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De denúncia de pedofilia
à conversão de cristãos
Crítica: A Igreja da Fran
Por Ivana Moura

A Igreja da Fran faz da crítica religiosa um ritual invertido. Foto: Divulgação

A Igreja da Fran, de Rafaela Azevedo, é um solo de humor ácido que trata a religião como instituição de poder, e não somente como questão de fé. Quem procura entretenimento leve deve escolher outro espetáculo. Quem não tolera crítica às estruturas da Igreja cristã terá dificuldade com a sessão, e quem espera uma abordagem respeitosa das hierarquias religiosas encontrará uma experiência francamente hostil. 

Os avisos são concretos. A peça cita abuso sexual infantil, isenção fiscal, a Bancada da Bíblia e versículos de teor misógino. Há barriga de gravidez falsa, mitra papal com calcinha fio dental, simulação de masturbação ao som de um louvor e referências chulas do humor drag. A classificação de 18 anos sinaliza esse conteúdo. 

A experiência começa na porta. Detectores de metais na entrada da sessão no Recife indicam o nível de risco que a produção considera real. Segundo a artista, a medida responde a ameaças, perfis derrubados e uma apresentação cancelada em Curitiba. Na plateia do Teatro do Parque, com cerca de 600 pessoas, a maioria era de mulheres, com presença forte de pessoas LGBTQIAPN+ e de um público jovem que raramente frequenta teatros convencionais.

Nos primeiros segundos, sob luz fria e diante de um altar branco vazio, o fundo do palco projeta manchetes. Abuso de poder, pedofilia, misoginia, feminicídio, atrocidades cometidas por padres, bispos, pastores, irmãos e pessoas protegidas por eles. O cenário esvaziado lembra a estética simplificada de muitos templos evangélicos que se multiplicam no país.

O figurino, assinado por Bruno Pimentel, sustenta a tese visual da peça. Rafaela usa uma barriga de grávida acoplada ao corpo e, na frente, um terno preto desconstruído. Nas costas, apenas uma calcinha fio dental com cruz. A mitra e a túnica papais surgem como símbolos de autoridade, e a roupa íntima expõe o contraste entre a aparência conservadora e o que a peça aponta por trás dela. O recurso funciona por ser direto. Em contrapartida, a equivalência entre aparência religiosa e sexualidade “doente” é uma generalização que o espetáculo afirma sem demonstrar.

O alvo é múltiplo: a fé como indústria, a fé como bancada parlamentar, a violência embutida na doutrina e a moral que controla o corpo das mulheres. Azevedo afirma que não questiona a crença das pessoas, e essa distinção sustenta o espetáculo. O problema é que, em vários momentos, a crítica às instituições desliza para a crítica ao cristianismo como um todo.

A Bíblia é citada literalmente, inclusive em passagens que muitos fiéis desconhecem, como 1 Coríntios 14:34-35 (“Permaneçam as mulheres em silêncio nas igrejas”). Segundo Fran, cristãos da plateia costumam dizer que não conheciam esses trechos. 

A Igreja da Fran é a segunda parte de uma trilogia. Foto: Divulgação

O espetáculo reproduz a estrutura de um culto (anúncio, chamada, confissão, conversão) e inverte cada etapa. O anúncio são as manchetes. A chamada é o pedido para que os cristãos levantem a mão. A confissão é um interrogatório bíblico. A conversão é a entrada na “Igreja da Fran”, que não promete salvação, mas lucidez; não cobra dízimo, mas presença; não pede fé, mas leitura do texto antes de crer. Ao usar a liturgia contra a própria instituição, a peça revela que o rito também funciona como mecanismo de adesão, e o humor torna esse mecanismo visível.

O constrangimento é outro recurso utilizado. O exagero, o humor corporal e a quebra de etiqueta expõem a facilidade com que se aceita a autoridade religiosa e o silêncio esperado de quem discorda. A palhaçaria de Azevedo cumpre aí sua função; o riso reduz a resistência e abre espaço para temas que costumam ser evitados.

A artista pede que a luz da plateia seja acesa e, a partir daí, o diálogo se dá com espectadores: Cris, católico, responde da quinta fileira; Prot, protestante, fala do fundo da sala. Cris se manifesta com mais frequência e assume o protagonismo do diálogo, enquanto Prot permanece quase invisível. Essa distribuição espacial parece um dado dramatúrgico. A Igreja Católica é a instituição mais nomeada pela peça, e Cris ocupa o lugar de destaque.

Quando Fran pergunta se os presentes conhecem a Bíblia, Cris cita um trecho, não aprofunda, afirma que o Novo Testamento é mais leve e diz que Jesus veio salvar do pecado original. Fala com pouca convicção e não convence ninguém. O problema não é a falta de argumento teológico, mas a falta de repertório sobre o livro que ele afirma seguir. Batizado, crismado e praticante, ele não sabe responder sobre feminicídio, a sujeição da mulher, as atrocidades cometidas pela Igreja Católica ou o roteiro de Adão, Eva e a serpente.

A participação de Cris e Prot é teatro, mas há quem duvide. Segue o culto… O debate foi desenhado para produzir as respostas de que a peça precisa. O efeito cênico funciona e Cris cumpre um papel numa dramaturgia que o conduz a um desfecho previsível. O mesmo vale para a conversão final, que a própria Fran descreve como “bem mais fácil do que se imaginava”. 

Os cristãos da plateia, por sua vez, quase não levantam a mão quando Fran pede. Registro esse silêncio como ironia provocada pela peça. Diante de um ambiente hostil, a identidade religiosa é algo que as pessoas preferem não exibir. O silêncio, portanto, indica dificuldade de declaração, e não necessariamente uma maioria de ateus.

Apresentação aconteceu no Recife no Teatro do Parque. Foto: Ivana Moura

O espetáculo sustenta sua crítica corrosiva em cinco eixos, e o primeiro é o mais consistente. A peça denuncia abusos sexuais infantis associados a instituições religiosas e, sobretudo, o mecanismo que garante a continuidade desses casos. A transferência de religiosos acusados entre paróquias, prática que funciona como blindagem administrativa. Diante disso, propõe proteção às vítimas, transparência institucional e revisão das práticas de encobrimento.

A sátira bíblica vem em seguida. O Gênesis é reinterpretado com ironia, com a serpente que fala, o pecado original tomado como alicerce de uma doutrina inteira. Depois vem a virgindade de Maria tratada como recurso narrativo de controle. A leitura da Fran aplica ao texto critérios de verossimilhança, como se faria com qualquer narrativa mal construída e diz que é um exemplo de roteiro com erros de conceito e continuidade. 

A violência textual confronta passagens sobre guerras, mortes, escravidão e violência contra mulheres com a imagem de um Deus amoroso, e questiona a separação rígida entre Antigo e Novo Testamento. As referências a Galileu e a Giordano Bruno associam perseguição religiosa ao conflito entre fé, ciência e poder, um recorte historicamente defensável.

Na encenação da Igreja Católica, ritos e símbolos aparecem com cruz, música religiosa e uma cena de batismo de conteúdo sexual explícito. Jesus surge como figura próxima de grupos marginalizados, enquanto sua hipersexualização e exploração comercial são criticadas. 

Por fim, a economia da salvação sustenta que a religião cria um problema para depois vender a solução. Líderes que acumulam patrimônio com dízimos e ofertas são contrapostos a fiéis em situação de pobreza, e a teologia da prosperidade é questionada por atribuir riqueza à fé e pobreza à falta dela. O argumento mais forte é ético: interpretações submissas da fé podem levar vítimas de violência a tolerar seus agressores em vez de buscar proteção. A peça também confronta a possibilidade de salvação de líderes acusados de crimes em contrapartida a condenação de artistas do mundo pop. Cita por exemplo um céu prometido habitado por Mala-faias, Jair e Edir e a ameaça do inferno que teria entre os habitante Madonna, Lady Gaga, Anitta. Nesse culto, os fiéis ficam realmente com uma única opção de seguir o baile. 

A trajetória da trilogia ajuda a medir o limite da peça. Em King Kong Fran, a inversão de papéis sustentava o riso e a revelação. Em A Igreja da Fran, a artista descartou a ideia de uma igreja misândrica – que odiasse homens, espelho invertido da misoginia -, mas concluiu que a misoginia é apenas um dos problemas do cristianismo. e optou por um espetáculo mais expositivo pela força da evidência. A decisão é coerente com o tema. Em contrapartida, ela reduz a ambiguidade, torna a obra mais didática.  

A Igreja da Fran é uma peça de acusação, desconcertante e necessária para ampliar o pensamento crítico. Seu poder está no procedimento, na pesquisa, na atuação irônica e irreverente da artista. Sua fragilidade está na generalização, que mistura em alguns momentos a crítica às instituições com a sátira à fé em geral. Para o público que aceita a provocação, é uma das leituras mais contundentes do tema no teatro brasileiro recente. 

Serviço

Data: 6 de novembro (sexta-feira), às 20h
Local: Teatro do Parque, Rua do Hospício, 81, Boa Vista, Recife
Classificação: 18 anos. Menores não entram, nem acompanhados dos responsáveis.
Ingressos: R$ 60 a R$ 125, mais taxas, pelo Sympla
Assentos: o teatro não possui lugares marcados


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