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“No meu palco vazio existem muitos mortos”

Ikiru - Um réquiem para Pina Bausch. Fotos: Renata Pires/divulgação

Ikiru – Um réquiem para Pina Bausch. Fotos: Renata Pires/divulgação

O bailarino japonês Tadashi Endo nos faz experimentar muitas sensações através da sua dança, do duelo entre a delicadeza e a força das imagens que constrói com o corpo no palco. Tadashi é um dos discípulos de Kazuo Ohno, criador do butoh ao lado de Tatsumi Hijikata. Desde 2002 vem regularmente ao Brasil, principalmente a convite do LUME Teatro, de Campinas. Já fez algumas temporadas pelo país, mas só chegou ao Recife semana passada, para apresentar o espetáculo Ikiru – Um réquiem para Pina Bausch. No solo, Tadashi trata de vida e morte; lembra Pina, Michael Jackson (de quem era fã: “ninguém consegue dançar como ele) e Kazuo Ohno. Dança com os mortos e, mais do que isso, consegue trazê-los de volta – ao menos sentimentalmente. Esta é a primeira parte de uma conversa que Tadashi teve com jornalistas na véspera da sua estreia no Recife, na Caixa Cultural.

Entrevista // TADASHI ENDO – Parte I

Bailarino japonês fez quatro sessões com ingressos esgotados na Caixa Cultural

Bailarino japonês fez quatro sessões com ingressos esgotados na Caixa Cultural

Butoh
Nos anos 1950, o butoh era mais um protesto contra a americanização do teatro e da dança japonesas. E nós fazíamos muito mais happenings. Isso significa que este tipo de manifestação contra alguma coisa não era como dança. Depois, Tatsumi Hijikata, o fundador do butoh, descobriu especialmente o corpo do japonês e a vida do japonês. Se nós dançamos, geralmente toda a educação de dança vem do balé clássico. O exemplo típico é um tipo de beleza, um tipo de luz, suave, mais branca e alta, todas essas direções positivas. O butoh é exatamente o oposto, porque a nossa vida existe muito mais com problemas, é muito mais suja, feia. E é preciso descobrir isso com o nosso corpo; não apenas do lado iluminado, mas também do outro lado, entre os dedos, atrás da orelha, debaixo do queixo, no pescoço. Isso é muito importante para o butoh, especialmente o nosso corpo. A nossa criação de dança começa no nosso corpo e dentro do nosso corpo. Se falamos em espaço, a dança contemporânea usa o espaço através das linhas diagonais, retas, verticais, circulares. Esse espaço para o butoh existe dentro do corpo, entre as costelas, entre os dedos. Esse espaço chamamos de cosmos. Estamos dentro de um grande cosmos, mas isso aqui (aponta para o corpo) é cosmos, é universo. Então a paisagem do corpo pode dançar – e algumas vezes acontecem terremotos e algumas vezes tsunamis, cachoeiras. Tudo isso acontece dentro do corpo. Esse espaço é muito importante e é o ponto principal do butoh.

Teatro ocidental x teatro oriental
Essa distinção é importante, mas temos que pensar em dois pontos diferentes. Um é, por exemplo, se você fala em teatro noh, kabuki, bunraku, que são manifestações tradicionais de teatro e dança do Japão, eles ainda são exóticos para os estrangeiros. Mas o butoh veio do Japão e, especialmente, a dança do butoh é para o corpo japonês. Isso foi no começo. Mas agora mais pessoas fora do Japão dançam butoh – no Brasil, no México, na Argentina, na Europa, na África. As pessoas dançam butoh. Mas no Japão, isso acontece mais ou menos. O butoh não é popular. Se você perguntar aos japoneses sobre o butoh, eles não sabem. O butoh veio do Japão, mas agora as sementes do butoh foram espalhadas em tantos lugares e estão surgindo flores dessas sementes. É claro que não é algo que podemos dizer que é uma dança japonesa apenas. Mas para mim é importante. Eu moro na Alemanha e trabalhei com muitos não-japoneses: europeus, americanos, brasileiros, mas trago o espírito do butoh para eles, não o estilo do butoh. Então desejo o butoh brasileiro. Há dois anos trabalhei em Salvador com um grupo afro-brasileiro. Então era butoh afro-brasileiro. Porque não? Os corpos são diferentes, eles são negros, a energia é diferente. Mas a Bahia não é somente alegria…há outro espírito. Isso é interessante. Mas se as pessoas imitam o butoh japonês, há algo errado. Esse não é o meu desejo.

Tadashi Endo é um dos discípulos de Kazuo Ohno

Tadashi Endo é um dos discípulos de Kazuo Ohno

Trabalho
Eu tive muita sorte de vir para o Brasil e, da primeira vez que fiz o meu solo e dei um workshop, de começar a trabalhar com o LUME Teatro. E eu fiquei muito surpreso porque eu pensei antes de vir ao Brasil, claro que era muito clichê, eu imaginava o Brasil: sol, Copacabana, capoeira, samba, caipirinha, uma terra da felicidade. Mas quando comecei a trabalhar: “oh, eles também tem um lado negro, muito sensível da vida”. Não é só energia. E então descobri que em cada país existe esse tipo de sensibilidade, um pouco, não uma coisa sentimental, mas um lado negro solitário, único. Mas eu não quis fazer butoh japonês com as companhias brasileiras. Quis pegar mais delas, de cada vida diferente, de cada estilo diferente e, depois, vamos todos dançar sobre a base do butoh. Essa é a ideia. Venho para o Brasil desde 2002 quase todos os anos. O Brasil agora é quase a minha segunda casa, mas ainda não consigo falar português. Para mim, o Brasil é um país muito importante. Dependendo do país, se você trabalha no Brasil, México, Europa, você precisa conhecer primeiro o estilo de vida, não o estilo de dança, ou como eles dançam. A dança contemporânea brasileira, ou européia, ou japonesa, é quase a mesma, mas a vida é diferente e, se você entender esse ponto, então você pode colocar o espírito do butoh em diferentes estilos de vida. Por exemplo, o sentimento de tempo. O sentimento de tempo aqui no Brasil é muito diferente. No Japão, por exemplo, o tempo é muito preciso. No Brasil você espera 30 minutos, é algo normal. E o trem chega pontualmente no Japão, na Europa também e aqui no Brasil, se estiver um pouquinho atrasado, você não vê problema. Mas os brasileiros aproveitam a vida muito mais do que um alemão ou japonês, isso é o que eu acho. Porque nós temos que organizar tudo da nossa vida e morrer? Por que não curtir mais? Esse sentimento eu tenho especialmente no Brasil.

Manifestações no Brasil
Mais um ponto que eu quero falar: sobre as manifestações no Brasil. Quando eu estava em Fortaleza, todos os dias eu tinha que me apresentar, mas todos os dias, milhares de pessoas estavam nas ruas e também houve violência. Eu gosto de ver futebol e o Brasil é o principal país do futebol, o futebol brasileiro é tão popular. Mas nesse país vi tantos problemas. Prefiro parar a Copa do Mundo ou a Copa das Confederações e então começar a pensar: o que é realmente importante para nós? Esse ponto inicial podemos achar agora se fizermos mais. Eu tive sentimentos parecidos dois anos atrás quando houve o tsunami e aquela tragédia nuclear em Fukushima, um completo desastre. E o Japão foi o único país que recebeu uma bomba atômica. Porque o governo japonês não parou esse momento todos os reatores nucleares do país? A Alemanha parou. Mas outros países estão criando reatores nucleares novamente. Porque não podemos mudar desde a nossa base? Foi uma grande chance, mas isso não aconteceu. Eu estou muito desapontado, com raiva…Isso não está diretamente conectado com a minha dança do butoh, mas num ponto sim: em todo tempo, você precisa ser radical. Isso para um bailarino de butoh também. Eu crio algo e depois destruo. Nunca estou feliz com a minha peça. Não quero ficar feliz. Quero mais, mais, nunca parar. Do contrário, me torno muito preguiçoso e paro.

Espetáculo homenageia Pina, Michael Jackson e Kazuo Ohno

Espetáculo homenageia Pina, Michael Jackson e Kazuo Ohno

Pina Bausch
Pina Bausch e Kazuo Ohno eram bons amigos. Minha relação com Pina era realmente mais privada. Nunca aprendi com ela a dança-teatro e também nunca segui exatamente o trabalho dela. Mas eu a encontrei algumas vezes em festas e eram festas bem privadas porque as festas eram organizadas por Pina para Kazuo Ohno e quando Kazuo Ohno foi para a Europa, eu estava o tempo inteiro com ele como um assistente. E então nós bebemos juntos, fumamos, ela era uma fumante inveterada, o tempo todo fumando. E o carisma dela era tão maravilhoso; ela era famosa no mundo inteiro, mas nunca se mostrou: “eu sou uma grande bailarina” ou falou sobre outros bailarinos. Não, sempre muito tímida. Mas quando ela viajava, para Turquia, Japão, Israel, para qualquer lugar, em cada país diferente, ela criava diferentes peças. Porque ela me disse, como eu disse agora sobre Brasil, você tem que saber quem mora naquele país e não começar a trabalhar como bailarino. Coloque a vida deles na dança. E por essa razão normalmente quando ela começava, os trabalhos não tinham título, porque como você pode chamar a sua vida no Brasil? Ou no Japão? Eu não sei. A morte de Pina foi um grande choque para mim. E, quatro dias depois, Michael Jackson morreu. Também foi um grande choque. Eu amo Michael Jackson. Eu vi o show dele em Hanôver, num grande estádio de futebol. Fui com minha mulher e meu filho e nós estávamos no campo, em pé, em frente ao palco. Antes do show começar, houve um blecaute. E então uma grande luz. Michael Jackson estava no topo de uma estrutura e estava ventando. Por duas horas fiquei tão fascinado, os movimentos, a voz, a luz, tudo era perfeito. Então nós perdemos nosso filho. Meu filho tinha nove anos e olhei: “oh, droga! Milhares de pessoas. Nós perdemos nosso filho!” Mas, de novo, Michael Jackson, esqueci completamente meu filho. Quando o show terminou, achei um guarda e perguntei se ele tinha visto meu filho. Meu filho naquela época era muito fã de Michael Jackson, dançava um pouco de break, tinha um boné vermelho e luvas brancas. Nós achamos nosso filho. Onde estava meu filho? Ele estava no palco, ao lado do palco e ele estava tão feliz, sorrindo. “Papai, eu vi Michael Jackson a cinco metros de distância”. “Como você veio para o palco? É impossível”. “Dois seguranças, quando teve o blecaute, as pessoas começaram a vir para frente, era perigoso. Então os seguranças me colocaram no palco”. Os seguranças foram embora e meu filho não sabia o que fazer. Ficou o tempo todo no palco! Eu fiquei com tanta inveja! Gosto do Michael Jackson por causa da sua perfeição e uso algumas vezes suas músicas, seu ritmo, mas não posso dançar como Michael Jackson, ninguém pode. Mas eu quero capturar esse sentimento. E em Ikiru, eu queria dizer muito obrigado a Pina Bauch porque você me deu muita energia, e ambição, e coragem. Ela nunca me ensinou, nunca tive uma aula com ela. Mas se você conhece Pina, você entende mais do que técnicas de dança e por essa razão eu queria dizer, obrigado Pina. Mas depois que criei essa peça, também quero agradecer a Kazuo Ohno e a muitos mortos: obrigado Michael Jackson. Muitas pessoas que já morreram me ajudaram. Quando danço, é sempre uma homenagem a muitas pessoas que já morreram, não só Pina Bausch, mas Kazuo Ohno, e também meu irmão mais novo. E se eu sinto que continuo vivo, tenho que me tornar mais forte. Essas pessoas mortas me ajudaram nesse caminho. Claro que o público é importante, mas normalmente quando danço, no palco, tudo é vazio. Mas porque danço? Por causa do sentimento, da alma. Do contrário, meu movimento de dança é só técnica, movimentos técnicos. No meu palco vazio existem muitos mortos. E isso é o que eu sinto especialmente em Ikiru.

Demonstração de trabalho – No sábado, para uma plateia de bailarinos, atores, diretores, professores e jornalistas, Tadashi Endo fez uma demonstração de trabalho. Gravamos um trechinho:

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Universo de Antunes Filho no Sesc TV

Antunes Filho no Recife, em 2009. Foto Marcelo Lyra

No aniversário dos seus 80 anos – e 60 anos de teatro – , em 2009, Antunes Filho deu um grande presente ao Recife. Fez a estreia nacional de Vapt-vupt: A falecida e ganhou uma série de homenagens com ciclo de palestras, exposição, oficina, exibição do único filme dirigido pelo diretor, Compasso de Espera (1970), além de apresentação dos espetáculos Foi Carmen e três Prêt-à-Porter (Estrela da manhã, Bibelô de estrada, O poente do sol nascente).

O programa O Universo de Antunes Filho, foi um evento criado e produzido pela atriz e produtora Simone Figueiredo, da Ilusionistas Corporação Artística, e realizado entre 21 e 29 de março 2009, nos teatros de Santa Isabel, Hermilo e Armazém, além da Torre Malakoff.

À época o encenador paulista comentou surpreso com as celebrações. “Vim ao Recife para a estreia nacional da peça Vapt-vupt: A falecida, uma adaptação do texto de Nelson Rodrigues, e quando chego, me deparo com tudo isso”, falou. “Estou muito grato e sensibilizado”. Ele também disse que a lição mais importante em seis décadas de teatro foi o autoconhecimento. “O teatro me obrigou a fazer uma reflexão constante sobre mim mesmo, a entender que tenho que amar a vida e continuar sendo feliz”, contou.

Para quem já está com saudades do trabalho de Antunes ou para quem ainda não conhece um boa oportunidade é conferir a partir de amanhã uma programação especial que o Sesc TV exibe para celebrar um dos diretores fundamentais do teatro brasileiro.

Espetáculo Foi Carmen é exibido amanhã pelo Sesc TV

Foi Carmen, Policarpo Quaresma e Lamartine Babo são as três peças filmadas e podem iluminar as escolhas estéticas do criador do CPT (Centro de Pesquisas Teatrais), que faz suas experimentações na unidade do Sesc Consolação. Os programas, que serão apresentados amanhã e nos próximos domingos, vem com comentários e análises de Antunes Filho sobre o processo de encenação.

A poética concebida pelo diretor sobre o imaginário popular a respeito de Carmen Miranda inicia hoje a faixa Especial. Idealizado para comemorar o centenário de Kazuo Ohno ((1903 – 2010), mestre do butô, o espetáculo estreou no Japão, em 2005.

Antunes Filho dá um precioso testemunho sobre o mestre japonês. “Em Foi Carmen, eu faço um estudo sobre o tempo, do tempo largo oriental. Fiz o espetáculo, que é considerado um dos melhores da minha trajetória, em 25 dias. É uma homenagem a Kazuo Ohno, mestre espiritual da minha obra”, revela Antunes. A encenação também pretende estimular a reflexão sobre o fetichismo e os estereótipos.

Atriz vestida de colegial e adereço na cabeça à la Carmen Miranda, com o coro de velhas/gueixas ao fundo. Foto: Divulgação

Os tempos “oriental” e “ocidental” se entrelaçam na narrativa já nos primeiros momentos. Transpira de beleza a relação de uma atriz vestida de colegial com o universo musical de Carmen Miranda (1887 – 1938), sob o olhar de um coro de gueixas, representadas por três velhas.

O ator goiano Lee Taylor revelado por Antunes (que estreou profissionalmente em 2006, como Quaderna, protagonista da versão da obra de Ariano Suassuna, A Pedra do Reino),celebra o criador japonês. E faz um diálogo entre Carmen e a bailarina argentina Antonia Mercé y Luque (1890 -1936).

Próximas semanas

Com texto de Antunes Filho e direção de Emerson Danesi, o musical dramático Lamartine Babo é a atração do próximo domingo, dia 15. A montagem narra acontecimentos que se passam no ensaio das canções do compositor – rei das marchinhas cariocas e hinos de times de futebol (Flamengo), quando uma banda recebe a misteriosa visita de um senhor e sua sobrinha, que parecem vindos de outra época. É nesse ponto que a encenação flerta com o universo do dramaturgo Luigi Pirandello (1867 – 1936).

O herói ingênuo de Lima Barreto (1881-1922) é o protagonista da última peça dessa trilogia filmada. No dia 22 é a vez de Policarpo Quaresma (2010). “É um personagem que tem a estatura de Macunaíma e Riobaldo”, já disse Antunes com relação ao personagem central do clássico Triste Fim de Policarpo Quaresma. Quaresma é uma figura pacata que tem arroubos nacionalistas. Para engrandecer o Brasil faz inúmeras ações, como aprender tupi, mas se desencanta com o país.

SERVIÇO

Amanhã, Foi Carmem.
Dia 15, Lamartine Babo.
Dia 22, Policarpo Quaresma.
Sempre às 21h (horário de verão) 22h (horário de Brasília
No canal Sesc TV (Sky, Net, Oi TV e GVT).
Para sintonizar o SescTV
Canal 3, da Sky
Nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro
Canal 137, da NET Digital
Canal 28, da Oi TV
Canal 228, da GVT
Em outras cidades consulte: www.sesctv.org.br

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