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Uma ópera de mulheres
Suor Angélica, de Puccini,
no Teatro de Santa Isabel

Karla Karolla interpreta Angélica. Foto: Daniel Marcelino / Divulgação

Yane Ramalho interpreta Angélica. Foto: Daniel Marcelino / Divulgação

Giacomo Puccini compôs Suor Angélica em 1918 como o painel central de Il Trittico, tríptico que se completa com Il Tabarro (O Manto) e Gianni Schicchi. Das três óperas, somente Suor Angélica reúne elenco exclusivamente feminino. A história acompanha a protagonista, jovem solteira de família nobre que engravidou e foi abandonada. A família a trancou para esconder a gravidez.

A ação se passa num convento italiano do século XVII, onde Angélica cumpre sete anos de silêncio e penitência, cercada por outras freiras que tentam aliviar a rotina com pequenas celebrações. A chegada da tia, a Princesa, rompe o equilíbrio. A visita não traz perdão, traz um documento, a renúncia à herança que Angélica precisa assinar. Ao perguntar pelo filho, descobre que a criança morreu dois anos antes. A notícia a derruba. A ária Senza mamma explode como um grito contido, e a noite termina em tragédia e transcendência.

O autor viveu como homem do seu tempo. Hedonista, apaixonado por caça, carros velozes e viagens, nunca se posicionou publicamente sobre os direitos das mulheres. A biografia não sustenta a imagem de um feminista. A vida amorosa começou com um escândalo. Em Lucca, ele conheceu Elvira Bonturi, casada com o comerciante Narciso Gemignani. Os dois se apaixonaram, Elvira engravidou, e a solução encontrada foi fugir para Milão, onde viveram juntos sem casamento até a morte do marido, em 1904, quando finalmente se casaram. A união durou a vida inteira, mas nunca foi tranquila. Elvira era ciumenta e possessiva, e Puccini colecionava casos ao longo dos anos.

O episódio mais sombrio envolve Doria Manfredi, jovem empregada da casa que a esposa acusou de seduzir o compositor. Doria se envenenou, e o exame do corpo revelou que ela permanecera virgem. A família de Doria processou Elvira por difamação, e ela foi condenada. Puccini pagou indenização à família, e a tragédia o marcou para sempre.

A distância entre o homem e o artista se revela na partitura. Poucos compositores levaram tantas mulheres ao centro absoluto do palco. Mimi (La Bohème), Tosca (Tosca), Cio-Cio-San (Madama Butterfly), Manon (Manon Lescaut), Minnie (La fanciulla del West), Liu (Turandot), Angélica (Suor Angélica). Costureiras, cantoras, gueixas, servas, freiras. Mulheres pobres, marginalizadas, esmagadas por estruturas sociais. Puccini deu a elas a música mais bela que escreveu, e essa generosidade musical contrasta com o destino que lhes reserva. Quase todas morrem no palco, e a crítica feminista apontou a contradição. Catherine Clément, filósofa francesa, dedicou um livro inteiro ao tema em 1979, A Ópera ou a Derrota das Mulheres, mostrando como o gênero lírico desfaz suas heroínas. O sofrimento feminino vira espetáculo, e a morte ganha uma beleza que a torna aceitável. Suor Angélica ocupa o centro desse debate, e de um modo particular, é a única ópera do repertório lírico sem nenhum personagem masculino em cena.

O destino que ele reservou a essas mulheres alimentou a crítica mais severa contra o compositor. O biógrafo Mosco Carner chegou a acusá-lo de punir as heroínas com prazer sado-masoquista em Puccini, A Critical Biography (Puccini, Uma Biografia Crítica). Uma olhada atenta nessas mortes revela um quadro mais complexo. Apenas uma heroína morre diretamente pelas mãos de um homem, Giorgetta, de Il Tabarro. Minnie, de La fanciulla del West, sobrevive e caminha para uma vida melhor ao final. A maioria dos suicídios, como o de Cio-Cio-San, de Madama Butterfly, vem de abandono e traição.

Já a musicóloga britânica Alexandra Wilson, autora de The Puccini Problem (O Problema Puccini), rebate a leitura que transforma o compositor em misógino. A defesa dela se apoia em dois argumentos. O primeiro lê Madama Butterfly como conto de advertência, a simpatia do autor e da plateia está com Cio-Cio-San, a jovem japonesa que se casa com um oficial americano e é abandonada por ele, e não com Pinkerton, o oficial que a trai. O segundo destaca a técnica dramática, Puccini desacelera o tempo para fazer a plateia esperar junto com a heroína, e o desconforto é intencional. Para Wilson, abordar um tema angustiante não é endossá-lo. A crítica de Catherine Clément permanece de pé, mas a obra não se reduz a ela.

Equipe do espetáculo de ópera Suor Angélica. Foto: Divulgação

Na versão recifense, o elenco mantém a formação exclusivamente feminina e insere uma narradora para aproximar a história do público de hoje. Karla Karolla e Yane Ramalho se revezam no papel de Angélica. A regência de Hadassa Rossiter, a direção cênica de Rose Mary Martins, o piano de Andréia Rocha e a preparação corporal de Taciana Gomes formam uma cadeia de mulheres que conduz o espetáculo desde a concepção. A escolha de produção funciona como leitura de obra.

O projeto parte de um desejo antigo de Karla Karolla, também coordenadora geral. Cantora lírica e atriz, ela queria montar uma ópera que levasse uma grande obra do repertório ao público e, ao mesmo tempo, valorizasse quem produz e faz ópera em Pernambuco, especialmente as mulheres. A obra de Puccini é intensa, com escrita musical belíssima e história construída inteiramente a partir de personagens femininas. A montagem coloca em evidência a presença, o trabalho e a resistência das mulheres da cena lírica recifense.

A entrada gratuita, com ingressos distribuídos uma hora antes de cada sessão, abre o Santa Isabel para quem normalmente não chega à ópera. No dia 25, às 16h, o ensaio geral recebe estudantes da rede pública e termina em roda de conversa com a direção. Suor Angélica revisita o passado para ampliar um coro que ainda precisa de voz. E pede escuta.

Ficha técnica

Realização: 2K Produções
Direção musical e regência: Hadassa Rossiter
Direção cênica e concepção cênica: Rose Mary Martins
Direção executiva: Sebastiana Gomes
Coordenação geral: Karla Karolla
Pianista: Andréia Rocha
Preparadora corporal: Taciana Gomes
Protagonistas de Suor Angélica: Karla Karolla e Yane Ramalho
La zia principessa: Monica Muniz e Paula Monique
Suor Dolcina: Pandora Calheiros
Freiras: Hayana Diniz, entre outras cantoras líricas e estudantes de canto
Atriz e narração: Isadora de Alencar
Incentivo SIC, Sistema de Incentivo à Cultura, Fundação de Cultura Cidade do Recife, Secretaria de Cultura, Prefeitura da Cidade do Recife

Serviço

Ópera (adaptação) Suor Angélica, de Giacomo Puccini
Onde: Teatro de Santa Isabel, Praça da República s/n, Santo Antônio, Recife
Quando: 25 e 26 de setembro às 20h, 27 de setembro às 19h
Quanto: entrada gratuita, ingressos na bilheteria uma hora antes de cada apresentação
Classificação indicativa: 16 anos
Atividade extra: 25 de setembro às 16h, ensaio geral aberto e roda de conversa com estudantes da rede pública

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