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“A liberdade era vivida na imediatez daqueles tempos”

Puro lixo. Foto: Rodrigo Monteiro

Puro lixo – o espetáculo mais vibrante da cidade celebra o Vivencial. Foto: Rodrigo Monteiro

Puro Lixo – O Espetáculo Mais Vibrante da Cidade, a derradeira parte do projeto Transgressão em Três Atos,  estreou no fim de semana no Teatro Hermilo Borba Filho, onde fica em cartaz aos sábados e domingos até 4 de setembro. O projeto Transgressão foi iniciado em 2008 e rendeu as encenações Os fuzis da Senhora Carrar, de Bertolt Brecht (2010), com direção de João Denys, em homenagem ao Teatro Hermilo Borba Filho (THBF); e Auto do salão do automóvel, de Osman Lins (2012), com direção de Kleber Lourenço, que celebrou o Teatro Popular do Nordeste (TPN). O programa leva a assinatura dos jornalistas e professores Alexandre Figueirôa, Claudio Bezerra e Stella Maris (também produtora e atriz).

Desta vez a ode é ao Grupo Vivencial – que entre precariedades e purpurinas dava seu grito de liberdade em plena ditadura militar. De cara o dramaturgo Luís Reis e o diretor Antonio Cadengue chegaram ao consenso de que a encenação não iria tentar reproduzir a experiência do Vivencial.  “Os tempos são outros, então o que queremos é pensar o Vivencial hoje, refletindo também sobre o papel do teatro”, destaca o encenador.

A base para a dramaturgia foi o artigo Vivencial Diversiones apresenta: Frangos falando para o mundo, de João Silvério Trevisan, publicado no jornal Lampião da Esquina, em novembro de 1979, quando a trupe inaugurou sua sede nos limites entre Recife e Olinda, o Vivencial Diversiones.

No elenco de Puro lixo estão os atores Eduardo Filho, Gilson Paz, Marinho Falcão, Paulo Castelo Branco, Samuel Lira e Stella Maris Saldanha.

Puro lixo. Foto: Rodrigo Monteiro

Gilson Paz, em primeiro plano, e Stella Maris Saldanha em Puro lixo. Foto: Rodrigo Monteiro

A estrutura da peça mostra uma noite num cabaré, onde são apresentados experimentos cênicos, flashes das memórias dos artistas nos bastidores, e a defesa de posicionamentos, como o de dar pinta como recurso do fazer político. Cadengue diz que a montagem expõe feridas da nossa sociedade e que toca em questões fortes da teoria queer, de gênero, de raça.

“A conjunção de todas as cenas resulta em algo muito sofisticado (você pode perceber que uma fala dita por um personagem em off no início da peça, vai reverberar em carnadura noutra cena mais adiante)”, pontua Cadengue.

Com a palavra, o encenador.

Entrevista // ANTONIO EDSON CADENGUE

Foto: Yeda Bezerra de Melo

Foto: Yeda Bezerra de Melo

O grupo Vivencial é apontado como um oásis de liberdade naquele tempo de ditadura. Que diabo de liberdade era essa?

Tenho a vaga lembrança que a liberdade não era “uma calça suja e desbotada”, mas algo por vir, algo que se conquistava no exato momento em que se realizava, algo vivido na imediatez daqueles tempos. Talvez a isto se chame oásis. Mas isso não era simples: viviam-se amores e perdições, vivia-se com felicidade a incerteza, porque não interessava, a mim parece hoje, o futuro, mas o presente.

Como é a peça Puro lixo? São quadros justapostos? Revelando os bastidores? As luzes da ribalta?

A dramaturgia de Luís Reis, a partir da reportagem de João Silvério Trevisan, agrupou outras cenas que trouxeram aos dias de hoje algo inusitado, mesmo quando parecem serem meras paródias: a conjunção de todas as cenas resulta em algo muito sofisticado (você pode perceber que uma fala dita por um personagem em off no início da peça, vai reverberar em carnadura noutra cena mais adiante). A peça não revela os bastidores: ela é a revelação da associação íntima entre a cena e a plateia.

Tive ontem (sábado), na estreia, a sensação de que já havia, antes de fazer a peça, um diálogo muito animado com Karl Valentin e Frank Wedekind. Uma sensação esquisita, mas pulsante: cheguei a pensar que Brecht estava assistindo ao Puro Lixo, completamente entusiasmado ou entediado. É que Valentin e Wedekind foram admirados por Brecht e ele poderia estar considerando uma heresia eu ter-me utilizado de procedimentos epicizantes como aqueles que estão presentes em O Despertar da Primavera.

Ou no caso do cômico Karl Valentin, de quem recebeu influências determinantes para a elaboração de muitas de suas obras, onde a ironia e o grotesco estão em sintonia e se abrem a uma educação dos sentidos, uma leitura crítica, sem didatismos. Melhor: tendo-se uma atitude racional e crítica perante o mundo, para não dizer que não falei de flores. Não tive como esquecer os cabarés alemães do pré-guerra, que produziu, dentre outras obras no cinema, Anjo Azul, fantasmal na montagem (escute a bela trilha de Eli-Eri Moura…) e… Quanto à ribalta, neste caso, perdeu seu chão, há tempo: preferi que ela se espalhasse pelos ares, por isso Luciana Raposo nos deu a luz que foi possível em tão precárias condições.

Equipe de Puro lixo: Samuel,Paulo,Stella Eduardo, Marinho e Gil: Manoel, Antonio e Igor. Foto Yeda Bezerra de Melo

Equipe de Puro lixo: Samuel,Paulo,Stella, Eduardo, Marinho, Gil; Manoel, Antonio e Igor. Foto: Yeda Bezerra de Melo

Como funcionam esses personagens anjos?

Como digo no programa da peça, são anjos que têm luz própria por serem anjos erráticos, cambiantes: “Por vezes, os atores Eduardo Filho, Gil Paz, Marinho Falcão, Paulo Castelo Branco, Samuel Lira e Stella Maris Saldanha são eles mesmos; outras vezes, desfazem a si próprios: esse é o movimento desta peça em fragmentos. Os intérpretes têm consigo a incompletude de seus personagens. Há um fluxo de vozes que se cruzam no palco, como se um coro fizesse uma narração em que reverbera um esgarçado diálogo, um comentário fingido, uma citação identificável e, ao mesmo tempo, tudo atravessado. Neste ato de criação, neste jogo, há um prazer infindo. Poder-se-ia dizer que, nesse aspecto, nesse ponto, paira sobre o trabalho dos que compõem o elenco, uma espécie de gozo, pelo desdobramento de tantos seres alheios a cada um deles. Gozo pela vivência dos atos de criação, gozo coletivo, não solitário. Gozo por tomar figuras que devem ser tomadas como suas, mesmo que por pequenos átimos.” Nada a acrescentar ao que foi dito e trabalhando em cena. Arduamente.

A precariedade do Vivencial serviu de trampolim para criar uma estética de desbunde, da irreverência e da transgressão? Como isso chega ao espetáculo Puro lixo?

Chegamos a uma configuração estética por meio da transcendência (se isso é possível) ao desbunde, já tendo ele se firmado na cultura brasileira e especialmente no Recife. O desbunde e a irreverência estão enraizados em nós, como o Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, mas agora sob novas dimensões. Sob nova dentição.

Foi noticiado que o ator Gilson Paz protagoniza um manifesto contra o racismo no espetáculo? Como é isso? Há outros manifestos?

É tudo verdade e mentira. Como no teatro. É o momento mais evidentemente político do espetáculo, uma fratura na representação.

Você afirmou que “Os personagens e situações evocados são narrados, comentados, representados, sobretudo tratados com jocosidade e, ao mesmo tempo, pertinência, no que concerne à sexualidade e à realidade brasileira”. Gostaria de saber como entra essa jocosidade. Esse procedimento, que desperta ambiguidade, pode ser considerado tipo veneno, mensagem subliminar com endereço certo?

Não há perversidade alguma no que fazemos, mas celebração ao teatro de ontem, de hoje e de sempre. E, em se tratando de teatro, lá se espraiam a jocosidade, a seriedade, a sexualidade… E tudo isso no contexto em que vivemos: o Brasil.

“Não adianta fazer ou assistir teatro sem considerarmos as características do tempo em que vivemos. O teatro é o reflexo das realidades de uma época e não um fenômeno isolado cujas dificuldades sejam exclusivamente suas, mas de todo um processo criativo em crise.” O que dizer sobre isso?

Este era um texto-chave que o Grupo de Teatro Vivencial usou e abusou em várias de suas montagens. É o texto de uma época que ainda ressoa hoje, com certeza. Mas penso que todo processo criativo está em permanente crise, senão torna-se impossível viver sem estar em crítica permanente. Crise-Crítica. De raiz.

Sabemos que o Vivencial não nasceu unanimidade. Foram muitos embates e tensões enfrentadas pelo grupo, inclusive com a rivalidade de outros coletivos “mais sérios” da época. O tempo, como sempre, trata de canonizar pessoas, grupos etc. Como apontou João Silvério Trevisan, o Vivencial foi uma das experiências mais fascinantes e originais na transfiguração do lixo em beleza. Mas “Um dia o Vivencial acabou. Sua ambiguidade se esgotara, sua originalidade também. Não sei até que ponto o sucesso foi responsável por seu fim. Arrisco a dizer que o Vivencial não conseguiu sobreviver porque se aproximou demais dos centros de poder e, com isso, abandonou a difícil arte da corda bamba que a marginalidade lhe permitia. Secou. Ao absorver sua proposta, a sociedade cooptou o grupo e transformou-o num modismo rapidamente exaurido. Assim confiscou-lhe o passaporte para a poesia”.

Poderia comentar… os apontamentos de Trevisan?! O poder acaba com a irreverência e a poesia?

O próprio João Silvério Trevisan, responde de maneira enviesada (porque não trata agora do Vivencial), a questão maior que você levanta: se é possível hoje haver transgressão, em meio à sociedade do espetáculo. Copio o texto de Trevisan publicado no e-book do SESC Pernambuco (2016): “Nas circunstâncias atuais da sociedade espetacular e de cultura narcísica ser transgressivo (ou maldito) pode se reduzir a uma grife para conquistar mídia e mercado. Criou-se uma fórmula narcisista para aparecer graças à condição transgressiva. Hoje existem muitos artistas autointitulados marginais que cultivam a “maldição” como instrumento de marketing e, em consequência, de poder. Lembro de um personagem como o cantor Mano Brown, do grupo musical Racionais MCs. Ostenta há anos um discurso político cheio de chavões de rebeldia, bota pose de machão marrento em fotos de coluna social e chega a frequentar eventos burgueses para celebrar… a periferia. Chegou-se ao nível do mais autêntico radical chic (na expressão americana) ou revolucionário de algibeira. Em outras palavras, um maldito para alto consumo.”

Mas o que mais chama atenção no texto de Trevisan são algumas de suas considerações finais (infelizmente não pudemos publicá-lo no programa, por razões de ordem econômica): “Cabe aqui a pergunta: o conceito de transgressão perdeu o sentido e se esvaiu? Se transformado em fórmula para consumo, sim, sua força se esvaiu. Mas se levada até a última instância, a transgressão continua incomodando. Afinal, transgredir é próprio da criação, da poesia, da invenção que está na base de toda arte. Trata-se, tão somente, de subverter a subversão. A desmistificação do conceito de transgressão leva necessariamente à subversão do próprio conceito mistificado – e tem potencial para renovar a transgressão. O componente “maldito” permanece apesar e contra as aparências e obviedades, desde que mantenha sua transgressividade viva. Ao invés de consumir o rótulo de “maldito” como uma grife, é preciso lembrar que a transgressão não se confunde com um musical cheio de glamour, tal como faz crer a cooptação dentro da sociedade do espetáculo. Simplesmente não há glamour na vida que se põe à margem. O quotidiano na realidade de quem a sociedade coloca o rótulo de maldito acarreta, quase necessariamente, incompreensão, injustiça e dor, na medida mesma das punições impostas a quem diverge das regras impostas.” Tenho dito.

No que concerne à cena, muitos procedimentos adotados pelo Vivencial e que eram considerados sujeira ou falta de rigor formal, são adotados na produção da cena contemporânea. Poderia comentar?!

Muito do que hoje se considera “arte” pode ser qualquer coisa. Ali, havia uma necessidade estética e ideológica que permitia um rigor formal da sujeira. Hoje, não sei.

Qual a sua ligação com o Vivencial, além da montagem de Viúva, porém Honesta, de 1977, e do relacionamento com Beto Diniz?

Uma ligação próxima e, ao mesmo tempo distante com Guilherme Coelho e com todos os que eu pude conviver à época de Sobrados e Mocambos. Especialmente quando o grupo morava em Santa Teresa, em Olinda, e eu praticamente me mudei para lá. Mas havia, sobretudo, um encantamento por tudo que estava longe de meu horizonte de expectativas: aquela cena era tudo que eu admirava, mas jamais a faria como reprodução, por ter outra formação estética (no entanto, homenageei o Vivencial em um espetáculo que fiz na Universidade Federal da Paraíba, em junho de 1980: Soy loco por ti latrina e no programa escrevi algo assim: sem a estética do Vivencial, este espetáculo não teria sido viável). Amava a “sujeira” dos espetáculos do grupo, sua “precariedade”, mas era um encantamento para mim mesmo, deleite pessoal sem que reverberasse na minha cena.

Stella Maris Saldanha. Foto:

Stella Maris Saldanha. Foto: Rodrigo Monteiro

SERVIÇO
Puro Lixo – O Espetáculo Mais Vibrante da Cidade
Quando: de 13 de agosto até 4 de setembro, sempre aos sábados às 18h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho (Cais do Apolo, s/n, Bairro do Recife)
Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação: 16 anos
Informações: (81) 3355-3320

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Os gênios fabricados pelo mercado de arte

inutil-a-chuva-Mauro-Kury

Inútil a chuva investiga o poder da ausência e os mecanismos da arte contemporânea. Foto: Divulgação

A ausência pesa feito chumbo na nova montagem do Armazém Cia. de Teatro. Inútil a Chuva traça questionamentos existenciais, artísticos e políticos a partir do desaparecimento do pai. Ele deixou uma carta de suicídio e sumiu, sem que seu corpo fosse encontrado. Suas pinturas, até então ignoradas pela indústria cultural, são alçadas ao patamar de obras de arte geniais. O espetáculo faz três apresentações no Recife, no Teatro de Santa Isabel, hoje e amanhã, às 20h, e domingo, às 18h.

O desaparecimento provoca uma reviravolta na família em todos os aspectos. Entre sentimentos enraizados eclode um debate sobre a arte contemporânea e sua legitimação, que margeia toda a peça.  O sucesso póstumo reforça essa reflexão sobre os mecanismos no mercado das artes, muito pertinente para os dias que correm.

O texto escrito a quatro mãos, por Paulo de Moraes e seu filho Jopa Moraes, expõe essa família que rema em busca da presença e da resolução da dúvida. O pintor diletante teria se matado ou simplesmente largado a mulher, Lotta (Patrícia Selonk), e a prole, formada por Slavoj (Leonardo Hinckel), Claude (Tomás Braune) e Sarah (Andressa Lameu)? Além desses personagens aparecem a jornalista Vivian (Amanda Mirasci), que quer descobrir o que está por trás da repentina valorização da obra e um amigo do desaparecido, Matthias (Marcos Martins).

Com iluminação assinada por Maneco Quinderé, figurinos de Rita Murtinho e direção musical de Ricco Viana, o espetáculo mergulha em sombras dessas almas atormentadas diante da ausência.

 

Inútil a Chuva

Ficha Técnica
Direção:
Paulo de Moraes
Dramaturgia:
Paulo de Moraes e Jopa Moraes
Elenco:
Patrícia Selonk, Andressa Lameu, Leonardo Hinckel, Tomás Braune, Marcos Martins e Amanda Mirasci
Iluminação:
Maneco Quinderé
Cenografia:
Paulo de Moraes e Carla Berri
Figurinos:
Rita Murtinho
Direção Musical:
Ricco Viana
Design Gráfico:
João Gabriel Monteiro e Jopa Moraes
Produção de Vídeos:
João Gabriel Monteiro
Fotos:
Mauro Kury e João Gabriel Monteiro.
Assistente de Direção:
Lisa Eiras
Técnico de Montagem:
Regivaldo Moraes
Preparação Corporal:
Maíra Maneschy e Patrícia Selonk
Produção Executiva:
Flávia Menezes
Produção:
Armazém Companhia de Teatro

SERVIÇO
Inútil a chuva, do Armazém Companhia de Teatro
Onde: Teatro de Santa Isabel – Praça da República, s/n, Santo Antônio
Quando: Hoje e amanhã, às 20h e domingo, às 18h
Quanto: R$ 40 e R$ 20 (meia) – quem tem Cartão Petrobras tem 50% de desconto na compra de até dois ingressos
Informações: 3355-3323

ENTREVISTA // PAULO DE MORAES

Paulo Moraes é diretor do Armazém de Teatro, que nasceu no Paraná e se estabeleceu no Rio

Paulo Moraes é diretor da Armazém Companhia de Teatro, que nasceu no Paraná e se estabeleceu no Rio

Paulo de Moraes, você já comentou que o Armazém, prestes a completar 30 anos, é mais do que um trabalho, é uma escolha de vida. Quais as principais surpresas e atropelos do caminho?
Trabalhar em grupo é um exercício constante de “valorização do coletivo”, de percepção do outro. É preciso estar atento. Talvez essa seja a maior dificuldade, estar sempre atento ao outro, ao movimento do outro, aos desejos do outro. Não é fácil, muitas vezes a gente perde o pé, a gente se desequilibra. Mas é preciso essa disposição, esse querer.

 

                   “A gente quer construir um mundo particular        que leve o espectador ao jogo”

 

Existe uma filosofia que norteie essa trajetória?
Existem coisas que são princípio e síntese no trabalho do Armazém. A tentativa de criar um universo teatral particular a partir de referências cruzadas está na origem do grupo. Quando a gente começa um trabalho, a gente não quer montar uma peça, a gente quer construir um mundo particular que leve o espectador ao jogo, à arena. E a gente vai se cercando de parceiros que ativam esse pensamento. No caso de Inútil a Chuva, a pintura de Ushio Shinohara, a narrativa fincada na quebra do tempo feita pelo cineasta Richard Linklater, a prosa cômica e amarga de David Foster Wallace. Há um mundo que queremos refletir e, mesmo que a gente já tenha quase 30 anos de trajetória, continuamos inseridos neste mundo. A tentativa de que forma e conteúdo sejam algo quase indissociável continua sendo o centro da nossa busca. O que norteia o trabalho é sempre a sala de ensaio, as discussões sobre o mundo, sobre a arte, sobre os amores que atravessaram nossas vidas no último verão, sobre o depoimento que queremos deixar sobre o nosso tempo. A arte está ligada à ideia do homem de conseguir estender o tempo.

Vocês já vieram ao Recife com vários espetáculos, eu diria que a maior parte do repertório. Como o Armazém percebe o público da cidade?
Que delícia voltar pra Recife sempre, uma cidade com tantos artistas importantes, originais. Com grupos pelos quais temos muito carinho, com amigos que a gente sempre reencontra. A gente esteve aí, pela primeira vez, no ano 2000, apresentando Alice Através do Espelho, no Festival de Recife. E foi um acontecimento. Os ingressos se esgotaram muito rapidamente e o público fez um abaixo-assinado para novas apresentações. Era uma fila imensa de gente sem ingresso aguardando antes da cada apresentação. Desde lá, sempre que temos um novo trabalho, Recife é – junto com Belo Horizonte – a primeira cidade que queremos visitar.

Atualmente vocês são patrocinados pela Petrobras. Qual o papel de um patrocinador como a Petrobras para a manutenção e processo criativo do grupo?
Essa parceria que temos com a Petrobras já ha tantos anos, tem sido fundamental na consolidação do trabalho da companhia. Por quê? Primeiro, porque nunca houve uma interferência artística em nossos projetos. Sempre estivemos à vontade para contar as histórias que nos representassem, sem nenhum empecilho. E, depois, porque é um patrocínio que visa circulação, que quer levar o teatro para lugares muito diferentes, por um preço bastante acessível ou, muitas vezes, de graça, contribuindo para formação de plateia. Aqui mesmo no Recife, muitos ingressos foram oferecidos a escolas e ONGs. Não é um patrocínio que te amarra. Tem sido, isso sim, libertador. E isso se deve muito às pessoas que trabalham com patrocínio cultural lá dentro da Petrobras e que tem uma visão aguda sobre a importância deste tipo de manutenção. Agora, é claro que eu gostaria que muito mais coletivos tivessem também essa oportunidade. Faltam mais projetos, faltam políticas públicas e sobram pessoas talentosas e que têm muito a dizer.

O título de uma obra diz muito e vocês tem títulos incríveis. Inútil a chuva, me parece, traz uma desesperança no título. Isso procede?
Para nós o título, ao contrário, é esperançoso. O título refere-se a um momento, já no fim da peça, em que alguns personagens seguem remando apesar da chuva que os alcança no caminho. É inútil que a chuva caia. Eles vão seguir remando, vão seguir em frente. Mas todo título está aberto a um monte de leituras. E é bom que seja assim.

 

                          “A suposta ‘reconstrução’ dessa obra e dessa                           vida a partir de fragmentos incompletos          norteia o espetáculo”

 

A peça é formada por oito quadros vivos. O aspecto visual ganha mais relevância na montagem?
Esses oito quadros, que estruturam a dramaturgia e a encenação, não aparecem no espetáculo exatamente como quadros vivos – à moda do Bob Wilson, por exemplo. Não é um tableau. Em Inútil A Chuva, esses quadros são parte da obra-imaginada de um pintor desaparecido, todos pintados anos antes do momento que a ação dramática se desenrola de fato. É como se esses quadros do passado agora voltassem materializados no palco e na vida desses personagens (que estão, querendo eles ou não, extremamente ligados a esse sujeito pintor). A cada momento, os quadros surgem de uma forma distinta, às vezes aparecem como imagem, outras como reflexão filosófica, música, dança. A suposta “reconstrução” dessa obra e dessa vida a partir de fragmentos incompletos norteia o espetáculo, de certa maneira. Então, sim, há uma preocupação com a visualidade da montagem muito ligada a esses quadros. A partir da luz do Maneco, dos poucos elementos cênicos, das cores do figurino. Mas acredito que há uma organicidade um equilíbrio muito grande entre essa visualidade e o ator como figura determinante da cena. 

A dramaturgia é assinada por você e seu filho Jopa Moraes? Sua mulher também é atriz do Armazém. Quais as dores e delicias de trabalhar em família?
O teatro é formador de famílias, não é assim? Tão natural isso pra mim. Quando o Armazém veio de Londrina pro Rio, em 1998, tentando conseguir melhores condições de trabalho pro grupo, durante um bom tempo moramos quase todos no mesmo apartamento. Mesmo depois, cada um em seu canto, a essência de uma relação muito próxima e viva continua. O Jopa cresceu em contato com essa gente de teatro, sempre participando das conversas, sempre nas viagens que o grupo fez por esse Brasil imenso e fora do país também, assistindo tanta gente bacana por esses palcos, é natural que ele vá encontrando seu lugar como criador também. E a parceria entre nós dois na dramaturgia só me alimentou de coisas positivas. Já a Patrícia, é muito mais que minha mulher, além de ser fundadora da companhia, é uma das atrizes mais importantes do Brasil. E isso não sou eu que digo.

 

              “Acho que o bacana de uma análise de teatro é                              quando tenta compreender e interpretar o                                  evento teatral a partir daquilo que ele tem                      e não pela lógica do que está faltando”

 

Li algumas críticas sobre o espetáculo e que falam de ineficiência da dramaturgia, principalmente no que se refere ao acabamento de personagens. O que você diria sobre isso?
Também li críticas muito positivas e que enxergavam na dramaturgia e em sua estrutura qualidades muito interessantes. Em uma das primeiras versões do texto, a personagem Lotta, em uma conversa com uma curadora de um grande museu, dizia: “Em arte, sempre vai ter alguém para gostar (ou não) do que um outro alguém faz. É por isso que não se pode levar muito a sério um elogio.” Acho que o mesmo vale para algumas críticas negativas. O último espetáculo da companhia, O Dia em que Sam Morreu, recebeu prêmios na França, na Escócia, em São Paulo e no Rio. E isso não impediu que alguns críticos achassem a dramaturgia esgarçada demais. Quem está certo? Acho que o bacana de uma análise de teatro é quando tenta compreender e interpretar o evento teatral a partir daquilo que ele tem e não pela lógica do que está faltando. A obra que o autor quis fazer, não a que está na cabeça do crítico. A partir daí, pode haver diálogo. Para nós, eu e Jopa, a dramaturgia da peça é completamente calcada na construção de personagens. Ou, melhor dizendo, nas situações em que os personagens encontram uns ao outros e na maneira como vão revelando suas diferenças e particularidades a partir da presença desse outro. E, sim, acreditamos muito na potência deles.

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Sopro na dramaturgia para criança

O esetáculo Vento Forte para Água e Sabão, com montagem do Grupo de Teatro Fiandeiros. Foto: Rogério Alves /Divulgação

O espetáculo Vento Forte para Água e Sabão, da Companhia Fiandeiros de Teatro. Foto: Rogério Alves

A vida é breve e imprevisível. É preciso aproveitar cada segundo, entende a Bolonhesa depois que fez amizade com Arlindo. Metáfora poderosa, essa curiosa relação entre a bolha de sabão e a rajada de vento. Juntos eles vão experimentar as belezas e os sabores do mundo, mesmo sabendo que é tudo muito arriscado. O oitavo espetáculo da Companhia Fiandeiros de Teatro e o segundo voltado ao público da infância e juventude, Vento Forte para Água e Sabão está em cartaz aos sábados e domingos, às 16h, no Teatro Hermilo Borba Filho até o final do mês.

Para falar da fugacidade dessa passagem pela Terra e a ameaça constante da morte, o diretor levou para cena alusões a planetas, astros, estrelas, galáxias em contraponto lúdico com a bolha de sabão. No elenco da peça, incentivada pelo Funcultura, estãoTiago Gondim, Daniela Travassos, Geysa Barlavento, Kéllia Phayza, Victor Chitunda e Ricardo Angeiras.

O musical tem texto assinado por Giordano Castro e Amanda Torres. O ator do Grupo Magiluth fala um pouco sobre a dramaturgia, na entrevista a seguir.

Giordano Castro, ator e dramaturgo. Reprodução do FAcebook

Giordano Castro, ator e dramaturgo. Reprodução do Facebook

Como foi o processo para criação da peça Vento Forte para Água e Sabão?
Esse processo surgiu na oficina Fronteiras da Linguagem, na Fundaj, ministrada por Luiz Felipe Botelho. Um dos exercícios da oficina era experimentar a escrita a partir de um universo. Eu e Amanda, que éramos um grupo, ficamos com o universo do fantástico. E aí a gente enveredou por essa escrita. Eu e Amanda tínhamos vontade de escrever para criança. Queria escrever de como falar sobre morte para criança. Essa foi a proposta inicial e foi daí que surgiu a história da bolha de sabão e do vento.

Que valores você destaca na peça?
Acho bastante subjetivo. Na verdade, a gente enquanto fazedor artístico se propõe a criar uma obra. As leituras dessa obra, como ela é recebida, quais as mensagens e os valores que cada um tira dela é um processo de fruição pessoal. Acho que seria até uma arrogância minha. Sei o mote, a abordagem da morte para criança. O importante é apreciar e ver o que ela suscita em cada pessoa.

Como a peça dialoga com o Brasil de hoje?
Essa peça foi escrita há um bom tempo. Faz uns 4, 5 anos, não lembro bem. Se esse viés é o momento que a gente está vivendo agora, crise politica e tudo mais, acho que ela não dialoga diretamente com isso. Ela dialoga com uma questão que vai ser sempre falada, que é a vida e dentro dessa vida, a morte, que também faz parte dela. E é sempre um assunto delicado para qualquer pessoa, mas falar para uma criança… A primeira experiência com a morte pode se dar em várias linhas, mas quando se fala que é uma pessoa mais próxima, tudo é mais difícil. Mas tenho absoluta certeza que as crianças conseguem lidar e resolver conflitos muito melhor do que os adultos. Então é isso, a peça dialoga com a vida, com o que fazer e o que viver, porque a gente não sabe quando vai morrer.

É mais difícil escrever teatro para crianças do que para adultos?
Tenho achado cada dia mais que o difícil é escrever. Com as tecnologias, principalmente as redes sociais, blogs etc, todo mundo tem a possibilidade de escrever, de se expressar mais do que antigamente, que era preciso um veículo para expor as suas ideias. E hoje a internet democratizou isso. Então cada vez mais tem aparecido pessoas com escritas e estéticas bem interessantes. Escrever para adulto ou para criança acho que é indiferente com relação à dificuldade. O que acho que é importante perceber e olhar é saber o que você quer falar para esse determinado público. Eu tenho uma crença muito forte que a gente não tem que colocar a criança no lugar de uma tábula rasa, que precisa encher de informações. Como eu disse, elas conseguem lidar com muitas coisas do dia a dia, da vida muito melhor do que qualquer adulto. Assim em vez de olhá-las de cima para baixo, vamos olhá-las de frente, olho a olho e saber lidar com essa informação. Então, acho que existe uma preocupação, principalmente pra mim, de um texto para crianças e tal e não colocá-las no lugar de infantiloide ou do bobinho e sim levar em consideração que ela sabe lidar muito bem com o mundo ao redor dela.

O que percebe do teatro pernambucano atual?
O teatro Pernambuco atual hoje acho que tá da mesma forma que todos esses anos… assim. Tá do jeito que tá… não sei responder muito isso não. A gente tá passando por um momento bastante delicado principalmente por causa desse viés político, que a gente não tem muito como separar uma coisa da outra. Essa administração municipal e estadual é extremamente omissa quanto às questões culturais. Vemos cada vez mais os espaços cênicos da cidade não receberem o cuidado que eles merecem. Enfim, acho que a gente passa por momento delicado.

E o que é feito para o público infantil no Recife?
Sobre o teatro feito para infância aqui no Recife, pelo menos os que eu acompanho e eu admiro, eu acho incrível e de ótima qualidade. Eu me refiro a alguns autores. Eu gosto muito de Carla Denise e do pessoal do Mão Molenga. Admiro pra caramba o trabalho de Luciano Pontes. Alexsandro Souto Maior escreve muito para criança e eu adoro. Sempre fui muito fã das coisas de Marco Camarotti também. Então acho que a gente tem uma leva muito boa, de pessoas que escrevem com muita responsabilidade para criança, com muito cuidado. Esse teatro é bem bom. O teatro para criança mais comercial acho que ele tem o seu lugar, apesar de eu não acompanhar, de não curtir, acho que há espaço para todo mundo, que tem lugar pra eles na cidade.

Qual é a peça de teatro que você mais gostou de fazer? Como dramaturgo e intérprete?
A peça que eu mais gostei de fazer… Ah! não sei. Cada peça tem o seu sabor especial. Os trabalhos que faço junto ao Magiluth… Enfim, toda minha experiência teatral está no Magiluth. Cada espetáculo é uma experiência importante e o mais interessante é estar com os meus companheiros, com os meus amigos. A gente se sente bem em cena. É uma continuação da nossa vida, na sala de ensaio, no dia-a-dia. Então estar em cena é mais um momento com eles, que é tão bom quanto. Cada espetáculo a gente se diverte de forma diferente. Eu gosto muito muito muito muito de fazer Aquilo que meu Olhar Guardou para Você; O Viúva porém Honesta é bem cansativo, mas me divirto bastante. Luiz Gonzaga ele tem um lugar também muito legal, adoro estar na rua. O ano em que sonhamos perigosamente é o trabalho que eu me sinto mais concentrado, mais focado, mais cuidadoso enquanto estou fazendo, mas me divirto; mas é em outro lugar, com um cuidado maior.

O que é preciso para ser um “bom” dramaturgo?

O que é preciso para ser um bom dramaturgo?! Eu também estou querendo saber. Quem souber responder por favor me diga, que eu também quero aprender a ser um bom dramaturgo. O que eu busco é sempre ler coisas novas, presto atenção no dia a dia, nos assuntos que as pessoas estão discutindo. Tentando ver, ouvir e prestar atenção em tudo.

Ficha Técnica
Texto: Giordano Castro e Amanda Torres
Direção geral: André Filho
Elenco: Tiago Gondim, Daniela Travassos, Geysa Barlavento, Kéllia Phayza, Victor Chitunda e Ricardo Angeiras
Direção musical e arranjos vocais: Samuel Lira
Direção de arte: João Denys e Manuel Carlos
Direção de produção: Daniela Travassos
Iluminação: João Guilherme de Paula
Operação de luz: João Victor e João Guilherme de Paula
Preparação corporal: Jefferson Figueirêdo
Produção executiva: Renata Teles
Apoio: Charly Jadson e Jefferson Figueiredo
Aderecistas: João Denys e Manuel Carlos
Equipe de apoio confecção de adereços: Maria José Araújo, Marco Antônio, Emerson Soares e Jerônimo Barbosa
Costureira: Ira Galdino e Georgete Bezerra
Cenotécnico: Israel Marinho
Fotografias: Rogério Alves
Design gráfico: Hana Luzia
Assessoria de Imprensa: Míddia Assessoria
Realização: Companhia Fiandeiros de Teatro
Incentivo: Funcultura

SERVIÇO
Vento Forte para Água e Sabão
Quando: Até 29 de maio, Sábados e Domingos, às 16
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)
Quanto: R$10 (Inteira) | R$5 (Meia) – Neste final de semana vale meia-entrada para todos

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Bolhas de poesia na cena para as crianças

Vento Forte para Água e Sabão, montagem da Cia Fiandeiros de Teatro. Foto: Divulgação

Vento Forte para Água e Sabão, montagem da Companhia Fiandeiros de Teatro. Foto: Rogério Alves/Divulgação

Intensidade ou permanência. Há gente para tudo neste mundo. Uns preferem o furor e desfrutam com a máxima magnitude tudo que a existência oferece. Outros optam pela duração, sem grandes riscos. Na ficção também acontecem lances assim. Com muitas possibilidades de gradação nas escolhas entre os dois pontos. Em Vento forte para água e sabão, oitavo espetáculo e o segundo infanto-juvenil (o primeiro foi Outra Vez, Era Uma Vez, de 2008) da Companhia Fiandeiros de Teatro, a bolha Bolonhesa tentou se preservar, ficar parada no seu cantinho, sem grandes emoções. Mas Arlindo, a rajada de vento, a seduziu com o anúncio dos encantos do mundo. E Bolonhesa aceitou viver uma aventura incrível, de tocar e ser tocada pela essência das coisas.

A partir da metáfora dessa excêntrica amizade entre uma bolha de sabão e uma rajada de vento, os dramaturgos Giordano Castro e Amanda Torres criaram um texto que descama o sentido errático da vida e inexorável da morte, com uma roupagem lúdica. O musical trata de assuntos considerados mais espinhosos para os pequenos, como rompimentos de relações, traições, dificuldades, decepções e luto.

O diretor da companhia e do espetáculo André Filho aposta que é possível dialogar sobre absolutamente tudo com os miúdos. A dramaturgia toma corpo com músicas originais, nutridas de jazz e referências populares. E lembra que é preciso nos reconciliarmos com nossas crianças interiores, mais puras e frágeis, mas também repletas de coragem.

A peça está em cartaz no Teatro Hermilo Borba Filho, aos sábados e domingos, às 16h, até o final de maio. Participam dessa empreitada os atores Tiago Gondim, Daniela Travassos, Geysa Barlavento, Kéllia Phayza, Victor Chitunda e Ricardo Angeiras.

Na entrevista que segue, André Filho fala sobre a montagem de Vento Forte para Água e Sabão, além de temas como criação teatral e política cultural no Recife.

Serviço
Peça Vento forte para água e sabão
Quando: Sábados de domingos de maio, às 16h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho – Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife
Quanto: R$ 5 (meia-entrada para todos nos dois primeiros fins de semana); R$ 10 (restante da temporada)
Mais informações: (81) 4141.2431 e 3355.3320

André Filho é diretor da Cia. Fiandeiros. Foto: Daniela Travassos

ENTREVISTA // ANDRÉ FILHO

A passagem do texto à cena é um momento de escolhas. Quais as opções em Vento Forte para Água e Sabão?

Vento Forte para Água e Sabão é um texto que traz várias discussões interessantes. Uma delas, se não a mais importante, é a temática da morte. Este tema é sempre repleto de muito tabu quando se escreve ou quando se encena para esse público específico. Mas a maneira inteligente e lúdica que os autores encontraram me cativou. Resolvi seguir então o caminho dessa discussão justamente pela contramão, ou seja falar sobre morte a partir da vida, o sopro da criação, a relação com o divino que vem de nosso pulmão. Procurei contrastar o macrocosmo e o microcosmo, aqui simbolizado pelo clássico e pelo popular respectivamente, mas sem mensurar valores de importância. Vida e morte, luz e sombra, ausência e conteúdo, tudo se complementa, assim como tudo que existe no universo. Gosto muito da musicalidade que a peça me propõe, neste sentido também procuramos dialogar com partituras populares e clássicas, fazendo referências que vão desde as antigas bandas de Jazz, até musicais mais contemporâneos.

Quais os caminhos que o texto indica?

O texto indica várias possibilidades de discussão além da vida e morte. Conceitos como tempo e espaço, novas descobertas, eternidade e efemeridade. Estas são apenas algumas possibilidades. É uma dramaturgia que não se prende apenas a cores, à magia, ao encantamento.

Giordano Castro já disse que quando escreve não se preocupa com a cena, como as coisas vão ser materializadas na cena. Como foi o processo de construção da peça?

Começamos pela desconstrução de que teatro para criança tem que ser bobo. Um texto como Vento Forte para Água e Sabão requer um olhar desprovido de preconceitos sobre o que deve ser dialogado com o universo da criança. Nosso processo iniciou-se a partir da ideia do sopro da criação, o sopro da palavra, do canto. Construir pontes entre coisas simples, como bolhas de sabão, planetas, estrelas. Brincar com o clássico e o popular esse foi o inicio do processo de construção, que ainda está em processo.

Que valores você destaca na peça?

Não gosto muito de destacar valores em uma obra de arte, prefiro falar em sintomas, valores soa para mim como algo pré-definido e majorado como sendo o politicamente correto. É uma história muito simples, de uma bolha de sabão e sua amizade com uma rajada de vento, duas entidades com essências tão diferentes uma da outra, mas que ao mesmo tempo se complementam. A bolha necessita do vento para existir e por sua vez o ar necessita da bolha para justificar a sua função de sopro, de flutuação. Talvez esse seja o grande sintoma, a tolerância às diferenças. Esse fator que é cada vez mais raro em nosso mundo de hoje.

Como a peça dialoga com o Brasil de hoje?

O Brasil de hoje é um país sem rumo político, com pessoas se agredindo mutuamente por diferenças raciais, religiosas, sexuais, políticas. Falta-nos a capacidade da tolerância, a compreensão de que por alguém ser, ou pensar, diferente de nós ele não precisa ser reprimido por isso. Nesse sentido acho a peça bem antenada com nosso momento atual. Falta-nos a capacidade de “poetizar”, de olhar o outro não como um estrangeiro mas como um parceiro na construção de uma sociedade mais justa. Que os ventos de um novo tempo nos levem, como bolhas de sabão, a conhecer outros ares melhores que este em que estamos vivendo.

 É mais difícil encenar para crianças do que para adultos?

Sim, muito mais. Não apenas pela questão do critério da observação que a criança tem sobre a peça. O olhar da criança é sempre mais vertical que o olhar do adulto, justamente por estar livre de conceitos pré-concebidos. Mas é difícil principalmente porque precisamos primeiro agradar a nossa criança interior, e esta muitas vezes está adormecida há bastante tempo. Trilhar este caminho até a criança que está dentro de nós é um labirinto escondido entre tantos preconceitos de adultos que às vezes, durante esse caminho de descoberta, dá vontade de desistir e queremos ir pelo caminho mais fácil da caricatura. Esse foi, é e sempre será o maior desafio para quem trabalha com teatro para crianças. É um processo que leva tempo, mas bastante enriquecedor.

 

                      “A capacidade criativa dos nossos artistas de teatro                                                      é inversamente proporcional às ações                                    de nossos gestores públicos para a cultura”

 

O que percebe do teatro pernambucano atual?

A pergunta é bastante ampla. Seria preciso um recorte mais objetivo para uma resposta mais precisa. Há vários caminhos para responder. Do ponto de vista da criação, vejo que vivemos um momento bastante interessante se olhamos pela ótica dos grupos. São eles que vêm oxigenando o debate mais intenso sobre o fazer teatral em Pernambuco. Não vai aqui nenhuma crítica a produtoras convencionais, absolutamente, mas a resistência dos grupos em discutir questões espinhosas vem sendo o grande diferencial do nosso teatro. O trabalho continuado é nosso grande trunfo. É ele que nos dá identidade, que nos alimenta de novas possibilidades e nos junta em torno de algo comum. No entanto ainda persiste o déficit de políticas públicas voltadas especificamente para este segmento, houve avanços é verdade, mas ainda tímidos. Lamento profundamente que tenhamos perdido o bonde da história com a morte do Plano Municipal de Cultura. Ali tínhamos várias possibilidades de ver o Recife dar um salto qualitativo no nosso fazer teatral. O fechamento de casas de espetáculos, a precariedade dos equipamentos das que ainda funcionam, a não abertura de Edital de Ocupação para o Teatro de Santa Isabel e mais recentemente a diminuição das linhas de crédito do SIC estadual, valores que já estavam defasados há mais de dez anos, são reflexos de que a capacidade criativa dos nossos artistas de teatro é inversamente proporcional às ações de nossos gestores públicos para a cultura. Mas o grande problema do nosso teatro não está na cena e sim na nossa falta de organização política. Isso tem sido o grande entrave para uma melhoria nas nossas condições de trabalho que se refletiria sem dúvida alguma num debate mais aprofundado de nossa estética local.

E o que é feito para o público infantil no Recife?

Recife sempre teve uma tradição de teatro para criança muito interessante.  Há pessoas que trabalham sério neste segmento e fazem um trabalho com muita dignidade. A Companhia Fiandeiros, penso eu, deu uma contribuição importante para o teatro para infância em Pernambuco com a montagem do Outra Vez, Era Uma Vez… e agora estamos novamente buscando este público e estamos ávidos por encontrá-lo novamente. Mas claro que existem tentativas que buscam dialogar mais com a televisão e com o cinema do que com o teatro propriamente dito. A linguagem do teatro é densa de significados não apenas de expressão, de luzes ou de cores. Nesse sentido vejo bons trabalhos sendo feitos, apesar de toda limitação de espaço para apresentações e para ensaiar.  Vi tão bons trabalhos para a criança nos últimos anos, mas eles não conseguem se manter por um tempo mais longo. Cumprem temporada e se encerram rapidamente. Falta espaços para apresentações, espaço para discussões, organização política. O Funcultura precisa sistematizar linhas de ações que valorizem mais o teatro para infância e juventude, mas a questão não é apenas financeira, creio se tratar também, como sempre, de formação.

 

             “Quando falo em organização política me refiro                  especificamente ao nosso quintal, aqui no Recife”

 

E como você enxerga o teatro brasileiro?

Não sei se conseguiria traçar um pensamento sobre o teatro brasileiro. O que eu acho bacana de observar é que é possível identificar o fenômeno do teatro de grupo se fortalecendo em todo país. Recentemente estivemos em contato com alguns grupos do Brasil, mais especificamente do Paraná, São Paulo, Goiás e Rio de Janeiro. As dificuldades são as mesmas que qualquer outro coletivo em qualquer lugar do Brasil. O que nos diferencia é a organização e mobilização política. Em lugares como São Paulo e Rio de Janeiro há avanços significativos na política pública, onde podemos ver grupos fazendo residências e participando ativamente da gestão dos equipamentos administrados pelo Estado. Só consigo ver um caminho para nosso teatro dentro do contexto nacional, é o da organização política. E quando falo em organização política me refiro especificamente ao nosso quintal, aqui no Recife. Não adianta fortalecer mobilizações nacionais e esquecer de que é aqui, a nossa casa que precisamos arrumar primeiro. É impossível não perceber que onde há um processo de formação continuado em teatro o resultado estético é nitidamente modificado.

Qual é a peça de teatro que você mais gostou de fazer? Como diretor e intérprete?

Não dá para especificar uma peça apenas, todas as peças que dirigi para a Companhia Fiandeiros têm em si momentos que foram marcantes no processo de criação, O Capataz de Salema foi um momento bacana, Vozes do Recife, o Outra Vez, Era Uma Vez…, foi um momento bem bacana porque além de dirigir também escrevi o texto e fiz as músicas, enfim. Também gostei muito do processo de Noturnos. Mas particularmente eu gostei muito da experiência de ter montado Vento Forte para Água e Sabão, foi mais uma oportunidade de mergulhar na minha criança e de olhar o mundo através de seus olhos. Fiz recentemente um trabalho como intérprete, sob a direção da professora Marianne Consentino que foi muito enriquecedor.  Fizemos um solo a partir da obra A Tempestade, de William Shakespeare. Foi um momento muito especial pra mim e que eu destacaria.

O que é preciso para ser um “bom” encenador?

Um “bom” encenador? Poxa, como responder isso se não sou nem nunca pretendi ser um. Apenas procuro fazer um teatro que busca dialogar com a plateia, ser compreendido e me sintonizar com o mundo à minha volta. Uma vez vi uma entrevista com Abujamra que ele dizia que “ser encenador é a arte de ser dispensável”. Acho que é por aí. O que é mais bacana é que nosso trabalho é completamente invisível, quem brilha no palco é o ator. O trabalho do diretor é escrever no palco uma dramaturgia, escrita ou não, de maneira poética. Eu acho que para ser um bom encenador a primeira coisa que se tem a fazer é compreender que seu trabalho é invisível e que a cada novo processo se volta à estaca zero, do aprendizado. Quando isso não acontece corremos o risco de ficarmos repetitivos e presos ao passado. O tempo do teatro passa e não volta. Não adianta. Quanto mais tentarmos voltar ao que nos deu brilho um dia, mais nossa luz se apagará. Toda vez que penso nisso sinto quanto estou distante de ser um bom encenador.

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Trema! ataca com Quem tem medo de Travesti!

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Elenco conta histórias autobiográficas ou vividas por outras pessoas. Foto: Divulgação

A partir de pesquisa histórica, social, antropológica e artística sobre os papéis da travesti no teatro e na sociedade, o coletivo As Travestidas (CE) ergueu o espetáculo Quem tem medo de travesti!, atração desta sexta-feira (29), às 21h, no Teatro de Santa Isabel, do Trema! Festival de Teatro. A montagem investe na concepção da Arte Transformista desde a conquista do espaço na cena, passando pela glamourização do teatro de revista até procedimentos de marginalização da figura “trans”.

Seres da noite, vampiras, lobisomens, centauros urbanos, bichas e veados ganham outras angulações, com humor e provocação. Essas criaturas trazem narrativas repletas de dor e questionamentos inquietantes. A sociedade que assassina jovens com seus preconceitos e discriminação é descascada na encenação, que conta com sete atores em cena e músicas, dubladas ou cantadas ao vivo.

Quem tem medo de travesti!
devolve o julgamento de quem condena sem conhecer essa realidade. De quem sabe pouco das práticas e técnicas corporais, que vão desde injeções de silicone à mudança de hábitos e gestuais, na busca da sobrevivência e elevação da auto-estima dos que ousam ter o corpo modificado.

O desejo mascarado ou subterrâneo de setores da sociedade gera violência e preconceito. Como resposta, elas gritam por civilidade e respeito.

O estereótipo cede lugar ao desejo da travesti que perpassa o desejo do outro. O íntimo, a subjetividade e a dor sem caricatura ganham o primeiro plano. Mas com comicidade e deboche, que são as armas dessas figuras híbridas exibidas por trás dos aparatos da montagem.

Quem tem medo de travesti? Foto: Divulgação

Quem tem medo de travesti? Foto: Divulgação

Fragmentos de vidas reais coletados em conversas com travestis, transexuais e artistas transformistas, mesclados a relatos dos próprios atores, além de pesquisas acadêmicas, documentários em vídeos e referências que vão de Aristóteles a João Cabral de Melo Neto compõe o espetáculo. Quem tem medo de Travesti! tem texto e direção do ator e diretor cearense Silvero Pereira e Jezebel De Carli, professora e diretora gaúcha. A parceria surgiu com o espetáculo BR-TRANS, em Porto Alegre/RS em 2013.

No elenco estão Denis Lacerda (Deydianne Piaf), Verónica Valenttino (Jomar Carramanhos), Alicia Pietá, Patrícia Dawson, Italo Lopes (Karolaynne Carton) Diego Salvador (Yasmin Shirran) e Rodrigo Ferreira (Mulher Barbada).

Leia abaixo entrevista com ator, dramaturgo, diretor, professor de teatro, dançarino,   pesquisador, produtor, figurinista, maquiador,  iluminador,  sonoplasta,  aderecista e militante Silvero Pereira.

Silvero Pereira em uma cena de BRTrans. Foto: Lina Sumizono/Clix/FTC

Silvero Pereira em uma cena de BR-TRANS. Foto: Lina Sumizono/Clix/FTC

ENTREVISTA // SILVERO PEREIRA

Que você acha de ser considerado a vedete do teatro cearense?
Eu, sinceramente, não me preocupo com rótulos. Tenho mais preocupação com a construção de um teatro que possa comunicar-se com o público. Se vão dizer que sou pop, vanguardista, imitação ou transformador, para mim, depende muito de como se relacionam com a obra. Entretanto, esse título de vedete me deixa feliz, pois coloca meu trabalho entre o antigo, glamouroso e um teatro que aproxima o público.

O que dá sustentação a sua pesquisa, experimentação artística e envolvimento político com as  questões do LGBTTT?
Talvez essa sustentação venha por conta de nossa verticalização entre arte e pesquisa. Fazemos um trabalho que antes da aula, questões levantadas sobre gênero e diversidade, ele possui uma identidade artística com base na dramaturgia, encenação e atuação. Não é uma construção apenas político-militante. Antes de tudo somos artistas que acreditam no seu ofício em várias vertentes, seja ele de entretenimento ou de questão social. Entretanto, nos identificamos com esse teatro capaz de provocar novas percepções sobre determinado assunto a partir da estética que realizamos

Por que a escolha do universo trans?
Não foi exatamente uma escolha. De certa forma eu fui sendo absorvido por essa temática. Trabalhei numa comunidade no Ceará com muitas travestis e diante da realidade delas é do meu ofício, achei que seria o modo como eu poderia colaborar para mudar um pouco essa realidade, mas fui entrando no universo e me dando conta de uma série de questões que não ficaram resumidas a apenas uma obra, havendo a necessidade de novos projetos para novas discussões

Estamos vivendo um momento muito delicado no Brasil, as máscaras do preconceito contra o diferente são depostas quando se fala em conquistas e direitos. Como você enxerga a situação política e quais os receios sobre a repercussão disso tudo para o trabalho de defesa dos trans, que você está empenhado?
O Brasil é um país travestido de democracia e liberdade. Ele finge ser libertário, finge ser uma sociedade igualitária, mas é o país que mais mata LGBTTT’s no mundo. É um país racista, machista. Mas também não podemos deixar de ver que é um país que tem abertura para as lutas do movimento social e são essas brechas que nos fazem respirar e seguir lutando por mudança. Avançamos em muita coisa desde a Colônia, mas não somos, ainda, um lugar seguro e igual para todos

Fale um pouco do espetáculo Quem tem medo de travesti!. Sei que faz muito sucesso. As pessoas ficam tocadas. Vocês buscaram o lado mais humano e menos glamouroso. 
Quem tem Medo de Travesti! é um espetáculo que desnuda a caricatura marginal da travesti. Ele traz situações sobre infância, descobertas, família, a falta de afeto e a morte por assassinato e por suicídio. Não é a arte que humaniza a travesti. É a sociedade que a coloca como bicho. No nosso caso, queremos abrir esse olhar estigmatizado e fazer enxergar esse universo como um lugar de pessoas que acordam, amam, sofrem e são julgadas a cada segundo por conta de uma construção histórico-social de que elas não são humanas, mas sim animais.

O que é ser travesti na abrangência do espetáculo?
A travesti é a verdadeira filha dessa sociedade excludente. Se ela virou marginal foi porque foi parida por uma sociedade que não a aceitou na família, na religião e na educação. Logo, aceite seus filhos como você educou.

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FICHA TÉCNICA 
Direção e dramaturgia: Jezebel De Carli e Silvero Pereira
Elenco: Denis Lacerda (Deydianne Piaf), Verónica Valenttino (Jomar Carramanhos), Alicia Pietá, Patrícia Dawson, Italo Lopes (Karolaynne Carton) Diego Salvador (Yasmin Shirran) e Rodrigo Ferreira (Mulher Barbada)
Produção: Silvero Pereira
Técnico de som: Fabio Vieira
Iluminação: Fabio Oliveira
Realização: Coletivo Artístico As Travestidas
Classificação indicativa: 18 anos
Duração: 80 minutos

SERVIÇO
Quem tem medo de travesti!
Quando: Hoje (29), às 21h
Onde: Teatro de Santa Isabel (Praça da República s/n, Bairro de Santo Antonio)
Quanto: R$ 30 e R$ 15
Telefone: 3355 3322

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