{"id":28164,"date":"2026-09-10T10:02:32","date_gmt":"2026-09-10T13:02:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=28164"},"modified":"2026-09-10T10:02:32","modified_gmt":"2026-09-10T13:02:32","slug":"ato-le-sortilegio-misterio-negro-abdias-nascimento-e-o-legado-do-ten-por-ivana-moura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/ato-le-sortilegio-misterio-negro-abdias-nascimento-e-o-legado-do-ten-por-ivana-moura\/","title":{"rendered":"ATO l\u00ea Sortil\u00e9gio &#8211; Mist\u00e9rio Negro: <\/br> Abdias Nascimento e o legado do TEN  <\/br> Por Ivana Moura"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_28170\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Editedimage_1788897517884-e1789045243267.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28170\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28170\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Editedimage_1788897517884-e1789045243267.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"800\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28170\" class=\"wp-caption-text\">O ATO realiza leituras mensais de pe\u00e7as cl\u00e1ssicas e contempor\u00e2neas. Foto: Jonas Ara\u00fajo \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_28169\" style=\"width: 609px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Lea-Garcia-e-Abdias-Nascimento-na-peca-Sortilegio-Misterio-Negro.-Teatro-Municipal-do-Rio-de-Janeiro-1957-ACERVO-IPEAFRO-e1788977663312.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28169\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28169\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Lea-Garcia-e-Abdias-Nascimento-na-peca-Sortilegio-Misterio-Negro.-Teatro-Municipal-do-Rio-de-Janeiro-1957-ACERVO-IPEAFRO-e1788977663312.jpeg\" alt=\"\" width=\"599\" height=\"841\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Lea-Garcia-e-Abdias-Nascimento-na-peca-Sortilegio-Misterio-Negro.-Teatro-Municipal-do-Rio-de-Janeiro-1957-ACERVO-IPEAFRO-e1788977663312.jpeg 599w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Lea-Garcia-e-Abdias-Nascimento-na-peca-Sortilegio-Misterio-Negro.-Teatro-Municipal-do-Rio-de-Janeiro-1957-ACERVO-IPEAFRO-e1788977663312-214x300.jpeg 214w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Lea-Garcia-e-Abdias-Nascimento-na-peca-Sortilegio-Misterio-Negro.-Teatro-Municipal-do-Rio-de-Janeiro-1957-ACERVO-IPEAFRO-e1788977663312-300x421.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 599px) 100vw, 599px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-28169\" class=\"wp-caption-text\">L\u00e9a Garcia e Abdias Nascimento na montagem de 1957 da pe\u00e7a <em><strong>Sortil\u00e9gio &#8211; Mist\u00e9rio Negro. <\/strong><\/em>ACERVO IPEAFRO<\/p><\/div>\n<p>Todo m\u00eas, um grupo de artistas ocupa um espa\u00e7o do Recife (galeria, museu, academia, torre, mercado) para ler um texto em voz alta, diante de quem quiser ouvir. \u00c9 uma escolha deliberada de simplicidade, sem palco elevado, sem bilheteria. O espa\u00e7o \u00e9 o cen\u00e1rio; os figurinos se resolvem com solu\u00e7\u00f5es descomplicadas. Talvez seja a\u00ed, nessa redu\u00e7\u00e3o ao essencial, que mora a pot\u00eancia: a palavra, a voz, o corpo de quem l\u00ea, o ouvido e o corpo de quem escuta. Esse \u00e9 o <strong>ATO<\/strong>, projeto independente de leituras dramatizadas, do ATO Teatro, criado em 2025 pelo cineasta e escritor Felipe Andr\u00e9 Silva ao lado da atriz e produtora Ra\u00edza Rameh, organizado de forma horizontal por um elenco fixo. Mais de um ano de edi\u00e7\u00f5es mensais e gratuitas. Neste m\u00eas, a leitura acontece no Museu da Aboli\u00e7\u00e3o, e a palavra escolhida \u00e9 a de Abdias Nascimento: <strong><em>Sortil\u00e9gio &#8211; Mist\u00e9rio Negro<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>No <em><strong>ATO<\/strong><\/em> de Setembro, Emanuel rejeita a ancestralidade para alcan\u00e7ar a ascens\u00e3o social. Nesse caminho, assassina a esposa branca, Margarida, e abandona Efig\u00eania, a mulher negra que o amava e que ele renunciou por um casamento que lhe abriria as portas da sociedade. Mas a fuga o leva exatamente para onde sempre recusou ir, o terreiro de candombl\u00e9. \u00c9 ali, diante da tradi\u00e7\u00e3o que tentou apagar de si, que Emanuel \u00e9 obrigado a refazer o pr\u00f3prio caminho. Esse \u00e9 um resumo de <strong><em>Sortil\u00e9gio, Mist\u00e9rio Negro<\/em><\/strong>, texto escrito em 1951 para o Teatro Experimental do Negro (TEN), censurado dois anos depois e encenado pela primeira vez em 1957.&nbsp;<\/p>\n<p>A dramaturgia de Abdias nasce dentro do TEN, grupo que ele criou no Rio de Janeiro, em 1944, com um prop\u00f3sito que ia al\u00e9m do palco: afirmar o valor da pessoa negra e da cultura afro-brasileira num pa\u00eds que, desde a col\u00f4nia, as tratava como menores. O TEN era, nesse sentido, uma resposta direta ao Brasil que se dizia livre de preconceito; a tal democracia racial, f\u00f3rmula usada para negar o racismo enquanto ele seguia operando nas escolas, nos palcos e nas ruas.<strong>[1]<\/strong>. Nos anos 1940 e 1950, nenhuma outra frente defendeu a negritude com tamanha const\u00e2ncia quanto o TEN; no\u00e7\u00e3o cujos usos e sentidos Kabengele Munanga mapeia no estudo cl\u00e1ssico de 1988 <strong>[9]<\/strong>. Antes do TEN, os protagonistas costumavam ser atores brancos com o rosto tingido de preto; ao int\u00e9rprete negro cabiam tipos c\u00f4micos e secund\u00e1rios, acentos de ambienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O TEN n\u00e3o se limitou ao palco. Alfabetizou cerca de seiscentas pessoas, publicou o jornal <em>Quilombo<\/em>, organizou o <em>I Congresso do Negro Brasileiro<\/em> e encenou autores como Eugene O&#8217;Neill, L\u00facio Cardoso e Nelson Rodrigues, sempre com atores negros no centro da cena. Foi nesse laborat\u00f3rio que Abdias escreveu <strong><em>Sortil\u00e9gio<\/em><\/strong>, em 1951, mas pe\u00e7a ficou retida pela censura &#8211; acusada, entre outras coisas, de imoralidade &#8211; e s\u00f3 chegou ao palco em 1957, no Municipal do Rio e de S\u00e3o Paulo. <strong>[1]&nbsp;<\/strong>O texto s\u00f3 seria publicado em 1961, na antologia <em>Dramas para negros e pr\u00f3logo para brancos<\/em>, organizada pelo pr\u00f3prio Abdias <strong>[6]<\/strong>.<\/p>\n<p>Em <em>Teatro Experimental do Negro: hist\u00f3rias, cr\u00edticas e outros dramas<\/em>, Guilherme Diniz &#8211; pesquisador, professor e cr\u00edtico teatral &#8211; reafirma que o TEN foi uma &#8220;for\u00e7a est\u00e9tica e pol\u00edtica&#8221; que tensionou as estruturas do teatro nacional, um &#8220;laborat\u00f3rio de linguagem e um espa\u00e7o de autoinscri\u00e7\u00e3o negra na cena brasileira&#8221;. A obra, com pref\u00e1cio de Leda Maria Martins, questiona as historiografias dominantes que &#8220;apagaram ou diminu\u00edram&#8221; o papel decisivo do TEN na transforma\u00e7\u00e3o do panorama cultural do pa\u00eds <strong>[5]<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_28168\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/SORTILEGIO-ENSAIO-e1788977507385.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28168\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28168\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/SORTILEGIO-ENSAIO-e1788977507385.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"607\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28168\" class=\"wp-caption-text\">Em primeiro plano, Helba Nogueira, como Margarida, Abdias Nascimento como Emanuel e L\u00e9a Garcia como Efig\u00eania, na montagem de 1957 dirigida por L\u00e9o Jusi. Acervo Arquivo Nacional \/ Fundo Correio da Manh\u00e3<\/p><\/div>\n<p>O subt\u00edtulo&nbsp;<strong><em>Mist\u00e9rio Negro<\/em><\/strong> merece leitura atenta, e \u00e9 Leda Maria Martins quem melhor o destrincha, em <em>A cena em sombras&nbsp;<\/em>(1995)&nbsp;<strong>[7]<\/strong>. Ela aponta que&nbsp;<em><strong>mist\u00e9rio<\/strong>&nbsp;<\/em>evoca de imediato duas conota\u00e7\u00f5es: o culto de divindades ancestrais, sejam africanas, crist\u00e3s ou outras, e a modalidade teatral medieval, os mist\u00e9rios, \u201cem cuja tessitura se evidenciava o uso h\u00edbrido de can\u00e7\u00f5es e coros, recursos sonoros e pl\u00e1sticos variados\u201d. J\u00e1&nbsp;<em><strong>negro<\/strong>&nbsp;<\/em>carrega a m\u00edstica firmada pelas divindades e mist\u00e9rios dos ritos afro-brasileiros. \u00c9 essa mesma chave que Denise Rocha (2020) ecoa, ao ler o mist\u00e9rio medieval com significado vinculado \u00e0 religiosidade dos orix\u00e1s&nbsp;<strong>[2]<\/strong>, e que Guilherme Augusto dos Santos (2012) analisa ao tratar da dupla refer\u00eancia do adjetivo&nbsp;<strong>[3]<\/strong>.<\/p>\n<p>No conjunto, Abdias recodifica o g\u00eanero. Toma a forma do mist\u00e9rio medieval e a potencializa com a cosmogonia dos orix\u00e1s, fazendo do terreiro o templo onde o drama se desenrola. A a\u00e7\u00e3o transcorre num tempo lit\u00fargico, na virada de um r\u00e9veillon, e o desfecho \u00e9 um sacrif\u00edcio que devolve Emanuel aos seus.<\/p>\n<p>A fei\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica do drama \u00e9 estudada por Rocha&nbsp;<strong>[2]<\/strong>, que aplica o aparato aristot\u00e9lico \u00e0 trajet\u00f3ria de Emanuel: a&nbsp;<em>hamartia<\/em>&nbsp;(o erro de renegar a negritude), a cat\u00e1strofe (o assassinato de Margarida), o coro (as filhas de santo, que atuam como componentes do coro da trag\u00e9dia cl\u00e1ssica e vaticinam o destino). Rain\u00e9rio dos Santos Lima&nbsp;<strong>[4]<\/strong>, em an\u00e1lise dedicada \u00e0 segunda vers\u00e3o do texto, pondera: a pe\u00e7a foge da progress\u00e3o cl\u00e1ssica de causa e efeito, pois a morte de Margarida j\u00e1 aconteceu antes do primeiro ato, e o drama caminha para tr\u00e1s, procurando nas lembran\u00e7as de Emanuel a raiz do desastre. A posi\u00e7\u00e3o mais precisa, ent\u00e3o, \u00e9 dizer que&nbsp;<strong><em>Sortil\u00e9gio<\/em>&nbsp;<\/strong>concentra elementos de trag\u00e9dia e de tragicidade (desgra\u00e7a, fatalidade, destino) sem se filiar ao g\u00eanero estrito.<\/p>\n<p>Leda Maria Martins, em&nbsp;<em>A cena em sombras&nbsp;<\/em><strong>[7]<\/strong>, l\u00ea Emanuel como um personagem que se mascara. Quanto mais idealiza o mundo branco e rebaixa o seu, mais \u201cfaz circular um saber sobre o negro\u201d ancorado numa \u201cvis\u00e3o etnoc\u00eantrica e excludente\u201d, at\u00e9 se tornar, nas palavras da autora, \u201cemissor e reprodutor do preconceito cravado no imagin\u00e1rio social\u201d. Miriam Garcia Mendes, em&nbsp;<em>O negro e o teatro brasileiro<\/em>&nbsp;(1993)&nbsp;<strong>[8]<\/strong>, examina o desfecho como liberta\u00e7\u00e3o amb\u00edgua: ao largar de vez o figurino branco que vestia, Emanuel encontra certo al\u00edvio, afinal nunca os adotara de fato, renegava-os por dentro.<\/p>\n<p>\u00c9 a leitura de um final que Abdias escreve como&nbsp;<em>reconcilia\u00e7\u00e3o<\/em> violenta com os ancestrais. Emanuel, atravessado pela lan\u00e7a de Exu, \u00e9 devolvido \u00e0 cosmogonia que renegou. E \u00e9 aqui que o pensamento de Leda ilumina a estrutura da pe\u00e7a. O drama de Emanuel se desenrola como um tempo espiralar, o passado retorna em quadros, gira, repete, mas nunca igual, e Emanuel funciona como um corpo-tela, espa\u00e7o de inscri\u00e7\u00e3o viva das marcas do racismo <strong>[10]<\/strong>. H\u00e1 ainda a dimens\u00e3o de <strong><em>Sortil\u00e9gio II<\/em><\/strong> (1979), reescrita pelo pr\u00f3prio Abdias depois de um ano em Ile-Ife, na Nig\u00e9ria, onde se aprofundou nas religi\u00f5es dos orix\u00e1s; nela, a estrutura rememorativa se radicaliza, o que confirma que a forma, para ele, era t\u00e3o pol\u00edtica quanto o conte\u00fado [<strong>1][4]<\/strong>.<\/p>\n<div id=\"attachment_28173\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Editedimage_1788986478064-e1789037182152.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28173\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28173\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Editedimage_1788986478064-e1789037182152.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"423\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28173\" class=\"wp-caption-text\">Ra\u00edza Rameh, Kennyo Severa e Guta Menelau. Reprodu\u00e7\u00e3o do Instagram<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_28174\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Editedimage_1788985477560-e1789037308697.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28174\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28174\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Editedimage_1788985477560-e1789037308697.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"900\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28174\" class=\"wp-caption-text\">Os convidados deste m\u00eas da leitura do ATO. Reprodu\u00e7\u00e3o do Instagram&nbsp;<\/p><\/div>\n<p>No elenco deste m\u00eas, al\u00e9m dos integrantes do grupo (Ra\u00edza Rameh, Kennyo Severa e Guta Menelau), est\u00e3o os convidados Ton de Souza, Sabrina Loiola, Erique Nascimento, Kadydja Erlen, F\u00e1bio Henrique, Maddu Cabral, Aline Gomes e Andr\u00e9 Louren\u00e7o. A dire\u00e7\u00e3o \u00e9 de Kennyo Severa, ator, doutorando em Artes C\u00eanicas e pesquisador, com assist\u00eancia de Ra\u00edza Rameh. O desenho se repete a cada edi\u00e7\u00e3o: texto inteiro, com palavra e presen\u00e7a em primeiro plano.<\/p>\n<p>O formato rende ganhos reais. Aproxima dramaturgias contempor\u00e2neas e cl\u00e1ssicas de quem, em boa parte, n\u00e3o frequentaria uma sala de teatro formal. E traz limites que n\u00e3o conv\u00e9m esconder pois s\u00e3o as escolhas do grupo. N\u00e3o substitui uma montagem, n\u00e3o substitui a cena completa, s\u00e3o outras experimenta\u00e7\u00f5es. As edi\u00e7\u00f5es v\u00eam reunindo em m\u00e9dia duzentas pessoas, num teatro que se acompanha de um copo de vinho e segue reverberando. H\u00e1 quem observe que esse p\u00fablico \u00e9 majoritariamente jovem, branco e de classe m\u00e9dia, e que o fil\u00e3o que a iniciativa mais alcan\u00e7a \u00e9 o de quem j\u00e1 tem alguma familiaridade com o teatro. Nenhuma dessas observa\u00e7\u00f5es deve ser descartada, assim como nenhuma iniciativa, sozinha, d\u00e1 conta de tudo. O m\u00e9rito do projeto n\u00e3o \u00e9 resolver contradi\u00e7\u00f5es; \u00e9 seguir com const\u00e2ncia: mais de um ano de edi\u00e7\u00f5es mensais, gratuitas, sem apoio financeiro direto, financiadas pela venda de vinhos e camisas. E h\u00e1 sinais de escuta. A escolha de <strong><em>Sortil\u00e9gio<\/em><\/strong>, de Abdias Nascimento, no Museu da Aboli\u00e7\u00e3o (endere\u00e7o dedicado \u00e0 mem\u00f3ria da escravid\u00e3o e da cultura afro-brasileira) sugere um deslocamento deliberado, de repert\u00f3rio e de territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, sim, h\u00e1 o que comemorar aqui, com os olhos abertos.&nbsp;<strong>O Recife<\/strong>, que se gaba de ser o maior centro urbano em linha reta da Am\u00e9rica Latina (piada que a cidade reinventa a cada contexto), e tem muitas raz\u00f5es de orgulho,&nbsp;<strong>segue carente de pol\u00edticas culturais espec\u00edficas para as artes c\u00eanicas e de iniciativas regulares que valorizem o teatro.<\/strong> H\u00e1 espa\u00e7o, e necessidade, para muitas outras iniciativas como esta. Que venham!!! E que o ATO continue sendo, todo m\u00eas, um gesto de encontro em torno da palavra, da presen\u00e7a e dos afetos.<\/p>\n<h2>Servi\u00e7o<\/h2>\n<p>&#x1f4c5; 19 de setembro (s\u00e1bado), abertura do espa\u00e7o \u00e0s 15h, leitura \u00e0s 17h<br \/>\n&#x1f4cd; Museu da Aboli\u00e7\u00e3o, Rua Benfica, 1150, Madalena, Recife<br \/>\n&#x1f4b8; Entrada gratuita<br \/>\n&#x1f465; <strong>Elenco<\/strong>: Ra\u00edza Rameh, Kennyo Severa, Guta Menelau, Ton de Souza, Sabrina Loiola, Erique Nascimento, Kadydja Erlen, F\u00e1bio Henrique, Maddu Cabral, Aline Gomes e Andr\u00e9 Louren\u00e7o<br \/>\n&#x1f3ac; <strong>Dire\u00e7\u00e3o<\/strong>: Kennyo Severa, com assist\u00eancia de Ra\u00edza Rameh<br \/>\n&#x2139;&#xfe0f; @atoteatro | atoteatro@gmail.com<br \/>\n#AtoDeSetembro #Sortilegio #AbdiasNascimento #LeituraDramatizada #TeatroRecife #MuseuDaAbolicao<\/p>\n<h2>&#x1f4da; Refer\u00eancias<\/h2>\n<p><strong>[1]<\/strong> Nascimento, Abdias do. <em>Teatro Experimental do Negro: trajet\u00f3ria e reflex\u00f5es<\/em>. Estudos Avan\u00e7ados, 18(50), 2004, p. 209-224.<br \/>\n<strong>[2]<\/strong> Rocha, Denise. <em>Teatro Experimental do Negro: a tragicidade de um relacionamento inter-racial em Sortil\u00e9gio (1951)<\/em>. Revista Moringa (UFPB), v. 11, n. 2, 2020.<br \/>\n<strong>[3]<\/strong> Santos, Guilherme Augusto dos. <em>Sortil\u00e9gio (Mist\u00e9rio negro): a literatura dram\u00e1tica na experi\u00eancia do TEN<\/em>. VIII Congresso Internacional Orbis Tertius (UNLP), 2012.<br \/>\n<strong>[4]<\/strong> Lima, Rain\u00e9rio dos Santos. <em>Entre Exu e Ogum: pol\u00edticas do sagrado no teatro de Abdias do Nascimento<\/em>. Estudos de Literatura Brasileira Contempor\u00e2nea (UnB), 2020.<br \/>\n<strong>[5]<\/strong> Diniz, Guilherme. <em>Teatro Experimental do Negro: hist\u00f3rias, cr\u00edticas e outros dramas<\/em>. S\u00e3o Paulo: Temporal, 2025, 488 pp., pref\u00e1cio de Leda Maria Martins.<br \/>\n<strong>[6]<\/strong> Nascimento, Abdias do. <em>Dramas para negros e pr\u00f3logo para brancos<\/em>. Rio de Janeiro: TEN, 1961.<br \/>\n<strong>[7]<\/strong> Martins, Leda Maria. <em>A cena em sombras<\/em>. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 1995 (an\u00e1lise de Sortil\u00e9gio nas p. 104-105).<br \/>\n<strong>[8]<\/strong> Mendes, Miriam Garcia. <em>O negro e o teatro brasileiro<\/em>. S\u00e3o Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Arte e Cultura; Bras\u00edlia: Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares, 1993.<br \/>\n<strong>[9]<\/strong> Munanga, Kabengele. <em>Negritude: usos e sentidos<\/em>. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1988.<br \/>\n<strong>[10]<\/strong> Martins, Leda Maria. <em>Performances do tempo espiralar, po\u00e9ticas do corpo-tela<\/em>. Rio de Janeiro: Cobog\u00f3, 2021.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todo m\u00eas, um grupo de artistas ocupa um espa\u00e7o do Recife (galeria, museu, academia, torre, mercado) para ler um texto em voz alta, diante de quem quiser ouvir. \u00c9 uma escolha deliberada de simplicidade, sem palco elevado, sem bilheteria. O espa\u00e7o \u00e9 o cen\u00e1rio; os figurinos se resolvem com solu\u00e7\u00f5es descomplicadas. 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