{"id":6843,"date":"2012-09-25T22:35:49","date_gmt":"2012-09-26T01:35:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=6843"},"modified":"2015-10-28T02:56:49","modified_gmt":"2015-10-28T05:56:49","slug":"entrevista-coletiva-daquilo-que-move-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/entrevista-coletiva-daquilo-que-move-o-mundo\/","title":{"rendered":"Entrevista &#8220;coletiva&#8221; &#8211; <i>Daquilo que move o mundo<\/i>"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_6853\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/daquiloquemoveomundo1.ivana_.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6853\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/daquiloquemoveomundo1.ivana_.jpg\" alt=\"\" title=\"Daquilo que move o mundo\" width=\"600\" height=\"338\" class=\"size-full wp-image-6853\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/daquiloquemoveomundo1.ivana_.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/daquiloquemoveomundo1.ivana_-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6853\" class=\"wp-caption-text\"><i>Daquilo que move o mundo<\/i>. Fotos: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p>Como estou fora do Recife, ainda n\u00e3o vi <em>Daquilo que move o mundo<\/em>. Mas h\u00e1 muitos meses, nas conversas no Central, nos encontros nos teatros, sabia da montagem e do que ela estava &#8220;causando&#8221; nos envolvidos. Com dire\u00e7\u00e3o de Tiche Vianna, uma das fundadoras do Barrac\u00e3o Teatro, a pe\u00e7a traz no elenco tr\u00eas jovens criadores: Kleber Louren\u00e7o, Jorge de Paula e Tay Lopez. Para saber um pouquinho mais da pe\u00e7a e, principalmente, do pensamento deles, resolvi fazer uma entrevista &#8220;coletiva&#8221;. Os atores mesmos se entrevistaram e fizeram perguntas para a diretora. Sa\u00edram considera\u00e7\u00f5es importantes sobre o fazer teatral, sobre o que os move, sobre crises e amizade. Obrigada, meninos!<\/p>\n<p><strong>ENTREVISTA \/\/ KLEBER LOUREN\u00c7O, JORGE DE PAULA, TAY LOPEZ<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jorge:<\/strong> Por que valeu a pena mover-se tanto para realizar o <em>Daquilo que move o mundo<\/em>?<br \/>\n<strong>Kleber:<\/strong> Valeu a pena porque sabia que nesse processo aprenderia demais! Valeu a pena por que queria voltar a trabalhar de forma coletivizada, por acreditar no trabalho dos criadores envolvidos e por querer experimentar outras linguagens art\u00edsticas. Muito pela vontade de crescer, me desafiar e pelo amor ao teatro.<\/p>\n<p><strong>Kleber:<\/strong> Como era o Jorge de 1998, entrando na Universidade Federal, e como voc\u00ea se v\u00ea hoje, em rela\u00e7\u00e3o ao teatro?<br \/>\n<strong>Jorge:<\/strong> Bem, quando iniciei meu Curso de Artes C\u00eanicas tinha 17 anos e nenhuma bagagem em Teatro. Ser ator nunca havia sido cogitado por mim em minhas peregrina\u00e7\u00f5es adolescentes na escolha do meu &#8220;futuro profissional&#8221;. Foi s\u00f3 no 3\u00ba ano do Ensino M\u00e9dio, depois de ter vivenciado no col\u00e9gio a\u00e7\u00f5es que envolviam teatro e dan\u00e7a, que o interesse come\u00e7ou. Deixei de ser cirurgi\u00e3o pl\u00e1stico para ser ator. Entrei na Universidade e fui lan\u00e7ado ao abismo. Sem rede de seguran\u00e7a. O &#8220;novo&#8221; me assustou muito. Virei pedra. Passei algum tempo trancafiado em mim. Convivia de forma mais espont\u00e2nea com poucas pessoas. A maioria de fora da Universidade. Entretanto, foi a conviv\u00eancia com pessoas maravilhosas da minha turma de Artes C\u00eanicas &#8211; companheiros de vida e de cena at\u00e9 hoje &#8211; que aos poucos venci todos os receios, as vaidades, e fui, de fato, sentindo-me mais confort\u00e1vel com a minha escolha profissional. Hoje, depois de muitos anos dedicados a dobradinha arte-educador\/ator, reconhe\u00e7o-me como ator e estou vivenciando dedica\u00e7\u00e3o exclusiva a isso. Todos os meus receios encontraram lugar. E aqueles que n\u00e3o encontraram pouso certo, caminham menos ansiosos. Afinal, fazer teatro no Brasil \u00e9 um ato de resist\u00eancia. Quando muitas coisas gritam para voc\u00ea &#8220;n\u00e3o fa\u00e7a&#8221;, eu insisto. Com satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_6850\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/daquiloquemoveomundo2.ivana_.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6850\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/daquiloquemoveomundo2.ivana_.jpg\" alt=\"\" title=\"Daquilo que move o mundo\" width=\"600\" height=\"338\" class=\"size-full wp-image-6850\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/daquiloquemoveomundo2.ivana_.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/daquiloquemoveomundo2.ivana_-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6850\" class=\"wp-caption-text\">Espet\u00e1culo est\u00e1 em cartaz no Espa\u00e7o Fiandeiros<\/p><\/div>\n<p><strong>Jorge:<\/strong> Por estar j\u00e1 h\u00e1 algum tempo morando em S\u00e3o Paulo, como voc\u00ea percebe o teatro pernambucano?<br \/>\n<strong>Tay:<\/strong> De fato, faz aproximadamente 14 anos que resido em S\u00e3o Paulo, por\u00e9m, minha percep\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o ao teatro que se faz em Pernambuco (posso falar melhor de Recife), \u00e9 um tanto quanto interna, pois apesar de morar longe, sempre acompanho as not\u00edcias pelos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o que tenho acesso e tamb\u00e9m por estar na cidade no momento em que acontece o Janeiro de Grandes Espet\u00e1culos, um apanhado da produ\u00e7\u00e3o anual. Percebo que, hoje em dia, o teatro de Grupo tem sido uma constante na cidade. Haja vista as v\u00e1rias sedes que foram abertas nos \u00faltimos anos e o pensamento coletivo como um todo. Sobretudo os atores que sa\u00edram da universidade e se reuniram com outros, comungando de um pensamento art\u00edstico, compartilhado e conceitual para a cena Teatral. Percebo uma transi\u00e7\u00e3o das \u201cprodu\u00e7\u00f5es\u201d para os \u201ccoletivos\u201d, onde n\u00e3o mais h\u00e1 artistas contratados, subalternos em prol de um espet\u00e1culo e sim uma jun\u00e7\u00e3o de pessoas que desejam falar de algo que os atinja, que os comova. Claro que auxiliados pelos editais que apareceram na cidade nos \u00faltimos 10 anos. Em S\u00e3o Paulo, acompanhei de perto a formata\u00e7\u00e3o da Lei do fomento, desde as reuni\u00f5es do \u201carte contra a barb\u00e1rie\u201d at\u00e9 a implementa\u00e7\u00e3o da Lei. Sabemos que S\u00e3o Paulo tem uma popula\u00e7\u00e3o 8 vezes maior do que a de Recife e isso reverbera na quantidade de espet\u00e1culos em cartaz na cidade, assim como nas verbas compartilhadas, atrav\u00e9s das leis de incentivo, dos SESCs, e de outras formas capitais que viabilizam a produ\u00e7\u00e3o local. Com a implementa\u00e7\u00e3o do Fomento v\u00e1rios pequenos espa\u00e7os alternativos surgiram na cidade, pois uma das condi\u00e7\u00f5es da Lei \u00e9 a continuidade de pesquisa. O que levou v\u00e1rios grupos a constitu\u00edrem uma sede. Isso est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 linguagem utilizada, saindo dos palcos italianos tradicionais, tendo o espectador mais pr\u00f3ximo da encena\u00e7\u00e3o e flertando com as artes pl\u00e1sticas, perform\u00e1ticas, com a dan\u00e7a, as multilinguagens&#8230;  Tendo um teatro que podemos chamar de contempor\u00e2neo. Para isso fez-se necess\u00e1rio um pol\u00edtica cultural, deixando o Teatro de ser um produto e sim um resultado art\u00edstico real, sem maneirismos de enquadramento num gosto massificado e comercial. Sendo assim, fazendo uma analogia com o que vi surgir em S\u00e3o Paulo, percebo um movimento parecido em Recife, tendo as suas devidas propor\u00e7\u00f5es. Percebo um maior engajamento pol\u00edtico dos artistas locais e das vontades de ter em Recife uma cena forte e que dialogue com o que est\u00e1 se fazendo no Mundo, n\u00e3o como uma c\u00f3pia, mas sim como um reflexo do entorno que vivemos: homens contempor\u00e2neos e inquietos. Percebo ainda uma car\u00eancia de atividades de forma\u00e7\u00e3o e gostaria que existisse um maior di\u00e1logo com os outros estados do Nordeste, pois temos muitas quest\u00f5es culturais pertinentes \u00e0 nossa regi\u00e3o e isso poderia ser um caminho para acharmos algo definitivamente pr\u00f3prio. Percebo que estamos caminhando para um lugar onde o Teatro, n\u00e3o seja mais visto como algo secund\u00e1rio na vida dos artistas, e sim, seja no sentido mais pleno, a profiss\u00e3o que d\u00e1 a inquieta\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para criar e o conforto para viver.  Ainda \u00e9 uma Utopia, claro. Mas percebo que este pensamento tem estado mais presente. E s\u00f3 ele para fazer com que nos juntemos em prol de mudan\u00e7as no legislativo que rege as artes c\u00eanicas no estado.<\/p>\n<div id=\"attachment_6856\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/daquiloquemoveomundo5.ivana_.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6856\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/daquiloquemoveomundo5.ivana_.jpg\" alt=\"\" title=\"Daquilo que move o mundo\" width=\"300\" height=\"452\" class=\"size-full wp-image-6856\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/daquiloquemoveomundo5.ivana_.jpg 300w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/daquiloquemoveomundo5.ivana_-199x300.jpg 199w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6856\" class=\"wp-caption-text\">Dire\u00e7\u00e3o e dramaturgia s\u00e3o de Tiche Vianna<\/p><\/div>\n<p><strong>Tay:<\/strong> Posso dizer que nos conhecemos praticamente crian\u00e7as, cheios de vontades e de expectativas com rela\u00e7\u00e3o ao mundo art\u00edstico. O que ficou do menino de Caruaru e o que, naquela \u00e9poca, era semente e hoje \u00e9 fruto? Qual adubo ainda te faz florescer?<br \/>\n<strong>Kleber:<\/strong> Daquela \u00e9poca Tay, ainda existe (espero que por muito tempo) o menino curioso e com a necessidade de se expressar pela arte. Viver dela e nela. Hoje percebo frutos colhidos, mas a vontade de aprender do menino ainda \u00e9 a mesma. \u00c9 o adubo. Saber que a estrada \u00e9 longa e sempre tenho mais desafios a me fazer.<\/p>\n<p><strong>Tay:<\/strong> Atuar nos p\u00f5e em contato diretamente com invisibilidades e epifanias que nos norteiam na constru\u00e7\u00e3o de um personagem ou no momento da apresenta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio espet\u00e1culo. Qual a sua liga\u00e7\u00e3o com o Sagrado? Ele existe?<br \/>\n<strong>Jorge:<\/strong> O sagrado se revela em mim quando invisto em algo e me conecto a ele com empenho e respeito.  Seja meu ritual matinal de s\u00f3 falar pela manh\u00e3 depois de beber um copo de \u00e1gua at\u00e9 o h\u00e1bito de orar todas as vezes que sou impulsionado para isso. Dessa forma, o sagrado est\u00e1 presente em minha vida de muitas formas e a linguagem teatral \u00e9 uma delas. Para mim, toda nova experi\u00eancia em teatro \u00e9 um vazio. Cada constru\u00e7\u00e3o de personagem, cada r\u00e9cita \u00e9 um momento imprevis\u00edvel e irreproduz\u00edvel. Por isso, para garantir a realiza\u00e7\u00e3o das minhas cria\u00e7\u00f5es em teatro preciso me conectar ao sagrado. \u00c9 ele que me conduz \u00e0s necessidades espec\u00edficas de cada obra e permite que eu consiga corporificar personagens. A minha arte \u00e9 justamente meu corpo movido pelo sagrado.    <\/p>\n<p><strong>Kleber:<\/strong> O que o deslocamento para fora do Recife te trouxe? O que voc\u00ea tem e o que falta?<br \/>\n<strong>Tay:<\/strong> O deslocamento para fora das fronteiras do Recife me fez ter uma perspectiva de olhar diferente. Sobre mim mesmo, sobre minha terra e sobre o Teatro que desejava. Sa\u00ed de Recife ainda muito jovem com apenas 19 anos e sa\u00ed em busca de forma\u00e7\u00e3o.  Em 1999, a cidade oferecia enquanto terceiro grau, a licenciatura em Artes C\u00eanicas, atrav\u00e9s da UFPE. Um tanto quanto desestimulado por alguns resolvi n\u00e3o prestar vestibular e partir atr\u00e1s de uma forma\u00e7\u00e3o mais voltada para o trabalho do ator. Escolhi S\u00e3o Paulo e fui! Comecei muito novo no Recife, com apenas 11 anos, fazendo um teatro mais comercial onde nem eu saberia distinguir, na \u00e9poca, qual seria a diferen\u00e7a entre o Teatro-arte-depoimento e o teatro reprodutor de f\u00f3rmulas televisivas.  Deslocar-me da cidade me p\u00f4s obrigatoriamente em contato com a multiplicidade teatral de S\u00e3o Paulo. Colocou-me obrigatoriamente em contato com o que me faz ator. N\u00e3o entrei na USP para fazer Bacharelado em Artes C\u00eanicas, mas tive a oportunidade de participar de processos de montagens da EAD, de participar de sele\u00e7\u00f5es de elenco, onde terminei sendo convidado pra ingressar no XPTO, grupo que at\u00e9 hoje fa\u00e7o parte, fiz in\u00fameras oficinas gratuitas nos SESCs, nas Oficinas Culturais do Estado, no SESI&#8230; Enfim&#8230; Estar em S\u00e3o Paulo, colocou-me num estado real, cont\u00ednuo e obrigat\u00f3rio de forma\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Acredito que somos a representa\u00e7\u00e3o de tudo o que vivemos. Das pe\u00e7as a que assistimos, dos livros que lemos, dos filmes que vemos, dos amigos que temos, dos lugares que visitamos. N\u00e3o posso negar que estar em S\u00e3o Paulo \u00e9 estar mais pr\u00f3ximo, culturalmente, do que est\u00e1 se produzindo no Mundo. Sabemos que a cidade \u00e9 rota dos principais espet\u00e1culos, das principais exposi\u00e7\u00f5es e cidade-sede de interc\u00e2mbio dos artistas mais variados. Ter acesso a essas obras \u00e9 um pouco se educar e beber numa fonte que realmente te alimenta. Sinto falta de uma forma\u00e7\u00e3o tradicional, de um diploma, sinto falta da fam\u00edlia e do mar que tamb\u00e9m me faz ator. Vivo em crise e estou, sem demagogia, mais atento ao que n\u00e3o tenho do que ao que tenho. Tenho vontades, muitas&#8230; Todo final de ano penso em desistir de tudo, em prestar um concurso p\u00fablico e virar um engravatado burocr\u00e1tico. Penso que ainda existe tanta coisa pra aprender.  Falta-me tempo e dinheiro para consumir mais arte, para viajar mais, para parar s\u00f3 para estudar&#8230;  Mas sei que tenho um hist\u00f3rico que n\u00e3o me arrependo. E que me honra. Tenho uma felicidade extrema em exercer a minha fun\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o teatral. Tenho cada vez mais respeito pela arte. Tenho sorte em ter encontrado artistas instigantes no meu caminho. Tenho gratid\u00e3o em poder melhorar enquanto ser humano, atrav\u00e9s do Teatro. Come\u00e7o a acreditar que tenho mais convic\u00e7\u00f5es e certezas, conseguindo sair da fase do SIM para tudo e come\u00e7ando a dizer N\u00c3O para aquilo que n\u00e3o me movimenta enquanto artista. Sinto falta de algo que nem sei o que \u00e9. Mas \u00e9 isso o que me move. Talvez seja a tal completude m\u00edtica que nos faz caminhar!<\/p>\n<p><strong>ENTREVISTA \/\/ TICHE VIANNA<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jorge:<\/strong> O que Recife moveu em voc\u00ea?<br \/>\n<strong>Tiche:<\/strong> Recife moveu em mim sentimentos antag\u00f4nicos. Esta cidade com sua hist\u00f3ria estampada nas ru\u00ednas dos antigos pal\u00e1cios, casar\u00f5es, ruas estreitas e gente de tudo que \u00e9 jeito mostrando a mistura de tantas culturas, me deixava alegre diante da possibilidade de ousar e triste diante das suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es. A cidade me revelava a imposi\u00e7\u00e3o da modernidade como se os edif\u00edcios quisessem se distanciar de alguma coisa que n\u00e3o se quer ver. A\u00ed eu percebia o abandono das coisas essenciais, como o do bem estar das pessoas simples. Diante de um mar incr\u00edvel, onde n\u00e3o podemos nos banhar por causa dos tubar\u00f5es ou diante de rios imensos onde n\u00e3o entramos por causa da polui\u00e7\u00e3o, compreendi o que significa a apar\u00eancia de ter coisas das quais n\u00e3o podemos usufruir e o quanto este choque de realidades t\u00e3o coladas umas \u00e0s outras \u00e9 capaz de criar vil\u00f5es e submetidos. Mas h\u00e1 muito afeto em Recife, muitas car\u00edcias tamb\u00e9m. O antagonismo se deu em mim porque ao mesmo tempo em que fazia algo que amo fazer: criar teatro, inventar mundos que s\u00e3o reflexos iluminados de realidades presentes,  lutava contra essa tristeza de ver t\u00e3o explicitamente um abandono imenso e um salve-se quem puder ou quem for capaz de se salvar. Me salvei porque estava criando e estava com gente que tamb\u00e9m sabe se salvar na arte. Mas pisamos terrenos minados v\u00e1rias vezes. Acho que o espet\u00e1culo retrata esses sentimentos. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ultrapassar o limite at\u00e9 que se reconhe\u00e7a estar preso entre as margens!!! Recife moveu em mim a percep\u00e7\u00e3o de muitas margens e a urg\u00eancia de ultrapass\u00e1-las!<\/p>\n<div id=\"attachment_6859\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/daquiloquemoveomundo4.ivana_.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6859\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/daquiloquemoveomundo4.ivana_.jpg\" alt=\"\" title=\"Daquilo que move o mundo\" width=\"600\" height=\"338\" class=\"size-full wp-image-6859\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/daquiloquemoveomundo4.ivana_.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/daquiloquemoveomundo4.ivana_-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6859\" class=\"wp-caption-text\">Atores entrevistaram diretora<\/p><\/div>\n<p><strong>Tay:<\/strong> Levando-se em considera\u00e7\u00e3o nossas inquieta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e nosso eterno caminho de busca, tendo sempre a consci\u00eancia de uma obra em constru\u00e7\u00e3o, onde mora a seguran\u00e7a num trabalho teatral? Qual pilar te sustenta e te d\u00e1 estabilidade para conduzir um processo?<br \/>\n<strong>Tiche:<\/strong> Tay, a seguran\u00e7a n\u00e3o mora, ela nem existe. \u00c9 uma inven\u00e7\u00e3o da necessidade humana para termos coragem de ousar. N\u00e3o \u00e9 preciso seguran\u00e7a para fazer teatro, \u00e9 preciso confian\u00e7a. N\u00e3o confiamos porque estamos seguros, confiamos porque acreditamos no que podemos. O que me sustenta s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es com meus parceiros de cria\u00e7\u00e3o durante o processo. Meu pilar \u00e9 a confian\u00e7a que eles mostram ter sobre suas possibilidades de inventar o desconhecido. Nunca me sustento em um processo de cria\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio, desmonto e porque me desmonto construo, pra n\u00e3o ficar para sempre aos peda\u00e7os. Quem desmonta n\u00e3o tem estabilidade nehuma. Se fosse est\u00e1vel eu quebraria. Vivo porque me desestabilizo diante de cada novo acontecimento gerado pelo movimento infinito da exist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Kleber:<\/strong> O que ficou da experi\u00eancia conosco?<br \/>\n<strong>Tiche:<\/strong> Ficou admira\u00e7\u00e3o, ficou amizade, ficou parceria, ficou confian\u00e7a, ficou prazer, ficou a pergunta: porque foi t\u00e3o \u00e1rduo chegar ao fim?<\/p>\n<p><strong>Servi\u00e7o:<\/strong>Daquilo que move o mundo<br \/>\n<strong>Quando:<\/strong> Quinta e sexta-feira, \u00e0s 20h; e s\u00e1bados e domingos, \u00e0s 18h. At\u00e9 07 de outubro<br \/>\n<strong>Onde:<\/strong> Espa\u00e7o Fiandeiros \u2013 Rua da Matriz, 46, 1\u00ba andar, Boa Vista.<br \/>\n<strong>Quanto:<\/strong> R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)<br \/>\n<strong>Informa\u00e7\u00f5es:<\/strong> (81) 4141.2431<br \/>\n<strong>Lota\u00e7\u00e3o sujeita ao espa\u00e7o da sala<\/strong>: 30 lugares <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como estou fora do Recife, ainda n\u00e3o vi Daquilo que move o mundo. Mas h\u00e1 muitos meses, nas conversas no Central, nos encontros nos teatros, sabia da montagem e do que ela estava &#8220;causando&#8221; nos envolvidos. Com dire\u00e7\u00e3o de Tiche Vianna, uma das fundadoras do Barrac\u00e3o Teatro, a pe\u00e7a traz no elenco tr\u00eas jovens criadores: [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[1,4249],"tags":[2335,648,871,152,2256,65,1085],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6843"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6843"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6843\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6865,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6843\/revisions\/6865"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6843"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6843"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6843"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}