{"id":28115,"date":"2026-08-23T18:55:19","date_gmt":"2026-08-23T21:55:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=28115"},"modified":"2026-08-23T18:55:19","modified_gmt":"2026-08-23T21:55:19","slug":"o-encontro-que-acolhe-acaso-casa-com-mariene-de-castro-e-almerio-por-ivana-moura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/o-encontro-que-acolhe-acaso-casa-com-mariene-de-castro-e-almerio-por-ivana-moura\/","title":{"rendered":"O encontro que acolhe: Acaso Casa, <\/br> com Mariene de Castro e Alm\u00e9rio <\/br> por Ivana Moura"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_28118\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.27.00-e1787519899113.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28118\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28118\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.27.00-e1787519899113.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"797\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28118\" class=\"wp-caption-text\">Alm\u00e9rio&nbsp; e Mariene de Castro no espet\u00e1culo <strong><em>Acaso Casa. <\/em><\/strong>Foto:&nbsp;Dvivulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Com tantas coisas medonhas acontecendo no mundo, e do nosso lado, a busca pela arte pode ser muita coisa: encontrar a beleza, dar sentido ao que anda disperso, sentir felicidade. No s\u00e1bado, 22 de agosto, no Teatro do Parque, no Recife, foi tudo isso ao mesmo tempo, no espet\u00e1culo <strong><em>Acaso Casa<\/em><\/strong>, com Mariene de Castro e Alm\u00e9rio. Por duas horas, o mundo l\u00e1 fora ficou suspenso. Uma viagem que cruza muitas emo\u00e7\u00f5es, saudades, resist\u00eancias, esperan\u00e7as e talentos gigantes.<\/p>\n<p>Para saber mais dessa viagem, \u00e9 preciso voltar no tempo. Mariene de Castro e Alm\u00e9rio se conheceram numa festa, no Rio, na casa do produtor Z\u00e9 Maur\u00edcio Machline, criador do Pr\u00eamio da M\u00fasica Brasileira. A reuni\u00e3o et\u00edlico-musical seguiu noite adentro, improvisando can\u00e7\u00f5es que cada um levou do seu territ\u00f3rio. Ela, de Salvador, da Bahia, das matrizes afro-brasileiras. Ele, do agreste pernambucano, dos aboios do av\u00f4 e das bandas de p\u00edfanos de Caruaru, e de todas as sonoridades que encontrou depois, at\u00e9 achar a sua turma. E ali, entre uma can\u00e7\u00e3o e outra, descobriram que havia entre eles uma liga, de amizade, de afinidade, sei l\u00e1 o qu\u00ea. Uma afetividade para durar.<\/p>\n<p>Dessa afetividade nasceu um espet\u00e1culo, e ele ganhou um nome: <strong><em>Acaso Casa<\/em><\/strong>. As duas palavras parecem se contradizer. O acaso \u00e9 o que escapa \u00e0 casa, o que acontece fora dela, o que n\u00e3o tem endere\u00e7o. Mas talvez a\u00ed more a descoberta. Revelou, sobretudo, que a casa de um podia ser atravessada pela casa do outro. Mariene e Alm\u00e9rio descobriram que j\u00e1 partilhavam uma mesma geografia interior. O sert\u00e3o, o sagrado, a saudade, a terra.<\/p>\n<p>Essa geografia comum virou um projeto, e o projeto ganhou corpo e data. Em 2017, <strong><em>Acaso Casa<\/em><\/strong> estreou num show no Rio de Janeiro. Em 2019, o CD e o DVD foram gravados na Casa do Choro, no Rio, lan\u00e7ados pela Biscoito Fino, e indicados ao Grammy Latino de 2020 na categoria Melhor \u00c1lbum de M\u00fasica de Ra\u00edzes em L\u00edngua Portuguesa. O show foi pensado para circular. Os palcos de largada seriam Recife e Salvador, as cidades dos artistas. Mas ent\u00e3o tudo fechou. Por uma pandemia.<\/p>\n<p>Nesse intervalo, Alm\u00e9rio lan\u00e7ou <em>Tudo \u00e9 amor, Alm\u00e9rio canta Cazuza<\/em>, <em>Alm\u00e9rio e Martins<\/em> e <em>Nesse exato momento<\/em>, este \u00faltimo com participa\u00e7\u00f5es de Maria Beth\u00e2nia e Z\u00e9lia Duncan. Mariene lan\u00e7ou <em>Maria da Can\u00e7\u00e3o<\/em>. As vozes amadureceram. E o repert\u00f3rio cresceu. Can\u00e7\u00f5es como <em>Quero Voc\u00ea<\/em> e <em>Antes do Mundo Acabar<\/em>&nbsp;entraram no show.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo que chegou ao Recife neste agosto de 2026 carrega dentro de si o tempo que passou. A interrup\u00e7\u00e3o, a perda, a espera, o reencontro. H\u00e1 algo de uma m\u00e1gica temporal de camadas nisso tudo. E o p\u00fablico que lota o Teatro do Parque tamb\u00e9m passou pela pandemia, tamb\u00e9m perdeu, tamb\u00e9m sobreviveu. O que se d\u00e1 no palco \u00e9 um encontro vibrante. E esse encontro come\u00e7a nas vozes.<\/p>\n<p>A voz de Mariene \u00e9 grave, um timbre raro&#8230; Dizendo assim, j\u00e1 me vejo entrando na cena de Alm\u00e9rio, me fazendo espelho na m\u00e3o do artista, quando ele canta <em>Sal\u00e3o de Beleza<\/em> pra baiana. Uma liberdade minha, uma proje\u00e7\u00e3o embalada s\u00f3 pela m\u00fasica. De Castro carrega o candombl\u00e9, o samba de roda, o jongo, a Bahia, o Rec\u00f4ncavo. Carrega tamb\u00e9m a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, da menina que dan\u00e7ava bal\u00e9 aos cinco anos no Teatro Castro Alves \u00e0 cantora que, em 2016, embalou a cerim\u00f4nia de encerramento dos Jogos Ol\u00edmpicos do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A voz de Alm\u00e9rio se insurge contra o estere\u00f3tipo. Canta de tudo, forr\u00f3, MPB, e o que vier, mas n\u00e3o se deixa enquadrar em moldura alguma. Canta nas frestas, entre os g\u00eaneros, e gosta de brincar com essa liberdade.<\/p>\n<p>No show, Mariene disse que ele \u00e9 o maior cantor desse pa\u00eds. Tremendo elogio, dito de quem n\u00e3o precisa elogiar ningu\u00e9m. Ele ficou t\u00e3o surpreso que s\u00f3 respondeu algumas m\u00fasicas depois, devolvendo que ela \u00e9 uma das melhores cantoras do mundo.<\/p>\n<div id=\"attachment_28117\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.33.58.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-28117\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28117\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.33.58-e1787520447817.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"334\"><\/a><p id=\"caption-attachment-28117\" class=\"wp-caption-text\">Show caloroso. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Duas vozes protagonistas que se reconhecem. No Teatro do Parque, o que se viu foi o cuidado de cada um com o outro. A eleg\u00e2ncia, o respeito em pequenos gestos, o carinho, o jeito cavalheiro de Alm\u00e9rio. O show foi solar, de muita generosidade, de atmosfera intimista, de solos e duetos.<\/p>\n<p>Alm\u00e9rio faz de cada can\u00e7\u00e3o uma cena. Apresenta personas, dan\u00e7a, e encanta. Mariene mobiliza com a voz e com a for\u00e7a dos gestos, da presen\u00e7a. Juntos, s\u00e3o corpos que se potencializam. Duas subjetividades inteiras.<\/p>\n<p>As can\u00e7\u00f5es que sustentam o espet\u00e1culo formam um mapa. O repert\u00f3rio de <strong><em>Acaso Casa<\/em><\/strong> \u00e9 uma cartografia afetiva, desenhada a partir de duas mem\u00f3rias que se descobrem coincidentes. As can\u00e7\u00f5es de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, <em>Pau de Arara<\/em>, <em>Estrada de Canind\u00e9<\/em>, <em>Respeita Janu\u00e1rio<\/em>, est\u00e3o ali. O mapa \u00e9 grande, e um dos seus territ\u00f3rios \u00e9 o sagrado.<\/p>\n<p>Nesse campo, Chico C\u00e9sar entra. Com duas can\u00e7\u00f5es que formam um pequeno ato de subvers\u00e3o. <em>Perto Demais de Deus<\/em> vem primeiro com Alm\u00e9rio. &#8220;Tem gente que n\u00e3o deixa Deus em paz \/ Essa gente \u00e9 o diabo e faz da vida de Deus um inferno.&#8221; Inverte os pap\u00e9is. N\u00e3o \u00e9 o diabo que amea\u00e7a Deus, mas pessoas, os seres humanos que n\u00e3o O largam, que O tratam como empregado, que transformam a vida divina em inferno. E <em>Deus Me Proteja<\/em>, em dueto. &#8220;Deus me proteja de mim \/ E da maldade de gente boa \/ Da bondade da pessoa ruim.&#8221; Uma prece que ningu\u00e9m \u00e9 t\u00e3o bonzinho assim.<\/p>\n<p><em>Sinh\u00e1<\/em>, de Chico Buarque e Jo\u00e3o Bosco, interpretada por Mariene \u00e9 um momento duro, direto. A can\u00e7\u00e3o traduz as mis\u00e9rias, as barb\u00e1ries da escravatura em muitos n\u00edveis. Um escravizado jura que nunca viu a mo\u00e7a branca, enquanto o tronco e a mutila\u00e7\u00e3o o esperam. \u00c9 uma ferida exposta, cantada sem desvio.<\/p>\n<p>E \u00e9 exatamente depois dela que o teatro vira macumba. Mariene vem com <em>Bemb\u00e9<\/em>. Canta <em>Ponto de Nan\u00e3<\/em>. Divide <em>Canto de Ossanha<\/em> com Alm\u00e9rio. Eu nem me lembro mais da sequ\u00eancia, um bloco muito forte, que n\u00e3o pede licen\u00e7a nem explica\u00e7\u00e3o. Depois de encarar a barb\u00e1rie, a dor se transforma em culto, em celebra\u00e7\u00e3o, em pertencimento.<\/p>\n<p>O repert\u00f3rio envereda por coisas que podem ser escorregadias, o amor, a saudade, a tristeza. <em>Espumas ao Vento<\/em>, de Accioly Neto, um grande sucesso popular. E <em>Choro<\/em>, de F\u00e1bio Jr., consagrada pela banda Lim\u00e3o com Mel, a mesma que destacou <em>Anjo Querubim<\/em> de Petr\u00facio Amorim. Alm\u00e9rio canta <em>Choro<\/em> a maior parte sentado, e troca &#8220;daquela mulher&#8221; por &#8220;daquele rapaz&#8221;, num gesto pequeno e not\u00e1vel.<\/p>\n<p>A ilumina\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo, assinada por Luciana Raposo, \u00e9 pensada como dramaturgia, como elemento narrativo que participa da emo\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo. Os m\u00fasicos aquecem e d\u00e3o sabor da cozinha. Em cena, a dire\u00e7\u00e3o musical de Webster Santos, que tamb\u00e9m toca os viol\u00f5es, com Rubem Fran\u00e7a no viol\u00e3o de 7 cordas, Geo Barbosa na sanfona e F\u00e1bio Cunha e Luan Badar\u00f3 nas percuss\u00f5es.<\/p>\n<p>O p\u00fablico conhece os artistas e suas can\u00e7\u00f5es. Cantam junto os refr\u00f5es que o nordeste inteiro conhece, faz o sil\u00eancio c\u00famplice em outras m\u00fasicas e se instala na plateia a comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao anunciar <em>Antes do Mundo Acabar<\/em>, de Z\u00e9lia Duncan e Christiaan Oyens, Alm\u00e9rio diz que a compositora foi uma das maiores incentivadoras pelo retomada do show <em>Acaso Casa<\/em>. A m\u00fasica, escrita para o pai de Z\u00e9lia que estava doente, faz um apelo ao &nbsp;presente, ao agora. &#8220;Antes do mundo acabar, eu quero ver voc\u00ea.&#8221; Posta num espet\u00e1culo que sobreviveu a uma pandemia, se torna mais que amorosa, anuncia as urg\u00eancias do conv\u00edvio.<\/p>\n<p>\u00c9 um bonito show e cada um deve levar para sua pr\u00f3pria casa algum presente musical.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com tantas coisas medonhas acontecendo no mundo, e do nosso lado, a busca pela arte pode ser muita coisa: encontrar a beleza, dar sentido ao que anda disperso, sentir felicidade. 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