{"id":28157,"date":"2026-09-06T13:26:13","date_gmt":"2026-09-06T16:26:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=28157"},"modified":"2026-09-06T13:50:46","modified_gmt":"2026-09-06T16:50:46","slug":"a-marca-que-o-odio-deixa-no-corpo-critica-fissura-por-ivana-moura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/a-marca-que-o-odio-deixa-no-corpo-critica-fissura-por-ivana-moura\/","title":{"rendered":"A marca que o \u00f3dio deixa no corpo <\/br> Cr\u00edtica: Fissura <\/br> Por Ivana Moura"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_28159\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-02-at-18.25.22-e1788697190360.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28159\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28159\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-02-at-18.25.22-e1788697190360.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28159\" class=\"wp-caption-text\">No solo de Pedro Vilela, a xenofobia e a extrema-direita portuguesas viram mat\u00e9ria de cena. <strong>E a conversa depois do espet\u00e1culo prova que a fissura \u00e9 coletiva.<\/strong>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong>Pedro Vilela<\/strong> apresentou no Recife a pe\u00e7a que conta por que migrou para Portugal. Na primeira das duas noites no Teatro Hermilo Borba Filho, 1\u00ba de setembro, cerca de 40 pessoas ocuparam a arquibancada. Antes de come\u00e7ar, ele disse que <strong>\u00e9 um artista do Recife<\/strong>, que algo interno e externo o obrigara a migrar em 2019. A declara\u00e7\u00e3o enquadrava tudo o que viria: o solo <em><strong>Fissura<\/strong><\/em>, sobre a xenofobia e a extrema-direita em Portugal, narrado por quem voltou para dizer por que partiu.<\/p>\n<p>Vilela viaja sozinho para apresentar <strong><em>Fissura<\/em><\/strong>. Leva pouca coisa na bagagem e negocia pouco: uma tela de proje\u00e7\u00e3o, um projetor, duas caixas de som, dois subwoofers, um micro-ondas, uma cama infl\u00e1vel, um lin\u00f3leo preto, uma fita adesiva. A luz \u00e9 fornecida por um aparelho que acompanha o artista, como se a escurid\u00e3o fosse parte da bagagem de m\u00e3o. Grava\u00e7\u00f5es em \u00e1udio e v\u00eddeo se alternam com as falas do ator, que percorre em 50 minutos um territ\u00f3rio ao mesmo tempo afetivo e pol\u00edtico.<\/p>\n<p>A narrativa avan\u00e7a por camadas e deixa marcas em aberto. A pe\u00e7a n\u00e3o explica tudo, e o espectador preenche os buracos com o que j\u00e1 viveu ou teme. Desse percurso emergem precariza\u00e7\u00e3o, inseguran\u00e7a pol\u00edtica, descontentamento extremado. As imagens projetadas s\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es reais, as que tomaram S\u00e3o Paulo depois da morte de Marielle Franco, com aquela sensa\u00e7\u00e3o que a perda deixou no ar, e os atos neonazistas contra estrangeiros em Portugal, a a\u00e7\u00e3o conivente da pol\u00edcia e a apari\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio artista em um determinado momento.<\/p>\n<p>Em cena, o ator narra experi\u00eancias dolorosas, dolorosas at\u00e9 para quem assiste, e diminui de tamanho diante da multid\u00e3o ensandecida que aparece no tel\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 dramatiza\u00e7\u00e3o do confronto: o corpo encolhe, como um homem comum diante de uma massa hostil. Em vez de encenar a viol\u00eancia, <strong><em>Fissura<\/em> <\/strong>exibe o seu efeito sobre um corpo. O t\u00edtulo condensa a marca \u00edntima, o recuo f\u00edsico diante do \u00f3dio.<\/p>\n<p><em><strong>Fissura<\/strong> <\/em>aposta no sensorial. A viol\u00eancia chega ao p\u00fablico pelo corpo do artista, pelo cheiro da comida, pelo som da fita, pela luz que ele mesmo controla. A palavra n\u00e3o fica num plano inferior: \u00e9 na penumbra, com a luz baixa que ele manipula, que a fala se desenvolve e o testemunho ganha peso. A obra se equilibra nessa tens\u00e3o entre o que o corpo mostra e o que a voz diz, e acerta quando confia nos dois, no escuro e na palavra, ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Vilela segura o mon\u00f3logo com um ritmo pr\u00f3prio: n\u00e3o h\u00e1 virtuosismo nem pirotecnia, h\u00e1 um ator que administra sil\u00eancios, que deixa a voz baixar nos momentos mais dolorosos e que usa o esfor\u00e7o f\u00edsico como mat\u00e9ria dram\u00e1tica. O cansa\u00e7o de encher o colch\u00e3o com a boca n\u00e3o \u00e9 representado, \u00e9 vivido, e \u00e9 isso que aproxima o espectador de um testemunho mais do que de uma interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes de chegar \u00e0 guardachuvada, o texto passeia por quest\u00f5es subjetivas, acontecimentos \u00edntimos e fatos pol\u00edticos que empurram nossas decis\u00f5es do dia a dia e criam rumos inesperados. O velho portugu\u00eas com seu guarda-chuva n\u00e3o ganha corpo em cena, vive apenas na voz do ator. Vilela conta que ia para uma apresenta\u00e7\u00e3o teatral quando viu uma manifesta\u00e7\u00e3o que chamou sua aten\u00e7\u00e3o. O velho apareceu e deu-lhe uma guardachuvada, que machucou um pouco. Mas um outro rapaz entra na hist\u00f3ria, envolve-se na confus\u00e3o e leva uma guardachuvada do velho. A pol\u00edcia interv\u00e9m. O artista fala sobre isso, e sobre as decis\u00f5es tomadas naquele momento: parar na manifesta\u00e7\u00e3o, e depois n\u00e3o ficar para o desdobramento, porque tinha de ir ao teatro para trabalhar. O que parecia uma figura inofensiva se revela um homem perigoso, arma na m\u00e3o. A virada seca exp\u00f5e a viol\u00eancia latente que a ret\u00f3rica extremista normaliza: um senhor, um guarda-chuva, carregando a amea\u00e7a.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio entra na pe\u00e7a como pe\u00e7a de um quebra-cabe\u00e7as. Junto de outros gestos mi\u00fados, de outras recusas do encontro, ele vai montando o mapa da xenofobia cotidiana. A viol\u00eancia n\u00e3o aparece de uma vez: vai se revelando nas frases secas, nas portas que se fecham, nas senten\u00e7as de quem decide quem pertence. O agressor permanece uma figura comum, banal, e \u00e9 essa banalidade que o torna assustador.<\/p>\n<p>Vilela conta que ficou duas horas numa fila de uma mesquita no Porto, perto de sua casa, queria conhecer o lugar. O homem da frente perguntou se ele era mu\u00e7ulmano; ele disse que n\u00e3o, estava ali para conhecer. &#8220;Aqui n\u00e3o \u00e9 local para conhecer&#8221;, respondeu o outro, apontando com um gesto a porta da rua. A cena n\u00e3o tem grito, n\u00e3o tem agress\u00e3o f\u00edsica: tem a senten\u00e7a seca de quem decide quem pertence e quem n\u00e3o pertence. \u00c9 um momento forte da pe\u00e7a justamente porque n\u00e3o h\u00e1 nada de espetacular nele, uma frase, um gesto. \u00c9 a viol\u00eancia no estado mais mi\u00fado, e \u00e9 a\u00ed a pe\u00e7a encontra o tom mais preciso.<\/p>\n<div id=\"attachment_28160\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-02-at-18.25.23-e1788697270748.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28160\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28160\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-02-at-18.25.23-e1788697270748.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28160\" class=\"wp-caption-text\">Um imigrante em seu quartinho min\u00fasculo, sufocado pela xenofobia. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>O corpo de Vilela ocupa o espa\u00e7o em uma sequ\u00eancia quase coreogr\u00e1fica, primeiro de p\u00e9, depois num banco, depois na cama, depois o panda. Ele veste roupa de rua, e em algum momento veste a fantasia do panda, quando desenvolve a dan\u00e7a. Para despertar as quest\u00f5es sensoriais, delimita, dentro do espa\u00e7o j\u00e1 tra\u00e7ado, o territ\u00f3rio do lin\u00f3leo preto, demarcado pela fita adesiva que faz seu barulho t\u00edpico ao grudar no ch\u00e3o. Vilela enche a cama infl\u00e1vel com a pr\u00f3pria boca, coloca-a no ch\u00e3o, forra-a com um len\u00e7ol e senta nela. \u00c9 nesse momento que come a comida, fast food, dessas prontas de supermercado, e o cheiro do alimento impregna a sala. Ali, com a luz baixa, cuja intensidade ele mesmo manipula, desenvolve a fala.<\/p>\n<p>O som da fita no ch\u00e3o, o cheiro da comida, o esfor\u00e7o f\u00edsico de encher o colch\u00e3o. O espa\u00e7o de desconforto chega ao espectador. Vilela n\u00e3o interpreta uma personagem: exp\u00f5e a pr\u00f3pria experi\u00eancia, e \u00e9 isso que d\u00e1 \u00e0 cena o car\u00e1ter de testemunho.<\/p>\n<p>Entre uma a\u00e7\u00e3o e outra, a precariza\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o de artista ganha corpo: para sobreviver, o artista veste a fantasia de panda e dan\u00e7a em festas, o corpo an\u00f4nimo dentro do tecido, reduzido a entretenimento descart\u00e1vel. \u00c9 das sequ\u00eancias mais felizes da obra: a dan\u00e7a carrega ao mesmo tempo a alegria triste de quem se vira e a den\u00fancia de quem desaparece sob a m\u00e1scara, como o imigrante que some sob o r\u00f3tulo de estrangeiro.&nbsp;<\/p>\n<p>Contador de hist\u00f3rias habilidoso, Vilela encontra na dramaturgia de Alexandre Dal Farra, dramaturgo e encenador paulistano, figura central das artes performativas brasileiras e vencedor de pr\u00eamios nacionais, a estrutura do mon\u00f3logo. Dal Farra organiza esse material com precis\u00e3o: as grava\u00e7\u00f5es n\u00e3o ilustram a fala, elas a tensionam. O espectador fica entre a imagem da multid\u00e3o e a voz do artista, entre o fato pol\u00edtico e a mem\u00f3ria \u00edntima, e \u00e9 desse entre-lugar que a pe\u00e7a tira a sua for\u00e7a. A pe\u00e7a costura pol\u00edtica macro e micropol\u00edticas: dif\u00edcil morar no pa\u00eds que nos colonizou e hoje trata os brasileiros com tanta hostilidade.<\/p>\n<p>Contador de hist\u00f3rias habilidoso, Vilela encontra na dramaturgia de Alexandre Dal Farra, dramaturgo e encenador paulistano, figura central das artes performativas brasileiras e vencedor de pr\u00eamios nacionais, a estrutura do mon\u00f3logo. Dal Farra organiza esse material com precis\u00e3o: as grava\u00e7\u00f5es tensionam a fala. O espectador fica entre a imagem da multid\u00e3o e a voz do artista, entre o fato pol\u00edtico e a mem\u00f3ria \u00edntima, e desse entre-lugar a pe\u00e7a tira for\u00e7a. O espet\u00e1culo costura pol\u00edtica macro e micropol\u00edticas: dif\u00edcil morar no pa\u00eds que nos colonizou e hoje trata os brasileiros com tanta hostilidade.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Vilela, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 a de um caso isolado. Desde 2018, com a ascens\u00e3o da extrema-direita no Brasil, artistas e intelectuais migraram para o exterior, Fran\u00e7a, Portugal, outros destinos, numa di\u00e1spora que esvaziou grupos, projetos e salas. <strong><em>Fissura<\/em> <\/strong>\u00e9 tamb\u00e9m o retrato dessa gera\u00e7\u00e3o: a dos que ficaram, a dos que sa\u00edram, a dos que n\u00e3o sabem se voltam.<\/p>\n<div id=\"attachment_28161\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-06-at-12.11.15-e1788711810718.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28161\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28161\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-06-at-12.11.15-e1788711810718.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"586\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28161\" class=\"wp-caption-text\">Conversa de Pedro Vilela com o p\u00fablico. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<h1>A conversa depois do espet\u00e1culo<\/h1>\n<p>Se a cena encarna a fissura \u00edntima, o bate-papo revela a sua extens\u00e3o coletiva. Os questionamentos do p\u00fablico estavam mais voltados para o mundo real, para a experi\u00eancia do ator em outro pa\u00eds, do que para a fic\u00e7\u00e3o que acabava de ser apresentada: a curiosidade de como os amigos est\u00e3o sendo tratados em Portugal, se n\u00e3o haveria exagero da imprensa, das redes sociais, coisas desse tipo.<\/p>\n<p>Quando o papo se firmou na pol\u00edtica, xenofobia, ascens\u00e3o da extrema-direita e as pontes, inc\u00f4modas e expl\u00edcitas, com o Brasil, Vilela descreveu o epis\u00f3dio central da pe\u00e7a: o ato do Grupo 1143, principal grupo neonazista de Portugal, em frente ao Teatro Municipal do Porto, com presen\u00e7a policial para garantir o direito de express\u00e3o dos manifestantes. Fundado em 2000 no ambiente das claques de futebol, o grupo tem como porta-voz M\u00e1rio Machado, hoje preso. Ao longo de quase tr\u00eas d\u00e9cadas, o nome de Machado se repete em condena\u00e7\u00f5es por viol\u00eancia, tortura e crimes de \u00f3dio.<\/p>\n<p>O que mais inquieta na fala de Vilela \u00e9 a condescend\u00eancia social e institucional diante desses grupos. Ele lembra que lideran\u00e7as passam por julgamentos que raramente produzem consequ\u00eancias consistentes. E conta que um encontro de grupos nacionalistas marcado no Porto chegou a ser cancelado depois de uma mobiliza\u00e7\u00e3o p\u00fablica, mas os organizadores acabaram encontrando outro espa\u00e7o para realiz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O crescimento do Chega amplia a valida\u00e7\u00e3o social desse discurso. O partido de Andr\u00e9 Ventura se tornou a principal for\u00e7a da direita portuguesa e, em janeiro de 2026, levou a elei\u00e7\u00e3o presidencial a um segundo turno in\u00e9dito em 40 anos. A conversa aponta ainda a forte rela\u00e7\u00e3o do Chega com estrat\u00e9gias digitais semelhantes \u00e0s da extrema-direita brasileira<\/p>\n<p><strong>A viol\u00eancia se espalha para al\u00e9m do f\u00edsico:<\/strong> \u00e9 cotidiana e simb\u00f3lica, aparece em situa\u00e7\u00f5es simples do dia a dia. Portugal n\u00e3o se reconhece como pa\u00eds para imigrantes e oferece, al\u00e9m de embaixadas e consulados, pouca ou nenhuma estrutura concreta de prote\u00e7\u00e3o. O discurso de expuls\u00e3o atinge brasileiros, mas tamb\u00e9m africanos, argelinos, marroquinos, pessoas de Bangladesh e da \u00cdndia, com camadas diferentes de discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O discurso de expuls\u00e3o n\u00e3o fica no plano das ideias: alcan\u00e7a a pr\u00f3pria filha de Vilela, identificada como brasileira mesmo tendo nascido em Portugal, e chega aos relatos de xenofobia escolar. H\u00e1 outdoors espalhados pelo Porto com dizeres como &#8220;volte para sua casa, caralho&#8221;, e as crian\u00e7as os veem. A presen\u00e7a do estrangeiro vira pretexto para desqualifica\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o. A teoria da &#8220;Grande Substitui\u00e7\u00e3o&#8221;,&nbsp;a conspira\u00e7\u00e3o que imagina um plano para trocar as popula\u00e7\u00f5es europeias por migrantes, deixa de ser abstra\u00e7\u00e3o: vira cartaz na rua, livro na escola, frase na boca do velho do guarda-chuva, gesto na porta da mesquita.<\/p>\n<p><em><strong>Fissura<\/strong> <\/em>chega ao palco como desdobramento de um percurso. A parceria com Dal Farra nasce em <em>Alt\u00edssimo<\/em> (2017), primeiro solo de Vilela, que investigava a rela\u00e7\u00e3o entre as igrejas neopentecostais, a teologia da prosperidade e o poder, com dramaturgia de Dal Farra. Depois veio <em>Figueiredo<\/em> (2022), cria\u00e7\u00e3o solo de Vilela, confer\u00eancia-performance que parte do <em>Relat\u00f3rio Figueiredo<\/em>, documento oculto por mais de 40 anos sobre o genoc\u00eddio ind\u00edgena, para erguer um &#8220;monumento \u00e0 hist\u00f3ria dos massacres ind\u00edgenas&#8221;.<\/p>\n<p>Em 2025, <strong><em>Fissura<\/em> <\/strong>retoma a dupla e opera no territ\u00f3rio da experi\u00eancia direta. Segundo o artista, o projeto come\u00e7ou com a inten\u00e7\u00e3o de partir de Marielle Franco, mas outros temas atravessaram o processo at\u00e9 se consolidar em torno do epis\u00f3dio vivido por ele. O financiamento demorou, e a obra foi se transformando conforme novas camadas de leitura apareciam.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria \u00e9 a de um artista que se politiza progressivamente. Em 2021, erguera <em>TRAVESSIA<\/em>, espet\u00e1culo-percurso a partir do depoimento de 50 imigrantes brasileiros no Porto. No MIRADA 2024, em Santos, esteve no elenco de <em>G.O.L.P.<\/em>, coprodu\u00e7\u00e3o entre o Teatro Experimental do Porto e o chileno Teatro La Mar\u00eda, s\u00e1tira pol\u00edtica sobre regimes e golpes, uma obra cuja fragilidade o pr\u00f3prio artista reconhece. A pr\u00f3xima, <em>Zumbis<\/em>, prop\u00f5e uma reflex\u00e3o sobre a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do inimigo externo, com refer\u00eancia ao cinema norte-americano.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 1rem;\">O fio condutor \u00e9 vis\u00edvel: documentos, arquivos, depoimentos, o material da hist\u00f3ria que n\u00e3o cabe nos relatos oficiais. Nessa linhagem, o artista exp\u00f5e a pr\u00f3pria experi\u00eancia como documento, e a cena vira espa\u00e7o de elabora\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do presente. De <\/span><em style=\"font-size: 1rem;\">TRAVESSIA<\/em><span style=\"font-size: 1rem;\"> a <\/span><em style=\"font-size: 1rem;\">Figueiredo<\/em><span style=\"font-size: 1rem;\">, de <\/span><strong style=\"font-size: 1rem;\"><em>Fissura<\/em> <\/strong><span style=\"font-size: 1rem;\">a <\/span><em style=\"font-size: 1rem;\">Zumbis<\/em><span style=\"font-size: 1rem;\">, o que muda \u00e9 a dist\u00e2ncia entre o artista e o que ele narra: cada vez menor, at\u00e9 o corpo virar o pr\u00f3prio arquivo.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 1rem;\">O di\u00e1logo contrap\u00f5e dois mitos: o portugu\u00eas, que se imagina imune \u00e0s pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es, e o brasileiro, que cultiva a imagem de anfitri\u00e3o cordial, desmentida pela pr\u00f3pria hist\u00f3ria de viol\u00eancia contra migrantes e povos origin\u00e1rios. O Brasil avan\u00e7ou em debates sobre identidade, g\u00eanero e racialidade; Portugal mant\u00e9m uma mentalidade mais antiga, ao mesmo tempo em que a influ\u00eancia cultural brasileira se imp\u00f5e, vis\u00edvel na linguagem das crian\u00e7as, nas redes e na internet. Sobre permanecer ou retornar, o artista n\u00e3o tem certeza: tanto Portugal quanto Recife parecem atravessados por colapsos e incertezas.<\/span><\/p>\n<p>\u00c9 nesse mesmo gesto que se insere sua atua\u00e7\u00e3o cultural em territ\u00f3rio portugu\u00eas. Se a pe\u00e7a denuncia o apagamento, a curadoria responde organizando a presen\u00e7a: \u00e0 frente do <em>QUILOMBO_TREMA!<\/em>, festival do Porto dedicado a artistas negros, racializados e ind\u00edgenas, com nova edi\u00e7\u00e3o entre 24 e 27 de setembro de 2026, Vilela transforma em pol\u00edtica cultural aquilo que a cena aponta.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a termina com um questionamento: o que fazer? Voltar para o Recife, mas voltar para qu\u00ea, para que condi\u00e7\u00f5es? Ou ficar em Portugal, com o contexto de extrema hostilidade? O mundo n\u00e3o parece um lugar seguro, seja na Europa ou no Recife. E resta um gosto amargo: as perspectivas coletivas apontam para o fracasso, mesmo que algumas pessoas bem-sucedidas pensem que est\u00e3o salvas. Talvez seja essa a for\u00e7a de <strong><em>Fissura, <\/em><\/strong>n\u00e3o oferecer consolo, mas recusar a indiferen\u00e7a.<\/p>\n<div id=\"attachment_28158\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-02-at-18.25.22-1-e1788697223536.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28158\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28158\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-02-at-18.25.22-1-e1788697223536.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28158\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Fissura<\/strong>. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<h2><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong><\/h2>\n<p><strong>Co-cria\u00e7\u00e3o<\/strong>: Pedro Vilela e Alexandre Dal Farra<br \/>\n<strong>Atua\u00e7\u00e3o<\/strong>: Pedro Vilela (o solo)<br \/>\n<strong>Realiza\u00e7\u00e3o<\/strong>: TREMA!<br \/>\n<strong>Financiamento<\/strong>: Rep\u00fablica Portuguesa, Cultura \/ DGARTES; Programa Criat\u00f3rio, C\u00e2mara Municipal do Porto<br \/>\n<strong>Foto de divulga\u00e7\u00e3o<\/strong>: Thiago Liberdade<\/p>\n<h2>Servi\u00e7o, <strong>circula\u00e7\u00e3o no Brasil<\/strong> (setembro\/2026):<\/h2>\n<p><strong>Recife<\/strong>: Teatro Hermilo Borba Filho, 01 e 02\/09, 19h30 (pague quanto puder)<br \/>\nLimoeiro: Galp\u00e3o das Artes, 03\/09, 10h, 15h30 e 19h30 (gratuito, mediante 3kg de alimentos)<br \/>\n<strong>Surubim<\/strong>: workshop <em>Onde a Cena Fissura<\/em>, 04\/09, 14h \u00e0s 17h; <strong><em>Fissura<\/em> <\/strong>\u00e0s 20h no Reduto Coletivo (pague quanto puder)<br \/>\n<strong>Salvador<\/strong>: Centro Cultural Barroquinha, <em>Figueiredo<\/em> em 05 e 06\/09 (19h e 15h); <strong><em>Fissura<\/em> <\/strong>em 08 e 09\/09 (18h e 15h), Festival Gestos de Am\u00e9rica<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Vilela apresentou no Recife a pe\u00e7a que conta por que migrou para Portugal. Na primeira das duas noites no Teatro Hermilo Borba Filho, 1\u00ba de setembro, cerca de 40 pessoas ocuparam a arquibancada. Antes de come\u00e7ar, ele disse que \u00e9 um artista do Recife, que algo interno e externo o obrigara a migrar em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[1],"tags":[9394,9392,4815,9397,9165,9393,9396,305,9395,9398,610,2377],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28157"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28157"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28157\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28163,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28157\/revisions\/28163"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28157"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28157"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28157"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}