Arquivo mensais:agosto 2024

Jornada de resistência e busca por liberdade
Crítica da peça Alguém pra fugir comigo

Espetáculo recifense Alguém para fugir comigo. Foto: Ivana Moura

Alguém pra fugir comigo é um espetáculo de estrutura fragmentada e não linear, do Resta 1 Coletivo de Teatro, do Recife, que expõe diversas formas de opressão e de resistência em diferentes tempos – desde o “período escravocrata” até os dias atuais. A peça tem apelos de humanidades perdidas; ou clamor desesperado de que seja possível encontrar algum fio que leve ao coração das trevas.

Como se configuram os dispositivos da montagem, a peça parece abraçar as ideias de Chimamanda Ngozi Adichie sobre a importância de contar histórias e de evitar o perigo da história única.

Seus personagens, figuras ou flashes humanos são pobres e oprimidos, e a opção da montagem é a partir do olhar de luta delas e deles. Com isso, oferece ao público uma tapeçaria complexa de experiências de pessoas subalternizadas pelo sistema de ontem e de hoje. Pois como diz Adichie, “histórias importam”.

Montado em 2016, o que resultou na formação do Resta 1 Coletivo de Teatro, Alguém pra fugir comigo atravessou o pós-golpe de Dilma Rousseff, sobreviveu à pandemia, e respirou aliviado depois de quase sumir com ações diretas e indiretas do pior presente do Brasil. Isso está encarnado no corpo dos atores, nos fluxos de tensões e distensões da encenação. Nos quadros que se articulam entre si há encaixes perfeitos e outros que não se acomodam, gritam isoladamente.

A encenação de Analice Croccia e Quiercles Santana, corajosa e pulsante, desafia ao seu jeito, as convenções teatrais, mesclando diferentes estilos e abordagens narrativas. É uma trama que perpassa diferentes tempos e tipos, rasgando temas como desigualdade, resistência, injustiças e afetos. A origem conceitual e os disparadores vêm de textos políticos, líricos, filosóficos; relatos de fatos verídicos e imaginários.

Nessa estrutura estilhaçada se enroscam diferentes épocas e perspectivas. Desde a fuga de Liberdade, uma escravizada que busca escapar dos abusos da casa-grande, até reflexões sobre nossa cidadania vez por outra ameaçada, a peça mexe um caldo de experiências.

Há imagens extremamente potentes, poéticas, comoventes. Existe uma entrega na atuação do elenco, composto por Analice Croccia, Ane Lima, Caíque Ferraz, Clau Barros, Pollyanna Cabral, Raphael Bernardo e Wilamys Rosendo. Eles “abraçam” tipos cotidianos em situações extremas e performance mais autoral. Mas há quebras, uns hiatos, umas ruínas expostas que se apresentam febris, mas podem cair em fragilidades.

A direção musical e o desenho de som de Kleber Santana, combinados com a iluminação de Luciana Raposo e o figurino simples em tons pastéis, criam uma atmosfera envolvente. Os trechos musicados e coreografados são carregados de poética onírica.

Personagens questionam como conquistar a liberdade. Foto: Ivana Moura

A peça provoca uma gama de emoções no público, desde risos frouxos com o vocabulário escatológico de algum personagem até momentos de profunda reflexão e comoção. Minha amiga Inocência Galvão foi às lágrimas na sessão de 15 de agosto, no Teatro Apolo.

O grupo vai abrindo caminho em busca de uma linguagem própria. Mas soa como uma provocação/cilada o aviso do elenco de que “não há nada de novo ali” e que o público não deve esperar “isso” e “aquilo”. Pareceu-me um jogo de palavras para trazer o niilismo do quadro difícil que o teatro pernambucano enfrenta há anos e que só piorou. Cria um sentido dúbio sobre a obra. E não sei se devolve o efeito esperado pelos criadores/criadoras da cena.

Até porque, o espetáculo propõe uma escuta cúmplice, empática, de quem está à beira do abismo, de quem não suporta mais tanta pressão, dos momentos em que o mundo espreme tanto que quase não sobra fôlego para viver. E como alimentar a coragem, eles vão perguntando e vendo a resposta adiada.

Alguém pra fugir comigo evita oferecer respostas simplistas ou conforto imediato. Mas mesmo assim, relembra que é fundamental o exercício do afeto, da empatia e da solidariedade, especialmente em tempos de turbulência e incerteza. Talvez por a cena ser dura, com episódios cruéis, sinalize para esse caminho de humanidade.

A direção Analice Croccia e Quiercles Santana. Foto: Ivana Moura

O conceito de fuga é central na encenação, servindo como metáfora para a busca por liberdade e autodescoberta. A peça questiona: “Quando fuga virou sinônimo de liberdade? Justiça é sinônimo de liberdade? Estar livre é o mesmo que estar liberto?” Estas perguntas provocativas convidam o público a refletir sobre o verdadeiro significado de liberdade em diferentes contextos históricos e pessoais.

Através de personagens como Liberdade, a peça explora questões de identidade e pertencimento. A pergunta “Essas são nossas terras e origens?” ressoa profundamente, especialmente no contexto da história brasileira e sua herança colonial.

A direção de Analice Croccia e Quiercles Santana cria um jogo teatral dinâmico, mas com andamentos diferentes, da agilidade à lentidão. O uso de elementos simbólicos, como as malas carregadas pelos atores, funciona como metáfora para as bagagens emocionais e históricas que todos carregamos.

Como a própria peça sugere, qualquer dia desses você pode estar mais frágil e precisar de uma mão, de um braço, de um colo, de um abraço, de um empurrão. Talvez seja bom não esquecer disso.

FICHA TÉCNICA
Atuantes:
@analicecroccia
@ane_clima
@claubarros__
@pedrocaiqueferraz
@pollycabral
@rapha_berna
@wilamysrosendo

Operação de luz de @lucianaraposoluz
Pesquisa musical e execução de @klebersantana_bill
Direção de movimento de @patricia.costabailarina
Preparação de canto de @katarinamenezescanto
Texto de Ana Paula Sá e Quiercles Santana
Encenação de Analice Croccia e @quiercles

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Epifania coletiva
Algumas reflexões sobre o espetáculo
Fernanda Montenegro lê Simone de Beauvoir

Fernanda Montenegro do Ibirapuera. Foto: Reprodução

Sim, foi uma noite memorável. Este domingo, 18 de agosto de 2024, entrou para a história do teatro brasileiro com a performance de Fernanda Montenegro lendo Simone de Beauvoir no Auditório Ibirapuera – Oscar Niemeyer. A apresentação foi simultaneamente transmitida na parede traseira do prédio para 15 mil espectadores no parque. O contraste entre a intimidade da leitura e a grandiosidade do espaço aberto criou uma atmosfera única e inesquecível. Quase um show de rock, sem rock in roll, mas com filosofia, literatura, teatro, afetos e outras coisinhas, um espetáculo eletrizante, liberdade na veia.

Confesso que o que me inquietava com Fernanda Montenegro lê Simone de Beauvoir para uma multidão no Parque Ibirapuera era que a ação do marketing do banco Itaú  dissipasse a essência teatral, a artesania, o impacto emocional nos espectadores. Enfim, pasteurizasse o ritual.

Por 75 minutos a arte vibrou plena em primeiro plano, que até ingenuamente esqueci da natureza do capital. Com o patrocínio do Itaú, (que sabe que a cultura é um bom negócio), a arte imperou lindamente. Por ser Fernandona imensa, por tudo que ela representa para este país e para a cultura, a política, a cidadania. Por sua postura coerente, por ela estar no imaginário do povo brasileiro como Zulmira (A Falecida, 1965), Romana (Eles Não Usam Black-Tie, 1981), Madame Carlota (A Hora da Estrela, 1985), Dona Margarida (O Que É Isso, Companheiro?, 1997), Dora (Central do Brasil, 1998, papel pelo qual foi indicada ao Oscar), Nossa Senhora (O Auto da Compadecida, 2000), Leocádia Prestes (Olga, 2004), Tránsito Arriza (O Amor nos Tempos do Cólera, 2007), Bibiana Terra Cambará (O Tempo e o Vento, 2013), Dona Matilde (O Beijo no Asfalto, 2018), Eurídice Gusmão (A Vida Invisível, 2019),  Carminha (Piedade, 2021), Eunice Paiva (Ainda Estou Aqui, 2024), para citar alguns filmes.          

Ou das novelas / séries Júlia Albuquerque Soares Camargo (Sangue do Meu Sangue, 1969), Sílvia Toledo (Baila Comigo, 1981), Francisca Newman (Brilhante, 1981), | Charlotte de Alcântara Pereira Barreto- Charlo (Guerra dos Sexos, 1983), Leonarda Furtado Machado-Naná (Cambalacho, 1986), Salomé Szimanski (Rainha da Sucata, 1990), Olga Portela (O Dono do Mundo, 1991),  Jacutinga (Renascer, 1993), Maria Izabel de Souza- Dona Picucha (Doce de Mãe, 2012), Drª. Teresa Petrucceli (Babilônia, 2015), Gilda (Gilda, Lucia e o Bode, 2020) entre muitas outras atuações na telinha.

Ou no palco: Fedra, Dona Doida, The Flash and Crash Days, Dias Felizes, Viver Sem Tempos Mortos, Nelson Rodrigues por Ele Mesmo. Esses são os espetáculos que assisti, da trajetória intensa do teatro da Fernandona. Cada um revestido de seu tempo encarnado de humanidades.

A atriz assina a dramaturgia, baseada no livro A Cerimônia do Adeus de Simone de Beauvoir. Foto: Reprodução

Quando Dona Fernanda começou a ler sua versão de A Cerimônia do Adeus de Simone de Beauvoir tudo se iluminou numa mágica complexa para traduzir. A velha dama do teatro, de cabelos brancos, senhora absoluta da técnica de interpretar magnetizava as plateias do auditório e do parque. A multidão entrou em sintonia profunda com aquelas ideias relevantes da filósofa francesa. O silêncio era atravessado por muitas emoções densas, genuínas, choros, risos, lembranças individuais e coletivas.

Eu fiquei entre as 800 pessoas do auditório; minha amiga Gracinha Melo estava junto às 15 mil pessoas do gramado. A experiência dela foi mais ritual, pelo que ela (e outras pessoas contam) e absolutamente deslumbrante. O domingo foi ensolarado, com um final de tarde com temperaturas amenas e uma lua imensa parecia abençoar a atriz e seu público naquele encontro.

Marcado para começar às 19h, o evento iniciou por volta das 19h30, com a participação de Fernanda Torres, filha de Montenegro, que se dirigiu à multidão no parque (com transmissão para a plateia do auditório) para discorrer sobre a relação da mãe com a literatura de Beauvoir. “Essa obra fala, acima de tudo, da liberdade e de sua importância em nossas vidas, não importa a idade ou a origem de cada um”. Fernandinha mencionou que, apesar das vidas diferentes, a liberdade também guiou o percurso de Fernandona. Em seguida, contou que sua mãe foi impactada por O Segundo Sexo quando tinha 20 anos e que, quando ela, a filha, completou 17 anos, a mãe fez questão de lhe dar uma edição de presente.

Ao se aproximar dos 80 anos, Fernanda Montenegro levou a obra de Beauvoir para o palco. Com base no livro A Cerimônia do Adeus e trechos de outras obras foi encenado Viver Sem Tempos Mortos. A atriz enfrentava o luto pela perda de seu marido, o ator Fernando Torres, e de vários companheiros de sua geração artística, e no palco fazia uma poderosa reflexão sobre o passar do tempo, e a finitude.

Fernanda Torres e Fernanda Montenegro. Foto: Ivana Moura

O espetáculo Fernanda Montenegro lê Simone de Beauvoir teve uma origem intimista, como relatou Fernanda Torres. Inicialmente concebido para ser apresentado no auditório da Academia Brasileira de Letras, onde Fernanda Montenegro ocupa uma cadeira como imortal, o projeto rapidamente ganhou vida própria.

Após as primeiras apresentações em um pequeno teatro no Rio de Janeiro, o espetáculo conquistou o público de forma surpreendente. O sucesso crescente demandou espaços cada vez maiores para acomodar a audiência entusiasmada. Esta trajetória ascendente culminou na grandiosa apresentação no Parque Ibirapuera, em São Paulo.

Esta evolução do espetáculo – de um ambiente íntimo da ABL para um dos maiores parques urbanos do Brasil – reflete a popularidade de Fernanda Montenegro e o interesse duradouro nas ideias de Simone de Beauvoir. Demonstra, ainda, como uma performance aparentemente simples – uma atriz lendo os escritos de uma filósofa – pode ressoar profundamente com um público diverso e numeroso.

Junto com Fernanda, o público atravessa a infância, adolescência e juventude de Simone de Beauvoir, suas descobertas, aventuras e vida sexual. A narrativa passa pelo horror da Segunda Guerra Mundial e pela juventude contestatória do Maio de 1968, que sacudiu a França e mudou o mundo. Com o filósofo Jean-Paul Sartre sempre presente, Simone vive uma vida intensa até se aproximar da finitude do companheiro intelectual e de seu próprio fim, repleto de novas redescobertas.

Com seu registro único, a atriz magnetizou as paleias. Foto: Reprodução de tela

A apresentação de Fernanda Montenegro extrapolou o espetáculo cultural para se configurar como um poderoso ato político e social. O historiador Eric Hobsbawm, em suas obras, argumentava que a cultura é tanto um reflexo quanto um agente das condições sociais e políticas de seu tempo. Escutar as palavras da filósofa feminista reflete as discussões contemporâneas sobre igualdade de gênero e direitos das mulheres, temas que estão no centro do debate político atual.

Ao refletirmos sobre os avanços e recuos no campo comportamental e as tensões do século 21, é fascinante revisitar o pensamento de Beauvoir sobre o amor. Fernanda Montenegro apresentou a visão ampla e complexa de Beauvoir sobre o amor, começando pelo amor próprio – uma jornada de autodescoberta como mulher e ser pensante. O amor carnal, ou amor sexual, tema recorrente na obra da filósofa, foi abordado com nuances surpreendentes. Com destaque para a relação de Beauvoir com Jean-Paul Sartre, descrita como um amor livre e intelectualmente estimulante. 

Fernanda Montenegro completa 95 anos em outubro; o público cantou parabéns para você. 

O evento no Ibirapuera, com sua produção de alto nível, criou uma atmosfera especial. A qualidade do som permitiu uma boa recepção, enquanto a iluminação gerou intimidade apesar da vastidão do espaço. Momentos de humor provocaram risos coletivos, criando uma sensação de comunhão, enquanto as passagens introspectivas foram recebidas com um silêncio reverente.

Foi inspirador observar a reação do público no gramado. Jovens, possivelmente sem contato prévio com Beauvoir, ouviam atentos. A menção ao livro O Segundo Sexo foi recebida com aplausos entusiasmados, por quem reconhece a importância da obra.

O clímax emocional veio no final, quando as cortinas se abriram revelando a multidão. Nos últimos dez minutos, Fernanda se dirigiu diretamente ao público. Suas palavras sobre o poder do teatro na era digital ressoaram profundamente: “O teatro é uma arte arcaica, primitiva, um ser humano diante de outro trazendo a presença de uma terceira dimensão. Isso está acontecendo em uma era eletrônica.”

As últimas frases do monólogo ganharam relevo, traçando um paralelo entre a trajetória da atriz e os motivos para revisitar Beauvoir: “Não sou escrava do meu passado. O que sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida. Eu acredito que consegui fazê-lo. Não desejo nada mais do que viver sem tempos mortos.”

“O acaso existe e tem sempre a última palavra”, frase dita nos primeiros minutos do espetáculo, apontam para outras possibilidades e torço que inspire os jovens presentes a fazerem a diferença no mundo, abraçando a liberdade tão celebrada no palco.

Um momento particularmente tocante ocorreu os agradecimentos, quando o público de praticamente 16 mil pessoas espontaneamente cantou “Parabéns para Você” para Fernanda. Emocionada, a atriz declarou que esse era um grande presente, sua grande festa de aniversário, demonstrando sua profunda conexão com o público e sua gratidão pela vida e carreira extraordinárias que tem vivido.

 

 

Este texto integra o projeto arquipélago de fomento à crítica, com apoio da Corpo Rastreado.

 

 

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Humor afiado mira gordofobia
Crítica de 116 Gramas: peça para emagrecer

Atriz Letícia Rodrigues desafia os padrões de beleza impostos ao compartilhar conflitos e indignações. Foto: Maria Luiza Graner / Divulgação

116 Gramas: peça para emagrecer é um monólogo inspirador que afronta e combate a gordofobia na sociedade. Com foco na vivência da atriz Letícia Rodrigues, o espetáculo traça uma delicada e complexa relação entre corpo, identidade e autoaceitação.. A personagem “A Gorda” propõe uma reflexão sobre como a pressão para se adequar a normas de beleza irreais podem afetar profundamente a vida das pessoas. A meta de emagrecer a cada sessão 116 gramas, aparentemente insignificante, estampa a constante preocupação com a balança. Essa fixação demonstra a coação social para que as mulheres controlem obsessivamente seus corpos e hábitos alimentares, muitas vezes em detrimento de sua saúde mental e bem-estar.

Para explorar os mecanismos de perpetuação da opressão contra as gordas, problematizando as normas restritivas impostas pela mídia e indústria da beleza, a protagonista compartilha sua história de tentativa e falha em se conformar às medidas impostas. Nessa jornada emocional e introspectiva, ela utiliza elementos de performance, projeção e interação.

A encenação estabelece um tom confessional e íntimo, utilizando a busca de se parecer com ícones como Britney Spears e Gisele Bündchen para criticar a obsessão com a magreza e a pressão para se encaixar em moldes inatingíveis. 

Logo no prólogo, a personagem revela de maneira incisiva sua compulsão por se adequar a um ideal de beleza: “Eu fiz de tudo pra emagrecer para ser como Britney, Gisele e tantas outras. Só que eu não consegui… até agora. A única coisa que eu não fiz para emagrecer foi uma peça e é por isso que eu tô aqui.” O teatro surge então como um último recurso nessa jornada.

Ao criar um espetáculo teatral como forma de “queimar calorias”, Letícia Rodrigues, atriz, diretora  e dramaturga, e o codiretor João Pedro Ribeiro lançam um olhar crítico sobre a supervalorização da aparência. A comparação irônica com uma “aula de academia, só que mais bonita” evidencia como a perseguição pela magreza pode eclipsar outras dimensões importantes da vida, como a criatividade e a autoexpressão.

A dramaturgia oferece uma perspectiva quase científica da perda de peso, com exercícios, números e teorias. A utilização da balança e a projeção dos cálculos de calorias contextualizam a preocupação com a perda de peso, além de questionar a medicalização e a quantificação do corpo humano. 116 Gramas mergulha na “ciência da obesidade”, usando o Índice de Massa Corporal (IMC) como um ponto de partida para uma análise mais ampla sobre os parâmetros de normalidade. As projeções de dados de celebridades e seus IMCs servem como um comentário ácido sobre a hipocrisia e a arbitrariedade dos paradigmas de beleza. A introdução das teorias da conspiração dos Illuminati adiciona uma camada de humor e absurdo, subvertendo as expectativas e destacando a obsessão da sociedade com a aparência e o controle.

Ao compartilhar memórias e buscar poesia no exercício físico e suor, a protagonista tenta ressignificar sua experiência corporal, carregando a montagem com intensa carga emocional. Ela expressa sua raiva e frustração de maneira física em determinados momentos, expondo a violência simbólica contra si mesma e os padrões que a oprimem, traduzindo sua luta interna e externa. A lista de coisas que ela odeia é um grito de desespero.

Com uma narrativa autoficcional, a dramaturgia investiga o desejo de aceitação e as imposições sociais relacionadas à aparência física. Foto: Maria Luiza Graner / Divulgação

Com domínio da cena, Rodrigues utiliza com maestria seus recursos vocais, expressões faciais e linguagem corporal para expor as dores e conflitos. Existe um humor cáustico e corrosivo que revela uma dor profunda, as marcas de anos de autorejeição e sabotagem social de todas as ordens. Ela transita com habilidade entre as diferentes vozes que a atormentam. Sua interpretação comprometida e envolvente contribui para desnaturalizar essa forma de intolerância.

Como aponta Malu Jimenez em Lute Como Uma Gorda (Editora Jandaíra, 2022), a gordofobia não é sobre saúde, mas sobre controle dos corpos, especialmente os femininos. As pessoas gordas têm seu caráter e valor questionados por conta do peso, sofrendo humilhações, rejeições e exclusões de oportunidades.

A saga autoficcional de Letícia transita entre a ironia sarcástica, o desespero sufocante e o grito de revolta. Seu corpo é a própria carne da política, o campo de batalha onde se inscrevem as marcas da gordofobia estrutural. Cada movimento, cada gota de suor que escorre é um manifesto da existência insurgente, um atestado vivo da humanidade que resiste sob a pele estigmatizada.

A performance expõe sem filtros a violência cotidiana que os corpos gordos sofrem numa sociedade que os rejeita e os desumaniza. Sua presença cênica é um ato de resistência e afirmação, reivindicando o direito de existir e ocupar espaços sem pedir desculpas por seu tamanho. Letícia denuncia como a gordofobia é um problema sistêmico que permeia todas as esferas da vida social, muito além de uma questão individual. A pressão constante para emagrecer, os olhares julgadores e a exclusão de oportunidades são manifestações concretas de uma estrutura opressiva.

Ao expor sua própria vulnerabilidade e transformá-la em potência criativa, a artista nos confronta com a necessidade de repensar nossa relação com os corpos. Sua performance é um manifesto político que usa a arte como ferramenta de denúncia e transformação.

Recheada de referências pop e fluxos de consciência febris, 116 Gramas: peça para emagrecer é um mosaico caleidoscópico dos discursos contraditórios que bombardeiam esses corpos. Das dietas da moda às teorias conspiratórias, passando pelos vigilantes do peso e a iconografia da Barbie, Letícia costura uma colcha alegórica que reflete a esquizofrenia de uma sociedade que lhes impõe o inatingível.

A atriz expõe a crueldade por trás desse ideal inatingível de magreza. Foto: Maria Luiza Graner / Divulgação

Letíícia Rodrigues dança A Morte do Cisne de Tchaikovsky. Foto: Maria Luiza Graner / Divulgação

O humor afiado é a arma com que Letícia desfere seus golpes mais incisivos. Ao rir do próprio incômodo, ela expõe a hipocrisia de uma cultura capitalista que lucra com a insegurança e o auto-ódio feminino. O riso na peça assume uma função subversiva, como propõe Mikhail Bakhtin em A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, ao desestabilizar as estruturas de poder e expor suas contradições.

Após listar tudo que odeia em ser gorda, a personagem manifesta sua raiva, exemplificando o impacto da gordofobia. O espetáculo transita entre o lírico e o cru, utilizando releituras de mitos. A comparação do suplício de Prometeu à condição das pessoas gordas, “acorrentadas a corpos que a sociedade rejeita e pune”, enriquece a narrativa com uma pitada filosófica e mitológica.

A metáfora do corpo gordo que se sente permanentemente sujo, “como se precisasse ser constantemente limpo”, ressoa com a experiência de muitos. A ideia de estar preso em um corpo não desejado e a busca por libertação oferece uma visão sensível das dificuldades enfrentadas pelas pessoas gordas.

E é justamente esse corpo gordo enquanto ato de rebeldia que Letícia traz à cena, numa performance física e emocionalmente extenuante. Como quando executa até a exaustão A Morte do Cisne de Tchaikovsky. 

O espetáculo tensiona as noções estreitas e excludentes do que é um corpo capaz e desejável. Letícia desmascara na arte a crueldade por trás desse ideal inatingível de magreza. Num momento em que discursos de ódio e intolerância avançam, 116 Gramas se posiciona como uma voz potente e necessária de resistência. Numa sociedade neoliberal que nos adoece para depois lucrar com a cura, o espetáculo de Letícia Rodrigues é um chamado à insurreição.

Ficha Técnica
116 Gramas: Peça para Emagrecer
Idealização, dramaturgia e atuação: Letícia Rodrigues
Direção: João Pedro Ribeiro e Letícia Rodrigues
Direção de arte: Eliseu Weide
Direção de movimento e coreografia: Luaa Gabanini
Direção musical: Natália Nery
Composição e arranjo de trilha sonora: Lana Scott e Natália Nery
Gravação, mixagem, técnica e operação de som: Lana Scott
Direção, edição audiovisual, mapping e operação de vídeo: Lana Scott
Motion graphics: Pablo Vieira
Desenho de luz: Camille Laurent
Operação de luz: Felipe Stucchi
Coordenação de produção: Leo Birche
Produção: Jéssyca Rianho
Planejamento estratégico de comunicação: Thiago Dias
Comunicação visual e fotografia: Maria Luiza Graner

 

Este texto integra o projeto arquipélago de fomento à crítica, com apoio da Corpo Rastreado.

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