{"id":28122,"date":"2026-08-24T23:35:48","date_gmt":"2026-08-25T02:35:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=28122"},"modified":"2026-08-24T23:39:50","modified_gmt":"2026-08-25T02:39:50","slug":"o-palco-entre-o-permitido-e-o-proibido-os-anos-1960-do-teatro-no-recife-livro-de-leidson-ferraz-por-ivana-moura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/o-palco-entre-o-permitido-e-o-proibido-os-anos-1960-do-teatro-no-recife-livro-de-leidson-ferraz-por-ivana-moura\/","title":{"rendered":"O palco entre o permitido e o proibido: <\/br> os anos 1960 do teatro no Recife <\/br> Livro de Leidson Ferraz <\/br> Por Ivana Moura"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_28125\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-21-at-08.35.22-e1787617907999.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28125\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28125\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-21-at-08.35.22-e1787617907999.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"574\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28125\" class=\"wp-caption-text\">Pesquisa de <strong>Leidson Ferraz<\/strong>, com incentivo do Funcultura, reconstr\u00f3i uma d\u00e9cada em que o strip-tease convivia com a censura, a cr\u00edtica arrasava pe\u00e7as sem pudor e o picante fazia a sua pr\u00f3pria pol\u00edtica. Foto: F\u00e1bio Anjos<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_28128\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Toda-Donzela-Tem-um-Pai-Que-e-Uma-Fera-1964-Acervo-Projeto-Memorias-da-Cena-Pernambucana-scaled-e1787618615510.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28128\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28128\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Toda-Donzela-Tem-um-Pai-Que-e-Uma-Fera-1964-Acervo-Projeto-Memorias-da-Cena-Pernambucana-scaled-e1787618615510.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"825\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28128\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Toda Donzela Tem um Pai Que \u00e9 Uma Fera<\/strong>, 1964, com Barreto J\u00fanior no papel de Porf\u00edrio, um velho conquistador, falso celibat\u00e1rio, que procura os amores de uma jovem, foi apresentado no Teatro de Santa Isabel, Foto: Acervo Projeto Mem\u00f3rias da Cena Pernambucana&nbsp;<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_28131\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/teatro-marrocos-com-luiz-lima-scaled-e1787618234941.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28131\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28131\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/teatro-marrocos-com-luiz-lima-scaled-e1787618234941.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"457\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28131\" class=\"wp-caption-text\">Teatro Marrocos, com Luiz Lima. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>O Recife que entrou em 1960 era uma cidade em plena inaugura\u00e7\u00e3o de si mesma. Em 1\u00ba de janeiro, Miguel Arraes tomava posse na Prefeitura; em abril, nascia Bras\u00edlia; em maio, numa sexta-feira 13, abria na Avenida Conde da Boa Vista, n\u00ba 629, o primeiro Teatro de Arena do Nordeste, o terceiro do pa\u00eds, com ar-condicionado Westinghouse e reserva de cadeiras por telefone, luxos para a \u00e9poca. Em junho, a televis\u00e3o chegava primeiro pelo Canal 6 da R\u00e1dio Clube, dias depois pelo Canal 2 do Jornal do Commercio, pronta para disputar com o palco atores, t\u00e9cnicos e plateias. E na Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, a poucos passos do Pal\u00e1cio do Campo das Princesas, sede do governo estadual, e do Teatro de Santa Isabel, o Teatro Marrocos anunciava &#8220;muita pimenta, pouca roupa e muito humor\u201d. O Marrocos, por\u00e9m, n\u00e3o nascera ali: criado em 1954 pelo humorista Barreto J\u00fanior como um barrac\u00e3o de madeira de 400 lugares na Avenida Dantas Barreto, fora derrubado em 1958 para o alargamento da via e reconstru\u00eddo na Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, onde se tornara no per\u00edodo, talvez, o \u00fanico teatro de strip-tease do Brasil, com os ingressos mais caros nas primeiras filas, o \u201cgargarejo\u201d, de onde se via de perto as vedetes.<\/p>\n<p>\u00c9 esse territ\u00f3rio que o jornalista e pesquisador Leidson Ferraz, doutor em Artes C\u00eanicas pela UNIRIO e atualmente em p\u00f3s-doutorado na UFSJ, reconstitui ano a ano no livro <strong><em>Do Picante \u00e0 Pol\u00edtica: o teatro no Recife dos anos 1960<\/em><\/strong>, mergulhando em milhares de jornais, peri\u00f3dicos, fotografias raras e programas de espet\u00e1culo. A pesquisa come\u00e7ou em 2024 e levou mais de dois anos. O que o autor mais insiste em destacar \u00e9 a pluralidade da cena teatral no Recife: \u201cA gente sempre teve uma diversidade enorme de produ\u00e7\u00f5es\u201d, diz, ao recusar a ideia de que essa variedade seria uma marca exclusiva dos anos 1960.<\/p>\n<p>O que a d\u00e9cada teve de espec\u00edfico, segundo o Leidson, foi uma dualidade: a conviv\u00eancia entre o que podia e o que n\u00e3o podia chegar ao palco. \u201cEu cito v\u00e1rios textos que n\u00e3o puderam vir \u00e0 cena, e ao mesmo tempo toda a pol\u00eamica com esse teatro picante, esse teatro rebolado. Se pensar na ideia de esp\u00edrito do tempo, fica como um esp\u00edrito contradit\u00f3rio\u201d. O livro documenta essa contradi\u00e7\u00e3o em casos concretos. <em>Um Santo Homem<\/em>, texto de Otto Prado, ficou proibido de 1968 a 1972, apesar de sucessivos recursos. <em>Aconteceu em Paris<\/em>, espet\u00e1culo levado por Hamilton Fernandes, esperou meses pelo parecer da censura j\u00e1 centralizada em Bras\u00edlia. Em 1963, <em>O Homem dos Chifres de Ouro<\/em>, com\u00e9dia apimentada de \u00cdtalo C\u00farcio, empres\u00e1rio carioca que levava suas companhias ao Marrocos, saiu da m\u00e3o do censor rebatizada <em>O Homem da \u201cTesta\u201d de Ouro<\/em>. No fim da d\u00e9cada, em 1969, <em>De Bocage a Nelson Rodrigues<\/em>, espet\u00e1culo er\u00f3tico do grupo carioca Mini-Teatro da Guanabara, provocou esc\u00e2ndalo moral a ponto de o vereador Wandenkolk Wanderley tentar censur\u00e1-lo, em meio a debate sobre seus m\u00e9ritos art\u00edsticos.<\/p>\n<p>Antes de chegarmos ao fim da d\u00e9cada, por\u00e9m, vale voltar a um dos momentos em que o palco respondeu \u00e0 censura com mais firmeza. Em outubro de 1961, o Teatro de Arena de S\u00e3o Paulo trouxe ao Santa Isabel <em>Revolu\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica do Sul<\/em>, de Augusto Boal, com dire\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Renato e figurinos de Ded Bourbonnais. A pe\u00e7a chegava premiada pela Comiss\u00e3o de Teatro de S\u00e3o Paulo, recomendada pela A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Nacional, depois de cinco meses de temporada no Rio e seis em S\u00e3o Paulo. Para o Recife, a previs\u00e3o era modesta: cinco dias e seis r\u00e9citas, com patroc\u00ednio das Lojas Paulistas, da Loide A\u00e9reo e do Hotel S\u00e3o Domingos, e entradas populares.<\/p>\n<p>A pr\u00e9-estreia, na tarde de 26 de outubro, foi dedicada aos estudantes da Universidade do Recife. Mas o chefe do Servi\u00e7o de Censura de Divers\u00f5es P\u00fablicas de Pernambuco, Ol\u00edmpio Mendon\u00e7a, j\u00e1 havia determinado que a palavra \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d fosse substitu\u00edda por \u201cmovimento\u201d em todo o texto, inclusive no t\u00edtulo, por consider\u00e1-la \u201caltamente subversiva\u201d. Ao conferir a primeira sess\u00e3o, com 659 pessoas na plateia, e ver que suas instru\u00e7\u00f5es n\u00e3o haviam sido cumpridas, o censor levantou-se da poltrona, caminhou at\u00e9 a ribalta e amea\u00e7ou interditar o Santa Isabel e prender a equipe inteira caso a \u201cfa\u00e7anha\u201d se repetisse.<\/p>\n<p>O impasse terminou na pol\u00edtica. O prefeito em exerc\u00edcio, Artur Lima Cavalcanti, tranquilizou os artistas; e o vice-governador Pel\u00f3pidas Silveira entrou no teatro na noite seguinte, enquanto o censor mantinha treze p\u00e1ginas de cortes e a classifica\u00e7\u00e3o para maiores de 18. A conversa foi curta: Pel\u00f3pidas pediu que deixassem o caso com ele, a obra seria apresentada. Submisso, Mendon\u00e7a declarou encerrada a sua miss\u00e3o. A Uni\u00e3o Brasileira de Escritores, se\u00e7\u00e3o Pernambuco, ainda mandaria telegrama ao governador Cid Sampaio, falando em \u201ccensura mais descabida\u201d. O desfecho: a Prefeitura ampliou a temporada em mais sete r\u00e9citas, e 5.221 pessoas viram a pe\u00e7a, numa recep\u00e7\u00e3o que Medeiros Cavalcanti resumiu em \u201csurpresa e entusiasmo\u201d diante de um \u201ctexto absolutamente moderno, fluente e empolgante\u201d.<\/p>\n<p>A liberdade conquistada por aquele texto, por\u00e9m, era a exce\u00e7\u00e3o que confirmava a regra: a censura barrava palavras e vigiava corpos. Em 1966. <em>Les Girls em Op-Art<\/em>, espet\u00e1culo carioca de travestis que se tornara refer\u00eancia desde a estreia na boate Stop, no Rio, em 1964, foi expulso do Santa Isabel por decis\u00e3o do prefeito Augusto Lucena depois de 11 sess\u00f5es e 9.445 espectadores, caso que o livro trata abertamente como homofobia do per\u00edodo. Valdemar de Oliveira, cr\u00edtico do <em>Jornal do Commercio<\/em>, comemorou o veto; Adeth Leite e \u00c2ngelo de Agostini defenderam o espet\u00e1culo. Em 1967, o transformista Mendez, que se apresentava em r\u00e1dio e casas de espet\u00e1culo do Recife, foi eleito Rei Momo do carnaval e teve o mandato cassado por causa da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>O golpe, ali\u00e1s, j\u00e1 havia produzido a primeira baixa do teatro pernambucano: <em>A Grande Estiagem<\/em>, trag\u00e9dia de Isaac Gondim Filho que o conjunto Os Banc\u00e1rios pretendia montar em abril de 1964, foi adiada sem data e depois abortada, porque o Sindicato dos Banc\u00e1rios, sede do grupo, era visto como polo de subvers\u00e3o comunista. A pe\u00e7a, que seria a terceira vers\u00e3o da obra, nunca chegou ao palco. No mesmo 1\u00ba de maio de 1964, o teatro picante fazia o caminho oposto: Barreto J\u00fanior, dono do Marrocos, programou uma vesperal em homenagem ao Dia do Trabalho e \u00e0s novas autoridades, convidando pessoalmente o governador Paulo Guerra, o prefeito Augusto Lucena, o comandante do IV Ex\u00e9rcito, general Justino Alves Bastos, e os comandantes da 7\u00aa Regi\u00e3o Militar, do 3\u00ba Distrito Naval e da 8\u00aa Base A\u00e9rea. \u201cA lembran\u00e7a do ator Barreto J\u00fanior em homenagear o Dia do Trabalho e as autoridades constitu\u00eddas foi recebida com aplausos gerais dos profissionais do teatro no Recife\u201d, registrou Adeth Leite. O picante, sugere a pesquisa, tamb\u00e9m era um lugar de poder, e de ades\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_28133\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/A-Mandragora-4-1960-scaled-e1787622113785.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28133\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28133\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/A-Mandragora-4-1960-scaled-e1787622113785.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"456\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28133\" class=\"wp-caption-text\"><strong>A Mandr\u00e1gora<\/strong> de Maquiavel, segundo trabalho do TPN, apresentado no Teatro do Parque, foi &#8220;um retumbante fracasso perseguido at\u00e9 pela Igreja Cat\u00f3lica&#8221;. Com dire\u00e7\u00e3o de Hermilo Borba Filho, e com Cl\u00eanio Wanderley, Jos\u00e9 Pimentel, Hiran de Lima Pereira, Joel Pontes, Ot\u00e1vio da Rosa Borges, entre outros. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>O teatro que se queria moderno tamb\u00e9m produziu sua maior pol\u00eamica. Em 1962, o Teatro Popular do Nordeste (TPN), fundado por Hermilo Borba Filho e Ariano Suassuna, estreou <em>A Bomba da Paz<\/em>, farsa pol\u00edtica escrita e dirigida por Hermilo. O pr\u00f3prio autor a definiu como \u201cuma pe\u00e7a de circunst\u00e2ncia, que nasceu de uma raiva pessoal\u201d, de uma desaven\u00e7a com Germano Coelho, ent\u00e3o \u00e0 frente da Secretaria de Cultura e do Movimento de Cultura Popular (MCP). A farsa, que satirizava o comunismo de uma perspectiva crist\u00e3 e ridicularizava o MCP, foi recebida com cr\u00edticas majoritariamente negativas, expondo as tens\u00f5es internas de um grupo que se queria de esquerda, em disputa com irm\u00e3os de causa.<\/p>\n<p>A r\u00e9gua da cr\u00edtica, por\u00e9m, mudava conforme o alvo. Em 1960, <em>A Mandr\u00e1gora<\/em>, de Maquiavel, com\u00e9dia renascentista sobre adult\u00e9rio e engano, foi atacada como \u201cimoral\u201d; Medeiros Cavalcanti chegou a compar\u00e1-la, em desvantagem, \u00e0s com\u00e9dias populares de Proc\u00f3pio Ferreira. Seis anos depois, o mesmo grupo, com <em>O Inspetor<\/em>, adapta\u00e7\u00e3o de G\u00f3gol dirigida por Hermilo, seria celebrado como o mais importante espet\u00e1culo de um grupo local em cinco anos, com 81 apresenta\u00e7\u00f5es. A cr\u00edtica que condenara o cl\u00e1ssico do adult\u00e9rio coroou a s\u00e1tira \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica feita ao Teatro Novo do Recife em sua estreia foi, segundo Leidson Ferraz, uma das mais violentas da d\u00e9cada. A casa abriu as portas na noite de 4 de outubro de 1968, num casar\u00e3o da Avenida Rui Barbosa, no bairro das Gra\u00e7as, que at\u00e9 pouco antes servira de resid\u00eancia ao arcebispo. Dom H\u00e9lder C\u00e2mara, no exerc\u00edcio do cargo, havia acabado de trocar o aristocr\u00e1tico im\u00f3vel pela sacristia da Igreja das Fronteiras, e o pr\u00e9dio anexo ao Pal\u00e1cio dos Manguinhos virou sala de 80 lugares, com estacionamento privativo, bancada pelo monsenhor Marcelo Carvalheira, pela socialite Helena Pessoa de Queiroz e at\u00e9 pelo prefeito Augusto Lucena. \u00c0 frente do grupo, hom\u00f4nimo da casa, estava o ator e diretor Marcus Siqueira.<\/p>\n<p>Para a inaugura\u00e7\u00e3o, a aposta foi <em>O Doente Imagin\u00e1rio<\/em>, de Moli\u00e8re, com Cl\u00eanio Wanderley, convidado, no papel do hipocondr\u00edaco Argan, e figurinos doados pelo estilista Marc\u00edlio Campos. A dire\u00e7\u00e3o coube ao franc\u00eas Jean Claude Tabet, e a proposta declarada era desmistificar o cl\u00e1ssico, sublinhando o popularesco sem trair o autor. A pe\u00e7a ficou em cartaz at\u00e9 10 de novembro, atraindo bom p\u00fablico e personalidades.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o nos jornais foi marcante. \u00c2ngelo de Agostini, no <em>Di\u00e1rio da Manh\u00e3<\/em> de 4 de novembro, arrasou o espet\u00e1culo, chamando-o de \u201camontoado inteiramente fragmentado de cenas e sequ\u00eancias da pior categoria poss\u00edvel\u201d e ironizando a pretens\u00e3o de modernidade que, na sua leitura, n\u00e3o passava de bagun\u00e7a. O cr\u00edtico tamb\u00e9m n\u00e3o perdoou Marcus Siqueira pela contracapa do programa, em que o ator e diretor definia Moli\u00e8re como \u201cde mau gosto, grosseiro, vulgar, chanchadeiro, mas antes de tudo, a obra de um g\u00eanio\u201d, contradi\u00e7\u00e3o que Agostini tratou como sintoma do equ\u00edvoco geral. Valdemar de Oliveira, no <em>Jornal do Commercio<\/em> de 13 de novembro, foi na mesma dire\u00e7\u00e3o, apontando \u201castigmatismo de dire\u00e7\u00e3o\u201d e um estilo \u201canti-Moli\u00e8re\u201d. Quando um espectador escreveu a Agostini lamentando a viol\u00eancia da cr\u00edtica, o jornalista n\u00e3o recuou: \u201cN\u00e3o sabemos mentir, nem tirar de uma cartola m\u00e1gica palavras de aplausos que n\u00e3o refletem a verdade\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_28132\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/O-Novico-Teatro-de-Arena-do-Recife-rotated-e1787623392856.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28132\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-28132 size-full\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/O-Novico-Teatro-de-Arena-do-Recife-rotated-e1787623392856.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"395\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28132\" class=\"wp-caption-text\">&nbsp;<strong>O Novi\u00e7o<\/strong>, com\u00e9dia de Martins Penna, com dire\u00e7\u00e3o de Alfredo de Oliveira, do Teatro de Arena em 1961. No elenco, Yara Lins, Margarida Cardoso, Jos\u00e9 Pimentel, Paulo Ribeiro, Belarosa Azolino, Oct\u00e1vio Catanho, Barbosa Santos, Edmilson Catunda e o garoto Bianor de Oliveira. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_28130\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/72-Esp.TA-O-Burgues-Fidalgo_Fot-10-rotated-e1787623451907.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28130\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28130\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/72-Esp.TA-O-Burgues-Fidalgo_Fot-10-rotated-e1787623451907.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"917\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28130\" class=\"wp-caption-text\"><strong>O Burgu\u00eas Fidalgo<\/strong>, com Paulo Autran como protagonista e produtor, Isolda Cresta e elenco grande, cumpriu temporada entre novembro e dezembro de 1968, no Teatro de Santa Isabel.&nbsp; Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_28126\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/No-I-Festival-de-Teatros-de-Estudantes-do-Nordeste-1962-e1787624417395.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28126\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28126\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/No-I-Festival-de-Teatros-de-Estudantes-do-Nordeste-1962-e1787624417395.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"373\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28126\" class=\"wp-caption-text\"><strong><em>I Festival de Teatro do Nordeste<\/em><\/strong>, ocorreu em 1969, no Santa Isabel, promovido pelo TUP. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Os \u00faltimos anos da d\u00e9cada trouxeram o fechamento de palcos. O Santa Isabel, que em 1963 deixara de exigir palet\u00f3 do p\u00fablico, fechou para obras; o Teatro do Parque tamb\u00e9m; o Marrocos virou \u201cNovo Marrocos\u201d e seria demolido em fevereiro de 1973. O ep\u00edlogo do livro registra ainda o fechamento do TPN, do Teatro Novo do Recife e do Teatro da AIP. Sob o AI-5, com as plateias minguando, o Recife recebeu em setembro de 1969 a remontagem de <em>Morte e Vida Severina<\/em>, o poema de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto musicado por Chico Buarque, dirigida por Silnei Siqueira, o mesmo encenador da vers\u00e3o hist\u00f3rica de 1965. Era a quarta temporada nacional da Companhia Paulo Autran, que j\u00e1 circulava com <em>Liberdade, Liberdade<\/em>, <em>\u00c9dipo-Rei<\/em> e <em>O Burgu\u00eas Fidalgo<\/em>; Paulo Autran vivia o Mestre Carpina, e Carlos Miranda, o Severino, papel que j\u00e1 fizera na primeira montagem da obra, em 1958. A equipe ficou hospedada no Grande Hotel, com apoio do governo do estado, e a renda da primeira apresenta\u00e7\u00e3o foi destinada \u00e0s crian\u00e7as do Juizado de Menores. No mesmo ano, a cidade sediou a \u00fanica edi\u00e7\u00e3o do <em>I Festival de Teatro do Nordeste<\/em>, de 29 de julho a 3 de agosto, no Santa Isabel, promovido pelo TUP. O evento foi repleto de atropelos: convidados do Rio e de Alagoas n\u00e3o vieram, palestras foram canceladas, e apenas cinco grupos se apresentaram, entre eles a Com\u00e9dia Cearense e o TEA de Caruaru, com <em>Feira de Caruaru<\/em>, primeiro grande sucesso de Vital Santos. N\u00e3o havia pr\u00eamios, apenas trof\u00e9us de participa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Curiosidades n\u00e3o faltam pelo caminho desse livro que j\u00e1 \u00e9 uma refer\u00eancia sobre teatro no Recife na d\u00e9cada de 1960, com mais de 600 p\u00e1ginas. O pernambucano Aguinaldo Silva, ent\u00e3o com 20 anos, jornalista e cofundador do Teatro de Equipe de Pernambuco, teve a primeira pe\u00e7a, <em>O Estranho Caso do Homem Que Gostava de Mulher<\/em>, montada pelo grupo em outubro de 1963, com dire\u00e7\u00e3o de Cl\u00eanio Wanderley; apesar da forte publicidade, foi um fracasso comercial. Ele se tornaria, d\u00e9cadas depois, um dos autores mais conhecidos da teledramaturgia brasileira. Em 1960, Proc\u00f3pio Ferreira fizera longa temporada no Marrocos com com\u00e9dias ligeiras como <em>Essa Mulher \u00e9 Minha<\/em> e <em>A Fam\u00edlia do Antunes<\/em>.<\/p>\n<p>A capa de <strong><em>Do Picante \u00e0 Pol\u00edtica<\/em><\/strong> resume a aposta do livro: em cima, o glamour do teatro de revista, personificado pela modelo Daise Alves, cuja foto foi gentilmente liberada pelo site <em>Universo Retr\u00f4<\/em>; embaixo, os por\u00f5es da Ditadura. Com design de Claudio Lira, a publica\u00e7\u00e3o estar\u00e1 dispon\u00edvel para download gratuito no site <em>www.leidsonferraz.com.br<\/em> a partir da noite do lan\u00e7amento, na quarta-feira (26 de agosto), \u00e0s 19h, no Teatro Arraial Ariano Suassuna (rua da Aurora, 457, Boa Vista), com entrada franca e proje\u00e7\u00e3o de imagens raras do processo de pesquisa.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-20-at-16.24.42.jpeg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-28124\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-20-at-16.24.42-206x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"206\" height=\"300\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Recife que entrou em 1960 era uma cidade em plena inaugura\u00e7\u00e3o de si mesma. 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