{"id":9629,"date":"2013-04-19T15:37:49","date_gmt":"2013-04-19T18:37:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=9629"},"modified":"2013-04-19T16:25:53","modified_gmt":"2013-04-19T19:25:53","slug":"opera-conta-o-preconceito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/opera-conta-o-preconceito\/","title":{"rendered":"\u00d3pera contra o preconceito"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_9635\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-9635\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-9635\" alt=\"\u00d3pera, segunda montagem do Coletivo Angu de Teatro, faz duas apresenta\u00e7\u00f5es no Santa Isabel\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/opera1B1.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/opera1B1.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/opera1B1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><p id=\"caption-attachment-9635\" class=\"wp-caption-text\">Montagem do Coletivo Angu de Teatro faz apresenta\u00e7\u00f5es no Teatro de Santa Isabel<\/p><\/div>\n<p><em>\u00d3pera<\/em> \u00e9 um dos mais queridos espet\u00e1culos da recente cena teatral pernambucana. E querido quer dizer aplaudido, com casa lotada e espectador que j\u00e1 viu at\u00e9 mais de seis sess\u00f5es. Foi sucesso em janeiro no Teatro Glauce Rocha, dentro do projeto <em>Vis\u00f5es Coletivas \u2013 Nordeste Contempor\u00e2neo<\/em>. Depois dessa temporada no Rio de Janeiro,<em> \u00d3pera<\/em> tem duas apresenta\u00e7\u00f5es marcadas, nos dias 20 e 21 de abril, \u00e0s 20h, no Teatro de Santa Isabel.<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 mesmo que essa montagem tem de especial? Bem, s\u00e3o algumas conjuga\u00e7\u00f5es, como a criatividade do diretor Marcondes Lima, o talento do Coletivo Angu de Teatro, a verve c\u00f4mica puxado para \u00e1cida do autor Newton Moreno e a tem\u00e1tica gay, nem vilanizada nem vitimizada. \u00c9 assim. E os recortes que o dramaturgo utiliza em seus contos para narrar as quatro hist\u00f3rias s\u00e3o divertidos, com criticidade aguda e at\u00e9 com doses de crueldade para todos os lados.<\/p>\n<p>As quatro hist\u00f3rias s\u00e3o trabalhadas de forma diferente, como radionovela dos anos 1950, fotonovela, telenovela e, por \u00faltimo, uma \u00f3pera. \u00a0A primeira \u00e9 <i style=\"line-height: 1.714285714; font-size: 1rem;\">O c\u00e3o<\/i>, que mostra as consequ\u00eancias no seio da fam\u00edlia ap\u00f3s a descoberta da condi\u00e7\u00e3o gay de Surpresa, o cachorrinho da casa.<\/p>\n<p>Em <em>O trof\u00e9u<\/em>, epis\u00f3dio em forma de uma fotonovela dos anos 1960, exp\u00f5e o drama de Pedro (ou Petra), que n\u00e3o se sente adequado em seu corpo masculino. J\u00e1 em\u00a0<em>Culpa<\/em>, inspirado nas telenovelas da d\u00e9cada de 1980, o personagem soropositivo tenta encontrar um novo parceiro para o namorado. O \u00faltimo quadro trata da submiss\u00e3o de um bar\u00edtono apaixonado por mich\u00ea. Nesta temporada, desde janeiro, Carlos Ferrera substitui Andr\u00e9 Brasileiro como o cantor.\u00a0A pe\u00e7a tamb\u00e9m tem a participa\u00e7\u00e3o da transex carioca Jakellyne Ush\u00f4a.<\/p>\n<p><b>SERVI\u00c7O<\/b><\/p>\n<p><em>\u00d3pera<\/em><\/p>\n<p><strong>Quando:<\/strong> s\u00e1bado e domingo, \u00e0s 20h<br \/>\n<strong>Onde:<\/strong> Teatro de Santa Isabel, Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, s\/n<br \/>\n<strong>Quanto:<\/strong> R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)<br \/>\n<strong>Informa\u00e7\u00f5es:<\/strong> 3355-3322<\/p>\n<p><strong>\u00d3pera &#8211;\u00a0Ficha T\u00e9cnica<\/strong><br \/>\n<strong>Realiza\u00e7\u00e3o:<\/strong> Atos Produ\u00e7\u00f5es Art\u00edsticas \/ Coletivo Angu de Teatro<br \/>\n<strong>Texto<\/strong>: Newton Moreno<br \/>\n<strong>Encena\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o de arte:<\/strong> Marcondes Lima<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o musical e trilha sonora original<\/strong>: Henrique Macedo<br \/>\n<strong>Prepara\u00e7\u00e3o Corporal e assist\u00eancia de Dire\u00e7\u00e3o<\/strong>: Vav\u00e1 Sch\u00f6n Paulino<br \/>\n<strong>Plano de Luz<\/strong>: Jathyles Miranda<br \/>\n<strong>Elenco<\/strong>: Arilson Lopes, Andre Brasileiro (Carlos Ferrera), Dirceu Siqueira, F\u00e1bio Caio, Ivo Barreto, Tatto Medinni e Jakellyne Ush\u00f4a<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de Produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> Tadeu Gondim<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o Executiva:<\/strong> Andr\u00e9 Brasileiro \/ Luciana Bispo \/ N\u00ednive Caldas<br \/>\n<strong>Identidade Visual \/ Operador de Luz:<\/strong> S\u00e1vio Uch\u00f4a<br \/>\n<strong>Operador de Som<\/strong>: Tadeu Gondim<br \/>\n<strong>Camareiras:<\/strong> Irani Galdino e Nine Brasil<br \/>\n<strong>Confec\u00e7\u00e3o de Figurinos:<\/strong> Maria Lima e Helena Beltr\u00e3o<br \/>\n<strong>Grava\u00e7\u00e3o, mixagem e masteriza\u00e7\u00e3o:<\/strong> Henrique Macedo<br \/>\n<strong>Fotografias:<\/strong> Tuca Siqueira<br \/>\n<strong>Contra-regras:<\/strong> Vav\u00e1 Sch\u00f6n Paulino e Gustavo Teixeira<\/p>\n<div id=\"attachment_9640\" style=\"width: 455px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-9640\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-9640\" alt=\"O espet\u00e1culo fez sua estreia em 2007 e sempre volta \u00e0 cena com casa lotada\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/opera21.jpg\" width=\"445\" height=\"202\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/opera21.jpg 445w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/opera21-300x136.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 445px) 100vw, 445px\" \/><p id=\"caption-attachment-9640\" class=\"wp-caption-text\">O espet\u00e1culo fez sua estreia em 2007 e sempre volta \u00e0 cena com casa lotada<\/p><\/div>\n<p><strong>A seguir, duas mat\u00e9rias que escrevi para o Diario de Pernambuco na \u00e9poca da estreia de<em> \u00d3pera<\/em>, em 2007<\/strong><\/p>\n<p><b>Espet\u00e1culo sobre homoerotismo desafia limites da sociedade<\/b><\/p>\n<p><em>ESTR\u00c9IA \/\/ Pe\u00e7a \u00d3pera, com textos in\u00e9ditos de Newton Moreno, discute contradi\u00e7\u00f5es da realidade  brasileira, a partir de hoje, no Teatro Apolo<\/em><\/p>\n<p>Apesar da intoler\u00e2ncia e de fundamentalismos multiplicados, o mundo contempor\u00e2neo \u00e9 povoado pela diversidade. Nas pulsa\u00e7\u00f5es das identidades todos querem, cada um a seu modo, ser feliz. Mas n\u00e3o \u00e9 bem de felicidade que trata a dramaturgia do pernambucano Newton Moreno, mas da persegui\u00e7\u00e3o por coisas como sobreviv\u00eancia digna e um pouco de prazer, o que gera inquieta\u00e7\u00f5es em v\u00e1rias modalidades, inclusive est\u00e9ticas. O espet\u00e1culo <em>\u00d3pera<\/em>, que estr\u00e9ia hoje no Teatro Apolo e fica em cartaz aos s\u00e1bados e domingos, \u00e0s 20h, at\u00e9 o final do m\u00eas, \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o de contos in\u00e9ditos do autor, feita pelo Coletivo Angu de Teatro (o mesmo da pe\u00e7a <em>Angu de Sangue<\/em>, transposi\u00e7\u00e3o de textos de Marcelino Freire), com dire\u00e7\u00e3o geral de Marcondes Lima. <\/p>\n<p>O homoerotismo \u00e9 o grande tema da encena\u00e7\u00e3o, que se abre para discutir as contradi\u00e7\u00f5es da realidade brasileira. Tamb\u00e9m a partir da po\u00e9tica marginal que caracteriza a <em>queer culture<\/em> e est\u00e9tica<em> kitsch<\/em>, a encena\u00e7\u00e3o busca uma cr\u00edtica social \u00e0 hip\u00f3crita vis\u00e3o de valores hegem\u00f4nicos.A tem\u00e1tica \u00e9 assumidamente gay e o tratamento da encena\u00e7\u00e3o refor\u00e7a essa escolha. Desde que dirigiu <em>Angu de Sangue<\/em>, h\u00e1 dois anos, o encenador Marcondes Lima desejava fazer uma homenagem a Pernalonga (artista transformista de Olinda, morto barbaramente em 2000) e investigar mais sobre a est\u00e9tica gay. &#8220;N\u00e3o dava para n\u00e3o passar pelo Vivencial&#8221;, adverte Marcondes Lima. O Vivencial Diversiones foi um espa\u00e7o experimental que funcionou em Olinda, sob forte influ\u00eancia do Tropicalismo.<\/p>\n<p>Mais do que tem\u00e1tica, a montagem <em>\u00d3pera<\/em> busca ousar na defini\u00e7\u00e3o de uma linguagem teatral, na problematiza\u00e7\u00e3o dos limites est\u00e9ticos e \u00e9ticos e o entrecruzamento de posturas. A condu\u00e7\u00e3o dos temas ou a\u00e7\u00f5es \u00e9 provocativa e alguns di\u00e1logos avan\u00e7am por posi\u00e7\u00f5es inusitadas. O primeiro dos quatro quadros,<em> C\u00e3o<\/em>, utiliza a metalinguagem de uma novela radiof\u00f4nica, em que atores interpretam os conflitos de fam\u00edlia de um cachorro gay, quando a hist\u00f3ria do animal vem a p\u00fablico. O pastor alem\u00e3o e seu companheiro vira-lata terminam o quadro assassinados por envenenamento.<\/p>\n<p><em>O Trof\u00e9u<\/em>, segundo dos quadros, trabalha com o formato de fotonovela em preto-e-branco da d\u00e9cada de 1960, com poucos di\u00e1logos apresentados em molduras. Leva ao palco as ang\u00fastias de Pedro, que sentindo-se inadequado com seu corpo masculino, comporta-se como Petra. O c\u00famulo dessa confus\u00e3o ps\u00edquica ocorre quando o rapaz, diagnosticado com c\u00e2ncer de mama, comemora por acreditar que essa \u00e9 a prova irrefut\u00e1vel do que sempre pensou, que \u00e9 uma verdadeira mulher. <\/p>\n<p>Dividido em tr\u00eas unidades, o quadro <em>Culpa<\/em> exp\u00f5e tr\u00eas momentos de um encontro amoroso. O primeiro, em off; o segundo quando eles se encontram e o terceiro, da despedida. Soropositivo, Augusto sabe que vai morrer e anda consumido pelo remorso em saber que vai abandonar o companheiro mais jovem e tenta encontrar um novo companheiro para seu namorado, antes de morrer. O tom melodram\u00e1tico est\u00e1 afinado com o estilo predominante das novelas brasileiras da d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p>O \u00faltimo quadro, que d\u00e1 nome ao espet\u00e1culo, <em>\u00d3pera<\/em> explora o comportamento submisso de um cantor de \u00f3pera apaixonado por um garoto de programa. O melodrama ganha o tratamento de uma micro-\u00f3pera p\u00f3s-moderna. Como liga\u00e7\u00e3o entre os quadros, dublagens de figuras femininas que t\u00eam uma interfer\u00eancia no universo gay. Dalida, cantora meio francesa meio\u00a0eg\u00edpcia\u00a0que suicidou-se, Rita Pavone e Rosana. O cen\u00e1rio, tamb\u00e9m assinado por Marcondes, condensa em portas e gavetas os s\u00edmbolos de transposi\u00e7\u00f5es, de sa\u00eddas de arm\u00e1rios. <\/p>\n<p>Para o diretor o grande desafio da montagem para o elenco foi o de brincar com as refer\u00eancias. Os atores Andr\u00e9 Brasileiro, Arilson Lopes, F\u00e1bio Caio, Ivo Barreto, Tatto Medinni encararam a dificuldade de andar de salto alto e assumir gestos mais l\u00e2nguidos. <em>\u00d3pera<\/em> conta com a participa\u00e7\u00e3o especial de Andr\u00e9a Close. Na assist\u00eancia de dire\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo est\u00e1 Vav\u00e1 Paulino e a produ\u00e7\u00e3o executiva \u00e9 de Gheuza Sena.<\/p>\n<p><strong>*Esta mat\u00e9ria foi publicada na capa do Caderno Viver, do Diario de Pernambuco, no dia 13 de janeiro de 2007<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_9652\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2013\/04\/19\/opera-conta-o-preconceito\/opera4-2\/\" rel=\"attachment wp-att-9652\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-9652\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/opera4.jpg\" alt=\"Tatto Medinni, Andrea Closet e F\u00e1bio Caio\" width=\"500\" height=\"333\" class=\"size-full wp-image-9652\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/opera4.jpg 500w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/opera4-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-9652\" class=\"wp-caption-text\">Tatto Medinni, Andrea Closet e F\u00e1bio Caio<\/p><\/div>\n<p><strong>Estr\u00e9ia de \u00d3pera revela sua voca\u00e7\u00e3o para se tornar um cult<\/strong><br \/>\n<em>Coletivo Angu de Teatro imprime ousadia e humor na adapta\u00e7\u00e3o dos contos de Newton Moreno, em sintonia com quest\u00f5es contempor\u00e2neas e exercitando v\u00e1rias linguagens c\u00eanicas<\/em><\/p>\n<p>Por volta das 22h30 do s\u00e1bado, no p\u00e1tio dos teatros Apolo e Hermilo Borba Filho, num coquetel abarrotado de gente, para comemorar a estr\u00e9ia do espet\u00e1culo <em>\u00d3pera<\/em>, a cantora Elza Show anunciava com seu vozeir\u00e3o: &#8220;O mundo \u00e9 gay!&#8221;. Nem tanto, darling! Mas a euforia faz sentido. Vamos recuar tr\u00eas horas nesse tempo. 19h30. Rua do Apolo, nas imedia\u00e7\u00f5es do teatro hom\u00f4nimo, o p\u00fablico j\u00e1 fazia fila e come\u00e7ava a disputa por ingressos para a primeira sess\u00e3o da temporada da pe\u00e7a <em>\u00d3pera<\/em>, adapta\u00e7\u00e3o de contos in\u00e9ditos do dramaturgo pernambucano Newton Moreno, com dire\u00e7\u00e3o de Marcondes Lima e produ\u00e7\u00e3o do Coletivo Angu de Teatro. Os 290 lugares da casa n\u00e3o foram suficientes para atender a demanda da primeira noite. Muitos ter\u00e3o que voltar outro dia.<\/p>\n<p>Na plateia desse teatro superlotado como h\u00e1 muito tempo n\u00e3o se via em estreia de produ\u00e7\u00e3o pernambucana, muitas figuras do meio art\u00edstico, o secret\u00e1rio de Cultura do Recife, Jo\u00e3o Roberto Peixe, o cantor Silv\u00e9rio Pessoa. Artistas experientes, como a atriz Diva Pacheco ou a mais nova estrela do cinema nacional, Hermila Guedes (que por sinal faz parte do coletivo e integrou o elenco da montagem <em>Angu de Sangue<\/em>). Pessoas que alimentaram o Vivencial Diversions (que deu o norte est\u00e9tico \u00e0 pe\u00e7a <em>\u00d3pera<\/em>), como o escritor, cineasta e agitador cultural Jommard Muniz de Brito ou a atriz Ivonete Melo, estrela do Vivencial na d\u00e9cada de 1970. A expectativa era grande. E o p\u00fablico acolheu calorosamente a estreia de<em> \u00d3pera<\/em>. Palmas em cena aberta para v\u00e1rios atores. Ind\u00edcios de que vai virar um espet\u00e1culo cult.<\/p>\n<p><em>\u00d3pera<\/em> est\u00e1 dividida em quatro quadros, <em>O C\u00e3o<\/em>, <em>O Trof\u00e9u<\/em>, <em>Culpa<\/em> e <em>\u00d3pera<\/em> que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 pe\u00e7a al\u00e9m de intermezzo de dublagem. O diretor Marcondes Lima, uma dos mais festejados da cidade e tamb\u00e9m dos mais solicitados tanto para encena\u00e7\u00e3o quanto para dire\u00e7\u00e3o de arte (cen\u00e1rios e figurinos), ousou ao dividir o espet\u00e1culo em formato de radionovela, fotonovela e uma novela televisiva, nos tr\u00eas primeiros quadros. <em>O C\u00e3o<\/em>\u00a0\u00e9 uma historieta de um cachorro de ra\u00e7a que a fam\u00edlia descobre gay. Ele acaba assassinado pela tia intolerante, que est\u00e1 preocupada com a opini\u00e3o p\u00fablica (o ti-ti-ti maldoso dos vizinhos, principalmente) passa-se num est\u00fadio de r\u00e1dio. S\u00e3o expostos os bastidores da grava\u00e7\u00e3o de uma radionovela, num tom supra melodram\u00e1tico, onde o grande trunfo \u00e9 o texto inteligente, ir\u00f4nico, \u00e1cido at\u00e9. No intervalo dessa triste hist\u00f3ria de amor canino entre Surpresa e Benvindo, o comercial do produto Penetrol &#8220;lubrificante da fam\u00edlia brasileira&#8221;.<\/p>\n<p>Se o primeiro quadro \u00e9 para os ouvidos, o segundo \u00e9 para os olhos. <em>O Trof\u00e9u<\/em> \u00e9 focado na est\u00e9tica das fotonovelas em preto-e-branco de 1900 e l\u00e1 vai trem, a cena apresenta Pedro, que sempre quis ser Petra. Sem falas e utilizando o recurso das legendas apresentadas em tabuletas (que por sinal muitas n\u00e3o d\u00e1 leitura para quem estiver mais distante do palco) a a\u00e7\u00e3o mostra a versatilidade do ator F\u00e1bio Caio, poses exageradas e engra\u00e7ad\u00edssimas. Pedro, que desde crian\u00e7a sonha em ser mulher, sente-se feliz quando o m\u00e9dico diagnostica um c\u00e2ncer de mama. O quadro ainda precisa de alguns ajustes, principalmente nos enquadramentos das molduras.<\/p>\n<p>O quadro <em>Culpa<\/em> trabalha com uma quest\u00e3o delicada, a hist\u00f3ria de um homem soropositivo, em momento terminal, que tenta arranjar um namorado para o amante. O tom, exageradamente melodram\u00e1tico d\u00e1 sinais de cansa\u00e7o. Os atores Arilson Lopes, Ivo Barreto, executam bem essa linha, mas o tratamento do tema\u00a0ganha um tom quase cruel. O grande lance \u00e9 participa\u00e7\u00e3o de F\u00e1bio Caio nesta cena, como a maquiadora.<\/p>\n<p>Entre esses tr\u00eas primeiros quadros, as dublagens alinhavam as cenas. E s\u00e3o verdadeiramente hilariantes. O gestual de Arilson Lopes, como Rita Pavone \u00e9 impag\u00e1vel, vestidinho de bolinhas e uma capa de bolinhas. O ator Ivo Barreto dubla Tina Turner que sai em embate com a Caio F\u00e1bio, que dupla Rosana <em>(Let&#8217;s stay together<\/em> versus <em>V\u00edcio fatal<\/em>, numa luta que quem sai ganhando \u00e9 o p\u00fablico, de tanto rir. Coube a Andr\u00e9 Brasileiro a dublagem mais dif\u00edcil: fazer simultaneamente a cantora Dalida e o cantor Serge Lama. Resultado interessante.<\/p>\n<p>O \u00faltimo quadro, <em>\u00d3pera<\/em>, revela sem piedade o amor doentio de um cantor de \u00f3pera pelo mich\u00ea Paulo (que faz do tenor gato e sapato), numa cr\u00edtica virulenta \u00e0 depend\u00eancia amorosa. Com um coral de anjos, vestindo sungas brancas e bundinhas de fora, os atores contam a hist\u00f3ria de subservi\u00eancia do cantor l\u00edrico, com m\u00fasica original composta por Henrique Macedo, numa mistura de rap \u00f3pera e levada nordestina. <em>\u00d3pera<\/em> \u00e9 o quadro mais expl\u00edcito, beijo na boca ente o mich\u00ea e o cantor. O quadro mete o dedo na ferida dos valores desse homem p\u00f3s-moderno, perdido em sua identidade fragmentada, que chega ao ponto de comprar o amor. Numa sociedade em que tudo est\u00e1 \u00e0 venda, o amor passa a ser mais uma mercadoria. Caso para se refletir.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo <em>\u00d3pera<\/em> tem muitos pequenos problemas (e isso n\u00e3o escaparia a uma estreia), mas tem muito mais qualidades. A sonoplastia de Andr\u00e9 Brasileiro e Marcondes Lima funciona bem dando os climas da pe\u00e7a, a ilumina\u00e7\u00e3o J\u00e1thyles Miranda tamb\u00e9m \u00e9 boa. Os figurinos no geral est\u00e3o de acordo com a proposta, mas a do cantor l\u00edrico est\u00e1 em descompasso com o resto. O elenco (os atores Andr\u00e9 Brasileiro, Arilson Lopes, Dirceu Siqueira, Fabio Caio, Ivo Barreto, Tatto Medinni, e a participa\u00e7\u00e3o especial de Andrea Closet, com muita garra e eleg\u00e2ncia) t\u00eam garra e talento. Vale ressaltar a ousadia do coletivo em tratar desse universo homoer\u00f3tico com um humor sagaz, de estar em sintonia com pulsa\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas e acima de tudo exercitar v\u00e1rias formas de fazer teatral.<\/p>\n<p><strong>* Esta mat\u00e9ria foi publicada originalmente na edi\u00e7\u00e3o de segunda-feira, 15 de janeiro de 2007, do Caderno Viver, do Diario de Pernambuco<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3pera \u00e9 um dos mais queridos espet\u00e1culos da recente cena teatral pernambucana. E querido quer dizer aplaudido, com casa lotada e espectador que j\u00e1 viu at\u00e9 mais de seis sess\u00f5es. Foi sucesso em janeiro no Teatro Glauce Rocha, dentro do projeto Vis\u00f5es Coletivas \u2013 Nordeste Contempor\u00e2neo. 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