Desconstrução das imagens de controle
na performance de Gaëlle Bourges
Crítica: À mon seul désir

A mon seul désir, de Gaëlle Bourges (França). Foto: Danielle Voirin / Divulgação

Na história da arte ocidental, cada representação visual carrega consigo valores políticos que se consolidam através da difusão e da consagração cultural. Quando a coreógrafa francesa Gaëlle Bourges reativa performaticamente a tapeçaria medieval A Dama e o Unicórnio (c. 1490) em seu espetáculo À mon seul désir, ela interroga esse repertório visual que continua moldando nossa compreensão do feminino.

Exploradora da história da arte, Bourges se mostra uma cartógrafa crítica que mapeia a sedimentação histórica das representações de gênero, criando diálogos tensionados entre o da obra original na contemporaneidade.

A tapeçaria A Dama e o Unicórnio, obra-prima do final do século XV conservada no Museu de Cluny no Quartier Latin, em Paris, constitui o objeto arqueológico privilegiado desta desconstrução crítica. O título do espetáculo – À mon seul désir – provém diretamente da inscrição presente no enigmático sexto painel desta tapeçaria, cujos cinco primeiros alegorizam sucessivamente as relações da dama com os cinco sentidos tradicionais, culminando no mistério desse sexto sentido indeterminado.

O espetáculo inicia com uma composição visual precisa. Quatro performers nuas – Gaëlle Bourges, Agnès Butet, Marianne Chargois e Alice Roland – executam movimentações de lentidão ritualística diante de uma extensa cortina de veludo vermelho que se estende de um lado ao outro do palco (no caso da apresentação na programação do Feteag, no Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu, no Recife, nos dias 9 e 10 de outubro), criando uma passarela para a evolução das intérpretes.

As quatro artistas, cuja coreografia foi desenvolvida colaborativamente por Carla Bottiglieri, Gaëlle Bourges, Agnès Butet e Alice Roland, executam movimentações minuciosas: abaixam-se graciosamente, estendem os braços em gestos calculados, cravam delicadamente flores coloridas no tecido vermelho, criando desenhos efêmeros que se desfazem e se refazem ao longo da apresentação.

Durante essas sequências iniciais, escutamos um longo comentário em português que descreve e analisa a tapeçaria original. A narrativa em português foi desenvolvida por Nathalia Kloos, com tradução do texto realizada por Lia Imanishi e Nathalia Kloos. O texto combina informações históricas com interpretações críticas contemporâneas, conectando a história da arte com teorias atuais sobre performance e representação. Acompanhamos o áudio enquanto observamos o movimento das intérpretes, criando nossa própria relação entre o que ouvimos e o que vemos.

Bourges, Butet, Chargois e Roland utilizam máscaras que representam os animais presentes na tapeçaria – leão, raposa, macaco, unicórnio e coelho. Quando assumem essas identidades animais, as intérpretes demonstram uma precisão técnica impressionante, adotando posturas e movimentos do animal. A trilha sonora, criada por Stéphane Monteiro a.k.a XtroniK e Erwan Keravec, com direção de som e direção técnica geral de Stéphane Monteiro, acompanha essas transformações corporais. O design de luz, concebido por Abigail Fowler e Ludovic Rivière, com técnica de luz de Maureen Sizun Vom Dorp, cria atmosferas que realçam cada metamorfose animal.

Intérpretes utilizam máscaras de animais. Foto: Walton Ribeiro / Divulgação

Mobilizo o conceito “imagens de controle” desenvolvido por Patricia Hill Collins para encarar a complexidade política da operação que Bourges realiza. Essa escolha alinha-se com a dimensão crítica feminista que a própria diretora já havia sinalizado em suas declarações sobre a obra.

Esse conceito permitiu mostrar persistências estruturais significativas. As dicotomias medievais (virgem/prostituta, pura/impura, espiritual/carnal) funcionam como antecedentes históricos das binaridades hierárquicas contemporâneas. Essas representações estereotipadas funcionam como tecnologias de dominação. Na obra de Bourges, essas dinâmicas ganham materialidade através da tensão entre o unicórnio (pureza/virgindade) e os coelhos (sexualidade /transgressão).

Dessa forma, Bourges torna visível esse mecanismo quando suas performers alternam entre sacralidade contemplativa (flores, gestos lentos, postura pictórica) e transformação animal súbita através das máscaras. Cada mudança demonstra como as imagens de controle operam por oposição binária: a mulher só pode ser santa em contraste com a pecadora, pura em oposição à lasciva.

Diretora Bourges no ensaio com o coro

Quando o unicórnio rasga definitivamente o pano vermelho, toda a arquitetura cênica se transforma. O palco se expande revelando sua amplitude total, e com ela emerge um contraste brutal: a criatura da pureza “entoa” The End dos The Doors enquanto uma multiplicidade de corpos despidos – cada um carregando suas particularidades físicas e etárias – irrompe em saltos frenéticos usando máscaras de coelho. A rigorosa contenção gestual desmorona sob o peso de uma festividade alucinante. Surgem em ondas sucessivas estes “coelhinhos lascivos”, proliferando-se numa dança obsessiva. Luzes estroboscópicas fragmentam a visão e uma trilha sonora frenética mescla gregoriano, rock pesado e batidas eletrônicas – criando um espetáculo de beleza perturbadora.

Esta avalanche de figuras mascaradas constitui uma revolta estética contra os mecanismos de domesticação visual previamente estabelecidos. Através da imagem ancestral do coelho – animal cujo simbolismo oscila entre fecundidade desenfreada e luxúria incontida – a obra constrói uma contraofensiva ao domínio corporal. Onde antes reinava a disciplina gestual, instala-se agora um transe coletivo que celebra o excesso como forma de resistência poética.

Celebração Coletiva do Desejo

No final do espetáculo, trinta e duas pessoas selecionadas no Recife e Caruaru formam uma farândola (dança em roda ou grupo festivo e barulhento) de coelhos — uma dança coletiva inspirada na tapeçaria original, com cerca de 15 minutos de duração. Entre os participantes do elenco local estão Alberto Barbosa de Albuquerque, Alefe Robson Maurício da Silva, Amanda de Paula Pegado, Anderson Luis de Lima Fonseca, Brenda Alves Ribeiro, Carlos Daniel Silva Ferreira, Carolayne Tayane de Lima, Evellyn Eduarda Gonçalves Silva, Everson Reynods Melo Lima, Gabriel da Silva Machado, Jares dos Santos Silva, Jéssica Cavalcanti da Silva Calado, João Pedro de Melo Silva, Kauan Vitor Nascimento de Carvalho, Lara Ribeiro Mano de Lima, Larissa dos Anjos Leão, Lucas Carvalho Cordeiro, Lucas Ferreira da Silva, Lucas Vinícius Silva de Lima, Luiz Diego Garcia Ubirajara, Maria Augusta Teles Menelau, Maria Fernanda Nascimento dos Santos, Mayra Clara Vitorino, Mikaely Patricio de Farias Carvalho, Mikelayne P. De Farias Carvalho, Nayanne Alana Nanes de Albuquerque, Rebeca Bezerra Coelho, Rychard Klysman de Arruda Cintra, Thajjana Ellen Lourenço da Silva, Tiago Francisco da Silva, Wagner Wellington da Silva Vasconcelos e Nilo Pedrosa. Essas pessoas entram em cena usando somente uma máscara de animal.

Ao convocar essa diversidade corporal para a dança que encerra o espetáculo, Bourges opera uma subversão definitiva das representações medievais: onde a tapeçaria original celebrava um ideal corporal feminino específico e controlado, a performance contemporânea afirma a multiplicidade e a transgressão como formas de resistência às imagens de controle que ainda moldam nossa compreensão do feminino. O “seul désir” da dama medieval se transforma, assim, numa celebração coletiva do desejo como força de libertação.

FICHA ARTÍSTICA

À mon seul désir
Espetáculo baseado na série de seis tapeçarias A Dama e o Unicórnio
Concepção e narrativa: Gaëlle Bourges
Coreografia: Carla Bottiglieri, Gaëlle Bourges, Agnès Butet e Alice Roland
Com: Gaëlle Bourges, Agnès Butet, Marianne Chargois e Alice Roland
Coordenação de produção (Brasil): Júlia Gomes
Administração geral: Marie Collombelle
Apresentação em Pernambuco / Brasil
Local: Teatro Luiz Mendonça, Parque Dona Lindu, Recife
Datas: 9 e 10 de outubro
Programação: Feteag
Elenco Local (Bestiário Final)
Alberto Barbosa de Albuquerque • Alefe Robson Maurício da Silva • Amanda de Paula Pegado • Anderson Luis de Lima Fonseca • Brenda Alves Ribeiro • Carlos Daniel Silva Ferreira • Carolayne Tayane de Lima • Evellyn Eduarda Gonçalves Silva • Everson Reynods Melo Lima • Gabriel da Silva Machado • Jares dos Santos Silva • Jéssica Cavalcanti da Silva Calado • João Pedro de Melo Silva • Kauan Vitor Nascimento de Carvalho • Lara Ribeiro Mano de Lima • Larissa dos Anjos Leão • Lucas Carvalho Cordeiro • Lucas Ferreira da Silva • Lucas Vinícius Silva de Lima • Luiz Diego Garcia Ubirajara • Maria Augusta Teles Menelau • Maria Fernanda Nascimento dos Santos • Mayra Clara Vitorino • Mikaely Patricio de Farias Carvalho • Mikelayne P. De Farias Carvalho • Nayanne Alana Nanes de Albuquerque • Rebeca Bezerra Coelho • Rychard Klysman de Arruda Cintra • Thajjana Ellen Lourenço da Silva • Tiago Francisco da Silva • Wagner Wellington da Silva Vasconcelos • Dionísio • Nilo Pedrosa

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Dez dias de memória em movimento
28º Festival Internacional de Dança do Recife

Festival reúne mais de 20 espetáculos com artistas de cinco países… Fotos: José Luiz Pederneiras / Divulgação

… celebra meio século do Grupo Corpo e homenageia o Acervo RecorDança. Piracema e acima Pindorama

Em 10 dias, artistas de cinco países movimentam uma programação que vai acontecendo em diferentes pontos da capital pernambucana. A 28ª edição do Festival Internacional de Dança do Recife ocorre de 17 a 26 de outubro, reunindo mais de 20 espetáculos que transita entre tradição e contemporaneidade, do Teatro de Santa Isabel às praças públicas da cidade.

O festival chega com uma programação robusta: França, Argentina, Espanha e Senegal marcam presença internacional, enquanto mais de 70% da programação fica por conta de grupos e artistas pernambucanos. São seis teatros, duas praças públicas, um museu e um compaz que recebem desde o Grupo Corpo – que celebra 50 anos de trajetória – até jovens bailarinos do Projeto Primeira Cena.

O Grupo Corpo, fundado em 1975 em Belo Horizonte, chega ao Recife carregando meio século de uma trajetória que redefiniu a dança brasileira no cenário internacional. Criado pelos irmãos Paulo e Rodrigo Pederneiras, o grupo se tornou uma das companhias mais respeitadas do mundo, conhecido por sua capacidade única de traduzir a brasilidade em movimentos que dialogam com a contemporaneidade global sem perder suas raízes.

Com mais de 40 obras no repertório e apresentações em mais de 60 países, o Corpo construiu uma linguagem própria que agrega técnica apurada, trilhas sonoras marcantes e cenografias ousadas. Piracema, espetáculo inédito traduz a própria trajetória do grupo: como os peixes que sobem a correnteza do rio numa jornada épica de resistência e renovação, o Corpo atravessou décadas mantendo-se vivo, criativo e sempre em movimento, conquistando seu lugar como patrimônio vivo da cultura brasileira. Parabelo, peça de 1997, faz a abertura nas duas noites.

Le Sacre du Sucrealexandre boissot

Já a bailarina e coreógrafa Léna Blou, de Guadalupe, vai transformar a história colonial da cana-de-açúcar em dança contemporânea, explorando as conexões dolorosas entre Caribe e Nordeste brasileiro através do espetáculo Le Sacre du Sucre (A Sagração do Açúcar). Por  outro lado, o coletivo argentino BiNeural-MonoKultur promete transformar o jardim do Teatro do Parque numa pista de dança com Dancemos… que o mundo se acaba!, obra performática que mistura dança, música eletrônica e interação direta com o público. E fechando o festival, a lendária Germaine Acogny – considerada a “mãe da dança contemporânea africana” – apresenta À un endroit du début, misturando danças tradicionais senegalesas com técnicas contemporâneas que aprendeu durante os anos 1970 em Nova York.

Memória em Movimento é o tema que costura essa programação diversa, prestando homenagem ao Acervo RecorDança, coletivo pernambucano fundado em 2017 que há anos se dedica a guardar a história da dança no estado através da digitalização de documentos históricos, produção de entrevistas com pioneiros da dança local, criação de podcasts e documentários, além da realização de ações pedagógicas que conectam diferentes gerações de bailarinos. O grupo atua como uma verdadeira biblioteca viva da dança pernambucana, resgatando memórias que estavam se perdendo e garantindo que as novas gerações tenham acesso a essa herança cultural. Porque memória não é só passado – é combustível para o que está por vir.

Flaira Ferro. Foto Claudia Dalla Nora / Divulgação

🎭 O Protagonismo Local: Pernambuco em Movimento
Flaira Ferro: A Embaixadora do Frevo
A pernambucana Flaira Ferro é uma das principais representantes da cultura popular contemporânea do estado. Passista de frevo reconhecida nacionalmente, ela terá participação dupla no festival, mostrando a versatilidade de seu trabalho:

🎤 Show (18 de outubro, 19h – Teatro Apolo)
Apresentação que mistura frevo tradicional com sonoridades contemporâneas, demonstrando como a cultura popular pode dialogar com diferentes linguagens sem perder sua essência.

👥 Aulão de Frevo (19 de outubro, 10h às 11h30 – Teatro Hermilo Borba Filho)
Atividade pedagógica gratuita onde Flaira compartilha os fundamentos do frevo, conectando diferentes gerações em torno dessa manifestação cultural patrimônio da humanidade.

Patrimônios Vivos da Cultura Pernambucana

🥁 Bacnaré – Nações Africanas (20 de outubro, 14h – Teatro do Parque)
O grupo Bacnaré, reconhecido como patrimônio vivo do Recife, é uma das principais referências da cultura afro-brasileira em Pernambuco. Fundado há mais de quatro décadas, o coletivo preserva e recria tradições africanas através da dança, música e teatro. O espetáculo Nações Africanas celebra as diversas etnias que formaram a base cultural afro-brasileira, apresentando danças e ritmos que conectam o Recife diretamente às suas raízes ancestrais.

🐎 Cavalo Marinho Estrela Brilhante (26 de outubro, 16h – Teatro Hermilo Borba Filho)
O Cavalo Marinho é uma das manifestações mais ricas da cultura popular nordestina, misturando teatro, dança, música e improviso. O grupo Estrela Brilhante é uma das principais referências dessa arte em Pernambuco, mantendo viva uma tradição que remonta ao período colonial. A apresentação no encerramento do festival reafirma a importância das tradições populares como base da identidade cultural pernambucana.

Nova Geração: Projeto Primeira Cena

🌟 Revelando Talentos (21 de outubro, 19h – Teatro Hermilo Borba Filho)
O Projeto Primeira Cena é uma das iniciativas mais importantes do festival para o fomento da dança local. Este ano, quatro coreografias foram selecionadas, representando a diversidade da nova geração de bailarinos e coreógrafos pernambucanos:

Meu Frevo é assim – Cia de Dança Recifervo
Companhia jovem que se dedica à pesquisa e contemporaneização do frevo, explorando novas possibilidades coreográficas sem perder a essência do ritmo tradicional.

Corpo Fé: Trânsitos de presenças, ausências e águas – Irys Oliveira
Pesquisa autoral que investiga as relações entre corpo, espiritualidade e elemento aquático, temas centrais na cultura e geografia pernambucanas.

Fissura – Samuel José
Trabalho solo que explora as fraturas e resistências do corpo contemporâneo, dialogando com questões urbanas e sociais da realidade local.

Corpos que dançam entre gerações e memórias – Escola Viradança
Coreografia coletiva que conecta diferentes idades e experiências, materializando o tema do festival através do encontro entre veteranos e novatos da dança.

Experimentação e Vanguarda Pernambucana

🌍 Cia ETC – Memória do Mundo (21 de outubro, 12h – Praça do Derby)
A Cia ETC é conhecida por suas intervenções urbanas que questionam o cotidiano através da dança. Memória do Mundo será apresentada no meio da agitação da Praça do Derby, propondo uma reflexão sobre como a arte pode alterar a percepção do espaço urbano e criar momentos de contemplação no meio da correria cotidiana.

🎪 Circo Experimental Negro – O Encontro da Tempestade e a Guerra (25 de outubro, 17h – Teatro Apolo)
Coletivo que trabalha na intersecção entre circo, dança e teatro, sempre com uma perspectiva afrocentrada. O espetáculo aborda questões relacionadas à resistência negra e aos conflitos históricos, usando o corpo como território de luta e celebração.

🚴 Lúden Cia de Dança – Ciclobrega (25 de outubro, 18h – Teatro Hermilo Borba Filho)
Intervenção que mistura dança contemporânea com a cultura do brega, gênero musical profundamente arraigado na cultura popular pernambucana. A proposta é criar um diálogo inusitado entre linguagens aparentemente distintas, mostrando como a cultura popular pode ser fonte de inovação artística.

Novos Criadores em Destaque

🎭 Gabi Holanda, Guilherme Allain e Isabela Severi
Trio que representa a nova geração de criadores pernambucanos, apresentando dois trabalhos no festival:

Bolor (22 de outubro, 19h – Teatro Hermilo Borba Filho)
Trabalho que investiga processos de decomposição e renovação, tanto corporais quanto sociais.

Onde a Vida Insiste (23 de outubro, 19h – Praça da Várzea)
Apresentação ao ar livre que explora a resistência da vida em contextos adversos, tema que dialoga diretamente com a realidade social pernambucana.

🌟 Orun Santana – Orunmilá (24 de outubro, 14h e 19h – Teatro Hermilo Borba Filho)
Artista que trabalha na intersecção entre dança contemporânea e tradições afro-brasileiras. “Orunmilá” faz referência ao orixá da sabedoria e do destino, explorando as conexões entre corpo, ancestralidade e futuro.

Marcos Teófilo – Para Expectativa Somente Desvios (24 de outubro, 20h30 – Teatro Apolo)
Coreógrafo que se destaca pela capacidade de criar narrativas corporais complexas. O espetáculo questiona as expectativas sociais e propõe outros caminhos possíveis através do movimento.

🔥 Balé Afro Raízes – Os Guerreiros: A Luta pela Sobrevivência (21 de outubro, 20h – Teatro do Parque)
Grupo especializado em danças afro-brasileiras que apresenta espetáculo sobre resistência e luta, temas centrais na história da população negra em Pernambuco.

Dança Urbana e Cultura de Rua

🎤 Batalha da Escadaria (25 de outubro, 15h às 21h – Compaz Eduardo Campos)
Evento que reúne diferentes vertentes da cultura urbana pernambucana:

Serafin’s Company – From Afrobeats to hip Hop Heat!
Coletivo local que mistura hip hop com ritmos africanos, criando uma sonoridade única que reflete a diversidade cultural do Recife.

Batalha de All Style
Competição que reúne os melhores dançarinos de diferentes estilos da região metropolitana do Recife.

Baile Charme
Manifestação da cultura de rua que ganhou força no Recife, misturando dança, música e sociabilidade urbana.

🌍 Participações Internacionais

França: Três Visões Complementares
🍭 Le Sacre du Sucre (18 de outubro, 20h – Teatro do Parque)
🌊 Corpos (23 de outubro, 20h – Teatro do Parque)
✨ À un endroit du début (26 de outubro, 19h – Teatro de Santa Isabel)

Argentina: Interatividade e Performance
🎵 Dancemos… que o mundo se acaba! (22 de outubro, 10h e 14h – Teatro do Parque)

Espanha: Literatura e Flamenco
💃 Ellas en Lorca (23 de outubro, 19h – Teatro Apolo)

🏆 Abertura Histórica: Grupo Corpo Celebra 50 Anos

Piracema e Parabelo (17 e 18 de outubro, Teatro de Santa Isabel)

️ Exposições e Patrimônio Cultural

RecorDança: Acervo em Movimento (Abertura: 18 de outubro, 14h – Museu Murillo La Greca)
Corpo Ancestral: Dança Nagô em Movimento (18 de outubro, 18h – Teatro Hermilo Borba Filho)

Formação e Capacitação

Oficina: Vivência Danças de Blocos Afros (17 e 18 de outubro)
Ministrada por Vânia Oliveira (BA)

Cine Dança (21 de outubro, 19h – Teatro do Parque)

Sessão especial incluindo o curta Saramuná, de Gabriela Moura (PE), e Longa Repentino, de Drica Ayub (PE).

📍 Informações Práticas
🗓️ Período: 17 a 26 de outubro de 2025
🎟️ Ingressos: Maioria gratuita, com retirada nos locais uma hora antes das apresentações
♿ Acessibilidade: Libras e audiodescrição em múltiplas apresentações
🎯 Ação Social: Arrecadação solidária de alimentos

Sobre o Festival: Promovido pela Prefeitura do Recife através da Secretaria de Cultura e Fundação de Cultura Cidade do Recife, o Festival Internacional de Dança do Recife consolida-se como uma das principais vitrines da dança contemporânea no Brasil, com especial ênfase na valorização e promoção da produção artística local.

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O contágio de ¡Bailemos… que se acaba el mundo!
na abertura do Feteag em Caruaru

Dancemos… Que o mundo se acaba  em Caruaru. Foto: Kari Carvalho

Muitos ritmos e interação entre os participantes . Foto: Kari Carvalho

Florencia Baigorrí e Maximiliano Carrasco Garrido, comandam as coreografias. Foto: Kari Carvalho / Divulgação

No cenário carregado de memórias da Estação Ferroviária de Caruaru, bandeirinhas coloridas e luzes desenham um convite fugaz, mas irresistível. Ali, a companhia argentina BiNeural-MonoKultur apresentou ¡Bailemos… que se acaba el mundo! (Dancemos… Que o mundo se acaba), uma experiência performática interativa que exige presença e movimento. Quarta-feira, 15 de outubro de 2025. Começando a programação do Festival de Teatro do Agreste (Feteag) em Caruaru – após uma abertura no Recife com o espetáculo francês À Mon Seul Désir – a peça impulsiona o público a uma jornada de dança, reflexão e descoberta. Utilizando um audiotour imersivo, o espetáculo confere ao público a condição de protagonista na construção da coreografia coletiva. Cada comando e cada batida sonora são convites diretos para que o participante siga, interprete e manifeste a obra com seu próprio corpo, como parte pulsante do bailado.

A mecânica dessa experiência singular se revela através dos fones de ouvido: cada espectador ativo mergulha em uma bolha sonora composta por músicas, narrações e instruções. Contudo, essa bolha individual se expande e integra-se a uma dimensão grupal a partir dos comandos que chegam pelos fones, ligando os corpos em movimentos que traçam uma corrente coletiva e compartilhada.

Para orientar essa dança coletiva, em cena, como âncoras visuais e facilitadores da coreografia, estão Florencia Baigorrí e Maximiliano Carrasco Garrido, posicionados em um tablado. Eles comandam as danças, fazendo gestos e movimentos que são seguidos pelos espectadores atuantes, que respondem aos estímulos do ambiente e às interações do grupo. Assim, os participantes são levados a diferentes ritmos e estados, enquanto o mundo exterior observa, curioso, a movimentação intensa que se desenrola como um balé urbano inesperado, uma intervenção artística que ressignifica o uso e a percepção do espaço.

Dancemos... Que o mundo se acaba Foto: Kari Carvalho

Plateia empolgada Foto: Kari Carvalho

A obra investe nessa experiência que dialoga com fenômenos históricos e sociais. O espetáculo ganha ressonância ao se inspirar nas coreomanias, surtos de dança incontrolável que assolaram comunidades na Europa medieval e renascentista, muitas vezes tomados como surtos psicogênicos – fenômenos de histeria em massa ou reações psicológicas coletivas que afetam o comportamento físico em um grupo de pessoas – ou até mesmo reações a toxinas como o ergot, um fungo que cresce em cereais como o centeio e pode causar uma condição conhecida como ergotismo, com sintomas que incluem alucinações, convulsões e espasmos musculares.

O caso mais célebre é a intrigante Epidemia de Baile de Estrasburgo de 1518, quando Madame Troffea começou a dançar incessantemente nas ruas e, em poucas semanas, centenas de pessoas se juntaram a ela, movendo-se ininterruptamente por dias e noites, até a exaustão, com relatos de mortes por ataque cardíaco, derrame ou exaustão física.

A BiNeural-MonoKultur habilmente relaciona esse evento histórico com a pulsante necessidade de encontro, expressão física e catarse no mundo contemporâneo. Gestado durante o período da pandemia de COVID-19, o espetáculo reflete a privação do contato físico, a sensação de isolamento e a urgência de conexão humana que marcaram aquele período. O espetáculo   evoca a memória de um passado distante, recontextualizando e subvertendo a ideia de um “contágio” perigoso e incontrolável em um “contágio” de gozo, de movimento consciente e de libertação. 

Diálogos Filosóficos

¡Bailemos… que se acaba el mundo! convida a subverter as convenções sociais da dança e a refletir sobre o corpo que também é mente, bem longe de dicotomias reducionistas. A dramaturgia entrelaça questões filosóficas ao desenho coreográfico, evocando a ideia cartesiana do corpo como máquina que converte energia em movimento, a analogia entre coração e relógio como mola propulsora deste corpo-máquina. E solta a inquietação: quando a corda do relógio acabar, quando a corda acabar para nós? Essas indagações sobre nossa possível condição de autômatos, sobre a plausível mecanicidade de nossa existência, atravessam a experiência performática, instaurando outras camadas para interpretações.

Essa perspectiva se aprofunda com referências, sem citar nomes, às investigações de Michel Foucault sobre como os corpos são disciplinados desde muito cedo através de instituições e práticas sociais, como uma forma de poder que molda os corpos para torná-los dóceis e úteis. A dramaturgia ainda instiga com perguntas sobre o que somos: androides, ciborgues ou simplesmente humanos, buscando a autenticidade do movimento em um mundo cada vez mais mediado pela tecnologia.

Durante a apresentação, outras ações aconteciam simultaneamente na Estação Ferroviária: um grupo de jovens ensaiava seus passos com uma caixa de som em volume considerável, curiosos transitavam, e o burburinho natural do espaço público pulsava. 

Uma “danceteria” na rua para a para atuação de 45 pessoas do público. Foto: Kari Carvalho

Tempo e Profundidade na Experiência: Uma Reflexão Crítica

Os participantes chegam à “boate” da BiNeural-MonoKultur já com uma abertura para a entrega e uma disponibilidade para se jogar na dança. Em Caruaru, havia um grupo diversificado, mas predominantemente jovem, desimpedido, engajado e festivo. Essa motivação preliminar é crucial para a performance, pois o êxito da experiência depende diretamente dessa entrega. O experimento, com uma duração aproximada uma hora e a rápida sucessão de provocações e transições entre estados corporais, levanta uma instigante questão crítica: embora a intenção do grupo de investigar a resposta a comandos e a disponibilidade dos participantes seja plenamente contemplada, seria o tempo suficiente para uma imersão verdadeiramente profunda nas muitas indagações e provações que o trabalho propõe?

Por outro, é possível que essa combinação – a duração concisa, a total disponibilidade e baixa resistência dos participantes, e as transições rápidas entre estados corporais – seja exatamente o que o grupo busca investigar norteados pelo espírito deste tempo. ¡Bailemos… que se acaba el mundo!, nesse sentido, funcionaria como um laboratório social que, por meio de dança, música, palavras, história, reflexões e direcionamentos diretos, testa o “efeito de manada” e a capacidade humana de responder a impulsos e comandos em um curto espaço de tempo, explorando a psicologia das massas e a conformidade social. Assim, a “fantasia da dança” mira apontar como a coletividade reage e se transforma sob estímulos específicos e controlados, explorando a força do impulso e da resposta imediata, e a maleabilidade da identidade individual dentro de um coletivo guiado, questionando os limites da autonomia e da influência externa.

A BiNeural-MonoKultur, fundada em 2004 por Christina Ruf (Alemanha) e Ariel Dávila (Argentina), se dedica à pesquisa em formatos que transformam o ato cênico em travessia imersiva. Seja em espaços teatrais convencionais ou ambientes site-specific, a interatividade é a espinha dorsal de seu trabalho, direcionando um público que se torna cocriador da narrativa.

Ficha artística

Conceito, dramaturgia, direção, edição e produção geral: Christina Ruf + Ariel Dávila (BiNeuralMonoKultur)
Tradução para o português: Iara Roccha
Coreografias: Florencia Baigorri + Adrián Andrada
Em cena no Brasil: Florencia Baigorrí + Maximiliano Carrasco Garrido
Vozes em português: Ana Luiza Leão + Thomas Huszer
Design sonoro: Guillermo Ceballos
Design e realização de palco, equipamentos e iluminação: Agustina Marquez
Design gráfico: Natalia Rojo

 

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A Insurreição Que Assombra
Sessão única de Ayiti,
com Marconi Bispo

 

Marconi Bispo desvela em Pernambuco a revolução haitiana que permanece silenciada nos livros de história. Foto: Arthur Canavarro

Existe uma lacuna imensa na educação brasileira. Uma ausência que não parece casual, mas estratégica. Enquanto aprendemos sobre diversas revoluções ao longo da formação escolar, uma permanece deliberadamente esquecida: a única insurreição escrava vitoriosa da história moderna, que aconteceu no Haiti entre 1791 e 1804. É exatamente essa ferida na memória coletiva que o experiente artista pernambucano Marconi Bispo decidiu confrontar.

Aos 30 anos de carreira — trajetória que o consolida como uma das vozes mais consistentes das artes cênicas pernambucanas —, Marconi apresenta Ayiti, a montanha que assombra o mundo, trabalho que inaugura em solo pernambucano um diálogo cênico com a Revolução Haitiana. A montagem retorna ao cartaz nesta terça-feira (14), às 20h, no Teatro Hermilo Borba Filho, no Recife Antigo.

Descolonizando a Dramaturgia 

O projeto nasce de uma inquietação que indaga por que a primeira república negra da história mundial, que derrotou militarmente França, Espanha e Inglaterra, permanece ausente dos currículos escolares? Por que essa vitória extraordinária – que antecipou em décadas os ideais de igualdade racial — foi sistematicamente apagada da historiografia oficial?

Marconi Bispo, em parceria com o pesquisador Kamai Freire, constrói uma dramaturgia que vai além da reconstituição histórica. O espetáculo avança como arqueologia da resistência, escavando memórias soterradas e devolvendo dignidade a narrativas marginalizadas. A pesquisa, baseada em 13 obras sobre o tema e amadurecida durante residência artística em Portugal, revela conexões históricas surpreendentes entre Recife e Haiti.

“A ilha era chamada de Kiskeya — Mãe de Todas as Terras — pelo povo Taíno”, explica o artista. Essa recuperação da nomenclatura original exemplifica o método do espetáculo: desconstruir sistematicamente a linguagem colonial para assumir outras formas de compreender o mundo.

Além de Marconi, estão no elenco Brunna Martins, Kadydja Erlen e os músicos Beto Xambá e Thulio Xambá

A força da montagem resulta da articulação entre diferentes linguagens artísticas afro-pernambucanas. O elenco reúne Brunna Martins, Kadydja Erlen e os músicos Beto Xambá e Thulio Xambá, do respeitado Grupo Bongar. Essa formação processa a confluência de tradições culturais que dialogam diretamente com o universo revolucionário haitiano.

A percussão assume papel dramatúrgico central, ecoando os tambores que convocaram os escravizados para a insurreição. As batidas atuam como código ancestral, linguagem cifrada que atravessou o Atlântico e permanece viva nas manifestações culturais negras contemporâneas.

Mais que criação artística, Ayiti processa como dispositivo pedagógico, que assume dimensão política fundamental. Ele democratiza o acesso a conhecimentos que as instituições de ensino tradicionalmente negam às classes populares.

A produção independente e os ingressos a preços acessíveis (R$ 25 e R$ 50)) materializam essa vocação democrática. Marconi Bispo compreende que a arte deve circular entre as comunidades que mais se beneficiam dessas narrativas de empoderamento.

Espetáculo estabelece paralelos entre a luta anticolonial caribenha e as resistências negras em Pernambuco

O conceito de “contracolonização”, desenvolvido pelo filósofo Nego Bispo, permeia toda a construção dramatúrgica. O espetáculo pratica essa contracolonização ao recusar a vitimização dos povos escravizados e celebrar sua capacidade de auto-organização política e militar.

“A Revolução Haitiana não acabou”, defende Marconi Bispo. “Ela segue reverberando como o movimento mais impactante de todos os tempos.” Essa perspectiva transforma o Haiti de símbolo de miséria — como frequentemente aparece na mídia — em farol de dignidade e resistência.

A montagem conecta passado e presente. Ao estabelecer paralelos entre a luta anticolonial caribenha e as resistências negras em Pernambuco, o espetáculo fortalece genealogias de luta que nutrem as comunidades afro-brasileiras contemporâneas.

A pergunta que atravessa toda a encenação — “Qual revolução você ainda não fez?” — sintetiza esse potencial transformador. Ayiti convoca cada espectador a refletir sobre seu papel na construção de uma sociedade antirracista e verdadeiramente democrática.

Leia a outra matéria sobre Ayiti AQUI

Serviço

Ayiti, a montanha que assombra o mundo

14 de outubro de 2025 (terça-feira), 20h
Teatro Hermilo Borba Filho (Cais do Apolo, 142 – Recife Antigo)
Ingressos: R$ 25 (meia) / R$ 50 (inteira)
Vendas: bit.ly/3L5xPQg

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Ópera cômica com sotaque nordestino
Crítica: La Serva Padrona

Anderson Rodrigues (Uberto), Marcondes Lima (Vespone) e Gleyce Vieira (Serpina). Foto: Ivana Moura

Risos, reconhecimento, casa cheia por quatro noites consecutivas. Quando La Serva Padrona ganhou sotaque pernambucano no Teatro Hermilo Borba Filho, entre 8 e 11 de outubro, o público respondeu de forma entusiástica, esgotando todos os ingressos. Para uma ópera cômica do século XVIII no Recife, o resultado surpreende — e prova que o encontro entre Pergolesi e o “oxe” nordestino pode ser mais eficaz que muitas estratégias convencionais de democratização cultural.

Antes de compreender o alcance desta recepção calorosa, porém, é interessante situar La Serva Padrona (1733), de Giovanni Battista Pergolesi, em seu contexto histórico. Originalmente concebida como intermezzo — entreato de 50 minutos inserido entre os atos de uma ópera séria —, a obra conquistou rapidamente autonomia artística ao contrastar dramaticamente com a solenidade e os temas grandiosos que dominavam os palcos setecentistas.

O enredo é deliberadamente simples: Uberto, ricaço solteirão hipocondríaco, convive há anos com sua criada Serpina, que comanda a casa como se fosse a patroa. Irritado com a insubordinação, Uberto anuncia que pretende se casar para restabelecer a ordem doméstica. Serpina, contudo, arquiteta estratégia engenhosa: com ajuda do criado mudo Vespone, simula noivado com um fictício Capitão Tempestade (o próprio Vespone disfarçado), manipulando o patrão através do ciúme até conseguir desposá-lo.

Sob a aparência de comédia doméstica, a obra carrega implicações sociais explosivas para a época. Serpina representa figura subversiva: mulher de origem humilde que, mediante inteligência e astúcia, subverte hierarquias de classe e gênero, conquistando ascensão social numa sociedade rigidamente estratificada. Simultaneamente, Uberto surge como anti-herói paródico — patrão fraco, manipulável, dependente da própria criada —, desafiando arquétipos patriarcais de autoridade masculina.

Tal ousadia não passou despercebida. Quando a obra chegou a Paris em 1752, deflagrou a célebre Querelle des Bouffons, debate estético e político que cindiu a intelectualidade francesa entre partidários da grandiosa ópera séria e defensores da simplicidade acessível da ópera buffa. Esse evento marcou inflexão decisiva na história operística europeia.

A reinvenção pernambucana: estratégias de aproximação cultural

Montagem dirigida por Luiz Kleber Queiroz e Maria Aida Barroso na direção musical. Foto: Ivana Moura

Considerando essa herança revolucionária, torna-se ainda mais significativo o que a montagem dirigida por Luiz Kleber Queiroz (professor do Departamento de Música da UFPE e diretor teatral) e Maria Aida Barroso (também do Departamento de Música da UFPE, na direção musical), com produção de Matheus Soares da 25 Produções, conseguiu realizar. Diante do desafio de atualizar culturalmente a obra sem descaracterizá-la, a equipe encontrou solução ao mesmo tempo respeitosa e audaciosa.

A estratégia central consistiu em manter as árias no italiano original — preservando assim a sonoridade vocal característica e o vínculo com a tradição barroca — enquanto os recitativos foram vertidos ao português com tempero regional. Expressões como “oxe”, “visse”, “arretado” e “mangar” pontuaram os diálogos, estabelecendo cumplicidade imediata com a plateia local.

Tal escolha criou dinâmica particular: nas árias, momentos de introspecção lírica, o italiano mantém peso poético e musicalidade originais; nos recitativos, onde se desenvolve a ação dramática e o humor, o português regionalizado assegura compreensão integral das nuances cômicas. O público assim navega entre duas línguas e dois registros: familiaridade linguística nos diálogos, tradição operística nas árias.

Um momento exemplifica essa dinâmica de forma inesperada: quando surgiu a palavra “rapariga” — que em português lusitano significa simplesmente “moça”, mas no Nordeste carrega conotação sexual —, a plateia mergulhou em silêncio sepulcral. O constrangimento durou poucos segundos, mas evidenciou como as particularidades regionais da língua podem criar camadas semânticas não intencionais, gerando efeitos cômicos ou embaraçosos conforme a recepção local.

Visualidade cênica

Para além dessa tradução linguística, a direção de arte de Marcondes Lima trabalhou na mesma linha de aproximação cultural. O ambiente visual construído dialoga produtivamente entre referências da commedia dell’arte e símbolos nordestinos: algodão cru, cestos de palha, chapéu de vaqueiro e rede não funcionam como algo pitoresco decorativo, mas como signos culturais que ressignificam o espaço dramático.

A escolha de ambientar a trama numa casa do interior nordestino encontra justificativa: La Serva Padrona trata na peça de relações domésticas e jogos de poder entre patrões e empregados — dinâmicas que encontram ressonância particular na realidade brasileira. As lutas por reconhecimento e ascensão social das trabalhadoras domésticas atravessam séculos, conectando a Nápoles setecentista ao Brasil contemporâneo, onde essas relações ainda carregam marcas coloniais e hierarquias de classe persistentesAssim, Serpina torna-se tanto personagem cômica, como espelho de lutas históricas.

A cantora Gleyce Vieira e o cantor Anderson Rodrigues revezaram com Karla Karolla e Osvaldo Pacheco

Se as escolhas conceituais da montagem impressionam pela coerência, sua materialização cênica confirma a eficácia das estratégias adotadas. No elenco que acompanhei, Gleyce Vieira (Serpina) ofereceu interpretação de notável desenvoltura, equilibrando a sagacidade da personagem com traços de autêntica afeição por Uberto. Sua agilidade vocal navegou com segurança pelas demandas técnicas, enquanto sua presença cênica transmitiu tanto a inteligência estratégica quanto a vulnerabilidade humana da criada.

Anderson Rodrigues (Uberto), por sua vez, construiu personagem mais comedido, de acordo com sua caracterização do patrão hesitante. Seu timing cômico e fisicalidade exploraram a figura do homem acomodado em privilégios e rotinas, facilmente manipulado por quem demonstra maior astúcia.

Vale ressaltar que a produção trabalhou com elenco alternado: Karla Karolla e Osvaldo Pacheco interpretaram os protagonistas nos dias 8 e 10, demonstrando tanto a vitalidade artística do projeto quanto o compromisso formativo com cantores regionais.

Contudo, a performance mais impactante da noite pertenceu a Marcondes Lima como Vespone. Explorando magistralmente a tradição pantomímica da commedia dell’arte, Lima transformou o personagem mudo em catalisador cômico indispensável. Suas expressões faciais — ora assustadas, ora cúmplices, ora gulosas — pontuavam musicalmente a ação dramática. Especialmente divertida foi sua degustação teatralizada de uma tapioca (de uma maçã e de uma banana), convertida em coreografia elaborada que satirizava hierarquias sociais através da gula exagerada. Sem pronunciar palavra, Vespone tornou-se comentário social e motor de hilaridade.

Evidentemente, todo esse trabalho cênico e dramatúrgico dependia de uma execução musical à altura das ambições do projeto. O acompanhamento instrumental ficou a cargo do sexteto formado por Singrid Souza (violino I), Júlia Paulino (violino II), Letícia Santos (viola), Gabriel David (violoncelo), Rebeca Furtado (contrabaixo) e Maria Aida Barroso (cravo). O conjunto demonstrou entrosamento domínio harmônica da execução, pontuando os recitativos com comentários musicais que sublinhavam as intenções dramáticas. A orquestra com sua função essencial deu sustentação à experiência.

O êxito artístico da montagem revela também a eficácia de políticas públicas bem direcionadas. A viabilização desta produção através da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc, programa federal de fomento cultural) e Lei Aldir Blanc municipal demonstra como investimento em cultura pode gerar resultados concretos: quatro noites esgotadas comprovam a existência de público interessado em ópera e a capacidade dessas políticas de remover barreiras tradicionais de acesso.

Ficha Técnica

Direção Geral: Luiz Kleber Queiroz
Direção Musical: Maria Aida Barroso
Direção de Arte: Marcondes Lima
Produção: Matheus Soares (25 Produções)

Elenco:

Dias 8 e 10: Osvaldo Pacheco (Uberto), Karla Karolla (Serpina)
Dias 9 e 11: Anderson Rodrigues (Uberto), Gleyce Vieira (Serpina)
Todas as apresentações: Marcondes Lima (Vespone)
Sexteto de Câmara: Singrid Souza (violino I), Júlia Paulino (violino II), Letícia Santos (viola), Gabriel David (violoncelo), Rebeca Furtado (contrabaixo), Maria Aida Barroso (cravo)

Período: 8 a 11 de outubro de 2025
Local: Teatro Hermilo Borba Filho, Recife
Entrada: Gratuita
Apoio: PNAB (Política Nacional Aldir Blanc) e Lei Aldir Blanc da Prefeitura do Recife

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