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A gramática do ódio como sentença
Crítica: Vigiada e punida
Por Ivana Moura

Vigiada e punida insiste em nos fazer ouvir a matéria baixa da crueldade pública. Foto: Silvia Machado 

Entre o coro e o corpo, a peça expõe a engrenagem que transforma o insulto em norma social. Foto: Silvia Machado / MITsp 2026

As palavras são cortantes, desumanizadoras, muitas vezes chulas, ditas para acertar o corpo encarado como erro por quem ataca. “Gorda”, “lésbica”, “racializada”, “deformada” surgem como projétil, como sentença lançada para reduzir alguém à condição de alvo. Em Vigiada e punida, espetáculo apresentado na 11ª MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo como parte da programação internacional, o que sobe ao palco é uma experiência da perseguição: misoginia, gordofobia, lesbofobia, racismo, incitação ao suicídio, assédio. Tudo isso chega com violência. E a operação mais radical da montagem é que essa violência é cantada.

Há aí uma escolha formal forte. O discurso de ódio vem com corpo sonoro, repetição, peso respiratório. Um coro de cerca de vinte cantores, inicialmente encapuzados, entoa insultos reais dirigidos a Safia Nolin. Diante dessa massa vocal, ela surge com Katia Lévesque, e a assimetria se impõe desde o início. Não é o indivíduo diante de “opiniões divergentes”, mas um corpo diante de uma máquina social de punição. O coro, aqui, é mais que multidão. Ele é a face sensível de uma norma, o modo pelo qual uma coletividade faz saber que certos corpos não deveriam ocupar o centro, nem a cena, nem a visibilidade.

O título do espetáculo acena a Foucault. Vigiar e punir não é castigar depois do ato; é produzir sujeitos governáveis antes e durante, por meio de um campo amplo de coerções. Em cena, o ódio quer machucar, mas vai além. Quer endireitar, reduzir, fazer caber. Quer enquadrar um corpo julgado como excessivo, impróprio, fora da norma. Nesse sentido, a violência dirigida a Safia não não pode ser reduzida à explosão emocional de haters descontrolados. Essa violência funciona como uma pedagogia cruel da conformidade. Há uma condenação espalhada no comentário, na piada, na ameaça, na injúria reiterada. E a montagem aposta nessa pressão como cerco coral.

Mas é justamente aí que o trabalho pede um exame mais exigente. Uma análise da multidão ajuda a entender parte do fenômeno: desindividualização, contágio, difusão de responsabilidade. Um grupo protegido pelo anonimato ousa mais, exagera mais, desce mais baixo. Só que isso não é tudo. O ódio online não é somente “gente anônima tocando o terror”. Ele envolve recompensa de visibilidade, porque a fala cruel rende atenção, riso, circulação e pertencimento; envolve pedagogia pública, porque se aprende a odiar em público, a performar humilhação, a comentar para uma plateia; e envolve economia de plataforma, porque a fala extrema circula melhor e o choque se converte em moeda. Vigiada e punida nos faz sentir esse ódio com contundência. Talvez pudesse nos fazer entender com mais força o mecanismo que torna esse ódio rentável, repetível e socialmente autorizado.

E essa engrenagem não diz respeito apenas aos que insultam diretamente. Ela alcança também os que assistem, os que compartilham, os que riem, os que deixam passar, os que naturalizam, os que se resguardam na posição confortável de quem “não faria isso”. Há uma responsabilidade disseminada na circulação pública da humilhação. Não se trata de igualar agressor e espectador, mas de reconhecer que o ambiente que permite a infâmia não se sustenta só por quem o profere. Sustenta-se também por quem o consome sem fricção, por quem o trata como ruído inevitável da vida pública, por quem terceiriza para “a internet” aquilo que é prática social muito concreta.

A polícia que não acolhe, a mídia, as redes, a opinião pública, o duplo padrão institucional – isto é, o fato de algumas figuras públicas receberem proteção e escuta enquanto outras são deixadas à própria sorte – estão no horizonte da obra. Mas me parece que permanecem mais como moldura interpretativa do que como força dramatúrgica plenamente inscrita na cena. A estrutura do ódio pede que se vá além de sua superfície verbal. O coro contra o indivíduo é uma imagem potente, e os marcadores estão ali, inscritos nos corpos em cena e nas palavras que os atravessam. Ainda assim, talvez faltasse uma inflexão mais cerrada sobre a complexidade específica da violência dirigida a pessoas que carregam esses marcadores. Porque o alvo não é qualquer indivíduo. É um corpo gordo, lésbico, dissidente, racializado. E é por isso que a agressão, ali, não se esgota em maldade individual, ela condensa uma história social de correção, exclusão e disciplinamento.

Os ataques desprezíveis chegam ao corpo de quem as recebe de modo avassalador, esmagador, por vezes quase irrespirável. E, por isso mesmo, a peça produz identificação em quem sofre, sofreu ou é sensível a esse tipo de violência. Mas essa identificação não é homogênea. Nem todos são atravessados do mesmo modo. Para alguns, trata-se de reconhecer uma dor vivida; para outros, de se aproximar dela por empatia; para outros ainda, de testar o limite do próprio desconforto. E lógico que há outras possibilidades. Há mérito em não deixar essa escuta inteiramente confortável. Ainda assim, a passagem do singular ao comum nem sempre se completa com a mesma força com que a agressão é cantada.

Um dos gestos mais fortes de Vigiada e punida é trazer à tona os nomes dos agressores. Há nisso coragem de ato político. Nomear é retirar o conforto abstrato da expressão “a internet fez isso”. Não: foram pessoas. Houve assinatura, houve emissão, houve escolha. Nomear transforma a injúria em algo material. Devolve dimensão à violência e recusa que ela seja dissolvida na névoa impessoal das plataformas. Mas esse gesto também precisa ser problematizado. Porque, se por um lado ele responsabiliza, por outro pode concentrar excessivamente a resposta num inventário de culpados. O ponto não é recuar da nomeação, e sim medir seu alcance. Ela amplia a compreensão da engrenagem ou a comprime na exposição dos indivíduos? A coragem do gesto é inegável. Sua ambivalência também.

Uma análise sobre como Vigiada e punida retira o ódio da abstração da rede e o devolve ao osso da presença.  

Safia Nolin e Katia Lévesque como apoio, desdobramento ou promessa de ternura. Foto: Silvia Machado 

As imagens da encenação permanecem. As balaclavas, os rostos que aos poucos se revelam, as arquibancadas, o corpo de Safia sentado diante da enxurrada verbal, a presença de Katia Léves como apoio, espelho, desdobramento ou promessa de ternura. Há cenas em que as duas se massageiam, comem macarrão, insistem em gestos de cotidiano, cuidado e prazer mínimo. É como se o espetáculo tentasse contrapor ao aparato do insulto um pequeno laboratório de reexistência corporal. Há destreza nesse contraste entre a brutalidade do que se canta e a insistência miúda de atos ordinários. O corpo ofendido continua comendo, banhando-se, encostando em outro corpo, respirando. Isso tem força. E tem potência porque recusa que a violência esgote a vida possível daquele corpo.

Em certos momentos, uma aproximação caricatural da massa agressora produzem um riso tenso, desconfortável. Esse riso expõe o quanto a violência seduz, agrega, dá pertencimento. Mostra que humilhar em público também pode operar como forma de comunhão. O risco aparece quando essa operação se aproxima demais da caricatura. O agressor grotesco oferece ao público uma saída fácil: rir do outro para se separar dele. E o efeito é delicado. A violência é projetada num outro monstruoso, enquanto permanece menos examinada a zona cinzenta em que quase todos, em graus diferentes, participam da circulação pública da humilhação – comentando, consumindo, compartilhando, deixando passar, transformando crueldade em paisagem.

Por isso a questão do coletivo segue decisiva. Vigiada e punida constrói o coletivo como multidão agressora: o coro é máquina social de punição. Constrói também, em escala muito menor, um núcleo de amparo: duas mulheres que se apoiam, que se sustentam, que não deixam a outra cair sozinha. Mas a assimetria entre esses dois polos é eloquente. De um lado, a força numérica, vocal, disciplinadora da massa. De outro, a intimidade da sustentação. A peça não apaga essa desproporção – e faz bem em não apagá-la. O problema é que seu “apelo à ação coletiva” parece se deter mais na imagem ética do amparo do que na formulação política do enfrentamento. 

Vigiada e punida insiste em nos fazer ouvir a matéria baixa da crueldade pública. Sua potência maior talvez esteja no ponto em que nos obriga a perceber que o ódio não é um desvio da linguagem pública contemporânea. Em muitos casos, esse ódio, já é uma de suas gramáticas correntes. A violência continua a pulsar fora do palco.

 

FICHA TÉCNICA

Libreto: Safia Nolin, Jean-Philippe Baril Guérard
Música: Safia Nolin, Vincent Legault
Criação e direção: Philippe Cyr
Orientação dramatúrgica: Anne-Marie Voisard
Com: Safia Nolin, Katia Lévesque
Direção do coro local: Tiago Pinheiro
Coro: Mathieu Abel, Cristine Cimon Fortier, David Cronkite, Ryan Doyle Valdés, Étienne Guertin, Claudine Ledoux, Kimberly Lynch, Florence Tremblay e artistas do coro local
Coro local: Augusto Lima, Cássio Pereira, Chiara Guttieri, Claudio Marques, Eliane Aquino, Fábio Vianna Peres, Felipe Panelli, Jonas Mendes, Leonardo Koscianski, Luísa Santana, Narilane Camacho, Patricia Nacle, Wilian Manoel
Cenografia: Odile Gamache
Design de iluminação: Cédric Delorme-Bouchard
Diretor assistente: Andrée-Anne Garneau 
Direção de palco: Félix-Antoine Gauthier
Vídeo: Zachary Noël-Ferland
Luz: Joëlle LeBlanc
Som: Jules Potier
Pesquisa: Ariane Thibault-Vanasse
Direção de produção: Catherine Comeau
Direção técnica: Ariane Roy
Uma criação do Prospero, em coprodução com a l’Homme allumette, o Théâtre Français du Centre National des Arts (Ottawa) e o Les Plateaux Sauvages (Paris), em colaboração com o Théâtre du Trident (Quebec). Desenvolvido com o apoio do Fundo Nacional de Criação do National Arts Centre.
Vigiada e Punida foi criado no âmbito do Festival TransAmériques (FTA), em 2024.

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