{"id":6017,"date":"2012-05-14T09:15:43","date_gmt":"2012-05-14T12:15:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=6017"},"modified":"2012-05-14T09:15:43","modified_gmt":"2012-05-14T12:15:43","slug":"a-fala-de-um-mestre-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/a-fala-de-um-mestre-parte-i\/","title":{"rendered":"A fala de um mestre &#8211; Parte I"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_6024\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/EUGENIO_BARBA_E_JULIA_VARLEY.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-6024\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/EUGENIO_BARBA_E_JULIA_VARLEY.jpg\" alt=\"\" title=\"Eugenio Barba e Julia Varley\" width=\"600\" height=\"399\" class=\"size-full wp-image-6024\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/EUGENIO_BARBA_E_JULIA_VARLEY.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/EUGENIO_BARBA_E_JULIA_VARLEY-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6024\" class=\"wp-caption-text\">Eugenio Barba e Julia Varley no Teatro Apolo, no Bairro do Recife. Foto: Rodolfo Ara\u00fajo<\/p><\/div>\n<p>Eugenio Barba, o principal nome da antropologia teatral, autor de diversos t\u00edtulos, diretor do Odin Teatret, esteve no Recife na semana passada pela primeira vez. Um lindo sorriso, simp\u00e1tico, simples, ele conversou com a imprensa no hotel em que estava hospedado &#8211; sempre, claro, acompanhado pelos olhares e palavras de sua esposa, a atriz Julia Varley.<\/p>\n<p>No dia seguinte, na sexta-feira, no Teatro Apolo, Julia fez a demonstra\u00e7\u00e3o de trabalho <em>O eco do sil\u00eancio<\/em>, que foi seguida por uma palestra de Barba. Dispon\u00edvel, depois ele respondeu in\u00fameras perguntas da plateia. De mansinho, falou coisas muito caras &#8211; que merecem ser registradas. E vamos fazer isso aqui no blog. Est\u00e1 a\u00ed a primeira parte da palestra de Eugenio Barba no Recife. A transcri\u00e7\u00e3o \u00e9 de pouco mais de 15 minutos de fala. Ainda temos muito material (inclusive a entrevista para a imprensa), mas vamos divulgar aos pouquinhos, para que o tempo n\u00e3o se passe sem que registremos as palavras de um mestre. (Ah, antes de come\u00e7ar a palestra, ele pediu para que as pessoas levantassem e dissessem um texto como se estivessem acariciando o outro. Depois, todos sentaram e ele come\u00e7ou).<\/p>\n<p><strong>PALESTRA \/\/ EUGENIO BARBA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Voc\u00eas vieram aqui para escutar, para serem inspirados, pelo que Julia podia fazer, pelo que eu poderia contar. Para ver a maneira de como ser eficaz com o espectador. O que eu quero como ator? Como diretor? Quero que o meu ator seja eficaz em aguardar, provocar resson\u00e2ncia nos meus espectadores. Sei que os meus espectadores n\u00e3o s\u00e3o um p\u00fablico \u00fanico. Cada um de voc\u00eas chegou aqui de diferentes lugares da cidade, de diferentes fam\u00edlias, com uma hist\u00f3ria, uma biografia. Cada um chegou aqui com uma expectativa diferente. Cada um de voc\u00eas tem uma fome diferente de aprender, de compreender. Assim que, para mim, isso da unicidade do espectador foi um dos meus problemas como diretor. Como \u00e9 poss\u00edvel que o ator possa dirigir-se a esse n\u00edvel? A esse animal mitol\u00f3gico que est\u00e1 constitu\u00eddo de duzentos e cinquenta destinos humanos? Cada um possui saudades, nostalgias, ambi\u00e7\u00f5es, feridas, vit\u00f3rias. Isso do &#8220;como&#8221; poderia tamb\u00e9m chamar-se t\u00e9cnica, o que se aprende. E nos damos conta de que a primeira experi\u00eancia que temos que enfrentar no nosso of\u00edcio \u00e9 uma experi\u00eancia de impot\u00eancia. Porque cremos que se possa absorver um conhecimento. E esse conhecimento n\u00e3o se absorve. Apesar de que algu\u00e9m pode ir a uma escola teatral, fazer cursos e semin\u00e1rios. Mas a\u00ed se d\u00e1 conta que o resultado, que a conseq\u00fc\u00eancia dessa rela\u00e7\u00e3o did\u00e1tica, pedag\u00f3gica, n\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tica. Voc\u00ea tem a sensa\u00e7\u00e3o de marchar no mesmo lugar todo tempo. Essa era a minha sensa\u00e7\u00e3o quando eu fui \u00e0 Escola Teatral de Vars\u00f3via. Depois de um ano, tinha a consci\u00eancia que n\u00e3o tinha aprendido nada, que estava perdendo o meu tempo. Que o que era para mim fundamental, era um of\u00edcio imagin\u00e1rio, que existia s\u00f3 na minha cabe\u00e7a, nos meus sonhos ou nas minhas necessidades. Tudo que estava aprendendo, tudo que me ensinaram na escola, n\u00e3o funcionava. <\/p>\n<p>A demonstra\u00e7\u00e3o da Julia \u00e9 um t\u00edpico exemplo. Ela chegou a um grupo de teatro, o Odin e come\u00e7ou a fazer toda a aprendizagem, que no Odin se faz atrav\u00e9s de exerc\u00edcios, de treinamento. Mas ela, ao contr\u00e1rio de ir adiante, de desenvolver suas capacidades sonoras, vocais, ela perdia a voz. Ela tinha que fazer todo o caminho solit\u00e1rio dentro do grupo para encontrar sua identidade. Que \u00e9 muito diferente da identidade profissional, t\u00e9cnica, dos seus companheiros. Assim, quando come\u00e7amos, a primeira pergunta \u00e9: como? Como poder encontrar um ambiente, uma pessoa, algu\u00e9m que, na verdade, podemos chamar de mestre? Porque o mestre \u00e9 s\u00f3 algu\u00e9m que nasceu antes da gente e conhece um pouco mais. Como encontrar esse mestre que nos ajude a encontrar nosso caminho?<\/p>\n<p>Mas, depois de alguns anos, quando j\u00e1 h\u00e1 certo costume em ser ator, em resolver suas d\u00favidas, seus problemas, quando j\u00e1 h\u00e1 adapta\u00e7\u00e3o ao of\u00edcio, \u00e0 rotina, quando isso conquistou parte da gente, outra pergunta fica importante: porque estou fazendo tudo isso? Que coisa mais engra\u00e7ada \u00e9 que, \u00e0s vezes, nem eu ganho o suficiente, tenho que ter outro emprego para poder fazer isso. E porque estou fazendo isso? <\/p>\n<p>Quando come\u00e7amos, no meu caso, eu manipulava, criava ilus\u00f5es. S\u00f3 depois de alguns anos me dei conta do porqu\u00ea de ter escolhido o teatro. Mas no come\u00e7o eu disfar\u00e7ava tudo isso com um \u00e1libi, uma justifica\u00e7\u00e3o solene e nobre: eu queria fazer teatro para poder mudar a sociedade. Era um per\u00edodo. Comecei nos anos 1950, do s\u00e9culo, do mil\u00eanio passado. Quando existia uma luta de classes, uma guerra fria. Quando todo tempo, de verdade, havia o medo de uma guerra at\u00f4mica. Ent\u00e3o a participa\u00e7\u00e3o ativa dos cidad\u00e3os na Europa era muito, muito presente. Assim que o teatro foi tamb\u00e9m um dos f\u00f3runs, dos instrumentos, dos canais, que o jovem podia, ou imaginava poder, usar para lutar contra algo que amea\u00e7ava uma cultura human\u00edstica. <\/p>\n<p>E isso foi o que, essa tens\u00e3o dos anos 50 e 60, que se criou em todo planeta, que provocou a grande mudan\u00e7a das quais voc\u00eas, os mais jovens, s\u00e3o os filhos. 1968, apesar de que todo processo come\u00e7ou antes, \u00e9 um ano em que toda a estrutura de pensamento, de comportamento, de express\u00e3o, a maneira de se vestir mudou. N\u00e3o existia jeans! Imaginem o que significa hoje uma sociedade sem jeans! Hoje os professores de universidade tamb\u00e9m v\u00e3o de jeans. Antes, o professor de universidade, voc\u00ea podia reconhec\u00ea-lo. Tinha quase um uniforme, extremamente solene. A maneira de cantar! Pensem em toda a express\u00e3o da juventude atrav\u00e9s dos grupos, dos Rolling Stones. E tudo isso na verdade mudou profundamente. Mas, em tudo isso, existia como uma bola de fogo incandescente, irracional, que n\u00e3o podia ser l\u00f3gica, que era raiva e o desejo da juventude de n\u00e3o aceitar um mundo que o sufocava. <\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o dos que n\u00e3o estavam de acordo foi muito dura. Voc\u00eas, no continente de voc\u00eas, foram os primeiros a viv\u00ea-la. Em 1964, voc\u00eas sabem o que aconteceu no Brasil. O que aconteceu nos anos 1970 no Chile, Argentina, Uruguai. Assim que n\u00e3o foi s\u00f3 uma grande revolu\u00e7\u00e3o de alegria, de hippies. Foi uma sacudida que provocou mortos. Muitos mortos. Mas hoje isso se conquistou: em parte, h\u00e1 essa possibilidade de exprimir-se livremente. <\/p>\n<p>Foi durante toda essa luta que o porqu\u00ea do teatro era muito claro. As pessoas sabiam que se criavam grupos pela primeira vez na hist\u00f3ria do teatro do Ocidente e do Oriente, se criou algo muito estranho. Antes, tinham as companhias onde os atores estavam contratados, um per\u00edodo curto, alguns meses, uma temporada, \u00e0s vezes. Hoje se chama isso de projeto. Nesse tempo, tudo isso era profissional. No sentido que os atores viviam disso. Os atores tinham que chegar \u00e0s salas para viver. N\u00e3o existiam subs\u00eddios, n\u00e3o existiam Sesc, Minist\u00e9rio da Cultura, que pagavam os atores. Os atores haviam de inventar, no s\u00e9culo 16, na Europa, uma estranha ind\u00fastria, um estranho of\u00edcio, onde as pessoas pagavam e, ou de p\u00e9 ou sentados, deveriam ser entretidos, uma divers\u00e3o. Os atores e as atrizes tamb\u00e9m proporcionavam isso, representavam. Isso era o teatro. Tenho que lembr\u00e1-los sempre: nosso of\u00edcio nasce de um acordo, de uma conven\u00e7\u00e3o, entre espectadores e atores. &#8220;Eu pago&#8221;, diz o espectador. &#8220;E voc\u00ea tem que entreter-me. N\u00e3o me aborrecer. \u00c9 isso&#8221;. Essa \u00e9 uma das faces do teatro. A outra \u00e9 que as rela\u00e7\u00f5es no nosso of\u00edcio, n\u00e3o duram muito. <\/p>\n<p>Como explicava antes, o profissionalismo consistia em firmar um contrato de alguns meses e, depois, cada um partia. Por isso \u00e9 importante lembrar, porque em 1968, surgiu uma gera\u00e7\u00e3o que pensava em outras categorias. Pensava em categorias em que o grupo era como uma micro sociedade. Era como uma nova maneira de socializar. Indo de encontro aos princ\u00edpios que existiam na sociedade l\u00e1 fora. Assim que os grupos de teatro n\u00e3o eram s\u00f3 uma resist\u00eancia \u00e0 ditadura, contra um teatro burgu\u00eas, contra uma maneira de ver a sociedade comandada pelos capitalistas. Era tamb\u00e9m uma maneira de viver. Pela \u00fanica vez existiu nesse planeta uma gera\u00e7\u00e3o que, de maneira consciente ou inconsciente, atrav\u00e9s dos grupos teatrais, imaginou que, atrav\u00e9s do teatro, o teatro tinha uma dupla, profunda fun\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 deixar que algo aconte\u00e7a na mente, no intelecto, nos sentidos, na viv\u00eancia dos espectadores. E que saindo do teatro cada espectador possa refletir, viver, estabelecer um di\u00e1logo com a sua hist\u00f3ria pessoal, e confront\u00e1-la, enfrent\u00e1-la. Medi-la com o que se passava na hist\u00f3ria. N\u00e3o s\u00f3 isso. Tamb\u00e9m era o teatro como um processo de mudan\u00e7a pessoal. Daqui surgem as grandes li\u00e7\u00f5es do Living Theatre, anarquista puro. Que, atrav\u00e9s de sua exist\u00eancia, do seu processo de trabalho, tenta dar vida a essas rela\u00e7\u00f5es e a tamb\u00e9m proclamar isso no momento do espet\u00e1culo. Dessa vis\u00e3o, que \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o contra os limites imposto pela sociedade, na hist\u00f3ria.<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eugenio Barba, o principal nome da antropologia teatral, autor de diversos t\u00edtulos, diretor do Odin Teatret, esteve no Recife na semana passada pela primeira vez. Um lindo sorriso, simp\u00e1tico, simples, ele conversou com a imprensa no hotel em que estava hospedado &#8211; sempre, claro, acompanhado pelos olhares e palavras de sua esposa, a atriz Julia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[1],"tags":[2096,920,2092,2095,2093,349,2094],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6017"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6017"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6017\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6027,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6017\/revisions\/6027"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6017"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6017"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6017"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}