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A lama e a purpurina,
Livro do Grupo Vivencial
escrito por Marcio Bastos

Grupo Vivencial. Foto Gilberto Marcelino / Divulgação

Jornalista Marcio Bastos, autor do livro sobre o Vivencial. Foto: Gabriel Mesgo / Divulgação

O grupo que Guilherme Coelho fundou às margens de um mosteiro beneditino causou polêmica desde o início e, mais de cinquenta anos depois, ainda pulsa e influencia a cena pernambucana. Foi em 1974, quando ele, então noviço, dirigiu Vivencial I no galpão do Colégio de São Bento, em Olinda, para celebrar os dez anos de uma pastoral católica. A peça criticava a Igreja, o machismo e o racismo e defendia abertamente a diversidade sexual, algo que nenhum palco da época fazia. O público jovem lotou o salão, a repercussão envergonhou os anfitriões e, dias depois, a direção do mosteiro proibiu que a montagem seguisse em cartaz no lugar onde tinha acabado de estrear. Foi desse encerramento forçado que nasceu o Grupo de Teatro Vivencial, e a trajetória dos seus integrantes chega agora às livrarias em Lantejoulas no mangue, teatro e desbunde do Vivencial, de Márcio Bastos (Autêntica).

O Vivencial recrutou o seu elenco entre os jovens da Arma, a Associação de Rapazes e Moças do Amparo, grupo ligado à Arquidiocese de Olinda e Recife, do qual vários futuros integrantes já participavam. Coelho não chegou a ser monge e deixou o hábito nos anos seguintes, e o grupo, formado na maioria por gente dos bairros populares de Olinda e do Recife, acrescida de poucos estudantes e profissionais, transformou a falta de formação em método, a criação coletiva como aprendizado.

O livro integra a coleção Nossas Histórias, coordenada por Renan Quinalha, que declara no título o seu compromisso, resgatar marcos da resistência LGBTQI+ brasileira apagados pela ditadura e pelo esquecimento. Esse compromisso se cumpre em forma documental, verificável página a página. São 182 páginas, prólogo, quatro capítulos e epílogo, atravessadas por 112 notas de rodapé que citam recortes do Diario de Pernambuco, do Jornal do Commercio, do Diario da Noite e de veículos nacionais entre 1974 e 1984, além de documentos da hemeroteca da Biblioteca Nacional e do Arquivo Público. O miolo reproduz material primário raro, o manifesto do grupo, o Manifesto Quá Quá Quá, o manifesto de sete anos, panfletos e programas. 

A escrita de Bastos é feita com afeto declarado. A lama do Capibaribe e a purpurina dividiram o mesmo palco durante quase uma década, e é dessa convivência improvável que o autor extrai a sua matéria. O arquivo que ele articula veio em boa parte das mãos do próprio fundador, e as memórias que divergem, as que lembram o dinheiro de outro jeito, as que apontam hierarquias dentro da coletividade proclamada, ficaram nas margens. Henrique Celibi, o viveca mais desconfiado, costumava separar o perfume de uma época do seu cheiro verdadeiro. Este livro tem mais cheiro do que qualquer homenagem anterior, e nem por isso escapa inteiramente ao perfume, e é dessa tensão que a leitura mais honesta se faz.

Caetano Veloso no Vivencial com jaqueta com o nome de Gilberto Gil, em 1979. Foto: Paulinho Santos

Vivencial Diversiones. Acervo Suzana Costa

Os fatos que o livro organiza sustentam a história. Em plena ditadura, quando a participação de travestis no carnaval era proibida pela Polícia Federal em todo o país, medida documentada no terceiro capítulo e registrada pela imprensa de época, e quando um grupo autointitulado Comando de Caça aos Afeminados espancava dissidentes de gênero pelas ruas do Recife, episódio noticiado pelo Diario de Pernambuco em junho de 1970, aquele elenco de jovens da pastoral subiu em um galpão de colégio católico com uma peça que criticava a Igreja, o machismo e o racismo. A proposta, como resumiu o fundador, era direta.

“Em Vivencial I, nossa primeira montagem, a proposta era ‘seja você mesmo, busque seu eixo, saia de casa, construa, mude o mundo’.” (Guilherme Coelho)

Do galpão ao mangue foi uma década. Em 1978, as vivecas ergueram com as próprias mãos o Vivencial Diversiones, café-concerto de taipa numa comunidade de palafitas sem saneamento, que a imprensa local chamou de “a mais moderna casa noturna do Nordeste” e que recebeu Caetano Veloso de surpresa em maio de 1979. O método do livro aparece bem nessa costura entre época e presente. No capítulo 4, ao falar dos primeiros salários dos integrantes, o texto informa que cada um recebia “cerca de 1.200 cruzeiros por semana (algo em torno de 1.100 reais, ou 275 reais por apresentação, em valores de 2026)”. A conversão é o autor a trabalhar para o leitor de hoje, um recurso que atravessa o volume inteiro. Nele também está a engenharia pedagógica do grupo. Em muitos casos, conta Bastos, o desejo de fazer teatro era tão grande que integrantes que sabiam ler recitavam os textos até que os analfabetos do elenco conseguissem decorá-los. 

O alcance do resgate aparece nos episódios que o livro recupera. A narrativa acompanha Roberto de França, o Pernalonga, do carnaval de 1980, quando foi barrado por homofobia na escola de samba Preto Velho, até a morte em 2000, passando pela Aids e pelo ativismo contra o estigma junto ao Gestos. A biografia completa dele já tinha ganhado livro próprio de Bastos, Pernalonga, uma sinfonia inacabada (2023), e a diferença aqui é de enquadramento, na biografia ele é o sujeito central, no novo livro ele vira fio do coletivo, e a sua ação judicial contra Coelho, os conflitos financeiros e as saídas do elenco aparecem costurados à história do grupo, e não como episódio isolado. Mapeiam-se ainda a travesti Lolita e o bordão que virou chave da boemia do Bairro do Recife, os 13 filmes em Super-8 feitos com Jomard Muniz de Britto, a bailarina Ivonete Melo e a diáspora que abriu casas em Natal e Fortaleza.

Américo Barreto, Henrique Celibi e Pernalonga. Foto: Ana Farache / Divulgação

O livro não analisa os espetáculos do grupo, e não pretende disfarçar a posição de quem o escreveu. O material é narrativo, cronológico, movido por depoimentos, recortes de jornal e documentos, e o autor escolhe os adjetivos que o apresentam. Em suas declarações de lançamento, ele define o Vivencial como “uma das experiências artísticas mais radicais do teatro brasileiro do período”, “grupo vibrante e construído no respeito às diferenças” e “território de contestação e celebração da vida”. O leitor sabe desde a capa que leitura afetiva é o projeto, porque o livro não finge neutralidade.

A leitura analítica do coletivo está publicada em outro lugar. Rodrigo Dourado, professor de Teatro da UFPE e autor da dissertação Vivencial Diversiones, por uma cena transgressora, resume o grupo por outra chave, “o Vivencial era um espaço de gente pobre, preta, de travestis, do ‘povo da lama'”. As dissertações de Mateus Melo dos Santos (UFPE, 2018), sobre as masculinidades e hierarquias internas, e de Maria Eduarda Santos de Oliveira (UERJ, 2024), sobre as opressões vindas também do campo teatral e da esquerda brasileira, completam o quadro. O livro de Bastos cita as duas nas notas, e deixa a análise nelas.

Fora do livro, mas indispensável para o clima que ele reconstitui, está a autoimagem que os sobreviventes produziram sobre si mesmos. A postagem que Henrique Celibi, o órfão da Ilha do Maruim acolhido pelo grupo aos 14 anos, escreveu no Facebook depois da estreia de Puro Lixo, montagem-homenagem ao coletivo, dirigida por Antonio Cadengue e que o Satisfeita, Yolanda? reproduziu em 2017, resume essa visão sem nenhuma auréola.

“Nunca fomos anjos! Muito pelo contrário, não gostávamos das auréolas. Principalmente as feitas com arminhos. Gostávamos mesmo era de sermos demoníacas. Éramos terríveis, as vivecas! Tínhamos a consciência de que éramos nós as ‘Cinderelas’, lindas com o vestido de baile, mas, sem o sapatinho de cristal e sim, com os pés sujos da lama em que a sociedade insistia em afundar-se. (ainda insistem).” (Henrique Celibi)

O fim do grupo também está no livro, e sem maquiagem. É o que ocupa a última parte do capítulo 4, entre as seções A diáspora, A neblina e Para sempre vivecas (p. 145 a 176), com as cissões internas, as disputas financeiras e a ação judicial entre Pernalonga e Coelho narradas junto à reabertura temporária de 1982 e ao fechamento em agosto de 1983. O diagnóstico do fim, em voz do fundador, tinha sido dado antes, em entrevista de 2012.

“Não podia faltar céu para tanta estrela brilhar. Todos eram muito brilhantes, com muito ego. Cada um era uma entidade, todos tinham projetos, e nós demos corda para esses projetos. Sempre poli o ego de todo mundo. O Vivencial nasceu para brilhar.” (Guilherme Coelho)

Pernalonga, Luciana Luciene, Petrônio de Sena e Guilherme Coelho. Acervo Guilherme Coelho

O que o livro escolhe contar, e o que deixa para os outros, dizem muito sobre o tipo de livro que ele é. A base documental central foi cedida pelo próprio fundador, e algumas notas do volume o declaram, é Guilherme Coelho quem entregou para a pesquisa o panfleto da casa, o programa de Notícias tropicais e o manifesto de sete anos que compõem o miolo. O método, como Bastos define, é o da montagem de um quebra-cabeça, “com essa generosidade coletiva, vamos chegando a outras peças. Tenho certeza de que ainda há muito a ser encontrado”. Muitas memórias divergentes dos próprios vivecas, ficaram fora do registro impresso. O arquivo que o livro organiza segue, portanto, a versão do fundador, e essa é uma escolha de fonte que o próprio autor admite quando chama a pesquisa de sempre em construção.

O motivo de publicar agora, o autor também dá. “Me assusta e entristece perceber como, hoje, existe um discurso que minimiza ou mesmo nega as violências da ditadura militar”, disse Bastos na divulgação do lançamento, para emendar a lição do objeto. “Nossa alegria, afinal, é política, e o Vivencial entendeu isso desde o primeiro espetáculo.” A herança que o livro documenta segue em cartaz. Jeison Wallace, que transformou a peça de Celibi no fenômeno Cinderela, a história que sua mãe não contou, em cartaz há 35 anos, diz ao autor como chegou lá. “Jeison Wallace me contou que assistiu a um espetáculo dirigido por Guilherme Coelho e decidiu ser artista. Ou seja, um dos maiores fenômenos do teatro pernambucano é filha direta do Vivencial”. Entre o mosteiro que proibiu a peça e as influências contemporâneas, é dessa linhagem que o livro cuida, e é por ela que o grupo, mais de cinquenta anos depois, ainda pulsa.

SERVIÇO

 

Lançamento de Lantejoulas no mangue, teatro e desbunde do Vivencial, de Márcio Bastos, com bate-papo entre o autor e o editor Schneider Carpeggiani
Quando, hoje, sábado (10), às 14h
Onde, Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco (MAC-PE), Rua Treze de Maio, 149, Carmo, Olinda
Entrada, livre
Preço do livro, físico R$ 69,80, e-book R$ 48,90, à venda em livrarias e no site da Autêntica

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