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Premiação Janeiro de Grandes Espetáculos 2026

Prêmio JGE Copergás entregou 30 troféus a produções e artistas pernambucanos. Foto: Hans von Manteuffel

Prêmio é uma coisa muito sedutora. Difícil encontrar quem não queira um ou vários para sua coleção. Os prêmios mais poderosos exercem múltiplo papel como catalisadores de carreiras e geradores de visibilidade. Possuem capacidade de elevar talentos ao patamar de figuras proeminentes na indústria e na esfera pública cultural, transformando artistas em ícones de reconhecimento. Distinções de prestígio global, como o Oscar no cinema, o Grammy na música ou o Nobel e o Pulitzer na literatura e jornalismo, influenciam percepções e criam verdadeiras referências – dotadas de vozes ativas que podem moldar narrativas e tendências artísticas e sociais num cenário internacional cada vez mais interconectado.

No Brasil também os troféus mais desejados (e tudo que vem com eles) também redefinem destinos, com alcances diversos. Mas toda premiação tem valor e desempenha seu papel. Operando em escala regional no cenário de Pernambuco, o festival Janeiro de Grandes Espetáculos, da Apacepe, sob a produção de Paulo de Castro, é a única premiação de sua natureza e escopo nas artes cênicas do estado. O troféu deste que é o maior em duração (quase um mês de atividades) e mais amplo festival das artes cênicas do estado – englobando música, dança, teatro, circo e cinema com a Mostra Cine JGE – é inegavelmente disputado pelos participantes do JGE e valorizado por seus vencedores como um símbolo de excelência e reconhecimento entre pares. Sua singularidade reside em carregar, celebrar e perpetuar o autêntico “DNA pernambucano de grandes espetáculos”.

Neste cenário, a 32ª edição do Janeiro de Grandes Espetáculos, que teve como tema “Da Lama ao Palco” em homenagem aos 60 anos de Chico Science, realizou sua cerimônia de premiação, o Prêmio JGE Copergás, no Teatro do Parque, na quarta-feira, 04/02. O evento distribuiu 30 troféus entre produções, artistas e técnicos pernambucanos, com as performances mais bem avaliadas em Teatro Adulto, Teatro para a Infância e Juventude, Circo, Dança e Música, além da Mostra Janeiro de Cenas Curtas. O festival prestou homenagens significativas ao ator, diretor e produtor José Mário Austregésilo e ao ator Severino Florêncio (teatro); à Mestra Nice Teles, do cavalo-marinho (dança); à Escola Pernambucana de Circo (circo); ao Maestro Duda, que completou 90 anos como um dos nomes máximos do frevo (música); e à professora Rose Mary Martins (ópera).

Roberto Costa conquistou prêmios de melhor espetáculo adulto e infantil. Foto: Hans von Manteuffel

A Cigarra e a Formiga conquistou três troféus: Melhor Espetáculo, Melhor Direção e Melhor Ator para Luan Alves. Reprodução do Instagram

O produtor, diretor e dramaturgo Roberto Costa foi como uma das figuras mais celebradas ao conquistar estatuetas em duas categorias distintas. Em Teatro Adulto, seu musical Francisco, um Instrumento de Paz, baseado na adaptação da história de São Francisco de Assis, foi eleito Melhor Espetáculo e recebeu um Prêmio Técnico pela direção musical de Hadassa Rossiter e pelo figurino, assinado pelo próprio Roberto Costa.

Francisco apresenta a jornada de transformação espiritual de Francesco Bernardone, ancorado em uma trilha musical ao vivo e na performance de Paulo César Freire no papel-título. A montagem busca tocar a sensibilidade do público expondo os valores de simplicidade, solidariedade e desapego material defendidos pelo fundador da Ordem Franciscana – congregação religiosa católica fundada no século XIII que prega a vida em pobreza voluntária, o cuidado com os necessitados e uma relação harmoniosa com a natureza.

Roberto Costa também se destacou na categoria Teatro para a Infância e Juventude com A Cigarra e a Formiga, conquistando três troféus: Melhor Espetáculo, Melhor Direção e Melhor Ator para Luan Alves. Já é conhecida a habilidade de Roberto Costa para criar trabalhos que atendem a diferentes públicos. As escolhas dos vencedores desta edição evidenciam uma preferência por montagens de linguagem acessível, com narrativas reconhecíveis que dialogam com um público amplo.

Fabiana Pirro

A atriz Fabiana Pirro, que integra o elenco do filme “O Agente Secreto” de Kleber Mendonça Filho – produção que concorre em quatro categorias ao Oscar, um feito inédito para o cinema brasileiro –, conquistou o troféu de Melhor Atriz pela atuação em Cúmplices – Transgressões de um Ricardo III. O espetáculo conta com dramaturgia original de Moncho Rodrigues, com co-direção de João Guisande após o falecimento de Moncho, e teve Júnior Sampaio no palco ao lado de Fabiana. A obra opera como um teatro dentro do teatro, onde os atores transitam entre seus personagens e reflexões sobre o próprio processo de representar, estabelecendo um diálogo direto com a plateia. O espetáculo navega pelo texto shakespeariano e suas camadas interpretativas, revelando as tensões dos intérpretes em cena e questionando as manipulações do poder político, servindo como advertência sobre os perigos da conivência com extremismos. É admirável observar a dedicação, talento e paixão dessa atriz inquieta que busca constantemente se aprimorar.

Na categoria de Melhor Ator, Felipe Nunes foi reconhecido por sua atuação em Imorais, espetáculo que questiona convenções morais através da história de uma família com comportamentos não convencionais, explorando temas complexos com texto de Cristiano Primo e direção de Emmanuel Matheus.

O prêmio de Melhor Direção coube a Arthur Cardoso por Vossa Mamulengecência, uma comédia que dialoga engenhosamente com o universo de Ariano Suassuna. O enredo acompanha as peripécias de Cheiroso Dorabela, artesão de mamulengos e comerciante de perfumes, que emprega sua astúcia e senso de humor para confrontar os poderosos de Zebataubá: a prefeita desonesta Prazeres, a autoritária delegada Mourão e o corrupto juiz Trajado. O espetáculo se desenvolve através de uma sucessão de situações cômicas e surpreendentes, culminando em um final que honra a tradição dramatúrgica suassuniana.

A premiação ocorreu nos jardins do Teatro do Parque. Foto: Hans von Manteuffel

Na categoria Circo, Caminhos se destacou ao conquistar três prêmios: Melhor Espetáculo, Melhor Artista Circense Masculino para Pedro Milhomens e Prêmio Técnico para Clarissa Siqueira pela sonoplastia. Sob direção de Odília Nunes, o espetáculo do Palhaço Sequinho, de Triunfo (Sertão de Pernambuco), combina elementos poéticos e humorísticos em uma narrativa sobre autodescoberta, utilizando objetos cotidianos transformados em instrumentos de magia e malabarismo.

Em Dança, Lago dos Cisnes da Cia Fátima Freitas levou dois prêmios: Melhor Espetáculo e Melhor Bailarina para Maria Júlia Cavalcanti, que interpretou Odile, o Cisne Negro. Lago dos Cisnes é uma das obras fundamentais do balé clássico, com música de Tchaikovsky, que narra o amor entre o príncipe Siegfried e a princesa Odette, transformada em cisne pelo feiticeiro Rothbart. A obra representa um dos maiores desafios técnicos da dança clássica, exigindo domínio técnico, expressividade dramática e resistência física. Maria Júlia Cavalcanti destacou-se no papel do Cisne Negro, personagem que demanda virtuosismo técnico e presença cênica intensa.

Encruzilhada Agreste, show protagonizado por Revoredo e Gabi da Pele Preta, foi duplamente premiado na categoria Música: Melhor Espetáculo e Melhor Cantor para Revoredo. A apresentação constitui um projeto paralelo às carreiras individuais dos artistas, reunindo-os em um encontro musical que valoriza suas origens agrestinas através de composições autorais, inéditas e releituras de clássicos que moldaram suas trajetórias. Ylana Queiroga conquistou o troféu de Melhor Cantora com Janga, espetáculo intimista que transforma suas memórias de infância no bairro do Janga, em Paulista, em canções que misturam ritmos pernambucanos, sob direção musical de Yuri Queiroga.

A Mostra Janeiro de Cenas Curtas desempenha papel fundamental ao oferecer palco e visibilidade para atores e autores estreantes, funcionando como laboratório de experimentação e porta de entrada para novos talentos na cena teatral pernambucana. Ida ao Teatro, da Evoé Artes, dominou a categoria conquistando o 1º lugar de Melhor Cena Curta, além dos troféus de Melhor Atriz para Viviana Borchardt e Melhor Ator para João Fernando.

Duas sugestões para a próxima edição: primeiro, a implementação de premiações em dinheiro para todas as categorias seria um avanço significativo, oferecendo suporte financeiro concreto aos artistas e estimulando a economia criativa local. Segundo, seria benéfico expandir o sistema de avaliação: as categorias contam com dois jurados que neste ano foram Filipe Enndrio e José Manoel Sobrinho (Teatro Adulto); Cleyton Cabral e Edivane Bactista (Teatro Infantojuvenil); Gilberto Trindade e Malu Vieira (Circo); Célia Maira e Raimundo Branco (Dança); e Leandro Almeida e Tatto Medinni (Música). O ideal seria ter pelo menos três jurados, preferencialmente cinco, e que essa comissão fornecesse pareceres escritos para todas as apresentações analisadas, contribuindo para um mapeamento crítico da produção artística local e oferecendo feedback valioso aos artistas.

Prêmio JGE Copergás de Teatro, Dança, Circo, Música e da Mostra Janeiro de Cenas Curtas:

TEATRO ADULTO

MELHOR DIREÇÃO
Arthur Cardoso – Vossa Mamulengecência

MELHOR ATRIZ
Fabiana Pirro – Cúmplices – Transgressões de um Ricardo III

MELHOR ATOR
Felipe Nunes – Imorais

PRÊMIO TÉCNICO
Hblynda em Trânsito, pela iluminação de Cleison Ramos e a direção musical de Raphael Venos
Francisco, um Instrumento de Paz, pela direção musical de Hadassa Rossiter e o figurino de Roberto Costa
Um Sábado em 30, pelo conjunto do elenco

MELHOR ESPETÁCULO
Francisco, um Instrumento de Paz

TEATRO PARA INFÂNCIA E JUVENTUDE

MELHOR DIREÇÃO
Roberto Costa – A Cigarra e a Formiga

MELHOR ATRIZ
Gabriela Melo – Histórias Pontilhadas

MELHOR ATOR
Luan Alves – A Cigarra e a Formiga

PRÊMIO TÉCNICO
Histórias Pontilhadas, pela dramaturgia de Tarcísio Vieira, Gabriela Melo e Thayana Lira

MELHOR ESPETÁCULO
A Cigarra e a Formiga

CIRCO

MELHOR DIREÇÃO
Fátima Pontes e Ítalo Feitosa – Nordestinados in Circus

MELHOR ARTISTA CIRCENSE FEMININA
Andreza Cavalcanti – Nordestinados in Circus

MELHOR ARTISTA CIRCENSE MASCULINO
Pedro Milhomens – Caminhos

PRÊMIO TÉCNICO
Clarissa Siqueira, pela sonoplastia de Caminhos

MELHOR ESPETÁCULO
Caminhos

DANÇA

MELHOR COREÓGRAFA/COREÓGRAFO
Neves de Sena – Tudo Acontece na Bahia

MELHOR BAILARINA
Maria Julia Cavalcanti – Lago dos Cisnes

MELHOR BAILARINO
Davi Novaes – Bela Adormecida

PRÊMIO TÉCNICO
Corpos em Travessia, pela linguagem inclusiva

MELHOR ESPETÁCULO
Lago dos Cisnes
Turbantes

MÚSICA

MELHOR DIREÇÃO
Jorge Féo – Osun Oxum Ochun – Afoxé Oxum Pandá

MELHOR CANTORA
Ylana Queiroga – Janga

MELHOR CANTOR
Revoredo – Encruzilhada Agreste – Revoredo e Gabi da Pele Preta

PRÊMIO TÉCNICO
Maestro Duda – Uma Visão Nordestina, pelo conjunto

MELHOR ESPETÁCULO
Encruzilhada Agreste – Revoredo e Gabi da Pele Preta

CENAS CURTAS

MELHOR DIREÇÃO
João Liagui – Matizes da Vida (Cia Muganga)

MELHOR ATRIZ
Viviana Borchardt – Ida ao Teatro (Evoé Artes)

MELHOR ATOR
João Fernando – Ida ao Teatro (Evoé Artes)

PRÊMIO TÉCNICO
Pataxós: Resistência e Sobrevivência, pela relevância da temática social, direção de arte e coreografias de Luciana Alves (L.A. Espaço Artístico e Cultural)

MELHORES CENAS CURTAS (1º, 2º e 3º lugares)
1º LUGAR: Ida ao Teatro
2º LUGAR: Serendiptia
3º LUGAR: Show de Brad e Janet

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Cinderela, um fenômeno imortal

Jeison Wallace na peça Cinderela, A História que a Sua Mãe Não Contou… Foto: Renan Andrade / Divulgação

Cinderela, a história que sua mãe não contou… transpõe o clássico conto de fadas para a realidade do subúrbio do Recife, compondo Cinderela e as outras personagens femininas interpretadas por atores. A peça usa e abusa da grosseria verbal e do deboche ao situar a protagonista como uma “bichinha” negra e periférica, com trejeitos exagerados, vocabulário cheio de gírias e bordões como o famoso “Oxe, mainha!”, que caiu na boca do povo.

A montagem se tornou um fenômeno teatral nos anos 1990 e revelou o desconcertante talento e a força midiática do ator Jeison Wallace. Mais de três décadas após a estreia, a peça da Trupe do Barulho ainda surpreende o público com seu humor ácido, personagens caricatos e um enredo recheado de referências à cultura pop e à periferia pernambucana.

Neste domingo, o espetáculo faz duas apresentações especiais no Teatro Guararapes para celebrar seus 32 anos. O Guararapes é um teatro com 2.495 poltronas entre plateia e balcão e as duas sessões estão praticamente lotadas. 

As sessões comemorativas trazem de volta ao palco parte do elenco original como Roberto Costa no papel da Fada Madrinha e Paulo de Pontes como a Madrasta, além dos atores convidados André Lins, Luan Alves, Petreson Eloy, Rick Thompson e Venâncio Torres, que se revezam em outros papeis. Wallace assina a direção e atualizou pontualmente o texto para dialogar com o momento atual.

Paulo de Pontes, como a Madrasta e Jeison. Foto: Foto: Renan Andrade / Divulgação

A protagonista desta releitura subverte todos os estereótipos associados à Cinderela tradicional. Longe da princesa alva e delicada, temos aqui uma mulher negra que desafia os padrões estéticos vigentes. Sua aparência é marcada por uma maquiagem carregada, cabelos desgrenhados e óculos chamativos, elementos que a distanciam do ideal de beleza feminino socialmente imposto.

Seu comportamento também rompe com as expectativas de recato e fragilidade comumente atribuídas às personagens femininas dos contos de fada. Ela se movimenta com firmeza e determinação, seus gestos são amplos e por vezes obscenos, nada da delicadeza e comedimento esperados de uma princesa. Sua fala é igualmente transgressora, reproduzindo a prosódia e o linguajar típicos das periferias recifenses, permeados de gírias e palavrões.

Essa construção da personagem se afasta radicalmente da imagem clássica da Cinderela, propondo uma representação que desafia noções preconcebidas de gênero, raça e classe. Ao trazer para o centro da narrativa uma protagonista que incorpora marcadores sociais frequentemente marginalizados, a montagem provoca reflexões sobre os estereótipos que permeiam tanto os contos de fada quanto a própria sociedade.

Uma curiosidade da montagem é a substituição do tradicional sapatinho de cristal por uma peruca. Na fuga do baile, Cinderela acaba perdendo o adereço, que se torna a chave para o príncipe reencontrá-la. Assim, ele passa a percorrer o reino fazendo as moças experimentarem a peruca, na esperança de achar sua amada.

Elenco original, com Edilson Rygaard como Príncipe. A foto é de Jô Ribeiro, ator, produtor cultural e maquiador, que atuou em váriias funções na Trupe do Brarulho, morto em 2020

O espetáculo estreou na sessão da meia-noite no Teatro Valdemar de Oliveira, espaço histórico recentemente atingido por um incêndio e que corre o risco de desaparecer, cedendo lugar a mais um empreendimento imobiliário. Diante de um público escasso e certo desdém da classe artística, a montagem foi inicialmente relegada pela crítica. No entanto, com uma habilidade impressionante, a Trupe do Barulho reverteu a situação. ]

O elenco dos primeiros anos era formado por Jeison Wallace, Aurino Xavier, Edilson Rygaard, Flávio Luiz, Inaldo Oliveira, Jô Ribeiro, Luciano Rodrigues, depois Paulo Pontes, Roberto Costa.

Cinderela permaneceu em cartaz por uma década e estabeleceu recordes de bilheteria e público no Recife. A peça, escrita por Henrique Celibi, ator e dramaturgo que veio a falecer em 2017, estreou originalmente em 20 de setembro de 1991 .

A célula primeira do espetáculo foi encenada pelo próprio Celibi em 1985 numa boate recifense. Quando Jeison Wallace assumiu a montagem, o texto foi enriquecido com novas camadas e improvisos, que acabaram sendo incorporados à obra. Esse processo resultou em uma dramaturgia que foi além da criação inicial de Celibi, agregando as vozes e contribuições de Wallace e dos diversos atores que fizeram parte da jornada da peça ao longo desses anos.

O deboche e a irreverência eram suas armas de ataque, incorporados em todos os aspectos da produção. Na entrada, um dos integrantes do grupo entregava a cada espectador um pedaço de papel higiênico, avisando: “A peça é uma merda”. Com isso, além de usar o tradicional jargão de boa sorte do teatro, “merda”, eles tentavam já de antemão anular, ou zombar, das possíveis críticas negativas.

Apesar do crescente sucesso de público, Cinderela, A História que a Sua Mãe Não Contou enfrentou resistência de parte da classe artística pernambucana. Muitos diziam que “aquilo não era teatro”.

Um momento decisivo para a popularização do espetáculo foi o Carnaval de 1992. A convite do jornalista José Mário Austregésilo, o grupo realizou a cobertura televisiva do desfile do bloco “As Virgens do Bairro Novo”, em Olinda, pela TV Jornal. Essa exposição na mídia despertou a curiosidade do público sobre a montagem, que parecia ser infantil, mas trazia um humor adulto e transgressivo.

No entanto, no ano seguinte, a diretoria do bloco proibiu a participação da Trupe do Barulho. Em seu livro reportagem Cinderela: História de um Sucesso Teatral dos Anos 90, Luís Augusto Reis, relata isso e especula que pode ter sido porque o travestismo do grupo, apesar das semelhanças, diferia significativamente do costume local de homens se vestirem de mulher no carnaval, parodiando o “travesti suburbano”. Ou talvez porque os atores ofuscaram os outros integrantes com seu talento e improviso.

Sem se abater, eles partiram então para a cobertura do tradicional bloco Galo da Madrugada, ampliando ainda mais a visibilidade de Cinderela.

Essa sequência de eventos foi fundamental para consolidar a popularidade do espetáculo. A cada aparição no Carnaval, mais pessoas ficavam intrigadas com aquela releitura irreverente do conto de fadas e queriam conferir a peça nos teatros. Assim, mesmo enfrentando preconceitos e resistências iniciais, “Cinderela, A História que a Sua Mãe Não Contou” foi conquistando seu espaço e se firmando como um fenômeno cultural que rompeu barreiras e atraiu um público diverso, como na apresentação no ginásio Geraldão para 15 mil pessoas, e entrou para o imaginário do Recife.

Este texto integra o projeto arquipélago de fomento à crítica, com apoio da Corpo Rastreado.

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