{"id":28140,"date":"2026-08-28T12:27:07","date_gmt":"2026-08-28T15:27:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=28140"},"modified":"2026-08-28T12:27:07","modified_gmt":"2026-08-28T15:27:07","slug":"hblynda-em-transito-um-ano-de-cena-do-arraial-a-porto-alegre-por-ivana-moura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/hblynda-em-transito-um-ano-de-cena-do-arraial-a-porto-alegre-por-ivana-moura\/","title":{"rendered":"HBLYNDA em Tr\u00e2nsito: <\/BR> um ano de cena, do <\/BR> Arraial a Porto Alegre <\/BR> Por Ivana Moura"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_28141\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HBLYNDA-FOTO-Rafael-Quirino-scaled-e1787918506562.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28141\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-28141 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HBLYNDA-FOTO-Rafael-Quirino-scaled-e1787918506562.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28141\" class=\"wp-caption-text\">Solo de HBlynda celebra um ano no Teatro Arraial e segue para o 33\u00ba Porto Alegre em Cena. Foto: Rafael Quirino<\/p><\/div>\n<p><em><strong>HBLYNDA em Tr\u00e2nsito <\/strong><\/em>\u00e9 um solo perform\u00e1tico e autobiogr\u00e1fico em que a atriz, dramaturga e pesquisadora HBlynda Morais (pessoa trans n\u00e3o bin\u00e1ria, preta, gorda, candomblecista e perif\u00e9rica) narra a pr\u00f3pria vida em primeira pessoa. Ela n\u00e3o representa uma personagem fict\u00edcia; apresenta-se a partir de si, construindo uma dramaturgia em que a experi\u00eancia \u00e9 mat\u00e9ria, para pensar o g\u00eanero como tr\u00e2nsito e o corpo como territ\u00f3rio de exist\u00eancia. A cena costura teatro, dan\u00e7a, m\u00fasica e performance num jogo de revela\u00e7\u00e3o e partilha, com perguntas lan\u00e7adas diretamente \u00e0 plateia (&#8220;quem sabe como o g\u00eanero \u00e9 constitu\u00eddo?&#8221;) e um ambiente deliberadamente \u00edntimo e afetivo.<em><strong><br \/>\n<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O espet\u00e1culo nasceu em mar\u00e7o de 2025, com a primeira apresenta\u00e7\u00e3o na <em>Farofa do Processo<\/em>, festival e movimento de artes c\u00eanicas contempor\u00e2neas criado pela Corpo Rastreado, no Complexo Cultural Funarte SP. A estreia oficial em Pernambuco veio em agosto de 2025, no Teatro Hermilo Borba Filho, no Recife, celebrando os 15 anos de trajet\u00f3ria art\u00edstica da atriz.<\/p>\n<p>Em 2026, a pe\u00e7a ocupa o Teatro Arraial Ariano Suassuna numa temporada que celebra o primeiro anivers\u00e1rio da obra, fruto do edital de ocupa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio teatro: de 21 de agosto a 5 de setembro, sextas e s\u00e1bados, \u00e0s 19h, com <strong>ingressos gratuitos<\/strong> retirados uma hora antes de cada sess\u00e3o. O espet\u00e1culo segue para o Sul em setembro e integra a programa\u00e7\u00e3o nacional do <em>33\u00ba Porto Alegre em Cena<\/em>, festival internacional de artes c\u00eanicas que ocupa 13 palcos da capital ga\u00facha de 10 a 20 de setembro. N\u00e3o vai sozinho: o festival recebe quatro montagens pernambucanas, al\u00e9m de <strong><em>HBLYNDA em Tr\u00e2nsito<\/em><\/strong> (HBlynda Morais), tamb\u00e9m <em>Que Muito Amou<\/em> (C\u00eanicas Cia de Repert\u00f3rio), <em>Os Imorais<\/em> (Bando de Nada Coletivo de Teatro) e <em>Pela Noite<\/em> (NOZ Produ\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p><strong>Uma dramaturgia do corpo&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Autoria e cena coincidem. Idealiza\u00e7\u00e3o, dramaturgia e atua\u00e7\u00e3o s\u00e3o de HBlynda Morais, com dire\u00e7\u00e3o de Emmanuel Matheus, dire\u00e7\u00e3o musical de Raphael Venos, produ\u00e7\u00e3o executiva de Juliana Couto e prepara\u00e7\u00e3o coreogr\u00e1fica de Aline Gomes. O que se v\u00ea em cena \u00e9 uma dramaturgia do corpo. Dan\u00e7as aos orix\u00e1s Exu, Ogum e Oxum e \u00e0 Pombagira 7 Catacumbas, coxinhas distribu\u00eddas durante o depoimento da m\u00e3e, um ch\u00e1 de revela\u00e7\u00e3o com a plateia, pompons entregues na entrada. Os elementos s\u00e3o mat\u00e9ria de um jogo que recusa dois registros, o da &#8220;li\u00e7\u00e3o de vida&#8221; e o do &#8220;exemplo de supera\u00e7\u00e3o&#8221;. Como escreve Ivana Moura, a pe\u00e7a n\u00e3o oferece uma verdade sobre a experi\u00eancia trans; documenta &#8220;as estrat\u00e9gias micropol\u00edticas necess\u00e1rias para sobreviver&#8221;.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria da artista sustenta a obra. HBlynda \u00e9 licenciada em Hist\u00f3ria pela UPE e doutoranda em Educa\u00e7\u00e3o Contempor\u00e2nea pela UFPE (Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o Contempor\u00e2nea, do Centro Acad\u00eamico do Agreste), onde pesquisa g\u00eanero e sexualidades.<\/p>\n<div id=\"attachment_28142\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HBLYNDA-EM-TRANSITO-e1787919653964.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28142\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-28142 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HBLYNDA-EM-TRANSITO-e1787919653964.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"414\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HBLYNDA-EM-TRANSITO-e1787919653964.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HBLYNDA-EM-TRANSITO-e1787919653964-300x207.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-28142\" class=\"wp-caption-text\">Para Hblynda, uma artista preta e candomblecista, a escrita de si \u00e9 tamb\u00e9m escreviv\u00eancia, no sentido de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo. Foto Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>O trabalho se insere na virada performativa das artes c\u00eanicas, em que o artista fala a partir de si e n\u00e3o por meio de personagens ficcionais. A pesquisadora Andr\u00e9a Stelzer (Urdimento, 2024) nomeia esse gesto como cena performativa decolonial: a &#8220;escrita de si&#8221; feita de mem\u00f3rias, testemunhos e documentos reais traz ao centro da cena &#8220;os saberes silenciados pela Hist\u00f3ria oficial&#8221;. A partir de espet\u00e1culos como <em>Macacos<\/em> e <em>Umbigo de sonhos<\/em>, Stelzer mostra que, nessa linhagem, o artista se afirma como sujeito da escrita c\u00eanica e o corpo se torna arquivo de mem\u00f3rias e de hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa linhagem que <strong><em>HBLYNDA em Tr\u00e2nsito<\/em><\/strong> pode se inscrever. No caso de uma artista preta e candomblecista, a escrita de si \u00e9 tamb\u00e9m escreviv\u00eancia, no sentido de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo. Uma escrita que nasce da experi\u00eancia coletiva de um corpo que escreve a si e aos seus, e que Stelzer aproxima deliberadamente da autofic\u00e7\u00e3o, como gesto que parte do singular para alcan\u00e7ar o coletivo.<\/p>\n<p>\u00c9 o que aproxima a obra da reflex\u00e3o de Leda Martins sobre o corpo-tela; uma esp\u00e9cie de corpo-arquivo, &#8220;local e meio por meio dos quais se reorganizam e atualizam os amplos repert\u00f3rios afro-diasp\u00f3ricos&#8221;. O par arquivo e repert\u00f3rio, de Diana Taylor, ilumina a obra como complemento. Arquivo \u00e9 o que se preserva em documentos e objetos, o que resiste ao tempo; repert\u00f3rio \u00e9 o que se transmite pelo corpo, pela mem\u00f3ria encarnada, o que s\u00f3 existe no ato. O corpo da artista condensa arquivo e repert\u00f3rio, guarda a mem\u00f3ria e a reatualiza a cada apresenta\u00e7\u00e3o. A dimens\u00e3o dos orix\u00e1s aprofunda esse movimento, remetendo \u00e0s performances do tempo espiralar de Leda Martins. O corpo que dan\u00e7a como mem\u00f3ria que o texto n\u00e3o alcan\u00e7a, em que a ancestralidade \u00e9 tamb\u00e9m estrutura temporal.&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_26782\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HBLYNDA-EM-TRANSITO-2-e1754416246699.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-26782\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-26782\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HBLYNDA-EM-TRANSITO-2-e1754416246699.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"356\"><\/a><p id=\"caption-attachment-26782\" class=\"wp-caption-text\">O espet\u00e1culo tem dire\u00e7\u00e3o de Emmanuel Matheus, dire\u00e7\u00e3o musical de Raphael Venos e produ\u00e7\u00e3o executiva de Juliana Couto. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong>Duas leituras da Satisfeita, Yolanda?<\/strong><\/p>\n<p>A recep\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do espet\u00e1culo em 2025 contou com dois textos da <strong><em>Satisfeita, Yolanda?<\/em><\/strong>, um dos ve\u00edculos de cr\u00edtica teatral mais ativos do pa\u00eds, e \u00e9 a partir deles que esta leitura se organiza.&nbsp;<\/p>\n<p>Ivana Moura, em <a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/hblynda-em-transito-aposta-na-forca-politica-das-narrativas-trans\/\"><em><strong>HBLYNDA EM TRANSito aposta na for\u00e7a pol\u00edtica das narrativas trans (ago\/2025)<\/strong><\/em><\/a>, l\u00ea a obra como um trabalho que disputa o campo do teatro contempor\u00e2neo, apoiado na teoria queer e nos estudos decoloniais. Para ela, a pe\u00e7a &#8220;transforma o que (a parte mais retr\u00f3grada) da sociedade codifica como &#8216;desvio&#8217; em metodologia de conhecimento&#8221;, reafirma o palco como territ\u00f3rio de exist\u00eancia e opera uma &#8220;reconfigura\u00e7\u00e3o radical dos protocolos narrativos&#8221; do teatro brasileiro. Moura prop\u00f5e ainda uma cronologia queer.&nbsp;<\/p>\n<p>Annelise Schwarcz, em <a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/ter-exu-como-principio-estranhar-a-cronologia-critica-hblynda-em-transito-por-annelise-schwarcz\/\"><strong><em>Ter Exu como princ\u00edpio: estranhar a cronologia (dez\/2025)<\/em><\/strong><\/a>, elogia e questiona na mesma medida. Seu diagn\u00f3stico: &#8220;em alguns momentos, tantos elementos sendo ofertados ao p\u00fablico resultam em um esvaziamento do sentido de alguns dispositivos&#8221;. Na sua vis\u00e3o, a distribui\u00e7\u00e3o de coxinhas durante o depoimento da m\u00e3e dispersa a aten\u00e7\u00e3o da plateia; o ch\u00e1 de revela\u00e7\u00e3o e a cena dos pompons &#8220;parece gratuita&#8221;; e a dramaturgia, que &#8220;segue de forma cronologicamente linear os marcos traum\u00e1ticos&#8221;, poderia &#8220;se nutrir do princ\u00edpio exus\u00edaco&#8221;, de Exu, o orix\u00e1 que preside encruzilhadas, e estranhar a cronologia em vez de confirm\u00e1-la. \u00c9 uma obje\u00e7\u00e3o de forma, n\u00e3o de conte\u00fado: pede mais ousadia estrutural, n\u00e3o menos pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O ponto mais interessante de <strong><em>HBLYNDA em Tr\u00e2nsito<\/em><\/strong> talvez seja justamente esse: a pe\u00e7a desacomoda tanto quanto o que o que conquista.<\/p>\n<h1>Servi\u00e7o<\/h1>\n<p>&#x1f4cd; <strong>Onde<\/strong>: Teatro Arraial Ariano Suassuna (Recife\/PE)<br \/>\n&#x1f5d3;&#xfe0f; <strong>Quando<\/strong>: 21 de agosto a 5 de setembro de 2026<br \/>\n&#x23f0; <strong>Hor\u00e1rio<\/strong>: sextas e s\u00e1bados, \u00e0s 19h<br \/>\n&#x1f39f;&#xfe0f; <strong>Ingressos<\/strong>: gratuitos, retirados 1h antes de cada sess\u00e3o<br \/>\n&#x1f3f3;&#xfe0f; <strong>Classifica\u00e7\u00e3o<\/strong>: 16 anos&nbsp;<br \/>\n&#x26a7;&#xfe0f; <strong>Dura\u00e7\u00e3o<\/strong>: 60 min<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>HBLYNDA em Tr\u00e2nsito \u00e9 um solo perform\u00e1tico e autobiogr\u00e1fico em que a atriz, dramaturga e pesquisadora HBlynda Morais (pessoa trans n\u00e3o bin\u00e1ria, preta, gorda, candomblecista e perif\u00e9rica) narra a pr\u00f3pria vida em primeira pessoa. 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