HBLYNDA em Trânsito:
um ano de cena, do
Arraial a Porto Alegre
Por Ivana Moura

Solo de HBlynda celebra um ano no Teatro Arraial e segue para o 33º Porto Alegre em Cena. Foto: Rafael Quirino

HBLYNDA em Trânsito é um solo performático e autobiográfico em que a atriz, dramaturga e pesquisadora HBlynda Morais (pessoa trans não binária, preta, gorda, candomblecista e periférica) narra a própria vida em primeira pessoa. Ela não representa uma personagem fictícia; apresenta-se a partir de si, construindo uma dramaturgia em que a experiência é matéria, para pensar o gênero como trânsito e o corpo como território de existência. A cena costura teatro, dança, música e performance num jogo de revelação e partilha, com perguntas lançadas diretamente à plateia (“quem sabe como o gênero é constituído?”) e um ambiente deliberadamente íntimo e afetivo.

O espetáculo nasceu em março de 2025, com a primeira apresentação na Farofa do Processo, festival e movimento de artes cênicas contemporâneas criado pela Corpo Rastreado, no Complexo Cultural Funarte SP. A estreia oficial em Pernambuco veio em agosto de 2025, no Teatro Hermilo Borba Filho, no Recife, celebrando os 15 anos de trajetória artística da atriz.

Em 2026, a peça ocupa o Teatro Arraial Ariano Suassuna numa temporada que celebra o primeiro aniversário da obra, fruto do edital de ocupação do próprio teatro: de 21 de agosto a 5 de setembro, sextas e sábados, às 19h, com ingressos gratuitos retirados uma hora antes de cada sessão. O espetáculo segue para o Sul em setembro e integra a programação nacional do 33º Porto Alegre em Cena, festival internacional de artes cênicas que ocupa 13 palcos da capital gaúcha de 10 a 20 de setembro. Não vai sozinho: o festival recebe quatro montagens pernambucanas, além de HBLYNDA em Trânsito (HBlynda Morais), também Que Muito Amou (Cênicas Cia de Repertório), Os Imorais (Bando de Nada Coletivo de Teatro) e Pela Noite (NOZ Produções).

Uma dramaturgia do corpo 

Autoria e cena coincidem. Idealização, dramaturgia e atuação são de HBlynda Morais, com direção de Emmanuel Matheus, direção musical de Raphael Venos, produção executiva de Juliana Couto e preparação coreográfica de Aline Gomes. O que se vê em cena é uma dramaturgia do corpo. Danças aos orixás Exu, Ogum e Oxum e à Pombagira 7 Catacumbas, coxinhas distribuídas durante o depoimento da mãe, um chá de revelação com a plateia, pompons entregues na entrada. Os elementos são matéria de um jogo que recusa dois registros, o da “lição de vida” e o do “exemplo de superação”. Como escreve Ivana Moura, a peça não oferece uma verdade sobre a experiência trans; documenta “as estratégias micropolíticas necessárias para sobreviver”.

A trajetória da artista sustenta a obra. HBlynda é licenciada em História pela UPE e doutoranda em Educação Contemporânea pela UFPE (Programa de Pós-Graduação em Educação Contemporânea, do Centro Acadêmico do Agreste), onde pesquisa gênero e sexualidades.

Para Hblynda, uma artista preta e candomblecista, a escrita de si é também escrevivência, no sentido de Conceição Evaristo. Foto Divulgação

O trabalho se insere na virada performativa das artes cênicas, em que o artista fala a partir de si e não por meio de personagens ficcionais. A pesquisadora Andréa Stelzer (Urdimento, 2024) nomeia esse gesto como cena performativa decolonial: a “escrita de si” feita de memórias, testemunhos e documentos reais traz ao centro da cena “os saberes silenciados pela História oficial”. A partir de espetáculos como Macacos e Umbigo de sonhos, Stelzer mostra que, nessa linhagem, o artista se afirma como sujeito da escrita cênica e o corpo se torna arquivo de memórias e de histórias.

É nessa linhagem que HBLYNDA em Trânsito pode se inscrever. No caso de uma artista preta e candomblecista, a escrita de si é também escrevivência, no sentido de Conceição Evaristo. Uma escrita que nasce da experiência coletiva de um corpo que escreve a si e aos seus, e que Stelzer aproxima deliberadamente da autoficção, como gesto que parte do singular para alcançar o coletivo.

É o que aproxima a obra da reflexão de Leda Martins sobre o corpo-tela; uma espécie de corpo-arquivo, “local e meio por meio dos quais se reorganizam e atualizam os amplos repertórios afro-diaspóricos”. O par arquivo e repertório, de Diana Taylor, ilumina a obra como complemento. Arquivo é o que se preserva em documentos e objetos, o que resiste ao tempo; repertório é o que se transmite pelo corpo, pela memória encarnada, o que só existe no ato. O corpo da artista condensa arquivo e repertório, guarda a memória e a reatualiza a cada apresentação. A dimensão dos orixás aprofunda esse movimento, remetendo às performances do tempo espiralar de Leda Martins. O corpo que dança como memória que o texto não alcança, em que a ancestralidade é também estrutura temporal. 

O espetáculo tem direção de Emmanuel Matheus, direção musical de Raphael Venos e produção executiva de Juliana Couto. Foto: Divulgação

Duas leituras da Satisfeita, Yolanda?

A recepção crítica do espetáculo em 2025 contou com dois textos da Satisfeita, Yolanda?, um dos veículos de crítica teatral mais ativos do país, e é a partir deles que esta leitura se organiza. 

Ivana Moura, em HBLYNDA EM TRANSito aposta na força política das narrativas trans (ago/2025), lê a obra como um trabalho que disputa o campo do teatro contemporâneo, apoiado na teoria queer e nos estudos decoloniais. Para ela, a peça “transforma o que (a parte mais retrógrada) da sociedade codifica como ‘desvio’ em metodologia de conhecimento”, reafirma o palco como território de existência e opera uma “reconfiguração radical dos protocolos narrativos” do teatro brasileiro. Moura propõe ainda uma cronologia queer. 

Annelise Schwarcz, em Ter Exu como princípio: estranhar a cronologia (dez/2025), elogia e questiona na mesma medida. Seu diagnóstico: “em alguns momentos, tantos elementos sendo ofertados ao público resultam em um esvaziamento do sentido de alguns dispositivos”. Na sua visão, a distribuição de coxinhas durante o depoimento da mãe dispersa a atenção da plateia; o chá de revelação e a cena dos pompons “parece gratuita”; e a dramaturgia, que “segue de forma cronologicamente linear os marcos traumáticos”, poderia “se nutrir do princípio exusíaco”, de Exu, o orixá que preside encruzilhadas, e estranhar a cronologia em vez de confirmá-la. É uma objeção de forma, não de conteúdo: pede mais ousadia estrutural, não menos política.

O ponto mais interessante de HBLYNDA em Trânsito talvez seja justamente esse: a peça desacomoda tanto quanto o que o que conquista.

Serviço

📍 Onde: Teatro Arraial Ariano Suassuna (Recife/PE)
🗓️ Quando: 21 de agosto a 5 de setembro de 2026
Horário: sextas e sábados, às 19h
🎟️ Ingressos: gratuitos, retirados 1h antes de cada sessão
🏳️ Classificação: 16 anos 
⚧️ Duração: 60 min

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