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Transborda integra o Cena Expandida

Transborda encerra com apresentação do Barbarize e Mun-há. Foto: Divulgação

Fabiana Pirro apresentou Cara de Pau. Foto: Divulgação

Coletiva fez performances no centro do Recife e Morro da Conceição. Foto: Divulgação

O Transborda surgiu da urgência de trazer uma ação integrada entre as unidades do Sesc Pernambuco, promovendo um diálogo efetivo sobre questões que vazam a cena, sinaliza Ariele Mendes, técnica de Artes Cênicas do Sesc-PE e uma das curadoras do programa. O projeto está estruturado em três eixos: acessibilidade, mediação e sustentabilidade. Só na cidade do Recife são desenvolvidas duas edições do Transborda, e cada uma delas, com recortes bem diferenciados e característicos.

Neste ano, o Transborda integrou três Unidades do Sesc: Piedade, Casa Amarela e Santo Amaro. Em Jaboatão (Sesc Piedade), a ação ocorreu de 28 de agosto a 03 de setembro, e promoveu um forte diálogo com a Colônia de pescadoras de Barra de Jangada e com espaços culturais independentes, lançando um olhar sobre as águas e os elementos naturais da cidade. Tudo isto pelo viés da dança, performance e música.

As ações que integram o Cena Expandida foram tocadas pelo Transborda de Casa Amarela e Santo Amaro. Em Casa Amarela, o recorte temático escolhidos foi Altos e Baixos. Entre 5 e 11 de setembro foram realizadas intervenções, performances e espetáculos nas praças, ruas e centros culturais. Entre as atrações da programação participaram as Violetas da Aurora, que ocuparam a Praça do Sebo, a Coletiva, com performances na Rua Nova, Praça do Diário e Morro da Conceição e A Escola Pernambucana de Circo, que se apresentou no Centro Social Dom João da Costa. No dia 10 o projeto chegou ao Centro de Educação e Cultura Daruê Malungo, com apresentações de Fabiana Pirro (com o espetáculo Cara de Pau), a Ciranda Sant’anna e o Bloco Afro Daruê Malungo. E também no Daruê, o Coletivo D(Elas) em Cena realiza a performance O que você deseja?

Cavalo, da Qualquer um dos dois, de Petrolina. Foto: Divulgação

Já em Santo Amaro as ações se instalaram a partir das premissas: ancestralidade, corpo e território. Na programação, já foram exibidos Cavalo, da Qualquer um dos dois, de Petrolina, e Ser Rizoma, de Lane Luna Luz. A Praça do Campo Santo recebeu uma programação intensa, com apresentações de Lippe Dj, do Afoxé Afefé Lagbará, Bione e o espetáculo Deslenhar do Coletivo Miçanga.

Também passaram pela programação Na Bagagem Poesia e O Dia em que a Morte Sambou.

Grupo Totem mostrou seu trabalho mais recente, ITAÊOTÁ. Foto Divulgação

O Grupo Totem exibiu ITAÊOTÁ, com encenação de Fred Nascimento, trabalho conduzido pelo conceito de descolonização, tendo como referência os modos de resistir e existir de povos indígenas e africanos, para a construção de um futuro ancestral. Em ITAÊOTÁ, a ideia é mostrar uma maior comunhão, chamando as pessoas para a autoresponsabilidade em relação ao momento difícil que vivemos, propor esta mudança prática entre todas as nossas relações.

O Transborda finaliza neste sábado, em festa, com o Baile Barbarize e performance de Mun-há.

Vale ressaltar que esta programação é fruto celebrativo de relações que são construídas pelas equipes do Sesc e suas lideranças (em Piedade de Isis Agra, em Casa Amarela, Breno Fittipaldi e em Santo Amaro, Ailma Andrade) com espaços e coletivos no decorrer do ano.

 Neste ano o Transborda integra o projeto Hub PE Criativo, uma realização do Sesc e Sebrae em Pernambuco. Este projeto conduz ações disparadoras de processos junto a sete territórios de atuação (Recife, Goiana, Jaboatão dos Guararapes, Arcoverde, Petrolina, Triunfo e Garanhuns), e visa estimular ações que desencadeiem formação e fomento para a cadeia produtiva da cultura. 

Entrevista: Ariele Mendes – técnica de Artes Cênicas do Sesc-PE

Ariele Mendes é técnica de Artes cênica do Sesc. Foto: Divulgação

– Quais as características específicas do Transborda? Pergunto isso porque o Sesc-PE tem vários festivais. E no Recife e em Pernambuco também existe uma fartura nesse quesito. 

O Transborda surgiu da urgência de trazer uma ação integrada entre as unidades do Sesc Pernambuco, promovendo um diálogo efetivo sobre questões que transbordam a cena. Para além de abordagens estéticas, mas também sobre elas. O encontro entre os supervisores de cada território friccionava os temas urgentes para discussão, tomando como base as territorialidades de cada unidade envolvida. Este é um projeto feito a várias mãos, que conta em sua natureza, desde o princípio, com discussões coletivas, mas sempre priorizando respeitar a identidade de cada território. 

Não tardou para se chegar nas perguntas latentes que atravessam o fazer artístico: Qual a dimensão da cadeia produtiva da cultura? Quais os possíveis caminhos para a sustentabilidade do artista? Como fortalecer as redes, pontos de cultura e as articulações comunitárias a partir da ação deste projeto? Como buscar formas mais assertivas de chegar ao nosso público? 

Hoje o projeto se estrutura em três eixos basilares de abordagem: acessibilidade, mediação e sustentabilidade. 

Para efetivar estes pilares, foram desenvolvidas, junto às Unidades, um profundo estudo sobre os territórios, investigando fatores como os pontos de cultura e coletivos artísticos existentes nas cidades. Também foi feita uma pesquisa com os agentes culturais para mapear seus contextos e as percepções que tinham sobre seu próprio fazer, além de efetivar uma profunda busca sobre a territorialidade de cada lugar em que o projeto era desenvolvido. 

Assim, o diferencial do Transborda, as linguagens da cena é exatamente o seu escopo estrutural: a busca para o fortalecimento do trabalho de redes internas e externas ao Sesc, as perguntas motoras que o estimulam e a organicidade com que este processo é desenvolvido. Trata-se de uma ação que traz o artista para a cena, mas também o convida a pensar junto sobre a sua trajetória pelo viés dos meios de produção que o levaram àquele lugar. 

– Quais as motivações do Sesc em realizar esse Festival? 

Entendemos que o Transborda, mais do que um Festival, se trata de um movimento, uma pesquisa contínua. Os recortes curatoriais são flutuantes, se renovam a cada instante. 

Na pandemia foi necessário se reinventar, buscar estratégias, continuar o diálogo com os fazedores da cultura, para resistir e seguir existindo.

Hoje, mais do que nunca, sintonizar no radar os possíveis caminhos que tragam respostas para as perguntas propulsoras do projeto seguem urgentes. E em cada território, novas inquietações e disparadores surgirão a cada ano. E assim será a cada edição. Trata-se de um movimento contínuo e constante, que precisa de estruturação. 

Longe de mim achar que temos respostas prontas, e que bastamos para solucionar uma questão tão intrigante que é a incessante busca pela sustentabilidade da cadeia produtiva da Cultura. Somos uma pequena parte de algo muito grande e diversificado – isto fica claro, por exemplo, quando percebemos que só na cidade de Recife desenvolvemos duas edições do Transborda, e cada uma delas, com recortes bem diferenciados e característicos –

mas nosso papel é de propor ações, instigar reflexões, mediar processos e garantir o acesso e a diversidade em nossas programações. As mudanças só serão consolidadas a partir da inteiração e atravessamento de cada agente deste ecossistema, se percebendo parte de um todo e expandindo sua atuação de maneira consciente na mobilização e articulação de cada iniciativa, para buscar possibilidades junto ao poder público, às instituições e à sociedade civil.

 – Qual a posição do Transborda no mapa da cidade (e do país) no que se refere à formação de público, a balançar as estruturas, a honrar a tradição nas artes cênicas ou traçar pontes com o contemporâneo? 

Neste ano o Transborda integra o projeto Hub PE Criativo, uma realização do Sesc e Sebrae em Pernambuco. Este projeto conduz ações disparadoras de processos junto a sete territórios de atuação (Recife, Goiana, Jaboatão dos Guararapes, Arcoverde, Petrolina, Triunfo e Garanhuns), e visa estimular ações que desencadeiem formação e fomento para a cadeia produtiva da cultura. Esta iniciativa busca estratégias para a sustentabilidade dos agentes culturais durante todo o ano, e surge com muita força junto ao Transborda, por instigar processos de reflexões e inquietações que já se faziam presentes, mas agora ganham uma perspectiva concreta. 

As ações desenvolvidas em setembro dizem respeito ao período do Festival Transborda, onde realizamos apresentações e oficinas, mas as atividades do Hub PE Criativo seguem até 2023, com feiras, roteiros de turismo criativo, formações artísticas e de empreendedorismo, palestras, desfile e exposições artísticas. O público-alvo passa a ser, além da comunidade, os agentes do setor cultural e da rede de serviços ligado a ele (hotelaria, transporte, turismo, alimentação, etc.), visando o mapeamento e a qualificação profissional numa perspectiva ampliada, considerando a cena, o festival e os desdobramentos de impacto da ação que transbordam a cena. 

A sustentabilidade é um fator que sempre foi uma questão para o setor cultural. É de extrema importância nos questionarmos sobre caminhos possíveis e lançarmos a provocação para artistas e a sociedade civil sobre a importância da cultura na estruturação do país, tanto do ponto de vista simbólico e educativo, quanto sobre o fator econômico, pois o movimento que geramos vai além de impactos diretos, reverberando e fortalecendo outros setores da economia também.  

 – Quais as estratégias do Sesc para as artes da cena do Recife e de Pernambuco? O que é prioritário e urgente? 

O Sesc Pernambuco é uma Instituição referência na formação, fruição fomento e difusão das artes cênicas. Projetos como as Escolas Sesc de Teatro e Dança garantem uma ação sistemática de sensibilização e experimentação artística, impulsionando o surgimento de novos artistas/coletivos em todo o estado. Já os projetos especiais, como as Aldeias, o Transborda, as mostras de artes, movimentam a cadeia produtiva, promovem encontros, intercâmbios e parcerias. Particularmente, em minha trajetória, fui uma das pessoas impactadas diretamente pela ação do Sesc a partir dos anos 2001, quando iniciei meus estudos em teatro na Unidade do Sesc de Piedade. Lá pude experienciar processos nos cursos livres, no Curso de Interpretação para Teatro (CIT), no Núcleo de pesquisa e no Grupo artístico. Também Piedade foi meu campo de estágio, e onde me formei gestora, participando ativamente das produções e curadorias de projetos como Aldeia Yapoatan, Congresso Internacional Sesc de Arte/Educação, Mostra Na Onda da Dança, Projetos Aplausos, Mostra de Formas Animadas, entres muitas outras iniciativas. Por isto, compreendo que é preciso olhar sempre com muito carinho e respeito a história do que já foi construído, fortalecendo toda a tecitura que estrutura estas ações e trabalhar a partir delas, com proposições que visem atender as necessidades de hoje. 

Atualmente, o Sesc Pernambuco possui 24 Unidades Operacionais localizadas em todo o estado. Destas, 17 atuam com ações de artes cênicas, sendo 10 delas sedes da escola sistemática de teatro, 9 de dança e 1 com o viés de circo social que está prevista para iniciar suas atividades no 2° semestre de 2022. O que posso dizer é que a diversidade é a nossa grande potência e também um desafio. O respeito aos territórios deve estar sempre na ponta da lança de nossa ação. Para isto, é necessário o mapeamento e diálogo contínuo com a comunidade, com a classe artística e com os espaços e agentes culturais/sociais, para a partir deles, entender qual será o formato e as linhas de ações propostas para cada cidade/localidade. Mas existem diretrizes que acredito que precisamos fortalecer em todos os espaços: 

– Um olhar pedagógico: toda ação de cultura é formação, ainda que em formato de fruição. Durante todo o ano, as atividades desenvolvidas devem dialogar umas com as outras, em um processo de retroalimentação continuado. Em algumas Unidades, isto já acontece de maneira muito orgânica, e faz toda diferença. Em outras, é preciso estruturar mais este direcionamento. 

– Percebo a urgente necessidade de considerar com mais amplitude o espaço da linguagem de circo em todo regional. Temos uma presença majoritária da dança e do teatro em nossas programações, o que entendo ser natural, tendo em vista que temos as escolas consolidadas há bastante tempo. Sei que existem muitas especificidades, tanto técnicas, de estrutura, quanto a realidade dos circos tradicionais, que possuem características bem próprias, mas percebo a necessidade de um diálogo aberto, reconhecendo que precisamos nos adaptar, buscar estratégias mais acessíveis para ampliar oportunidades. 

– O Sesc também é um importante agente cultural, com quadro técnico especializado, com pesquisas e experimentações aprofundadas. Olho para nosso corpo de professores e supervisores, para os alunos/atores/bailarinos que fazem parte ou passaram pelo Sesc, e enxergo o quanto promovemos iniciativas importantes e quanto temos pessoas dedicadas, competentes e comprometidas. Cada processo desenvolvido em sala de aula tem uma importância fundamental, inclusive, para realimentar a classe cultural das cidades. Temos trabalhos de bastante qualidade e relevância. Fortalecer essa rede, promovendo encontros e intercâmbios entre as Unidades é uma diretriz que propomos porque sei o quanto essas trocas instigam e inspiram, reoxigenando as ações diárias. Também ressalto o processo de coletivos artísticos que se formam, oriundos destas experiências e que, com o tempo, se tornaram independentes e tem grande representatividade e atuação em suas cidades. Digo isto pois acredito que esta diretriz não diz respeito apenas ao Sesc, mas ao surgimento de novos coletivos. 

– Penso que as nossas programações devem focar, de maneira prioritária, nas produções locais, promovendo um encontro entre os coletivos, estimulando o setor das regiões e valorizando as produções, por exemplo, do interior, onde encontramos obras de bastante qualidade. No entanto, não pretendemos fechar as portas para as produções oriundas de outros lugares. Estas virão para dialogar, trocar, aprender e ensinar, mas precisam fazer sentido nos contextos em que irão atuar. Reconhecemos sua extrema importância para trazer provocações, inspirar e desestruturar possíveis paradigmas. 

Por fim, entendo que políticas estruturantes precisam de tempo para maturar e se efetivar. Cada passo, cada provocação, talvez só reverbere daqui há anos… É preciso paciência para alimentar diariamente o processo e muita humildade para ouvir e aprender. Para conduzir processos, é necessário escuta e observação, para então, mediar, colaborar e propor. 

 – Neste ano, com previsão para os seguintes, o Transborda integra a Cena Expandida com mais quatro festivais. O que as artes da cena (e seu público) da cidade do Recife do Recife e de Pernambuco ganham com essa ação? 

A inserção do Transborda na Cena Expandida faz todo sentido para a ação do projeto, pois se trata de uma articulação entre festivais que buscaram trabalhar em rede para se fortalecer, tal qual foi o primeiro estímulo para o surgimento do Transborda, mas em instâncias institucionais. 

O público terá acesso no mês de setembro à uma vasta programação, organizada de maneira estratégica para que seja possível acompanhá-la de forma mais integral possível, pois as datas e horários foram pensados, evitando o choque entre as programações. Também, pela diversidade de contextos e perfis de cada festival, chegamos a públicos variados: conseguimos trazer a produção local, dar espaços de compartilhamento para os experimentos cênicos desenvolvidos pelas escolas de artes, contamos com programações de projeção nacional e internacional, evidenciamos a rica produção desenvolvida pelos grupos do interior do estado e oportunizamos processos de residências e experimentos a partir de mediadores de renome nacional e internacional. O Cena Expandida é um presente para o público, para os artistas e todos aqueles que compõe o organismo vivo da Cultura. 

– Qual a pergunta que não quer calar? Tem resposta? 

Como podemos multiplicar iniciativas como esta, articulando ações em cadeia, como forma de resistência e cumplicidade? A resposta não possa dar sozinha. Precisamos estar juntos na caminhada, traçando novas rotas, nos organizando de maneira estratégica para seguir em frente, articulando o discurso em conjunto, sem perder nossa essência e identidade.

 

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