Arquivo mensais:setembro 2019

Críticas da colonização na América Latina

Há Mais Futuro que Passado, do Complexo Duplo. Foto: Nityama Macrini

As Veias Abertas da América Latina: Cinco Séculos de Pilhagem de um Continente, de Eduardo Galeano (mesmo autor de O livro dos abraços, que inspirou a peça Abrazos, do Clowns de Shakesperare, cancelada na Caixa Cultural Recife), norteou a programação da terceira edição do Crítica em Movimento, realizado pelo Itaú Cultural. O evento, que tem curadoria assinada pelo jornalista e crítico Valmir Santos em parceria com o instituto desde o primeiro ano, começa nesta terça-feira (10) e segue até 15 de setembro.

Comentando a escolha pela obra de Galeano, Valmir Santos chama a atenção para a sua atualidade negativa. “Em 2010, quando a obra de 1971 ganhou uma nova tradução e edição brasileiras, o autor uruguaio declarou: ‘A história não quer se repetir – o amanhã não quer ser outro nome do hoje –, mas a obrigamos a se converter em destino fatal quando nos negamos a aprender as lições que ela, senhora de muita paciência, nos ensina dia após dia’.

A programação inclui cinco debates, cinco espetáculos e uma oficina. A abertura será com a discussão “O Brasil pertence à América Latina?”, com a participação de Julián Fuks, escritor, Denise Mota, jornalista, e Mateo Piracés-Ugarte, produtor e multi-instrumentista, integrante da banda Francisco, el Hombre. A mediação é do gestor cultural, dramaturgo e diretor Pedro Granato.

Os espetáculos, por diferentes perspectivas, repercutem a colonização na América Latina. A programação abre com Pundonor, da companhia argentina El Patrón Vázquez, que tem como personagem central uma professora de sociologia. O diretor e dramaturgo do grupo, Rafael Sprégelburd, participa de um debate na sexta-feira (13).  “Ele atua há 25 anos em Buenos Aires e é fundador do grupo El Patrón Vázquez. Também transita muito pelo cinema, como no filme O Crítico (2013), de Hernán Guerschuny, no qual interpreta resenhista que se vê preso ao enredo de um tipo de filme que despreza, a comédia romântica”, pontua Valmir Santos.

Na sexta-feira (13), é a vez de Há Mais Futuro que Passado – Um Documentário de Ficção, do Complexo Duplo, com direção de Daniele Avila Small, espetáculo cuja equipe é toda formada por mulheres, discutindo o lugar da mulher na história da arte na América Latina.

Cartas de Niños. Foto: Divulgação

Cartas de Niños, com direção de María Sepúlveda, é inspirada em cartas e desenhos escritos por filhos de presos políticos, que viveram a infância na época da ditadura no Chile. A apresentação é no sábado (14), às 18h. “Num sincronismo involuntário da agenda dos artistas, mas de relevância poética e inclusive civilizatória, já que nesta semana é lembrado o golpe que instaurou a ditadura militar no Chile, em 11 de setembro de 1973, vamos receber na cidade um espetáculo para crianças narrado a partir da ótica de um garoto que teve o pai sequestrado naquele período”, destaca Santos.

Já às 22h, também no sábado, o grupo argentino La Mucca Teatro encena Nadie Murió de Amor Excepto Alguien Alguna Vez, com direção de Guilherme Baldo, que leva ao palco mecanismos violentos de sobrevivência.

A programação termina no domingo com a participação da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, que traz Violeta Parra – Uma atuadora!, performance cênico-musical que tem como foco central a cantora e violonista chilena.

O Crítica em Movimento terá ainda uma oficina intitulada Dramaturgia em Movim(i)ento, com a atriz, diretora e professora Malu Bazán, entre os dias 11 e 14 de setembro.
Serviço:

Crítica em Movimento

10/09 (terça-feira)
20h: Debate – O Brasil pertence à América Latina?
Com Julián Fuks, Denise Mota e Mateo Piracés-Ugarte. Mediação: Pedro Granato

11/09 (quarta-feira)
19h: Debate – Adiós Paraguay, uma pesquisa de campo por ideias e rituais
Com Teresa González Meyer, Cleiton Pereira e Daniele Santana. Mediação: Valmir Santos

12/09 (quinta-feira)
20h: Pundonor

13/09 (sexta-feira)
16h: Debate – Dramaturgias e fricções de recepção crítica
Com Rafael Spregelburd e Guillermo Baldo. Mediação: Marcia Nemer Jentzsch
20h: Há Mais Futuro que Passado – Um Documentário de Ficção

14/09 (sábado)
16h: Debate – A expansão de formas e ideias no teatro para crianças e adolescentes
Com María Sepúlveda, Amauri Falsetti e Luvel García Leyva. Mediação: Brenda Campos
18h: Cartas de Niños
22h: Nunca Nadie Murió de Amor Excepto Alguien Alguna Vez

Violeta Parra – Uma Atuadora!. Foto: Divulgação

15/09 (domingo)
16h: Debate – A relevância das trocas artísticas e culturais entre países latinos
Com Luis Alonso-Aude, Felipe Vidal e Cris Diniz. Mediação: Alexandre Roit
19h: Violeta Parra – Uma Atuadora!

Quanto: Gratuito
Onde: Itaú Cultural (Avenida Paulista, 149, São Paulo)

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Reside, pulsão de resistência em Pernambuco

Espetáculo As Flores do Mal, do uruguaio Sérgio Blanco, abre festival da produtora e atriz  Paula de Renor no Recife. Foto: Elisa Mendes

Garra, persistência, determinação, ética, força agregadora. A leoa Paula de Renor reúne essas qualidades e insiste em engendrar em Pernambuco um festival que inquieta, que sintoniza com as pulsações da cena contemporânea. Deus sabe onde ela vai buscar energia para prosseguir mantendo o viço juvenil da descoberta, da surpresa, do assombro dessa arte. Depois de anos compartilhando a direção do Janeiro de Grandes Espetáculo, em 2018 ela lançou o festival Cambio, “uma alavanca de mudança, transformação, troca”. De lá pra cá, a realidade cultural no país ficou ainda mais dura, mas não dá pra desistir. Não para uma mulher feito Paula de Renor. Extraindo dos próprios nervos, e mais uma vez sem patrocínios, ela transfigura o Cambio em RESIDE.FIT/PE – Festival Internacional de Teatro de Pernambuco .

Mesmo ainda no segundo ano, o festival chega grande em pensamentos, em conceitos. E segundo a produtora/artista – que orgulha quem é gauche do teatro -, já conectado: o RESIDE.FIT/PE avança no seu propósito de colaboração e formação, compartilhando experiências e saberes, debatendo ideias e processos criativos. Uma ação potente nos eixos de formação, exibições e residências artísticas.

A violência é explorada por diversos olhares na edição 2019, que começa neste domingo, dia 08/09, com o espetáculo As Flores do Mal ou A Celebração da Violência, no Teatro Marco Camarotti, às 19h. O monólogo é interpretado pelo próprio autor, Sergio Blanco, um dos dramaturgos que abala as bases do teatro contemporâneo.

Já o laboratório do argentino Lisandro Rodriguez busca investigar e vincular a violência que nos cerca no cotidiano, com a violência expressivo-cênica que lemos sobre o nosso entorno e como o traduzimos em uma imagem cênico- poética. Lisandro pretende trabalhar o espírito desconstrutivo, analítico e prático na especificidade da cena para extrair o poético e político.

A palestra Festivais e a Economia Criativa será comandada pela curadora e produtora Márcia Dias, do Rio de Janeiro. O mexicano Damián Cervantes soma com a oficina Grupo e Internacionalização Teatral, uma ação a ser efetivada em outubro, em parceria com o FETEAG.

A grande aposta do RESIDE.FIT/PE é o projeto Especial: Nova Dramaturgia Francesa e Brasileira, ação de residência artística e intercâmbio, com o autor francês Fabrice Melquiot, o tradutor e diretor, Alexandre Dal Farra(SP) e o Coletivo Angu de Teatro (PE), que finaliza com a leitura dramatizada e lançamento do livro Eu carreguei meu pai sobre meus ombros/J’ai pris mon père sur mes épaules.

Sergio Blanco, dramaturgo uruguaio

Sergio Blanco escreveu, dirige e atua em As flores do mal ou a celebração da violência, de 2018. Nessa pisada de autoficção que ele vem investindo nos últimos anos, Blanco embaralha estatutos de verdades. Sozinho no palco, investiga a relação entre violência e literatura, numa verticalização desconcertante. 

O monólogo explora de forma íntima as violências conhecidas do escritor no âmbito literário, arriscando paradoxalmente dores e deleites. Blanco defende que a literatura é um dos poucos espaços onde a humanidade pode treinar a violência com total liberdade, escapando do julgamento moral e enveredando em direção à poesia. 

O franco-uruguaio mora em Paris e tem seus textos montados em vários idiomas. Entre eles,
A Ira de Narciso , Tebas Landb (esses dois montados no Brasil) e El Bramido de Düsseldorf. Em As flores do mal, inclusive, ele cita algumas dessas. É uma peça-conferência, com uma encenação muito simples e crua, mas efetiva. Blanco sentado na mesa, algumas anotações, o texto, uma projeção, Tina Turner tocando em momentos específicos.

Fabrice Melquiot, o autor francês e o dramaturgo brasileiro Alexandre Dal Farra, que traduziu a peça

Com o intuito de lançar os novos autores franceses no Brasil e os novos autores Brasileiros na França, o Núcleo dos Festivais Internacionais de Artes Cênicas do Brasil, La Comédie de Saint-Étienne, Instituto Francês e a Embaixada da França no Brasil se juntaram no projeto A Nova Dramaturgia Francesa e Brasileira.

Esse projeto bilateral se concretiza em duas estações: a primeira fase em 2019, oito textos de autores franceses contemporâneos são traduzidos por diretores-autores brasileiros, publicados pela Editora Cobogó e encenados nos festivais que compõem o Núcleo (Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília, FIAC – Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia, em Salvador, FILO – Festival Internacional de Londrina, FIT Rio Preto – Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, Porto Alegre em Cena – Festival Internacional de Artes Cênicas, RESIDE.FIT/PE – Festival Internacional de Teatro de Pernambuco e TEMPO_FESTIVAL – Festival Internacional de Artes Cênicas do Rio de Janeiro).

Em 2020, num movimento de reciprocidade e cooperação, os autores(as) brasileiros terão seus trabalhos traduzidos e publicados na França pela Editora D’ores et déjà e encenados no Théâtre National de La Colline (Paris), no Festival Actoral(Marseille) e finalizarão na Comédie de Saint-Étienne para um grande final de semana festivo.

Os textos franceses foram traduzidos por Alexandre Dal Farra, Gabriel F., Grace Passô, Jezebel de Carli, Márcio Abreu, Pedro Kosovski, Quitéria Kelly e Henrique Fontes (Grupo Carmim) e Renato Forin, que também apresentarão leituras dramatizadas das obras com grupos e artistas locais com a presença do autor francês.

Fabrice Melquiot é apontado como autor mais produtivo de sua geração. Tem mais de cinquenta peças escritas, publicadas pela editora Arche. Traduzido em várias línguas, suas peças são encenadas na França e no exterior (Alemanha, Grécia, México, Estados Unidos, Chile, Espanha, Itália, Japão, Québec, Rússia). Desde o verão de 2012, é diretor do Théâtre Am Stram Gram de Geneva, Centre International de Création et de Ressources pour l’Enfance et la Jeunesse.

Eu carreguei meu pai sobre meus ombros é inspirado em alguns cantos da Eneida, de Virgílio. A peça explora o percurso de Roch, um homem pobre que descobre que só tem um mês de vida, devido a um câncer. A trama está situada na madrugada dos atentados ao Bataclan, em um bairro da periferia de Saint-Étienne, em Paris, em novembro de 2015. Mas o protagonista avisa aos seus que não quer fazer quimioterapia e deseja viajar para uma região distante e desconhecida.

PROGRAMAÇÃO

Espetáculo As Flores do Mal ou A Celebração da Violência
Texto, direção e atuação: Sergio Blanco / Uruguai
Tradução: Celso Curi
Vídeo Arte: Miguel Grompone
Direção de Produção: Celso Curi e Wesley Kawaai
Legendagem: Casarini Produções
Foto: Miguel Grompone
Produção: OFF Produções Culturais
Apoio: Périplo Produções Culturais
Indicação: 16 ANOS
Duração: 55 min
*Legendado em português
Ingressos no local/ 1h antes do início/Lugares limitados
Quando: 08/09, às 19h
Onde: Teatro Marco Camarotti (Rua Treze de Maio, 455, Santo Amaro)
Quanto: Gratuito. Ingressos no local, 1h antes do início / Lugares limitados
Informações: (81) 3216-1728

PROJETO ESPECIAL/INTERCÂMBIO/RESIDÊNCIA
Nova Dramaturgia Francesa e Brasileira
Residência artística do dramaturgo francês Faquice Melquiot, com o tradutor e diretor Alexandre Dal Farra/SP e Coletivo Angu de Teatro/PE, com leitura dramatizada do texto Eu carreguei meu pai sobre meus ombros/J’ai pris mon père sur mes épaules.
Quando: Encontros de 09 a 12/9, Das 09h30 às 13h30
Onde: Teatro Arraial

Leitura dramatizada do texto Eu carreguei meu pai sobre meus ombros/J’ai pris mon
père sur mes épaules, de Faquice Melquiot, dirigida pelo tradutor e diretor Alexandre Dal Farra/SP com Coletivo Angu de Teatro/PE
Quando: 13/09, às 19h
Onde: Teatro de Santa Isabel – Praça da República, s/n, Santo Antônio
Quanto: Gratuito. Ingressos no local, 1h antes do início / Lugares limitados
LANÇAMENTO DO LIVRO
Eu carreguei meu pai sobre meus ombros/J’ai pris mon père sur mes épaules, do dramaturgo Francês, Fabrice Melquiot, traduzida pelo artista Alexandre Dal Farra, de São Paulo.

Laboratório
Práticas Cênicas: A Violência, Com Lisandro Rodriguez /Argentina
Quando: de 14 a 18/09, das 16h às 20h
Onde: Armazém do Campo – Rua do Imperador Pedro II, 387, Santo Antônio
Quanto: Gratuito / Inscrição com seleção (15 vagas) de 3 a 10/9 pelo site:
www.residefestival.com.br
Público: Pessoas em formação ou formadas com experiência cênico-artística mínima, músicos, cineastas, poetas, artistas plásticos,atores, bailarinos, etc.

Palestra: Festivais e a Economia Criativa
Com Márcia Dias/Brasil
Quando: 14/09, às 15h
Onde: Cineclube Coliseu /SESC Casa Amarela (Avenida Norte, 1190 – Mangabeira).
Informações: (81) 3267-4400

Oficina: Grupo e Internacionalização Teatral
Com Damián Cervantes /México
Quando: de 04 a 08/10
Esta oficina será realizada junto com o Festival de Teatro do Agreste e o projeto Transborda, compondo uma atividade do Cena Expandida.
As inscrições serão abertas na segunda quinzena de setembro.

FICHA TÉCNICA RESIDE.FIT/PE
Realização: Remo Produções Artísticas
Direção Geral: Paula de Renor
Curadoria: Celso Curi e Paula de Renor
Produção Executiva: {Fervo}Projetos Culturais
Coordenação Técnica: Luciana Raposo
Assistência de Produção: Sandra Possani, Elias Vilar, Andréa Silva, Pedro de
Renor, Raquel Alves

Projeto Gráfico e edição do programa: Clara Negreiros
Web Designer: Sandro Araújo
Comunicação e Articulação Institucional: Danilo Carias

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