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Até onde somos humanos?
Androide protagoniza espetáculo perturbador
Crítica de Vale da Estranheza

Escritor e dramaturgo alemão Thomas Melle e o seu duplo robô. Foto: Guto Muniz / Divulgação

Na peça-palestra, Melle expõe as intervenções da tecnologia na vida de um homem surdo. Foto Guto Muniz

Já sabemos desde (quando, mesmo?!)… que aquela figura sentada diante da plateia não é humana. Parece, sim. Mas não é. E talvez essa informação tenha motivado alguns de nós a ir conferir de perto. Sabemos que esse espetáculo do grupo alemão Rimini Protokoll é protagonizado por um modelo animatrônico, uma máquina, um robô. Sua não-humanidade é “denunciada” pelo sutil zunido de motores minúsculos, que pode ser notado com seus movimentos de cabeça ou braços; ou na engrenagem exposta atrás de sua cabeça.

“Se você veio aqui para ver um ator, está no lugar errado”, provoca o protagonista de Vale da Estranheza (Uncanny Valley), à certa altura da peça. “Mas se veio para ver algo autêntico, está no lugar errado também.”

Gente é algo autêntico? Cada vez duvido mais disso. As pessoas podem ser bem artificiais e essa ocorrência desliza de forma subterrânea durante toda a peça-palestra. “Eus naturais” versus “eus artificiais”.

Uma das principais atrações da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, Vale da Estranheza, dirigida pelo suíço Stefan Kaegi, aciona as percepções de limites do que é humano, do que é máquina, essas fronteiras embaralhadas entres humanoides e algoritmos. Convoca para reflexões éticas, mesmo que isso não esteja em primeiro plano.

Modelo animatrônico expõe processo de criação. Foto: Guto Muniz / Divulgação

Sentado em uma cadeira está o duplo animatrônico quase perfeito do escritor e dramaturgo alemão Thomas Melle. O Melle real publicou em 2016 um livro em que examina o transtorno maníaco-depressivo, conhecido como bipolaridade, do qual é vítima. Tem ao seu lado um copo d’água, que não bebe, e à frente um laptop da Apple. O outro assunto da palestra é a vida de Alan Turing, o pioneiro cientista da computação. 

O texto e o discurso da peça, de Kaegi e Melle, provocam cortes profundos na percepção do ser humano como centro do universo. Apontam testes em que robôs burlam a segurança e se passam por humanos. E pontuam aproximações com a rotina metódica de tanta gente, que se mostra similar a uma repetição robótica.

A estranheza do título remete ao fenômeno identificado pelo roboticista japonês Masahiro Mori na década de 1970. De que, ao mesmo tempo que fascina, essas máquinas ultrarrealistas geram um desconforto emocional.

A performance salienta o domínio da tecnologia contemporânea nas nossas vidas e as possibilidades abertas de campos de experimentação.

É um programa habilidoso, instigante, diria até poético. Com mobilidade reduzida, o protagonista fica o tempo todo sentado, com uma perna cruzada sobre a outra, movimenta mãos e cabeça e fala muito.  O dinamismo é instalado por outros elementos da cena como luz, som, projeção de vídeo e outros dispositivos.

Humanoide empático e sarcástico. Foto: Guto Muniz / Divugação

Instabilidade emocional

Seguindo essa linha da palestra sobre instabilidade emocional em humanos é possível pensar que a tecnologia provoca esses estados alterados, do fenômeno do título à tensão cotidiana dos algoritmos nas redes sociais, que chegam a determinar as decisões.

O Melle máquina conversa com o público por meio de uma série de imagens e vídeos explorando o processo de sua própria criação. A palestra exibe como o robô foi feito, com o Melle humano submetido a horas de moldagem, um processo claustrofóbico que o dramaturgo intitulou de “Máscara da Morte de Silicone”. 

Ele questiona certezas humanas e isso chega a ser engraçado, pois atua feito um oráculo que devolve enigmas. E um problematizador de éticas.

No seu monólogo denso e sério, com algumas piadinhas no meio, o autômato se mostra empático e sarcástico. No ambiente da apresentação se revela muito mais empático do que muita gente. E mesmo que os cientistas digam que máquinas não pegam doenças e não envelhecem, o algo triste do Melle robô refuta de alguma forma essa ideia.

Dois pontos ficam acesos (em mim) dessa peça depois da saída do teatro. A fragilidade do robô, o que há de falho nele, sua vulnerabilidade, muito mais que o que existe de perfeito, como projeção desse humano imperfeito e bipolar e o que e possível explorar dessa perspectiva. O imponderável, o erro que pode abrir caminhos surpreendentes.

E a presença forte da máquina na cena como experiência teatral. O robô carregado de memória humana. E o teatro acontece.

Ao final aplaudimos o modelo animatrônico que expôs com gestos delicados seu percurso, reforçando a linha tênue do que é ficção. Inquirindo o que nos diferencia do robô. O Melle máquina não agradece e a equipe técnica que faz a coisa toda acontecer continua nos bastidores. Enquanto isso, os espectadores curiosos tentam pegar mais uma lasquinha do humanoide, com fotos para suas redes sociais.  

 

 

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