{"id":2943,"date":"2011-06-17T16:39:00","date_gmt":"2011-06-17T19:39:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=2943"},"modified":"2015-10-28T02:58:27","modified_gmt":"2015-10-28T05:58:27","slug":"o-tempo-de-leda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/o-tempo-de-leda\/","title":{"rendered":"O tempo de Leda"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_2955\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/leda1.1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2955\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/leda1.1.jpg\" alt=\"\" title=\"Leda Alves recebe homenagens\" width=\"600\" height=\"339\" class=\"size-full wp-image-2955\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/leda1.1.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/leda1.1-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2955\" class=\"wp-caption-text\">Leda Alves recebe homenagens pelos seus 80 anos. As fotos foram tiradas na Casa da Rabeca<\/p><\/div>\n<p>Leda Alves sempre teve pressa. Por justi\u00e7a na desequilibrada sociedade brasileira. Por mais solidariedade em tempos em que a intoler\u00e2ncia religiosa torna os humanos estranhos entre si. Por resultados eficientes na pregui\u00e7osa m\u00e1quina p\u00fablica. Nascida Leoc\u00e1dia Alves da Silva, em 17 de junho, ela completa hoje 80 anos de uma vida intensa. S\u00f3 come\u00e7ou a achar que podia ganhar um pouquinho mais de tempo quando completou 70. <\/p>\n<p>Uma d\u00e9cada depois ela est\u00e1 firme, de bem com a vida, alegre com as celebra\u00e7\u00f5es. O m\u00e9dico adverte: \u201cporque anda t\u00e3o depressa, Leda?\u201d. \u201cE eu ando depressa?\u201d, questiona, habituada ao pr\u00f3prio ritmo, de quem comanda, com lucidez, pulso firme e muitas diretrizes, a Companhia Editora de Pernambuco (Cepe).<\/p>\n<p>Esta semana, foram muitas emo\u00e7\u00f5es. As homenagens come\u00e7aram no domingo, em Alian\u00e7a, na Associa\u00e7\u00e3o de Maracatus de Baque Solto de Pernambuco. L\u00e1, o terreiro ganhou o nome Leda Alves. Na ter\u00e7a-feira, foi a vez da missa, cat\u00f3lica praticante que \u00e9, desde a inf\u00e2ncia. Na quarta, encontro de cultura popular na Casa da Rabeca. Ontem, recebeu uma medalha do governador Eduardo Campos. Hoje, o show do Quinteto Violado no Teatro de Santa Isabel (com repert\u00f3rio de Luiz Gonzaga e ingressos a R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)) ser\u00e1 dedicado a ela.<\/p>\n<div id=\"attachment_2956\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/leda1.3.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2956\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/leda1.3.jpg\" alt=\"\" title=\"Leda Alves\" width=\"600\" height=\"393\" class=\"size-full wp-image-2956\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/leda1.3.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/leda1.3-300x196.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2956\" class=\"wp-caption-text\">Fotos: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p>Personagem de destaque na pol\u00edtica cultural pernambucana, Leda est\u00e1 em cargos de gest\u00e3o h\u00e1 praticamente 40 anos. Passou pela Fundarpe, Funda\u00e7\u00e3o de Cultura Cidade do Recife, Teatro de Santa Isabel e atualmente \u00e9 a presidente da Cepe. Algumas decis\u00f5es foram pol\u00eamicas e at\u00e9 hoje \u00e9 condenada pelos produtores de teatro infantil quando decidiu que o teatro de Santa Isabel n\u00e3o tinha equipe e condi\u00e7\u00f5es para receber produ\u00e7\u00f5es para a inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Bom, mas a jornada de Leda come\u00e7ou antes dos cargos p\u00fablicos, nas pastorais da Igreja Cat\u00f3lica, e mais tarde, no teatro. \u00c9 a arte que ela diz ser o eixo da sua vida. Estreou nos palcos sob dire\u00e7\u00e3o de Hermilo Borba Filho, dramaturgo e diretor, homem por quem ela confessa ter esperado nove anos at\u00e9 se casar. Quando chegava do trabalho, via na mesa de cabeceira o bilhete: \u201cler urgente\u201d. Obedecia, encantada pelo homem de esp\u00edrito livre, \u201cque amava tanto homens quanto mulheres, no sentido pleno\u201d e despertava paix\u00f5es.<\/p>\n<p>Depois dos ensaios no Teatro Popular do Nordeste, o TPN, sob a orienta\u00e7\u00e3o de Hermilo, o elenco ia para os terreiros, aprender a fazer teatro com os mestres da cultura popular. Personagens que Leda Alves abra\u00e7aria por toda a sua trajet\u00f3ria, como fez quando defendeu que Mestre Salu tinha a mesma import\u00e2ncia de arquitetos e engenheiros de um \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico. Qui\u00e7\u00e1 maior. <\/p>\n<p>Quando o amor maior, Hermilo Borba Filho, faleceu, em 1976, ela se sentiu perdida. Foram alguns instantes. Logo percebeu que ele estaria com ela. N\u00e3o s\u00f3 na fotografia em preto e branco na sala de trabalho apinhada de papeis, mas nas posturas e decis\u00f5es ideol\u00f3gicas que tomaria pela frente. Conversamos com Leda no hor\u00e1rio do almo\u00e7o. Foi o \u00fanico momento dispon\u00edvel na agenda apertada. Perdemos a no\u00e7\u00e3o do tempo. Quando olhamos no rel\u00f3gio, o ponteiro marcava quase tr\u00eas da tarde. L\u00e1 se vai ent\u00e3o Leda \u2013 com os passos apressados que o m\u00e9dico proibiu \u2013 cumprir mais um compromisso.<\/p>\n<p><strong>Entrevista \/\/ Leda Alves<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8220;Ningu\u00e9m pode tirar f\u00e9rias da vida&#8221;<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_2957\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/leda1.5..jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2957\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/leda1.5..jpg\" alt=\"\" title=\"Leda Alves\" width=\"600\" height=\"350\" class=\"size-full wp-image-2957\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/leda1.5..jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/leda1.5.-300x175.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2957\" class=\"wp-caption-text\">Leda Alves, madrinha dos maracatus<\/p><\/div>\n<p><strong>Voc\u00ea imaginava que chegaria aos 80?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o! Quando eu terminei os 70, vi a viabilidade de chegar as 80. Cheguei. Vi muito claro que \u00e9 um caminho muito longo, mas que eu n\u00e3o caminhei sozinha. Al\u00e9m de eu ter caminhado com grupos e grupos e grupos, dentro das minhas op\u00e7\u00f5es de f\u00e9, pol\u00edtica e cultural, eu caminhei profundamente apoiada, ajudada e misturada com quem andou comigo. Na juventude, na maturidade, na velhice e hoje, aos 80 anos. Pessoas que me ajudaram muito, que eu sempre chamo de sirineus. Nossa, \u00e9 muita gente, que a gente trocou muito amor, muita luta, muito sofrimento. <\/p>\n<p><strong>Como come\u00e7ou esse caminho?<\/strong><br \/>\nO meu caminho come\u00e7ou ao ser batizada na Igreja Cat\u00f3lica. Fui filha criada numa fam\u00edlia eminentemente cat\u00f3lica, tradicional, n\u00e3o era rica. Mas Mata Sul, papai era do Agreste, mas mam\u00e3e era Mata Sul, de engenho. Ent\u00e3o era fechado com os preconceitos, com moralidade, tudo isso. Eu tive privil\u00e9gios, por isso que eu me sinto muito amada por Deus, porque ele colocou muita gente na minha estrada que abria outras cortinas, que reformulavam muitos princ\u00edpios. Outros, de mam\u00e3e, eu agrade\u00e7o muito a ela, de ter me estimulado nisso. De ter me dado um exemplo que n\u00e3o era formalizado, com nenhuma teoria pedag\u00f3gica. Ela era aquele neg\u00f3cio, ela vivia o ritual da Igreja Cat\u00f3lica. O ritual, todos os santos, os meses todos, missa dominical, via sacra. Ela tinha um neg\u00f3cio, que era o ter\u00e7o \u00e0s seis horas da noite com a gente. A gente estivesse onde estivesse, os filhos, papai n\u00e3o porque papai estava no com\u00e9rcio. Ela reunia no quarto do santu\u00e1rio e ali, tudo ajoelhado no ch\u00e3o, a gente rezava o ter\u00e7o. Durante muito tempo, passei a n\u00e3o gostar do ter\u00e7o, porque tinha aquela repeti\u00e7\u00e3o. E eu sempre digo que o que me inspira muita coisa \u00e9 que, depois do ter\u00e7o, ela come\u00e7ava a tirar Ave-Maria pelas pessoas que estavam precisando, os amigos, os vizinhos, os parentes, que estavam desempregados, doentes. Eram tr\u00eas Aves-Maria, minha filha. A\u00ed o sono j\u00e1 batia, a gente j\u00e1 estava achando p\u00e9ssimo, mas rezava tr\u00eas Ave-Maria. E depois ainda vinha tr\u00eas Ave-Maria de agradecimento a Deus, porque fulano ficou bom, porque sicrano arrumou um emprego. N\u00e3o estou falando pelos meus irm\u00e3os, estou falando por mim, mas isso deixou em mim uma semente muito bem plantada, do ponto de vista da f\u00e9, de solidariedade. De me sentir pr\u00f3xima de todo mundo, imbricada em todos os problemas, desde que eu tinha dez, onze anos. Isso foi ficando dentro de mim, inconsciente. Depois \u00e9 que a gente vem com outra bagagem, de experi\u00eancias, de op\u00e7\u00f5es, de lutas. E eu fui encontrando em mim um respaldo e eu identifiquei que era isso. Nunca fiz an\u00e1lise, isso \u00e9 intui\u00e7\u00e3o. Sempre estudei em col\u00e9gio religioso, fechad\u00edssimo. Damas crist\u00e3s, Sagrada fam\u00edlia. Quanto mais fechado, mais mam\u00e3e gostava de colocar a gente ali. Claro eu isso me deu uma bagagem muito boa, mas me deu muita amarra, muito sofrimento, muita ang\u00fastia.<\/p>\n<p><strong>A religi\u00e3o pode ser muito opressora. Como voc\u00ea lidou com isso?<\/strong><br \/>\nTem o dedo de Deus, que foi me dar o privil\u00e9gio de eu entrar na a\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica na minha par\u00f3quia, que era Casa Amarela e eu passar a conviver com padres jovens, com a cabe\u00e7a muito aberta. E entre eles cito, como fundamentais na minha vida, o Padre Marcelo Carvalheira, hoje arcebispo em\u00e9rito, Padre Marcelo Santos tamb\u00e9m me ajudou, e a\u00ed v\u00e1rios. Esse mundo para mim foi important\u00edssimo. A Igreja do Brasil estava dando um salto de qualidade para o mundo e a Igreja de Pernambuco ainda mais. Entrando um bispo como Dom Jo\u00e3o Costa, Dom Coelho, Dom Helder, dom Lamartine. Ent\u00e3o esse povo, que era at\u00e9 estudante, seminaristas, eu j\u00e1 estava convivendo com eles em pastorais. Veja como a gente era avan\u00e7ado. Porque hoje eu estou com 80, mas essa caminhada j\u00e1 existia. E a religi\u00e3o me aproximou da for\u00e7a pol\u00edtica e, em seguida, do partido pol\u00edtico. Eu trabalhava na pastoral de a\u00e7\u00e3o social, quando doutor Arraes me chamou. A chegada dele aqui, eu participei da equipe que preparou a grande festa. Ele foi prefeito na \u00e9poca de Hermilo. Hermilo foi secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o conviviam. Ent\u00e3o ele me chamou para integrar a executiva do PMDB. Eu disse, doutor Arraes, eu coordeno uma pastoral e \u00e9 incompat\u00edvel. A gente aqui prefere n\u00e3o ter liga\u00e7\u00e3o com partido pol\u00edtico. Porque o trabalho da gente \u00e9 na base, nas comunidades. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 bom aliar isso com partido pol\u00edtico. A\u00ed vem campanha, elei\u00e7\u00e3o, candidato. E a luta da gente \u00e9 por a\u00ed, mas para outro caminho. Mas ele insistiu, insistiu. Ele e Eg\u00eddio Ferreira Neto. A\u00ed eu coloquei isso para a pastoral. E se discutiu, se refletiu e achou que era hora de eu integrar um partido pol\u00edtico e eu me afastei da coordena\u00e7\u00e3o da pastoral. A\u00ed eu fui pro partido e um mundo se abriu para mim. Doutor Arraes teve tamb\u00e9m uma presen\u00e7a muito forte e uma contribui\u00e7\u00e3o imensa na minha forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-partid\u00e1ria. Nesses intervalos, que aconteceram na minha vida, eu tamb\u00e9m tinha contato com militantes de a\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica e com militantes intelectuais. E eu tamb\u00e9m convivia muito com eles. E, no meio deles, eu tinha Frei Betto que tornou-se um amigo fraterno muito grande. N\u00f3s acompanhamos a vida dele e ele acompanhou a nossa vida. <\/p>\n<p><strong>E Hermilo?<\/strong><br \/>\nAo mesmo tempo, veja como o neg\u00f3cio parece um caleidosc\u00f3pio, que cai um negocinho, sobe outro e aquele desenho foi se firmando na minha vida sem eu estar escrevendo, nem tomando nota. Eu estava era entregue. Ent\u00e3o eu tamb\u00e9m tenho a impress\u00e3o que Deus me preparou para Hermilo. Eu tenho impress\u00e3o n\u00e3o, eu tenho certeza. N\u00e3o \u00e9 vaidade que eu digo isso n\u00e3o. Era uma predestina\u00e7\u00e3o na minha vida o meu encontro com Hermilo, naquele momento da minha vida, quando eu descobri, porque eu j\u00e1 tinha ouvido falar dele, mas nunca tinha visto. Porque at\u00e9 quando eu fui com o grupo de teatro da Par\u00f3quia do Espinheiro para S\u00e3o Paulo levar uma pe\u00e7a de Z\u00e9 Carlos Cavalcanti Borges, onde eu estreei assim, em cena, eu s\u00f3 vi Hermilo sentado na plateia com D\u00e9bora e ele fez a cr\u00f4nica dizendo que tinha uma atriz, que apesar de muito jovem, principiante, pegou o papel de uma mulher de meia idade, era uma atriz. Mas nunca foi l\u00e1 dentro conversar com a gente, durante uma semana que passamos l\u00e1, com o nosso elenco, que s\u00f3 deixava a gente sair do hotel para o teatro, do teatro para o hotel.<\/p>\n<p><strong>Como come\u00e7ou o teatro?<\/strong><br \/>\nEu sonhava. Meu pai desde eu pequena, tamb\u00e9m, sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o com tarefas psicol\u00f3gicas, ele tinha s\u00f3 uma intui\u00e7\u00e3o e, naquela \u00e9poca, era bom, a pessoa declamar poesias, para os convidados, para os amigos. E ele sentiu isso porque eu fazia muito teatro em casa com os meus irm\u00e3os. Eu tinha um primo que escrevia, meu irm\u00e3o mais velho dirigia e eu fazia o guardar-roupa, tudo de papel, e era a atriz. Ent\u00e3o papai percebia isso com toda certeza e cada vez que chegava uma visita, ele me chamava na sala de visita, eu deveria ter 14 anos, mas declamava Navio negreiro, Veludo, os poemas dos poetas daquela \u00e9poca. Ent\u00e3o eu tinha dentro de mim, fui pra esse neg\u00f3cio da Par\u00f3quia do Espinheiro, tinha dentro de mim a semente de voca\u00e7\u00e3o, que era o teatro, mas sem nenhuma perspectiva. A\u00ed um dia eu leio no jornal que vai ter a segunda chamada para o vestibular. Me inscrevi. A\u00ed meu tio padrinho morreu na noite antes do vestibular, um desastre. Passei a noite no vel\u00f3rio, eu queria muito bem a ele, irm\u00e3o do meu pai, e depois tomei um banho e fui l\u00e1. E encontrei os homens que eu via no jornal, que eu ia ao Santa Isabel raramente e via. Hermilo, bem gordinho, de gravata borboleta. Eu digo: &#8220;ih, \u00e9 aquilo?&#8221;. Encontrei Alo\u00edsio Magalh\u00e3es, Gast\u00e3o de Holanda, Joel Pontes, doutor Jos\u00e9 Carlos Borges, que ensinava psicologia do ator. A\u00ed eu fiz o vestibular e passei. A\u00ed \u00e9 outra coisa na minha vida, d\u00e1diva de Deus, eu entrar pelo melhor caminho que existia no mundo do teatro. Eu n\u00e3o tive desvio de fun\u00e7\u00e3o, nem desvio de caminho. O capit\u00e3o Antonio Pereira, do boi misterioso da Mustardinha dizia: &#8220;\u00d4 Hermilo, s\u00f3 existe um caminho, o resto s\u00e3o veredas&#8221;. Neg\u00f3cio lindo, n\u00e9 n\u00e3o? Ent\u00e3o eu pedia muito que eu n\u00e3o queria perder o rumo de meu caminho. E a\u00ed muita gente me ajudou nisso. A partir do capit\u00e3o Antonio Pereira, porque Hermilo dizia que ele era mestre dele, p\u00f4s isso nos livros dele, e eu usufrui o m\u00e1ximo da conviv\u00eancia do capit\u00e3o. Ent\u00e3o era vereda para um canto, para o outro, mas eu pra c\u00e1. E o centro da minha op\u00e7\u00e3o de vida era o evangelho. Era o meu compromisso com a minha f\u00e9, o sonho de uma sociedade justa, justa. Claro que todo mundo n\u00e3o poderia ter a mesma condi\u00e7\u00e3o financeira nem social, mas que todos tivessem os mesmos direitos, as mesmas oportunidades. E que cada um pudesse se desenvolver plenamente. Pra voc\u00ea n\u00e3o encontrar, como a gente encontra, esses artistas populares e a gente diz: ai, se essas pessoas comessem. Os dan\u00e7arinos de frevo&#8230;quer dizer, s\u00e3o g\u00eanios do nosso povo, mas sem d\u00favida nenhuma. Ent\u00e3o, no TPN, eu encontrei isso. Porque Hermilo, toda grande tese dele para a cena e para a dramaturgia brasileiras, ele bebia no esp\u00edrito e nas t\u00e9cnicas do que ele chamava os espet\u00e1culos populares da gente, que era o cavalo-marinho, o pastoril, o mamulengo e a nau catarineta. Ent\u00e3o ele me colocou nesse neg\u00f3cio. A gente terminava o espet\u00e1culo, todo mundo do elenco do TPN terminava o espet\u00e1culo, a gente ia para os terreiros, via at\u00e9 de madrugada, at\u00e9 de manh\u00e3. Via, via, via. N\u00e3o tinha nada de ficar gravando pra fazer pergunta n\u00e3o. Era entrar pelos ouvidos, pelos olhos, pela pele. A gente convivia. Quando havia uma t\u00e9cnica que exigia manejo, a gente chamava o Guariba, que era um Mateus maravilhoso, ensinou a gente a usar m\u00e1scara. Aqui os atores entraram para usar m\u00e1scara pela primeira vez permanentemente, quando o TPN estreou em 1960. Ele vinha e dava aula pra gente: como \u00e9 que virava o olho, como virara a cabe\u00e7a. Porque a gente n\u00e3o queria m\u00e1scara n\u00e3o. O ator n\u00e3o quer tapar a cara dele n\u00e3o. At\u00e9 ela se encarnar, durou. Ent\u00e3o eu fui me apaixonando por aquilo, ao mesmo tempo conhecendo, tinha o privil\u00e9gio de ter Hermilo. Ent\u00e3o tudo quanto ele conversava com a gente, o improviso, o realismo fant\u00e1stico. Ent\u00e3o fui lendo muita coisa que ele passava pra mim, \u00e0s vezes eu chegava do trabalho, da universidade, e ele dizia: &#8220;ler urgente&#8221;. J\u00e1 estava na minha mesa de cabeceira. Ent\u00e3o, eu devorava. Isso me deu um estofo muito robusto. Fui lendo Ariano, Guimar\u00e3es Rosa, o realismo fant\u00e1stico na Am\u00e9rica do Sul. Isso foi tamb\u00e9m confirmando as coisas que eu ouvia de Hermilo. Cada vez eu estava mais segura que era esse o caminho. <\/p>\n<p><strong>Como enfrentaram o Golpe Militar?<\/strong><br \/>\nA gente foi tribuna, foi resist\u00eancia. E o pre\u00e7o foi fechar depois. Hermilo perde o emprego, era um bando de coisa ruim, dif\u00edcil de se enfrentar e findou ele pifando o cora\u00e7\u00e3o e se operando. Mas estava muito claro que na hora que ele estava chefiando esse peda\u00e7o, a gente tamb\u00e9m trabalhou no movimento da educa\u00e7\u00e3o de base, nas escolas radiof\u00f4nicas, na CNBB, na luta da igreja com os artistas. O TPN fazia as aulas pr\u00e1ticas em r\u00e1dio-teatro. A gente interpretava. E ao mesmo tempo fui trabalhar, fazer avalia\u00e7\u00e3o das escolas radiof\u00f4nicas, no meio da multid\u00e3o de camponeses, de madrugada, de noite. Era uma coisa assim, t\u00e3o forte, que a gente saia dali dizendo &#8220;n\u00e3o, n\u00e3o pode. Eu tamb\u00e9m quero contribuir para que todo mundo tenha direito ao estudo, a se alfabetizar&#8221;. E que tenha no m\u00ednimo o que eu tive, no m\u00ednimo. N\u00e3o \u00e9 ser rico n\u00e3o, \u00e9 ter condi\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o ali n\u00e3o foi t\u00e3o longo, talvez uns dois anos, um ano e meio. Mas veio o golpe e fechou tudo. O TPN tamb\u00e9m tinha ficado no Arena e ali sofreu outras coisas e a gente cometeu erros. Uma pe\u00e7a que, gra\u00e7as a Deus, Hermilo renegou em vida. Esse texto da <em>Bomba da paz<\/em>, eu tenho um, que vai ficar para uma futura defesa, depois de mim e mais nada. N\u00e3o tem mais exemplar. Ele considerou que foi um erro. Naquela hora, a gente &#8220;deserviu ao povo brasileiro&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Mas n\u00e3o tem mais nenhum exemplar?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o! Assim como minha correspond\u00eancia de amor com ele tamb\u00e9m vai ser toda queimada antes de eu ir embora. N\u00e3o interessa ao p\u00fablico o que a gente se dizia um ao outro. \u00c0s vezes ele na confian\u00e7a, fazia coment\u00e1rios sobre as pessoas que ainda estavam ou est\u00e3o vivas. Isso \u00e9 uma intimidade da gente. Vou queimar. Ou ent\u00e3o coloca no meu caix\u00e3o. <\/p>\n<p><strong>T\u00e1, voltando. E depois?<\/strong><br \/>\nEu fui cada dia mais sentindo o sentido da minha vida. E muito multiplicada. Fui recebendo de Deus muito dom atrav\u00e9s das pessoas que eu convivia, que me ensinavam. Eu vivi no top de linha. S\u00f3 vivia com gente melhor do que eu, em todos os sentidos. Eu tinha vontade que meus olhos ouvissem tudo, vissem, percebessem. Cada vez que eu ia para um encontro com os artistas populares, eu voltava prenha, de tudo. Quando Hermilo foi embora, eu disse, &#8220;pronto. E agora?&#8221;. Fiquei desnorteada, porque parecia uma metade de mim, f\u00edsica. De dor f\u00edsica. Eu n\u00e3o ia mais sorrir. Porque era t\u00e3o impregnado. Eu n\u00e3o sabia onde eu terminava e come\u00e7ava Hermilo e vice-versa. Eu acho que \u00e9 por isso que a igreja criou o sacramento indel\u00e9vel do matrim\u00f4nio. Voc\u00ea s\u00f3 se casa uma vez na igreja. Porque a experi\u00eancia de amor humano, de plenitude de amor, absoluto n\u00e3o, porque o absoluto \u00e9 com Deus, mas de plenitude de amor, de um homem e  de uma mulher, voc\u00ea tem certeza que ser\u00e1 ate o fim. Hoje eu tenho mais certeza que n\u00e3o \u00e9 o &#8220;fim&#8221; que acaba. A partida de Hermilo, eu s\u00f3 lamento, ele j\u00e1 tem consci\u00eancia do absoluto e eu n\u00e3o tenho. Ele j\u00e1 respondeu a todas as inquiri\u00e7\u00f5es dele de f\u00e9, porque f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 certeza, \u00e9 tamb\u00e9m d\u00favida, e eu ainda estou com as inquiri\u00e7\u00f5es. Mas o alimento continua dentro da gente. Sem d\u00favida. Ele partiu, est\u00e1 numa melhor, me deixou na beira do tiroteio. Eu preciso de uma foto, como eu preciso de um crucifixo, para os c\u00f3digos humanos. Mas eu tenho certeza que ele est\u00e1 impregnado em todas as minhas lutas, em todas as minhas decis\u00f5es. \u00c0s vezes eu verbalizo: &#8220;eita, velho, me ajuda a\u00ed. Nessa hora, como eu fa\u00e7o, se voc\u00ea estivesse aqui, como voc\u00ea faria?&#8221;. Eu chego at\u00e9 a dialogar e tamb\u00e9m n\u00e3o sou esp\u00edrita.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 essa rela\u00e7\u00e3o hoje?<\/strong><br \/>\nEssa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 verbal, \u00e9 de lealdade. N\u00e3o \u00e9 que eu fui fechada para o amor, ele nem gostaria que fosse. Mas eu tive experi\u00eancias de amores menores, que n\u00e3o me deram g\u00e1s, de dizer: &#8220;\u00e9 com esse que eu vou&#8221;. Nunca mais. Nunca mais. E agora ent\u00e3o, estou muito mais apaziguada. Mas \u00e9 como uma tarefa que ele deixou comigo e que ele me ajudaria de outra maneira. Primeiro, ser fiel ao que a gente descobriu, ao que a gente tinha certeza de que tinha que trabalhar. Tanto que, quando as armas estavam nas m\u00e3os dele, o escritor, eu recueei. O TPN fechou e ficou muito claro na minha cabe\u00e7a que eu tinha que trabalhar na contrarregra. Que era, na hora, continuar na luta da igreja, mas dar a Hermilo o tempo melhor que ele pudesse ter para escrever. Porque a literatura era a arma dele para denunciar, para protestar, para refor\u00e7ar, para resistir. Eu fui dar condi\u00e7\u00f5es para ele viver e realizar isso, at\u00e9 ele partir. <\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea fez sacrif\u00edcios?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o. Ren\u00fancia, nenhuma. Era op\u00e7\u00e3o mesmo. Quando ele foi embora&#8230;teatro. \u00c9 dif\u00edcil a gente dizer o que eu sinto, senti. Porque pode parecer esnobismo, mas n\u00e3o \u00e9 n\u00e3o. A experi\u00eancia de teatro no TPN era uma experi\u00eancia plena de vida, de religi\u00e3o, pra quem tinha, diversas religi\u00f5es, tinha judeu, evang\u00e9lico, cat\u00f3licos e tinha ateus, mas todos habitados por um compromisso muito grande. Ent\u00e3o a gente se irmanava. Tinha vezes que a bilheteria ia para uma pessoa que a gente at\u00e9 anunciava. A gente est\u00e1 ajudando a fam\u00edlia de fulano, que \u00e9 um preso pol\u00edtico. A gente fazia como instrumento de den\u00fancia. L\u00e1 a gente denunciava tudo. A minha rela\u00e7\u00e3o com Hermilo \u00e9 a todo momento, verbalizo, at\u00e9 me divertindo com ele. Mas \u00e9 muito mais de dentro pra dentro, de cabe\u00e7a pra cabe\u00e7a, de reflex\u00e3o, que a vida \u00e9 t\u00e3o r\u00e1pida, que devora tanto a gente, que eu tenho que parar, dar um freio de arruma\u00e7\u00e3o e ficar sozinha com ele, vendo as besteiras que eu fiz ou acertos. Ele continua sendo o meu fio de prumo. E continuando sendo ajudada por todo esses grupos com os quais eu convivo. Muitos j\u00e1 se foram. Ent\u00e3o, olhar para o futuro, eu n\u00e3o tenho futuro. Assim, projeto com data marcada, com tempo, n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Mas voc\u00ea \u00e9 muito ocupada&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9. O meu m\u00e9dico diz: &#8220;voc\u00ea vai ter que andar mais devagar&#8221;. Eu levei um bando de queda. A\u00ed fui a um neurologista que continua me acompanhando. Ele disse assim: &#8220;Leda, d\u00e1 uma volta at\u00e9 ali e volta. E porque voc\u00ea andou t\u00e3o apressada?&#8221; &#8220;E eu andei apressada?&#8221; &#8220;Andou! Agora voc\u00ea tem que fazer as coisas devagar, voc\u00ea tem que ter outro ritmo de vida, pra voc\u00ea n\u00e3o atropelar o seu sistema circulat\u00f3rio&#8221;. Mas isso se choca com uma certa pressa que eu tenho para concluir alguns projetos. Principalmente quando nas minhas m\u00e3os afirmou-se e firmou-se uma gestora p\u00fablica. Como reflex\u00e3o desse peda\u00e7o da minha caminhada profissional, em todos tenho exercido a gest\u00e3o p\u00fablica. Coerente com as coisas que eu penso, que me ensinaram, que eu descobri, que eu tento viver, eu sou uma servidora p\u00fablica. N\u00e3o gosto de funcion\u00e1ria p\u00fablica n\u00e3o, porque \u00e9 bastante desmoralizante. Sou uma servidora p\u00fablica. E em todas as vezes que tive o poder nas m\u00e3os&#8230;come\u00e7ou com o carnaval. Eu trabalhava como comentarista pela Universit\u00e1ria, de ch\u00e3o, de passarela, dos desfiles das agremia\u00e7\u00f5es. Que s\u00f3 existia isso no carnaval do Recife. Eu e Evandro Rabelo. A gente ficava atr\u00e1s das arquibancadas esperando e eu via o sofrimento das agremia\u00e7\u00f5es daqui sendo esmagadas pelo poder das escolas de samba e pelos pol\u00edticos. Eram pol\u00edticos assim, determinando quem entra, quem n\u00e3o entra, o tempo. &#8220;Vamos, passem, passem, voc\u00eas s\u00f3 t\u00eam dez minutos&#8221;. E a escola de samba, que oferecia ao pol\u00edtico um n\u00famero muito grande de participantes, centenas, milhares, era diferente de um clube de frevo. Mesmo o Clube das P\u00e1s, que naquela \u00e9poca vinha com 200, 300 pessoas. Na cabe\u00e7a do pol\u00edtico isso n\u00e3o interessava. Eu saia cada noite mais indignada. E sem eu saber o que vinha logo, eu dizia: no dia que eu puder, eu vou ajudar esse povo aqui, tem que mudar. Logo depois, eu fiz campanha de Jarbas e depois doutor Arraes assumiu e eu fui trabalhar na Fundarpe, como chefe de gabinete. Foi o primeiro emprego p\u00fablico, trazido como resultado da minha participa\u00e7\u00e3o em campanhas pol\u00edticas. A\u00ed Jarbas mandou me chamar para eu assumir a Funda\u00e7\u00e3o de Cultura e eu disse que de jeito nenhum, &#8220;tenho compromisso com doutor Arraes&#8221;. Era tudo muito dif\u00edcil, n\u00e3o tinha dinheiro nenhum. Ele me perguntou quanto eu ganhava. Lembro que era uma propor\u00e7\u00e3o de 3 para 300. Na me lembro exatamente. Mas eu disse: isso n\u00e3o me demove. Dois dias depois, um s\u00e1bado, eu tava com visita em casa, a gente bebeu e acabou o almo\u00e7o eu fui tirar minha soneca. &#8220;Maria, \u00e9 cama, n\u00e3o me chame para ningu\u00e9m&#8221;. Doutor Arraes telefona. &#8220;Eu queria falar com Leda&#8221;. &#8220;Dona Leda est\u00e1 dormindo&#8221;. &#8220;Quem \u00e9?&#8221; &#8220;\u00c9 Miguel Arraes&#8221;. &#8220;O governador?&#8221; &#8220;\u00c9. Chame?&#8221; &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o vou chamar, n\u00e3o tenho ordem&#8221;. Quando acordei seis horas da noite, ela me disse. Eu liguei no domingo e ele me disse que precisava que eu assumisse a Funda\u00e7\u00e3o de Cultura. Era uma coisa com tanta seguran\u00e7a que eu n\u00e3o perguntei porque. Era Maximiniano Campos que tinha sido o intermedi\u00e1rio. Depois fui a Jarbas, disse que aceitava e aceiei. Na minha posse foi tanto carnavalesco. A\u00ed eu disse, sabe de uma coisa, aquilo que eu senti naquela hora, eu vou colocar em pr\u00e1tica. A\u00ed criei uma comiss\u00e3o de carnaval.  Era um representante de cada agremia\u00e7\u00e3o e Funda\u00e7\u00e3o Joaquim Nabuco, e comiss\u00e3o pernambucana de folclore. Dei o mesmo tempo das agremia\u00e7\u00f5es, o mesmo cach\u00ea, das agremia\u00e7\u00f5es de samba para as de frevo. E tudo era muito discutido. Ia pra frente, ia para tr\u00e1s. Mas quem passa por pastoral, n\u00e3o pode marcar prazo para nada. Porque tanto fazia a gente numa reuni\u00e3o avan\u00e7ar tr\u00eas pontos e na outra reuni\u00e3o a gente recuava dez. Mas caminhou e no carnaval estava tudo resolvido por eles. E pela primeira vez eles tiveram voz e aquilo confirmava que o poder serve \u00e9 para servir e, no caso, servir a eles. Essa foi uma pr\u00e1tica testada e me deu muita maturidade por dentro. Foi por isso que eu n\u00e3o tive desvios no caminho. <\/p>\n<p><strong>E as pessoas n\u00e3o sabem que voc\u00ea tamb\u00e9m teve e tem um papel importante para os maracatus&#8230;<\/strong><br \/>\nUm domingo por m\u00eas eu passo em Alian\u00e7a, na sede dos maracatus. Tenho alegria imensa em v\u00ea-los cidad\u00e3os. Eles t\u00eam curso na associa\u00e7\u00e3o. Come\u00e7ou com curso de bordado, pago pela Chesf, e a\u00ed \u00e9 quando eu digo, como eu tinha muito prest\u00edgio, tinha que usar para isso. Da\u00ed em diante, a associa\u00e7\u00e3o se credibilizou e eles t\u00eam o maior respeito por Salu e depois de Salu. Eles financiaram cursos de bordados, as golas maravilhosas, de instrumentos musicais. Depois cursos nesse mundo dos neg\u00f3cios, porque aquelas certid\u00f5es s\u00e3o um horror para eles, que pegam no bordado, fazem coisas lindas, mas com a caneta n\u00e3o conseguem. Salu, a m\u00e3o ia pra l\u00e1, a m\u00e3o ia pra c\u00e1, mas fazia coisas maravilhosas. E hoje eles est\u00e3o dominando a inform\u00e1tica. Eu sou analfabeta virtual e eles sabem, sabem o suficiente para entrar nesse mundo, e agora eles est\u00e3o se preparando para os editais. Cach\u00ea, eu j\u00e1 briguei com muito prefeito, que humilhava o maracatu, para pagar porcaria de R$ 50. Ningu\u00e9m recebe mais isso n\u00e3o. Eles vieram participar do carnaval do Recife h\u00e1 pouco tempo. Eles s\u00e3o notados pela pontualidade. Brincavam de armas, n\u00e3o brincam mais. Deixar de beber, eu n\u00e3o sou doida a aconselhar ningu\u00e9m a n\u00e3o de beber. Brincar como brincam, como fome e sem beber? Cada grupo \u00e9 um peda\u00e7o da minha fam\u00edlia. Naquele dia da homenagem em Alian\u00e7a, eu fiquei plena. Se eu fosse embora naquele dia, eu tinha colocado um ponto na minha vida com muita alegria por eu ver que aquilo era verdade, por eu ver que valeu a pena a caminhada naquele sentido. Por eu ver que eles s\u00e3o cidad\u00e3os.<\/p>\n<p><strong>Foi voc\u00ea quem levou Mestre Salu para a Prefeitura de Olinda ou foi a Fundarpe?<\/strong><br \/>\nPara a Fundarpe. Para ser meu assessor de cultura. Mas n\u00e3o era pra ficar l\u00e1 dentro n\u00e3o. V\u00e1 se embora, pegue o meu carro, vai ganhar di\u00e1ria. Fui quase processada pelos arquitetos e engenheiros porque estava dando a mesma di\u00e1ria para eles e para um analfabeto. Eu coloquei tudo na mesa e disse e mostrei como a cultura de Salu, eles eram tamb\u00e9m analfabetos na cultura de Salu. Ent\u00e3o esse neg\u00f3cio \u00e9 muito relativo. Vou continuar pagando a mesma di\u00e1ria. A\u00ed ele foi, ressuscitar quem estava morto, fortificar quem estava doente. A primeira reuni\u00e3o que eu tive com eles, eles eram nove maracatus. Hoje, s\u00e3o 105. Agora, isso h\u00e1 20 anos. \u00c9 lento o trabalho. Mas forte e muito robusto. E a\u00ed fui, disse, ele tem que ter algum reconhecimento oficial desse neg\u00f3cio. Preparei um dossi\u00ea com depoimentos de pessoas como N\u00f3brega, Ariano. A\u00ed organizei e encaminhei para o conselho estadual de Cultura, para o reconhecimento como mestre da cultura popular. Demorou um ano, foi pra frente, pra traz. Mas saiu e eu disse: &#8220;Doutor n\u00e3o \u00e9 n\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 a sua estrada. Voc\u00ea \u00e9 um mestre, mais do que chama que canta, \u00e9 o mestre da cultura popular&#8221;. Ele encontrou na prefeitura de Olinda por Germano Coelho, como gari. E ainda hoje o sal\u00e1rio, a pens\u00e3o, dele \u00e9 de gari, apesar dele ter passado para professor da cultura popular nas escolas.<\/p>\n<p><strong>Leda, voc\u00ea falou de fam\u00edlia. N\u00e3o se arrepende de n\u00e3o ter tido filhos?<\/strong><br \/>\nEu quis muito! Abortei cinco vezes. Eu penso sempre que eu teria um filho j\u00e1 de 30 anos. A gente pensava que n\u00f3s dois dar\u00edamos \u00f3timas condi\u00e7\u00f5es para uma pessoa se desenvolver, de descobrir seu caminho. Provavelmente, ai era eu que dizia, no campo da cultura. Porque Hermilo, dentro de casa, eu. Iria ser um ator, compositor. Mas perdi. Com a for\u00e7a que eu queria, eu expulsava. Ai depois eu compreendi: eita, se eu tivesse filhos, eu n\u00e3o teria tido condi\u00e7\u00f5es de fazer isso; de aliviar o peso de Hermilo, pra que ele pudesse fazer coisas mais importantes para o povo, para a cidade, para o teatro. Quando eu tomei a contrarregra das coisas era muito isso. Eu dizia: se eu tivesse filho, n\u00e3o poderia estar fazendo isso. Mas esses tamb\u00e9m s\u00e3o mecanismos que a gente tira da gente para poder enfrentar a aus\u00eancia. Mas claro que se eu tivesse um filho de Hermilo ou uma filha, eu estava muito &#8220;plenificada&#8221;. Com todo o otimismo que eu tenho que seria uma pessoa do bem.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea se sente livre?<\/strong><br \/>\nA maternidade foi um neg\u00f3cio que atrapalhou o meu pacote de mulher. Mas no outro pacote da mulher, como mulher, me sinto completamente livre. Hermilo me encontrou na vida com todos os preconceitos sexuais e com todas as emo\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es dentro de mim sofrendo como um pecado. A puberdade foi muito complicada para mim e eu n\u00e3o tinha com quem dividir. Depois, me lembro a primeira vez que Hermilo disse buceta. Eu disse, &#8220;Hermilo, n\u00e3o diga esse nome n\u00e3o para mim&#8221;. Ele n\u00e3o tinha apelido. Cada coisa com o seu nome, com uma suavidade, com um romantismo. E eu me fiz nisso. Ele brincava com os amigos. Dizia: &#8220;olhe, vagina \u00e9 uma xoxota doente&#8221;. Eu acho essa defini\u00e7\u00e3o maravilhosa. Porque ningu\u00e9m deve dizer no ato de amor: a sua vagina \u00e9 gostosa. Isso \u00e9 para quem est\u00e1 doente e vai para o m\u00e9dico. Ele tinha uma afetividade muito livre, ele amava o homem, a mulher, no sentido pleno da palavra. Despertava paix\u00f5es, era muito afetuoso. Ele tinha um fasc\u00ednio pessoal muito grande. Mas n\u00e3o era garanh\u00e3o, galinha, n\u00e3o, n\u00e3o era n\u00e3o. Quando ele amava uma mulher, ele era s\u00f3 dessa mulher. Isso eu vi porque com D\u00e9bora ele era assim e depois comigo. Eu n\u00e3o tinha ci\u00fames. \u00c0s vezes eu tinha uma reuni\u00e3o de cinco homossexuais, homens, falando da paix\u00e3o por Hermilo e eu junto, feito corna. Eles falando da paix\u00e3o que sentiam por ele, da atra\u00e7\u00e3o, do dom\u00ednio que Hermilo exercia sobre o esp\u00edrito deles. Era uma coisa que n\u00e3o tinha a dimens\u00e3o normal isso, de jeito nenhum. Eu fui quebrando, nunca rompidas, mas fui quebrando as minhas correntes. Nunca tive experi\u00eancia homossexual. Tive as naturais da juventude, da puberdade. Mas n\u00e3o tem problema nenhum. Se acontecesse, eu n\u00e3o teria problema nenhum. J\u00e1 tive pessoas que vieram me falar de sentimentos. N\u00e3o me choquei, fiquei zangada, nada disso! &#8220;Eu compreendo, mas minha prefer\u00eancia \u00e9 outra, acho que n\u00e3o vou ser fiel para voc\u00ea&#8221;. Ent\u00e3o, nesse campo, aprendi tamb\u00e9m com Hermilo. Por isso eu digo que eu fui predestinada para encontrar Hermilo na minha hora de mulher. Porque eu n\u00e3o tenho preconceito nenhum. Aprendi com ele que, quando duas pessoas querem, nada \u00e9 imoral. Ent\u00e3o, n\u00e3o tem nada de certo, n\u00e3o \u00e9 certo. O que \u00e9 certo? Agora, se voc\u00ea pega na minha m\u00e3o sem eu querer, eu j\u00e1 me arrepio.<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea acha da liberaliza\u00e7\u00e3o das drogas?<\/strong><br \/>\nMaconha&#8230;nunca fumei n\u00e3o&#8230;pera\u00ed&#8230;parece que eu puxei uma vez&#8230;mas, n\u00e3o tive nada. Tamb\u00e9m, eu n\u00e3o trago! A gente pensava um dia em experimentar, mas depois ele adoeceu, n\u00e3o fizemos n\u00e3o. A maconha..conhe\u00e7o gente que todo dia puxa o seu fuminho, inclusive com a mulher, e desanuvia, cria melhor. Agora as outras drogas, eu acho que tem que se combater. Porque o efeito delas \u00e9 de fim. Destr\u00f3i o seu n\u00facleo e te d\u00e1 uma felicidade muito, muito ef\u00eamera, porque leva voc\u00ea para o fim. Acho que deveria haver muito esclarecimento, n\u00e3o era p\u00e2nico n\u00e3o, nas escolas, sobre a forma\u00e7\u00e3o da coca\u00edna, do crack, desse novo..oxi. Pelo caminho da forma\u00e7\u00e3o, as pessoas deixarem. Mas o m\u00e9todo de voc\u00ea desistir, a\u00ed eu n\u00e3o sei. Se \u00e9 privar. Mas \u00e9 triste voc\u00ea ver um menino, como eu conhe\u00e7o, um menino lindo, um g\u00eanio do viol\u00e3o, j\u00e1 est\u00e1 perdido. Fui a uma audi\u00e7\u00e3o e ele saiu tr\u00eas vezes para o banheiro para cheirar. O nariz j\u00e1 estava irritado. E a gente sabendo que esse menino est\u00e1 encurtando a vida dele rapidamente. E o que ele fazia no viol\u00e3o&#8230;isso a\u00ed faz pena.<\/p>\n<p><strong>E sobre o aborto?<\/strong><br \/>\nPrimeiro, a Igreja n\u00e3o tem que condenar ou n\u00e3o. \u00c9 uma coisa de foro \u00edntimo. Quando a gravidez se processa por um estupro, n\u00e3o tem nem o que se dizer. N\u00e3o \u00e9 feito o louco do Dom Jos\u00e9 (Cardoso Sobrinho), que foi excomungar, at\u00e9 a menina que \u00e9 Secret\u00e1ria da Mulher, Cristina (Buarque), foi excomungada. Imagina, se ele tem poderes diante de Deus para fazer isso! Agora, tudo \u00e9 preciso muita forma\u00e7\u00e3o. Porque essa juventude que tem tanto m\u00e9todo para evitar gravidez. Sou do tempo que camisinha, eu ouvi falar quando os americanos invadiram aqui, para fazer base, porque elas apareciam na praia de Boa Viagem. Nos anos 50, na guerra. Aqui tinha muita recifense que engravidou de americano. E os brasileiros n\u00e3o quiseram mais nem v\u00ea-las. Tinham tr\u00eas irm\u00e3s que eram doidas pelos americanos, eram as irm\u00e3s Coca cola. Todo mundo no Recife sabia disso. Ent\u00e3o na praia de Boa Viagem tinha tanta camisinha. Eu ainda peguei uma, fazia bola, eu sabia l\u00e1 o que era. Depois meu irm\u00e3o, com muito mist\u00e9rio, me disse, mas dizendo que era uma coisa imoral. Mas hoje se ensina nas televis\u00f5es, nas novelas. Ent\u00e3o hoje voc\u00ea engravida por incompet\u00eancia, do rapaz, da mo\u00e7a. Ent\u00e3o essa gravidez incompetente, quando n\u00e3o tem problema, \u00e9 duro. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil dizer n\u00e3o. <\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Celso Martinez Corr\u00eaa esteve duas vezes recentemente aqui no Recife. Voc\u00ea foi v\u00ea-lo?<\/strong><br \/>\nFui a um e acho o seguinte: ele tem uma obsess\u00e3o sexual doentia, doentia. O teatro brasileiro j\u00e1 passou o tempo do nu, j\u00e1 passou o tempo dos homossexuais se afirmarem, de despirem, viverem emo\u00e7\u00f5es, experi\u00eancias amorosas, sexuais. Isso j\u00e1 est\u00e1 velho. Porque a televis\u00e3o j\u00e1 trouxe tudo isso pra gente. O p\u00fablico que poderia n\u00e3o gostar, j\u00e1 se acostumou. Mas o Z\u00e9 Celso, pela bagagem intelectual que ele tem, ele avan\u00e7a numas concep\u00e7\u00f5es c\u00eanicas, ele avan\u00e7a muito, ele envolve a gente. \u00c9 novo, muita coisa. Mas n\u00e3o vejo arte em voc\u00ea se masturbar assim. Isso \u00e9 gratuito, grotesco, n\u00e3o envolve o belo. Ent\u00e3o eu fui e depois n\u00e3o fui mais. Fui ver <em>Os Sert\u00f5es<\/em>. Depois, ele \u00e9 contundente; e isso empobrece. N\u00e3o que o sexo empobre\u00e7a, mas \u00e9 como se qualquer autor que s\u00f3 bate naquela tecla, de coisas j\u00e1 velhas. Porque ele na d\u00e1 uma nova face para o sexo, ele n\u00e3o d\u00e1 uma nova leitura para o sexo. Eu conhe\u00e7o uma mo\u00e7a que estava sentada na plateia, foi chamada e se masturbou. E pode? Pode. Voc\u00ea pode todinha, o dia todo, pode at\u00e9 se machucar. Mas isso \u00e9 uma coisa de muita intimidade. A n\u00e3o ser que voc\u00ea queira uma coisa coletiva e a\u00ed voc\u00ea vai para uma suruba e ali voc\u00ea faz tudo, tudo \u00f3timo. Mas voc\u00ea me tira cruamente de uma plateia e me envolve num neg\u00f3cio. Eu acho de uma insist\u00eancia, como se o sexo fosse o n\u00facleo da gente, e n\u00e3o \u00e9. Porque \u00e9 uma coisa muito fal\u00edvel. Porque se o seu est\u00f4mago n\u00e3o estiver bem, voc\u00ea nem trepa, nem transa, que n\u00e3o tem vontade. Se voc\u00ea est\u00e1 com a unha do p\u00e9 inflamada, chateada, com dor de cabe\u00e7a. Ent\u00e3o acho que ele tem tanto talento pra debater tantos assuntos importantes para a humanidade. N\u00e3o \u00e9 intelectual n\u00e3o. \u00c9 que a gente saia dali, sabendo, se sentindo mais comprometida. Porque quem faz a hist\u00f3ria somos n\u00f3s. Ningu\u00e9m pode tirar f\u00e9rias da vida. E Z\u00e9 Celso ele se apequena quando ele insiste nesse neg\u00f3cio do sexo, como se a gente fosse isso somente. A gente \u00e9 isso e coisas muito maiores. Ent\u00e3o quem n\u00e3o tiver com ere\u00e7\u00e3o, n\u00e3o faz nada. Quem n\u00e3o estiver com desejo&#8230; E n\u00e3o \u00e9! A gente sabe disso. Eu, com 80 anos, n\u00e3o tenho o sistema circulat\u00f3rio de 50 anos, mas n\u00e3o me tolhe uma por\u00e7\u00e3o de coisas.<\/p>\n<p><strong>Qual a fun\u00e7\u00e3o do teatro hoje?<\/strong><br \/>\nTeatro j\u00e1 foi um grande instrumento de luta, foi usado para protestos, para ganhos sexuais. J\u00e1 prestou muito servi\u00e7o para a sociedade, debatendo assuntos. Al\u00e9m de ser um celeiro de despertar de talentos.<\/p>\n<p><strong>Tem algum arrependimento? Pediria desculpas para algu\u00e9m?<\/strong><br \/>\nNada que destrua ou traga mal para as pessoas. As coisas que eu poderia fazer melhor s\u00e3o fruto da minha impaci\u00eancia, diante da a\u00e7\u00e3o, da condu\u00e7\u00e3o das coisas. Mas nunca tra\u00ed ningu\u00e9m. Mas essa impaci\u00eancia me leva, \u00e0s vezes, a n\u00e3o tratar, com a devida paci\u00eancia, delicadeza, as pessoas. Nisso, eu me policio muito porque, como diz o poeta, essa pressa minha quebra o verso, atropela o verso. Ter encontrado Hermilo antes na vida&#8230;foi na hora certa. Porque se fosse como era antes, Hermilo nem me notava, passava despercebida pra ele.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea fez muitos desafetos? Inimizades?<\/strong><br \/>\nClaro que eu cometi erros, acho at\u00e9 que pedi desculpas algumas vezes, outras n\u00e3o tive oportunidade, mas nada que chegue a sacrificar uma pessoa. E os inimigos que eu criei ao longo do exerc\u00edcio dessas fun\u00e7\u00f5es de gest\u00e3o, n\u00e3o foram inimigos, foram pessoas que tiveram m\u00e1goas porque foram preteridas. Geralmente \u00e9 coisa dessa competi\u00e7\u00e3o que a vida joga na gente. Essa besteira, desses 80 anos, tanta gente me disse: &#8220;n\u00e3o me mandou. Eu n\u00e3o fui, notou que eu n\u00e3o fui? N\u00e3o recebi&#8221;. Ent\u00e3o s\u00e3o essas coisas que fazem parte da caminhada. N\u00e3o me arrependo de ter esperado nove anos para que Hermilo pudesse ficar, de certa maneira, livre porque eu tamb\u00e9m penso que, nesses nove anos, que eu me comprometi com ele, me guardei, at\u00e9 ele voltar, chegar, tamb\u00e9m me enriqueceram muito. Fica dentro de mim: ser\u00e1 que quando eu perdi o primeiro filho de Hermilo, eu tinha 36, por a\u00ed. Ser\u00e1 que se eu tivesse ido viver com Hermilo aos 27, 28 anos, eu estaria em condi\u00e7\u00f5es do meu \u00fatero receber meu filho? Era o \u00fatero, viu? Cabra safado. Quando eu tirei o \u00fatero h\u00e1 uns oito anos atr\u00e1s, o m\u00e9dico disse: &#8220;tire, jogue no lixo essa porcaria. Ele \u00e9 respons\u00e1vel por cinco abortos, incompetente&#8221;. Porque eu engravidava, n\u00e9? Mas ele n\u00e3o segurava o ovo, soltava. Ent\u00e3o, talvez, dentro de mim, eu tenha isso. Se eu for cascavilhar, eu encontro. Ah, seu eu tivesse ido viver com Hermilo antes, eu estaria bem mais jovem. Porque o \u00faltimo filho que eu perdi, eu j\u00e1 estava com 44 anos, um ano antes de ele morrer. Ent\u00e3o, dentro de mim, existem essas coisas, muito poucas. Eu n\u00e3o tenho ningu\u00e9m com quem eu n\u00e3o fale, eu tenho &#8220;algu\u00e9ns&#8221;, que n\u00e3o gostar\u00e3o de falar comigo. Ent\u00e3o, eu passo assim&#8230;Mas \u00e9 mais pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Sua trajet\u00f3ria de atriz foi curta?<\/strong><br \/>\nEla foi plena, na medida do poss\u00edvel, na minha vida. Eu tive uma forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria. Encontrei alguns caminhos. N\u00e3o tive um professor que fosse cabra safado. Todo mundo competente, inteligente, culto. Completamente envolvidos com o teatro. Ent\u00e3o isso \u00e9 um privil\u00e9gio. Eu tive a fina flor. Depois quando eu entrei, para estrear, como profissional, primeiro eu fui contrarregra, depois maquiadora, porque o curso n\u00e3o deixava estar no palco antes de formar. Fiz minha prova p\u00fablica no Teatro de Santa Isabel. E n\u00e3o estreei no TPN, estreei no Teatro de Arena, dirigida por Hermilo. Foi uma ocasi\u00e3o em que Gra\u00e7a Melo deixou a dire\u00e7\u00e3o, j\u00e1 estava tudo muito bem encaminhado, a\u00ed Hermilo assumiu e me disse: &#8220;agora voc\u00ea vai estrear comigo, aqui\u201d. A gente n\u00e3o tinha se declarado ainda. Mas eu j\u00e1 estava completamente decidida que o n\u00facleo da minha vida seria o teatro. Tudo me encantava, tudo. No TPN, voc\u00ea tinha curso de filosofia. Dava a voc\u00ea uma forma\u00e7\u00e3o integral e de vida. Todos os debates, tudo a gente conversava. A gente saia dali para a farra \u00e0 noite, com o mesmo entusiasmo que a gente se sentava para debater a situa\u00e7\u00e3o do Brasil. Ent\u00e3o aquilo tudo era bagagem que eu ia adquirindo. Eu n\u00e3o sou burra. E me entrego as coisas, que eu acredito. Depois o teatro, por Hermilo, mistura com a cultura popular. Ent\u00e3o eu fui me encantando com esse universo que tamb\u00e9m \u00e9 teatro. A\u00ed eu dou um pulo para o Santa Isabel. Eu relutei muito, porque era um antiteatro para o teatro que eu fazia. O teatro da gente era um teatro de tr\u00eas faces, quatro, pela pr\u00f3pria t\u00e9cnica de Hermilo. Apesar de minha prova p\u00fablica ter sido l\u00e1, eu n\u00e3o tinha nenhuma simpatia do ponto de vista da minha luta de teatro. \u00c9 um teatro burgu\u00eas, fechado. Pedi a Ada Siqueira, que veio fazer o convite em nome de Jo\u00e3o Paulo. Pedi mais uma semana para pensar. A\u00ed depois eu aceitei porque eu poderia fazer o contr\u00e1rio, eu poderia abrir o Santa Isabel para o povo vir, o pov\u00e3o, comunidades, tudo. Entrei num conv\u00eanio com a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o. Projeto Bolsa Escola, atingir at\u00e9 estudantes de 16 anos. Toda quarta-feira, \u00e0 tarde, o teatro dava o espet\u00e1culo da noite, \u00e0 tarde, para as crian\u00e7as. A\u00ed era um neg\u00f3cio maravilhoso. Entravam os pais tamb\u00e9m dos meninos. A\u00ed primeiro eu fazia uma conversa, a hist\u00f3ria do Santa Isabel. E entrava na proposta pol\u00edtica de Jo\u00e3o Paulo: isso daqui \u00e9 de voc\u00eas, os impostos que voc\u00ea paga, est\u00e1 tudo aqui dentro. O mais dif\u00edcil era que algumas empresas patrocinadoras abrirem m\u00e3o de ingressos, de cem ingressos, para a gente mandar para o or\u00e7amento participativo. Mas eu fiz muito isso. Eu me lembro de uma senhora que colocou a m\u00e3o no dourado e dizia: &#8220;Ave-Maria, eu nunca pensei que eu pudesse entrar nesse castelo&#8221;. &#8220;Pois ent\u00e3o voc\u00ea \u00e9 uma rainha, o castelo \u00e9 seu&#8221;. Trazia o lanche para comer. L\u00e1 dentro, a partir da portaria, n\u00e3o entra nem \u00e1gua, n\u00e3o entrava nada. A\u00ed ela vinha com a mochila de baixo do bra\u00e7o. A\u00ed eu disse \u201cque \u00e9 isso, minha n\u00eaga?\u201d. \u201cOxente, \u00e9 lanche\u201d. Eu disse, \u201cmas voc\u00ea n\u00e3o pode entrar com isso l\u00e1 dentro\u201d. \u201cE eu n\u00e3o lancho n\u00e3o?\u201d. \u201cLancha. Eu vou colocar nessa mesinha, garanto a voc\u00ea que quando voc\u00ea sair, vai estar aqui, voc\u00ea pega seu lanchinho e vai nessa sala aqui fora, que voc\u00ea pode comer, tem \u00e1gua\u201d. Ent\u00e3o, eu tinha 40, 50 pessoas com lanche e, no fim, ningu\u00e9m mais trazia. E se trazia, j\u00e1 colocava no cantinho. Ningu\u00e9m nunca me deu trabalho. Ningu\u00e9m vinha de roupa que n\u00e3o deveria. Porque estudante \u00e9 fogo. \u00c0 noite, n\u00e3o entra de bermuda. \u201cMenino, isso aqui \u00e9 um teatro municipal. Voc\u00ea v\u00e1 para o Rio, S\u00e3o Paulo, v\u00ea se voc\u00ea entra assim l\u00e1, v\u00e1\u201d. Com roupa de praia, cal\u00e7\u00e3o, camisa regata. Entra n\u00e3o. Isso n\u00e3o \u00e9 pobreza. Eu n\u00e3o deixava. Sand\u00e1lia havaiana nos p\u00e9s? De jeito nenhum. Consegui barateamento de ingressos. Agora, uma coisa que os produtores n\u00e3o me perdoam, \u00e9 o teatro infantil. Esse foi um calo para mim. Primeiro a gente fez. Porque ningu\u00e9m se lembra! Foi um caos. Principalmente por conta das academias, dos pais, que n\u00e3o interessa que a lota\u00e7\u00e3o \u00e9 700 lugares. Derrubaram at\u00e9 uma porta! Interessa que eu vou entrar com minha mulher, minha m\u00e3e, num sei quem. Tanto mais poderosos, mais afoitos. Era uma desordem t\u00e3o grande! Acontecia tamb\u00e9m com escola particular, uma das mais ricas daqui. A minha conversinha de antes, eles n\u00e3o queriam ouvir nada. Um gritava para o outro: &#8220;fulano, me d\u00e1 meu chiclete&#8221;. Pulavam por cima da cadeira, subiam na grade dourada das frisas. Pegaram os dois bigodes de Joaquim Nabuco e quebraram. As pinhas das escadas, arrancaram. V\u00e2ndalos. Esses j\u00e1 eram adolescentes, gente rica. Tive uma reuni\u00e3o: &#8220;ah, n\u00f3s vamos assumir e pagar&#8221;. &#8220;Isso \u00e9 pouco, o outro preju\u00edzo que o teatro teve, que a sociedade teve, que sua escola teve, e que esses meninos tiveram, n\u00e3o adianta dinheiro que pague. Voc\u00eas escandalizam a gente, saber que seus alunos, numa escola de t\u00e3o n\u00edvel, s\u00e3o capazes de fazer isso no teatro&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Mas n\u00e3o foi muito radical a sua decis\u00e3o?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o&#8230;O Teatro de Santa Isabel organizou-se pela primeira vez, depois dessa reforma \u00faltima. Seu camarim \u00e9 indevass\u00e1vel, o que voc\u00ea tem dentro do seu camarim, s\u00f3 a camareira pode entrar, como qualquer teatro profissional. Caiu o bot\u00e3o, tem quem conserte. \u00c9 responsabilidade do teatro. Os banheiros, n\u00e3o faltava papel, tudo cheiroso, em ordem. O teatro infantil, vamos pensar, no domingo de manh\u00e3 e no s\u00e1bado \u00e0 tarde, n\u00e3o h\u00e1 tempo para se preparar a parte de dentro do teatro, para os espet\u00e1culos que v\u00e3o acontecer \u00e0 noite. Tirar, desocupar um camarim, e infantil \u00e9 muita gente. Esse material que voc\u00ea desaloja&#8230;no Teatro do Parque n\u00e3o..fica pelos corredores, colocam tudo em cima de cadeira, que voc\u00ea fica trope\u00e7ando nas coisas. L\u00e1 eu n\u00e3o deixo. Fora dos camarins, s\u00f3 vamos dizer, bal\u00e9s grandes, que vem 100 pessoas, 200. Colocam nas araras, perto do camarim. A\u00ed ocupa aquelas \u00e1reas. Mas o resto n\u00e3o! Ent\u00e3o eu fiz o projeto e lutei at\u00e9 o fim. E levei, apresentei ao secret\u00e1rio Peixe (Jo\u00e3o Roberto Peixe). Eu tinha que ter outro grupo para infra-estrutura, para varrer as plateias, passar limpeza nos banheiros, limpar os tapetes, os corredores do teatro, o sagu\u00e3o, para a plateia e o povo. Significava uma despesa de R$ 1 mil para a gente cobrar aos grupos. Voc\u00ea imagina se tinha aqui algum grupo de teatro infantil que pudesse pagar um aluguel de R$ 1 mil? N\u00e3o tinha a menor possibilidade! E a Prefeitura n\u00e3o ia bancar esse extra. <\/p>\n<p><strong>A secret\u00e1ria entra na sala e diz que ela n\u00e3o se preocupe, que a fam\u00edlia j\u00e1 est\u00e1 almo\u00e7ando. Que ela pode chegar para a sobremesa. &#8211; E diab\u00e9tico come sobremesa? Me desculpe, minha gente, temos que encerrar. Pollyanna insiste na pergunta: &#8220;mas voc\u00ea n\u00e3o sente falta dos palcos?&#8221; <\/strong><br \/>\nEita! \u00c9..eu n\u00e3o respondi! Bom, eu me lembro de uma frase que \u00c9rica, do ballet Stagium, estava sentada do meu lado e o bal\u00e9 apresentando. Ela de lado. Ela levou umas quedas, operou e n\u00e3o podia dan\u00e7ar. Eu tinha o exemplo de Mestre Salu, que adoeceu de Doen\u00e7a de Chagas e n\u00e3o podia mais brincar. Ele ficava s\u00f3 com o apito na boca, pra ter a impress\u00e3o de que est\u00e1 coordenando tudo. E perguntei a essa bailarina se ela n\u00e3o sentia falta de dan\u00e7ar. Ela me respondeu: &#8220;mas eu estou dan\u00e7ando&#8221;. \u00c9 a mesma coisa comigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leda Alves sempre teve pressa. Por justi\u00e7a na desequilibrada sociedade brasileira. Por mais solidariedade em tempos em que a intoler\u00e2ncia religiosa torna os humanos estranhos entre si. Por resultados eficientes na pregui\u00e7osa m\u00e1quina p\u00fablica. Nascida Leoc\u00e1dia Alves da Silva, em 17 de junho, ela completa hoje 80 anos de uma vida intensa. 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