{"id":8220,"date":"2012-12-22T14:49:34","date_gmt":"2012-12-22T17:49:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=8220"},"modified":"2012-12-22T15:00:11","modified_gmt":"2012-12-22T18:00:11","slug":"no-risco-surpreendente-da-palavra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/no-risco-surpreendente-da-palavra\/","title":{"rendered":"No risco surpreendente da palavra"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_8233\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/nasolidao1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-8233\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/nasolidao1.jpg\" alt=\"\" title=\"Na solid\u00e3o dos campos de algod\u00e3o\" width=\"600\" height=\"447\" class=\"size-full wp-image-8233\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/nasolidao1.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/nasolidao1-300x223.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-8233\" class=\"wp-caption-text\"><i>Na solid\u00e3o dos campos de algod\u00e3o<\/i>, na VI Mostra Capiba. Foto: Pollyanna Diniz<\/p><\/div>\n<p>\u201c\u00c9 imposs\u00edvel, compreendo, penetrar na solid\u00e3o de outra pessoa. Se \u00e9 verdade que sempre podemos vir a conhecer outro ser humano, ainda que em um grau pequeno, isso s\u00f3 acontece na medida em que o outro quiser se fazer conhecido (&#8230;). Onde tudo \u00e9 intrat\u00e1vel, onde tudo \u00e9 herm\u00e9tico e evasivo, n\u00e3o se pode fazer nada sen\u00e3o observar. Mas se a pessoa consegue ou n\u00e3o extrair algum sentido do que observa \u00e9 uma outra hist\u00f3ria\u201d (Paul Auster)<\/p>\n<p>Encontrei essa cita\u00e7\u00e3o de Paul Auster lendo um artigo de Antonio Paulo Rezende, professor de hist\u00f3ria da UFPE. E relutei, diante de tanta for\u00e7a que salta ao texto da pe\u00e7a <em>Na solid\u00e3o dos campos de algod\u00e3o<\/em>, de Bernard Marie-Kolt\u00e8s (1948-1989), em us\u00e1-lo logo no in\u00edcio desta aprecia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. Mas as palavras v\u00e3o se impondo&#8230;e \u00e9 justamente delas que podem sair embates surpreendentes.<\/p>\n<p>Na Mostra Capiba j\u00e1 era a terceira vez que eu via a montagem de <em>Na solid\u00e3o&#8230;<\/em>, dirigida por Antonio Guedes. Mas n\u00e3o parecia. Claro que o jogo de cena j\u00e1 n\u00e3o era in\u00e9dito para mim; mas como o texto pode se fazer novo! De novo! At\u00e9 porque talvez seja imprescind\u00edvel dizer que trata-se de um teatro em que a palavra se estabelece em primeiro plano &#8211; claro que h\u00e1 outros elementos fundamentais; mas a base \u00e9 a palavra, que n\u00e3o necessariamente se mostra em sua plenitude logo no primeiro encontro. Por isso mesmo, mais uma vez foi t\u00e3o bom &#8220;ouvir&#8221; esse espet\u00e1culo. S\u00e3o v\u00e1rias as leituras que podem se desprender desse texto, inclusive uma que diz respeito a uma tens\u00e3o sexual entre os personagens.<\/p>\n<p>S\u00e3o apenas dois atores &#8211; Edjalma Freitas e Tay Lopez &#8211; que travam um di\u00e1logo, um embate ferrenho. Um deles tem algo para vender; e o outro \u00e9 o &#8220;cliente&#8221;. N\u00e3o s\u00e3o personagens facilmente identificados pelos trejeitos, pelo jeito de vestir, pelo vocabul\u00e1rio. Distinguem-se basicamente pelo discurso, o que retira n\u00e3o s\u00f3 o espectador da sua zona de conforto, mas tamb\u00e9m o ator. N\u00e3o h\u00e1 uma composi\u00e7\u00e3o de personagem no sentido tradicional &#8211; mas como lidar com a palavra pura e fazer com que ela chegue ao p\u00fablico? Os olhos podem dizer muito neste momento; a express\u00e3o de surpresa ou de raiva. \u00c9 um lugar de interpreta\u00e7\u00e3o diferente.<\/p>\n<p>Como se estivessem dentro de um ringue, os atores travam lutas incorp\u00f3reas. H\u00e1 uma dist\u00e2ncia &#8220;regulamentar&#8221; muito bem definida pelo encenador, al\u00e9m de uma postura corporal. Sem aproxima\u00e7\u00f5es, toques, tapas. \u00c9 um obra muito pl\u00e1stica, quase uma instala\u00e7\u00e3o. A cenografia de Doris Rollemberg nos leva a este mundo isolado do encontro; mas tamb\u00e9m nos distancia. Diante de um texto que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 de uma assimila\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea, da aus\u00eancia do contato f\u00edsico entre os atores, talvez o p\u00fablico pudesse se sentir mais pr\u00f3ximo; como j\u00fari que n\u00e3o pode exprimir sua inten\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o quer perder uma express\u00e3o dos advogados de defesa ou acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para mim, a montagem de <em>Na solid\u00e3o dos campos de algod\u00e3o<\/em> foi uma das melhores produ\u00e7\u00f5es pernambucanas do ano. Uma \u00f3tima surpresa, assim como foi anos atr\u00e1s <em>Encruzilhada Hamlet<\/em>, tamb\u00e9m da Cia do Ator Nu, com Edjalma Freitas e Henrique Ponzi no palco; e texto e dire\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Denys. <\/p>\n<p>S\u00e3o criadores que se permitem optar por um caminho que n\u00e3o \u00e9 o mais f\u00e1cil, que pode at\u00e9 afastar o espectador, \u00e1vido por emo\u00e7\u00f5es fortes e pasteurizadas, rir ou chorar. Em <em>Na solid\u00e3o<\/em>, ao contr\u00e1rio, o palco \u00e9 o lugar do risco; a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 o lugar do risco. \u00c9 preciso ter paci\u00eancia para ouvir, para digerir, para encarar um texto que n\u00e3o corresponde, geralmente, aos nossos desejos fr\u00edvolos. &#8220;N\u00e3o que eu tenha adivinhado o que voc\u00ea deseja, e nem tenho pressa de saber&#8230;&#8221;<\/p>\n<div id=\"attachment_8234\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/nasolidao2.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-8234\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/nasolidao2.jpg\" alt=\"\" title=\"Na solid\u00e3o dos campos de algod\u00e3o\" width=\"600\" height=\"450\" class=\"size-full wp-image-8234\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/nasolidao2.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/nasolidao2-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-8234\" class=\"wp-caption-text\">Edjalma Freitas e Tay Lopez, com dire\u00e7\u00e3o de Antonio Guedes<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 imposs\u00edvel, compreendo, penetrar na solid\u00e3o de outra pessoa. 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