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Todos permanecem vivos

As irmãs Macaluso. Foto: Lígia Jardim

As irmãs Macaluso. Foto: Lígia Jardim

No último dia 19 de fevereiro, o The New York Times publicou um artigo de Oliver Sacks. No texto, que viralizou rapidamente pelas mídias sociais, o escritor e professor de neurologia escreveu sobre a experiência de encarar a consciência da proximidade da morte por conta de um câncer terminal. Os compartilhamentos na rede talvez tenham vindo pelo fato de que, ao invés do tom pesaroso diante da finitude, o artigo propunha a superação, com uma mensagem clara de encorajamento. “It is up to me now to choose how to live out the months that remain to me (Agora depende de mim escolher como viver os meses que me restam)”. Para o filósofo existencialista Martin Heidegger, a tomada de consciência da morte nos leva a um questionamento radical diante do ser. Em As irmãs Macaluso, montagem da Compagnia Sud Costa Occidentale, esse questionamento é trazido exatamente pela convivência com a morte proposta pela encenação de Emma Dante: os mortos continuam sendo parte de nós. Será que estamos mesmo vivos? O que determina a existência de vida?

As sete irmãs da história – Gina, Cetty, Maria, Katia, Lia, Pinucia e Antonella – saem do limbo da escuridão e passam a existir para os espectadores inicialmente todas de preto. Executam cortejos fúnebres coreografados, em bloco, mesmo diante da insistência de uma delas em se destacar do grupo com liberdade de expressão. Se a queda se instaura por alguns instantes, a força do grupo reanima, coloca de volta no prumo.

A movimentação permanece até que as irmãs assumem a posição na qual permanecerão ao longo de praticamente toda a montagem, dispostas uma ao lado da outra. Na encenação da diretora e dramaturga de Palermo, no entanto, o fuzilamento do pelotão não será pelas mãos de elementos desconhecidos, externos, sem qualquer relação próxima e que apenas cumprem ordens pós-sentença de morte. Numa reunião familiar, as lembranças podem ser muito mais cortantes e virulentas do que qualquer projétil. Os julgamentos são desfiados e se mostram inevitáveis quando os laços relacionais permitem o conhecimento profundo do outro.

Montagem da Compagnia Sud Costa Occidentale tem direção de Emma Dante

Montagem da Compagnia Sud Costa Occidentale tem direção de Emma Dante

A história da família é marcada por tragédias

A história da família é marcada por tragédias

O estado de energia e tensão presente no corpo das atrizes se desdobra na sonoridade da língua – o espetáculo é encenado no dialeto de Palermo – e das músicas cantadas inclusive pelos próprios atores. A partir do ritmo impresso pela movimentação do corpo, a poética do espetáculo vai se afirmando aos poucos e reverberando na plateia. As risadas com as travessuras e episódios de infância se transformam com a apreciação dos dramas que compõem a história daquela família, marcada por tragédias e calcada na tradição. O humor e a ironia travam uma relação tênue com a melancolia da percepção dos erros, com a inevitabilidade do acidente trágico, com os cuidados que deveriam ser tomados e não foram. O tempo não volta atrás, mas permanece. O presente existe enquanto desdobramento do passado, mas esse último não se exaure, se estabelece como permanência e continuidade.

Na cena, a realidade vai sendo permeada pela memória, que é capaz de se mostrar cruel e dura, mas também pode trazer uma afetividade transbordante. O que foi se apresenta amalgamado com o presente. Os que morreram permanecem ali e, mesmo aqueles que parecem voltar, nunca estiveram no campo do esquecimento. O pai, que faz um grunhido de porco, dá bronca com dedo em riste, mas canta a música com a preferida, a caçula, já estava presente como narrativa. Uma das sequências de maior potência poética na montagem é o encontro da mãe com o pai. Os dois giram agarrados como crianças, eternizando um momento que pode ser ilusão, sonho, idealização.

O encontro entre o pai e a mãe

O encontro entre o pai e a mãe

Sem nenhum cenário ou mesmo aparatos tecnológicos, a teatralidade de Emma Dante é construída a partir do vazio. Do vazio do preto que assume outras cores, mas depois se estabelece como ausência de cor. Do vazio do silêncio preenchido pela sonoridade rápida e ininteligível do dialeto. Do vazio da narrativa que se transforma em memória. Também há muita simplicidade estampada na cena. Quando a opção é óbvia, mas eficiente: o convívio do espectador com a história que nos agarra sem que nenhum esforço se mostre excessivo, talvez só pela constatação de que, naquela família, cabem todas as famílias do mundo, inclusive a minha.

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MITsp traz ao palco conflitos, discussão e crítica

As irmãs Macaluso

As irmãs Macaluso

Na cidade mais cosmopolita do Brasil, um festival que discute o teatro feito além do nosso umbigo. Produzido no mundo. Que coloca em pé de igualdade a apresentação da obra e as reverberações que podem surgir a partir daí: encontros com diretores, grupos, pesquisadores, crítica. É exatamente pela combinação desses elementos que a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – MITsp – é, mais uma vez, tão potente de possibilidades.

A segunda do festival, aberto na noite de ontem, no auditório Ibirapuera, em São Paulo, com a presença do prefeito Fernando Haddad, de representantes do Ministério da Cultura, do Sesc, do Itaú Cultural e da Oi, traz este ano espetáculos da Rússia, Alemanha, Inglaterra, Ucrânia, Holanda, Itália, Israel, Colômbia e Brasil.

Matando o tempo. Foto: Juan Carlos Mazo

Matando o tempo. Foto: Juan Carlos Mazo

Antônio Araújo, diretor do Teatro da Vertigem, e Guilherme Marques, diretor geral do CIT-Ecum (Centro Internacional de Teatro Ecum) pensaram uma programação a partir da ideia de conflito, inclusive territorial. O espetáculo israelense Arquivo, por exemplo, com direção e autoria de Arkadi Zaides, usa imagens projetadas do arquivo do Centro de Informação Israelense pelos Direitos Humanos nos territórios ocupados. Voluntários palestinos que vivem na Cisjordânia receberam câmeras para gravar o dia a dia na ocupação.

As montagens geralmente também apresentam radicalidades com relação à encenação. Stifters Dinge, da Alemanha, direção de Heiner Goebbels, propõe uma performance sem atores, “uma instalação sonora e imagética que experimenta o cruzamento das artes visuais com a música erudita contemporânea”, diz o material do programa da MIT.

Stifters Dinge. Foto: Mario del Curto

Stifters Dinge. Foto: Mario del Curto

O festival traz ainda a sua primeira coprodução: o espetáculo Canção de muito longe, da Holanda, com direção de Ivo van Hove, que estreia no Brasil. Na montagem, “um jovem banqueiro retorna de Nova York para sua cidade natal, Amsterdã, para assistir ao funeral do seu irmão mais novo”, antecipa o programa.

As atividades de debate e formação incluem, por exemplo, uma ação intitulada Diálogos Transversais, que traz nomes geralmente de outros campos do conhecimento que não as artes cênicas, para discutirem os espetáculos logo após a apresentação. Para exemplificar, José Miguel Wisnik vai tratar de Canção de muito longe; Raquel Rolnik de Julia, espetáculo de Christiane Jatahy, e Bernardo Carvalho, de Arquivo.

Canção de muito longe

Canção de muito longe

Uma das mesas de discussão mais esperadas acontece no dia 15, às 11h, no Itaú Cultural, com Josete Féral, José Antonio Sánchez, Kil Abreu e Luiz Fernando Ramos.

Crítica

O Satisfeita, Yolanda? participa mais uma vez da MITsp como integrante do coletivo DocumentaCena, formado ainda pelos espaços virtuais Teatrojornal, Questão de crítica e Horizonte da Cena. Ao DocumentaCena, juntam-se outros críticos convidados – Beth Néspoli, Daniel Schenker, Michel Fernandes, Ruy Filho e Wellington Andrade – para que todos os espetáculos possam ter pelo menos três apreciações críticas. Os textos vão circular em publicações impressas nos próprios teatros e serão postados também no blog Olhares críticos, dentro do site da MITsp. Os textos dos integrantes do coletivo DocumentaCena serão publicados também aqui no Satisfeita, Yolanda?.

Oficina DocumentaCena

O DocumentaCena propôs também uma laboratório de crítica de teatro, que será realizado dias 11 e 12 de março, das 10h às 14h, no Centro de Pesquisa e Formação, no Sesc SP. O encontro pretende debater questões inerentes à crítica teatral, desde um recorte histórico sobre a crítica no Brasil, até a relação com outras artes, as especificidades da crítica jornalística e acadêmica e o local do espectador diante da crítica. As inscrições para a oficina estão abertas e podem ser feitas através do e-mail inscricoes@mitsp.org .

Confira a programação da MIT no site da mostra.

E se elas fossem para Moscou? Foto: Aline Macedo

E se elas fossem para Moscou? Foto: Aline Macedo

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Irandhir Santos, Newton Moreno e MITsp entre os vencedores do APCA

Saiu na noite de ontem (1) a lista dos vencedores do 59º Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). São diversas categorias, que incluem, por exemplo, arquitetura, literatura, cinema, teatro, dança e televisão.

No teatro, o prêmio de melhor espetáculo foi dividido entre duas montagens: O homem de La Mancha e Pessoas perfeitas; o pernambucano Newton Moreno levou o prêmio de dramaturgia ao lado de Alessandro Toller por O grande circo místico; Laila Garin (que esteve no Recife com o elenco de Gonzação, A lenda) ganhou melhor atriz por seu papel em Elis, A musical; e o prêmio especial foi para a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), realizada em março. Na categoria televisão, Irandhir Santos, que estuda a possibilidade de voltar aos palcos na próxima montagem do Coletivo Angu de Teatro, levou melhor ator por Amores roubados e Meu pedacinho de chão.

A festa de premiação será realizada ano que vem.

Confira a lista completa dos premiados no APCA 2014:

TEATRO

Grande Prêmio da Crítica: Laura Cardoso

Espetáculo: O Homem de La Mancha e Pessoas Perfeitas

Eduardo Chagas e Marta Baião em Pessoas Perfeitas, do Satyros. Foto: André Stéfano

Eduardo Chagas e Marta Baião em Pessoas Perfeitas, do Satyros. Foto: André Stéfano

O Homem de La Mancha

O Homem de La Mancha

Diretor: Marco Antonio Pâmio (Assim É (Se Lhe Parece))

Dramaturgia: Newton Moreno e Alessandro Toller (O Grande Circo Místico)

O Grande Circo Místico. Foto: Leo Aversa

O Grande Circo Místico. Foto: Leo Aversa

Ator: Cleto Baccic (O Homem de La Mancha)

Atriz: Laila Garin (Elis, a Musical)

Laila Garin em Elis, A musical. Foto: Caio Galluci/divulgação

Laila Garin em Elis, A musical. Foto: Caio Galluci/divulgação

Prêmio Especial: Prêmio MitSP (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo)

Companhia lituana OKT encenou Hamlet na MITsp. Foto: Lígia Jardim

Companhia lituana OKT encenou Hamlet na MITsp. Foto: Lígia Jardim

Votaram: Afonso Gentil, Aguinaldo Cristofani Ribeiro da Cunha, Carmelinda Guimarães, Edgar Olímpio de Souza, Evaristo Martins de Azevedo, José Cetra Filho, Kyra Piscitelli, Marcio Aquiles, Maria Eugênia de Menezes, Michel Fernandes, Miguel Arcanjo Prado, Tellé Cardim e Vinício Angelici

TEATRO INFANTIL

Grande Prêmio da Crítica: Banda Mirim, pela trajetória de 10 anos (direção de Marcelo Romagnoli)

Melhor Espetáculo com Música para Crianças: Mania de Explicação, de Luana Piovani Produções Artísticas (direção de Gabriel Villela)

Melhor Espetáculo com Texto Adaptado para Crianças: As Bruxas da Escócia, do Grupo Vagalum Tum Tum (direção de Ângelo Brandini)

Melhor Espetáculo com Contação de Histórias: As Três Penas do Rabo do Grifo, da cia. Faz e Conta (Ana Luísa Lacombe)

Melhor Elenco de Peça: Cia Delas, por A Famosa Invasão dos Ursos na Sicília (atrizes Cecília Magalhães, Fernanda Castello Branco, Lilian Damasceno, Paula Weinfeld e Thaís Medeiros, com direção de Carla Candiotto)

Melhor Espetáculo com Interação de Mídias: O Sonho de Jerônimo, do grupo Fabulosa Companhia (direção de Eric Nowinski)

Personalidade do Ano no Teatro Para Crianças e Jovens: Luíza Jorge, pela criação, coordenação e produção do novo Prêmio São Paulo de Incentivo ao Teatro Infantil e Jovem

Votaram: Dib Carneiro Neto, Gabriela Romeu e Mônica Rodrigues da Costa

TELEVISÃO

Dramaturgia: Amores Roubados/TV Globo

Atriz: Cássia Kis Magro (Amores Roubados e O Rebu/TV Globo)

Ator: Irandhir Santos (Amores Roubados e Meu Pedacinho de Chão/TV Globo)

Irandhir Santos como Zelão em Meu Pedacinho de Chão. Foto: TV Globo

Irandhir Santos como Zelão em Meu Pedacinho de Chão. Foto: TV Globo

Direção: José Luiz Villamarim (Amores Roubados e O Rebu)

Programa de Variedades: O Infiltrado/History Channel

Programa de Humor: Tá no Ar/TV Globo

Programa Infantil: Quintal da Cultura/TV Cultura

Menção Honrosa: A Grande Família/TV Globo (pela trajetória e episódio final)

Votaram: Cristina Padiglione, Edianez Parente, Flávio Ricco, João Fernando, José Armando Vanucci, Leão Lobo e Neuber Fischer

DANÇA

Grande Prêmio da Crítica: Lia Rodrigues, por Pindorama e Exercício M

Pesquisa em Dança: Biomashup, de Cristian Duarte e Lote # 3

Projetos em Dança: Marcos Villas Bôas

Criação em Dança: Cena 11, por Monotonia de Aproximação e Fuga para 7 Corpos

Espetáculo: Tira Meu Fôlego, de Elisa Ohtake e elenco

Percurso em Dança: Vera Sala / Hideki Matsuda

Iniciativa em Dança: 7×7, projeto de Sheila Ribeiro

Votaram: Ana Teixeira, Ana Francisca Ponzio, Helena Katz e Renata Xavier

CINEMA

Filme: Praia do Futuro, de Karim Aïnouz

Diretor: Paulo Sacramento, por Riocorrente

Roteiro: Fernando Coimbra, por O Lobo Atrás da Porta

Ator: Ghilherme Lobo, por Hoje Eu Não Quero Voltar Sozinho

Atriz: Deborah Secco, por Boa Sorte

Documentário: São Silvestre, de Lina Chamie

Fotografia: Jacob Solitrenick, por De Menor

Votaram: Orlando Margarido, Rubens Ewald Filho e Walter Cezar Addeo

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ARTES VISUAIS

Grande Prêmio da Crítica: Abraham Palatnik – A Reinvenção da Pintura – MAM

Exposição Internacional: Hans Hartung – Oficina do Gesto – CCBB

Exposição: Paulo Bruscky – MAM

Retrospectiva: Iberê Camargo – Um Trágico nos trópicos – CCBB

Fotografia:Luiz Braga – Retumbante Natureza Humanizada – SESC Pinheiros

Obra Gáfica: José Roberto Aguillar – 50 Anos de Arte

Iniciativa Cultural: Cidade Matarazzo Made by…. Feito por brasileiros

Votaram: Antonio Santoro Jr., Antonio Zago, Dalva Abrantes, João J. Spinelli, José Henrique Fabre Rolim, Luiz Ernesto Machado Kawall, Marcos Rizolli, Ricardo Nicola, Silvia Balady, Emilia Okubo e Rubens Fernandes Junior.

LITERATURA

Grande Prêmio da Crítica: João Adolfo Hansen e Marcello Moreira pelos cinco volumes “Gregório de Matos”; editora Autêntica

Romance: “O Irmão Alemão”, de Chico Buarque; editora Companhia das Letras

Ensaio/Crítica/Reportagem: “Música com Z”, de Zuza Homem de Mello; editora 34

Infanto-Juvenil: “A Incrível História do Dr. Augusto Ruschi”, de Paulo Tatit; editora Melhoramentos

Poesia: “Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo”, de Paulo Scott; editora Companhia das Letras

Contos/Crônicas: “O Homem-mulher”, de Sérgio Sant’Anna; editora Companhia das Letras

Tradução: Caetano Galindo, por “Graça infinita”, de David Foster Wallace; editora Companhia das Letras

Biografia/Memória: “Getúlio (1945 – 1954) – Da volta pela consagração popular ao suicídio”, de Lira Neto; editora Companhia das Letras

Votaram: Amilton Pinheiro, Felipe Franco Munhoz, Gabriel Kwak, Luiz Costa Pereira Jr. e Ubiratan Brasil

MÚSICA POPULAR

Grande Prêmio da Crítica: Nelson Motta

Grupo: Banda do Mar

Intérprete: Anelis Assumpção

Compositor: Marcelo Jeneci

Revelação: Ian Ramil (pelo álbum “Ian”)

Álbum: Encarnado, de Juçara Marçal

Show: Titãs – Nheengatu

Projeto Especial – Jazz na Fábrica – Sesc Pompeia

Votaram: Inês Fernandes Correia, José Norberto Flesch e Marcelo Costa

RÁDIO

Prêmio Especial do Juri: Milton Jung – Jornal da CBN 1ª edição

Internet: Plug Rádio USCS – Universidade Municipal de São Caetano do Sul (plugradiouscs.com.br)

Musical: Espaço Rap 2 – 105 FM

Humor: Plantão de Notícias – Rádio Globo AM

Variedades: No Mundo da Bola, 25 anos – Rádio Jovem Pan

Cultura Geral: Estadão Noite – Rádio Estadão

Destaque do Ano: Um Pouquinho de Brasil – Cultura FM

Votaram: Fausto Silva Neto, Marco Antonio Ribeiro e Sílvio Di Nardo

ARQUITETURA

Homenagem pelo conjunto da obra: Giancarlo Gasperini

Fronteiras da arquitetura: “Maneiras de expor: a arquitetura expositiva de Lina Bo Bardi”, curadoria de Giancarlo Latorraca/Museu da Casa Brasileira

Projeto urbano: Ponte Bayer – passarela móvel sobre o canal Guarapiranga, São Paulo – Loeb Capote Arquitetura e Urbanismo/ arquitetos Roberto Loeb e Luis Capote

Urbanidade: reurbanização de favela do Sapé – Base 3 Arquitetos/ arquitetos Catherine Otondo, Jorge Pessoa de Carvalho e Marina Grinover

Narrativas urbanas: Cristiano Mascaro

Difusão: documentário “Bernardes”, direção Gustavo Gama Rodrigues e Paulo de Barros

Revelação: Alojamentos estudantil na Ciudad del Saber, Panamá – SIC Arquitetura / arquitetos Eduardo Crafig, Juliana Garcias, Marcio Guarnieri, Fabio Kassai e Gabriela Gurgel

Votaram: Abílio Guerra, Maria Isabel Villac, Fernando Serapião, Guilherme Wisnik, Mônica Junqueira Camargo e Nadia Somekh

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Críticas: Ubu e a Comissão da Verdade

Montagem é assinada pelo sul-africano William Kentridge, diretor da Handspring Puppet Companyé. Foto: Lígia Jardim

Montagem é assinada pelo sul-africano William Kentridge, da Handspring Puppet Companyé. Foto: Lígia Jardim

As artes e o todo
Por Maria Eugênia de Menezes – Teatrojornal

Ubu e a Comissão da Verdade é exemplo do que se convencionou chamar arte “multimídia”. Aqui, saberes e linguagens são amalgamados com a intenção de conceber uma obra híbrida. Expediente que se relaciona intrinsecamente à trajetória de seu diretor, o sul-africano William Kentridge.
Em 2013, o público de São Paulo teve a chance de aproximar-se do peculiar processo criativo desse artista de múltiplas competências. Realizada na Pinacoteca do Estado, uma exposição reuniu parcela considerável de seus filmes, animações, desenhos, esculturas e gravuras.

A despeito do reconhecimento internacional que conquistou como artista visual, Kentridge não pode ser descrito como um neófito nas artes cênicas. O título apresentado na MITsp é parte de um percurso ligado ao teatro – como ilustrador de cartazes de espetáculo, ator e encenador. Outra informação interessante à apreciação da montagem é sua formação prévia como cientista político.

Ubu e a Comissão da Verdade toma elementos de Ubu Rei (a peça máxima de Alfred Jarry), mesclando-os às audiências da comissão que investigou os abusos e crimes cometidos durante o regime do apartheid. Nessa sobreposição, dá-se um oportuno encontro entre ficção e realidade.

O protagonista grotesco de Jarry impregna o imaginário ocidental justamente como personificação da inveja, da maldade arbitrária e do abuso de poder. Outro achado da produção foi captar o caráter teatral dessas comissões que percorreram a África do Sul entre 1996 e 1998. Em depoimento, Kentridge expôs sua curiosidade por essa espécie de “teatro público” realizado nessas audiências: com testemunhas que sucediam no “palco”, sempre diante de uma plateia, relatando a violência que sofreram.

Assinada por Jane Taylor, a dramaturgia consegue sustentar a potência satírica da base ficcional de onde partiu. Ressignifica a imagem de Ubu, mantendo suas características originais de bufão bruto, mas sendo capaz de dar-lhe críveis contornos de um agente de violência do Estado.

Neste espetáculo da Handspring Puppet Company, o uso de bonecos e filmes de animação também pode ser entendido como procedimento dramatúrgico. Deixa evidente, sem que seja necessário recorrer a comentários textuais, o processo de desumanização dos envolvidos na sangrenta saga de perseguição a negros que vigorou no país entre as décadas de 1960 e 1990. Intencionalmente sujos e mal-acabados, os desenhos de Kentridge corroboram a proposta.

Em momento algum, a trama propõe o enfrentamento direto entre o algoz Ubu e suas vítimas. Não existe drama. Os indivíduos são convocados a falar como ecos de um contexto que os ultrapassa. Não interessa personificar suas mazelas, mas entendê-las como fruto de um contexto histórico e de uma determinada prática social.

O resultado de uma obra de arte não é a soma exata dos recursos empreendidos em sua criação. Seria injusto ler os filmes animados de Kentridge como supérfluos ou mal-realizados. Sua potência, contudo, soa diminuída se comparada a obras de igual natureza do artista. Referenciados anteriormente, os méritos da peça também não a redimem da ausência de ambição em problematizar o complexo material político que tem nas mãos. Engenho e beleza, neste caso, podem não ser capazes de apagar uma vaga sensação de insignificância.

Diretor escolheu o caminho de uma teatralidade exacerbada e fortemente satírica

Diretor escolheu o caminho de uma teatralidade exacerbada e fortemente satírica

Meios expressivos para o poético e o grotesco do humano
Por Luciana Romagnolli – Horizonte da Cena

É sabido que cada forma implica um sistema de relações com o mundo, portanto, é também fundadora de sentidos. Assim, quando uma problemática como a da reelaboração artística de um passado político traumático assume formalizações muito distintas como em dois espetáculos presentes nesta Mostra Internacional de Teatro, as perspectivas do olhar apontam para abordagens éticas e efeitos distintos – sob certos aspectos, complementares.

Enquanto Guillermo Calderón assumiu uma representação de teor realista para a ditadura chilena em Escola, recontada sob o ponto de vista dos militantes da resistência popular armada, o sul-africano William Kentridge, diretor da Handspring Puppet Company, faz caminho inverso em Ubu e a Comissão da Verdade. O processo de denúncia dos crimes contra a humanidade cometidos pelos artífices do apartheid e de busca por uma reconciliação com os carrascos é resgatado por recurso a uma teatralidade exacerbada e fortemente satírica, na qual o protagonismo recai sobre a figura do torturador.

Além das diferenças evidentes entre os dois espetáculos, também no interior de uma só obra a concomitância de meios expressivos coloca em tensão diferenciações que resvalam no campo da ética e hão de ser percebidas pelo espectador como desdobramentos possíveis na produção de sentidos do espetáculo. O contraste se dá entre a construção caricatural de Ubu, o torturador, e sua esposa, ambos feitos por atores que investem em corpos estilizados de modo farsesco, que os desnaturaliza; e a representação das vítimas da violência racial como bonecos manipulados, ressaltando a força poética e lúdica desse meio expressivo.

A coexistência de personagens-atores e personagens-bonecos produz então um efeito de distanciamento maior em relação às vitimas, fundamental para a perspectiva que a encenação adotará: a Kentridge interessa jogar luzes sobre os atos dos agentes da violência. Iluminar suas distorções. Não opera uma identificação empática com a vítima mais do que uma necessária rejeição à atitude do agressor – capaz, espera-se, de impedir que a desumanidade se repita.

Criador do personagem Ubu, o francês Alfred Jarry (1873-1907) dizia que ele “representava todo o grotesco existente no mundo”. Dessa figura parte a dramaturga Jane Taylor para escrever o texto do espetáculo sul-africano, no qual o grotesco emerge como forma de expor a falta de sentido inerente às motivações e aos atos do torturador. Como observou o filósofo Vladimir Safatle em fala após a primeira apresentação, a forma farsesca serve à ridicularização das ações de tirania ao desconstruir pelo humor qualquer seriedade ou racionalidade possível.

Kentridge então recorre ao cômico e ao lúdico em uma encenação plena de recursos expressivos artesanais,
entre os quais estão os títeres “humanos” e uma sorte de formas animais, com os quais reforça aspectos irracionais da trama. Utiliza também vídeos – suporte para a poesia de desenhos alegóricos, friccionada por trechos documentais de brutalidades cometidas durante o apartheid. Novamente, a coexistência das linguagens poética e documental no meio audiovisual evita que se instale o sensacionalismo de imagens violentas, em favor da imaginação – uma operação libertadora para o humano.

Tanto quanto Escola, também Ubu e a Comissão da Verdade gera reflexões diretas em relação à realidade política brasileira nestes 50 anos do Golpe Militar. Embora a Comissão da Verdade esteja vigente, historicamente não houve punição aos torturadores – e nada indica que haverá. Diante das criações chilena e sul-africana, reacende também o questionamento à produção artística do país, pouco problematizadora do destino dos agentes da ditadura e de suas consequências sobre a sociedade.

Ubu e a Comissão da Verdade gera reflexões diretas em relação à realidade política brasileira nestes 50 anos do Golpe Militar

Ubu e a Comissão da Verdade gera reflexões diretas em relação à realidade política brasileira nestes 50 anos do Golpe Militar

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Críticas: Escola

Guillermo Calderón assina Escola. Foto: Marlon Marinho

Guillermo Calderón assina Escola. Foto: Marlon Marinho

Espaços para desconfiar do discurso
Por Luciana Romagnolli – Horizonte da Cena

Até o torturador cria para si histórias que o convençam de que faz o bem. Dita quase com essas palavras em Escola, tal frase é indício da perspectiva complexa com a qual o diretor Guillermo Calderón aborda temas políticos em espetáculos como Villa+Discurso, apresentado no Brasil em 2011 e 2012, e este Escola que ora traz à MITsp. É preciso desconfiar dos discursos. Deles escapam contradições, que revelam a concorrência de forças sob a superfície de uma convicção.

Em Villa, tais forças se mostravam mais evidentes na dramaturgia, separadas em opiniões distintas sobre o melhor modo de representar a memória da violência cometida durante a ditadura chilena a partir de um problema concreto: a construção de um museu. O conflito de pontos de vista estruturava as ações e se dava a ver na superfície dos discursos; e o encaminhamento dado a eles depunha sobre o caráter ilusório de um consenso ou uma verdadeira solução.

Parece ser dessa descrença no consenso que Calderón parte em Escola. Embora se ouça somente a perspectiva de um grupo de guerrilheiros em formação, a abordagem passa longe do dogmatismo. O teor reflexivo se encontra agora nas zonas quebradiças do discurso sustentado precariamente.

Personagens com os rostos ocultos por capuzes recebem ensinamentos para ir à luta armada contra o regime ditatorial nos anos 1980. Aprendem noções primárias de capitalismo, tiro e conspiração. O ensino ao qual o público é igualmente exposto sofre das limitações comuns à aprendizagem na escola: a veiculação de um discurso quase catequizante, do qual o aluno-espectador há de desconfiar por si mesmo. A escola surge como esse lugar de uma verdade que instrui, mas de cuja solidez se deve duvidar.

O trabalho de Calderón demanda um espectador não ingênuo e trabalha com concepções brechtianas livremente recriadas pelo encenador chileno. Os desencaixes entre cenas rompem a fluidez da fruição, incitando a leitura crítica a partir de sutilezas e subtextos. A defesa de uma forma de organização popular que faça uso da violência para instaurar um novo estado social, por exemplo, esbarra no baixo nível de formação política desses militantes, que pontualmente manifestam ingenuidades e contradições. Mesmo a legitimação da violência ganha sombras absurdas frente à descrição do funcionamento do revolver e do explosivo. A encenação realista, em espaço diminuto e cenografia econômica, atesta ainda certa ética da representação praticada por Calderón, que se esquiva à espetacularização.

Em sua exposição de uma célula de resistência popular, Escola ganha um caráter de urgência pelo diálogo com o contexto atual da América Latina, no contraponto de um passado ditatorial com as manifestações de descontentamento político do presente. A formação política deficiente, aliás, é um dos inúmeros pontos de aproximação possível do espetáculo com os protestos iniciados em junho passado no Brasil. Outro é o questionamento em relação à ditadura ter cedido a um governo falsamente democrático, que ainda operaria sob princípios autoritários e interesses alheios à população.

Calderón dispõe um lugar especial ao espectador: o de um encontro com uma ou mais visões de mundo que não tentem convencê-lo – posto que o convencimento seria um autoritarismo – mas demandem dele o assumir de uma postura. Essa operação se torna mais potente na medida em que a dramaturgia contempla um endereçamento ao futuro, ao pressupor que aquele momento político decisivo para o Chile seria retomado adiante e que a luta popular tem o exemplo de erros e acertos de um passado não muito distante.

Personagens com os rostos ocultos por capuzes recebem ensinamentos para ir à luta armada contra o regime ditatorial nos anos 1980

Personagens com os rostos ocultos por capuzes recebem ensinamentos para ir à luta armada contra o regime ditatorial nos anos 1980

O poder subversivo da contracultura formal
Por Valmir Santos – Teatrojornal

Os procedimentos dramatúrgicos e cênicos de Guillermo Calderón em Escola combinam elementos épicos e dramáticos que potencializam uma teatralidade feita de sutilezas e impurezas nas angulações crítica e política em que se anuncia. Seu mote é um achado, e explosivo. Ao circunscrever o treinamento dos integrantes de uma guerrilha em tempos de ditadura militar, o espetáculo dá margem para pensar noções de ideologia e de engajamento à luz dos dias que correm, quando o espaço público retoma vocação para a ágora em que manifestantes se fazem escutar.

Mas não se espere por abordagens históricas e socializantes elementares ou militantes, apenas. Elas vêm sob traços estéticos rigorosos nas mãos desse artista chileno nascido em 1971 e notabilizado pela estruturação ética e política de suas montagens.

Calderón é persuasivo ao visitar a cultura autóctone, a expressão popular, as ideias da militância de esquerda e o combate às sequelas do estágio atual do capitalismo justamente em tempos de crise de representatividade, refratários às ideologias. Os hinos revolucionários, o cancioneiro de evocação ao povo mapuche, os capuzes dos jovens movidos pela utopia são alguns dos aspectos mediadores da encenação.

A obra estabelece uma contracultura formal às expectativas pragmáticas suscitadas pelo tema. Desdramatiza os mecanismos didáticos, relativiza as tensões e rompe com a ilusão ao mesmo tempo em que dispõe documentos ou dados, às vezes projetando-os literalmente, inscrevendo imagem ou palavra no corpo dos atores. Essas transições são demarcadas pela gestualidade ou pela simbiose de luz e de cenário mínimos que delimitam o tempo e o espaço. A sugestão é de que estamos na década de 1980, sob as ordens do general Pinochet, mas o contexto é perfeitamente móvel em se tratando das realidades geopolíticas, principalmente no continente latino-americano.

Apesar da frontalidade do palco, o espectador trabalha com a visão de arena como espaço cênico. Não é incomum algumas dessas figuras postarem-se de costas para o público. Um círculo formado por bancos, cadeiras. Ao fundo, uma lousa. Há sempre um instrutor a conduzir os aprendizes com o discurso das estratégias e táticas de ação.

Esse caráter expositivo das aulas é a deixa para que a verve de Calderón aflore. As técnicas de aprendizagem no manuseio de arma ou de um artefato explosivo são rudimentares em que pese os argumentos fundamentados sobre a injustiça do regime de exceção a ser combatido. À missão conjecturada, a dramaturgia desarma-se da austeridade para desaguar momentos patéticos, um deles em clara referência ao bem-humorado e não menos corrosivo No (2012), filme de Pablo Larraín focado na campanha publicitária do plebiscito nacional que definiu o destino da ditadura no poder. São nessas contradições que enxergamos os revolucionários mascarados como seres falíveis em sua humanidade.

Escola sintetiza a capacidade de Calderón na economicidade do que tem a dizer e como o faz. Em sua trajetória recente, o teatro político não comporta a mensagem, antes a centelha do problema. Não abdica do componente ideológico em sua mirada e espera encontrar interlocutor disposto a enfrentar esse material sombrio do passado e do presente a partir das chaves do jogo teatral objetivo. Para tanto, o quinteto de atuadores conjuga o processo artístico ao processo histórico com solidez e consciência vigilantes no tablado, como podem os melhores comediantes confrontados à dimensão trágica da existência.

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