Deleite coreográfico dentro da piscina

Foto: Hans von Manteuffel/ Divulgação

Em Palavra úmida, a água é mais que o suporte para o elenco da Cia. dos Homens exercitar a liberdade de movimentos e criação. Passa a ser um elemento, quase um código, uma chave, uma palavra mágica de uma viagem entre passado acalentador e futuro incerto. Digo melhor, da memória do útero, de onde todos nós saímos, ao pavor de que a água, esse bem da humanidade, acabe pela ação predatória dos próprios humanos. Isso é um pouquinho da leitura que se pode fazer da encenação da Cia. dos Homens, que está em temporada, no Clube Líbano Brasileiro, no Pina.

A trupe comandada por Cláudia São Bento ergueu uma estrutura coberta com tenda plástica preta formando uma caixa cênica. O público fica alojado numa arquibancada de 200 lugares. A estreia, tinha pouca gente. Do lado, corria uma partida de futebol society, com direito aos gritos de guerra dos atletas. É, os espaços mais experimentais também trazem suas inconveniências. Mas não chegou a atrapalhar. Quando a sessão começou, o público ficou magnetizado, entre curiosidade, apreensão e torcida para que tudo desse certo. Afinal, o projeto é pra lá de interessante. A proposta, esse mergulho literal da companhia no estado líquido, merece arquibancada lotada.

No início do espetáculo, de costas para o público, Cláudia São Bento segurava Maria São Bento, sua filha de 12 anos. Da perspectiva da plateia não dava para ver que tinha uma garota em seu colo, antes de iniciar a apresentação. Nem que os outros bailarinos estavam dentro da piscina. Luz, música e tudo começou a ser revelado. A mãe bailarina faz o movimento iniciático para sua garotinha, que boia entregue, sem medo.

Pioneira na dança contemporânea em Pernambuco, a Cia. dos Homens é uma das poucas que vem sistematicamente trabalhando com pesquisas de movimentos, que investigam novas possibilidades da dança em sintonia com esses tempos. Há muitos momentos belos da encenação.

É poderosa a evocação do mito de Narciso, com os bailarinos à beira da piscina encantados com suas próprias imagens. As brincadeiras de crianças com suas boias são divertidas. Há também solos e coreografia em grupo na beira da piscina, como a assinada por Airton Tenório e dançada por Cláudia (Sinal de trânsito). Outra em que prevalece a composição do grupo formado por Ana Paula Ferrari, Paula Stuhrk, Isabel Ferreira, Fernanda Lobo e Jorge Sabino.

E há coreografias emocionantes. Uma delas é depois que ouvimos o poema Na água, de Eduardo Baszoczyn, quando o elenco volta e flutua em movimentos delicados, fluidos, que escondem pela técnica o esforço de um ano de treinamento duro e todas as dificuldades de se mexer dentro d’água.

* Texto publicado originalmente em 3 de abril de 2008, no Diario de Pernambuco

SERVIÇO
O espetáculo Palavra úmida fica em cartaz até 6 de fevereiro, no Clube Líbano, no Pina. A temporada Começou dentro do Janeiro de Grandes Espetáculos, mas prossegue às quintas e sextas-feiras, às 21h, e aos sábados e domingos, com sessões às 17h e às 21h. As arquibancadas comportam apenas 150 pessoas a cada apresentação.

Da equipe anterior, atuam na atual montagem Cláudia São Bento, Ana Paula Ferrari e Isabel Ferreira. Os homens são Jefferson Figueiredo, o cubano Luís Rúben Gonzalez e Allan Delmiro, o mais novo na trupe. A temporada foi viabilizada com recursos do Funcultura.

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