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Um corpo sem rosto no meio do terreiro
Crítica: Underground
Por Ivana Moura

@kaeriz

Romain Bertet enterra a cabeça no chão de Caruaru em performance intrigante. Foto: Kari Carvalho 

Quando a plateia chega, o artista Romain Bertet já está deitado de bruços, com a cabeça afundada na terra. O que podemos ver é um corpo incompleto, ombros, tronco, pernas, uma silhueta que a paisagem poderia confundir com um tronco caído, um saco, um animal adormecido. Durante alguns instantes, nada acontece. Aparentemente. É assim que começa Underground, da Compagnie L’Œil Ivre, da França..

Depois, o corpo passa a se movimentar. Pequenos abalos, contrações de ombro, um pé que se ergue. O espectador acompanha esse despertar sem saber de onde vem o estímulo. O tronco se ergue, sobe, se verticaliza, e o que era corpo caído passa a ser uma coluna sem topo.

As vozes vêm de um lugar não identificável. Saem do chão, difundidas por caixas enterradas, e chegam misturadas: fragmentos de conversa, frase de rádio, restos de canção, uma palavra repetida. O texto é de Samuel Gallet, e o desenho sonoro de Éric Petit constrói o “subsolo acústico”, a matéria sonora. No Festival de Teatro do Agreste (FETEAG), a essas camadas se somou a voz de Arary Marrocos, que entrou no tecido sonoro francês falando de dentro da terra de Caruaru.

O corpo então começa a descer. Não sai do buraco, afunda nele. Ombros, peito, cintura, coxas, pés, cada parte desaparece numa ordem que o espectador acompanha com inquietação e desconforto. Quando o último sinal do corpo some, resta um buraco no chão. E então o suposto Bertet reaparece por trás da plateia, carregando uma muda de árvore, e a planta no lugar exato onde estava sua cabeça.

Romain Bertet é francês, radicado em Toulon, onde fundou em 2015 a companhia L’Œil ivre. Antes de dançar, foi pesquisador em física, sociologia, história e antropologia, e essa formação permanece visível no modo como trata o corpo, como material a ser investigado.

Artista faz torções no corpo com a cabeça enfiada na terra. Foto: Kari Carvalho

Uma sociedade que organiza o visível pela legibilidade dos rostos, com documentos, cadastros, reconhecimento facial, perfis e identificação biométrica, recebe um trabalho que subtrai o seu principal instrumento de controle. O rosto é a interface obrigatória entre o sujeito e o Estado, entre a pessoa e o crédito, entre o cidadão e o algoritmo. Ao enterrá-lo, Bertet desativa temporariamente o dispositivo de identificação. E com isso provoca uma série de questionamentos.

É uma operação de baixa tecnologia contra uma sociedade de alta verificação. E a imagem incomoda mais do que comove.

No FETEAG, a peça foi apresentada no fim da tarde dos dias 30 e 31 de outubro, no Anexo Lycio Neves, Espaço de Arte, em Caruaru, um terreno de terra batida, de um passado de casa, com paredes que carregam as marcas do tempo. É um lugar que já tem sua própria história material inscrita nas superfícies, e o corpo do artista entrou nessa história como mais uma camada.

A dramaturgia traça uma inversão. Bertet abandona a verticalidade ascensional da dança ocidental, o salto, a elevação, o corpo que vence a gravidade, para se obrigar a descer. 

Plateia acompanha apresentação no Anexo Lycio Neves, Espaço de Arte, em Caruaru. Foto: Kari Carvalho

O teatro tem suas próprias histórias de aterramento. Em Dias Felizes, de 1961, Samuel Beckett enterra Winnie até a cintura no primeiro ato e até o pescoço no segundo. O corpo reduzido é a condição para que a fala continue. Winnie fala porque não pode se mover, e a palavra é o que resta quando o corpo perde função.

Mas há uma diferença decisiva. Em Dias Felizes, o que a peça mede é a resistência da fala ao confinamento. Bertet não fala de dentro da terra, não transforma o enterramento em discurso, não espera que a palavra salve o corpo. O que ele faz é encontrar a posição em que a terra o deixa existir. O corpo não vence o chão, ele encontra o ponto em que o chão passa por cima. Em Beckett, a palavra; em Bertet, a própria condição de ser visto.

O que Romain Bertet faz é mudar o eixo da dança como disciplina de elevação. A dança ocidental, do balé clássico à vertigem contemporânea, é uma arte que aposta no alto, no salto, no suspenso, no corpo que nega o peso. Bertet propõe uma dança do fundo, e o corpo que dança de cabeça para baixo não está caindo, está ocupando outro estrato.

O que Underground efetivamente inverte é a economia da atenção. Numa cultura que exige o rosto como condição de existência pública, um corpo sem rosto que se mantém em cena por trinta minutos e obriga o olhar a permanecer realiza a desativação temporária do regime de verificação que transforma rostos em identidades administráveis.

Foto: Kari Carvalho

Foto: Kari Carvalho

Foto: Kari Carvalho

Foto: Kari Carvalho

Foto: Kari Carvalho

O corpo de Bertet está em risco real. Isso é a condição material da obra. A peça só existe porque um homem aceita permanecer enterrado, sem visão, por meia hora, diante de um público.

O risco aqui não é acidente nem sofrimento. Bertet se coloca numa posição da qual não pode sair sozinho, e é dessa impossibilidade que a peça extrai sua força. O corpo não representa o limite, ele é o limite, exibido em tempo real.

Esse risco produz um efeito ambíguo. Por um lado, a resistência física é o que dá à imagem sua densidade. É carne, peso, esforço, tempo. O espectador não assiste a uma ideia sobre o enterramento, assiste a um enterramento.

Por outro lado, o sofrimento controlado do performer é uma das economias mais antigas das artes cênicas no Ocidente. Do martírio barroco, onde o corpo do santo exibe a dor como prova de fé, ao body art dos anos 1970 em diante, quando artistas como Marina Abramović transformaram o próprio corpo em suporte e o limite físico em material, a cultura ocidental aprendeu a consumir resistência. Quando Abramović sangra, o corpo é a obra. Quando Bertet se enterra, o corpo também é a obra.

Mas há uma diferença. No body art, o corpo é o alvo, e a obra consiste em submetê-lo a uma ação externa, corte, queimadura, exaustão, e medir sua resposta. Em Underground, o corpo é instrumento de escavação. Bertet não se enterra para sofrer, ele se enterra para ver de outro lugar. O corpo é o que permite a operação. O sofrimento é efeito colateral, não finalidade.

Essa distinção separa Underground da linhagem do sacrifício. O performer é um corpo que se colocou onde ninguém se coloca, e que agora precisa sustentar essa escolha diante de nós.

O performer não sai do buraco triunfante. Ele desaparece, e reaparece por trás da plateia, com uma muda de árvore, plantando-a onde estava sua cova.

É aqui que Underground propõe algo que a tradição do corpo sacrificial não propõe. Não há retorno do herói, não há ressurreição, não há catarse. Há substituição de ocupante. O corpo humano sai de cena e outro corpo, vegetal, sem rosto, sem fala, sem público, assume o lugar.

O que a peça revela nesse percurso é que a visibilidade é o que prende o corpo à superfície. O rosto é o que nos mantém no alto, no mundo dos cadastros, das imagens, das trocas, das identidades verificáveis. Enterrá-lo é uma forma de acessar o estrato onde as coisas não têm nome, a terra, a raiz, o resto, o que não é sujeito.

E o desfecho confirma uma desocupação. Ele devolve o lugar ao que estava ali antes dele. Isso reposiciona toda a peça. O que parecia uma investigação sobre a morte, o enterramento, a cova, o desaparecimento, revela-se uma investigação sobre a economia da presença. Quem tem direito a ocupar o chão? Quem tem direito a ser visto? Quem permanece quando a plateia vai embora?

Ficha técnica

Concepção, coreografia e interpretação: Romain Bertet
Texto: Samuel Gallet
Colaboração dramatúrgica: Vivianne Balsiger
Criação sonora e regência: Éric Petit
Olhar externo: Max Fossati (versão 2020)
Companhia: L’Œil ivre (Toulon, 2015; hoje implantada na Bélgica)
Coprodução: ZEF scène nationale (Marselha), La Maison – CDCN Uzès Gard Occitanie
Criação: junho de 2020, Châteauvallon-Liberté; solo in situ, 30 a 35 min, ao ar livre
Colaboração artística: Arary Marrocos (versão FETEAG)
Duração: aproximadamente 30 minutos
Classificação: 16 anos
Apresentações: 30 e 31 de outubro de 2026, fim da tarde, no Anexo Lycio Neves, Espaço de Arte, Caruaru, dentro do Festival de Teatro do Agreste (FETEAG)
Fotografias: Kari Carvalho (versão FETEAG)

 


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