Arquivo mensais:abril 2015

O universo trágico, e cômico, dos trans

BR-TRANS faz duas sessões no Teatro Hermilo Borba Filho, hoje e amanhã. Foto: Lina Sumizono/ Divulgação

BR-TRANS faz duas sessões no Teatro Hermilo Borba Filho, hoje e amanhã. Foto: Lina Sumizono/ Divulgação

Trema!

Assisti ao espetáculo Metrópole, com atuação de Silvero Pereira e sua Inquieta Cia de Teatro, durante a IX Mostra Latino-americana de Teatro de Grupo, em São Paulo, no ano passado. Ele é um ator que magnetiza o olhar. Silvero dividiu a cena com Gyl Giffony, também diretor da peça. Hoje e amanhã, Pereira participa da 3ª edição do TREMA! com a montagem BR Trans, uma das mais aguardadas do Festival de Teatro de Grupo do Recife, no Hermilo Borba Filho.

CONFIRA A CRÍTICA DE METRÓPOLE

O espetáculo é resultado de seis meses de pesquisas com travestis (transgêneros), transformistas e transexuais feitas pelo cearense Silvero Pereira em ruas, casas de shows dos estados do Ceará e Rio Grande do Sul e um presídio de Porto Alegre. Ele assina o texto, atua sozinho e divide a direção da peça com Jezebel De Carli.

São mostradas no palco histórias de exclusão, medo, solidão e morte. Algumas trágicas outras cômicas, mas com o teor de denúncia sobre o preconceito e a violência transfóbica. BR Trans também traz um clima de cabaré e em seu solo Pereira faz dublagens de Lana Del Rey e Maria Bethânia.

Espetáculo já foi muito aplaudido em festivais,  mostras e temporadas pelo Brasil

Espetáculo já foi muito aplaudido em festivais, mostras e temporadas pelo Brasil

SERVIÇO
Espetáculo BR-Trans
Quando: Hoje e amanhã, às 21h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)

Ficha Técnica
Direção: Jezebel De Carli e Silvero Pereira
Texto e atuação: Silvero Pereira
Músico: Rodrigo Apolinário
Realização: Coletivo Artístico As Travestidas
Duração: 70 minutos
Classificação: 16 anos

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Barbara Heliodora deixa um vazio na cena teatral

Barbara Heliodora deixa sua marca na história do teatro brasileiro

Barbara Heliodora deixa sua marca na história do teatro brasileiro

Acabou uma era. A mais sincera, a mais contundente, a mais demolidora e controversa crítica teatral brasileira morreu na manhã desta sexta-feira, no Hospital Samaritano, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, onde estava internada desde 21 de março. Heliodora Carneiro de Mendonça, a nossa Barbara Heliodora, tinha 91 anos e deixa um vazio enorme. Crítica teatral (os últimos 23 anos no jornal O Globo), ensaísta, professora de história de teatro e tradutora, Barbara Heliodora era uma mulher altiva e de personalidade forte. Dessas criaturas diante de quem é impossível ficar indiferente. Amada e odiada por atores, diretores, enfim pelos artistas e público do teatro.

Barbara Heliodora nasceu em 29 de agosto de 1923, filha da poetisa Anna Amélia Carneiro de Mendonça e do historiador Marcos Carneiro de Mendonça. Ele também foi goleiro, tricampeão pelo Fluminense em 1917, 1918 e 1919.

Uma das autoridades da obra de William Shakespeare no Brasil, ela traduziu 35 das 37 peças do bardo inglês para o português. Sua mãe já havia traduzido para o português Hamlet e Ricardo III. A paixão pelo universo shakespeariano começou na infância, aos 12 anos, quando recebeu de presente da mãe o primeiro volume das obras completas do dramaturgo, época em que ainda não dominava o inglês. Ano passado publicou pelas edições de Janeiro o livro Shakespeare – o que as peças contam: tudo o que você precisa saber para descobrir e amar a obra do maior dramaturgo de todos os tempos.

Escreveu vários livros. Sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo (USP) foi a primeira a ser publicada, A Expressão Dramática do Homem Político em Shakespeare, em 1975.

Formada em literatura inglesa no Connecticut College, nos Estados Unidos, nos anos 1940, Barbara iniciou a carreira no jornalismo, aos 35 anos. Estreou na função de crítica em 1957, na Tribuna da Imprensa, onde atuou entre outubro de 1957 e fevereiro de 1958. Ela contou que começou por acaso, porque sempre discutia sobre os espetáculos com o pessoal do Tablado. Quando vagou a coluna teatral ela foi lá pedir o emprego a Carlos Lacerda. “Fiquei só uns quatro ou cinco meses, porque mudou o chefe de redação e o novo queria que eu escrevesse fofocas teatrais”.

Depois passou a escrever para o Jornal do Brasil, onde trabalhou até 1964. Lá ganhou notoriedade e legitimidade. Era conhecida na classe teatral como a “Dama de Ferro”. Vale ressaltar que sua geração de críticos teatrais no Rio era mais aguerrida, exigente e até hostil. Paulo Francis detonava no Diário Carioca e Henrique Oscar arremetia no Diário de Notícias.

Barbara ocupou a direção do Serviço Nacional do Teatro, nomeada pelo governo Castello Branco, entre 1964 e 1967, em plena ditadura militar. Ensinou no Conservatório Nacional de Teatro e no Centro de Letras e Artes da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Uni-Rio), onde se aposentou em 1985. Voltou à crítica depois de um longo intervalo, na revista Visão e cinco anos depois seguiu para o jornal O Globo, onde trabalhou até 31 de dezembro de 2013, quando fez 90 anos de idade.

Com Francisco Cuoco e sua filha Patricia Scott Bueno. Foto: Ellen Ferreira / reprodução do Facebook

Com Francisco Cuoco e sua filha Patricia Scott Bueno. Foto: Ellen Ferreira / reprodução do Facebook


Essa senhora de cabelos acinzentados, grandona, sempre bem vestida, dona de uma pena afiadíssima, chegava a assistir até cinco espetáculos por semana. E ela não tinha dó de apontar o joio. Costumava dizer: “Às vezes é um verdadeiro horror, muito pior do que escrevo nos textos. Como é que não percebem que estão apresentando tamanha porcaria?”

Essa postura lhe rendeu alguns confrontos. Foi amaldiçoada nos jornais e nas revistas por Gerald Thomas, foi barrada numa montagem de Ulysses Cruz e despertou a ira de muita gente, como José Celso Martinez Corrêa. A fama de crítica implacável inspirou a comédia Barbara Não Lhe Adora. O meio artística ansiava por uma crítica sua, mas não era uma relação pacífica. Barbara foi questionada pela virulência de seus textos. Ela costumava responder: “A crítica condescendente é uma má crítica”.

Mas do mesmo jeito que escrevia coisas como “meu pobre Shakespeare sofre mais um triste golpe nessa bobajada insana”, era capaz de exaltar uma montagem que admirasse: “Esse espetáculo é maravilhoso!, Não perca”. E Barbara andava entusiasmada com a nova leva de dramaturgos brasileiros. “O tempo vai fazer a seleção, ver quem tem fôlego para seguir carreira”, disse em uma entrevista.

A crítica teatral deixa três filhas de dois casamentos: Priscilla, a mais velha, analista de sistemas, que mora em São Paulo, Patricia, a do meio, atriz, que vive no Rio e a designer Marcia, a caçula, que mora em Belo Horizonte. Deixa quatro netos: Guilherme, Julia, Laura e Sophia. E três bisnetos: Pedro, Isabela e Felipe.

Barbara Heliodora comentou que já tinha visto mais de 3.500 espetáculos teatrais. Uma prova da sua devoção a essa arte tão efêmera.

Homenagem feita por Fernanda Montenegro a Barbara Heliodora no 24 Prêmio Shell de teatro no Rio

Homenagem feita por Fernanda Montenegro a Barbara Heliodora no 24 Prêmio Shell de teatro no Rio


“Eu não conheço ninguém na nossa área que tenha amado tanto o teatro e tenha se entregado tanto ao teatro como ela. Somos amigas muito particulares, muito queridas, cada uma respeitando o espaço da outra. A última grande lembrança de estar com ela foi no meu aniversário de 85 anos em outubro. Minha filha fez uma reunião na casa dela. E meus contemporâneos foram entre os quais ela estava, eu guardo essa lembrança. A morte da Barbara é como se morresse uma rainha. Não é apenas a morte de uma atriz grandiosa em cena, não, é uma crítica, uma escola, uma estudiosa, uma amante de um processo cultural teatral que não recebe os aplausos e as vaias em cena aberta, pelo contrário. É algo muito particular, trabalhado. Barbara foi uma mulher que parou de ir ao teatro porque já não aguentava, com 90 anos. Qualquer coisa que eu possa falar é pouco diante dessa personalidade.”
Fernanda Montenegro
atriz, a GloboNews

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Quebra de protocolo

Protocolo, com o grupo português Mala Voadora. Foto: Divulgação

Protocolo, com o grupo português Mala Voadora. Foto: Divulgação

Trema!

Os salamaleques inventados pelo Rei Luís XIV de França, que ficou conhecido como O Rei Sol, são as motivações do espetáculo Protocolo, da trupe portuguesa Mala Voadora. A montagem abriu ontem o TREMA – Festival de Teatro de Grupo do Recife, no Teatro Hermilo Borba Filho. O sistema de etiqueta inventado pelo soberano é descortinado em passos bem ensaiados, ironias, joguetes entre os dois intérpretes e a solicitação da participação da plateia, que é apontada com nomes de figuras da corte.

Para ser sincero é só abrir a boca, diz um dos personagens. Acionou uma chave da memória, da minha, e, enquanto os atores faziam suas piruetas, um filminho foi passando na minha cabeça. Conversas na saída do cinema após um festejado filme pernambucano. Comentários demolidores, desses que não lemos mais nos jornais. Um determinado crítico da cidade disse que não gostou, mas não queria se indispor com o autor da obra. Mascaramento de opiniões.

Ser sincero é uma coisa perigosa. Principalmente numa terra de capitanias hereditárias, em que os coronéis da cultura ditam gosto e pensamento.

Ah, mas os atores deram mais umas voltinhas e apontam mais alguns espectadores como os ilustres da corte de Luiz. São divertidos os passinhos, a disputa entre os dois para impressionar os presentes, espectadores/corte/nobres.

Em meio à dança, o duo explica que essas regras de etiquetas formam um sofisticado sistema de convivência social. A ideia é que temos que nos agradar uns aos outros, conceito que é repetido ao longo da peça.

O público não me pareceu que se sentiu fortemente incluído pelas atribuições de títulos dados pelo ator Jorge Andrade. Percebi uma recepção fria.

Sabemos e os atores nos lembram isso em meio a lições de como levantar o mindinho ou se portar com o guardanapo, que esse protocolo foi um instrumento de poder usado sabiamente por Luís XIV. O disciplinamento prossegue vindo de vozes sem a mesma realeza.

Anabela Almeida e Jorge Andrade

Anabela Almeida e Jorge Andrade

A coreografia da cordialidade em alguns momentos é quebrada pelos atores para salientar as rusgas, os embates e descortesias. Mas a dupla se recompõe da ironia, porque é preciso conviver em sociedade. Enquanto paródia, o espetáculo se mostra com pouco arsenal para instigar. Tudo parece um pouco esticado, o tempo, as ações. As repetições não se apresentam como exercício de linguagem, mas como multiplicações esvaziadas.

Os atores Jorge Andrade e Anabela Almeida são bons, mas fazem um esforço demasiado para a falta textual e de amplitude na concepção do espetáculo. Os códigos de convivência, o desejo de ser benquisto, esses disciplinamentos dos sentidos ficaram a meu ver a gritar por entrar na peça, mas foram barrados ou constrangidos pelas regras.

Protocolo contém coreografias, pequenos monólogos, diálogos e uma vontade imensa da participação do público. Os intérpretes atuam próximos da plateia. Por trás de uma cortina vermelha se encontra um espelho, em que os espectadores veem refletidas suas imagens, numa ideia de inclusão. Ainda como parte da cenografia, todo o chão está coberto por uma relva sintética, que deve ter algo com um certo jardineiro de Luís XIV, e uma placa em que estava escrito “étiquette”.

Senti falta de ressignificações com o contemporâneo, de feixes de luz de simulacros de simulação (Baudrillard) no contexto da obra, de um ir adiante na intercambiação de papéis. Enfim, Protocolo parece um novelo de renda insuficiente para uma rica colcha de cama king.

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Em cena o teatro de grupo

Protocolo, com o grupo português Mala Voadora. foto: José Carlos Duarte

Protocolo, com o grupo português Mala Voadora. foto: José Carlos Duarte

Trema!

Começa nesta quarta-feira, e vai até o dia 12 de abril, a 3ª edição do TREMA! – Festival de Teatro de Grupo do Recife. Realizado pelo coletivo Magiluth, o programa traz espetáculos de cinco grupos que trabalham pesquisa continuada de linguagem nas artes cênicas. O evento abre com a montagem portuguesa Protocolo, da trupe Mala Voadora, uma paródia que versa sobre a etiqueta social, a partir de regras na corte de Luís XIV, numa cena híbrida entre teatro, dança e performance. O diretor Jorge Andrade divide a cena com a atriz Anabela Almeida.

Sem financiamento de recursos públicos (federal, estadual ou municipal) o festival ostenta o lema “Ocupar e Resistir”, presta homenagem ao movimento Ocupe Estelita e expõe as mazelas da prática teatral na cidade. “Estamos vivendo tempos sombrios, no qual o teatro não vem recebendo o devido cuidado que merece. A gestão pública está caótica. Os artistas desrespeitados a cada dia. Só nos resta resistir e ocupar cada vez mais o espaço que nos é de direito”, analisa Pedro Vilela, diretor do festival.

Além do grupo português, outra atração internacional faz parte dessa terceira edição; o argentino/brasileiro Mazdita, que chega com Diafragma: dispositivo versão beta, a ser apresentado no Teatro Arraial na quinta-feira; a performance Contato Sonoro na Conde da Boa Vista no dia seguinte, às 15h; e a performance O tempo como construtor de espaço que acontecerá no Ocupe Estelita no domingo, dia 12 de abril, entre 14h e 18h.

O coletivo cearense As Travestidas traz o espetáculo BR TRANS, uma investigação cênica do ator Silvero Pereira. De Pernambuco participam o próprio Magiluth, com Viúva porém honesta e Luiz Lua Gonzaga, e O Poste: Soluções Luminosas, com a montagem A receita.

TREMA! FESTIVAL – PROGRAMAÇÃO

08 de Abril (abertura – quarta-feira)

Protocolo
Mala Voadora (Portugal)
Teatro Hermilo Borba Filho, às 20h

9 de abril (quinta-feira)

Diafragma: dispositivo versão beta
Coletivo Mazdita (Argentina/Brasil)
Teatro Arraial, às 19h

Protocolo
Mala Voadora (Portugal)
Teatro Hermilo Borba Filho, às 20h

10 de abril (sexta-feira)

Contato Sonoro
Coletivo Mazdita (Argentina/Brasil)
Av. Conde da Boa Vista, às 15h

Viúva, porém Honesta
Grupo Magiluth (PE)
Teatro Arraial, às 19h

A Receita
O Poste: Soluções Luminosas (PE)
Espaço O Poste, às 20h

Protocolo
Mala Voadora (Portugal)
Teatro Hermilo Borba Filho,às 21h

11 de abril (sábado)

Viúva, porém Honesta
Grupo Magiluth (PE)
Teatro Arraial, às 19h

BR Trans
As Travestidas (Ceará)
Teatro Hermilo Borba Filho, às 21h

12 de abril (domingo)

O tempo como construtor de espaço
Coletivo Mazdita (Argentina/Brasil) no Cais José Estelita, das 14h às 18h

Luiz Lua Gonzaga
Grupo Magiluth (PE)
Cais José Estelita, às 16h

BR Trans
As Travestidas (Ceará)
Teatro Hermilo Borba Filho, às 21h

INGRESSOS:
R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
www.eventick.com.br/trema

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Censura à Paixão de Cristo em Arcoverde

Artistas e produtores de Arcoverde protestam contra suspensão da peça. Foto: Fah Queiroz/ Divulgação

Artistas e produtores de Arcoverde protestam contra suspensão da peça. Fotos: Tiago Henrique/ Divulgação

O cancelamento do espetáculo Horizonte da Paixão dividiu a cidade de Arcoverde no Sertão de Pernambuco. De um lado os conservadores, que seguiram os conselhos de um padre da cidade – que pediu para os fiéis boicotarem a peça. Do outro, a indignação dos artistas que se alastrou em protestos pelas redes sociais e engrossou um movimento contra a censura. A peça, realizada há 15 anos, recria os últimos dias da vida de Cristo. A montagem tem em seu elenco artistas do grupo de teatro do Sesc Arcoverde, dos alunos da Educação de Jovens e Adultos e do grupo da Terceira Idade Novo Horizonte.

Segundo os próprios artistas, Horizonte da Paixão se propõe desde sua estreia, há 15 anos, a inserir cenas que tratem de questões contemporâneas para aproximar da realidade do público, para despertar reflexão sobre os ensinamentos de Cristo. “Nunca o espetáculo tentou ser um espelho da Bíblia, ou teve por finalidade catequizar segundo qualquer religião”, comenta o ator William Castilho.

A peça, patrocinada pelo Sesc e apoiada pela prefeitura, foi apresentada na quinta-feira. No programa Sexta-feira Santa na Rádio Independente FM, a principal emissora de Arcoverde, o Padre Adilson Simões pediu aos fiéis que boicotassem o espetáculo, que segundo ele apresentava cenas sacrílegas, desordenadas e absurdas. Os artistas garantem que o padre não assistiu ao espetáculo. E que sua opinião foi a partir do relato de três pessoas.

Durante sua fala na Independente FM, o Padre Adilson repudiou a cena da “Santa Ceia”, em que o ator que interpreta Jesus aparece de calça jeans e faz seu discurso em cima da mesa. Disse o padre: ”Na Santa Ceia, em todas as apresentações teatrais, cinematográficas e outras mais, nunca se viu Jesus, na hora sublime de dar-se no Pão, em pé, sobre a mesa. Isto é crime, deboche sobre uma religião. Na diversidade, respeitemo-nos mutuamente”.

Esse pronunciamento do padre inflamou fiéis mais conservadores, que, segundo os artistas, criou um clima de revolta contra o movimento artístico da cidade, inclusive com ameaças de agressão física. “Além dele ter falado sobre cenas que não existiram e sobre uma apologia ao aborto que nunca foi abordada no espetáculo. Após sua fala, ligou diretamente para o Presidente do Sesc, que de forma arbitrária, sem consulta e respeito ao trabalho realizado pela equipe do projeto, cedeu à pressão do clérigo e cancelou o espetáculo”, comenta o professor de dança Fah Queiroz.

O ator Djaelton Quirino, que interpreta o Cristo, respondeu em sua conta pessoal no Facebook, argumentando que todos tem direito a se manifestar, o padre, o pai de santo, o espírita, o ateu, quem quer que seja. Mas ninguém tem o direito de censurar ou cercear a liberdade de expressão de outro. “O padre não é Deus, se engana se acha isso, e até mesmo Deus nos deu livre arbítrio”.

Cartaz da peça

Cartaz da peça


Na nota oficial divulgada na sexta-feira, a direção do Sesc expõe as razões do cancelamento do espetáculo. O teor da nota foi gravada e retransmitida no sistema de som nos locais das apresentações.

“À Comunidade de Arcoverde,
A direção do SESC Pernambuco, entidade laica e privada sem qualquer vinculação política ou religiosa, informa à comunidade de Arcoverde e região, que o espetáculo Horizonte da Paixão, promovido pelo SESC há 15 anos, tem a natureza puramente artística.

Por outro lado, a Direção do SESC/PE com a intenção de evitar qualquer interpretação, desrespeito e intolerância às crenças e valores éticos e morais do cristianismo, e à forte tradição da celebração da Semana Santa, profundamente arraigada na cultural do povo brasileiro, determina a suspensão do espetáculo Horizonte da Paixão, hoje e amanhã, dias 03 e 04 de abril de 2015″. Assinam a nota Josias Albuquerque – Diretor do SESC/PE, Antônio Inocêncio de Lima – Diretor Regional do SESC/PE e Andrea Marquim – Gerente do SESC Arcoverde.

Protesto dos artistas de Arcoverde ganha força nas redes sociais

Protesto dos artistas de Arcoverde ganha força nas redes sociais

Fah Queiroz se disse chocado com o veto. Ele postou no Facebook: “Esse abuso de poder… esta distorção dos fatos… dos clérigos de nossa cidade em pleno século XXI, proibir (conseguir o cancelamento) do Horizonte da Paixão, tão tradicional em nossa cidade. Estamos voltando a Idade Média. A quem recorrer que não voltem as folgueiras????????”

“Os artistas de Arcoverde, foram censurados por um líder religioso que conseguiu disseminar em seu discurso ódio e segregação causando o fim da Paixão de Cristo da cidade que era realizada há 15 anos estamos hoje fazendo um manisfesto e tirando fotos com a mão tapando a boca e com a #ContraCensuraArcoverde”, reforça William Castilho.

Elis Regina, moradora da cidade também postou nas redes sociais: “Em pleno século XXI e a Igreja Católica ainda tem o poder de censurar a arte. Sim isso está acontecendo aqui em Arcoverde, interior de PE, onde vetaram a Paixão de Cristo, promovida pelo Sesc da cidade, por ter um cunho artístico e laico, normas do próprio Sesc! Pelo simples fato de ficarem incomodados dois padres conseguiram cancelar as apresentações e o pior mobilizar a cidade contra os artistas! Agora, minha amiga e seu grupo estão amedrontados até de andar na rua com receio do que pode acontecer. Absurdo! Até quando essa tirania? Não irão nos calar, a arte é superior a tudo isso! Enquanto jogam ódio e preconceito, iremos responder com protesto, amor e arte. ‪#‎ContraCensuraArcoverde‬ ‪#‎teatro‬ ‪#‎arte‬ ‪#‎contracensura‬”

Padre Adilson Simões em seu depoimento na rádio

Padre Adilson Simões em seu depoimento na rádio


No sábado, o Padre Adilson Simões voltou a se pronunciar, desta vez através do Facebook:

“Prezados amigos e amigas, reiniciando meus exercícios espirituais, nesse sábado santo, venho dizer-lhes que eu, Padre Adilson Simões, não pedi a suspensão da peça Horizonte da Paixão, há anos encenada em nossa cidade. Eu, no uso dos meus direitos, como cidadão cristão, sacerdote de Nosso Senhor Jesus Cristo, no uso do Ministério, a mim confiado pela Igreja, na unção do Espírito Santo, dirigi-me a direção geral do Sesc-PE e apresentei-lhes a minha indignação quanto ao conteúdo, cenas e interpretação da referida apresentação teatral nos dias mais santos do calendário litúrgico, a saber: o TRÍDUO PASCAL (quinta, sexta e sábado santos). Sim, apresentei o meu protesto, por dever pastoral, zelo pelo sagrado e amor ao que é Divino e o farei sempre, como sempre o fiz, em defesa da fé cristã. Agora, pergunto-lhes, amados e amadas: – O povo acostumado a assistir a Paixão de Cristo, em todos os lugares do mundo com piedade, foi respeitado, na forma como encenaram e interpretaram o texto, no contexto do tempo da Semana Santa? Quem, conhecendo as Sagradas Escrituras, católicos, evangélicos, ortodoxos ou simples estudiosos da religião, pode dizer, a partir dos textos originais no hebraico, grego ou latim, que tenha havido, na Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, discurso feminista ou colocações sobre a legitimidade do aborto e outros males do mundo atual? Pergunto ainda, onde e com que autoridade artística, cultural, ou científica, pode-se, por bel prazer, alterar textos originais? Durante 10 anos estudei Sagrada Escritura. Pela graça de Deus, tive a felicidade de ter acompanhamento de grandes mestres da teologia católica, formados na Universidade de Jerusalém, o maior centro de estudos bíblicos do mundo, e com eles e na vida, pelas revelações do Espírito Santo, aprendi que a Paixão de Cristo é o ato supremo do amor de Deus pela humanidade e, por sua natureza humana e divina, é o ápice da vida cristã.Termino, com as palavras do Cardeal Odilo, Arcebispo de São Paulo, ”se querem respeito, respeitem!”
Contem sempre com minhas orações. Tenham todos e todas uma Santa Páscoa, em Cristo Ressuscitado, vida em plenitude”.

Peça é apresentada há 15 anos em Arcoverde

Peça é apresentada há 15 anos em Arcoverde

Neste domingo, artistas e produtores culturais de Arcoverde soltaram carta aberta em que condenam a censura ao espetáculo.

Carta aberta do Movimento Cultural de Arcoverde em resposta ao cancelamento do espetáculo Horizonte da Paixão.
Horizonte da Paixão, espetáculo artístico e não catequético, com liberdade poética não para reescrever a história mas para interpretar e aproximá-la do público, independente de credos, ideologia política, raça, etc. O Movimento Cultural sempre esteve aberto ao diálogo com todos os líderes religiosos da região, embora não tenhamos sido procurados antes, durante ou depois do espetáculo nestes 15 anos de realização. A história representada não possui direitos autorais sendo assim domínio público e podendo ser interpretada do ponto de vista dos que a fazem, observando os valores morais e éticos da sociedade e o respeito às transformações desses valores. Sempre existiu, acima de tudo, o respeito às crenças e signos religiosos. A versão do espetáculo para 2015 segue o conceito dos anos anteriores, que é aproximar a história do público, sobretudo os jovens, trazendo uma reflexão para a atualidade. A Arte permite a reinterpretação de signos não se detendo a doutrinas e dogmas religiosos. Ainda assim jamais foi nossa intenção ferir essas simbologias. Quando a montagem propõe a reinterpretação dessa história confia na inteligência e discernimento do público, sem provocar a fé, apenas suscitar questionamentos do mundo atual, sabendo que a fé não está diretamente ligada a conceitos estéticos. Não cabe à Arte julgar ou alterar a fé. O espetáculo vem propondo desde seu surgimento cenas contemporâneas como a participação de jovens reeducandos da FUNASE (Fundação de Atendimento Sócio-educativo) e modificando seus cenários e figurinos.

Em torno da apresentação de 2015, criou-se um burburinho com interpretações do espetáculo por líderes religiosos que assumidamente não o viram, se utilizando de discursos de terceiros. Numa demonstração de abuso do poder de influência em meios de comunicação de massa, incitaram inverdades, revoltas, boicote e intolerância. A partir desse discurso gerou-se uma série de ações de represálias, agressões verbais e ameaças de protestos e à integridade física dos integrantes do espetáculo, causando mal-estar entre a comunidade religiosa e a comunidade artística. Vale frisar que a comunidade artística também é integrada por pessoas religiosas. O Sesc Pernambuco, responsável pela realização deste projeto, optou pelo cancelamento de forma arbitrária, sem consulta prévia, não levando em consideração a opinião dos artistas envolvidos.

Repudiamos a atitude e os termos utilizados pelo senhor Adilson Simões ao dizer que o espetáculo foi feito de forma “desonerada”, “absurda”, “sacrílega”, “abortiva” e “feminista”. Em nenhum momento existe menção ou apologia ao aborto. Em relação ao feminismo, entendemos o momento de respeitar o ser humano independente de gêneros. De acordo com a Constituição Federal Brasileira em seu artigo 5 º, parágrafo 1º “Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações nos termos desta Constituição”.

Repudiamos que em pleno século XXI um espetáculo seja censurado em razão da divergência de opiniões, que os artistas sofram retaliação da sociedade por sua visão artística, que seja desrespeitado todo o tempo dedicado ao processo de produção, planejamento, criação e ensaios. Repudiamos que o público que há tantos anos acompanha o projeto Horizonte da Paixão seja lesado e volte para casa por não poder apreciar o espetáculo que já estava pronto. Repudiamos os prejuízos econômicos, turísticos, culturais e sociais advindos da extinção deste projeto e por fim, repudiamos o retrocesso que fere a sociedade e cultura arcoverdense e principalmente a Constituição Federal, que reza no seu artigo 5º, parágrafo 9: ‘É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.

diretor Ney Mendes está preocupado com a relação entre artistas e público

diretor Ney Mendes está preocupado com a relação entre artistas e público

Segundo Ney Mendes, o diretor do espetáculo, o movimento está tomando uma proporção bem grande. “O nosso movimento está botando a cara na rua e nas redes não é pelo cancelamento do Horizonte por parte do Sesc, ou pelo fato de o Padre ter exposto sua opinião”, explica. Ele garante que o grupo poderia ter apresentado o espetáculo, sem figurinos, sem cenários, sem o nome Horizonte da Paixão (já que esse pertence ao Sesc). Mas o problema é que no discurso sobre o espetáculo o padre utilizou de termos como: “desordenado”, “absurda”, “sacrílega”, “abortiva” e “feminista”, causando um grande mal-estar, chegando ao ponto de os artistas envolvidos no espetáculo sofrerem ameaças de populares embasados nesse discurso infundado.

Nossa preocupação é com o futuro teatral da cidade, como esse momento pode reverberar na relação entre o público e os artistas”, atesta o diretor do espetáculo Ney Mendes. “O padre alega que na encenação ao colocarmos Jesus sobre a mesa estávamos debochando da religião, apesar do espetáculo ter natureza puramente artística, nunca foi nossa intenção denegrir ou debochar de qualquer que seja o símbolo ou a religião, e que se o padre (apesar de assumidamente não ter assistido o espetáculo) tivesse nos apresentado a sua indignação de forma pacifica através do diálogo, poderíamos ter resolvido esse problema sem maiores prejuízos”, nos conta o diretor.

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