A trajetória da Cia Dançurbana de Mato Grosso do Sul engloba uma construção contínua de território. Ao transformar duas décadas de trabalho em cena em uma pista de dança aberta ao conflito e ao prazer, o grupo busca demonstrar que a memória existe num movimento que se atualiza na fricção. Em Cavucada – A festa não será amanhã, a companhia converte sua longevidade em uma ferramenta de ocupação, mas é na fatura artística que a obra revela suas maiores potências e seus desafios estruturais.
Essa operação, no entanto, não se organiza por meio de uma dramaturgia de progressão linear. O que a peça propõe traz outra economia: uma dramaturgia do atrito, da colagem e do excesso. Em vez de conduzir o espectador por uma sequência fechada de significados, Cavucada aposta em quadros, impulsos, remissões e simultaneidades. A dispersão, nesse caso, não deve ser lida apressadamente como deficiência; ela pode ser compreendida como parte do método, como uma forma de fazer coexistir, em cena, vestígios de história, vitalidade presente e abertura ao encontro.
A direção de Jorge Alencar e Neto Machado aposta na cena como atualização de um corpo-arquivo. Os intérpretes aparecem como vetores de uma memória corporal cultivada por anos de criação, circulação e convivência artística. Ao mobilizar a cavucada do brega funk como impulso rítmico e ao fazê-la conviver com vogue, hip-hop, axé, dança contemporânea e referências de circulação digital, o espetáculo produz uma zona híbrida em que o repertório da companhia é reencenado.
Há, nesse gesto, uma dimensão importante de reativação. Fragmentos de obras anteriores surgem como vestígios de uma história que insiste em permanecer no presente. O palco se torna, assim, um espaço de rememoração dinâmica. O que se vê não é uma tentativa de organizar o passado em linha reta, mas de fazê-lo reaparecer como energia residual, como matéria ainda em disputa.
O aspecto mais instigante da encenação talvez seja seu entendimento da festa como dispositivo de relação. A cena não se fecha na contemplação; ela convoca, envolve, mistura e desloca as fronteiras entre elenco e plateia. O público é lançado para dentro de uma situação que pede adesão, escuta e participação. Cavucada – A festa não será amanhã quer mais que ser vista, quer produzir uma comunidade provisória, ainda que precária, sustentada por presença, contágio e abertura.
Essa escolha confere ao espetáculo uma temperatura específica. O que está em jogo é a possibilidade de afirmar, no próprio ato da celebração, uma ética dos encontros e das liberdades. Nesse sentido, Cavucada propõe uma reflexão encarnada sobre o que significa reunir corpos diversos em torno de uma experiência comum.
É justamente nessa zona de abertura que o trabalho encontra sua maior força, mas também seus pontos de suspensão. O espetáculo alcança momentos de grande intensidade física e sensível, em que os corpos se expõem a um regime de esforço, insistência e vibração que produz forte presença cênica. Há algo de contundente na maneira como a dança se aproxima do limite, fazendo da exaustão uma camada expressiva do acontecimento.
Embora o roteiro musical e coreográfico seja definido, a intensidade de cada sessão é ditada pela interação. O espetáculo recusa a distância segura da contemplação e exige que o elenco – Afrodite Fetake, Ariane Nogueira, Daniel Andrade, Jackeline Mourão, Livia Lopes, Maura Menezes, Ralfer Campagna, Reginaldo Borges, Renata Leoni, Roberta Siqueira, Rose Mendonça e Wagner Gomes – sustente o protagonismo de suas danças individuais em meio ao caos organizado da festa. Cada artista defende sua singularidade com uma força que beira o confronto, afirmando que a liberdade em cena é uma conquista espacial.
No entanto, a passagem entre esses estados nem sempre se resolve com a mesma precisão. Em certos momentos, a obra parece acumular materiais sem criar entre eles uma mediação suficientemente elaborada. A peça não pretende construir uma arquitetura dramática tradicional. Ela prefere operar por acúmulo, vibração e contaminação. Essa opção, no entanto, tem consequências: quanto mais a peça investe na multiplicidade, mais precisa sustentar a relação entre seus blocos para que o excesso não se converta em simples dispersão.
A questão é, portanto, se sua lógica de fragmentação produz uma experiência suficientemente densa para o espectador. Em alguns momentos, a resposta é afirmativa; em outros, a força do material parece maior do que sua articulação interna.
A presença da Dançurbana na MITsp dentro do projeto Conexões Centro-Oeste tem peso político e simbólico. Levar uma companhia historicamente ligada a Campo Grande e ao Mato Grosso do Sul para esse circuito é uma forma de deslocar o centro e fazer aparecer uma produção ainda pouco visibilizada nos palcos paulistanos. A partir dessa leitura, Cavucada participa de uma disputa maior por reconhecimento, circulação e legitimidade. Mas esse reconhecimento não deve suspender o exame crítico do espetáculo. Ao contrário: quanto maior a relevância territorial e histórica do trabalho, mais necessário se torna perguntar como essa relevância se materializa em cena.
Sua força está na invenção de uma festa que pensa o corpo como arquivo e o encontro como política. Sua limitação, quando aparece, não está na falta de intenção, mas na dificuldade de fazer certas passagens ganharem espessura suficiente. Entre festa, repertório e território, a obra produz uma cena vibrante, por vezes excessiva, sempre empenhada em manter vivo o que a história da companhia forjou ao longo do tempo.
FICHA TÉCNICA
Criação e direção artística: Jorge Alencar, Neto Machado
Intérpretes-criadores: Afrodite Fetake, Ariane Nogueira, Daniel Andrade, Jackeline Mourão, Livia Lopes, Maura Menezes, Ralfer Campagna, Reginaldo Borges, Renata Leoni, Roberta Siqueira, Rose Mendonça, Wagner Gomes
Trilha e montagem sonora: Reginaldo Borges
Design e operação de luz: Adriel Santos
Personal stylist: Wity Prado
Figurino: Gabriela Mancini
Assistente de figurino: Herbert Correa



