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ATO lê Sortilégio – Mistério Negro:
Abdias Nascimento e o legado do TEN
Por Ivana Moura

O ATO realiza leituras mensais de peças clássicas e contemporâneas. Foto: Jonas Araújo / Divulgação

Léa Garcia e Abdias Nascimento na montagem de 1957 da peça Sortilégio – Mistério Negro. ACERVO IPEAFRO

Todo mês, um grupo de artistas ocupa um espaço do Recife (galeria, museu, academia, torre, mercado) para ler um texto em voz alta, diante de quem quiser ouvir. É uma escolha deliberada de simplicidade, sem palco elevado, sem bilheteria. O espaço é o cenário; os figurinos se resolvem com soluções descomplicadas. Talvez seja aí, nessa redução ao essencial, que mora a potência: a palavra, a voz, o corpo de quem lê, o ouvido e o corpo de quem escuta. Esse é o ATO, projeto independente de leituras dramatizadas, do ATO Teatro, criado em 2025 pelo cineasta e escritor Felipe André Silva ao lado da atriz e produtora Raíza Rameh, organizado de forma horizontal por um elenco fixo. Mais de um ano de edições mensais e gratuitas. Neste mês, a leitura acontece no Museu da Abolição, e a palavra escolhida é a de Abdias Nascimento: Sortilégio – Mistério Negro.

No ATO de Setembro, Emanuel rejeita a ancestralidade para alcançar a ascensão social. Nesse caminho, assassina a esposa branca, Margarida, e abandona Efigênia, a mulher negra que o amava e que ele renunciou por um casamento que lhe abriria as portas da sociedade. Mas a fuga o leva exatamente para onde sempre recusou ir, o terreiro de candomblé. É ali, diante da tradição que tentou apagar de si, que Emanuel é obrigado a refazer o próprio caminho. Esse é um resumo de Sortilégio, Mistério Negro, texto escrito em 1951 para o Teatro Experimental do Negro (TEN), censurado dois anos depois e encenado pela primeira vez em 1957. 

A dramaturgia de Abdias nasce dentro do TEN, grupo que ele criou no Rio de Janeiro, em 1944, com um propósito que ia além do palco: afirmar o valor da pessoa negra e da cultura afro-brasileira num país que, desde a colônia, as tratava como menores. O TEN era, nesse sentido, uma resposta direta ao Brasil que se dizia livre de preconceito; a tal democracia racial, fórmula usada para negar o racismo enquanto ele seguia operando nas escolas, nos palcos e nas ruas.[1]. Nos anos 1940 e 1950, nenhuma outra frente defendeu a negritude com tamanha constância quanto o TEN; noção cujos usos e sentidos Kabengele Munanga mapeia no estudo clássico de 1988 [9]. Antes do TEN, os protagonistas costumavam ser atores brancos com o rosto tingido de preto; ao intérprete negro cabiam tipos cômicos e secundários, acentos de ambientação.

O TEN não se limitou ao palco. Alfabetizou cerca de seiscentas pessoas, publicou o jornal Quilombo, organizou o I Congresso do Negro Brasileiro e encenou autores como Eugene O’Neill, Lúcio Cardoso e Nelson Rodrigues, sempre com atores negros no centro da cena. Foi nesse laboratório que Abdias escreveu Sortilégio, em 1951, mas peça ficou retida pela censura – acusada, entre outras coisas, de imoralidade – e só chegou ao palco em 1957, no Municipal do Rio e de São Paulo. [1] O texto só seria publicado em 1961, na antologia Dramas para negros e prólogo para brancos, organizada pelo próprio Abdias [6].

Em Teatro Experimental do Negro: histórias, críticas e outros dramas, Guilherme Diniz – pesquisador, professor e crítico teatral – reafirma que o TEN foi uma “força estética e política” que tensionou as estruturas do teatro nacional, um “laboratório de linguagem e um espaço de autoinscrição negra na cena brasileira”. A obra, com prefácio de Leda Maria Martins, questiona as historiografias dominantes que “apagaram ou diminuíram” o papel decisivo do TEN na transformação do panorama cultural do país [5]

Em primeiro plano, Helba Nogueira, como Margarida, Abdias Nascimento como Emanuel e Léa Garcia como Efigênia, na montagem de 1957 dirigida por Léo Jusi. Acervo Arquivo Nacional / Fundo Correio da Manhã

O subtítulo Mistério Negro merece leitura atenta, e é Leda Maria Martins quem melhor o destrincha, em A cena em sombras (1995) [7]. Ela aponta que mistério evoca de imediato duas conotações: o culto de divindades ancestrais, sejam africanas, cristãs ou outras, e a modalidade teatral medieval, os mistérios, “em cuja tessitura se evidenciava o uso híbrido de canções e coros, recursos sonoros e plásticos variados”. Já negro carrega a mística firmada pelas divindades e mistérios dos ritos afro-brasileiros. É essa mesma chave que Denise Rocha (2020) ecoa, ao ler o mistério medieval com significado vinculado à religiosidade dos orixás [2], e que Guilherme Augusto dos Santos (2012) analisa ao tratar da dupla referência do adjetivo [3].

No conjunto, Abdias recodifica o gênero. Toma a forma do mistério medieval e a potencializa com a cosmogonia dos orixás, fazendo do terreiro o templo onde o drama se desenrola. A ação transcorre num tempo litúrgico, na virada de um réveillon, e o desfecho é um sacrifício que devolve Emanuel aos seus.

A feição trágica do drama é estudada por Rocha [2], que aplica o aparato aristotélico à trajetória de Emanuel: a hamartia (o erro de renegar a negritude), a catástrofe (o assassinato de Margarida), o coro (as filhas de santo, que atuam como componentes do coro da tragédia clássica e vaticinam o destino). Rainério dos Santos Lima [4], em análise dedicada à segunda versão do texto, pondera: a peça foge da progressão clássica de causa e efeito, pois a morte de Margarida já aconteceu antes do primeiro ato, e o drama caminha para trás, procurando nas lembranças de Emanuel a raiz do desastre. A posição mais precisa, então, é dizer que Sortilégio concentra elementos de tragédia e de tragicidade (desgraça, fatalidade, destino) sem se filiar ao gênero estrito.

Leda Maria Martins, em A cena em sombras [7], lê Emanuel como um personagem que se mascara. Quanto mais idealiza o mundo branco e rebaixa o seu, mais “faz circular um saber sobre o negro” ancorado numa “visão etnocêntrica e excludente”, até se tornar, nas palavras da autora, “emissor e reprodutor do preconceito cravado no imaginário social”. Miriam Garcia Mendes, em O negro e o teatro brasileiro (1993) [8], examina o desfecho como libertação ambígua: ao largar de vez o figurino branco que vestia, Emanuel encontra certo alívio, afinal nunca os adotara de fato, renegava-os por dentro.

É a leitura de um final que Abdias escreve como reconciliação violenta com os ancestrais. Emanuel, atravessado pela lança de Exu, é devolvido à cosmogonia que renegou. E é aqui que o pensamento de Leda ilumina a estrutura da peça. O drama de Emanuel se desenrola como um tempo espiralar, o passado retorna em quadros, gira, repete, mas nunca igual, e Emanuel funciona como um corpo-tela, espaço de inscrição viva das marcas do racismo [10]. Há ainda a dimensão de Sortilégio II (1979), reescrita pelo próprio Abdias depois de um ano em Ile-Ife, na Nigéria, onde se aprofundou nas religiões dos orixás; nela, a estrutura rememorativa se radicaliza, o que confirma que a forma, para ele, era tão política quanto o conteúdo [1][4].

Raíza Rameh, Kennyo Severa e Guta Menelau. Reprodução do Instagram

Os convidados deste mês da leitura do ATO. Reprodução do Instagram 

No elenco deste mês, além dos integrantes do grupo (Raíza Rameh, Kennyo Severa e Guta Menelau), estão os convidados Ton de Souza, Sabrina Loiola, Erique Nascimento, Kadydja Erlen, Fábio Henrique, Maddu Cabral, Aline Gomes e André Lourenço. A direção é de Kennyo Severa, ator, doutorando em Artes Cênicas e pesquisador, com assistência de Raíza Rameh. O desenho se repete a cada edição: texto inteiro, com palavra e presença em primeiro plano.

O formato rende ganhos reais. Aproxima dramaturgias contemporâneas e clássicas de quem, em boa parte, não frequentaria uma sala de teatro formal. E traz limites que não convém esconder pois são as escolhas do grupo. Não substitui uma montagem, não substitui a cena completa, são outras experimentações. As edições vêm reunindo em média duzentas pessoas, num teatro que se acompanha de um copo de vinho e segue reverberando. Há quem observe que esse público é majoritariamente jovem, branco e de classe média, e que o filão que a iniciativa mais alcança é o de quem já tem alguma familiaridade com o teatro. Nenhuma dessas observações deve ser descartada, assim como nenhuma iniciativa, sozinha, dá conta de tudo. O mérito do projeto não é resolver contradições; é seguir com constância: mais de um ano de edições mensais, gratuitas, sem apoio financeiro direto, financiadas pela venda de vinhos e camisas. E há sinais de escuta. A escolha de Sortilégio, de Abdias Nascimento, no Museu da Abolição (endereço dedicado à memória da escravidão e da cultura afro-brasileira) sugere um deslocamento deliberado, de repertório e de território.

Então, sim, há o que comemorar aqui, com os olhos abertos. O Recife, que se gaba de ser o maior centro urbano em linha reta da América Latina (piada que a cidade reinventa a cada contexto), e tem muitas razões de orgulho, segue carente de políticas culturais específicas para as artes cênicas e de iniciativas regulares que valorizem o teatro. Há espaço, e necessidade, para muitas outras iniciativas como esta. Que venham!!! E que o ATO continue sendo, todo mês, um gesto de encontro em torno da palavra, da presença e dos afetos.

Serviço

📅 19 de setembro (sábado), abertura do espaço às 15h, leitura às 17h
📍 Museu da Abolição, Rua Benfica, 1150, Madalena, Recife
💸 Entrada gratuita
👥 Elenco: Raíza Rameh, Kennyo Severa, Guta Menelau, Ton de Souza, Sabrina Loiola, Erique Nascimento, Kadydja Erlen, Fábio Henrique, Maddu Cabral, Aline Gomes e André Lourenço
🎬 Direção: Kennyo Severa, com assistência de Raíza Rameh
ℹ️ @atoteatro | atoteatro@gmail.com
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📚 Referências

[1] Nascimento, Abdias do. Teatro Experimental do Negro: trajetória e reflexões. Estudos Avançados, 18(50), 2004, p. 209-224.
[2] Rocha, Denise. Teatro Experimental do Negro: a tragicidade de um relacionamento inter-racial em Sortilégio (1951). Revista Moringa (UFPB), v. 11, n. 2, 2020.
[3] Santos, Guilherme Augusto dos. Sortilégio (Mistério negro): a literatura dramática na experiência do TEN. VIII Congresso Internacional Orbis Tertius (UNLP), 2012.
[4] Lima, Rainério dos Santos. Entre Exu e Ogum: políticas do sagrado no teatro de Abdias do Nascimento. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea (UnB), 2020.
[5] Diniz, Guilherme. Teatro Experimental do Negro: histórias, críticas e outros dramas. São Paulo: Temporal, 2025, 488 pp., prefácio de Leda Maria Martins.
[6] Nascimento, Abdias do. Dramas para negros e prólogo para brancos. Rio de Janeiro: TEN, 1961.
[7] Martins, Leda Maria. A cena em sombras. São Paulo: Perspectiva, 1995 (análise de Sortilégio nas p. 104-105).
[8] Mendes, Miriam Garcia. O negro e o teatro brasileiro. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Arte e Cultura; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 1993.
[9] Munanga, Kabengele. Negritude: usos e sentidos. São Paulo: Ática, 1988.
[10] Martins, Leda Maria. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.

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