada de tema chato

Foto: Ivana Moura

O espetáculo A morte do artista popular é intrigante por muitos aspectos. Transforma em cena um assunto inóspito e chato: os concursos de editais. Mostra a parte burocrática da função e os bastidores, enquanto espaço de luta em que pares se digladiam para convencer os demais e fazer valer sua opinião. A montagem leva um grupo de 12 atores a encarar a discussão, com a tarefa de torná-la interessante. A encenação leva a assinatura de Antonio Cadengue, que passou quase um ano acompanhando a trupe de formandos do Sesc.

A finalização, com o texto de Luís Augusto Reis, deixa entrever que o processo foi rico e que os alunos passaram por um período de crescimento artístico e pessoal. A produção da peça é bem cuidada e não fica devendo nada a uma produção profissional.

A cenografia de Doris Rollemberg é bonita e engenhosa; os figurinos de Adriana Vaz buscam juntar o moderninho e o sofisticado; e a iluminação de Naná Sodré e Agrinez Melo ilumina caminhos nas mudanças de cenas.

Quanto ao texto, me soou irregular. Apesar da coragem de investir no tema tão pouco fascinante ao público e da ousadia de transitar por esse terreno minado, o autor parece que fica na dúvida entre mergulhar exatamente nos problemas que a situação exige ou ficar olhando da janela, fazendo comentários pouco lisonjeiros, irônicos ou desdenhosos a quem utiliza desses mecanismos para conseguir levantar sua obra.

Parece que o dramaturgo ocupa um lugar de quem julga os juízes, mas ao mesmo tempo sabe bem do que está falando, pois já participou de muitas comissões para escolher esse ou aquele projeto. E não fica claro se o objetivo é satirizar alguns grupos locais beneficiados, fazer uma crítica séria aos processos ou se é mais um exercício de ironia fina, a partir de um lugar elitista de quem sabe das exclusões, das subalternidade, dos periféricos, mas ainda questiona se esses pobres mortais têm direito também ao financiamento da cultura.

Nessa alegoria de um concurso de dramaturgia, o tema é o teatro. Se o assunto das metamorfoses do ator e do metateatro lhe são caros, o teor político de que a peça se reveste parece muitas vezes tão chato e burocrático quanto o enredo escolhido. Quanto ao artista do título, não captei a quem se refere essa conceituação. Nas ambiguidades, fica difícil saber para que lado pesa mais a balança: se para o preconceito ou defesa desse artista do título.

A direção chega à sofisticação de utilizar várias técnicas interpretativas. Dramático, épico, e os ismos da vida desfilam com as mudanças de quadros. Às vezes, ganham força, noutros momentos, parecem apenas uma demonstração, um desfile de técnicas, e só. Predomina a tonalidade épica, com sua divisão de quadros e projeção dos respectivos títulos.

Foto: Ivana Moura

Algumas marcas estilísticas do diretor estão lá. Mas também muitas surpresas. É engraçada a cena Cadengue no merengue, em que os alunos celebram o mestre. A dança do tango argentino espelha outros momentos de criatividade da trajetória do encenador.

A atuação dos intérpretes, no conjunto, é boa. É bom guardar os nomes dos atores: Biagio Pecorelli, Camilla Rios, Diogo Testa, Dolores Efrem, Evilasio de Andrade, Felipe Cavalcanti, Ingrid de Souza, Julyana Caminha, Mauro Monezi, Roberto Brandão, Thaysa Zooby,Tiago Gondim.

De qualquer forma, é muito saudável que os envolvidos na cultura, nos projetos, na burocracia e detentores da noção de arte na contemporaneidade assistam ao espetáculo, para engrossar a discussão, ou refletir sobre ética e pólis.

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Ô mulherzinha…

Foto: Val Lima/Divulgação

Já dizia a minha avó: ´visita boa dura três, no máximo quatro dias na sua casa. Depois disso, passa a ser incômodo`. Bianca sabe bem o que é isso. Recém-casada, foi obrigada a hospedar a irmã adoentada do marido. Pra completar, a dita cuja, chamada Vladine, trouxe mais alguém com ela e ainda fez questão de ser insuportável. Esse é o mote do espetáculo Rebú, apresentado no último Festival Recife do Teatro Nacional. E é exatamente na sua dramaturgia e na escolha por um gênero muito bem definido que o espetáculo é bem-sucedido.

Jô Bilac – um jovem de destaque na dramaturgia carioca – escreveu um texto que nos aproxima daqueles personagens. Que nos faz perguntar: que mulher é essa?! Coitada da dona dessa casa! Deus me livre de um marido desses! E ainda tem os elementos non sense, como o ator que interpreta um bode e causa muitas risadas. A encenação opta mesmo pelo melodrama – desde a voz dos atores (com direito a gritos e mudanças de entonação – talvez a diccção de alguns deles tenha atrapalhado em alguns momentos a compreensão completa do texto), os movimentos marcados, a cena congelada.

Foto: Val Lima/Divulgação

A ação se passa dentro de um espaço cênico delimitado – o teatro dentro do teatro -, uma cortina que dá para um pequeno tablado que parece ser a sala da casa. Fora dessa caixa, alguns refletores. Os jovens atores da Companhia Teatro Independente (Carolina Pismel, Julia Marini, Paulo Verlings e Diego Becker), do Rio, mostram que estão avançando nos seus processos de construção de personagem.

Talvez isso seja facilitado pelo próprio processo de como a montagem foi concebida. A dramaturgia foi sendo escrita ao mesmo tempo em que os ensaios eram realizados e o diretor Vinícius Arneiro fazia suas escolhas.

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E o vento uivando lá fora…

Foto: Val Lima/Divulgação

As fotos em preto em branco reportam ao passado, de outras explorações e segredos familiares que poderiam fazer ruir um império. Enquanto espera, o público ouve o diálogo entre duas adolescentes. A plateia logo era convidada a entrar no espaço erguido no Nascedouro de Peixinhos para alojar a temporada de Memória da cana, montagem do grupo Os fofos encenam. Todo o arcabouço da casa é feito de cana-de-açúcar, o que provoca uma viagem por cheiros doces e azedos.

Foto: Val Lima/Divulgação

Dividido em quartos, o espectador compartilha da intimidade dessa família. O texto é adaptado de Álbum de família, de Nelson Rodrigues, e as referências realçam as ideias de Gilberto Freyre. O pai Jonas (Marcelo Andrade), abusa das negrinhas, de preferência de 12, 13 anos, com a ajuda da cunhada solteirona, Tia Ruthe (Kátia Daher), e ambos humilham Senhorinha (Luciana Lyra). Dos seus cômodos, cada personagem revela um pouco de seus desejos, enquanto Nonô, o filho de Senhorinha e Jonas que enlouqueceu (Carlos Ataíde), ronda a casa. Glória (Viviane Madu)é vista pelo pai como santa e também é alvo de desejo do irmão Guilherme (Paulo de Pontes).

Daquela cana, das violências do homens contra jovenzinhas em flor, da ira da mulher branca, do máximo de exploração do humano está calcada essa sociedade orgulhosa de sua tradição. O dramaturgo e diretor pernambucano Newton Moreno e seu grupo provocam investigações estéticas em várias frentes. Uma delas é essa memória da formação brasileira e pernambucana em particular. O som dos brincantes do maracatu chega mais forte na segunda parte do espetáculo. O vento uivando lá fora e as mortes maculando o nome da família e fazendo ajustes com o destino.

A sensualidade transborda na movimentação dos personagens e ganha um relevo especial a atuação do elenco feminino. Luciana Lyra está estupenda como Senhorinha e ousa um caminho diferente das muitas representações dessa figura rodrigueana. Apesar de humilhada, é mais corajosa e carrega uma dança de vida, impregnada por baixo de tantos panos.

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Uma linda história de amor

Foto: Val Lima/Divulgação

O dramaturgo russo Anton Tchekhov é um dos maiores poetas do teatro de todos os tempos. E não precisa ser especialista nas suas obras-primas, como A gaivota, Tio Vânia, As três irmãs e O jardim das cerejeiras para se deixar tocar pela vida que pulsa em suas palavras. A história de amor do dramaturgo e da atriz Olga Knipper é tão tocante que pode provocar lágrimas. Com marcações simples, a força do texto desperta sentimentos diante daquele homem numa situação penosa.

A base do espetáculo são as mais de 400 cartas trocadas entre o escritor e sua atriz preferida, uma das estrelas do Teatro de Arte de Moscou. Com ela, o escritor viveu seus seis últimos anos de vida. Mas devido à doença pulmonar, Tchekhov passava longas temporadas longe de Moscou e da esposa.

A montagem que esteve no último Festival Recife do Teatro Nacional tem dramaturgia de Carol Rocamora, tradução e adaptação e direção de Leila Hipólito. No elenco Roberto Bomtempo e Miriam Freeland, casados na vida real. Ele no papel de Tchecov e ela no de Olga. Ela, jovem e apaixonada; ele velho e apaixonado. O tom é de delicadeza e a iluminação de Maneco Quinderé contribui para isso. A cenografia de Fernando Mello da Costa e Rostand Albuquerque compõe com engenhosidade um espaço de permanência e de passagem, camarim, casa, escritório.

Tomo suas mãos nas minhas opera numa clave que emociona . A diretora opta por uma contracenação à distância quando um lê a carta e outro responde – suprimindo o tempo da espera da correspondência – mas sem se olharem frente a frente. E no contato direto, quando eles estão juntos. A história é linda e dramática. E ganha contornos mais emocionais quando é agravada a doença do escritor.

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A estupidez da guerra

Foto: Val Lima/Divulgação

Um pequeno tablado com uma janelinha suspensa, luz branca, gestual que atiça antigos sonhos, dez bons atores e uma direção primorosa para dar conta de problemas éticos e das utopias renovadas em Os fuzis da Senhora Carrar, com texto do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. A montagem é uma revisitação estética e histórica de outra encenação de Os fuzis… realizada em 1978, pelo Grupo Teatro Hermilo Borba Filho, com direção de Marcus Siqueira. E faz parte do projeto de pesquisa cultural Transgressão em três atos, desenvolvido pelos jornalistas Cláudio Bezerra, Alexandre Figueirôa e Stella Maris Saldanha, que protagoniza a peça.

Os Fuzis da Senhora Carrar leva à cena a história de Tereza Carrar, moradora de uma pequena vila de pescadores e mãe de Pedro e Juan. O tempo é de conflito entre pacifistas e soldados, entre homens comuns e revolucionários anti-franquistas. Mas nossa protagonista já perdeuo marido e faz qualquer coisa para não ver os filhos metidos na guerra. A peça foi escrita por Brecht em 1937, no período da Guerra Civil Espanhola, que durou de 1936 a 1939. Dizem que não existe dor maior do que perder um filho (a). Tereza tenta evitar essa dor. Não é tarefa fácil, os generais avançam e a perda da liberdade se faz sentir cada vez mais perto. Como manter a neutralidade diante de uma situação dessas? Mas como entregar seus jovens filhos a uma guerra sangrenta, da qual dificilmente se sobrevive?

Sabemos que Brecht imaginava que o teatro deveria servir como instrumento de transformação social e de reflexão crítica da plateia. Mas Senhora Carrar é a mais dramática das peças do dramaturgo alemão. É estruturada de forma linear e nos faz acompanhar a decisão trágica dessa mulher que, diante dos acontecimentos não encontra outra alternativa para se manter viva.

“Por quem lutar ou enlutar, Carrar?”, pergunta o encenador João Denys no programa da peça, em meio a uma avalanche de questionamentos que a própria montagem já desperta. Lá atrás, na ditadura do general Franco, as atrocidades e os terrores da guerra, o sacrifício humano e a barbárie. A guerra hoje é mais difícil. Existe uma letargia diante do capitalismo que dita destinos e as facilidades de comunicação sufocam o verdadeiro diálogo. Mas diante da intolerância, da miséria e da grotesca realidade cotidiana, da subserviência ou do torpor, a Senhora Carrar de Stella Maris Saldanha e de João Denys se insurge para lembrar da humanidade, sem romantismo ou heroísmo. Mas carregada de emoção.

Com seus rostos pintados de branco, os atores agem com a grandeza que o texto merece. A atuação de Stella Maris Saldanha como a protagonista Tereza é de tirar o chapéu. Voz clara, gestos firmes e nuances comoventes de uma mãe que luta enquanto pode para proteger seus filhotes. Ela sangra no palco e essa dor atinge o público. O ator Roger Bravo faz José, o filho de Tereza que quer ir para o front. Uma performance convincente. José Ramos faz o operário com garra e competência. Os três ficam a maior parte do tempo em cena. Alfredo Borba faz o papel do padre reacionário com destreza.

Foto: Val Lima/Divulgação

Também participam do elenco, em papeis menores mas não menos importantes: Ailton Brito, Evandro Lira, Karina Falcão, Socorro Albino, e Antonio Marinho. Enquanto não estão no palco, o elenco fica sentado na primeira fila. A direção de arte (cenário, figurino e maquilagem) é assinada pelo próprio João Denys. A sonoplastia, também de Denys, amplifica a carga das cenas. Um espetáculo ainda mais necessário neste começo de século 21.

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